Library / Education / Cartilha Maternal; ou, Arte de Leitura
*Notas de transcrição:*
O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1876.
Mantivemos a grafia usada na edição impressa, tendo sido corrigidos alguns
pequenos erros tipográficos evidentes, que não alteram a leitura do texto,
e que por isso não considerámos necessário assinalá-los.
As «syllabas alternadas a typo liso e lavrado» do livro separam-se por |,
por exemplo au|xi|lia|ri|as
* * * * *
CARTILHA MATERNAL
OU
ARTE DE LEITURA
POR
JOÃO DE DEUS
[Illustration]
Les mères et les institucteurs, voilà
ceux qui jettent dans le monde presque
toutes les semences du bien et du mal.
AMBROISE RENDU (Fils).
_As sementes do bem e do mal, quem
as lança no mundo quasi todas, são as
mães e os mestres._
PORTO
TYP. DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA
62, Rua da Cancella Velha, 62
1876
_Este systema funda-se na lingua viva. Não apresenta os seis ou oito
abecedarios do costume, senão um, do typo mais frequente, e não todo mas
por partes, indo logo combinando esses elementos conhecidos em palavras que
se digam, que se ouçam, que se intendam, que se expliquem; de modo que, em
vez do principiante apurar a paciencia numa repetição banal, se familiarisa
com as letras e os seus valores na leitura animada de palavras
intelligiveis._
_Assim ficamos livres do syllabario, em cuja interminavel serie de
combinações mecanicas não ha penetrar uma idéa!_
_Esses longos exercicios de pura intuição visual constituem uma violencia,
uma amputação moral contraria á natureza. Seis mezes, um anno e mais de
vozes sem sentido basta para imprimir num espirito nascente o sello do
idiotismo._
_Porque razão observamos nós a cada passo nos filhos da indigencia
meramente abandonados á escola da vida uma irradiação moral, uma viveza
rara nos martyres do ensino primario?_
_Ás mães, que do coração professam a religião da adoravel innocencia e até
por instincto sabem que em cerebros tão tenros e mimosos todo o cansaço e
violencia póde deixar vestigios indeleveis, offerecemos neste systema
profundamente prático o meio de evitar a seus filhos o flagello da cartilha
tradicional._
PRIMEIRA LIÇÃO
Consistindo a leitura na combinação das letras, basta ir aprendendo as
letras que se podem ir combinando; o mais é confusão; e não podendo haver
combinação sem vogal, comecemos pelas vogaes (deixando de fóra o ypsilon
para não surprender logo no principio o alumno com duas letras que se leem
do mesmo modo, tendo diverso nome e fórma). Chamemos essas letras pelos
seus nomes, á, é, í, ó, ú, que depois iremos determinando os seus
diversos valores.
a e
i
o u
Estas letras aprendem-se facilmente: representando a quinta parte do
abecedario quanto ao numero, estão fóra de representar a vigesima, quanto
aos embaraços; porque são homogeneas, todas se pronunciam com a bôca
aberta, e filiam-se naturalmente na voz e na memoria. É por isso tambem que
apresentamos todas cinco duma vez.
Ora a verdadeira palavra do homem é a palavra escrita, porque só ella é
immortal. Mas emquanto o ensino da palavra fallada é o encanto de mães e
filhos, o ensino da palavra escrita é o tormento de mestres e discipulos.
Extranha diversidade em coisas tão irmãs!
Deus na sua providencia não o podia determinar assim. Ha-de haver meio
facillimo, grato, universalmente accessivel, de espalhar essa arte, ou
antes faculdade, sem a qual o homem não passa de um selvagem.
Esse meio ou esse methodo não póde ser essencialmente differente do methodo
encantador pelo qual as mães nos ensinam a fallar, que é fallando,
ensinando-nos palavras vivas, que entreteem o espirito, e não letras e
syllabas mortas, como fazem os mestres. Pois apressemo-nos tambem nós a
ensinar palavras; e acharemos a mesma amenidade.
Com aquellas cinco letras já se podem formar quatro palavras muito usuaes,
e que por uma feliz coincidencia se pronunciam todas do mesmo modo, isto é,
carregando na inicial.
Lede-as, e nunca soletreis; que mal sabeis como a soletração confunde o
principiante (quando lhe não deprava o raciocinio com sommas falsas).
Lede-as acompanhando fielmente com o ponteiro a letra que estais
pronunciando; e vereis a facilidade, o gosto e a admiração com que a
criança vos segue e vos imita, reconhecendo em sua consciencia a palavra
retratada no papel.
Convem deixar estabelecida nesta lição, a proposito da ultima palavra ia,
a regra que o a no fim vale â (a fechado, igual ao que tantas vezes
no dia pronunciamos separadamente: a casa, a mesa, etc.), regra que
podemos figurar da fórma seguinte:
~~~a = â
Mas em portuguez as vogaes são quasi tantas como todas as consoantes
juntas. Por isso antes de passar a lêr, podeis lisongear o alumno
mostrando-lhe em qualquer livro ou pagina de boa letra o muito que elle já
sabe. E nesta mesma distracção o acabais de confirmar nesses cinco
elementos que são a alma da escrita e da leitura.
ai
ui
eu i|a
SEGUNDA LIÇÃO
Iniciámos no mecanismo da escrita o principiante com grande e justa
maravilha sua. Elle percebeu, sentiu mais ou menos lucidamente o engenho do
homem, que estudando os sons de que as palavras se compõem, inventou para
cada som um signal, e depois, conforme a palavra consta de taes ou taes
sons, assim na escrita põe taes ou taes signaes!
Mas aqui vem a proposito admirar como esta arte fundada numa base tão
singela tenha sido o martyrio de tantos innocentes e passe ainda na opinião
das multidões por uma sciencia ardua!
É verdade que tal correspondencia não é perfeita; mas essa imperfeição
pouco embaraça os filhos do paiz sendo bem dirigidos. A criança, acostumada
a ler palavras, não lê por exemplo tódo nem môdo; lê tôdo e módo,
como tem dito e ouvido dizer. Assim tambem acha o valor das consoantes
caprichosas.
Vamos agora combinar com as vogaes uma das consoantes mais perfeitas que é
o v; porém não lhe haveis de chamar ú-consoante, que é uma falsidade, e
vai desmentir todas as combinações. Chamai-lhe, como se usa modernamente,
vê, ou ainda melhor, e por ora, chamai-lhe o que elle vale,
simplesmente v... pronunciando sem despegar o beiço inferior dos dentes
de cima, sem vogal, sem voz, o simples sopro aspero e sonoro.
Ensinai a proferil-o; e depois não tendes mais que ir apontando na palavra
successivamente as letras que ides lendo, demorando-vos na pronuncia de
cada uma o tempo que quizerdes, porque essa consoante é tão prolongavel
como as vogaes.
v
vá vai
vi vi|a viu
vi|vi vi|vi|a
vi|veu vi|va
u|va
vi|u|va
TERCEIRA LIÇÃO
Cada um tem as suas traças de facilitar o ensino, e ajudar o principiante
nas difficuldades. Nós temos achado util cobrir e descobrir
alternativamente o v nas palavras vai, via, etc, fazendo ler ora
ai, ora vai e assim o mais, a fim de certificar o principiante do papel
que o v representa na escrita.
Deste ou doutro modo estamos que vos não enfastiou a lição passada, onde
pela primeira vez combinámos vogaes e consoantes. Mas que differença haverá
entre vogal e consoante, e porque iriamos nós ao fim do abecedario buscar o
v para esse primeiro exercicio?
Quando dizemos á, soltamos essa voz da garganta; mas se dissermos má,
soltamos essa voz, despegando os labios; e se dissermos mal, despegamos
os labios ao soltal-a e no fim damos com a lingua no ceu da bôca.
Donde se vê que as palavras se compõem de vozes e tambem duns modos de
começar ou acabar a voz.
As vozes pertencem á garganta, e representam-se nas vogaes; os modos
pertencem aos orgãos mudos, como labios, dentes, lingua etc., e
representam-se nas outras letras.
Vai uma grande differença da voz, ao modo de começar ou acabar a voz; vai
portanto uma grande differença de vogal a consoante.
Mas esses modos, uns consistem num toque ou despego rapido, num simples
movimento, numa funcção instantanea que se póde repetir, mas que se não
póde prolongar, como succede nas seguintes palavras:
_b_o_c_a_d_o _g_o_l_i_lh_a _m_a_n_i_nh_o _pr_e_t_o
(bqd, gl lh, mn nh, pr t).
Outros consistem numa disposição em que a gente póde insistir o tempo que
quizer, como nas seguintes palavras:
_f_a_v_o _s_i_s_o chá _j_a_rr_o
f...v... ç...z... x...j...rr...
Ora quando a voz é modificada com aquelles modos instantaneos, de sua
natureza improlongaveis, a voz e o modo constituem para o principiante uma
somma difficil de reduzir aos seus elementos, e portanto confusa: pelo
contrario quando o modo é prolongavel, o principiante demora-se na voz ou
no modo o tempo que lhe apraz sem falsear a syllaba, sem desfigurar a
palavra; e o papel que a consoante representa na escrita é evidente e
distincto. por exemplo, contando os pontos por momentos, podemos levar
cinco momentos a pronunciar, v.....á, ouvindo-se afinal perfeitamente
vá. O mesmo não acontece em dá, cá, pá, lá, etc.
Logo, por onde haviamos nós de começar, pelas consoantes contínuas ou pelas
consoantes instantaneas? É claro que pelas consoantes contínuas,
prolongaveis, que deixam ao principiante apreciar melhor os elementos da
syllaba.
Ora, dessas consoantes a menos equivoca, ou antes, a inequivoca, a unica
que não tem equivalentes, a mais perfeita em summa, é o v: começámos pelo
v.
Mas em que consiste o v, como se pronuncia o v?
Nós, mesmo com a bôca fechada, podemos fazer uma especie de gemido,
respirando pelo nariz; mas se, em logar de respirar pelo nariz, fazendo
esse gemido, respiramos por entre o labio inferior unido aos dentes de
cima, pronunciamos v...
Este som depende do folego emittido com certa força; sem essa força,
emittindo o simples folego e conservando a mesma posição de labio e dentes,
em logar de v... pronunciamos f...
Ora havendo tanta analogia entre estes dois elementos, sendo o f um v
abafado, soprado, silencioso, passemos do v ao f.
f
fé
fui
fi|a fi|a|va
a|fi|a a|fi|a|va
fa|va
QUARTA LIÇÃO
Os modos de começar e acabar a voz chamam-se ordinariamente inflexões e
articulações, por serem como uns eixos, umas juntas da voz que lhe dão
contorno e melodia. A palavra lampada, por exemplo, é muito airosa; mas
tirando-lhe a parte que nella tomam a lingua, os beiços e os dentes
reduz-se a um vozeio de mudo, monotono e desengraçado: ãââ.
Donde se vê que a voz é como a perola que realça no engaste; e que as
inflexões, intermeando e recortando a voz, apezar da sua obscuridade não
são menos preciosas na palavra que as proprias vozes. Só a voz se canta, só
a voz se alteia e expande, segundo o folego e garganta de cada um, a ponto
de encher um templo, de retumbar no valle do alto da montanha; pelo
contrario as inflexões a poucos passos de distancia somem-se: todavia uma
lingua só de vozes seria uma lingua barbara.
Ora nós já sabemos que as inflexões na escrita se representam pelas
consoantes; mas em logar de haver tantas consoantes como inflexões,
correspondendo a cada inflexão a sua consoante, não succede assim.
Vejamos as inflexões contínuas de quantos modos se escrevem:
f... (fé afflição phoca) f ff ph
v... (vai) v
ç... (suisso ceo aço maximo) s ss c ç x
z... (aza uso existe) z s x
x... (eixo chega ais faz) x ch s z
j... (ja geme osga) j g s
rr... (rua erro rhetorica) r rr rh
Achareis, para representar as sete inflexões continuas, vinte e duas formas
que, descontando repetições, se reduzem a dezeseis; mas, destas dezeseis,
sete teem diversos valores, a saber:
{ c seu { ch eixo { ç ceo
s { z uso x { z existe c { k cai
{ x triste { ç proximo { ... acto
{ j tisna { kç sexo
g { _g_elo ch { x chefe z { z zelo r { e_r_a
{ a_g_ua { k chimica { x fiz { _r_aio
Ora destas formas de valor incerto nenhuma convinha para os primeiros
exercicios. Das outras, uma tem valor certo e exclusivo, que é v: as mais
não teem valor exclusivo mas teem valor certo, que são f, ff, ph, ç, ss, j,
rr, rh; mas embora tenham valor certo, as compostas não seria bom methodo
antecipar ás simples; ç é uma letra anomala; ff comprehende-se em f. Isto
tudo supposto restam v f j.
