,,verdadeiro ,,metodo ,,de ,,estudar1 ,,para ,ser util ,republica1 e ,igreja3 ,,proporcionado ,ao estilo1 e necesidade de ,portugal4 ,,exposto ,em varias cartas1 escritas polo ,r4 ,p4 99 99 99 ,barbadinho da ,congregasam de ,italia1 ao ,r4 ,p4 99 99 99 ,doutor na ,universidade de ,coimbra4 ,,tomo ,,primeiro4 ,illustrao ,,valensa ,,na ,,oficina ,,de ,,antonio ,,balle4 ,,ano ,,mdccxlvi4 ,,com ,,todas ,,as ,,licensas ,,necesarias1 c4 ,,aos ,,reverendisimos ,,padres ,,mestres1 ,,da ,,veneravel ,,religiam ,,da ,,companhia ,,de ,,jezus4 ,no ,reino1 e ,dominio de ,portugal4 ,,antonio ,,balle ,,obzequiozamente ,,sauda4 ,saiem luz1 ,reverendisimos ,padres1 as cartas eruditas1 de um autor moderno3 as quais at agora corrram manuscritas1 por algumas maons3 mas chegando s minhas1 e conhecendo eu1 que podiam utilizar a muitos1 me-rezolvi impremi-las4 ,o argumento delas este4 ,certo ,religiozo da ,universidade de ,coimbra1 omem mui douto1 como mostra nas suas cartas2 pedio a um ,religiozo ,italiano1 seu amigo1 que vivia em ,lisboa2 que lhe-dse algumas instrusoens1 em todo o genero de estudos4 ,o que o dito ,barbadinho executa1 em algumas cartas3 explicando-lhe em cada-uma1 o que lhe-parece3 e acomodando tudo1 ao estilo de ,portugal4 ,este autor escreveo-as1 sem nem menos suspeitar1 que se poderiam impremir3 como consta de alguns periodos destas1 que nam impremi2 e de outras que conservo1 em que declara com mais individuasam1 o motivo desta conrespondencia3 e explica varias coizas1 que aqui nam se-acham4 ,onde1 para consolar o dito autor1 que nam sei se ainda vive1 e fazer o que dezejava2 nam impremi senam as que me-parecram necesarias3 e ainda nestas ocultei os nomes dos conrespondentes1 e de algumas pesoas1 que nelas se-nomiavam3 parecendo-me justo e devido1 nam revelar os segredos1 das conrespondencias particulares3 principalmente1 quando podia conseguir o fim1 de utilizar o ,publico1 sem prejuizo de terceiro4 ,as cartas encadeiam tam bem umas com outras1 que se-podem chamar1 um metodo completo de estudos4 podem servir para todos2 mas especialmente sam proporcionadas1 ao estilo de ,portugal3 pois este era o fim do autor4 ,protesta ele nas mesmas cartas ineditas1 que nam dera em varias coizas1 melhor metodo2 porque temia1 que o seu amigo mostrse as cartas1 a pesoas preocupadas3 as quais nam fariam nada1 se lhe-aconselhse tudo1 o que praticam em outros ,reinos3 e que por iso se-acomodava ao gosto1 do paz em que estava4 ,e nam cesava de encomendar-lhe1 que as-nam-lese a omens1 que interpretasem mal as suas palavras2 e as-aplicasem1 a outro sentido4 ,e querendo eu agora impremir estas cartas1 a quem as-devo dedicar1 senam a ,,vv4 ,,rr48 ,prezumo1 e com muita razam1 que se o autor ouvse de publicar estes escritos1 a ninguem mais os-ofereceria1 que a esa sagrada ,religiam3 visto mostrar a cada paso1 o respeito e venerasam1 que lhe-profesava4 ,e sendo eu nam menos propenso1 e obrigado a toda a ,companhia2 quero tambem mostrar-lhe o meu reconhecimento1 nesta pequena oferta4 ,se a minha posibilidade dse mais1 mais faria3 mas as forsas nam conrespondem aos dezejos3 e ,,vv4 ,,rr4 costumam estimar mais a vontade1 que as ofertas4 ,alem diso1 por todos os titulos deviam estas cartas1 ser consagradas ao seu nome4 ,sam ,,vv4 ,,rr4 aqueles1 que s podem ajudar1 os pios dezejos deste autor3 aqueles1 que s tem forsas1 para iso3 e finalmente aqueles1 que mais que ninguem dezejam1 o adiantamento da ,mocidade1 e se-cansam1 para o-conseguir4 ,acrecento1 que o autor confesa1 que tudo aprendra1 com a diresam desa ,roupeta1 e polos seus autores4 ,e asim1 torno a dizer1 por todos os titulos estes livros1 se-lhe-devem dedicar4 ,quam oportuna ocaziam se-me-oferecia agora1 de referir os louvores desa veneravel ,religiam1 se a moderasam1 e umildade de ,,vv4 ,,rr4 nam me-tapse a boca6 ,quem tem dado mais1 e mais ilustres escritores a ese ,reino1 que a ,companhia8 ,quem tem promovido com mais empenho os estudos1 que os seus mestres8 ,onde florecem as letras com mais vigor1 que nos seus ,colegios8 ,que omem douto tem avido em ,portugal1 que nam bebse os primeiros elementos1 nas escolas desa ,religiam8 ,nam leio as istorias dese ,reino1 e ,conquistas1 que nam veja a cada paso1 exemplos memoraveis1 da grande piedade1 da suma erudisam1 do inexplicavel zelo dos seus ,religiozos6 ,,vv4 ,,rr4 que abrram no-,oriente as portas1 ao ,evangelho1 tem trabalhado com tal empenho1 na vinha do ,senhor2 que se contamos somente os ,povos convertidos1 tem conquistado para a ,f1 e tambem para o ,reino1 imperios vastisimos4 ,nem sei a quem atribua maior gloria3 se s armas vitoriozas dos ,portuguezes1 no ,oriente2 se s pias exortasoens1 e fadigas1 dos seus ,misionarios4 ,mas se mais gloriozo o triumfo1 que se-consegue sem sangue1 somente com a forsa da eloquencia1 sem prejuizo dos ,povos1 e com grande utilidade da ,republica3 ficam ,,vv4 ,,rr4 muito mais gloriozos1 que os mesmos ilustres ,generais ,portuguezes2 pois conseguram a vitoria1 nam dos corpos1 mas dos animos4 ,vencram ,,vv4 ,,rr4 nam derramando o sangue dos outrs1 mas o proprio3 e com ele escrevram o seu nome1 nam s nos livros da fama1 e destas istorias caducas2 mas no-mesmo livro da-vida3 e levantram um padram naquela patria1 em que as virtudes se-estimam3 premeiam-se dignamente os servisos3 e a gloria dos vitoriosos nam morre4 ,nam me-volto para a ,africa1 para a ,america1 que nam veja os ,religiozos da ,companhia1 convertendo os idolatras1 ajudando os fieis1 ensinando a todos4 ,a mesmo em ,portugal1 quem que nam seja obrigado1 ,companhia2 e nam experimente os influxos1 desa benigna ,religiam8 ,quem ja mais chegou1 a uma das cazas desa ,religiam1 para buscar um confesor1 a qualquer ora da noite2 que nam ficse consolado8 um ,pregador1 para qualquer festividade2 que nam fose obedecido1 ainda sem interese8 quem foi pedir conselho1 em materias de conciencia2 que nam tivese promta resposta8 quem quiz um parecer escrito1 em qualquer materia que o-quizese2 que nam tornse satisfeito8 ,se olho para as prizoens1 vejo os ,religiozos da-,companhia consolando os aflitos1 procurando os livramentos1 confesando1 e confortando a todos4 ,se olho para as prasas1 e ruas publicas1 vejo os mesmos ,religiozos1 doutrinando os ignorantes1 excitando a emulasam nos-meninos1 atraindo com suave maneira os que pasam1 para ouvirem a verdade ,evangelica4 ,se olho para as igrejas1 vejo-os frequentes no confesionario1 exortando os fieis em dias determinados1 exatisimos nas funsoens divinas1 que celebram com toda a magnificencia1 e devosam4 ,se olho para as escolas1 vejo-os ensinando aos meninos com grande amor1 e paciencia1 nam s as letras1 mas a piedade1 que em toda a ocaziam lhe-inspiram4 ,as mesmas portarias das suas cazas1 ensinam com o exemplo2 nos muitos martires1 e doutos1 que nelas vemos pintados2 que muda1 mas eficazmente persuadem1 seguir a mesma estrada3 e ensinam com a doutrina1 nos livros que nelas incontramos1 que suavemente inclinam a vontade1 para abrasar a vida perfeita4 ,finalmente se olho para qualquer ,religiozo da ,companhia1 vejo o retrato da continencia1 da moderasam1 da mansidam1 da afabilidade1 do respeito3 coizas que me-infundem um sagrado terror4 ,bemdita ,religiam1 em que o ,prelado nam se-distingue do ,sudito1 senam em ter mais trabalho1 e suportar o pezo1 do governo economico4 ,ninguem aspira aos governos3 ninguem busca meios de conseguilos3 sinal certo1 que se-administram com os olhos em ,deus1 e na sua obrigasam4 ,nam distinsam de magisterios3 nam izensam de graos4 ,o mesmo que ensina a ,teologia na cadeira1 ensina o catechismo nas prasas3 o mesmo que confesa os ,grandes1 confesa os ,pequenos3 o mesmo ,prelado que manda aos mais1 obedece1 e serve nas ocazioens a todos4 ,finalmente todos conspiram1 para dar gloria a ,deus1 utilidade ao proximo1 e servir no que podem ,republica4 ,nam quero trazer memoria1 o que esa sua ,religiam tem feito1 e faz1 nas mais partes da ,europa ,catolica4 ,deixo de parte1 a inviolavel uniam que sempre teve1 com a ,s ,apostolica3 e as persiguisoens1 e censuras criticas1 que tem sofrido por esa cauza4 ,nem menos falo na gloria1 que rezulta ,companhia1 de ver que tantas ,religioens1 e ,congregasoens1 que se-fundram despois dela1 todas a-tem tomado por treslado3 e nam julgam merecer com justisa1 os louvores dos omens pios1 senam quando se-avizinham mais1 ao seu instituto4 ,este um milagre continuo daquele bemaventurado espirito1 que la no-,ceo est sempre pedindo a ,deus1 pola propagasam1 e aumento da ,religiam que ca deixou3 unir tantas vontades1 para imitarem uma ,religiam1 que nam conta longa serie de seculos1 mas que a mais moderna1 entre as famozas4 ,nam1 nam quero referir mais singularidades4 ,intraria na verdade em uma materia vastisima1 que me-daria argumento1 para muitos e dilatados panegiricos2 mas excederia os meus limites4 ,s considero1 o que faz em ,portugal1 e o que pratca no seu dominio4 ,estas coizas ocupam de sorte a minha ideia1 e admirasam1 que me-nam-permitem considerar o demais1 aindaque seja grande e singular4 ,nem tem que me-dizer1 que as outras ,religioens sagradas todas se-cansam em obzequio da ,igreja3 ensinam muito1 e edificam muito4 ,confeso1 que todas tem as suas singularidades3 todas merecem ser louvadas3 todas dam gloria a ,deus1 e servem ,igreja3 mas cadauma no seu genero4 ,nam vejo alguma1 que tenha todas as prerogativas1 que se-acham juntas1 na ,religiam da ,companhia3 e que as-pratique1 nam por vaidade1 nam por outro interese mundano2 mas por amor de ,deus1 e por caridade do proximo4 ,estam todos os ,portuguezes tam persuadidos1 desta verdade1 que quem quizese dizer o contrario1 sera publicamente escarnecido4 ,os mesmos ,monarcas de ,portugal1 que sabem justamente estimar a ,virtude2 nam costumam intregar1 a diresam da sua conciencia1 senam aos ,religiozos da ,companhia4 ,desde que ,,vv4 ,,rr4 intrram neses ,reinos1 conspirram todos eses ,soberanos a reconheclos1 como prudentisimos diretores1 da conciencia dos omens3 e por iso os-elegram1 para seus ,confesores4 ,os ,principes1 a ,caza ,real1 os ,grandes1 a maior parte dos omens de letras1 e empregos1 todos praticam o mesmo4 ,nam posivel1 que se-inganem tantos omens1 de