Library / Earth / Breves instruc��es aos correspondentes da Academia das Sciencias de Lisboa sobre as remessas dos productos, e noticias pertencentes a' Historia da Natureza, para formar hum Museo Nacional
BREVES
INSTRUC��ES
AOS CORRESPONDENTES
DA
ACADEMIA DAS SCIENCIAS
DE LISBOA
SOBRE
AS REMESSAS DOS PRODUCTOS,
E
NOTICIAS PERTENCENTES
�
HISTORIA DA NATUREZA,
PARA FORMAR HUM MUSEO NACIONAL.
_Nisi utile est quod facimus, stulta est gloria_.
LISBOA
NA REGIA OFFICINA TYPOGRAFICA.
ANNO M.DCC.LXXXI.
_Com licen�a da Real Meza Censoria_.
1781
ADVERTENCIA.
As rela��es, por mais exactas e completas que sej�o, nunca cheg�o a
dar-nos huma id�a t�o perfeita das coisas, como a sua mesma presen�a:
por esta causa se tem occupado os Sabios, particularmente neste seculo,
em ajuntar com a protec��o dos Principes os exemplares de varios
individuos das diversas especies de Animaes, Vegetaes e Mineraes, que se
encontr�o em differentes paizes, para apresentarem do modo possivel �
vista dos curiosos hum como compendio das principaes maravilhas da
Natureza.
Considerando pois a Academia das Sciencias de Lisboa, cujos trabalhos se
encaminh�o todos ao bem p�blico, a grande utilidade, que de huma
similhante Collec��o, sendo bem ordenada, p�de resultar para o
adiantamento das Artes, Commercio, Manufacturas e todos os mais ramos da
Economia; propoz-se o projecto de formar nesta Capital hum Museo
Nacional, onde principalmente se ajuntem e conservem os productos, ao
menos os mais notaveis, que se ach�o dentro do Reino e das suas
Colonias.
Como por�m muitas vezes succede, que alguns dos exemplares,
particularmente quando s�o remettidos de paizes distantes, cheg�o
damnificados e por isso indignos de se guardarem nos Gabinetes, por n�o
terem sido devidamente escolhidos, preparados e acondicionados; e como
al�m disso nem todas as pessoas, que he necessario encarregar das
remessas e das noticias que devem acompanhallas, se supp�em igualmente
instruidas no melhor methodo de satisfazer as suas Commiss�es, julgou
conveniente a mesma Academia apontar as seguintes Instruc��es, pelas
quaes poder�� dirigir-se, os que dellas necessitarem.
Adverte-se com tudo a cada hum dos Correspondentes e Commissarios, que,
quando por alguns motivos, que occorr�o, lhes n�o seja possivel
satisfazer em tudo, satisfa��o ao menos em parte, e do melhor modo que
poderem, ao que nestas Instruc��es se recommenda, em quanto ao numero e
perfei��o dos exemplares que se pedem, e em quanto ao methodo de os
preparar e remetter.
BREVES INSTRUC��ES
Sobre as remessas dos productos e noticias pertencentes � Historia da
Natureza, para formar hum Museo Nacional.
*�. I.*
_Das remessas dos Animaes_.
As remessas dos individuos do reino animal s�o as mais difficultosas
pelas prepara��es, que he necessario fazer, a fim de impedir a
corrup��o, a que est�o mais sujeitos, que os individuos dos outros dois
reinos. E como estas prepara��es vari�o algum tanto conforme a variedade
de algumas das especies animaes, exporemos separadamente as que s�o
proprias de cada huma dellas.
Mas primeiro que tudo he preciso advertir em geral, que os Animaes
destinados para o Museo, devem ser apanhados de modo, que fiquem todos,
sem excei��o alguma, com a cabe�a inteira; os quadrupedes com todas as
unhas e dentes, e sem rotura consideravel na pelle; as aves com o bico e
p�s, e com todas as pennas; os peixes com todas as barbatanas e cauda;
em huma palavra ao menos aquellas partes, de que se servem os
Naturalistas para caracterizarem cada huma das especies, devem, depois
de feita a prepara��o, ficar, quanto for possivel, no seu estado
natural.
_Dos Quadrupedes_.
Como he impraticavel conservar sem corrup��o por muito tempo com a carne
os quadrupedes grandes, faz-se preciso esfollallos de modo que, cheia a
sua pelle com alguma materia estranha, se lhes d� a mesma f�rma
exterior, que tinh�o em quanto vivos.
Para este effeito nos animaes quadrupedes de mediana grandeza far-se-ha
na pelle ou huma incis�o direita desde a parte mais inferior do ventre
at� o _anus_, ou duas incis�es, cada huma das quaes principie no mesmo
_anus_, e continue pela parte interior das coxas at� � juntura destas
com as pernas.
Por esta abertura feita de qualquer dos dois modos, que parecer mais
conveniente, depois de separada, com os dedos ou com algum instrumento
accommodado, a pelle que rodea as duas coxas, se tirar�� estas para
f�ra, cortando-as pelas articula��es, que as unem com as pernas, cujos
ossos se descarnar��, quanto for possivel.
Depois se continuar� a despegar a pelle das costas at� chegar � cauda, a
qual, se n�o se puder esfollar, se cortar� pela juntura, que a une ao
tronco.
Feito isto, se voltar� para a cabe�a do animal a parte posterior da
pelle, que j� est� separada do corpo; e puxando-a at� �s espaduas, se
far� nos bra�os o mesmo que se fez nas coxas, cortando-os pelas
articula��es das canellas; as quaes tambem se descarnar�� da mesma sorte
que as pernas.
Continuar-se-ha a puxar a pelle at� descobrir ametade da cabe�a para a
descarnar: separada esta do corpo pela sua juntura com o pesco�o, se
extrahir� toda a substancia do c�rebro; e depois de bem limpa a
cavidade, se encher� esta com estopa, ou algod�o misturado com pedra
hume calcinada em p�, ou com outras materias de cheiro astivo, como
tabaco, pimenta, alcanfor, &c., ensopando primeiro tudo em oleo de
therebentina.
Com esta mesma composi�ao, depois de se cortar a lingua pela sua raiz, e
descarnar bem os queixos, se encher� a parte da go�lla que restar pegada
� cabe�a.
Tambem se arrancar�� os olhos, de modo que se n�o romp�o as palpebras; e
depois de bem limpas e enxutas de toda a humidade as suas orbitas, se
encher�� com as mesmas materias que acabamos de apontar. Em lugar dos
olhos arrancados se metter�� outros artificiaes ou de vidro, ou de
esmalte, ou de outra materia s�lida, que imitem na figura e cores os
naturaes; e quando isto se n�o possa fazer com a perfei��o devida,
remetta-se ao menos o seu desenho com as cores proprias, ou huma rela��o
exacta, que suppra do melhor modo a sua falta.