Começámos pela mais perfeita, v, que maiuscula ou minuscula conserva a
mesma forma, nunca se annulla dobrando-se debalde ou escrevendo-se por amor
da etymologia, tem sempre o mesmo valor e só ella tem esse valor, presta-se
com as vogaes a muitas combinações familiares, e representa uma inflexão
gemida, isto é, duplamente apreciavel ao ouvido do principiante pela
continuidade e pela intensidade.
Do v passámos ao f, pela analogia da pronuncia. Passamos agora ao j.
Os antigos punham o valor da letra no primeiro elemento do nome que lhe
davam; razoavel systema de designações principalmente para as consoantes
instantaneas, que mal se podem proferir em separado sem lhes exagerar o
valor. Jota e xiz são os nomes que temos n'esse genero (preferiveis a
éfe éle, etc. onde a inflexão vem encravada em duas vozes dum modo
obscuro); mas taes nomes constituem excepção, e impõem a necessidade de
fazer distincção entre o nome e o valor, o que o alumno embora perceba
facilmente, não deixa por isso de se embaraçar na prática, porque lhe
occorrem as duas cousas, nome e valor. Aquellas designações antigas
fundadas numa base até certo ponto filosofica, eram nomes geralmente
compostos, verdadeiros nomes, com toda a melodia da lingua, sem aquella
simplicidade d'algumas denominações nossas como bê, dê; por isso peores
de conciliar com a soletração. Ao d, por exemplo, chamavam daleth, ao
a aleph, ao l lamed. Em quantos annos chegaria o desgraçado alumno
a soletrar (claro está, inconscientemente, de memoria, á força de
repetições sem conto) daleth aleph lamed, dal?!
(daleth
aleph
lamed,
Somma... dal)
Em cinco e seis annos como ainda hoje a infancia israelita; com manifesto
prejuizo da sua educação logica.
Mas seria mais irracional essa soletração que por exemplo a nossa cê á,
ká? Não! ao menos alli, dada a chave do enigma, descoberto o segredo,
achavam-se as parcellas da somma, os elementos da syllaba á frente dos tres
nomes das letras. Em cê á, ká, é impossivel perceber donde veio k, a
inflexão guttural que soa na syllaba ká.
Todavia ensina-se assim a ler! Não ensinemos nós a ler assim. Chamemos ao
jota j...
j
já
fu|ja
ve|ja
vi|a|ja vi|a|ja|va
QUINTA LIÇÃO
A leitura, nestas palavras de vogaes e consoantes contínuas, é tão clara,
funda-se em elementos tão distinctos, estão os seus passos por assim dizer
tão bem marcados, a syllaba constitue sempre uma somma tão evidente, que o
principiante, compenetrado da base do systema orthografico e talvez até
exagerando a simplicidade da arte, deve-se a estas horas achar disposto a
receber as outras consoantes, combinando-as com o mesmo conhecimento de
causa.
A experiencia abona esta supposição. É notavel a facilidade e consciencia
com que o alumno, em tão poucas lições, começa a ler as syllabas compostas
de elementos confusos e quasi inseparaveis.
Mas que ordem havemos de seguir na combinação dos novos elementos? Assim
como na lição passada buscámos as formas pelas inflexões, vejamos de
quantas formas se escrevem as doze inflexões instantaneas da nossa lingua
(que foi nossa intenção mnemonisar nas palavras _bocado golilha maninho
preto_; bkd, gl lh, mn nh, pr t):
b (boa abbade) b bb
k (kilo qual chimica) k q ch c
d (addido adhesão) d dd dh
g (aggregado) g gg
l (libello) l ll
lh (ilha) lh
{ ~ a_m_bos
m (meu m { m _m_eu m
{ ... co_m_menda)
{ ~ a_n_da
n (não n { n não n
{ ... a_n_nel)
nh (unha) nh
p (appropriado) p pp
r (ar) r
t (attonito theoria) t tt th
Contando achareis, para representar as doze inflexões instantaneas da nossa
lingua, vinte e duas formas (não escogitando muito, pois por exemplo, gu
para representar g guttural bem se podia considerar uma nova forma).
Destas formas já conheciamos por incertas c, ch, g, r; e conhecemos agora
como taes m, n: ora primeiro se hão de apresentar as certas. As formas lh,
nh, dh, th são compostas; e primeiro se hão de apresentar as simples.
Tiradas incertas e compostas, restam certas mas dobres, isto é, que ás
vezes se dobram inutilmente b, d, l, p, t; certas e simples, isto é, que
nunca se dobram k, q.
Por aqui haviamos de começar, se com o q não se annullasse muitas vezes o
u, o que é absurdo; e se tivessemos palavra usual onde apresentar o k
sem dependencia de letra desconhecida; mas só temos kilo, onde entra l que,
portanto, ha de vir antes.
Mas b, d, p é o mesmo caracter invertido; approximemol-as: d, t, são irmãs
na pronuncia.
Disto resulta que podemos ter por boa ordem a seguinte: t, d, b, p, l, k,
etc.
Vamos ao t. Explicai, se quizerdes, a sua pronuncia ou simplesmente lêde-o
na syllaba: o alumno vos seguirá.
t
tu teu
tu|a ti|a
a|ta a|ta|va
fi|ta fa|ti|a
fa|ti|o|ta
SEXTA LIÇÃO
Quando agrupámos as inflexões contínuas de duas em duas (f...v...,
c...z..., x...j...), quizemos indicar o parentesco de cada par; isto é,
que a primeira se pronuncía como a segunda, na mesma disposição de orgãos,
com a differença que na primeira ha só folego e na segunda ha essa meia voz
a que chamámos gemido.
O j é um x mais forte, um x gemido, vozeado.
Mas ahi bem se explica a differença. Agora as inflexões t e d são mais
do que parentas, são irmãs. Por isso do t passamos naturalmente ao d.
d
di|a
dó doi
dá deu da|da
da|va de|va
vi|da du|ví|da
i|da i|di|o|ta
ju|di|a ju|deu
a|ju|da
fi|a|da a|fi|a|da
SETIMA LIÇÃO
O leitor havia de notar na lição passada a palavra duvída com accento.
Nós temos aos signaes prosodicos uma especie de aversão, chegando os nossos
mais esmerados escritores a não accentuarem muitas vezes até as palavras
equívocas. Mas esse é o facto. Em theoria ninguem sustenta esse exagero.
Donde se segue que podemos, e devemos, por exemplo, escrever sempre
duvída ou dúvida, e nunca simplesmente duvida.
O principio de accentuar só as palavras equívocas é bambo. Tudo é equívoco
para quem não sabe. Nada mais equívoco para um extrangeiro, que as tres
primeiras vogaes de cama casa e cada, identicas na escrita, diversas na
pronuncia (ã, á, â). Todavia nunca se accentuaram. Mas sendo essa a prática
constante, não se devem dar a ler escritas doutro modo. Porém as palavras
equívocas alguns accentuam-nas systematicamente, e muitos, embora sem
especial cuidado, teem occasião de as differençar na escrita. Queremos
dizer com isto que rejeitando e reprovando nas cartilhas uma accentuação
artificial armada a facilitar a leitura, iremos empregando os devidos
signaes nas palavras duvidosas, conforme a razão e os bons exemplos.
É inadmissivel a doutrina de escrever as palavras de maneira que, em
separado, os mesmos portuguezes não saibam o que ellas são.
Mas, voltando ao nosso caminho, vamos ao b, que se profere despegando os
labios, como p, m; e por isso chamam, a estas letras e inflexões,
labiaes.
b
boi
bo|a
a|ba ba|ba
be|ba
ba|ta ba|ti|a
ba|teu ba|ti|da
bo|ta ba|ta|ta
a|ba|ta a|ba|ti|a
a|ba|ti|da
a|ba|fa a|ba|fa|va
a|ba|fa|da
OITAVA LIÇÃO
Na lição passada figurava em boi e boa a letra o com um valor diverso
do que se infere de seu nome. É tempo de admittir essa novidade.
Nós temos julgado inutil dizer que o criterio fundamental da nossa prosodia
é—-ler como se diz: criterio sofistico, que não resiste á analyse mas que
felizmente a criança na sua simplicidade admitte de boamente. A criança
folga de rectificar uma leitura fundada no rigor dos dados, pelo que ouve e
costuma dizer. Um certo instincto prático, um sentimento de utilidade a
leva a achar muito bem fundado aquelle dictame futil. Bói não se diz;
bói não é nada, gostosamente corrige e diz bôi.
E o caso é que emquanto outros, acostumados a syllabas vãs, naturalmente
estropeiam as palavras mais logicamente escritas; o nosso alumno mettido
naquelle caminho prático, e habituado a intender sempre o que lê, tende
naturalmente a dar sentido e alma ás combinações da orthografia mais
duvidosa, achando uma palavra corrente.
Nós reservamos lições especiaes para as grandes variações de valor nas
vogaes; mas ó e ô não differem dum modo muito extranho.
Isto posto passemos ao p que é irmão de b no valor, e tambem se póde
dizer que na figura.
p
pai
pá pó pé
pu|a pi|a pi|pa
pa|pa pa|pa|va
pa|pa|da
pe|ta pa|ta
pa|ta|da
pi|ta pi|ta|da
to|pa
ta|pa ta|pa|va
ta|pa|da
NONA LIÇÃO
Alguns chamam, ao e de saude, mudo. Antes o chamem que o façam, pois se
o fazem não fallam portuguez. O u em guerra é mudo, e na maxima parte das
palavras onde se escreve gue, gui, que, qui: e ainda n'outros casos
como havemos de ver. Porem a vogal e representa sempre voz; e não ha
vozes mudas. Deviam-lhe chamar e grave, que é já frase recebida,
significando baixo, não agudo, que não soa alto, que não soa muito.
Isto supposto, as inflexões instantaneas por onde acabam palavras
portuguezas são l, n, r: exemplo, tal, talisman, ter. Estas
inflexões, parece que todas se proferem despegando a lingua do céo da bôca:
porem, na sua qualidade de instantaneas não teem som proprio, e por isso,
vindo no fim, se despegarmos a lingua durante a emissão da voz, em vez de
ter, diremos tere; em vez de tal, tale, etc.: o que é vicioso.
Ora assim como saud' não é portuguez, tambem o não são taes palavras
acabando em e grave, que a consoante não representa nem a inflexão póde
comprehender.
A respeito do l, uma indicação podeis fazer muito clara e proficua, ao
vosso alumno, e é que deixe a lingua pegada ao céo da bôca. Por um dos
muitos mysterios da palavra, assim se profere elegantemente o l final, ou
posterior á voz.
Não temos apresentado letras dobradas por falta de occasião; não, por
systema. É um facto de observação que o principiante não se embaraça com
isso, como ides ver.
l
li li|a leu lu|a
lu|va lo|ja lu|ta
la|bu|ta bi|to|la
bo|la be|lla
fa|lla fi|ve|lla
lá ó|lá a|lli
vil fel fi|el tal
fa|tal fa|val
pa|úl pa|pel
al|va al|ta
fal|ta vol|ta
pol|pa a|pal|pa
a|pal|pa|de|lla
DECIMA LIÇÃO
Estas notas são escritas ao correr da impressão; e, recebendo agora do
Porto a primeira folha (que em Lisboa nem de graça, como chegámos a
offerecer a um editor notavel, demais a mais poeta e prosador, conseguimos
a publicação desta curiosidade) vemos nessa folha que na segunda lição,
onde se trata da combinação do v com as vogaes, dissemos que vos podieis
demorar na leitura de cada letra sem distincção, por serem todas igualmente
prolongaveis. Assim é: mas esqueceu-nos advertir que haja cuidado em não
separar a inflexão da voz; senão, basta a minima pausa para terdes de as
ajuntar depois, o que vem a dar na mesma que soletrar. A advertencia era
por ventura escusada.
No ensino individual, que é só onde temos experimentado este systema, com
os resultados previstos (em lições manuscritas imitando letra redonda)
costumamo-nos collocar a um canto da mesa, mais o alumno, elle dum lado á
esquerda e nós do outro; pomos-lhe a lição diante convenientemente; e
emquanto, nas primeiras quatro lições, percorremos com o ponteiro pela
parte de cima as letras da palavra, imol-as simultaneamente pronunciando.
Ora como do intervallo das letras naturalmente se abstrahe, nem esse
intervallo é apreciavel na marcha do ponteiro, a palavra afigura-se aos
olhos do principiante como uma pequena escala, cujas notas se vibram na sua
ordem natural.