diferentes gerarchias1 e de incontrados intereses1 sem que os-obrigue a experiencia1 e a verdade4 ,em todos os seculos1 e entre todos os omens de juizo1 o consenso de todos1 foi argumento irrefragavel1 da evidencia4 ,todos os omens prudentes louvam a ,,vv4 ,,rr4 todos os-engrandecem1 todos os-buscam1 todos se-servem das suas prendas1 e virtudes3 ,e asim sam ,,vv4 ,,rr4 tais como eles intendem4 ,mas eu ,,pp4 ,,rr4 ja sa fra do-meu argumento4 ,comesei uma carta1 e acho-me engolfado em um elogio3 ca naquilo mesmo que dezejava evitar4 ,nam sei se ofendi a sua moderasam1 com as minhas expresoens3 que verdade que nacem do corasam1 e sam proferidas com toda a sinceridade1 de um bom amigo2 mas emfim sam elogios4 ,nam obram ,,vv4 ,,rr4 polos louvores3 mas por um fim mais alto1 mais grande1 mais admiravel4 ,nam obram bem para o-parecerem1 e paraque todos o-conhesam2 mas porque o seu instituto asim obriga3 asim foram criados3 vivem persuadidos diso mesmo3 e nam podem obrar de outra sorte4 ,este o elogio1 que aquele encarecido ,romano#a deu la1 ao seu ,catam ,uticense1 com adulasam excesiva3 mas que eu intendo1 que s se-pode aplicar a ,,vv4 ,,rr4 nam com lizonja1 mas com verdade notoria2 porque o-digo publicamente1 e a todo o mundo4 ,asim 1 nam obram bem os ,religiozos da ,companhia1 para agradar ao mundo1 e conseguir os seus louvores3 e dejando eu fazer-lhe a vontade1 nam devo opor-me aos seus dezejos4 ,verdade 1 que falando desa ,religiam1 dificultozamente podia deixar de expremir1 alguma coiza do que intendo4 ,mas ,,vv4 ,,rr4 nam mo-permitem2 eu me-desdigo1 e dou por nam dito1 quanto at aqui tenho significado4 ,s digo1 que lhe-ofereso1 e dedico as cartas de um autor1 que conforme julgram os omens doutos1 que as-lram1 conheceo o verdadeiro modo de estudar3 e para o-conseguir1 deu excelentes doutrinas3 e quem as-ler com animo dezapaixonado1 e tiver voto na materia1 achar nelas tudo o que necesario1 para aquistar o bom gosto literario2 quero dizer1 um juizo critico1 que ensine abrasar somente o que se-deve1 em todo o genero de estudos4 ,acho nelas algumas vezes1 certas palavras1 e diversidade na uniam dos-,pronomes1 e outras particulas com os ,verbos c4 conforme o idiotismo ,italiano2 que o autor pode ser que mudse1 se lhe-puzese a ultima mam3 porque me-parece1 que era bem informado da-lingua ,portuguesa1 e nam pecou por-ignorancia4 ,mas se nelas algumas coizas que emendar1 e acrecentar1 quem melhor o-pode fazer1 que ,,vv4 ,,rr4 ,comque ponho-as nas suas maons1 e ofereso-as ao seu criterio3 e s direi o que me-pertence1 a cerca da prezente edisam4 ,o autor segue uma ,ortografia particular1 7que eu1 movido das mesmas razoens1 abrasei7 e que ainda nam est bem recebida1 nese ,reino3 e asim para nam parecer novidade1 ser precizo ler as cartas1 como se-acham impresas3 observando bem a primeira1 na qual d razam1 da sua ,ortografia4 ,mas como em outras cartas explica varias coizas1 que aqui nam se-acham2 devo declarlas1 paraque os leitores formem conceito1 das opinioens do autor4 ,em certa carta1 escrita entre a primeira1 e segunda do primeiro tomo1 diz1 que nam obstante que disse#b1 que a linha se-pode pr entre as disoens1 para evitar os equivos3 v4g4 na particula por1 quando significa cauza1 para a-distinguir do-verbo pr3 ou tambem nas particulas no1 do1 da2 para as-distinguir dos sustantivos n1 d1 e do verbo1 d1 ds3 ,contudo observando ao despois1 que podia embarasar os principiantes1 ver as linhas nestas particulas1 que sam frequentes2 julgra mais acertado1 tirlas das ditas particulas3 como tambem de todas as terminasoens plurais dos verbos3 v4g4 disera-mos1 amaria-mos1 quizer-mos1 fizer-des c4 pola razam que estas terminasoens sam mui frequentes1 e todos as-intendem mui bem4 ,acrecenta1 que tambem nam se-deve pr1 naquelas palavras e verbos1 em que se-acrecenta uma letra1 para evitar a uniam de vogais1 que fasam equivocos1 v4g4 fazla1 quando vale o mesmo1 que fazer-a1 isto 1 fazer esa coiza4 ,tambem quando se-introduz o pronome no verbo3 v4g4 dirmem1 que vale o mesmo que1 diram-me3 falosa1 obrigalosa1 que muitos escrevem mal asim2 falos-ia1 obrigalos-ia3 porque a dita palavra compoem-se destas3 faria-os1 obrigaria-os3 acrecentando um l1 para facilitar a pronuncia das-vogais3 onde separando1 ia1 separam uma parte necesaria da palavra1 e fazem erro4 ,nestes cazos diz1 que basta o acento em fazla1 dirmem1 obrigalosa4 ,aindaque na primeira e semelhantes1 quando sam imperativos1 faze-la1 quere-la c4 que valem1 faze-a1 quere-a2 nam reprova que se-ponha a linha1 para mostrar que esdruxola1 e que se-pronunca diferentemente4 ,asimque para facilitar a ,ortografia1 somente deixa as ditas linhas nestes cazos4 ,i4 ,na uniam dos pronomes com os verbos1 ou das particulas que servem de pronomes1 e sam diferentes das terminasoens dos verbos3 v4 g4 fazemos-lhe1 lhes-fazem1 nos-dizem1 dizem-no1 o-dizem1 as-querem4 ,,ii4 ,nos verbos impesoais1 que unem com o reciproco3 fazem-se1 chamam-se1 se-nam-fazem3 ou tambem nestes2 nos-explicarmos1 nos-virmos c4 e outras unioens semelhantes3 como no verbo quando une com a particula se3 porque sempre se-pronunca unido3 se--de1 m-de c4 ,tudo isto advertra confuzamente1 no lugar apontado3 mas aqui o-explica melhor4 ,e com efeito tendo escrito com as linhas1 as primeiras trez cartas1 nas seguintes observa as regras1 que aqui d4 ,e devendo eu1 ou tirar as linhas de todas1 ou polas em todas1 para proceder coerente2 segui esta segunda parte3 aindaque em algum plural de verbo1 alguma vez a-nam-puz4 ,a quem nam agradar1 observe as regras que o noso autor d2 que eu tambem observo4 ,adverte na mesma carta o autor1 que sera utilisimo1 que os omens doutos1 seguindo a regra da pronuncia1 puzesem i em muitos verbos1 e nomes que deles nacem1 que se-pronunciam geralmente com i2 e nam se-podem pronunciar com e1 sem se-esforsar3 v4g4 emprestar1 engrandecer1 envergonhar c4 ,diz porem1 que ele s o-praticou em poucos1 e mais comuns1 v4g4 intrar1 incontrar1 inganar1 intender1 ingenhar1 importar1 informar1 e algum outro rarisimo4 ,o que fez1 para nam escandalizar de um jato os leitores1 pouco informados destas coizas3 mas aconselhava1 que pouco a pouco se-introduzisem com i4 ,como tambem se-escrevesem com e1 alguns infinitos1 v4g4 admetir1 permetir1 defirir1 c4 nam obstante se pronunciarem com i1 os prezentes c4 ,em algumas partes1 de duas ou trez palavras compoem o autor uma s3 damesma1 contantoque1 namobstanteque4 ,outras vezes escreve-as separadas3 com tanto que1 nam obstante que1 c4 o que eu conservei na impresam4 ,mas diz o autor que o-fez1 para mostrar1 que se-podem unir1 e separar1 como cadaum quizer3 ,o que fazem os seus ,italianos1 em varias palavras2 e os mesmos ,latinos em paulo minus1 nihilo minus1 quam ob rem1 et enim c4 que escrevem ou separadas1 ou juntas1 como lhe-parece mais elegante4 ,mas o noso autor comumente escreve-as unidas4 ,algum erro de ,ortografia segundo os tais principios1 se-cometeo nesta edisam3 o que moralmente nam se-podia evitar1 nam sendo o mesmo autor1 o que correge a impresam4 ,estes parece-me que se-podem reduzir1 a varios capitulos4 ,i4 ,puzeram algumas vezes acento agudo1 em lugar do grave2 e polo contrario3 o que o autor distingue mui bem4 ,,ii4 ,falta o acento em algumas palavras1 em que o autor costuma polo1 ou para evitar equivoco1 ou para facilitar a pronuncia3 v4g4 sera1 verbo2 e seria adjetivo3 escrevram1 preterito remoto2 e escreverm1 futuro3 frma1 nome da escola2 e forma1 nome de artifice3 c4 aindaque neste particular o contexto1 comumente tira o equivoco4 ,,iii4 ,acha-se alguma linha1 em parte onde nam devia1 ou falta onde devia3 mas sam cazos mais raros4 ,,iv4 ,varias vezes escrevram i1 por e1 em admitir1 defirir1 prefirir1 permitir c4 que o autor sempre escreve por e1 admetir c4 conformando-se1 segundo diz1 com a pronuncia comua1 e facil1 que sempre exprime o e1 tirando em bem poucos4 ,polo contrario puzeram tambem e por i1 em ingano1 incontrar1 intrar1 inganar c4 que o autor sempre escreve por i1 pola mesma razam da pronuncia4 ,v4 ,falta alguma virgula onde devia estar1 segundo os principios do autor3 e alguma se-acrecentou4 ,,vi4 ,dividram algumas palavras mal no-fim das regras3 v4g4 min-ha1 con-heso1 mel-hor1 ba-sta1 c4 devendo porem o n1 e l das primeiras unir-se com h2 e o s da segunda com o a4 ,em inco-gnito1 per-spetiva1 e outras poucas que tem origem ,latina1 ou sam quazi ,latinas2 intendo que melhor1 dividilas nesta frma1 seguindo o estilo ,latino4 ,estes erros sucedram mais frequentemente1 nos principios de ambos os tomos1 que se impremiam juntos3 tempo em que o corretor nam tinha toda a noticia1 da ,ortografia do autor4 ,mas como os ditos erros nam pervertem o sentido do-discurso2 por iso os-nam-apontei nas erratas4 ,e asim s apontei aqueles1 que me-parecram que mudavam o sentido1 ou que eram totalmente contrarios1 ao estilo do autor1 ou comum da dita lingua4 ,com as reflexoens que aqui aponto1 pode o leitor cortez emendlos1 quando s'incontrarem3 tendo vista esta regra3 ,que achando-se diversidade em alguma palavra1 que s vezes tem uma letra1 e n'outras ocazioens letra diferente2 observe o que mais frequente2 e saiba1 que iso o que o autor aprova4 ,advirto alem disto1 que os que impremram o primeiro tomo1 nam tinham ,u vogal maiuscolo pequeno1 e asim servram-se deste ,u1 para vogal2 e d'estoutro ,v1 para consoante4 ,no segundo tomo comumente se-distinguem na figura4 ,tambem advirto1 que a minha imprensa nam tinha estas duas linhas 1 para pr no-fim da-regra1 na divizam forsada das-palavras3 7o que sera necesario para distinguir1 o que o autor aponta1 na primeira carta7 e asim puz somente1 a linha simplez4 ,o que advirto ao leitor1 paraque nam estranhe1 faltarem aquelas duas linhas1 que o autor encomenda1 e pratca3 aindaque com uma s linha1 muito bem se-conhece1 e distingue o sentido4 ,finalmente advirto1 que puz alguns titulos das materias1 no corpo de algumas cartas4 v4g4 na da ,gramtica1 ,medicina1 c4 o que fiz1 para facilitar a inteligencia aos leitores1 e distinguir as materias4 ,isto 1 ,,rr4 ,,pp4 o que tenho que advertir nesta carta1 sobre a impresam1 e inteligencia das-ditas cartas4 ,o mais que se-contem nelas1 compendiei