Depois de separada toda a pelle, deve raspar-se bem o interior della com
algum instrumento de a�o pouco affiado, para que a n�o rompa, e
esfregar-se com sab�o desfeito em agoa tepida, at� que fique sem o menor
resto de carne, sangue ou gordura, que possa ser principio de corrup��o.
Para acabar de seccar toda a sua humidade, se pulverizar� a mesma parte
interior da pelle com cal extincta ao ar, e reduzida a p� por si mesma,
ou tambem com cal viva misturada com huma doze de greda, que baste a
temperar a sua actividade. Esta pulveriza��o p�de repetir-se huma e mais
vezes, at� que se conhe�a que a pelle est� inteiramente secca. E para
extinguir todos os insectos, que poss�o causar algum damno ao cabello,
ser� muito conveniente defumar as pelles j� seccas com o vapor de
enxofre inflammado; e se embrulhar�� logo em pannos bem tapados para
evitar que outros infectos venh�o de novo depositar nellas os seus �vos.
Acabadas estas opera��es, encher-se-ha todo o espa�o, que occupava o
corpo do animal, com a mesma composi��o, com que se encheo a cavidade da
cabe�a, ou com outra equivalente que conste de materias molles e seccas,
e de drogas antiputridas: e por meio de arames grossos � propor��o da
grandeza do animal, e dispostos pela parte de dentro, se dar� ao
pesco�o, aos p�s, � cauda e a todo o volume a sua postura natural.
Composto em fim e limpo o cabelo de todas as nodoas de sangue ou
gordura, que no tempo da prepara��o tiver contrahido, se accommodar� a
pelle assim preparada dentro do caix�o em que ha de ser transportada,
pondo-a e segurando-a, de modo que n�o balance; e tapando as juntas do
caix�o com tiras de papel ou de panno embebidas em drogas amargas e
acres, para impedir que entre a humidade.
Como este methodo de encher as pelles dos quadrupedes de mediana
grandeza n�o p�de praticar-se com os demaziadamente grandes, bastar� que
se remettao as suas pelles com a cabe�a pegada, e com todas as unhas.
Estas pelles devem preparar-se com todas as precau��es que j� apont�mos:
e quando estas n�o sej�o bastantes para as seccar bem, e extinguir todos
os infectos, se metter�� pelo espa�o de seis horas em fornos, cujo gr�o
de calor seja o maior que as pelles poss�o supportar, sem que se queime
o cabello; depois do que se defumar��, como acima dissemos, com o vapor
de enxofre inflammado; e se embrulhar�� cada embrulhar�o cada huma �
parte em pannos bem tapados, introduzindo pelas suas dobras
therebentina, e outras drogas de cheiro penetrante e sabor acre. Tudo o
mais se far�, como fica dito das pelles dos outros quadrupedes.
Mas, como s� as pelles n�o bast�o para dar huma id�a justa da f�rma e
postura do animal, recommenda-se aos Correspondentes, que mandem junto
com ellas hum desenho, ou huma descrip��o exacta, ao menos daquelles,
que n�o s�o vulgarmente conhecidos, ou que tem alguma coisa de
extraordinario.
Recommenda-se tambem aos mesmos Correspondentes, que, quando succeda
receberem algumas pelles de animaes, remettidas de algum lugar distante
da sua residencia, que n�o fossem logo depois de separadas do corpo
devidamente preparadas, e nas quaes observem o mais leve indicio de
corrup��o principiada, as mett�o promptamente e conservem pelo espa�o de
dois dias em algum licor espirituoso; e depois as sequem, e accommodem
nos caix�es pelo methodo acima exposto.
Os quadrupedes pequenos, que n�o poss�o preparar-se, como os de mediana
grandeza, se prepar�o facilmente deste modo. Por huma incis�o pequena
junto ao _anus_ se extrahir�� todos os seus intestinos; e depois de bem
limpa e enxuta a cavidade que fica, se encher� esta com estopa ou
algod�o misturado com os mesmos ingredientes, que acima dissemos.
Arrancados os olhos com as advertencias j� expostas, se metter�� os
corpos em agoa ardente por algum tempo, renovando-a ao menos huma vez.
Depois se acamar�� em vasos cheios de licor composto de tres partes de
agoa pura e uma de espirito de vinho, no qual se tenha dissolvido huma
boa por��o de pedra hume calcinada. Os bocaes destes vasos, em que h�o
de ser remettidos os animaes, devem ser tapados, quanto for possivel,
com tampas bem justas e betumadas com uma mistura de c�ra e rezina; e os
mesmos vasos accommodados nos caix�es de modo que n�o quebrem, se forem
de materia fragil, nem balancem com o movimento do transporte.
Os esqueletos dos animaes, que tambem entra� na classe das preciosidades
que merecem hum lugar distinto nos Gabinetes, n�o precisa� de
prepara��es t�o delicadas, para se remetterem sem perigo de corrup��o.
Basta que, depois de bem descarnados e limpos todos os ossos, se ponha
um numero differente repetido nas duas extremidades, por onde se unem
uns com os outros. Por meio desta numera��o ser� facil armar novamente o
esqueleto, para lhe dar a sua f�rma natural.
Os ossos de cada animal devem empacotar-se � parte, para n�o haver
confus�o; e accommodallos de sorte nos caix�es, que se n�o quebrem no
transporte.
Como p�de succeder que algumas vezes n�o haja toda a commodidade de se
remetterem os esqueletos inteiros, como fica dito, nesse caso venh�o ao
menos as partes mais notaveis dos animaes pouco vulgares; e dos outros,
aquellas partes que tenh�o alguma coisa de extraordinario.
_Das Aves_.
O methodo de preparar as _aves_ grandes pouco differe, do que acima se
expoz para os quadrupedes de mediana grandeza. Ainda que se p�de
principiar a opera��o por huma unica incis�o feita no ventre desde o
_anus_ at� o osso do peito, he melhor que se fac�o duas de sorte que,
nascendo ambas do _anus_, v� cada huma dellas correndo ao comprido das
coxas at� terminar no encontro da aza da mesma parte.
Pegando no vertice do angulo, que f�rm�o no _anus_ as duas incis�es, se
ir� separando pouco a pouco com os dedos, ou com algum instrumento
accommodado, a pelle do ventre, e voltando-a para a parte da cabe�a da
ave at� chegar aos encontros das azas.
Despegada do mesmo modo a pelle que rodea as coxas, tiradas estas para
f�ra, e cortadas pelas suas junturas com as pernas, cujos ossos ser�o
bem descarnados, se continuar� a opera��o, separando de vagar a pelle
das costas at� chegar ao uropigio, o qual se cortar� com huma tisoura
pela articula��o que o une ao corpo.