E o que é a leitura senão a pronúncia successiva dos elementos simples ou
compostos, certos ou incertos da palavra escrita? Por isso é que a leitura
é a verdadeira soletração; porque só na leitura se dá aos caracteres o seu
justo valor.
Ha duas soletrações, a antiga e a moderna. A soletração antiga vai chamando
as letras pelos seus nomes, para apresentar depois, não a somma desses
nomes, mas a somma dos valores dessas letras. Esta soletração é absurda, e
desmoralisa o raciocinio do principiante. Como quereis vós que uma alminha,
ainda com aquella luz tão pura que traz de Deus, entenda que cê, agá,
á, junto, sommado, é xá?!
Isto será ensinar a ler, mas é ao mesmo tempo embrutecer. Ora mil vezes
antes analfabeto que idiota.
Porem esta soletração, que aliás reina em Portugal e seus dominios, está
condemnada. A outra, a soletração moderna que procede por valores, é
incomparavelmente superior; mas ou é inexequivel ou escusada.
Modernamente, como se soletra chá? Deste modo: x', á, xá. Mas se o
alumno sabe, pelo conhecimento das regras ou por intuição, o valor
hypotetico de ch, lê igualmente xá; e se não sabe, não pode soletrar á
moderna. É claro.
Daqui resulta que a soletração é a leitura. Ensinemos as regras; e a
pratica fará o resto.
Segue-se o k, pela ordem estabelecida; e como só o podemos apresentar em
kilo, aproveitemos a occasião de exercitar o principiante no o final,
ensinando-lhe que o o no fim vale u. Explicai-lhe o symbolo, se vos
parecer: a curva ondeada indica as mais letras da palavra acabada em o,
que faltam; as duas parallelas querem dizer vale.
k
ki|lo
~~~o = u
vi|vo vi|u|vo
vi|a|jo ve|jo
fu|jo fa|vo fa|to
a|to ba|to ba|fo
a|ba|fo ba|fi|o
a|ba|lo fa|llo
lu|to la|do li|do
pa|to pa|vi|o
pu|lo pa|pal|vo
bal|do bal|di|o
bo|lo lo|bo lo|do
o|vo to|lo tòl|do
UNDECIMA LIÇÃO
Não tinhamos outra palavra conveniente senão kilo, onde apresentassemos o
k, por ser esta consoante tão perfeita como rara.
Os gregos tinham uma inflexão irmã da que representa em portuguez o k,
mas aspirada; e figuravam-na por certa letra bastante similhante ao k, e
ainda mais similhante ao x.
Os romanos não tinham essa letra; e, como para elle c valia q,
ajuntaram-lhe h para significar aspiração, e nas palavras gregas de
origem, onde havia aquella inflexão guttural, escreviam ch com
justificado motivo.
Mas isso, elles; nós só por imitação servil fazemos o mesmo; porque para
nós nem o c vale q, e sim diversas inflexões; nem o h significa
aspiração, que não ha em portuguez; nem ch tem valor definido. Quanto
mais que em pontos de orthografia grega mais nos devia importar o grego que
o latim; e se ha maneira de falsear aquella excellente orthografia é
escrever dois caracteres representando um valor.
Donde resulta que em taes casos mais logica o etymologicamente se devera
escrever k. Todavia, recebendo esta letra na adopção do systema metrico
uma especie de cunho official, nem as graças do poder lhe valeram a
benevolencia dos sabios: continúa em kilo (significando mil) a ter curso
forçado; mas já em chylo (succo de alimentos digeridos) insistem os
sabios a escrever ch, tendo a palavra igual origem e identica pronuncia.
É uma especie de antipathia, áquelle excellente caracter, que não se póde
attribuir ás suas quatro pernas. A mesma França, que toda se empenha em
disfarçar no apparato scientifico os absurdos da sua orthografia, expulsa o
k de palavras a que elle pertencia par droit de naissance; reserva-o
para os termos arabes; e nos proprios de origem grega escreve ch valendo,
note-se, ora k ora x. Primores da coherencia etymologica!
Mas o alumno espera-nos. Ao k seguia-se o q segundo o nosso plano; mas
já sabemos que esta consoante, embora certa, offerece circumstancias
absurdas: servirá pois de introducção ás consoantes incertas; e vamos
entretanto a outras regras sem excepção, em respeito a vogaes.
Ensinámos na lição passada que o final vale u. Ensinemos agora que ou
vale ô.
Nas provincias do norte diz-se amôu, comprôu; mas em Coimbra, Lisboa e
no mais Portugal não se profere tal ditongo. Escreve-se ou, mas o u é
mudo, e o o soa como em avô.
Este é o facto e, por consequencia, a lei fundada, não diremos na melodia
que é relativa, porem no uso mais autorisado e aliás mais vasto.
Com isto não queremos dizer que em tal ou tal logar, onde reine sem
contradicção aquella variante, o professor se empenhe em arrancar aos seus
discipulos talvez um hábito invencivel. A toada é singularmente ingrata a
ouvidos estranhos e illegítima; porém não é essencial que os filhos do povo
fallem classicamente; o essencial é fazel-os quebrar o circulo da
animalidade e dar-lhes, por meio da leitura e da escrita, o horisonte
infinito do homem. Em parte onde convier, exercitai-os no ditongo.
ou = ô
a|vô
vou a|vi|ou
vi|u|vou vi|a|jou
dou a|tou fi|ou
ba|bou pi|ou
pa|pou a|pu|pou
ta|pou pu|lou
fa|llou a|lli|vi|ou
a|ba|fou ou|vi
ou|vi|a ou|viu
ou|vi|do lou|va
lou|vo lou|vou
pou|pa pou|po
pou|pou
DUODECIMA LIÇÃO
Já na lição passada nos referimos ao ditongo ou, usado nas provincias do
norte, e que bem se póde ter por vicioso. Agora diremos que nas provincias
do sul cerceiam o delicado ditongo ei, dizendo em logar de _lêi lêito dêi
dêitêi_, simples e desengraçadamente lê lêto dê dêtê. Tambem é vulgar
nestas provincias mé pai, té primo; e não menos, jantí andí cantí, em
vez de meu pai, teu primo, jantêi andêi cantêi.
Não imaginamos circumstancias que recommendem ao mestre contemplação alguma
com essas crassas deturpações da lingua. Os mais rudes acceitam a emenda
sem escandalo, e sem surpreza, lembrados duma ou outra pessoa culta que tem
ouvido.
Mas voltando ao êi, objecto especial desta lição, bom é notar que esse
ditongo nem sempre é expresso, mormente na orthografia antiga. Os antigos
escreviam regularmente têa fêo cêa recêo: os modernos escrevem geralmente
mais conforme a pronuncia. Seja como fôr, o estylo da lingua não admitte o
ditongo êo êa; e em taes casos, esteja o i expresso ou não, ha de se
ouvir o ditongo êi antes da voz final.
A razão popular, ainda mais que as academias, tende sempre a racionalisar a
orthografia ajustando-a com a falla; e por isso, como já indicámos, hoje o
mais ordinario é escrever-se feio receio teia aldeia. E ainda bem. Mas o
que parece equívoco da parte dalguns autores é escreverem, por exemplo
grangeiar receiar, porque em certas vozes (do presente do indicativo,
imperativo e conjuntivo) de similhantes verbos soa êi. Sempre ouvimos
dizer cêio e recêio; mas ainda não ouvimos dizer cêiêi e recêiêi. O
i, que o estylo da lingua insinua naquellas vozes, é um accidente do
verbo e não o mesmo verbo na sua forma primitiva. Se as alterações que
soffrem as vogaes durante a conjugação dos verbos devessem figurar no
infinito, não havia modo de os escrever. Escrever, por exemplo; segundo
e, grave; escrevo, segundo e, agudo: velar, e, grave; velo,
e, aberto; vele, e, agudo (o mesmo da primeira syllaba).
E sem fallarmos nos casos em que até as consoantes variam, como nos verbos
acabados em gar e car, aqui se mostra que a lingua portugueza não
guarda nos derivados a prosodia radical, por outra, que não é uma lingua
etymologica, como era a latina: assim como não é uma lingua metrica, com
syllabas longas e breves, como o latim; e assim como não é uma lingua
declinavel, com sete, oito, nove, dez e mais formas do mesmo nome, pronome
ou adjectivo, como havia no latim. Ora não sabemos que traços mais
profundos de divergencia pode separar uma lingua de outra. Em que se fundam
pois os argumentos de analogia com que o pedantismo nos tem sempre querido
impor a orthografia latina? Bem fez a Hispanha que importando-lhe mais os
seus grandes interesses, do que os embaraços do filologo em descobrir a
origem e significação de Cristo escrito sem h, tem hoje a mais perfeita
orthografia do mundo. E nisso se podem fundar boas esperanças da enorme
civilisação que espera aquelle generoso povo, tantos seculos á espessa
sombra da monarchia.
ei = êi
dê lê
dei lei a|tei
pa|pei la|vei
a|ba|lei fei|ta
fei|to fei|ti|o
dei|to dei|tou
dei|tei ba|bei
bei|ja bei|jo
bei|jou bei|jei
dei-a dei-o
vei|a vei|o
fei|a fei|o
lei|a lei|o
pei|a tei|a
DECIMA TERCEIRA LIÇÃO
Não tratamos aqui dos valores da letra e.
Tratamos das vozes similhantes que essa letra representa; que são quatro:
e agudo, que se exprime no proprio nome dessa vogal, é; fechado, de
que fallámos na lição antecedente, dê, dêi; aberto, que não tendo
signal especial em portuguez, muitas vezes figura com o mesmo agudo, por
exemplo, bello, pés: e ha um outro, de todos o menos parecido com o
agudo ou nome da letra, chamado grave, do qual já tivemos occasião de
fallar.
Este e, que mal podemos declarar por escrito, mas que o ouvido distingue
perfeitamente, é frequentissimo no principio, no meio e no fim de palavras;
mas tambem frequentemente mal proferido, e até supprimido, mormente no fim.
Pondo nisso especial cuidado; não deixeis o vosso discipulo dizer fal' em
logar de falle, assim como lhe não deixeis dizer vile em logar de
vil, papele em logar de papel, etc. Basta contar as syllabas, e não o
deixar fazer, de duas, uma; e de uma, duas.
Ha numa linguagem viciosa não sabemos que mostras de má educação ou de
rudeza. Devemo'-nos empenhar o mais possivel em aperfeiçoar o estylo dos
nossos discipulos.
E voltando ao e aberto, que não tem signal especial, cumpre notar que se
encontra nos classicos, muitas vezes, esse e com um accento opposto ao
agudo, desta fórma: prègar, prègador (palavras que precisavam de
especificação, pois ha tambem em portuguez, com e grave, pregar e o
derivado pregador). Não o applicavam os autores, ou pelo menos os
typografos, systematicamente; como faziam a todos os demais signaes; porem
os modernos, em vez de o aproveitar convenientemente, aboliram-no. D'ahi
resulta escrever-se pé e pés, sé e céo, com uma orthografia
excellente para enganar quem lê.
Não se póde confundir o e de pes, plural de pé, com o de péz, cerol
(ou de pé, que é o mesmo): tambem se não póde confundir com o de pê
(nome vulgar da letra p); e muito menos com o e grave.
Temos portanto, não fallando no grave, tres especies de ee bem
accentuados na pronuncia (pès, pé, pê), que de facto se querem
accentuar na escrita; mas, empregando-se nesse intento apenas dois signaes,
por força algum e se havia de confundir com outro.
E assim succede. Quando o autor receia que leiam zelo (verbo), escreve
zélo; e quando receia que leiam zelo (nome), escreve zélo: escreve
sempre o mesmo. E como havia elle de escrever melhor? Escrevendo zêlo
(nome) e zélo (verbo)? Errava em ambos os casos; no primeiro, onde não
soa o e de pê; e no segundo, onde não soa o e de pé. Tomando a
responsabilidade daquella apparente innovação indo aos antigos buscar um
signal desusado? É claramente o melhor recurso. Mas vamos ao nosso e
grave, que é o que mais nos importa.
~~~e
a|ve vi|ve ti|ve
a|te a|ju|de
ta|pe to|pe po|te
pó|de pou|de
bu|le bo|le bo|te
ba|te bo|de bo|fe
bi|fe fo|lle fa|lle
la|ve vol|te
fal|te a|pal|pe
pe|lle pe|de
pe|di pe|diu
pe|llei pe|llou
ve|lei ve|lou
le|vou de|dal
DECIMA QUARTA LIÇÃO
Ao k segue-se a sua irmã na pronuncia e última das consoantes certas, o
q: mas com esta já principiam as grandes inexactidões na escrita e os
equivocos faceis na leitura.