nos-sumarios1 que puz no-principio de cadauma1 e tambem se-acham no-,index1 de cada tomo4 ,nem me-pertence amim formar juizo delas1 quando as-ofereso a pesoas tam doutas1 de quem eu devo receber os ditames4 ,onde acabo a prezente carta1 repetindo de novo a ,,vv4 ,,rr4 a venerasam que lhe-tenho1 e dezejando-lhe as maiores felicidades1 e a toda a sua ,religiam4 ,,notas ,,de ,,rodap3 #a ,velleio ,paterculo4 #b ,carta ,i4 pag4 #cf4 ,,index ,do que contem as ,cartas do primeiro ,tomo4 ,,carta ,i4 ,motivo desta correspondencia3 e como se-deve continuar4 ,mostra-se1 com o exemplo dos ,antigos1 a necesidade de uma ,gramatica ,portugueza1 para comesar os estudos4 ,d-se uma ideia1 da melhor ,ortografia ,portugueza3 e responde-se aos argumentos contrarios4 ,que o ,vocabulario do ,padre ,bluteau se-deve reformar1 para utilidade da ,mocidade4 ,pagina #a4 ,,carta ,,ii4 ,danos que rezultam da ,gramatica ,latina1 que comumente se-ensina4 ,motivos porque nas escolas de ,portugal1 nam se-melhora de metodo4 ,nova ideia de uma ,gramatica ,latina facilisima1 com que1 em um ano1 se-pode aprender fundamentalmente ,gramatica c4 pag4 #ei4 ,,carta ,,iii4 ,abuzos que se-introduzram em ,portugal1 no ensinar a lingua ,latina4 ,mao modo que os mestres tem1 para instruir a ,mocidade4 ,propoem-se o metodo1 que se-deve observar1 para saber com fundamento1 e facilidade1 o que pura ,latinidade4 ,necesidade da ,geografia1 ,cronologia1 e ,istoria1 para poder intender os livros ,latinos4 ,apontam-se os autores1 de que os mestres se-devem servir na ,latinidade3 e como devem servir-se deles2 e expliclos com utilidade2 e as melhores edisoens4 ,aponta-se o modo de cultivar a ,memoria1 e exercitar o ,latim nas escolas4 pag4 #gd4 ,,carta ,,iv4 ,necesidade das linguas ,orientais1 principalmente ,grega1 e ,ebraica1 para intender as letras ,umanas3 mas muito principalmente1 para a ,teologia4 ,modo de as-aprender4 ,utilidade da lingua ,franceza1 e ,italiana1 para ser erudito com facilidade1 e sem despeza4 pag4 #aab4 ,,carta ,v4 ,discorre-se da utilidade1 e necefidade da ,retorica4 ,mao metodo com que se-trata em ,portugal4 ,vicios dos ,pregadores2 que sam totalmente ignorantes de ,retorica4 ,que absolutamente deve deixar o antigo estilo1 quem quer saber ,retorica4 pag4 #abd4 ,,carta ,,vi4 ,continua-se a mesma materia da ,retorica4 ,fazem-se algumas reflexoens1 sobre o que verdadeira ,retorica1 e origem1 dela4 ,que coiza sejam figuras1 e como devemos uzar delas4 ,diversidade dos estilos1 e modo de os-praticar3 e vicios dos que os-nam-admitem1 e praticam4 ,qual seja o metodo de persuadir4 ,qual o metodo dos panegiricos1 e outros sermoens4 ,como se-deve ensinar ,retorica aos rapazes1 e ainda aos mestres4 ,algumas reflexoens1 sobre as obras do ,p4 ,antonio ,vieira4 pag4 #aec4 ,,carta ,,vii4 ,fala-se da ,poezia4 ,os ,portuguezes sam meros versejadores4 ,prejuizos dos mestres1 de nam poetarem em ,vulgar4 ,que coiza seja ingenho bom1 e mao4 ,especies de obras de mao ingenho1 em que caram alguns ,antigos1 mas principalmente os ,modernos4 ,necesidade do ,criterio1 e ,retorica1 em toda a sorte de ,poezia4 ,primeiro defeito de ,poezia1 a inverosimilidade3 exemplos4 ,segundo defeito1 os argumentos ridiculos4 ,reflexoens particulares1 sobre as compozisoens pequenas ,portuguezas2 que nam podem dar nome1 a um omem3 defeitos da ,nasam1 provados com exemplos4 ,reflexoens sobre o ,epigrama ,latino1 ,elogios1 inscrisoens ,lapidares1 ,eglogas1 ,odes1 ,satiras1 poemas ,epicos4 ,que os ,portuguezes nam conhecram as leis1 do poema ,epico2 prova-se com ,camoens1 ,chagas1 ,botelho de ,morais4 ,aponta-se o metodo1 com que se-devem regular os rapazes1 no-estudo da ,poezia4 ,nova ideia de uma ,arte ,poetica1 util para a ,mocidade4 pag4 #bae4 ,,carta ,,viii4 ,trata-se da ,filozofia4 ,mao metodo com que se-trata em ,portugal4 ,advertencia das outras ,nasoens1 em procurar a ,ciencia4 ,necesidade da istoria da ,filozofia1 para se-livrar de prejuizos4 ,ideia da serie filozofica4 ,danos e impropriedades da ,logica1 que comumente se-explica4 ,d-se uma ideia1 da boa ,logica4 pag4 #bgf4 ,illustrao ,,carta ,,primeira4 ,,sumario4 ,motivo desta conrespondencia3 e como se-deve continuar4 ,mostra-se1 com o exemplo dos-,antigos1 a necesidade de uma ,gramatica ,portugueza1 para comesar os estudos4 ,d-se uma ideia1 da-melhor ,ortografia ,portugueza3 e responde-se aos argumentos contrarios4 ,que o ,vocabulario do-,padre ,bluteau se-deve reformar1 para utilidade da-,mocidade4 ,meu amigo e senhor3 ,nesta ultima carta1 que recebo de ,v4 ,p4 entre varias coizas que me-propoem1 a principal1 o dezejo que tem1 de que eu lhe-diga o meu parecer1 sobre o metodo dos-estudos deste ,reino3 e lhe-diga seriamente1 se me-parece racionavel1 para formar omens1 que sejam utis1 para a ,republica1 e ,religiam3 ou que coiza se-pode mudar1 para conseguir o dito intento4 ,alem disto1 quer tambem1 que eu lhe-d alguma ideia1 dos-estudos das-outras ,nasoens1 que eu tenho visto4 ,quanto s outras proguntas1 parece-me que bastantemente respondo1 inviando-lhe o papel incluzo3 no-qual achar1 tudo o que queria saber4 ,mas polo que respeita ao negocio1 dos-metodos diferentes de estudos1 duvidei por-algum tempo1 se obedeceria a ,v4 ,p4 e tinha algumas razoens1 que me-pareciam forsozas2 suposta a grande pratica que tenho1 deste mundo1 e deste ,reino4 ,eu sou ,estrangeiro3 e com dificuldade me-explicarei em uma lingua1 que nam mamei no-berso4 ,que nas minhas cartas particulares1 eu cometa erros1 a bondade de ,v4 ,p4 mos-desculpa4 mas se eu escrever em materia1 que se-posa mostrar a outrem2 e me-fugir da-boca1 alguma expresam menos propria2 aver censores tam dezumanos1 que me-condenem1 por-escrever em lingua alheia1 talvez sem advertirem1 que iso est sucedendo todos os dias1 aos mesmos nacionais1 que frequentemente os-cometem4 ,alem disto1 sempre foi coiza odioza1 dar regras em caza alheia3 e lembrando-me eu de alguns1 que me-diseram muito mal1 do-grande serviso que fez ao ,reino o ,p4 ,bluteau1 compondo o seu ,vocabulario2 via de longe1 a tempestade que se-levantaria contra mim1 se este meu parecer tivese a infelicidade1 de sair das-maons de ,v4 ,p4 ,mas a maior razam era1 porque isto1 de emendar o mundo1 e principalmente o querer arrancar certas opinioens1 do-animo de omens envelhecidos nelas1 e consagradas ja por-um costume1 de que nam memoria2 negocio1 que excede as forsas de um s omem3 e principalmente de um omem1 de tam pouco merecimento1 e autoridade como eu4 ,e ,v4 ,p4 que tam versado na ,istoria1 pode trazer memoria1 mil exemplos destes1 que deram1 e ainda oje dam1 ao mundo ,literario1 materia de grande admirasam4 ,lembrou-me tambem1 que eu sou ,religiozo1 em uma ,religiam1 em que geralmente florecem pouco os estudos3 e que1 por-este principio1 nam faltariam omens1 ainda prezados de doutos1 que1 se chegasem a saber1 de quem eram as cartas1 as-desprezasem2 sem terem a paciencia1 de examinar as minhas razoens3 por se-persuadirem1 que certos acidentes exteriores1 de emprego1 vestido1 c4 conduzem muito1 para o merecimento das-obras3 e que1 sem pizar os ladrilhos de certas ,universidades1 nam se-pode fazer coiza boa4 ,estas1 e outras coizas1 que se me-ofereceram memoria1 me-tiveram1 como lhe-dise1 duvidozo4 ,finalmente as repetidas instancias que ,v4 ,p4 me-faz3 a sua grande autoridade3 e as plauziveis razoens que me-alega1 me-fizeram pegar na pena1 para escrever o meu parecer4 ,v4 ,p4 segura-me certas coizas1 que nam sam de pouca considerasam4 ,diz-me1 que oje muita gente do-seu parecer1 nam s entre os ,seculares1 mas tambem entre os ,regulares3 de que me-cita bons exemplos4 ,diz-me1 que o bom gosto nas ,artes1 e ,ciencias1 se-comesou a introduzir em ,portugal1 no-feliz reinado deste ,augusto ,monarca3 o qual nisto1 tem ajudado mais o ,reino1 que todos os seus antecesores4 ,finalmente promete-me1 que as minhas cartas1 nam sairm da-sua mam1 ao menos em meu nome4 ,com1 estas condisoens1 obedeso a ,v4,p4 e me-gloreio muito1 que um omem da-sua literatura1 nam despreze o parecer1 de um sugeito de tam pouca doutrina4 ,dividirei o argumento1 em varias cartas3 e como as minhas ocupasoens1 e molestias mo-permitirem1 irei comunicando a ,v4 ,p4 as minhas reflexoens4 ,devo porem1 nesta primeira carta1 fazer algumas protestas4 ,primeira3 ,que eu nam acuzo1 ou condeno1 pesoa alguma deste ,reino4 ,se s vezes nam me-agradam as opinioens1 nem por-iso estimo menos os sugeitos1 e autores1 distingo muito o merecimento pesoal1 do-estilo de cada um1 ou metodo que observa3 e poso fazer esta separasam1 sem ofender pesoa alguma4 ,esta reflexam para ,v4 ,p4 superflua1 pois conhese mui bem o meu animo2 e sabe1 que eu s pego na pena1 para lhe-dar gosto4 ,mas porque poder ler esta carta1 a algum ignorante1 ou malevolo2 que intenda1 que eu1 dizendo o que me-parece dos-estudos1 com isto digo mal1 da ,religiam da-,companhia de ,jezu2 que neste ,reino1 a que principalmente ensina a ,mocidade3 devo declarar1 que nam ese o meu animo4 ,eu venero esta ,religiam doutisima1 por-agradecimento1 e por-justisa4 ,por-agradecimento1 porque ese pouco que sei1 eles mo-ensinram3 e aindaque nas escolas nam aprendese tudo1 aprendi-o conversando com eles particularmente1 e lendo os seus autores4 ,sempre conservei com eles1 intrinseca amizade3 e disto conservarei uma memoria sempiterna4 ,por-justisa1 porque sendo todas as ,religioens veneraveis2 esta o- mais que todas1 segundo a minha opiniam4 ,parece que mandou ,deus ,igreja estes ,religiozos1 unicamente para utilidade dos-proximos1 pois eles ensinam a doutrina1 e piedade1 com grande amor1 e trabalho3 sacrificam-se polos ,fieis1 em todas as ocazioens3 e sam perpetuos defensores da-,igreja ,catolica1 como confesam os mesmos ,erejes4 ,estes sam os motivos da-minha venerasam1 e parcialidade por-eles4 ,mas asimcomo nem todos os ,jezuitas1 seguem as mesmas opinioens de doutrina1 mas permitem aos seus mesmos1 a liberdade de filozofar1 dentro dos-limites do-justo2 e uns sam contrarios de sentimentos a outros3 ,asimcomo alguns ,jezuitas ,estrangeiros1 tem reprovado diante de mim1 o metodo de ,portugal2 e alguns ,portuguezes me-confesram1 que o-seguiam por-necesidade1 e nam por eleisam2 e confesram