Feito isto, se pegar� na parte posterior j� esfollada do corpo da avecom
a m�o esquerda, e com a direita se ir� tirando com sentido, para que se
n�o rompa, o resto da pelle, at� chegar �s azas; as quaes se devem
separar do tronco pelas suas articula��es, descarnando, o mais que for
possivel, os ossos que fic�o pegados � pelle.
Continuar-se-ha a puxar a pelle que veste o pesco�o, at� descobrir parte
do cranio, o qual se cortar� transversalmente hum pouco acima da sua
uni�o com o pesco�o; separando deste modo do resto do corpo a cabe�a
junta com a pelle.
Por esta abertura feita no cranio se extrahir� toda a substancia do
cerebro; e se far� tudo o mais que pertence � prepara��o interior da
cabe�a, do mesmo modo que fica dito dos quadrupedes.
Por�m nas aves aquaticas, e outras de cabe�a grande, cujo pesco�o n�o he
facil de se esfollar at� descobrir o cranio, sem o perigo de romper a
pelle, separar-se-ha da cabe�a o pesco�o pela ultima juntura; e depois
de revirada a pelle, se far� a extrac��o do cerebro por hum buraco feito
de proposito na parte superior do cranio, que corresponde ao padar.
Antes de revirar a pelle se raspar� levemente o interior della, para
purificalla de todo o sangue e gordura; e se pulverizar� com p�s, que
constem de huma parte de pedra hume queimada, outra de alcanfor, duas de
solim�o, duas de nitro puro, duas de flor de enxofre, quatro de pimenta,
e outras quatro de tabaco.
Para revirar facilmente a pelle, sem estragar as pennas, se ter� feito
passar antes da opera��o pelos narizes da ave hum fio comprido e forte,
o qual servir� para puxar a cabe�a f�ra, e dar � pelle a sua situa��o
natural.
O methodo de encher as cavidades do corpo, da boca, e dos olhos he
inteiramente o mesmo que nos quadrupedes. Basta s� advertir, que esta
prepara��o das aves requer mais alguma delicadeza, para que fique a sua
pelle inteira, e todas as pennas limpas e direitas.
Depois de bem concertadas as pennas, se envolver�� estas aves em huma
tira de panno, principiando pela cabe�a; e se accommodar�� entre
materias molles e seccas ensopadas em oleo de therebentina dentro dos
caix�es, com todas as mais cautelas, que j� dissemos.
Este methodo de preparar as aves n�o he facil de praticar-se com algumas
dellas, principalmente com as pequenas, por causa da delicadeza da sua
pelle. Neste caso poder�� enviar-se em vasos cheios de licor
espirituoso, preparando tudo da mesma sorte, que se disse sobre a
remessa dos quadrupedes pequenos; e tendo unicamente a advertencia de
quebrar-lhes o osso do peito, para n�o ficarem com difformidade, e de as
envolver, como acabamos de dizer das aves grandes, com tiras de panno,
para se n�o descomporem as suas pennas.
Se a distancia n�o for muito grande, quaesquer que sej�o as aves,
bastar� que, depois de preparadas pelo ultimo methodo, que acabamos de
exp�r, se lancem de infus�o pelo espa�o de quinze dias em espirito de
vinho bem forte, em que se tenha dissolvido huma boa por��o de pedra
hume e alcanfor. E sem outra maior prepara��o podem remetter-se com as
cautelas j� indicadas.
Os _�vos_, que pela sua raridade devem remetter-se para ornato dos
Gabinetes, depois de evacuada toda a sua substancia por hum pequeno
buraco feito de proposito em hum dos seus p�los, ou em ambos, se for
preciso, se acamar�� em bocetas com algod�o, ou outra materia molle e
secca, para evitar o perigo de se quebrarem. Os que por�m se mand�o para
fecundarem, antes de se metterem nos caix�es, se cobrir�� bem de verniz
pelo methodo sabido de _Reaumur_.
Os _ninhos_, que pelo seu artificio forem dignos da curiosidade do
naturalista, se accommodar�� da mesma sorte, e com as mesmas precau��es
em bocetas bem tapadas. E para extinguir os insectos, que ordinariamente
trazem, se metter�� em hum forno, que s� tenha o gr�o de calor
necessario para este effeito; tendo o cuidado de os envolver logo em
pannos, para impedir novos insectos.
_Dos rept�s_.
A prepara��o de todo o genero de _rept�s_, _serpentes_, e _cobras_
grandes, cuja pelle p�de separar-se do corpo, he inteiramente a mesma,
que a dos quadrupedes de mediana grandeza, tanto no que respeita ao modo
de os vazar e tornar a encher de materias estranhas, como no que
pertence ao modo de os accommodar nos caix�es.
S� deve advertir-se, que a incis�o, por onde principi�o todas as mais
opera��es, nos rept�s, como o sard�o e outros, deve fazer-se da parte do
ventre ao menos desde o meio da cauda at� o pesco�o, conduzindo-a pelo
interior das coxas e bra�os at� �s suas articula��es; e nas cobras
grandes, como as giboias, se far� em todo o seu comprimento, por onde as
escamas das costas se ajunt�o com as do ventre. Estas se accommodar��
nos caix�es, enrolando-as espiralmente, como ellas muitas vezes fazem,
em quanto vivas.
Os rept�s pequenos podem remetter-se em licores espirituosos, em que se
tenha dissolvido bastante quantidade de pedra hume e alcanfor; e tendo o
cuidado de renovar estes licores ao menos duas vezes antes da remessa.
_Dos peixes_.
Aquelles _peixes_, que os Naturalistas cham�o _cetaceos_, e cujas pelles
s�o t�o fortes, como as dos quadrupedes, podem preparar-se do mesmo modo
que estes; excepto que a incis�o se deve fazer na parte inferior por
todo o seu comprimento, para os evacuar com mais facilidade. Dos peixes,
que forem demaziadamente grandes, bastar� mandar as pelles seccas e
preparadas, como dissemos dos quadrupedes.
Se os peixes, que houverem de se mandar, forem chatos e delgados de
sorte, que poss�o seccar-se bem, extrahidas com algum instrumento
accommodado as suas entranhas, e lavada bem a cavidade que fica, se
lan�ar�� de infus�o em agoa ardente pelo espa�o de doze at� quinze dias.
Findos estes, se estender� o peixe com o lado mais branco para baixo
sobre huma lamina de vidro, ou de madeira bem liza; tendo particular
cuidado, em que as barbas, cauda e barbatanas fiquem na sua situa�ao
natural: e para que estas � medida, que forem seccando, se n�o tor��o, e
descomponh�o; depois de concertadas, e em quanto est�o humidas e com a
sua c�lla natural, se lhe pregar�� pela parte de cima algumas tiras de
papel, que servir�� para as conservar sempre na mesma posi��o.