_Não se escreve q sem u; mas esse u, com e, i, quasi nunca se
lê._
É a regra que podemos estabelecer. D'ella podemos tirar o seguinte dictame:
_Visto qúé qúí valer quasi sempre qé qí, lendo-se d'este modo, quasi
sempre se acerta._
Aconselhai o discipulo nesta conformidade; sem embargo de o deixardes ler
uma ou outra palavra como está escrita, para ver que não faz differença
essencial, e que embora leia ficuêi fícue, facilmente percebe o seu
engano, e até se intende o que diz.
O alumno estranha com razão estas anomalias. Em satisfação á sua
intelligencia bom é dizer-lhe (o que temos por certo) que antigamente
lia-se sempre o u depois do q; com o tempo algumas palavras mudaram,
continuando-se todavia a escrever do mesmo modo. Nem haja dúvida em
accrescentar que, se a palavra mudou na pronuncia, devia mudar na escrita;
e que uma vogal que se não lê não se devia escrever.
Se cada letra valesse um elemento da palavra fallada, nada mais facil que
aprender a ler. A lingua portugueza reduz-se a trinta e seis elementos;
para decifrar toda a nossa imprensa, bastaria fixar e distinguir trinta e
seis caracteres. Quem não teria essa capacidade e paciencia?
Infelizmente, á parte os methodos, e a insufficiencia dos mestres que
geralmente nas escolas são os mesmos discipulos, sobejam letras inuteis,
letras dum valor commum, letras de valor múltiplo, combinações quasi
fantasticas: e os proprios signaes, que haviam de marcar o tom da vogal,
d'uns ha falta, d'outros sobra, e n'outros dúvida por desacôrdo nos
autores, e quasi sempre no mesmo autor.
A este respeito diremos que em portuguez temos vogaes nasaes, agudas,
fechadas, abertas e graves; ás quaes por sua ordem correspondem, e
muitas vezes se applicam, os seguintes signaes:
nasal ou til (~) de ordinario supprido por m, n:
m_ã_o, m_en_te, m_in_to, m_on_te, m_un_do;
agudo (´)
m_á_, m_e_u, m_i_a, m_ó_, am_u_o;
circumflexo (^)
_a_mei, am_e_i, ... am_o_u, ...
aberto (`)
... m_è_ta (baliza) ... ... ...
A este signal chamam os francezes grave; e á sua imitação muitos nossos,
mas impropriamente, porque nunca se usou nas vogaes que nós chamamos graves
similhante signal nem outro algum. Essas vogaes são, por exemplo, as
últimas das seguintes palavras:
am_a_, am_e_, ame_i_, am_o_, trib_u_
E aqui chamamos grave o a, que chamámos fechado, a páginas 11.
Veremos a razão disso.
q
que qui = ke ki
fi|que fi|quei
to|que to|quei
a|ta|quei pi|que
a|ta|que pi|quei
du|que lo|que
ba|que ja|que|ta
a|ppli|que
a|ppli|quei
a|que|lle
a|que|lla
a|qui a|qui|llo
qui|e|ta qui|e|to
qual
qua|li|da|de
DECIMA QUINTA LIÇÃO
É evidente que havendo consoantes certas e incertas, n'um methodo, se havia
de começar pelas certas. Ora conhecidas e combinadas pelo nosso discipulo
essas dez consoantes, que na ordem alfabetica são:
b . d f . . j k l . . p q . . t v . .
restam: . c . . g . . . . m n . . r s . . x z
Porem que ordem seguiremos agora? Como vimos a páginas 19 e 23, todas estas
oito são de dois valores, excepto s x, que são de quatro. Ora a última
das certas, em que ficámos, foi q; ao qual se seguem naturalmente c g,
não só porque uma tem um valor identico; e a outra, um valor similhante,
guttural; mas porque ambas igualmente, com e i, offerecem especialidade.
Portanto o logar de c g está marcado. Depois seguir-se-hão m n, que
teem igualmente dois valores? Não convém; ambas essas consoantes servem
muitas vezes de til, o que é duro de explicar; e accresce que n se
combina com h; podendo-nos portanto servir de transição para as fórmas
compostas lh, ph, ch, etc. que devem ser as últimas.
Por outro lado, se advirtirmos que z tem dois valores de s, assim como
s tem tres valores de x; conviremos que estas tres consoantes se devem
succeder. Resta r, que tendo dois valores, as deve preceder.
Logo a ordem mais conveniente é
c g, r, z s x, m n.
Veremos que o h não passa dum accento, quando serve de alguma cousa.
Ora o c tem dous valores; um, sibilante e prolongavel, ç...; outro
instantaneo guttural, q.
Como lhe havemos de chamar? Como o mestre quizer. O discipulo a estas horas
está bem no caso de não confundir o nome com os valores: quanto mais que
não se admittindo solletração, elle é forçado a empregar valores. Por isso
é que já em respeito a k e q deixámos em aberto esse ponto. Todavia é
mais racional que chamemos a essas gutturaes o que valem, q'; isto é,
designal-as pelo seu valor; ou querendo-se-lhes dar nome, derival-o d'esse
valor, e chamar, a uma e outra, qê. Similhantemente, dos valores de c,
deriva o nome cêqe. Embora a experiencia nos mostre a inutilidade dessas
designações formaes, e o methodo aconselhe de preferencia citar-se a letra
pelos simples valores, podemos admittir nomes verdadeiros, que indiquem
as funcções da letra.
Em todo o caso, o essencial é ensinar os valores e as regras. Antes da
lição que segue, deve passar-se, entre mestre e discipulo, este ou
similhante diálogo:
—Que letra é esta?—Cêqe.
—_Porque se chama cêqe?_—Porque vale ç..._ e q._
—Quando vale ç...?—_Em vindo com e, i, ou cedilhado._
—_E em não vindo com e, i, ou cedilhado?_
—_Vale q._
O ç (cedilhado) não confunde o alumno; antes, pela necessidade ou
inutilidade da cedilha, como se póde exemplificar em aço, caco etc.,
lhe ajuda a fixar as alternativas d'esta consoante caprichosa.
c
= ç... ce ci
ce|bo ce|bo|la
ce|do cei|a fa|ce
al|fa|ce foi|ce
ba|ci|a ci|da|de
= q
cá cal cal|do
cal|vo cul|pa
ca|co ca|cei
ca|ce cal|cei
ca|ce|ta|da
ç
a|ço bei|ço bu|ço
ca|ça ca|ba|ça
ca|be|ça co|ça
cal|ça cal|ça|da
DECIMA SEXTA LIÇÃO
Segue-se o g, igualmente de dois valores, como o c, um prolongavel e
outro instantaneo: o prolongavel é j...; e o instantaneo é g',
guttural. D'estes dois valores deriva logicamente o nome jêg'e. Isto
supposto, dialoguemos com o nosso discipulo:
—Que letra é esta?—Jêg'e.
—_Porque se chama jêg'e?_—_Porque vale j... e g'._
—_Quando vale j...?_—_Em vindo com e, i._
—_E quando vale g'?_—_Em não vindo com e, i._
—_Mas ha palavras onde soa g'é, por exemplo malagueta; e ha palavras
onde soa g'i, por exemplo guita._—_Qual é o modo de escrever estas
syllabas?_—_E escrevendo gúé, e escrevendo gúi._
—E, assim, fica bem escrito?—_Não; porque o u não se lê; mas entende-se
bem a palavra._
—_E se tirassemos o u?_—_Era peór; lia-se malajeta, lia-se jita, que
faz mais differença._
Ora os casos em que o u se lê, nestas syllabas gue, gui, são
rarissimos: por isso podemos ensinar a desprezal-o, como fizemos a respeito
de que qui, numa regra similhante:
—_Visto gúé gúí valer quasi sempre g'é g'i, lendo-se d'este modo, quasi
sempre se acerta._
Na lição vai uma excepção, guela.
Mas deixai tambem o discipulo ler uma ou outra palavra como está escrita,
para ver que ainda lendo em rigor, a palavra transparece claramente. Esta
certeza desafronta-o dos equívocos em que póde cair.
Vê-se pois que admittimos nomes de letras, conformando-nos com a opinião
commum, que tendo tudo nome, tambem as letras o devem ter. Embora; e nesta
altura não ha inconveniente para o nosso discipulo: mas seja um nome
adequado, e não um nome falso. Chamando ao c cêqe, e ao g jeg'e (ou
escrevendo como se usa, gêgue), conformamo'-nos com aquelle principio,
com o costume, e satisfazemos, pelo menos, ás mais imperiosas exigencias do
methodo. Comtudo ainda podemos ajustar mais aquellas denominações aos
valores das letras, dizendo ceqe jeg'e, como diriamos duas vezes a
particula de: de Francisco, de Pedro: de de; je-g'e, ce-qe.
Dizia-nos um dia o aio dos principes: bom é o methodo, mas de qualquer
maneira se aprende a ler.
Intendamo'-nos: de qualquer maneira se pode aprender a ler; de facto,
não se aprende de qualquer maneira. Dos senhores de si, poucos são os que
tentam, e quasi todos esses desistem: os outros... que remedio! A questão é
de tempo e de tormento. E essa não é ainda a questão principal.
Todo o estudo involve, afóra a instrucção, educação de espirito; por isso a
geometria passa pela melhor das logicas. E no primeiro de todos os estudos,
quando o espirito está mais ductil e inconciente, como póde um processo
racional, ou insensato, ser indifferente aos habitos da intelligencia?
Voltemos ao nosso caminho. Querendo-se que o discipulo intenda os symbolos,
diz-se-lhe que os tres pontos designam o valor prolongavel: a consoante
simples, ou com apóstrofo, indica o valor instantaneo. É claro.
g
= j... ge gi
ge|bo gei|to
fo|ge ti|ge|la
vi|gi|a co|llé|gio
= g' gue gui = g'e g'i
jo|gue pa|gue
fol|gue ce|gue
gui|a gui|ta
a|lu|guel gu|e|la
ga|go á|gua
e|gua i|gual
ga|llo gal|go
gol|pe pul|ga
ce|go a|cel|ga
gi|ga ga|gue|ja
DECIMA SETIMA LIÇÃO
Vamos ao r, terceira das consoantes incertas e, como as duas primeiras
c g, igualmente de dois valores, um prolongavel e outro instantaneo.
Ponhamos em diálogo a doutrina:
—Que letra é esta?—Rêr.
—_Porque se chama rêr?_—_Porque vale rr... e r'._
—_Quando vale rr...?_—Em vindo no princípio ou dobrado.
—_E em não vindo no princípio, ou dobrado, o que vale, ou como se
lê?_—R'.
Não é necessario trazer para aqui as vogaes, como se costuma: isso impõe ao
principiante uma distincção inutil, porque tanto vale o r entre vogaes,
como entre vogal e consoante. Escusa tambem ensinar as excepções ao
discipulo: como o r, se profere tocando a lingua no ceo da boca, e o
rr... consiste na repetição desse toque (gemendo ou vozeando ao mesmo
tempo), a affinidade desses dois valores, e o mesmo estylo da lingua leva o
discipulo a reforçar a inflexão, quando lhe destoa proferida simplesmente.
Difficuldade acharia elle em o não fazer, por exemplo, em carne e
melro, ou vice versa em tenro e arlequim: pois antes ou depois de
l, o r é guttural. E o mesmo podemos dizer a respeito de n; mas
advertindo que, por exemplo em tenro, não é necessario que o n sôe como
letra (ou inflexão); basta representar de til.
Estas observações dirigem-se ao mestre: e ainda ao mestre, á excepção de
alguma indicação prática, o mais que deixamos nestas notas não merece
especial reparo; nomeadamente as razões de ordem. Chamando a isto methodo,
cabe-nos mostrar que o é; mas para fazer breve e commoda jornada por uma
estrada recta e plana, não é necessario saber como a traçaram e
construiram.
O r guttural é inflexão instantanea porque se reduz em última anályse a
um toque de lingua no ceo da bôca; é inflexão prolongavel porque se forma
repetindo esse toque indeterminadamente; e é voz porque o gemido (como lhe
temos chamado) com que proferimos v, z, j, e de que igualmente
depende o r guttural, não é senão o fôlego elevado ao grau de vibração,
ao grau de voz. Propriamente fallando, a voz só se emitte de bôca mais ou
menos aberta, e sem intervenção sensivel dos orgãos mudos. Mas á parte esta
intervenção e a propriedade do termo, n'aquellas quatro inflexões ha voz.
Tanto assim que bem podemos esboçar distinctamente qualquer melodia,
modulando-a n'alguma das inflexões v, z, j, r...