limpamente1 que se-podia1 e devia emendar em muitas coizas3 7achar ,v4 ,p4 muitos1 que lhe-digam1 que aquela ,logica ,carvalha1 e ,barreta1 nam se-deviam explicar nas escolas1 mas coizas mais utis3 o que eu ouvi muitas vezes7 ,asim tambem nam ser maravilha1 que eu me-desvie em muitas coizas1 do-estilo que seguem1 os ,religiozos da-,companhia neste ,reino3 e reprove outras1 que observam alguns dos-seus autores4 ,para tudo teria exemplos na mesma ,companhia1 e tambem em ,portugal4 ,mas nam me- necesario tanto3 porque os mesmos ,jezuitas1 reconhecem de antemam esta verdade2 e sabem1 que1 sem injuriar uma ,religiam1 pode um omem1 ser de contrario parecer4 ,conhecem muito bem estes doutos ,religiozos1 que nestas diferensas de pareceres1 nam deve entrar o corasam1 porque estam fra da-sua jurisdisam3 e se-podem dar entre pesoas1 mui unidas de inclinasam4 ,os ,jezuitas todos sam prudentes3 e nenhum omem prudente ignora1 e contrareia estas coizas4 ,os individuos de uma comunidade1 nem todos sam de igual talento3 e as comunidades de uma ,religiam1 nem todas seguem o mesmo metodo4 ,alem diso1 aqui em ,portugal1 muita outra gente que ensina4 os outros ,religiozos1 ensinam os seus1 e os de fra4 os mestres seculares1 tambem ensinam4 ,e asim as minhas opinioens1 podem ter por-objeto1 nam uma s pesoa4 ,isto me-basta advertir1 a estas pesoas1 que querem saber mais que os autores3 e quererm explicar1 e interpretar mal as minhas palavras4 ,onde concluo1 que a todos venero1 e estimo mui particularmente3 somente direi1 o que me-parece se-devia fazer1 para poder instruir com fruto4 ,a segunda coiza 3 que eu nam me-cansarei1 em escrever ,portuguez elegante3 mas me-servirei das-palavras1 de que comumente me-sirvo1 no-discurso familiar4 ,nas materias de doutrina1 por-forsa devo servir-me1 de algumas palavras1 que nam sam ,portuguezas3 o que tambem fazem os ,latinos1 quando tratam semelhantes pontos4 porque no-estado em que as coizas estam1 nam se-servindo das-ditas palavras1 nam posivel1 explicar bem as materias4 ,e asim deve ,v4 ,p4 estar preparado1 para nam se-admirar1 de alguns termos novos2 e para me-desculpar1 os erros que posa cometer4 ,ocorre-me ainda terceira3 e vem aser1 que eu suponho1 que ,v4,p4 me-dispensa1 de citar todos os momentos autores1 de que tiro algumas das-noticias1 que lhe-diser4 com tanto que eu aponte1 o que necesario1 nam emporta quem o-diz4 ,basta que eu diga1 uma vez por todas1 que a major parte do-que digo1 experimentei eu mesmo3 outras coizas1 observei em terceira pesoa2 ou li em autor aprovado4 ,v4,p4 olhe para a razam1 em que eu me-fundo3 porque esta deve valer mais1 que a autoridade extrinseca4 ,tambem incidentemente digo1 nam a ,v4 ,p4 que sabe conhecer as coizas2 mas a algum1 que posa ler estas cartas3 que1 se algumas vezes apontar como optimos1 alguns autores ,erejes2 nam louvo neles a sua particular religiam1 mas a erudisam1 ou metodo4 ,comumente avizarei1 quais sam os ,erejes1 paraque nam se-leiam1 sem licensa devida4 ,mas se acazo me-esquecer entam advertilo1 aqui o-advirto para sempre4 ,comeso pois nesta carta1 pola ,gramatica3 que a porta dos-outros estudos3 da-qual depende1 a boa eleisam dos-mais4 ,porque muitos nam intendem1 o que significa este nome1 por-iso nam fazem1 grande progreso na ,gramatica4 ,eu1 ainda que falo com ,v4 ,p4 que o sabe1 falarei daqui emdiante1 como se false1 com quem o-nam-soubese4 ,a ,gramatica1 a arte de escrever1 e falar corretamente4 ,todos aprendem a sua lingua no-berso3 mas se acazo se-contentam com esa noticia1 nunca falarm como omens doutos4 ,os primeiros mestres das-linguas vivas1 comumente sam molheres1 ou gente de pouca literatura3 de que vem1 que se-aprende a propria lingua com muito erro1 e palavra impropria1 e pola maior parte palavras plebeias4 necesario emendar com o estudo1 os erros daquela primeira doutrina4 ,uma razam1 aindaque boa1 um pensamento exquizito1 exposto com palavras toscas1 ou que nam signifiquem1 o que se quer2 dezagrada muito1 e comumente nam persuade4 ,contudo iso por-muitos seculos1 se-contentram os ,omens1 de falar1 como primeiro lhe ensinram4 ,nam foi senam despois do-terceiro milenario1 que os ,omens se-aplicram a falar bem4 ,foram os ,gregos os primeiros1 de que a ,istoria nos-aponta1 que se-aplicasem a este estudo3 e tal vez os unicos1 entre todos os ,orientais4 ,a sua ,gramatica consistia1 em conhecer bem as diferensas das-letras3 ler1 escrever1 e falar bem4 ,explicavam tambem os ,poetas2 nos-quais aprendiam a ,politica1 e ,religiam4 ,o governo da-,grecia1 que era quazi todo de ,republica1 7nas quais as publicas asembleias do-,povo1 deliberavam nos-maiores negocios7 lhe-inspirou este dezejo4 conhecram eles1 quanto emportava falar bem1 para falar em publico3 e se-aplicram tanto a iso1 que deram1 e ainda oje dam1 documentos a todo o mundo4 ,talvez niso foram mais escrupulozos doque convinha3 porque1 para conservar a sua lingua pura1 nam queriam aprender1 lingua alguma estrangeira4 ,estavam tam satisfeitos1 das-belezas da-sua lingua1 que quazi desprezavam as outras todas4 desorteque quando os ,romanos1 despois de vencidos os ,gregos1 os-transportram a ,roma2 avendo nesta tantos1 e de diferentes gerarchias1 se-observou 7como nota um autor de bom juizo7 que os ,romanos1 aprenderam o ,grego3 mas nenhum ,grego1 estudou a lingua ,romana3 aindaque com o uzo1 alguma coiza intendese4 ,e este costume1 durava ainda nos-tempos de ,cicero4 ,com a lingua pasou da-,grecia para ,roma1 a inclinasam para a ,gramatica4 porque se-observou1 que a lingua ,latina se-comesou a aperfeisoar1 desde o tempo dos-,cipioens1 e continuou at o seculo de ,augusto4 que justamente o tempo1 em que os ,gregos1 destruido o seu imperio1 comunicram a sua lingua aos ,romanos4 ,pois aindaque1 desde o tempo da-guerra com os ,sanitas1 e outros ,povos da-,magna ,grecia1 polos anos de ,roma #dga4 algum ,romano comesse a intender1 e falar o ,grego2 foi raro3 e somente para poder intendelos nas ,embaixadas1 e coizas semelhantes1 que o-aprendiam4 nam era vulgar este estilo3 o que s sucedeo ao despois4 ,foram os ,romanos os primeiros1 que aprenderam voluntariamente lingua estrangeira4 o que nam consta1 que ,povo algum1 antes deles1 tivese feito4 ,e nisto mesmo1 me-parecem mais racionaveis3 porque conhecendo a necesidade dela1 para o estudo da-,filozofia1 ,matematica1 e belas ,letras1 nam se-envergonhram de receber lisoens1 daqueles mesmos a quem tinham vencido1 e davam leis4 ,este um grande elogio1 para uma ,nasam tam considerada1 como a ,romana3 conhecer que vencida em merecimento2 e confesar publicamente ese vencimento2 e pr o remedio a esa falta4 ,paolo ,emilio1 aquele grande omem1 que destruio na pesoa de ,perseo1 o imperio de ,macedonia1 antes de tornar para ,roma1 pedio aos ,ateniezes1 que lhe-buscasem um excelente ,filozofo1 para acabar de instruir1 seus dois filhos4 ,outros omens grandes1 que por-brevidade nam aponto1 seguiram o seu exemplo4 ,lelio1 e ,cipiam ,emiliano1 que tanto rafinram a lingua ,romana1 eram inseparaveis1 dos-seus mestres ,gregos3 dos-quais nam s aprendiam a ,filozofia1 mas tambem a ,gramatica2 e o modo de falar bem1 e aperfeisoar a sua lingua4 ,os ,filozofos daquele tempo1 nam se-ocupavam somente1 com discursos aereos de ,logica2 mas estendiam o seu conhecimento1 para muitas outras coizas4 ,mas1 necesario confesar uma verdade2 em todo o tempo ouve dificuldade1 em se-receberem costumes novos1 aindaque fosem utis4 os ,velhos nam querem ceder dos-costumes1 que uma vez espozram4 ,isto vimos em ,roma1 no-consulado de ,estrabo1 e ,messala3 que publicram um decreto1 em que ordenavam aos ,filozofos1 e ,retoricos1 sairem de ,roma#c4 ,catam o velho1 que temia1 que os ,romanos1 pola vaidade de quererem falar bem1 servisem mal ,republica no-oficio das-armas2 foi um grande protetor disto4 ,mas a ,verdade1 por-mais que se encubra1 sempre transpira4 ,trez ,embaixadores ,ateniezes1 que1 cinco ou seis anos despois do-tal decreto1 vieram a ,roma1 namorram todos com os seus discursos4 e1 nam obstante a repugnancia de ,catam1 e de alguns outros1 os estudos das belas ,letras se-introduziram em ,roma1 e cada dia mais se-aumentram#d4 ,a ,grecia foi reconhecida por-mestra3 e ,atenas foi sempre reputada1 a ,universidade de ,roma3 aonde se-mandavam os nobres ,romanos1 para aprenderem o bom gosto4 ,os dois celebres ,antonios1 ,atico1 ,cicero pai1 e filho1 e muitos outros l foram aprender o que souberam4 e o que mais cauza admirasam1 1 irem em tempo1 que as letras tinham descaido na ,grecia4 tal era a boa opiniam que tinham dela6 ,outros muitos ,gregos vinham a ,roma1 e publicamente ensinavam1 os estudos ,gregos4 ,com este exemplo1 pouco mais de um seculo antes de ,cristo1 se-abriram escolas ,latinas em ,roma4 as quais1 ainda que com alguma contrariedade1 felizmente e com grande concurso se-continuram4 ,delas sairam omens mui grandes1 que apurram1 quanto puderam1 a lingua propria4 ,tais foram ,cota1 ,sulpicio1 ,ortensio1 ,marco ,cicero1 ,caio ,cezar1 ,marco ,bruto1 ,messala1 ,asinio ,pollio1 e muitos outros que entam1 e oje veneramos1 como mestres da-lingua ,latina4 imitasam dos-,gregos1 comesram os ,romanos a aprender1 a ,gramatica da-sua lingua1 no-mesmo tempo que aprendiam a ,grega4 ,a ,gramatica1 nam se-reputava1 coiza de pouca emportancia3 mas a-consideravam como baze da-,eloquencia3 e por-iso a ela se-aplicavam omens grandes2 e nela empregavam um tempo consideravel1 os que queriam1 fazer figura na ,republica4 ,os livros ,retoricos de ,cicero1 principalmente os trez de ,oratore ad ,quintum ,fratrem1 especialmente o ultimo3 o livro intitulado3 ,orator ad ,marcum ,brutum3 e o de ,oratoriis ,partitionibus3 nam s ensinavam ,retorica1 mas principalmente falar a sua lingua1 com toda a pureza1 e grasa3 que era uma parte principal da-,retorica4 ,caio ,julio ,cezar1 aquele grande omem em armas1 e letras1 nam se-envergonhou1 de escrever dois livros1 sobre a ,analogia da-lingua ,latina#e4 ,marco ,terencio ,varram escreveo comentarios doutisimos sobre a sua lingua1 e uma ,gramatica4 ,continuou este costume1 at o tempo de ,quintiliano1 e seu dicipulo ,plinio o moso3 o qual ,quintiliano1 alem de nos-explicar1 como se-ensinava a ,gramtica ,latina2 