Feito isto, se expor� ao calor do Sol, ou a hum vento forte; e passados
quatro ou sinco dias, se despegar� o peixe por meio de huma agulha de
fardo, ou outro instrumento similhante, que mettendo-se entre o peixe e
a lamina, se fa�a caminhar da cabe�a at� � cauda, para n�o desconcertar
as barbatanas; o que succederia, conduzindo-se a agulha em sentido
contrario.
Voltando o peixe com a parte inferior para cima, se expor� segunda vez
ao Sol ou ao vento, pelo tempo que for preciso. Repetindo isto, at� que
se conhe�a estar o peixe perfeitamente secco, se untar� por f�ra com bom
verniz transparente, e se accommodar� nos caix�es com todas as cautelas
j� indicadas.
Os peixes _escamosos_, que pela muita delicadeza da sua pelle n�o podem
fer preparados como os _cetaceos_; nem t�o pouco pela grande grossura da
sua carne se podem seccar bem, como os chatos e delgados; se cortar�� em
duas partes, conduzindo o c�rte pelo embigo desde a cabe�a at� � cauda;
e tendo o cuidado de que todas as barbatanas e a cauda fiquem inteiras e
pegadas a huma das duas ametades. Esta ametade, que he a que se destina
para se conservar, se alimpar� da parte das escamas com o gume de huma
faca, que a toque levemente, e corra desde a cabe�a at� � cauda; porque
em sentido contrario arrancaria as escamas, em cujas cores e lustre
consiste hum dos principaes merecimentos dos peixes escamosos.
Com a mesma faca, ou outro qualquer instrumento accommodado, se ir�
despegando pouco a pouco toda a carne, at� que fique s� a pelle com a
ametade da cabe�a pegada. Desta se tirar� o cerebro que restar, e todas
as por��es de ossos, que f�rm�o differentes separa��es no interior do
cranio. Tambem se extrahir� toda a substancia do olho, cuja figura e
cores se devem notar, como dissemos, para se supprir depois a sua falta
com outro artificial. Se a cabe�a do peixe for muito curva, se aplanar�,
pondo-lhe em cima algum pezo; com a advertencia que antes se deve metter
por baixo e por cima da cabe�a alguma materia molle.
Esta meia pelle assim preparada se pegar� pela parte interior com a sua
mesma c�lla natural a huma folha de papel; e sua por�o as barbatanas e
cauda na sua f�rma e situa��o natural. Depois de bem secca se untar� com
verniz transparente, e se metter� no caix�o com as precau��es
necessarias.
Os peixes em fim, que ou pela sua pequenez, ou por outras causas, n�o
poderem preparar-se por algum dos modos, que acabamos de exp�r, se
enviar�� em vasos cheios de licores espirituosos, os quaes devem ser
mais fortes, e renovar-se mais vezes antes da remessa, do que se requer
para os outros animaes pequenos. He escusado repetirmos aqui tudo o
mais, que j� se disse, sobre este genero de remessas de animaes
pequenos.
_Dos animaes crustaceos_.
Todos os animaes, a que os Naturalistas d�o este nome, ou habitem no
mar, ou nos rios, ou na terra, se prepar�o do mesmo modo, attendendo
unicamente � sua grandeza; segundo a qual podemos dividillos, em quanto
� sua prepara��o, em duas classes, de grandes, e pequenos. Estes, quando
pela sua pequenez se n�o puderem evacuar de toda a sua substancia molle
e corruptivel, ou quando n�o poss�o seccar-se sem detrimento sensivel da
sua f�rma e cores naturaes; accommodando primeiro sobre o ventre as suas
pernas, e dispondo do melhor modo as suas antennas, para se n�o
quebrarem, se embrulhar��, cada hum � parte, em hum pequeno panno, que
se envolver� com hum fio; e assim embrulhados se lan�ar�� em espirito de
vinho para se remetterem.
Os crustaceos grandes podem mais facilmente evacuar-se; o que se far�,
separando a casca, que cobre o corpo, da parte inferior, � qual fic�o
pegadas as pernas, e toda a substancia molle do animal. Esta se tirar�
toda do melhor modo possivel; ainda mesmo, a que est� dentro das pernas,
sen�o de todas, ao menos das mais grossas. Lavadas, e bem limpas todas
as cavidades, que fic�o depois de extrahida a substancia interior, se
encher�� com as mesmas materias, que j� apont�mos, fallando dos outros
animaes. Antes de os encaixotar, devem exp�r-se ao ar o tempo necessario
para se seccarem bem. Depois de seccos se accommodar�� em bocetas com
todas as precau��es precisas, para que cheguem inteiras todas as suas
partes, ainda as mais delicadas. Para isso ser� conveniente, que cada
hum destes animaes se embrulhe em hum panno, depois de postas na sua
situa��o natural todas as pernas, e antennas; e que as bocetas, em que
h�o de ser remettidos, tenh�o capacidade bastante, para n�o ser
necessario dobrar estas partes mais faceis de quebrar-se.
_Dos insectos_.
No que pertence ao modo de preparar os _insectos_ destinados para o
Museo, podemos considerallos, a pezar da sua prodigiosa variedade, como
repartidos em tres classes, a cada huma das quaes compete huma
prepara��o particular.
Todos aquelles insectos, cujo corpo he cercado de huma casca dura, e
ass�s forte para conservar depois de secca a sua f�rma exterior, se
metter�� em f�rnos, que s� tenh�o o gr�o de calor necessario para
dissipar toda a humidade interior, sem offensa das partes, que devem
conservar-se inteiras. O calor do Sol, sendo muito activo, poder�
supprir a falta de f�rnos, principalmente nos Paizes quentes.
As borboletas, e algumas especies de moscas, cujas azas imit�o as das
borboletas, tambem se prepar�o do mesmo modo, seccando-as ou em f�rnos,
ou ao calor do Sol. Por�m, como todo o merecimento destes insectos
consiste na delicadeza de suas azas, e na vivacidade e formosura de suas
cores, as quaes unicamente nascem de hum p� brilhante que as cobre, e
que he muito facil de despegar-se; he preciso mettellas, assim que se
apanharem, entre duas folhas de papel com as azas bem estendidas; e
assim mesmo se expor�o ao calor, mudando de papeis at� que estej�o
perfeitamente seccas, e em termos de se poderem encaixotar com as
cautelas necessarias.
Todos os outros insectos, que const�o de huma substancia molle, e que
depois de seccos perdem inteiramente a sua primeira figura, e as suas
cores naturaes, s� podem conservar-se em licores espirituosos pelo mesmo
methodo, que j� expuzemos sobre os quadrupedes pequenos.
N�o he preciso advertirmos, que a accommoda��o dos insectos nas bocetas
requer hum cuidado particular, para se n�o quebrarem no transporte as
suas partes mais delicadas, que s�o as principaes, de que se servem os
Naturalistas para distinguir as diversas especies.
_De outras produc��es pertencentes ao reino Animal_.