Estas são verdadeiramente as letras semi-vogaes: não—aquellas cujo nome
começa e acaba por vogal. O que terá o nome com a cousa!
A letra r, pela sua frequencia e pelos seus accidentes de posição e
número, merece uma lição com consoantes certas, e outra com consoantes
incertas. Em seguida daremos, para desfastio do alumno, um pequeno diálogo.
Se o mestre não julgar inutil este exercicio, applique ás palavras a,
o, a regra do a, o, finaes; e diga que o e simples lê-se i. O
alumno reconhece as maiusculas, e a pontuação não o embaraça. Appliquem-se
as regras conhecidas.
r
rei ru|a rai|o
rai|va ri|jo ra|to
fe|rro ja|rro
te|rra bu|rro
i|ra va|ra fe|ra
fu|ro ju|ra pu|ro
ar ir vir for
flor dar ver
ver|de per|da
par|do per|to
pre|to pra|to
bru|to po|bre
i|rar vi|rar
va|rrer fe|rrar
ra|ro re|ti|ro
rir ro|er ra|tar
re|par|tir
re|ci|bo re|cei|o
ri|co ró|ca ru|ço
ca|rro ga|rra|fa
ga|rra gue|rra
ce|ra ce|rol
ca|ra ca|ra|col
cor|da a|çor|da
ge|ral gô|ro
a|go|ra a|gou|ro
cer|to car|ta
gar|fo gri|to
gri|tar có|rar
ce|ar re|ce|ber
re|ge|dor ro|gar
ce|rrar co|rrer
a|ga|rrar go|rar
ca|rre|gar
re|cor|dar
—Ó Pe|dro, que é do li|vro de ca|pa ver|de, que te deu o a|vô?
—Já o dei ao Jor|ge a guar|dar.
—Vai lá pe|dil|-o.
—Pa|ra quê?
—Pa|ra a ti|a Car|lo|ta ver a gra|vu|ra do ca|ça|dor.
—Ou|ve cá: a pobre da Cla|ra i|a a|brir a por|ta do quar|to, ca|íu,
que|brou a ga|rra|fa do pe|tró|leo, e fi|cou fe|ri|da. Vou a|go|ra á
bo|ti|ca; le|vo a|qui a re|cei|ta: á tar|de lo|go fa|llo ao Jor|ge, e di|go
que t'o dê.
—Pa|la|vra?
—Pa|la|vra, Ju|lio, fi|ca cer|to.
—Vê lá, cui|da|do!
DECIMA OITAVA LIÇÃO
Ao r segue-se o z, embora esta consoante seja mais simples: porque o
r dobra-se, e tambem se combina com outras consoantes; o que não succede
ao z: mas as razões de analogia não são menos attendiveis que as de
simplicidade.
O r tem dois valores que se reduzem a uma fórmula bastante simples (_no
princípio_ e dobrado, rr). O x tem quatro valores, que se esquivam a
regra. É portanto claro que o r devia preceder ao x; mas devendo preceder
ao x, devia preceder aos caracteres a que o x está associado por
identidade de valores.
Na verdade, em zaz vê-se que z vale z x
Em sisudos vê-se que s vale ç z x
Em sexo auxilio exilio xale vê-se que x vale kç ç z x
Valem todas tres z, x; duas valem mais ç; e uma vale ainda mais kç.
É como uma escada de tres degraus que o methodo, que é todo escada, não
podia desmanchar.
Por isso a todas tres precede o r; e agora ao r, segue-se a mais
simples das tres.
A theoria relativa ao z, encerra-se nas seguintes perguntas e respostas:
—Que letra é esta?—Zêxe.
—Porque se chama zêxe?—Porque vale z... e x...
—Quando vale z...?—Em não vindo no fim.
—E quando vale x...?—Em vindo no fim.
Isto é o bastante.
O discipulo está agora atravessando um terreno escabroso. Por maiór
circumspecção com que vamos guiando os seus passos, não o livramos de caír:
salvo tecendo-lhe de proposito lições faceis, e desviando-lhe tropeços; mas
então o resultado seria um progresso illusorio.
Vistes nas lições do r como por uma escala de combinações chegámos a
accumular dentro da mesma palavra muitas dúvidas. Assim convem preparar o
discipulo para a leitura usual e prática onde, a cada linha, encontra essas
accumulações. A amenidade do methodo não póde levar-se até á esterilidade.
Se as lições agora são mais embaraçadas, vá o alumno ensaiando a sua
reflexão. Adiante da palavra mais duvidosa, está a prevenção da regra e a
advertencia do mestre.
O magisterio é de sua natureza offício de abnegação e de paciencia. O
mestre que se ira corrompe o coração do alumno. E se o alumno, pela sua
tenra idade, é incapaz de aprender regras e de as applicar, então a sua
presença na escola apenas attesta a ignorancia dos paes e a incuria da
autoridade. Até aos sete e oito annos de idade todos andamos numa fervorosa
elaboração corporal, que só reclama alimento, movimento e somno; assim como
andamos nesse profundo e immenso estudo da lingua, e nessa insaciavel
investigação do mundo exterior, que absorve totalmente a faisca mais
brilhante que possa alumiar uma cabeça infantil. Complicar esse duplo
movimento quasi vertiginoso com o ensino primario—leitura, escrita e
contas—passa de absurdo a cruel.
Como os valores do z são novos, só podemos indicar nos symbolos em que
logar o apresentamos.
z~~~z~~~ z
ze|lei ze|lou
ze|lar a|zi|a
a|zul a|zei|te
a|ze|dar va|zi|a
lu|ziu lu|zir
fa|zer ja|zer
ja|zi|a ja|zi|go
a|zar a|zou|gu|e
~~~z
az faz fiz
fez vez jaz
ju|iz luz diz
puz pôz paz
ca|paz la|puz
quiz giz gaz
a|rroz re|troz
ra|paz fe|roz
traz cruz zaz
DECIMA NONA LIÇÃO
Vamos ao s, quinta das consoantes incertas, e segundo degrau da escada,
de que fallámos na lição passada.
Esta consoante é frequentissima: nella acabam metade das vozes dos nossos
verbos, todos os nossos pluraes de nomes, pronomes, participios, e de quasi
todos os adjectivos; não fallando nos infinitos casos em que figura no
principio e meio de palavra, já antes, já depois de vogal; e tambem antes e
depois de consoante, como em sciencia e psalmo.
Póde-se estabelecer a regra que o s no fim de palavra ou syllaba, vale
x...; por exemplo, custas. Mas cumpre advertir que isto, sendo
geralmente verdadeiro, não é exacto; porque o s (assim como z e x
finaes), vindo no fim de palavra á qual se siga immediatamente vogal, vale
z...; por exemplo, os olhos, que se lê como se estivesse escrito
_o_z_olhos_; e seguindo-se-lhe immediatamente consoante, que não seja ç,
f, p, q, t (ou equivalente de ç e q), então vale j; por
exemplo as vozes, que lemos como se estivesse escrito _a_j_ vozes_.
Mas estas advertencias são puramente theoricas ou antes, escusadas no
ensino; pois não se trata de ensinar a ler a estrangeiros, e sim a
portuguezes mais ou menos práticos na lingua. Pela nossa parte não
costumamos prevenir os nossos discipulos, para a lição do s, com mais
doutrina que a contida no seguinte diálogo:
—Que letra é esta?—Sezêxe.
—_Porque se chama sezêxe?_—Porque vale ç... z... x...
—Quando vale ç...?—No princípio e dobrado.
—_Quando vale z...?_—Entre vogaes.
—_E quando vale x...?_—No fim de palavra ou de syllaba.
Com este pouco temos o bastante para o nosso discipulo acertar as mais das
vezes, e senão, para o convencermos de que desmentiu a regra, o que em
geral nos é tão agradavel como se a observasse, pois nos dá occasião de o
fazermos raciocinar.
Por exemplo, trata-se da palavra uso, que o discipulo lê uço. Em logar
de emendarmos sem mais explicações, preferimos questionar.
—Que consoante é essa?—Sezêxe.—Quando vale ç?—No princípio e
dobrado.—Está no princípio ou dobrado?—Não.—Portanto não é uço.
E quando vale z?—Entre vogaes.—Está entre vogaes?—Está.
E o discipulo lê uzo.
Syllaba é a palavra ou parte da palavra que se diz duma vez, n'um tempo.
É, sé, seu, seus, são quatro syllabas, embora mais compostas umas
que outras. Qual quer são duas syllabas, que podem formar duas palavras;
e tambem, só uma. O discipulo adquire práticamente, pelas nossas lições de
syllabas alternadas a typo liso e lavrado, uma idéa mais clara de syllaba,
do que é facil dar-lhe por definições.
Quanto a vogaes, é melhor fazer-lh'as conhecer pelo valor, exemplificando e
comparando, do que simplesmente pelo nome e de memoria.
s
só sa|fa sil|va
pa|sso to|sse
li|so qua|si
bois di|as teus
sou|be|sse
de|su|sa|dos
sós seus su|as
si|so si|su|dos
is|to es|te es|ta
es|tá es|te|ve
vis|to ves|tes
fos|te jus|to
pos|tas bas|ta
pas|tas pes|te
les|te lis|tas
val|sa sal|sa
fal|sos pul|so
so|cio su|cia
ca|so a|ce|sa
fa|ces cis|co
se|ge si|go
se|guir gu|lo|so
gui|sa|dos
so|gro gro|ssa
so|ce|ga|sses
per|se|gui|sses
ser sa|ír sor|te
a|ssar ru|sso
ri|sses ri|sa|da
ro|sa ri|so ra|so
ru|sso gro|ssos
gri|tos gor|dos
sa|gaz fi|ze|sse
zur|zi|sses
rê|zes lu|zi|sse
VIGESIMA LIÇÃO
Assim como do z passámos ao s, que contem os dois valores do z;
passamos agora do s ao x, que contém os tres valores do s.
Estes valores, a que alludimos, são ç... z... x... Porque é verdade
que a paginas 19 attribuímos ao s tambem o valor de j...; mas este
valor, embora no s se observe muito mais frequentemente, é accidente que
soffrem as tres irmãs z, s, x, e não particularidade do s.
Expliquemo-nos.
Se lermos e escutarmos as seguintes frases:
_fa_z a_gua_, _fa_z p_onto_, _fa_z d_amno_;
_a_s a_guas_, _a_s p_ontes_, _a_s d_amas_;
_cali_x a_ntigo_, _cali_x p_rateado_, _cali_x d_ourado_:
ver-se-á que z, s, x de faz, as, calix valem, primeiro,
igualmente z...; segundo, igualmente x...; terceiro, igualmente j...
Examinai e vereis que z, s, x, lendo-se immediatamente antes de
vogal, valem z...; e immediatamente antes de ç, f, p, q, t (ou
equivalentes), j...: nos outros casos, x...
Porém como todos observam isto inconscientemente, e o mesmo ouvido se
encarrega de guiar o alumno, é escusado dar taes regras.
Abstrahindo pois daquelle valor commum e tão accidental, j..., podemos
sem rigorosa mas com bastante verdade chamar áquellas consoantes zêxe,
sezêxe, kcecezêxe. Taes nomes designam os valores das letras, e são
portanto definições, verdadeiros nomes, verdadeiros e mnemonicos, isto é,
bons de fixar pela identidade e gradação de elementos.
O nosso systema não se funda nos nomes das letras: os faceis e notaveis
resultados que elle tem dado em nossas mãos, e nas do editor, e que
igualmente promette nas de outrem não dependem destas particularidades: mas
é a razão que as dicta, e o methodo que as aconselha.
Xiz é um nome apenas insufficiente, não falso nem disparatado; porque do
modo que o dizemos (xix...), principiando e acabando na inflexão x...,
até se podia considerar symbolico; pois em princípio e fim de palavra,
salvo o que deixamos dito, o x vale x... Mas que é dos outros valores?
O nome não os indica; e não ha razões de preferencia: nem ha conveniencia
alguma em obrigar o principiante a ir buscal-os a explicações avulsas,
podendo-os achar no proprio nome da letra.
Vamos ás perguntas e respostas do costume:
—Como se chama esta letra?—Kcecezêxe.
—Porque se chama Kcecezêxe?—Porque vale kç... ç... z... x...
—Quando vale kç... ç... z...?—Não ha regra.
—E quando vale x...?—No princípio e fim de palavra.