ele mesmo nos-deixou uns ,elementos dela1 no-primeiro livro das-suas ,instituisoens4 ,e de crer1 que se-continuase este estilo1 at os principios do-quinto seculo de ,cristo2 em que os ,godos entrram em ,roma3 ou um pouco despois1 em que os ,ostrogodos se-estableceram na ,italia1 e arruinram o imperio ,latino3 abrindo com isto a porta aos ,longobardos1 que nela dominram tantos anos4 ,desorteque com o ,imperio no-,occidente1 se-pode dizer1 que se arruinou a lingua ,latina3 porque comesando a destruir-se1 com a mescla de outras palavras1 foi necesario emendla com o estudo1 e fazer ,gramatica dela4 ,este metodo de ensinar aos nacionais1 a ,gramatica da-sua lingua1 nam s praticram os ,antigos2 mas at em um seculo barbaro1 qual foi o de ,carlo ,magno1 foi conhecido1 e praticado3 e o mesmo ,carlo no-dito ,,viii4 seculo1 escreveo uma ,gramtica ,tudesca1 que era a lingua da-sua corte4 ,nos-seguintes seculos at o duodecimo1 em que a ignorancia tanto dominou1 nam foi ignoto este uzo4 ,mas alguma ,gramatica que se-fazia1 era para intender o ,latim4 os livros eram rarisimos4 a critica nenhuma4 e asim nam maravilha1 se nam se-aplicram ao que deviam4 ,desde o seculo duodecimo at todo o seculo decimosexto1 reinou outra particular ignorancia1 sobre o metodo4 ,muitos se-aplicram as letras1 mas muito mal4 s reinavam as agudezas1 e o estilo ridiculo4 ,no-seculo pasado1 que resuscitou este metodo1 de ensinar a ,gramatica da-propria lingua4 ,e1 na verdade1 o primeiro principio de todos os estudos deve ser1 a ,gramtica da-propria lingua4 ,a razam porque nos-parece tam dificultozo1 o estudo da-,gramatica ,latina1 7alem de outros motivos que em seu lugar direi7 porque nos-persuadimos1 que toda aquela machina de regras1 particular da-lingua ,latina3 e nam quem nos-advirta1 quais sam as formas particulares desa lingua1 a que chamam ,idiotismos3 quais as comuas com as outras4 ,se a um rapaz que comesa1 explicasem1 e mostrasem na sua propria lingua1 que ,verbo1 ,cazo1 ,adverbio c4 que formas particulares de falar1 deque se-compoem1 a ,sintaxe da-sua lingua3 ,se sem tantas regras1 mas com mui simplezes explicasoens1 fizesem1 comque os principiantes refletisem1 que1 sem advirtirem1 executam as regras1 que se-acham nos-livros3 e isto1 sem genero algum de preceitos1 mas polo ouvirem1 e exercitarem3 ,seguro a ,v4 ,p4 que abririam os olhos por-uma vez1 e intenderiam as coizas bem3 e se-facilitaria a percesm das-linguas todas4 ,isto suposto1 julgo que este deve ser1 o primeiro estudo da-,mocidade4 e que a primeira coiza1 que se-lhe-deve aprezentar 1 uma ,gramatica da-sua lingua1 curta1 e clara3 porque neste particular1 a voz do-,mestre1 faz mais que os preceitos4 ,e nam se-devem intimidar os rapazes1 com mao modo1 ou pancadas1 como todos os dias sucede3 mas1 com grande paciencia1 explicar-lhe as regras3 e1 sobre tudo1 mostrar-lhe nos-seus mesmos discursos1 ou em algum livro vulgar1 e carta bem escrita1 e facil2 o exercicio1 e a razam1 de todos eses preceitos4 ,se me-tocse o-fazelo1 regularia tudo desta maneira4 ,primeiro1 explicaria brevemente as regras3 e obrigalosa a repetir1 as mesmas noticias gerais4 ,despois1 darlhea um livro de ,cartas1 vg4 as do-,p4 ,antonio ,vieira3 escolhendo as mais facis3 ou alguma istoria pequena1 digo1 que tivese capitulos pequenos1 e periodos nam mui compridos3 e mandaria1 que a-lesem3 e no-mesmo tempo apontaria1 quais eram as partes da-orasam4 o que se-observa1 com grande facilidade4 ,ajuntaria a isto1 as regras mais principais de ,sintaxe3 porque como tudo isto1 se--de recozer na ,latinidade1 basta nesta ocaziam1 uma noticia geral4 ,feitos estes principios1 ensinaria duas coizas1 mui principais em materia de linguas4 a primeira 1 a propriedade das-palavras3 mostrando-lhe1 a forsa de cadauma daquelas1 que sam menos comuas4 a segunda 1 a naturalidade da-fraze3 ensinando-lhe1 que a afetasam1 se-deve fugir em tudo3 e que se-deve cuidar em explicar tudo1 com palavras mui naturais4 ,alem disto1 ensinaria aos rapazes1 pronunciar bem1 e ler expeditamente4 ,este ponto1 mui necesario3 achando-se todos os dias omens feitos1 que lem soletrando1 e cantando3 e que dizem mil barbarismos4 o que tudo procede1 de nam terem tido mestres1 que lhes-ensinasem bem4 ,quando os rapazes estivesem mais adiantados1 obriglosia1 a escrever algumas cartas1 a diversos asumtos4 e introduziria entre dois1 uma conrespondencia epistolar3 ensinando-lhe os tratamentos1 e modo de escrever1 a diversas pesoas4 ,nesta ocaziam tem lugar1 ensinar-lhe a boa ,ortografia1 e ,pontuasam4 incrivel1 a utilidade que daqui rezulta1 nam s para a inteligencia da-,latinidade2 mas para todos os estudos da-vida4 ,este estudo pode-se fazer1 sem trabalho algum3 e se-pode continuar no-mesmo tempo1 emque se-explica o ,latim3 bastando meia ora cada menhan1 ler1 e explicar o ,portuguez4 ,isto se-pratica oje1 em algumas partes da-,europa4 e s os que nam tem juizo1 para conhecerem a utilidade1 que daqui rezulta1 que negam1 a necesidade deste metodo4 ,mas aqui1 deixe-me ,v4 ,p4 lamentar1 e admirar1 a negligencia dos-,portuguezes em promover1 tudo o que cultura de ingenho1 e utilidade da-,republica4 ,ainda at aqui1 nam tem cuidado nestas coizas3 e ser rarisimo1 o que souber1 que esta ,gramatica pode ser util4 ,especialmente nto isto1 sobre a falta de escritos1 para instruir um ,secretario principiante4 7falo dos-secretarios dos-,grandes1 e de tudo o mais1 fra das-,secretarias ,reais47 ,nas-outras ,nasoens livros1 que ensinam a qualquer1 a urbanidade e ceremonial do-seu ,reino4 ,como escrevem os ,reis1 e os ,grandes entre si1 e s pesoas de diferentes gerarchias mais inferiores4 como os inferiores escrevem1 a toda a sorte de pesoas de maior esfera1 tanto ,secular1 como ,ecleziastica4 c4 apontam-se os sobrescritos1 e poem-se algumas cartas para exemplo4 ,isto ensina a todos2 e impede o fazer erros4 ,mas em ,portugal1 desconhecido este metodo4 ,um secretario de um ,bispo1 ou ,cardial1 ou ,fidalgo1 ou ,dezembargador c4 governa-se por-uma pura tradisam2 ou porque asim vio alguma carta2 sem mais conhecimento da-materia4 ,comtantoque um moso1 tenha um carater comprido1 e dezembarasado1 a que eles chamam1 letra de ,secretaria1 o que basta4 ,confeso a ,v4 ,p4 que ainda at aqui1 nam vi secretario algum destes1 que soubese escrever duas palavras1 com juizo4 que tecese uma carta1 considerando quem escreve1 e a quem escreve3 emque circunstancia3 se com dependencia1 ou sem ela3 se por-agradecimento de alguma fineza1 e atensam1 ou por-outro motivo4 ,nam consideram circunstancia alguma destas3 as quais porem deveriam considerar muito2 porque fazem a carta1 mais1 ou menos abundante de atensam3 ,sendo certo1 que o ,secretario1 deve conservar o decro de seu amo3 mas no-mesmo tempo deve procurar1 que paresa mais cortez que posa ser4 ,mas isto1 o que eles nam intendem4 e nada mais cuidam1 que mostrar1 nam digo a grandeza1 mas a soberba de quem escreve4 ,ver ,v4 ,p4 um pobre ,cavalheiro das-,provincias1 do-qual se pode dizer1 como dise aquele noso amigo,est res angusta domi2 escrever uma carta1 com mais soberania e magestade1 que nam far o ,papa4 porque este1 comumente poem,dilecto filio3 e aquele1 comesar uma carta ex abrupto1 e imprudentemente1 sem atensam alguma4 ,os de maior gerarchia1 ainda fazem pior4 e apenas se achar um1 que nam queira mostrar na carta1 que mais1 da-pesoa a quem escreve4 ,por-fra1 costumam prdo-,bispo ,fulano3 do-,marquez ,sicrano c4 coiza mais digna de rizo doque esta6 ,as cartas mandam-se lacradas1 para que ninguem saiba1 de quem sam2 e nem suspeite1 o que contem3 e estes tais poem1 e asinam-se de fra6 ,que o-fasa o ,secretario de ,estado1 ou outro ,ministro1 que tem jurisdisam publica2 justo3 paraque todos conhesam1 de quem a carta2 e1 se mais suceder perdela1 quem a-achar1 a-entregue2 e lhe-tenham o respeito1 que devido4 mas que o-fasam os outros1 e em negocios particulares2 e que o-fasam por-grandeza1 merece compaixam4 ,tenho visto milhares de cartas1 de ,cardiais1 ,principes ,soberanos de outros ,reinos1 e muitos outros ,gran-senhores1 e nenhum praticava esta rapaziada4 ,mas eu vi mais doque isto3 porque vi carta de uma grande pesoa1 que ,v4 ,p4 conhece1 que escrevia a outro mui condecorado1 que tinha no-sobrescrito3 ,a ,fulano3 pondo o simplez nome1 sem ,senhor1 nem titulo1 c4 e dentro asinava-se1 sem lhe-fazer comprimento1 como se-faz nas ,patentes4 ,pertencem clase asima1 os que carregam o sobrescrito1 com todas as circunstancias de ,pai1 ,primo1 ,cunhado c4 o que tudo pode dar ocaziam1 a abrir a carta por-curiozidade4 ,o mesmo digo1 dos-que poem3 ,familiar do-,s4 ,oficio1 e outras coizas destas4 ,basta pr um titulo principal1 ou1 quando muito1 dois maiores3 os mais ja se-intendem1 ou se-supoem4 ,estes sam semelhantes queles1 de que ja falmos tantas vezes1 que1 no-titulo das-censuras dos-livros1 poem uma enfiada de empregos velhos3 ,ex-,provincial3 ,ex-,difinidor3 c4 e dos-quais ,v4 ,p4 dizia1 com tanta grasa1 que lhes-faltava pr3 ,ex-,porteiro3 ,ex-,guardiam3 ,ex-,procurador4 c4 ,o pior que nisto1 caiem tambem os ,seculares3 e poem frequentemente3 ,colegial que foi no-,colegio de ,s4 ,paulo3 ,lente que foi de ,leis1 ou de ,instituta4 c4 s lhes-falta acrecentar a prepozisam1 e dizer3 ,ex-,colegial3 ,ex-,leitor3 ,ex-,secretario3 ,ex-,general3 ,ex-,coronel4 ,que tendo os empregos1 o-declarem2 mui justo3 mas que ponham os que tiveram1 e sam inferiores aos que oje tem2 uma vaidade mal fundada3 e querer ser estimado1 mais polos empregos1 que polo merecimento4 ,leia ,v4 ,p4 a istoria1 que escreveo ,alexandre ,ferreira1 e ver1 que no-titulo da-obra1 escreve toda a sua vida4 ,outros fazem dedicatorias de livros1 a pesoas ,grandes1 e enchem boa meia folha de papel1 de titulos3 ,capitam-mor de c3 ,alcaide-mor de l3 c4 ,quando tivesem dito3 ,marquez1 ou ,conde2 ,conselheiro1 ou ,general c4 estes titulos sorvem todos os outros4 ,destes se-pode tambem dizer1 que lhes-esqueceo escrever1 todas as quintas1 e cazas1 que posuem em diversas ,vilas1 e ,cidades1 as pesoas a quem louvam1 e dedicam as obras4 ,em ,italia1 seria grande injuria1 tratando-se com um grande ,principe1 por-lhe todos os titulos3 porque era mostrar1 que sam menos conhecidos