Debaixo deste titulo comprehendemos todas as especies de animaes de
conchas, e todas as mais produc��es, principalmente marinhas, que tem
algum sentimento de vida, ainda que obscuro. As mais notaveis s�o as
_Estrellas do mar_, em que se observ�o sinaes menos equivocos de
sensibilidade.
Estas, quando s�o pequenas, e de pouca grossura, depois de as metter
alguns minutos ou em espirito de vinho, ou em agoa fervendo, para
coagular a substancia interior, de que se comp�em; se expor�o pelo tempo
necessario ao vento, at� que fiquem perfeitamente seccas, e livres de
corrup��o. E cobrindo-as com algum verniz transparente, se encaixotar��
com as cautelas j� sabidas.
Mas aquellas, que s�o maiores, e consideravelmente grossas, nunca
poder�� seccar-se de modo, que escapem de corrup��o. Ser� preciso
extrahir-lhe huma especie de carne, ou parenchyma, de que est�o cheias;
e depois seccar e envernizar as suas pelles, como fica dito.
Para fazer com mais facilidade a extrac��o desta substancia interior, se
far� no centro, onde se unem as pernas ou raios das estrellas marinhas,
da parte das costas, huma incis�o circular, mas incompleta, para que
fique pegada ao resto do corpo esta por��o de pelle, que se corta. Por
este buraco se extrahir� por meio de algum instrumento de ferro curvo,
que se introduza pelo interior de cada huma das pernas, toda a
substancia corruptivel.
Deve por�m advertir-se, que, para ficarem depois de seccas na sua
posi��o natural todas as estrellas marinhas, tanto as grandes como as
pequenas, he preciso, que logo depois de apanhadas, e em quanto est�o
vivas, se ponh�o com o ventre para baixo em cima de huma meza; pela qual
ellas mesmas por si estender�� as suas pernas at� ficarem na suas
postura natural. Nesta mesma postura se deixar�� por espa�o de tres ou
quatro dias, at� se conhecer que est�o mortas, para continuar as
opera��es, que acabamos de exp�r.
Todos os animaes marinhos, que s�o guarnecidos de muitos espinhos
agudos, delicados e duros, se prepar�o, extrahindo com hum arame curvo
na ponta por huma abertura natural, que todos tem pela parte inferior, a
substancia molle que est� dentro da concha; cuja cavidade se lavar� bem
com agoa ardente; e depois de tudo estar perfeitamente secco, se
accommodar� cada huma destas pe�as na sua boceta com algod�o, observando
todas as mais cautelas necessarias, para que no transporte se n�o
quebrem os seus espinhos.
Todo o genero de conchas ou univalves, ou polyvalves s�o dignas de se
conservarem nos Gabinetes. N�o se devem mandar as que se apanh�o nas
costas do mar, que as ondas lan��o em terra, as quaes com a cont�nua
fric��o da ar�a fic�o ro�adas, e sem huma grande parte do seu
merecimento natural. Por isso o mais seguro he mandar s� aquellas, que
se apanh�o com o seu verme ainda vivo, o qual com hum alfinete, ou com
hum arame facilmente se tira, depois de ter lan�ado a concha em agoa
fervendo. Deste verme basta que se mande o desenho, se houver quem o
fa�a: e para o fazer, se metter� a concha, em quanto o seu verme est�
vivo, em hum vaso cheio de agoa do mar, se ella for marinha, ou de agoa
doce, se ella for fluvial; porque ent�o sahe o verme todo f�ra da
concha, e dilata ao natural todas as suas partes de sorte que com muita
facilidade se p�de desenhar: nas conchas terrestres ser� preciso
esperar, que o animal saha por si mesmo para se poder tirar o seu
desenho.
Depois de bem seccas as conchas, se embrulhar� cada huma delias em hum
pouco de algod�o, segurando-o por f�ra com hum fio; e se accommodar��
com diversas camadas do mesmo algod�o dentro das bocetas, em que devem
remetter-se com todas as mais cautelas.
Deve advertir-se a respeito de todas as produc��es do mar, que antes de
as seccar, para se remetterem, he preciso lavallas em agoa doce; porque
o sal marinho attrahe muito a humidade, de que p�de originar-se
corrup��o.
*�. II.*
_Das remessas dos Vegetaes_.
Como estas instruc��es n�o tem por objecto formar hum Jardim Botanico;
mas unicamente enriquecer hum Museo Nacional, seria superfluo apontarmos
o methodo de transportar as arvores e plantas de Paizes Estrangeiros
para as transplantar nos nossos terrenos; materia que tem sido
admiravelmente tratada por muitos Naturalistas deste seculo; e que a
Academia, se o julgar necessario, reduzir� a instruc��es compendiosas em
outro papel � parte. Por ora s� se trata do modo mais facil de remetter
as plantas seccas com todas as partes, que as caracteriz�o.
Para este fim se colher�� as plantas pequenas com raiz, tronco, folhas,
flores e frutos. Das plantas, que n�o produzem no mesmo tempo as flores
e os frutos, se colher�� dois p�s, cada qual tenha huma das duas coisas.
Das arvores, arbustos e plantas maiores bastar� colher hum ou dois dos
ramos mais tenros com o seu fruto, e com as suas flores. Quando succeda
n�o se poder enviar todas estas partes juntas, se enviar�� separadas;
com tanto que se declare, a que planta pertence cada huma dellas.
Para se seccarem estes ramos, ou plantas inteiras, depois de se
estenderem perfeitamente todas as suas folhas entre dois papeis pardos,
se comprimir�� em huma imprensa, ou debaixo de huma taboa carregada de
pezos, mudando de papeis huma ou duas vezes no dia, at� que esteja de
todo extrahida a sua humidade. Para maior seguran�a, depois desta
opera��o, ser� conveniente exp�r por algum tempo ao calor do Sol estas
plantas, quando se tir�o a ultima vez da imprensa.
Feito isto, se estender�� segunda vez os individuos de cada especie
separadamente em diversos papeis, os quaes se acamar�� em caixas de
folha de Flandres, e na falta destas em bocetas bem tapadas do modo, que
j� se tem advertido sobre as outras remessas; n�o esquecendo introduzir
dentro dellas algumas drogas de cheiro forte e penetrante, como
alcanfor, ou tabaco de fumo.
Ha algumas arvores, e ainda mesmo plantas pequenas, cujas folhas,
frutos, e flores s�o t�o espe�os e succulentos, que n�o podem seccar-se
pelo methodo exposto, sem que fiquem inteiramente desfigurados. Estes s�
podem conservar-se, e remetter-se em vasos cheios de agoa ardente com as
cautelas j� indicadas para outras remessas similhantes.
Aquelles frutos, que pela sua natural dureza se podem conservar muito
tempo sem corrup��o, se colher�� maduros, e se expor�� algum tempo ao
calor do Sol, para se acabar de evaporar algum resto de humidade; e
depois se metter�� nas caixas, em que devem enviar-se.