Este mesmo valor já sabemos quanto é accidental no fim; e tambem não é
certo no princípio. Parece pois que muito de proposito escolheram os
mathematicos o x para symbolo da incognita... Mas ahi tendes mais uma
razão para lhe darmos um nome que offereça por assim dizer, á escolha do
principiante valores tão diversos e tão incertos.
x
= kç
fi|xo fi|xa fi|xar
flu|xo de|flu|xo
re|fle|xo se|xo
= ç
au|xi|li|as|te
au|xi|li|ari|as
au|xi|li|a|sses
= z~~~
exis|te e|xis|tir
e|xer|ci|ta|rás
e|xer|ci|ta|sses
e|xer|ce|sses
e|xa|cto
= ~~~z
xa|le lu|xo
bai|xo dei|xar
be|xi|go|sas
ei|xos sei|xos
sex|ta ca|lix
ex|pre|ssar
VIGESIMA PRIMEIRA LIÇÃO
Das oito consoantes incertas faltam-nos duas, m, n: mas como estas
servem tantas ou mais vezes de til que de letras, é chegado o tempo de
fallarmos das vogaes nasaes. Ha cinco especies de vogaes: agudas,
fechadas, abertas, graves, e nasaes.
Agudas são as que se proferem como se chamam á, é, í, ó, ú; ás
quaes muitas vezes se applica e muitas mais se deixa de applicar aquelle
traço obliquo da direita para a esquerda chamado tambem accento agudo.
Abaixo, por assim dizer, um ponto em força e clareza estão as fechadas,
que se proferem com a bôca um pouco menos aberta.
O signal destas é o chamado impropria e alatinadamente circumflexo, que a
maxima parte das vezes se omitte, mas algumas se emprega onde era
necessario como em dê; onde convinha como em rôgo; onde era
desnecessario como em flôr (porque or final vale geralmente ôr, e
portanto bastava accentuar as excepções como maiór, peór); e tambem
modernamente em palavras, onde não convinha, como vêmos, louvâmos, que
em estylo culto e desaffectado se lêem nasalando as vogaes e, a; ás
quaes portanto mais competia til que accento circumflexo.
É de notar que não ha u nem i fechado; porque o ouvido não distingue
voz abaixo de u; nem differença de tom, e só de fôrça, dum i a outro
i, como em cai e caí.
Aberta, ha só uma vogal assim chamada, o e, de que fallamos a paginas
49.
Graves são as vogaes que se proferem mais suavemente, como as ultimas de
ama, ame, amei, amo, tribu; onde, se comparardes, vereis que o
e u se confundem para o ouvido.
Quasi o mesmo succede entre a fechado e a grave, que só differem na
fôrça; como por exemplo em câda. Mas attendendo a que esta differença é
quasi inapreciavel, e devendo ser o tom a base desta classificação,
póde-se estabelecer que ha só tres vozes graves, e, i, u,
representadas em quatro vogaes, e, i, o, u; valendo estas duas
últimas o mesmo.
Nasaes são as que se proferem, não asperamente fanhosas, como se
tivessemos o nariz tapado ou as fizessemos eccoar nas fossas nasaes; mas
dirigindo o fôlego como que ao ceo da bôca; podendo-se neste sentido chamar
igualmente, e por ventura melhor, palataes.
Resumindo: todas as vogaes podem ser nasaes e todas podem ser agudas.
Graves ha quatro e, i, o, u, representando tres vozes graves e,
i, u. Fechadas ha tres, â, ê, ô. Aberta ha só uma, è.
As nasaes assignalam-se com ~, m, n. Hoje só é applicado o til a duas,
a, o; mas a todas se encontra applicado frequentemente nas edições
antigas.
Limitemos a nossa questão ao til.
—Como se chama este signal?—Til.
—De que serve?—De indicar voz nasal.
—Á, é, í, ó, ú são vozes nasaes?—São vozes puras.
—Como são nasaes?—Ã, ẽ, ĩ, õ, ũ.
Puras são todas as vozes não nasaladas, isto é, todas as agudas,
fechadas, abertas e graves.
ã
ẽ ĩ õ
ũ
vã lã rã sã
são pão dão
ve|rão se|rão
cão co|ra|ção
ra|zão car|vão
se|zão grão
grãos sãos
cães ca|pi|tães
sa|cris|tães
põi dis|põis
pa|vões fei|jões
fei|ções a|cções
ra|tões ra|zões
va|rões ba|rões
la|drão ra|ções
VIGESIMA SEGUNDA LIÇÃO
Estamos chegados á penultima das consoantes incertas, que é o m. Este
caracter umas vezes é letra, outras vezes signal nasal, outras vezes nem
uma cousa nem outra; e podemos accrescentar que outras vezes é ambas as
cousas.
Quando é letra representa um despego de labios similhantissimo aos que
representam b, p; como por exemplo em
mal, mel, mil, mola, mula.
É impossivel começar a ler estas palavras sem ser de bôca fechada. Os
labios despegam-se á primeira voz; vindo portanto o m a representar um
facto puramente mecanico, por si só inapreciavel ao ouvido. Não é isto
particularidade do m, mas qualidade geral de todas as letras que valem
inflexões instantaneas.
O m representa esta inflexão labial em tendo vogal adiante.
Quando é signal nasal, vale para a vogal antecedente o mesmo que til. Tanto
importa para a leitura escrever:
_am_bos, _em_bora, _im_par, _om_bria, _um_bral;
como _ãbos ẽbora ĩpar õbria ũ_bral:
com a differença que esta orthografia era melhor, mais exacta e, por
consequencia, mais elegante.
Por economia de espaço, e conveniencias typograficas, talvez mais que por
espirito reformador duma orthografia incoherente, acha-se o til empregado
nas edições antigas, frequentissimamente, onde agora pomos m ou n. Em
boa hora volte e seja universalmente recebida aquella substituição. Mas os
antigos, que escreviam (tambem mais logicamente) por exemplo amárão;
querendo differençar o ão dominante do grave, á falta de signaes
convenientes escreviam amaráõ, desvirtuando assim ao mesmo tempo os dois
signaes agudo e nasal; pois nem o a é agudo, nem o o nasal. Daqui e,
provavelmente ainda mais, da costumeira de solletrar á, ó, til, ão;
parecendo ao principiante (e talvez ao mestre) que o til pertence ao o;
resulta vermos até na capital grandes letreiros: Salaõ, _Repartiçaõ de
Instrucçaõ_ etc. (o que diga-se a verdade não é muito airoso para o
pintor).
O m tem sempre este valor nasal quando se lhe não segue vogal.
Mas ás vezes não tem valor nenhum, e só se escreve por divisa etymologica,
como por exemplo em
_co_m_menda_, _co_m_missão_, _conde_m_nado,_
que se lêem exactamente como se escrevessemos comenda comissão
condenado.
Estas taes divisas etymologicas, ou estas taes etymologias teem o grande
inconveniente de fazer da escrita um privilégio, que nenhum homem liberal
supporta sem repugnancia, etc. E ainda se os partidarios
[ilegível............]! Mas elles não se entendem uns aos outros, e nem a
si mesmos se entendem. Devia acabar esta affectação ridicula.
Continuando, não podemos dizer que mm estão no caso de bb, cc, dd,
ff, gg, etc., que valem sempre assim dobradas o mesmo que simples:
porque é tão commum o primeiro m não valer nada como valer de til: por
exemplo:
_s_omm_a, g_omm_a, _emm_alar, _emm_assar_
equivale a sõm_a, g_õm_a, _ẽm_alar, _ẽm_assar_:
vingando aqui a regra, que m sem vogal adiante vale de til.
Tambem o am final se póde dizer que não offerece nada de extraordinario
quanto ao m. Ahi o m vale til; é regular: a forma orthografica sim que
é viciosa; porque escrevemos ã para lermos ão. Nem o a nem o m
podem representar o u que soa na leitura. É uma convenção caprichosa, e
pouco sustentavel.
Antigamente dizia-se, por exemplo, amárũ; depois, com o correr dos
tempos, amárõ; depois, amárã. Foi-se a musica da lingua, por assim
dizer, aclarando. Hoje ainda muito povo diz amárõ, fállõ; mas o estylo
correcto e literario é amárão, fállão.
Nisto devem os mestres não poupar insistencias, porque o tal õ é
repugnante. E dizemos: não poupar insistencias, porque é necessario
insistir: a maior parte dos alumnos teem esse vício muito arraigado. Mas
quem diz cão, póde dizer fícão: seja a syllaba grave ou dominante, a
pronuncia é organicamente a mesma.
Tempo houve que geralmente se escrevia ão no fim. Depois, talvez para
evitar equivocos, e poupar accentos (no que sempre nos temos mostrado
singularmente economicos), em vez de se progredir empregando, e até
inventando os signaes necessarios a bem duma orthografia exacta,
retrogradou-se. Quasi todos escrevem actualmente amam, fallam,
quizeram, etc.
A dizer a verdade a boa orthografia não depende tanto da logica dos
caracteres como da generalidade das regras; e se am final vale sempre o
mesmo, embora mal represente o que vale, passe a incoherencia. Melhor
orthografia é fállão, fallárão, fallarão, etc. Mas por exemplo
pensão é equivoco; e escrever pénsão, não é logico; porque não temos na
palavra e agudo. A falta dum signal para a vogal dominante, é uma razão a
favor do am final: todavia, razão que pouco pode aproveitar aos que
seguem (como nós aqui) a orthografia em am; pois escrevem sem escrupulo
provém, contém e até porém. Logo que dúvida podiam ter em escrever
pénsão, péndão, mándão, etc.? Melhor seria.
Mas dissemos nós que o m vale ás vezes de letra e de til. De facto
acha-se uma especie de influencia nasal retroactiva no m (assim como no
n). Nós lemos ama, temo, lima, Roma, uma, como se estivesse
escrito ãma, tẽmo, lĩma, Rõma, ũma. Amamos, amemos;
fazemos, façamos; vestimos, vistamos; pomos, ponhamos; nestas e
outras vozes similhantes dá-se tambem o caso de nasalarmos a penultima
vogal, sem til nem m que lhe pertença.
Mas destas e outras que taes advertencias não precisa o alumno. E
limitando-nos ao que importa, na forma costumada:
—Como se chama esta letra?—Metíl.
—_Porque se chama metíl?_—_Porque umas vezes vale m', outras vezes vale
de til._
—_Quando vale m'?_—Com vogal adiante.
—_E quando vale de til?_—Com vogal atraz.
—Portanto, com a, e, i, o, u atraz, como se lê?—Ã, ẽ, ĩ, õ, ũ.
—Tambem se lê ã no fim de palavra?—No fim de palavra não se lê ã_;
accrescenta-se u; lê-se ão._
m
meu u|mas
mãos li|mões
mo|ças co|mer
a|mi|gas ge|mer
mo|rrer mães
ma|çãs ir|mãos
quei|ma|du|ras
ro|mãs me|xer
am = ~
em im om
um
vim fim sim
a|ssim al|gum
al|guem a|tum
em|fim quem
tam|bem som
com Jo|a|quim
ri|em lim|pem
je|ju|em to|mem
a|fi|em tre|mem
cai|em co|mem
ar|dem fu|mem
te|mem lê|em
com|pa|ra|rem
em|ma|ssa|rem
em|ma|la|rão
~~~am = ão
i|am dur|mam
a|mam te|mam
fi|cam ras|pam
le|vam pu|xam
vi|am zur|zi|am
to|cam ar|mam
li|gam su|mam
em|ma|gre|çam
com|pli|ca|ri|am
VIGESIMA TERCEIRA LIÇÃO
Chegámos finalmente ao n, última das consoantes incertas, que á
similhança do m umas vezes é letra, representando inflexão; outras vezes
é simples signal nasal, valendo de til; outras vezes nem representa
inflexão nem vale de til; outras vezes vale de til e representa inflexão; e
ainda outras vezes, accentuado ou carregado com o h, vale a inflexão
conhecida, de que havemos de tratar.
Propriamente um caracter só é letra quando representa um elemento mais ou
menos distincto da palavra fallada. Ninguem diz que vã se escreve com
tres letras, porque nem a anályse nem o ouvido distinguem senão duas partes
nessa palavra. Ora se em vã ha só duas letras, tambem ha só duas letras
em van. Se chamamos letra a este último caracter, é referindo-nos ao
papel que elle muitas vezes representa, e para não estarmos com explicações
e rigores desnecessarios: mas fallando com exactidão, aqui o n não passa
dum signal.
Quando é letra profere-se pegando a lingua ao ceo da bôca: pegando-se ou
despegando-se; estes termos são geralmente reciprocos no valor fysiologico
das letras; para se despegar, tem de se pegar. Mas se merecesse a pena
levar a anályse a uma certa altura, diriamos que mais consiste aquella
inflexão no apego que no despego, pois como se póde observar em iman,
pollen, talisman, em summa nas palavras onde o n final vale inflexão,
este n profere-se perfeitamente deixando a lingua pegada ao ceo da bôca:
o mesmo que dissemos do l, ao qual, apezar da differença para o ouvido,
se assemelha muito na pronuncia.