polo nome1 e pesoa4 cazas1 que tem muitos ,principados1 ,marquezados1 ,condados3 e nam somente de titulo1 mas com inteira jurisdisam e dominio1 pois tem o direito,vit ,necis3 e contentam-se com um s titulo1 ou1 quando muito1 dois3 ,vg4 ,lourenso ,colona1 ,duque de ,paliano1 ,condestavel do-,reino de ,napoles4 ,domingos ,orsini1 ,duque de ,gravina4 ,prospero ,conti1 ,duque de ,poli4 ,estas cazas tam antigas1 que algumas contam mais de mil anos1 e tem dado1 alem de infinitos ,cardiais1 #ac4 ,papas1 outras cinco1 ,igreja de ,deus2 nam fazem vaidade destes ridiculos titulos2 porque sabem1 que sam mui bem conhecidas4 ,mas os 999999 e principalmente os ,portuguezes1 governam-se por-outros principios4 ,tem alem diso estes ,senhores por-injuria1 se lhe-escrevem por-secretario2 e quando nam vem toda a carta1 de proprio carater1 tocam a fogo4 ,veja ,v4 ,p4 quam diferentes sam1 os costumes estrangeiros6 ,em ,roma1 aonde o ceremonial est tanto em vigor1 que s vezes excesivo1 nam se-faz cazo de tal coiza4 escreve um ,cardial a outro1 por-secretario4 escrevem os inferiores c4 por-secretario4 ,isto nam prova descortezia1 mas que um omem1 sumamente ocupado4 nem pesoa alguma faz cazo disto4 ,somente se-pratica1 escrever de proprio punho1 quando primeira carta de ceremonia a pesoa grande1 ou quando respondo1 a quem escreve de proprio punho3 ou n'outros cazos asim4 ,mas aqui1 seria um cazo rezervado1 praticar o contrario4 ,ora tudo isto1 intender mal as coizas3 falta de educasam3 falta de livros bons3 e expor-se ao rizo dos-omens de juizo4 ,isto pois deve acautelar o mestre1 quando instrue os rapazes4 deve informar-se das-coizas3 ensinar-lhe como se-devem regular3 e finalmente dizer-lhe em poucas palavras aquilo1 que1 por-falta de livros1 somente se-pode saber1 com uma longa experiencia4 ,estas coizas devem-se tratar1 nestes primeiros estudos4 ,despois de ter escrito isto1 me-veio mam1 uma ,gramatica ,portugueza1 composta polo ,p4 ,argote1 ,teatino4 ,verdadeiramente nam ,gramatica completa3 mas o autor declara1 que s d regras1 para facilitar a inteligencia da-lingua ,latina4 ,o juizo que formo desta ,gramatica1 este4 ,o autor1 introduzindo um dialogo enfadonho1 dise1 em muitas folhas1 o que podia dizer1 em poucas regras4 ,os dialogos nam servem mais1 que de fazer mil repetisoens sem necesidade4 servem de cansar memoria aos rapazes1 sem fruto3 ensinando-os a falar como papagaio3 vistoque nam intendem o que dizem4 quando polo contrario poucos preceitos1 bem explicados com a viva voz do-,mestre1 ensinam mais1 com menos trabalho4 ,isto1 quanto ao metodo4 quanto s regras3 ,o que diz da-,analogia das-vozes1 parece-me mui bem2 e pode-se ensinar com utilidade4 ,a ,sintaxe de concordar1 pode pasar3 a de reger1 nada me-agrada4 ,o ,p4 ,argote dezemparou o seu mesmo metodo1 por-seguir os erros de ,manoel ,alvares1 e multiplicar regras sem necesidade2 asinando regencias falsas3 quando tudo aquilo se reduzia1 a explicar a regencia dos-,cazos1 polas regras fundamentais2 que sam mui poucas4 ,isto o que deve cuidar o ,mestre3 reduzindo as regras1 s verdadeiras cauzas da-regencia3 apontando algum particular idiotismo c4 porque isto basta3 vistoque a ,gramatica ,latina1 tambem se-deve explicar em ,portuguez1 e com poucas regras4 ,a terceira parte1 da-sintaxe ,figurada1 tirando a extensam1 tambem pode pasar4 ,na quarta parte1 o que diz dos-,dialetos c4 pode pasar3 aindaque tudo aquilo se dizia1 em duas palavras4 o que diz do-modo de reger a lingua ,portugueza1 uma grande superfluidade1 e pedanteria3 vistoque nam mestre tam tolo1 que nam saiba1 como -de reger1 uma carta ,portugueza4 ,isto se-faz1 quando o estudante nas escolas1 vai lendo a lingua dita3 e o mestre lhe-explica1 o dialeto da-proza1 e do-verso4 ,antes seria loucura1 querer explicar ao principio1 o dialeto do-verso4 porque os ,poetas1 que pola maior parte nam pezam bem as coizas1 sem excetuar o ,camoens2 caram na parvoice1 de aportuguezar mil palavras ,latinas1 sem necesidade alguma3 e asim nam coiza para rapazes4 ,antes1 polo contrario1 deve o mestre advertir-lhe1 que ese estilo1 nam se deve uzar4 ,finalmente1 a ,ortografia do-,p4 ,argote nada vale1 como abaixo direi4 ,mas1 em quanto nam aparece outra1 ou se-reforma esta arte2 pode o mestre uzar dela1 com as ditas cautelas4 ,devo tambem dizer a ,v4 ,p4 alguma coiza1 sobre a ,ortografia ,portugueza4 noticia que me-parece mui necesaria1 e que com todo o cuidado se-deve comunicar aos principiantes3 pois da-falta desta doutrina nace1 que em toda a sua vida1 escrevam mal3 e1 ainda despois de estarem em lugares de letras1 lastima ver1 como muitos escrevem4 ,e estas reflexoens1 servirm para emendar1 o que diz o ,p4 ,argote1 nas suas ,regras ,portuguezas1 e algum outro4 ,isto suposto1 e compreendendo em pouco1 o muito que outros escrevem nesta materia1 digo1 que os ,portuguezes devem pronunciar1 como pronunciam os omens de melhor doutrina1 da-,provincia de ,estremadura3 e1 posto isto1 devem escrever a sua lingua1 da-mesma sorte que a-pronunciam4 ,esta uma singularidade da-lingua ,portugueza1 que s se-acha nela1 na ,italiana1 e na ,castelhana3 aindaque esta tenha sua variedade3 ponho de parte a ,latina1 que morta4 ,daqui fica claro1 que devem desterrar-se da-lingua ,portugueza1 aquelas letras dobradas1 que de nada servem3 os dois ,,ss4 dois ,,ll4 dois ,,pp4 c4 ,na pronuncia da-lingua1 nam se-ouve coiza alguma1 que fasa dobrar1 as ditas consoantes4 ,que se-escreva ,terra1 ,perra1 com dois rr1 intendo eu a razam3 e o ouvido me-aviza1 que a pronuncia fortisima no-r4 pois quando nam forte1 como em ,pera1 ,caracol1 escreve-se um s r4 mas em ,elle1 ,essa1 coiza superflua3 porque ou tenha um1 ou dois ss4 sempre se-de pronunciar1 da-mesma sorte4 ,nas linguas mortas1 faso escrupulo1 de mudar uma letra3 mas nas vivas1 em que ns temos todo o poder1 e uzo1 quando a boa pronuncia nam ensina o contrario1 sam superfluas as repetisoens4 ,os nosos ,italianos somente dobram as letras1 quando a pronuncia diferente3 e sam tam escrupulozos observadores da-pronuncia1 que nam ,nasam1 que os-iguale4 ,de que nace1 a grande dificuldade que os ,estrangeiros tem1 em pronunciar bem a nosa lingua1 nam obstante ser labial4 porque nam tendo eles1 ouvido tam esperto1 para poder perceber1 a diferente pronuncia das-letras dobradas2 na pronuncia delas1 servem-se de uma pronuncia doce e simplez2 a qual os-acuza1 por-,estrangeiros4 ,o motivo que os ,nosos tem1 para pronunciarem asim1 uma antiga tradisam1 desde o tempo em que a lingua ,latina1 era viva e domestica entre os seus antepasados4 pois sem duvida1 que os ,romanos cuidavam muito1 em pronunciar bem a sua lingua2 e que os mestres1 ensinavam isto aos dicipulos com cuidado4 ,esta tradisam conservou-se sempre em ,italia4 e nacendo o ,italiano1 da-corrusam do-,latim1 conservram sempre as mesmas letras dobradas1 que os ,latinos tem3 e talvez acrecentram mais alguma4 ,donde vem1 que os ,italianos1 achando no-,latim as letras dobradas1 pronunciram-nas como dobradas3 e1 por-este mesmo principio1 pronunciando o ,italiano1 com alguma semelhansa do-,latim1 dobrram tambem as letras da-sua lingua por cuja razam1 sam nela desculpadas1 as repetisoens4 ,os ,francezes dobram algumas letras1 por-necesidade1 para distinguirem as pronuncias3 outras dobram1 porque tomram os ditos nomes1 dos-,gregos1 e ,latinos1 entre os quais antigamente se-pronunciavam1 e escreviam asim3 como mostram os omens1 que escreveram nesta materia4 ,tambem nisto tem variado muito3 e nam sam aprovados1 polos melhores criticos4 ,e oje os ,francezes mais doutos1 regeitam muitas letras1 que parecem escuzadas1 por se-nam-pronunciarem3 como adverte o ,p4 ,lima1 na sua ,arte ,portugueza1 e ,franceza4 ,muitos ,francezes sam de parecer1 que se-devam desterrar todas4 e talvez com o tempo1 escrevam como falam3 vistoque ainda nam muito tempo1 que esta lingua se-comesou a purificar3 o que nam excede o tempo1 de ,luiz ,,xiv4 ,mas concedamos-lhe o mesmo1 que oje concedemos1 aos ,ebreos1 ,caldeos c4 certo1 que a lingua ,portugueza1 todos asentam1 se-deve escrever como se-pronunca3 e asim1 nam deve receber letras1 que se-nam-proferem4 ,deste meu parecer1 sam muitos ,portuguezes de boa doutrina1 com quem tenho conversado nesta materia3 os quais nam podiam sofrer1 que1 sendo a pronuncia a regra da-,ortografia2 ainda asim ouvesem omens prezados de doutos1 que embrulhasem a ,ortografia1 com a preocupasam de quererem seguir1 a derivasam e origem4 ,se eu ouvese de escrever1 tudo o que me ocorre nesta materia1 ou tudo o que se-pode dizer nela1 faria um longo tratado2 que seria contra o meo asumto1 e tambem contra a necesidade da-materia1 a respeito de ,v4 ,p4 ,direi somente1 o que pertence ao meu argumento4 ,nam obstante que eu muitos anos1 viva nesta opiniam1 que a ,ortografia comua muito m2 e1 com esta ideia1 tenha feito um tratadinho dela1 para uzo1 e regulamento meu2 contudo nam me-atrevia1 a declarar a todos1 o meu animo1 como faso a ,v4 ,p4 sabendo1 que ainda os mais doutos se-ririam1 de que um ,estrangeiro1 viese dar regras1 nesta materia3 ,sem se-lembrarem1 que tambem os que nestes ultimos seculos1 escrevram sobre a ,ortografia ,latina1 eram ,estrangeiros nela3 semque por-iso1 sejam mal ouvidos4 ,mas agora1 devendo dizer a ,v4 ,p4 o meu parecer nela1 puz de parte1 todos os respeitos politicos2 e nam s quiz apontar1 o que condeno2 mas1 para o-fazer melhor1 tive a curiozidade de ler1 o que dise nesta materia o ,p4 ,bluteau4 cuja leitura me-confirmou1 no-meu propozito1 e me-convida1 a abrir-me mais promtamente3 porque alfim vejo1 que tenho mais padrinhos1 doque nam cuidava#f4 ,digo pois1 que da-observasam que asima fiz1 e maxima que estableci1 se-devem tirar as reflexoens1 para as outras letras1 e para todas as mudansas e corresoens da-,ortografia4 ,e comesando pola letra ,a1 dobram alguns esta letra1 em ,menhaan1 ,vaan c4 e deste parecer1 ,duarte ,nunes de ,leam4 ,nam se-pode intender1 a razam destes omens4 ,na pronuncia1 nam se-ouve aquele segundo ,a1 e seria verdadeiro ridiculo1 quem o-quizese pronunciar4 e asim porque se-aja de escrever1 eu nam intendo4 ,o certo 1 que a regra da-pronuncia1 ensina o contrario4 ,daqui pasando ao ,b1 digo1 que esta