Do mesmo modo se podem remetter algumas raizes _tuberculosas_, e que se
conserv�o muito tempo sem corrup��o, como o _gingibre_, _curcuma_,
_amomum_, e outras. A esta��o mais favoravel de as tirar da terra nos
paizes temperados he a da Primavera, ou os fins do Outono. Escolhendo-se
as mais fortes, se por�o em algum lugar enxuto � sombra at� se evaporar
a sua primeira humidade; e se metter�� depois em caix�es com ar�a bem
secca, para se remetterem.
Todo o genero de plantas _bulbosas_, que ou pela sua dureza, ou pela
casca, que as veste, se conserv�o com mais facilidade sem corrup��o, se
prepar�o da mesma sorte, que as raizes _tuberculosas_.
N�o se faz preciso advertir o methodo de enviar as diversas especies de
balsamos, rezinas, gommas, e outras produc��es similhantes, que
pertencem ao reino vegetal, ou sej�o solidas ou l�quidas; porque s�o bem
conhecidas no commercio, e j� a experiencia tem mostrado o melhor modo
de fazer as suas remessas.
Tambem merecem entrar nas collec��es proprias de hum Museo as diversas
cascas, que vestem os troncos das arvores, principalmente as que tem
algum uso nas Artes; como tambem as amostras de madeiras, que se fazem
notaveis, ou pelo polido, de que s�o susceptiveis, ou pela singular
contextura de suas partes, ou pela variedade de suas cores, ou por outra
qualquer qualidade, e particularmente pela utilidade, que dellas se p�de
tirar para as manufacturas, e usos da Sociedade. Este genero de pe�as he
facil de remetter-se de modo, que cheguem sem damno ao lugar do seu
destino.
Tudo o que p�de dizer-se sobre as remessas das _sementes_, se reduz a
n�o as colher, sen�o depois de maduras; e a mettellas, estando bem
enxutas, com musgo fresco, e pouco calcado, ou com ar�a bem secca e
miuda dentro dos caix�es, em que se h�o de remetter. As sementes grandes
tambem se podem cobrir de c�ra derretida em hum pouco de oleo de
therebentina, tendo a cautela de deixar primeiro esfriar esta untura at�
o ponto, em que o calor n�o possa causar-lhe damno.
Seja qual for o modo de preparar, e remetter as sementes, deve
indispensavelmente advertir-se, que cada huma das diversas especies
necessariamente ha de vir separada da outra, de forte que se n�o
confund�o. N�o usando da mistura de musgo, ou ar�a, podem remetter-se,
para evitar esta confus�o, cada huma das especies de sementes embrulhada
� parte em hum papel encerado; observando na sua accommoda��o dentro das
bocetas as precau��es necessarias, para que cheguem inteiras.
Como huma grande parte das sementes amadurece dentro de _capsulas_, em
que mais facilmente se conserv�o, ser� conveniente, e n�o menos commodo
mandar estas mesmas capsulas com a sua semente; accommodando-as nas
bocetas do mesmo modo que fica dito.
*�. III*
_Das remessas dos Mineraes_.
Os productos do reino mineral s�o os que menos cautelas requerem, para
chegarem sem damno. A maior difficuldade consiste em conhecellos, e
saber procurallos. No que respeita �s suas remessas, que he o unico
objecto destas Instruc��es, podemos dividillos em _terras_, _pedras_, e
_foss�s_.
As diversas especies de terra podem remetter-se em pequenos saccos
differentes; mandando maior quantidade daquella, em que se sentir algum
sabor salino, ou cheiro, ou outra propriedade, que a fa�a notavel,
principalmente pelo uso, que p�de ter nas Artes.
Das pedras, ou sej�o de banco, ou vagas, devem mandar-se particularmente
as que tiverem alguma raridade, ou pelos saes, que contenh�o, ou pela
sua c�r, dureza, figura, transparencia, &c., como s�o os crystaes,
agathas, marmores, congela��es, amiantos, &c.
As amostras de todo o genero de foss�s, que puderem ajuntar-se, s�o
dignas da curiosidade do Filosofo, e conseguintemente merecem ser
conservadas em hum Museo. Por isso recommenda-se aos Correspondentes,
que de todos os differentes metaes, ainda dos vulgares, de todo o genero
de petrifica��es, crystalliza��es, bitumes foss�s, lavas, pyrites, &c.
remett�o os exemplares, que lhes for possivel ajuntar.
Todos estes exemplares de qualquer dos tres generos, de terras, pedras e
foss�s, devem remetter-se em caix�es separados, podendo ser, para evitar
confus�o; e embrulhados � parte com numeros differentes, que
correspond�o aos numeros da rela��o, de que adiante fallaremos.
Accommodar-se-h�o nas caixas, ou bocetas de modo, que o movimento do
transporte lhes n�o cause algum damno; e se observar�� as mais cautelas
necessarias, para que a humidade os n�o prejudique.
Entre as diferentes e quasi infinitas especies de individuos, que a
natureza produz no seio do mar, ha algumas, que f�rm�o em certo modo
huma classe � parte; e que por essa mesma causa parece n�o devi�o
confundir-se com as outras produc��es pertencentes aos tres reinos. Esta
s�o as _Madreporas_, _Coraes_, _Lithofytos_, &c. que alguns illudidos
com a f�rma, exterior reduzir�o � classe das plantas marinhas; e outros,
attendendo � sua dureza, julg�r�o ser especie de pedras.
Todas estas produc��es se fazem dignas da curiosidade dos Naturalistas,
pela grande variedade da figura e disposi��o de seus ramos, e por outras
particularidades n�o menos admiraveis. Por isso devem escolher-se as que
forem mais inteiras, e tiverem maior numero de ramos. E, como muitas
vezes sahem pegadas a peda�os de r�cha, e entrela�adas humas com outras,
assim mesmo se devem remetter; porque estas circumstancias accidentaes
s�o igualmente dignas da atten��o do Filosofo.
Como por�m nenhuma destas substancias he sujeita a corrup��o, basta que
se accommodem nos caix�es cercadas de materias molles, e seguras com
travessas de madeira, para se n�o quebrarem com o movimento.
Estas singulares produc��es n�o s�o mais, que huma collec��o de pequenas
casas habitadas por animaes do genero dos polypos, os quaes se
multiplic�o huns sobre os outros de hum modo analogo, ao modo com que
crescem os ramos das plantas. Para haver estes animaes, e podellos
enviar � parte, se metter�� logo, apenas se tirarem do mar, as massas
duras, que os cont�m, em vasos cheios da mesma agoa do mar, que seja bem
pura. Passada huma hora pouco mais ou menos, com o soccorro de huma
lente, se for necessario, se divisar�� parte de cada hum dos animaes,
f�ra de suas pequenas grutas. N�o se deixar� escapar este momento; e com
algum instrumento, ou com os mesmos dedos, se prender� o animal; e
arrancando-o precipitadamente do seu aposento, se lan�ar� logo em
espirito de vinho, que deve estar prompto, para que elle n�o tenha tempo
de se contrahir, e perder a sua f�rma natural antes de morrer. No mesmo
espirito de vinho se podem conservar estes pequenos animaes, assim como
todo o genero de polypos: e as suas remessas se far�o do mesmo modo, e
com as mesmas cautelas, que j� se advert�r�o, fallando dos insectos.