Por isso bom é recommendar ao alumno, na leitura do n final, o que
dissemos a respeito do l.
Este n final valendo inflexão (e sempre tambem de til, pela influencia
nasal retroactiva, que indicámos a respeito do m) é raro. Poucas são as
palavras que assim acabam. E é só nessas palavras que a ortografia moderna
o admitte. Caiu em desuso escrever van, lan, manhan. O n final
valendo de til, foi com razão substituido pelo til.
Nesta qualidade de til, o mesmo que dissemos do m lhe é applicavel.
Nasala a vogal anterior quando não tem vogal adiante, dando-se tambem casos
excepcionaes como succede com o m, porém esta é a regra. Nós lemos:
_an_da, _en_te, _in_do, _on_da, _un_to, do mesmo modo que: _ãda, ẽ_te,
_ĩdo, õda, ũ_to.
Como letra, nasalando ao mesmo tempo a vogal anterior, temos milhares de
exemplos: todos lemos: u_fa_no, _pe_na, _ti_na, _to_na, _pu_na, como se
estivesse escrito u_fã_no, _pẽ_na, _tĩ_na, _tõ_na, _pũ_na.
Escrito só por etymologia, tambem não escaceiam exemplos. Em annel,
anniversario, annunciar, etc., o primeiro n não tem nenhum valor.
Resumindo esta doutrina ao nosso discipulo:
—Que letra é esta?—Netil.
—Porque se chama netil?—Porque umas vezes vale n', _outras vezes vale
de_ til.
—Quando vale n'?—Em tendo vogal adiante.
—E quando vale de til?—Em não tendo vogal adiante.
—Portanto com a, e, i, o, u atraz, como se lê?—Lê-se ã, ẽ, ĩ, õ, ũ.
Adverte-se a excepção do n final.
n
nós nau cli|na
no|mes ma|nos
na|da me|ni|nos
a|nões per|nas
i|ma|gi|na|vam
car|ne es|qui|na
a|fi|na|ção não
som|no i|man
an = ~
en in on
un
an|tes sin|ge|lo
an|ca se|gun|do
ban|co an|dam
an|cias brin|co
an|jo tran|cam
en|ten|di|men|to
VIGESIMA QUARTA LIÇÃO
O nosso plano é o seguinte:
I Vogaes a, e, i, o, u.
II Consoantes certas v, f, j, t, d, b, p, l, k, q.
» incertas c, g, r, z, s, x, m, n.
» compostas certas th, rh, nh, lh, ph, }
} (y).
Consoante composta incerta ch, }
III Alfabeto maiusculo.
Daqui se vê que ás consoantes incertas seguem-se as compostas. É pois tempo
de fallarmos do h; tempo e opportunidade, porque as duas últimas
incertas, m, n, são muitas vezes simples signaes prosodicos; e o h,
igualmente debaixo de todas as apparencias de letra, não passa dum signal.
Os gregos tinham vogaes e consoantes aspiradas, isto é, proferidas com
aquelle esfôrço, aquella sobejidão de fôlego com que os hespanhoes proferem
a inicial de José. Em portuguez, ha mais ou menos fôrça em vozes e
inflexões; tanto, que é nisso e por isso que muitas se destinguem e se
transformam dumas noutras: mas propriamente a chamada aspiração, certa
aspereza e violencia, como de voz ou inflexão tossida, só (que nos
conste) nas gargalhadas do snr. Rivara.
Ora na Grecia, onde só havia sete sabios, ninguem era obrigado, para ler e
escrever grego, senão a saber grego. Naquella mina inexhaurivel de
etymologias, não havia etymologias. Escrevia-se com a maxima exacção,
salpicando-se a escrita de signalinhos, e entre esses figuravam os de
aspiração, que eram umas virgulasinhas sobrepostas á vogal ou consoante
accidentalmente aspirada.
Os latinos, em logar dessas virgulasinhas, tinham h, caracter improprio e
indevidamente mettido na cathegoria das letras; mas elles, importando-lhes
pouco tirar aos derivados os ares de familia, íam seguindo a sua
orthografia, empregando o h, tanto em palavras de origem patria como de
origem grega.
E como o portuguez é filho do latim na opinião dos sabios, apezar de não
termos aspiração, cá temos tambem o h em palavras do latim, do grego
(que não tinha culpa nenhuma da orthografia latina), e até em palavras de
origem ou orthografia nossa, como sahir, cahir, chegar, fechar;
servindo-nos o h de accento.
De tudo isto resulta que os gregos tinham a sua orthografia, os latinos a
sua, e nós temos a dos latinos, sem o seu criterio e a sua coherencia.
A dizer a verdade não ha differença essencial entre aspiração e
accentuação: ambas envolvem fôrça: mas ha a differença sobeja para não
confundir nem os nomes nem os signaes.
O h em portuguez não vale aspiração; umas vezes é accento, outras vezes é
signal etymologico, outras vezes é ambas as cousas.
Applica-se a todas as vogaes e á terça parte das consoantes, ou tanto
monta, a metade do abecedario. A sua indole é carregar, accentuar, apezar
das muitas excepções. Vejamos com as vogaes.
Ahi, ah, huivo lê-se como se escrevessemos aí, á, úivo: aqui
vale accento agudo.
Heroe, honesto, hostil lê-se como se escrevessemos êroe, ônesto
ôstil: aqui indica etymologia, valendo ao mesmo tempo de accento
circumflexo.
Em raras palavras começadas etymologicamente por h, deixa a primeira
vogal de ser mais ou menos fortemente accentuada.
Com as consoantes observa-se a mesma regra.
Em th, rh a presença do h é inutil; mas haveis de notar que as
inflexões t, rr... são extremas, isto é, admittem, sem transformação, a
pronuncia mais vehemente.
Por outro lado, se os etymologistas fossem etymologicos não escreviam
catarrho, que não é orthografia portugueza nem latina nem grega;
escreviam catarho, para se lêr do mesmo modo; vindo o h a servir tambem
de accentuar o r.
Nh, lh é accentuação de n, l. Proferi alternativamente n, nh, e
l, lh, sentireis a lingua, na pronuncia da forma dupla, adherir mais
extensamente ao ceo da bôca, e despegar-se com mais custo.
A respeito de ph, todos apagam uma luz fazendo ou proferindo naturalmente
pf... Esta dupla inflexão consiste em despegar os labios com um sôpro; o
que corresponde a accentuar, carregar, tornar sensivel ou aspirar a
inflexão negativa p'. É verdade que para nós ph não vale rigorosamente
pf...; mas a differença é insignificante, e pouco desdiz a forma.
Em ch temos dois valores, um frequentissimo, x... e outro raro, k'.
Reforçai a inflexão ç... e vereis, como facilmente se vos torna x...
Quando ch vale k', pode-se dizer que o h indica o valor aspero,
forte, guttural da consoante c.
Assim, ou similhantemente, convem desculpar as formas duplas, justificar,
explicar o valor simples ou homogeneo dessas dualidades graficas. Porque
certamente que todos os caracteres da escrita tem um valor convencional e
arbitrario; mas, posto um valor, até a intelligencia infantil é impellida a
inquirir se se é coherente.
E pois fallámos do h, do ph, do ch, fallemos do y, essa especie de
companheiro de viagem que tantas vezes vem na caravana.
Os sabios chamam áquillo i grego. Se é grego, excellente razão para o
excluir da nossa escrita.
Em grego havia uma vogal (que por signal não se sabe ao certo se valia i
ou se valia u) que na forma maiuscula um tanto se assimilhava ao y: na
forma minuscula, como quasi exclusivamente nos apparece o y, o caracter
similhante era o gamma, o g'. De modo que se um grego resuscitasse, e
aprendesse a ler portuguez, havia de se rir muito do nosso i grego. Não
obstante ensinai a ler o vosso discipulo y, ph, mas recommendando-lhe
que nunca escreva tão affectadamente.
Os hespanhoes, em logar do nosso nh, lh, teem ñ, ll. É melhor
orthografia, mas ainda incoherente. Tanta razão ha de carregar ou dobrar
num caso como no outro. Os polacos carregam o l.
Para nós o til não tinha applicação ao n. Interpretando os latinos e
imitando os gregos o melhor seria carregar, accentuar simplesmente, com
algum signal particular ou o mesmo agudo, n, l e até r, t, p,
c. Vamos á practica.
Deveis ter tido occasião de ensinar ao discipulo o que é, e de que serve o
accento agudo e circumflexo; senão, explicai-lhe, apresentando-lhe, como um
novo accento embora de diversa forma, o h.
—Que é isto?—O accento agá.
—De que serve?—De carregar vogal ou consoante.
—Que vale n, l, p carregado?—N', nh'; l', lh'; p', pf...
—Mas lê-se pf...?—Lê-se só f...
—E que vale o c carregado?—x... e algumas vezes, q'.
y = i
cy|pres|te
mys|te|rio
sy|me|tri|a
py|ri|lam|po
a|sy|lo a|bys|mo
cys|ne crys|tal
ly|ceu ty|ran|no
es|ty|lo sy|lla|ba
h =
har|pa ho|mem
ho|je hom|bro
hos|tias ha|ver
th rh
sym|pa|thi|a
rheu|ma|tis|mo
ca|ta|rrhal
nh
u|nha pu|nham
ti|nha ne|nhum
ni|nho ma|nhã
vi|nha gru|nhir
li|nha te|nham
fro|nha pi|nhão
ju|nho a|ze|nha
le|nha in|ha|bil
lh
ô|lho es|pe|lhos
dá|-lhe jo|e|lhos
bu|lha o|ve|lhas
a|ze|lha gre|lha
fi|lhos ra|lham
gra|lha tri|lhar
a|lho pa|lhi|nha
i|lha o|re|lhi|nha
ph = f
a|phta pha|rol
ty|pho gry|pho
pho|ca phra|se
es|phe|ra
tri|um|pha|ram
ty|po|gra|phi|a
phar|ma|cia
phos|pho|ros
= ~~~~z ch
chá ca|cho|rro
chão cha|fa|riz
cha|pa che|gar
chei|o col|chão
= k Chris|to
chris|ma
ma|chi|nis|ta
eu|cha|ris|ti|a
VIGESIMA QUINTA LIÇÃO
Ensaiado o nosso discipulo em todas as minusculas por sua ordem, resta
apresentar-lhe as maiusculas. Bastava metade, pela similhança de
C I J K O P S U V X Y Z
com c i j k o p s u v x y z.
Mas uma cartilha sem alfabeto, sería um escandalo. Evitemol-o.
O alfabeto é um cahos.
Se olhais ao som, e quereis tomar por base o ouvido, achais as vogaes
misturadas com as consoantes: se olhais á pronuncia, e quereis tomar por
base os orgãos da palavra, achais gutturaes e labiaes, consoantes de valor
extremo e opposto no meio d'aquella babel.
A velha divisão de vogaes e consoantes não tem melhor fundamento.
Consoantes são as que se lêem com as soantes? Nesse caso a divisão
natural sería soantes e consoantes. Mas nem as vogaes são unicamente
soantes, nem são unicamente as soantes.
A inflexão x... soa. Os caracteres que a representam são soantes.
Ainda soa mais a inflexão rr...; e nessa ha mais do que som, ha tom, voz.
Prolongai-a e, melhor, parai com a lingua, continuando o mesmo fôlego,
ouvireis um tom apreciavel na escala, que até se pode tomar por tónica
d'uma oitava: é a voz que o repique da lingua está abafando e embaraçando.
Porque toda a voz é essencialmente musical: a mais frouxamente proferida,
em se prolongando, afina ou desafina com a nota d'um instrumento.
Não ha differença essencial entre a palavra e o canto; e com razão chamaram
vogaes (ou vocaes) as letras que representam os principaes elementos da
palavra.
Mas, por isso, chamar consoantes a todas as outras, envolve impropriedade.
Todos os sons soam; dizer que as vozes soam, não é bastante: as vozes
cantam. E alem de impropriedade, é uma syntese exagerada.
Porque na palavra ha vozes, ha tons, ha sons e ha simples modificações _sem
tom nem som_, que se percebem na palavra como se percebe na nota da rabeca
a unha ou o arco. Nem a unha nem as sedas do arco são elementos fonicos:
fazem soar de certo modo, sem que por si soem. Ora a estes quatro elementos
da palavra, que formam como uma escala:
I Cantantes ou vocaes;
II Toantes (rr... j... z... v...);
III Soantes (x... c... f...);
IV Mudos (bqd, gl, lh, etc.):
correspondem naturalmente quatro especies de letras susceptiveis das mesmas
denominações segundo os seus valores.
Assim pois ha letras soantes e mudas, toantes e mudas; etc. X é toante
(z...), soante (ç..., x...) e simultaneamente muda e soante (qç...).
Estas denominações e classificações tem utilidade, porque envolvem anályse,
dão um conhecimento mais perfeito da palavra e da escrita, e proporcionam
em muitos casos á doutrina do mestre uma precisão e clareza, que a
distincção geral de vogaes e consoantes mal pode permittir.
Mas se se quizesse apenas essa distincção, era dividir as letras em
vogaes e invogaes.
Ora contando as vozes ou elementos cantantes da nossa lingua, que se
representam em mais do dôbro de maneiras, achamos dezesete. Ajuntando os
quatro elementos toantes, os tres soantes e os doze mudos (todos tambem
representados em muito maior número de caracteres) temos os trinta e seis
elementos a que nos referiamos a pag. 53.
Mas voltando ao alfabeto, não recommendamos que o façam aprender de cór
senão a discipulos que nutram a lisonjeira esperança de chegar um dia a
folhear diccionarios, que é do que serve.
Em todo o caso ahi o tendes, á escolha, minusculo e maiusculo entremeado
para confronto, e separado. Ainda nos parecia melhor, isto é, menos
indigesto, encorporado em palavras, onde ao pé da maiuscula apparecesse a
minuscula, e ao lado os nomes que nós damos ás letras.
Desses nomes ides ver alguns escritos dum modo mais sobrio ou mais usual
mas equivalente; pois, por exemplo, lendo zêz como se costuma ler zaz,
no fim soa x... que é o mesmo valor, embora mais exacto, que pretendiamos
indicar no nome zêxe. Igualmente lendo á portugueza cêqes, soam tres
inflexões, ç... q... x..., que são os valores do c simples, e
accentuado de h. Nós tambem lemos zig-zag, dando ao g o valor
guttural: porque não havemos de escrever semelhantemente gêg, para
significar os dois valores desta toante e muda? Quizemos dar de barato aos
partidarios dos nomes volumosos; agora permittam-nos essas modificações
accidentaes.
Mas ao c tinhamos chamado cêqe: chamando-lhe agora cêqes, ha uma
differença essencial. A razão é, como vêdes, para abranger no nome o novo
valor que lhe trouxe o h. Assim vão tambem accrescentados os nomes de
p, l, n: e dessa alteração convem dar conta e explicação ao alumno;
se é que não preferis considerar nh, lh, ph, ch como formas
elementares, chamando-lhes nhê, lhê, phê grego, xêq; o que é
rasoavel mas pouco conforme ao que entre nós se entende por alfabeto.
E agora vem a proposito fallarmos de dh, que a pag. 23 incluímos nas
formas compostas, e todavia não apparece na última lição. Dh é uma
juncção casual, á similhança de nh por exemplo em inhabil inherente que
se lê inábil inerente. As palavras que principiam por h, compostas de
ad e in, affectam estas excepções ao nh, e aquella forma dh, não
havendo em rigor nem uma nem outra cousa. Como porem mal se pode fallar ao
alumno em preposições, e não deixava de convir praticamente considerar a
cousa como parece, a isso nos dispunhamos, cedendo depois á verdade
theorica.
Os quadros alfabeticos assim talhados, pelas cinco vogaes, em outras tantas
regras ou linhas, estão indicando as porções em que se ha-de estudar o
alfabeto. De alguma cousa havia de servir a posição alfabetica das vogaes.
O alfabeto é uma ordem puramente material; o seu estudo, aborrecido; e não
ha necessidade de molestar o alumno. Quantos terão renunciado á gloria de
saber ler, pelo fastio invencivel dessa enfiada de nomes barbaros e
desconnexos? É verdade que no princípio, que é quando o costumam ensinar, a
essa desconnexão ajunta-se a absoluta ausencia de sentido; mas em todo o
tempo a memoria se esquiva a encadear semelhante salsada.
Se acceitais a nossa nomenclatura, alternai com o discipulo as vezes
necessarias, ou fazei repetir alternadamente os discipulos, accumulando de
dia para dia os nomes decorados:
á, bê, cêqes, dê;
é, fê, jêg, agá,
í, jê, kê grego, lêlh, _me_tíl, _nênhe_tíl;
ó, pêf, qê, rêr, sezêz, tê;
ú, vê, qce-cezêz, i grego, zêz.
Adoptai esses nomes, que são verdadeiros e methodicos: não vos preoccupeis
com o costume. O cozinheiro ri-se de ouvir chamar ao sal chlorureto de
soda; os chimicos deixam-no rir.
Mas antes do alfabeto damos uma lição de esdruxulos, em que não deixa de
convir ensaiar o discipulo.
Nós temos, em relação á syllaba dominante, tres generos de palavras, que
são:
Agudas: onde se carrega na última (ou unica) syllaba: dá, arroz,
fareis.
Inteiras: onde se carrega na penultima: dado, arrozes, farieis.
Esdruxulas: onde se carrega na antepenultima: esdruxulo, penultima,
última, pallida, etc.
Os francezes não teem estas melodiosas palavras. Os hespanhoes teem-nas, e
com razão accentuam sempre a vogal dominante. Nós que em materia de
accentos só não poupamos o h, continuamos a escrever ultima, publica,
replica, e o leitor que tire pelo sentido.
Mais uma razão para darmos uma lição de esdruxulos ao principiante, que tem
o sentido distrahido na decifração de caracteres, alguns tão duvidosos.
Como acima alludimos aos elementos da lingua, e é por elles que se hão de
classificar as letras, ahi os damos seguindo nos toantes e soantes a
ordem fónica em escala descendente, e quanto aos mudos a ordem
fysiologica dos labios para a garganta. Para exercicio especialmente das
maiusculas damos uma lenda vertida do francez.
{ á, ã, â }
{ è, é, ẽ, ê, e grave }
Vozes { í, ĩ, i » } Voz
{ ó, õ, ô }
{ ú, ũ, u » }
{ rr...} {repique de lingua.
{Toantes { j... } {lingua no ceo da bôca.
{ { z... } Voz e {dentes cerrados.
{ { v... } {labio inferior pegado aos
{ { dentes de cima.
{
{
{ {x...} {lingua no ceo da bôca.
{Soantes {c...} Fôlego e {dentes cerrados.
{ {f...} {labio inferior pegado aos
{ { dentes de cima.
{
{ { m }
Inflexões { { b } Labios pegados.
{ { p }
{ {
{ { d } Lingua nos dentes.
{ { t }
{ {
{Mudas..{ r' }
{ l }
{ lh }Lingua no ceo da bôca.
{ n }
{ nh }
{
{ g'} Lingua contrahida na garganta.
{ q }
Pa|la|vras es|dru|xu|las
Pa|ssa|ro, dú|vi|da, nú|me|ro, hós|pe|de, o|cu|lo, pres|ti|mo, sa|bba|do,
mé|di|co, pol|vo|ra, la|gri|ma, pa|lli|do, cé|le|bre, lam|pa|da,
ti|mi|do, ca|ma|ra, má|cu|la, pa|ro|cho, pe|ce|go, bar|ba|ro, cáus|ti|co,
úl|ti|mo. Ki|lo|me|tros, re|lam|pa|gos, alfan|de|gas, te|le|gra|phos.
Con|dis|cipulo, ev|an|gelico.
Al|pha|be|tos
aA bB cC dD
eE fF gG hH
iI jJ kK lL mM nN
oO pP qQ rR sS tT
uU vV xX yY zZ
———————
a b c d
e f g h
i j k l m n
o p q r s t
u v x y z
———————
A B C D
E F G H
I J K L M N
O P Q R S T
U V X Y Z
Hym|no de A|mor
An|da|va um di|a
Em pe|que|ni|no
Nos a|rre|do|res
De Na|za|ré,
Em com|pa|nhi|a
De São Jo|sé
O Deus-Me|ni|no,
O Bom-Je|sús.
Eis se|não quan|do
Vê num sil|va|do
An|dar pi|an|do
A|rri|pi|a|do
E es|vo|a|çan|do
Um rou|xi|nol,
Que u|ma ser|pen|te
De o|lhar de luz
Res|plan|de|cen|te
Co|mo a do sol,
E pe|ne|tran|te,
Co|mo di|a|man|te,
Ti|nha a|ttra|hi|do,
Ti|nha en|can|ta|do.
Je|sús, do|í|do
Do des|gra|ça|do
Do pa|ssa|ri|nho,
Sai do ca|mi|nho,
Co|rre a|pre|ssa|do,
Que|bra o en|can|to;
Fo|ge a ser|pen|te;
E de re|pen|te
O po|bre|si|nho,
Sal|vo e con|ten|te,
Rom|pe num can|to
Tão re|que|bra|do,
Ou an|tes pran|to
Tão so|lu|ça|do,
Tão re|pa|ssa|do
De gra|ti|dão,
Du|ma a|le|gri|a,
U|ma ex|pan|são,
U|ma ve|he|men|cia,
U|ma ex|pre|ssão,
U|ma ca|den|cia,
Que co|mmo|vi|a
O co|ra|ção!
Je|sús ca|mi|nha,
No seu pa|ssei|o;
E a a|ve|si|nha
Con|ti|nu|an|do
No seu gor|gei|o,
Em quan|to o vi|a:
De vez em quan|do
Lá lhe pa|ssa|va
Á di|an|tei|ra,
E mal pou|sa|va
Não a|frou|xa|va
Nem re|pe|ti|a,
Que re|do|bra|va
De me|lo|di|a!
A|ssim foi in|do
E o foi se|guin|do.
De tal ma|nei|ra
Que noi|te e di|a
Nu|ma pal|mei|ra,
Que ha|vi|a per|t|o
Don|de mo|ra|va
No|sso Se|nhor
Em pe|que|ni|no,
(E|ra já cer|to|)
E|lla lá es|ta|va
A po|bre a|ve
Can|tan|do o hym|no
Ter|no e su|a|ve
Do seu a|mor
Ao Sal|va|dor!
FIM DA CARTILHA MATERNAL
NOTA
O leitor póde reparar em chamarmos ás vogaes simplesmente á, é, í,
ó, ú; e depois darmos ás invogaes nomes compostos de todos os seus
valores. A razão daquella excepção é não podermos sujeitar as vogaes ao
mesmo systema de denominações; para o que basta ver que o e tem oito
valores:
ẽ, pena; ê, d'este, dê;
è, dez; êi, lêa, negocea;
é, deste; e (grave), ave;
éi, idéa; i, ceou.
Tantos elementos vocaes não se prestam a nome. E que regras podiamos nós
estabelecer a respeito de cada um delles?
Mas accresce que o estylo da lingua leva o principiante a achar a
oscillação da vogal mais facilmente que, entre os valores da invogal
differentes e até heterogeneos, aquelle que convem.
E já que fallamos em regras, haveis de notar que a pag. 81, o s figura
nas duas últimas linhas dum modo não comprehendido no diálogo. Completai as
regras explicando como o s tambem tem o primeiro valor entre vogal e
invogal, e nas palavras compostas como girasol, resalva, etc., em
occasião opportuna.
A pag. 31, e ainda mais provavelmente a pag. 91 haveis de extranhar a
orthografia, em que damos a ler ao discipulo pai—põi, dispõis.
A respeito de põi e dispõis, o i está indicado nos verbos. Todos
escrevem taes, atais; dedaes, dais; leaes, leais (verbo); não
ha pois razão de analogia para escrever caes, saes (verbos), em logar
de cais, sais; nem põe, dispões em logar de põi, dispõis, que é
tambem mais conforme á etymologia.
Pelas mesmas razões em nossa opinião é preferivel escrever pae. Todavia
ha em todos os espiritos e em todas as linguas duas palavras
soberanas—Deus e pae: tivemos pressa em que o discipulo lesse esta
palavra tão frequente e tão amavel, antes da lição do e final, e não
tivemos dúvida em seguir aquella orthografia, aliás muito usada.
A última palavra a pag. 39 devia estar accentuada; póde-se ler tôldo e
tóldo. Preferindo o mais usual, convem traçar á penna o accento
circumflexo, que escapou; mas vai na reproducção litographica em ponto
grande das lições da Cartilha.
Declaração
É comproprietario desta obra, no Brazil, A. A. Lopes do Couto, _Livraria
Luso-Brazileira_, rua da Quitanda, n.º 24, Rio de Janeiro.
FIM DA NOTA