Ha outras produc��es marinhas al�m das sobreditas, que pela sua figura,
miudeza, e flexibilidade de seus ramos se equivoc�o mais com as plantas.
Os Botanistas lhes d�o vulgarmente o nome de musgos marinhos, ou
corallinas. Para as remetter, basta lavallas em agoa doce at� dep�rem
todo o sal marinho; e depois de bem seccas accommodallas em bocetas em
differentes papeis com todas as mais precau��es j� expostas sobre as
remessas das plantas terrestres.
Como por�m estas mesmas corallinas pelas ultimas observa��es se tem
conhecido constarem de pequenas casas, em que habit�o animaes, da mesma
sorte que as madreporas; far-se-ha tudo, o que acima advertimos, para
separar, conservar, e enviar estes animaes. He preciso advertir, que
devem remetter-se em vasos differentes os animaes, que se tir�o de
differentes substancias, para se n�o confundirem as suas especies, as
quaes differem entre si conforme a differen�a das massas, em que se
ach�o.
Al�m de todas estas produc��es marinhas ha outras muitas, que n�o s� tem
a f�rma exterior de plantas, mas que verdadeiramente o s�o, como o
sarga�o, e outras. Estas, como j� advertimos, devem lavar-se primeiro em
agoa doce; e depois de bem seccas, se encaixotar��, como as outras
plantas, ou como as borboletas, se forem demaziadamente delicadas.
As esponjas marinhas, cuja natureza ainda n�o he bastantemente conhecida
por falta de observa��es, mas que facilmente se distinguem das outras
especies pela sua f�rma exterior, merecem tambem ser conservadas nos
Gabinetes. Depois de lavadas em agoa doce, e estando bem enxutas e
seccas, se accommodar�� nos caix�es com algod�o, sarga�o ou estopa, sem
as comprimir muito; e observando as mais advertencias, que temos feito
sobre a prepara��o exterior das caixas, em que se remettem os mais
productos da natureza.
Parece escusado dar instruc��es sobre as remessas de algumas obras de
artificio dos naturaes do paiz, como de seus vestidos, armas,
instrumentos, &c.; porque todos conhecem, como estas e outras coisas
similhantes devem remetter-se de sorte que cheguem bem condicionadas.
Aquellas obras, que constarem de coisas meramente naturaes, e cujo unico
artificio consista na sua diversa disposi��o, como s�o algumas carapu�as
e cinturas de pennas de diversas cores, de que us�o alguns p�vos da
Africa e America, se remetter�� com as cautelas, que deixamos apontadas
sobre as remessas das mesmas produc��es naturaes, de que s�o compostas.
Finalmente as instruc��es antecedentes poder�� accommodar-se a alguns
productos, de que aqui se n�o faz men��o, conhecida a sua natureza, e a
classe a que pertencem.
*�. IV.*
_Das noticias pertencentes � Historia Natural_.
As noticias, de que devem incumbir-se os Correspondentes da Academia, ou
dizem rela��o immediata aos productos da natureza, que remettem para o
Museo; ou tem por objecto as coisas mais notaveis e curiosas do terreno,
em que se ach�o os ditos productos, e os costumes dos povos que o
habit�o.
Em quanto � primeira parte, que he a mais indispensavel, recommenda-se
aos mesmos Correspondentes, que dentro de cada hum dos caix�es, ou
bocetas mandem huma rela��o exacta de todas as coisas que cont�m.
Suppondo que cada huma das especies vem accommodadas separadamente, e
distintas com numeros diversos, na rela��o debaixo dos mesmos numeros
respectivos se declarar� 1.� o nome tanto indigeno, como estrangeiro da
dita especie, e o nome com que a costum�o distinguir os Naturalistas.
2.� Notar-se-h�o todas as suas qualidades mais attendiveis, e
particularmente as menos conhecidas. A respeito dos animaes, que
remette, expressar� todos os factos constantes e uniformes, que
distinguem mutuamente as differentes especies, como he tudo, o que
pertence � sua gera��o, lugares que habit�o, tempo de coito e de parto,
instinto, artificios, alimentos, doen�as, dura��o, &c.; mas com mais
particularidade se demorar� sobre as utilidades, que do uso delles p�de
resultar para a vida humana. Na rela��o das qualidades dos vegetaes
declarar� os lugares do seu nascimento, a esta��o propria da sua
planta��o, o tempo da sua frutifica��o, os usos, que a experiencia tiver
mostrado se podem fazer delles para o alimento, para a medicina, e para
todas as mais Artes. Entre as qualidades finalmente dos mineraes, de que
mandar as amostras, n�o se esquecer� o Correspondente de expressar os
lugares, em que se ach�o, a profundidade de seus veios, a natureza dos
terrenos circumvizinhos, e os usos, que j� tem no paiz, e os que podem
ter na Sociedade.
Se acaso se remetterem algumas obras de artificio dos naturaes do paiz,
devem da mesma sorte vir numeradas, e acompanhadas de huma rela��o, em
que se d� huma noticia circumstanciada dos seus nomes, e usos que lhes
d�o os mesmos p�vos, que dellas se servem.
Al�m destas rela��es particulares, que devem enviar-se dentro dos mesmos
caix�es das remessas, ser� conveniente que se mande � parte huma rela��o
geral, que as comprehenda todas pela ordem dos tres reinos da Natureza.
Desta deixar� o Correspondente huma copia fiel na sua m�o, para n�o
remetter segunda vez exemplares da mesma especie, ou para remetter
novamente os que se lhe pedirem.
Estas noticias particulares, de que acabamos de fallar, s� servem para
dar a conhecer os exemplares que se remettem; e como n�o interessa menos
conhecer o paiz que os produz, recommenda-se aos Correspondentes, que
mandem tambem huma descrip��o Geografica delle, que comprehenda com a
exac��o possivel tudo o que tiverem observado, e lhes parecer mais digno
da atten��o de hum Filosofo. E para procederem sem confus�o, podem
ajuntar debaixo de differentes titulos as suas observa��es; separando v.
g. as que pertencem � terra, as que pertencem ao ar, e as que pertencem
� agoa.
Para este effeito, depois de notarem a longitude e latitude do lugar a
respeito do Ceo, o seu clima, as suas dimens�es, a sua situa��o a
respeito dos pontos cardeaes do mundo, a sua figura, &c., passar�� a
coisas mais particulares. 1.� Em quanto aos montes, devem declarar, se
ha muitos, se poucos; se alguns delles s�o promontorios, e vulcanos;
qual he a altura de cada hum, tanto a respeito dos valles vizinhos, como
a respeito da superficie do mar; quaes as suas direc��es, quaes as
grossuras de seus bancos, e mais qualidades interiores, e exteriores.
2.� Em quanto � natureza do terreno devem exp�r, quaes s�o os animaes
terrestres, volateis, e insectos de todas as especies, que nelle se
produzem e habit�o; quaes os vegetaveis, que nelle nascem; quaes os
mineraes, que das suas entranhas se costum�o, ou podem extrahir em maior
abundancia; quaes finalmente s�o os usos, a que os habitantes do paiz
applic�o todos estes productos, e os que podem ter na Sociedade. 3.� Em
quanto aos homens, descrever�� a sua estatura e f�rma exterior, o feitio
do seu rosto, a sua for�a, e c�r naturaes; e al�m de todas estas
propriedades, notar�� nas mulheres a sua fecundidade ou esterilidade, a
facilidade ou difficuldade de seus partos; e finalmente as doen�as
communs aos dois sexos, apontando as causas, a que podem ser
attribuidas. 4.� Em quanto � estructura interior do terreno, devem
descrever as cavidades subterraneas, os crateres vulcanicos, as rimas,
os veios metallicos, as diversas camas de differentes especies de
terras, &c.
No que pertence ao ar, devem os mesmos Correspondentes indicar 1.� em
quanto �s suas qualidades, qual he o seu pezo especifico, qual a sua
subtileza ou crassicie, qual a sua seccura ou humidade, quaes os seus
gr�os de calor ou de frio. 2.� Em quanto aos meteoros do ar, devem
mostrar, as suas especies mais commuas, a ordem com que se succedem huns
aos outros, e o tempo da sua dura��o; mas particularmente declarar��,
quaes s�o os ventos geraes e particulares, ou menos frequentes; qual em
fim o numero, principio e dura��o das esta�oes, que pelo decurso do anno
vari�o regular, ou irregularmente no paiz. 3.� Em quanto aos effeitos do
mesmo ar, devem declarar-se as doen�as tanto epidemicas, como
ordinarias, a que est�o mais commummente sujeitos os habitantes do paiz,
e que trazem a sua origem da intemperan�a do ar.
No que pertence � agoa, he preciso indicar 1.� em quanto ao mar, a sua
profundidade, o pezo especifico de suas agoas recolhidas em diversas
distancias e alturas; a differen�a do seu sabor, conforme a differen�a
dos sitios; a variedade de peixes, insectos, plantas, e outras
produc��es marinhas, que nelle se ach�o; o periodo de suas mar�s
combinado com as varia��es da Lua, &c. 2.� Em quanto aos rios,
descrever�� os mais notaveis, declarando os seus nascentes, o seu curso,
as suas inunda��es periodicas e extraordinarias, as suas fozes; os
peixes, insectos e plantas que produzem; e finalmente as materias mais
raras, que trazem comsigo as suas correntes dos sitios, por onde pass�o.
3.� Al�m das fontes mais notaveis, e indispensavelmente todas as
mineraes com huma exacta exposi��o das suas qualidades e virtudes,
descrever�� todos os lagos, sorvedouros, correntes subterraneas; &c. 4.�
Se o paiz for vizinho ao mar, devem tirar hum desenho claro das suas
costas; e declarar todas as varia��es, que nellas se observ�o nas
diversas esta��es do anno. Por conclus�o, todas as observa��es, que
tiverem feito sobre o fysico do paiz, ser�o bem acceitas; principalmente
aquellas, que poss�o de algum modo ser uteis para o augmento do
commercio e das Artes.
Para satisfazer a este importantissimo fim, que a Academia se prop�e,
n�o ser� menos conveniente, que os seus Correspondentes ajuntem �s
noticias Geograficas do fysico do paiz todas as que puderem alcan�ar,
depois de serios exames, relativas ao moral dos p�vos que o habit�o. E
para observarem nesta rela��o a ordem, que em tudo he necessaria,
poder�� reduzir todas as noticias, que examinarem, a titulos diversos,
preferindo sempre a divis�o mais natural; v.g. Religi�o, Politica,
Economica, Artes, Tradi��es, &c.
Em quanto � Religi�o, devem exp�r com toda a sinceridade 1.� as id�as
geraes que domin�o em todo o paiz sobre a natureza da Divindade, sobre
as suas obras, e sobre o culto que lhe he devido; 2.� as seitas
diversas, e os pontos em que differem humas das outras; e juntamente os
effeitos, que costum�o resultar da diversidade de sentimentos nesta
materia; 3.� a f�rma do seu culto, a simplicidade ou extravagancia de
suas ceremonias, os seus casamentos, os seus lutos e funeraes, os seus
sacrificios, e finalmente todas as suas supersti��es.
Em quanto � Politica, devem explicar 1.� a f�rma do seu governo; a
qualidade de suas leis, se as tiverem; o modo de administrar a justi�a
na distribui��o dos premios e castigos; o numero e qualidade das
pessoas, em quem reside a authoridade suprema; 2.� a f�rma de seus
contratos, e os ritos, que costum�o acompanhallos; 3.� as suas guerras,
o modo de as fazer, as armas de que us�o.
Em quanto � Economica, devem referir 1.� a maneira de educar os filhos,
a qualidade e f�rma de suas habita��es, os seus mais communs exercicios;
2.� os seus alimentos, e o modo de os preparar, a materia e feitio de
seus trajes; 3.� as propriedades da sua lingua, e f�rma dos caracteres,
se usarem de algum genero de escritura.
Em quanto �s Artes, mostrar�� 1.� o estado da sua agricultura, os usos e
defeitos de seus instrumentos de lavoura; 2.� o modo de fazerem as suas
ca�as e pescas; 3.� as plantas, de que se servem para sustento, vestido,
remedios, tintas, &c.; 4.� os animaes que empreg�o no trabalho, e em
outros servi�os domesticos; 5.� os mineraes que extrahem da terra, os
usos a que os applic�o, e o modo de os reduzir a esses mesmos usos; 6.�
a perfei��o ou imperfei��o das artes, manufacturas, e de todo o genero
de industria, e commercio que houver no paiz.
Em quanto �s Tradi��es, devem examinar 1.� a sua origem, antiguidade,
universalidade, probabilidade ou extravagancia; 2.� o modo de as
conservar, e defender; 3.� se no paiz houver algum genero de monumento,
se dar� delle huma exacta descrip��o. Finalmente dar-se-ha huma id�a do
melhor modo possivel dos costumes dos P�vos, cuja noticia possa influir
de alguma sorte no Bem da Sociedade.
FIM.