nam se deve conservar1 senam naqueles nomes1 que especialmente a-tem na pronuncia1 como obstaculo1 obstante c4 mas naqueles1 que oje se-pronunciam sem ela1 parece-me escrupulo demaziado4 ,sobre o ,c1 acha-se alguma diversidade entre os mesmos ,portuguezes1 em que lugares deve entrar quando tem cedilha1 4 ,comumente antes das-terminasoens em o o-escrevem1 e mais em outras partes3 sobre o que nam regra alguma mais1 que o uzo4 ,nisto alguns sam tam escrupulozos1 que se encontram escrito com s1 ,sapato1 fazem um orrivel espalhafato4 ,outros desterram o dito c1 e em seu lugar escrevem dois ss4 ,mas para falar a verdade1 e examinar as coizas sem paixam1 tudo isto sam iluzoens4 ,nenhuma diferensa na pronuncia se-acha entre o c1 e o s3 se alguem contrareia isto1 que me-fasa a merce de mo-provar3 porque o meu ouvido1 que bastantemente advertido1 nam conhece esta diversidade4 ,isto suposto1 pr dois ss1 em lugar do c1 uma solenisima ridicularia1 sem mais razam1 que querer distinguir-se dos-outros4 ,mas1 nam merecem mais indulgencia1 os que se-escandalizam de lerem1 ,sapato1 ,surrador c4 com s3 porque na minha estimasam asim se-deve escrever4 ,eu verdadeiramente nam sei donde veio1 que o a1 se-pronuncise sa3 mas se permitido conjeturar em materia tam oscura1 suponho que foi1 por-engano de quem escrevia1 que pintava mal o s3 e asim com o tempo tomram-no por-c3 ,porque a falar a verdade o c com cedilha sam dois cc contrapostos1 e que imitam bastantemente um s1 asim ,illustrao3 onde continuando a pronuncia do-s por-tradisam2 e achando-se escrito o dito 2 intendram que era uma particular especie de c1 e asim o-escreveram4 ,seja como for1 o c1 em tais cazos vale um s4 e por-esta razam cuido1 que mais proprio1 e mais natural1 servir-se desta letra simplez1 que do-dito c4 ,desta sorte averia menos confuzam na ,ortografia ,portugueza1 se asentasem todos1 a nam escrever antes de a1 ou o1 ou u1 senam um s1 e nunca o dito c4 ,dirmem alguns1 que tambem o c antes de e1 ou i1 vale um s3 e que ser tambem necesario desterralo1 e convertelo em s4 ,mas eu respondo1 que mui diferente razam4 porque o c1 antes de e1 ou i1 tem o seu proprio soido1 sem violencia alguma3 e aindaque se-posa compensar com s1 contudo neste cazo deve-se permitir alguma coiza ao uzo1 que o-introduzio4 ,nam asim o c antes de a3 pois para fazer o soido que eles querem1 deve violentar-se1 sem ter analogia com as linguas1 de que deriva1 a nosa ,portugueza3 e asim parece-me grande superfluidade4 ,este o meu parecer3 ,contudo se alguem ateimse a servir-se do-dito c1 nam faria disto um cazo rezervado3 comtantoque confesase1 que igualmente se-pode escrever com s3 e que nam se-escandalizase1 de quem fizese o contrario4 ,desta regra1 de escrever conforme a pronuncia1 crejo que se-pode achar excesam no-,ch4 ,tem esta letra aspirada com o h1 uma pronuncia em ,portugal semelhante ao x4 e asim dizemos ,choro1 ,chove c4 como se estivera escrito1 ,xoro1 ,xove4 ,contudo algumas vezes se-deve pronunciar2 como se-fose um k4 o que intendo dos-nomes que vem do-,grego1 e nos-quais se-ouve o k na pronuncia4 vg4 ,architetura1 ,machina1 ,chimica c4 ,o ,bluteau nam admite isto1 nos ,opusculos2 e defende1 que sempre o ch se-deve pronunciar quazi semelhantemente ao x4 ,mas ele mesmo se-contrareia no-,dicionario3 pois diz1 que em ,portuguez se-deve escrever1 ,archanjo1 ,patriarcha c4 com ch1 aindaque se-pronuncie o k3 ,tomra pois que me-dese a diversa razam1 porque em outros nomes oriundos da-mesma ,grecia1 se-deva escrever com qui v4g4 ,monarquia c4 ,o certo 1 que em ambas as partes a razam a mesma4 ,antes parece-me1 que com maior razam se-deve fugir o qui3 porque em ,portuguez despois do-q1 sempre se-pronuncia o u1 desorteque o q por-si s nam une com as vogais1 sem se-pronunciar o u4 ,e como seria erro pronuncialo1 em ,monarchia1 ,chimica c4 daqui vem que tambm erro1 escrevelo4 ,a quem nam agradar esta minha opiniam1 de escrever estes nomes por-ch1 sou de parecer1 que adte o k dos-,gregos3 pois melhor chamar de fra1 uma letra ,estrangeira1 doque escrever o q1 que em ,portugal geralmente tem diferente pronuncia3 o que nam sucede no-ch1 que ja em muitas disoens est recebido em ,portugal1 com privilegios de k4 ,e nam obsta1 que a maior parte dos-,ortografos ,portuguezes digam1 que o k superfluo no-,portuguez3 nam o mesmo dizelo1 que provalo3 aqui nam meio1 ou se-deve admitir o ch com privilegios de k2 ou adotar o k1 em seu lugar4 ,sei que podem argumentar com ,aquele1 ,aquilo c4 em que parece nam se-ouve o u3 mas isto provm da-pronuncia1 que o-toca levemente2 porque em todas as palavras ,portuguezas o q faz pronunciar o u3 ,quando1 ,quanto c4 ,e principalmente avendo-se de introduzir1 em disoens novas1 ou ,gregas1 deve sempre observar-se o uzo mais comum4 ,duarte ,nunes poem sempre c antes de t1 como em ,docto1 ,doctrina c4 ,desta afetasam zomzombam os omens de melhor juizo2 e cuido que com razam3 pois se aos nosos ouvidos insoportavel1 quem fala asim1 porque -de ser toleravel1 quem o-escreve8 ,bluteau admite o tal estilo alguma vez1 para evitar o equivoco2 v4g4 ,compacto1 e ,compato3 mas eu nam vejo nisto equivoco1 pois na segunda disam o ,com1 deve estar separado4 ,mas aindaque ouvese equivoco1 o contexto o-tira4 ,outros em lugar do-c1 sempre poem u1 e dizem1 ,auto c4 tambem esta afetasam condenavel3 porque ,ato1 mui boa palavra1 e todos a-intendem4 ,em ,douto c4 pode-se conceder alguma coiza ao uzo4 ,costumam muitos ,portuguezes dobrar os ee finais em muitas vozes1 especialmente em ,fe1 ,se c4 e alguns dobram-nos em muitas outras palavras1 inclinando-se1 segundo dizem1 a uma antiga pronuncia4 ,mas ou seja antiga1 ou seja de novo inventada1 deve-se fugir esta introdusam1 pola mesma razam que disemos1 de ser contraria pronuncia4 ,concorda o ,bluteau dizendo1 que em algumas palavras se-supre1 com um acento sobre o 4 ,mas eu digo1 que nam s em algumas1 mas em todas se-deve escrever um s e4 e quanto ao acento agudo1 digo1 que se-lhe-deve pr1 nam para mostrar1 que falta um e2 mas para mostrar1 que se-deve carregar a vogal2 porque asim ensina a pronuncia4 ,pola mesma razam da-pronuncia1 se-deve desterrar das-palavras ou ,portuguezas1 ou aportuguezadas o ,ph1 em lugar de ,f4 ,muitos ,portuguezes introduzem1 sem advertencia1 em lugar do-f1 o dito ph3 outros dam longuisimas regras para distinguir1 quando se-deve escrever um1 quando outro4 mas uns e outros discorrem muito mal4 ,o ph dos-,gregos era um p1 aspirado com muita forsa1 e que alguma coiza declinava para f4 e nam avendo em ,portugal semelhante pronuncia1 erro introduzir o dito p1 quando temos c o f1 que tem o seu prprio soido4 ,daqui vem que aindaque ,filozofia1 ,triumfo c4 na sua origem tivesem o ph1 contudo oje que sam palavras ,portuguezas1 nam s adotadas polos doutos1 mas de que indiferentemente se-servem todos2 devem-se escrever com simplez f4 ,temos o exemplo nos-mesmos ,latinos1 que1 quando adotavam algumas palavras ,estrangeiras1 pronunciavam-nas com a pronuncia ,romana3 e davam-lhe as proprias declinasoens ,latinas4 ,talvez lhe-conservavam algumas proprias letras1 em atensam de serem linguas vivas4 ,e muitas vezes1 para se-livrarem da-impropriedade1 escreviam1 e pronunciavam as ditas letras em ,grego puro3 como todos os momentos encontramos nos-seus escritos1 principalmente nas cartas de ,cicero1 e alguns outros4 ,esta liberdade de acomodar as palavras1 ao estilo da-propria lingua1 tiveram sempre todos os ,povos cultos3 e devem ter tambem os ,portuguezes4 e asim significando o ph um p aspirado1 com algum soido de f2 nam o-devemos uzar1 vistoque nas palavras ,portuguezas1 nam temos tal pronuncia4 ,quanto aos nomes1 que ainda nam estam em uzo por-todos1 mas que somente uzam1 ou para melhor dizer1 algumas vezes se-servem deles os literatos2 deve-se praticar outra regra4 ,se sam nomes 7falo dos-,latinos1 ,gregos1 ,ebreos c47 de coizas pertencentes a ,artes1 ou ,ciencias1 parece-me que se-devem escrever1 com as suas letras originais4 ,vg4 se quizer-mos explicar1 ou escrever os nomes pertencentes ,anatomia1 que sam todos ,gregos1 segundo o estilo do-,portuguez2 escreveremos palavras1 que se-nam-intenderm3 e asim melhor1 seguir a derivasam ,grega4 ,o mesmo digo1 de algumas partes da-,medicina1 da-,filozofia c4 ,muitos destes nomes ou nam se-podem escrever de outra maneira1 v4g4 ,pneumatologia c4 ou1 aindaque se-posam escrever1 nam estam geralmente recebidos1 nem ainda polos mesmos eruditos3 e asim nam gozam1 do-privilegio ,portuguez4 ,se sam nomes ,proprios1 entra a mesma regra3 ou sam pouco uzados2 e em tal cazo obrigasam escrevelos1 com as suas proprias letras4 ,onde nam condeno quem escreve1 ,homero1 ,herodoto1 ,herodes c4 aindaque estes trez1 e outros semelhantes que estam ja muito em uzo1 podem mui bem escrever-se sem h3 o que ate os nosos ,italianos ja fazem3 ,mas sempre mais desculpavel1 se em semelhantes nomes se-uzam letras da-origem4 ,quanto porem aos outros1 que servem de diferenciar as pesoas ,portuguezas1 e j estam totalmente naturalizados2 devem-se vestir1 com o traje de ,portugal4 ,e este uzo acho praticado1 em todas as ,nasoens de melhor doutrina4 ,quazi todos os nomes da-,sagrada escritura1 se-acham mudados na nosa ,vulgata4 ,vg4 ns dizemos1 o ,mesias3 e se ouvesemos pronunciar como est no-texto ,ebreo1 deveria-mos dizer1 ,maxiaggh com pronuncia forte1 e gutural no-g4 o que fizeram os ,latinos1 para adosar a pronuncia forte1 e aspera dos-,ebreos4 ,traduzindo os ,gregos este nome1 escreveram1 ,christos3 os ,latinos1 ,christus3 de que ns tommos a palavra1 ,cristo4 ,podia apontar mil exemplos1 que deixo por-brevidade4 ,os ,gregos quando pronunciavam os nomes ,latinos1 faziam-no com o dialeto ,grego4 e por-iso ns achamos1 que nas medalhas ,gregas dos-,consules1 e ,imperadores ,romanos1 os nomes estam transformados4 ,vg4 este nome1 ,marcus ,tullius ,cicero1 os ,gregos escreveram-no nas medalhas1 ,markos ,tyllios ,kikeron1 que tem bastante diferensa do-,latino4 ,os ,latinos1 como ja disemos1 davam a terminasam ,latina1 aos nomes ,gregos3 e muitas vezes deitavam-lhe fra algumas letras4 basta abrir os ,dicionarios1 para reconhecer esta verdade4 ,os nosos ,italianos italianizam todos os nomes ,estrangeiros1 que lhe-chegam s maons1 quando eles sam tais1 que se-podem pronunciar ,italiana3 e1 seguindo a pronuncia ,franceza1 desterram da-escritura1 os ditongos1 e tritongos2 pondo somente a letra que conresponde ao tal ditongo4 outras ,nasoens fazem o mesmo4 ,se pois em todos os tempos ouve esta liberdade2 tambem se-deve praticar em ,portugal4 ,e asim parece-me escrupulo ridiculo1 querer conservar em ,ieronimo1 o h1 e y3 e em ,ioz1 o ph c4 tudo isto se-deve evitar1 escrevendo os nomes com as letras1 com que-se pronunciam em ,portugal4 ,emfim a regra geral1 que todos os nomes de origem antiga c4 ou sejam ,proprios1 ou ,apelativos1 que estam naturalizados1 e sam frequentemente uzurpados1 ou por-todos os omens1 como ,ieronimo1 ,triumfo1 c4 ou polo comum dos-doutos1 como ,filozofia1 ,teologia1 ,fizica1 ,metafizica1 e mil outros2 devem-se escrever como se-pronunciam4 ,os nomes ditos que nam sam geralmente uzados1 v4g4 ,themistio1 ,theopompo c4 por-nam escandalizar os ouvintes1 ou confundir os ignorantes1 melhor escrevelos com as letras originais4 ,os nomes1 em que entra duvida se sam1 ou nam uzados1 podem-se escrever1 com as letras da-sua derivasam2 pois a duvida mostra1 que nam uzual4 ,isto digo dos-nomes1 que sam puramente antigos1 ou que se-derivam de linguas mortas1 como a ,latina1 ,grega1 ,ebraica1 ,caldaica c4 ,quanto pois aos nomes de linguas vivas1 principalmente das-linguas do-,norte1 em que se-acham muitas consoantes seguidas c4 acho que melhor1 e s vezes preciza necesidade1 escrevelos com todas as suas letras3 porque sem isto1 nam se-poderm distinguir e reconhecer1 os ,autores1 as ,cidades c4 e nacer grande confuzam4 ,aquelas consoantes que a ns parecem superfluas1 nam o-sam para eles1 porque as-pronunciam1 supondo-lhe vogais3 onde tirando-as1 nem os-intenderemos pronunciar1 nem os-saberemos procurar nos-livros4 ,esta doutrina que at aqui establecemos1 deve-se aplicar1 a todos os outros cazos que ocorrerem1 de quaisquer letras que se-nam-pronunciam3 ,e asim nam necesario repetila especialmente1 em todas as palavras3 pois qualquer por-simesmo pode aplicla4 ,onde1 seguindo a ordem do-,alfabeto1 deve-se desterrar o ,g4 de ,madalena c4 ,polo contrario deve conservar-se em ,significar1 ,magnifico c4 porque na pronuncia s'exprime4 ,a mesma razam persuade1 que nenhum ,portuguez deve servir-se do-,h1 senam quando tem diferente pronuncia4 v4g4 despois de c1 como em ,chave1 despois de n1 como em ,minha c41 nunca porem quando se-diz1 ,he1 ,hei c4 ,desta opiniam foram alguns antigos ,portuguezes1 como ,joam ,franco ,barreto na sua ,ortografia2 que quer se escrevam1 sem h3 e o ,p4 ,bento ,pereira na sua ,grammatica ,lingu ,lusitan1 que concede1 que em algumas partes se-pode deixar4 ,muitos ,portuguezes que atualmente vivem1 e de mui boa doutrina1 defendem fortemente1 que se-exclua o h4 e achei um1 que somente o-admitia1 quando distinguia uma disam da-outra4 v4g4 ,ouve pode significar1 teve1 e tambm1 est ouvindo3 onde no-significado de teve1 punha-lhe o h1 para nam cauzar confuzam4 ,conheso1 que o contexto mostra bem1 em que sentido se-toma3 e sei que no-,latim1 infinitas palavras1 que tem terminasoens equivocas1 cujo verdadeiro significado se-alcansa1 polo contexto4 ,e ainda no-,portuguez ,amra1 e ,amar1 se acazo nam tem acento1 somente se-distinguem polo contexto4 da-mesma sorte ,cria verbo que significa1 ,tirar do-nada3 cria verbo que significa1 ,produzir a terra3 cria verbo que significa1 ,dar leite s criansas3 e cria1 imperfeito do-verbo crer3 nam se-distinguem senam polo contexto3 o que tambem sucede em muitos outros4 ,digo somente1 que nam condenaria1 quem o-escrevese nestes cazos3 aindaque eu pratique comumente o contrario4 ,fra daqui1 julgo que nam se-deve escrever1 em nenhuma outra disam2 porque todas se-distinguem mui bem1 sem ese sinal de aspirasam4 ,o ,bluteau1 que no-,dicionario diz1 que em algumas partes se-podia deixar de pr o h no-principio2 em outros lugares porem defende1 a introdusam do-h1 querendose desculpar1 com a lingua ,italiana4 ,mas erra manifestamente no-que diz4 porque nam s os omens mais doutos na lingua ,italiana desterrram o h do-principio1 e de muitas partes do-meio das-disoens1 deixando-o somente despois de c1 e g1 como em ,bianche1 ,vaghe2 porque aqui verdadeiramente aspirasam forte1 e tem seu particular soido3 mas tambem a mesma ,academia da-,crusca no-seu ,vocabulario ,compendiado e ,correto1 declara1 que somente uza do-h1 para evitar algum equivoco4 v4g4 ,hanno1 ,verbo que quer dizer1 tem2 de ,anno1 nome que significa1 o ano4 ,como tambem em1 ,ho1 ,hai1 ,ha1 inflexoens do-mesmo ,verbo2 para as-distinguir de algumas ,particulas1 que tem a mesma terminasam4 aindaque neste cazo nam condenam1 quem deixa o h4 ,quando muito admitem o h1 em ,hui1 ,hoi1 exclamasam de quem se-queixa1 ou outro semelhante monosilabo3 declarando porem1 que aqui1 e em quatro vozes que apontam1 s'introduzio por-erro antigo dos-impresores1 e nam por-alguma fundada razam4 ,o que muito de notar3 sendoque os ,toscanos aspiram fortemente todos os monosilabos1 semque por-iso escrevam h4 ,fra destas circunstancias1 nenhum ,italiano douto escreve h3 onde falsamente se-serve o ,bluteau do-seu exemplo4 ,mas1 deixando o que fazem os outros1 e pasando ao que devem fazer os ,portuguezes1 digo1 que nam devem escrever h senam1 quando cauza diferente pronuncia1 como em ,minha1 ,diz-lhe c4 ,o quando ,verbo1 muito bem se-distingue do-e ,conjunsam1 pondo-lhe emsima um acento4 ,nem eu poso intender porque razam ,verbo1 deva escrever-se com h1 e era1 eram c4 que sam inflexoens do-mesmo ,verbo1 sem ele4 ,tambm o s1 1 ,verbos que significam ter1 mui bem se-distinguem de s1 ,particulas1 com a diversidade do-acento grave4 ,tudo isto asim distinguem os nosos ,italianos1 que participam mais que ninguem da-lingua ,latina1 e que sam mui advertidos nestas pronuncias4 ,onde erro dizer1 ,huma1 ,humilde c4 mas deve-se escrever1 ,uma1 ,umilde c4 ,nem obscura a razam3 basta olhar para pronuncia1 para saber1 que erro1 pr o h4 ,antigamente o h era sinal de uma forte aspirasam#g4 7intendo por esta palavra aspirasam1 deitar para fra o ar que se-recebeo1 para refrescar o interior1 e ajudar a circulasam do-sangue3 o que advirto1 porque me-parece1 que entre muitos ,portuguezes1 nam bem certa a significasam desta palavra1 aspirasam7 ,deste final pois somente se-serviam1 para suprir as letras aspiradas dos-,gregos4 ,onde somente s'escrevia antes das-vogais1 cuja pronuncia era bem aspirada1 e gutural1 como adverte ,cicero#h4 e talvez antes desas nam se-punha4 ,mas no-tempo da-pureza da-lingua ,latina1 nunca os omens doutos escreveram h despois de consoante3 mas somente no-principio da-disam1 e antes de vogal3 e nam escreviam ,pulcher1 mas ,pulcer3 nam ,charitas1 mas ,caritas c4 o que ainda oje vemos1 nos-melhores manuscritos1 e inscrisoens lapidares4 ,mas se alguma vez a-punham despois de consoante1 somente o-faziam nas palavras ,gregas1 ou que de l traziam origem4 ,de que fica claro1 que na lingua ,portugueza1 em que nam aspirasam alguma nem forte1 nem branda2 nam se-deve pr aquele sinal1 que s serve de avizar o ,leitor1 que aquela letra deve ser aspirada4 ,somente do-,u duvidei por-algum tempo1 se admitia antes de si h3 porque1 a falar verdade1 parece-me ser aquela letra1 que em ,portugal se-pronuncia1 com alguma aspirasam2 porque a mesma natureza da-letra o-permite4 mas dezenganram-me os meus ,italianos1 que1 sendo tam escrupulozos observadores da-pronuncia1 nam poem h antes de disam alguma1 que comece por-u3 falo dos-que escrevem com a ultima perfeisam4 ,onde nem menos os ,portuguezes devem ter escrupulo1 de os-escrever sem h4 ,sobre as diferentes especies de ,,ii4 incrivel a bulha que alguns fazem1 especialmente para determinar1 quando se-deve pr j rasgado1 ao principio das-disoens4 ,cuido que esta grande bulha1 se-pode reduzir a duas palavras4 ,distinguir o i vogal do-consoante1 mui necesario1 para saber quando fere1 ou nam fere a vogal4 chamamos rasgado1 ao consoante2 pequeno1 ao vogal2 e distinguem-se pola figura4 ,quanto ao escrevelos ao principio1 pouca dificuldade pode nacer1 em quem escreve em ,portuguez2 vistoque rarisima palavra ,portugueza comesa por-i vogal1 antes de outra vogal4 ,onde tirando1 a ,verbo1 ou alguma outra rarisima1 que agora nam me-ocorre2 em todas as palavras ,portuguezas1 que comesam por-i antes de vogal1 a dita letra consoante1 e deve-se escrever rasgada2 ou de forma pequena1 ou maiuscula1 segundo a necesidade4 ,alguma dificuldade pode nacer1 no-principio das-palavras impresas4 ,neste cazo nam dezaprovo1 que o i de ,joannes v4g4 e outros semelhantes seja rasgado1 para evitar alguma confuzam4 ,mas isto intende-se nos-nomes de frma pequena3 porque nos-de frma grande1 que a maiuscula ,romana1 pouca necesidade temos de escrever i rasgado no-principio3 pois com o outro1 igualmente se-pronuncia bem4 ,quem porem em ambas as partes quizese pr i rasgado1 nam o-condenaria3 principalmente se comesasem por-alguma das-duas ,portuguezas1 que asima aponto4 ,a maior dificuldade consiste em determinar1 quando se-poem ,g1 quando ,i1 antes de e1 ou i1 nas palavras ,portuguezas4 v4g4 ,gente escreve-se com g3 ,ereje uns o-escrevem com g1 outros com i1 ,ieronimo com i3 ,giro escreve-se com g3 ,e outras vezes antes do-e c4 poem-se um j consoante4 ,para dar razam destas variasoens1 tem alguns escrito longas paginas3 mas nenhuma ,regra das-que li1 deixa de ter suas excesoens4 ,dizem1 que em ,gente1 ,giro c4 a derivasam aponta o g4 concedo3 mas que derivasam aponta a letra1 que devemos escrever em ,ereje1 e outros semelhantes1 que nam tem analogia alguma1 com as letras da-sua derivasam8 ,o meu parecer este3 ,que os doutos1 sigam a derivasam ,latina1 especialmente no-principio2 e tanto nos-,apelativos1 como ,proprios1 que sempre comesam por-i3 tirando quando despois se-segue outro i1 que entam melhor1 converter o primeiro em g1 como ,ginja4 ,que no-meio1 uzem mais do-g1 que do-i3 vistoque nisto tambem diversidade1 ainda nos-que derivam do-mesmo ,latim4 ,mas1 nam se-lembrando da-derivasam1 c4 posam servir-se indiferentemente de ambas4 ,os ignorantes sigam o costume e a prtica1 dos-que melhor escrevem4 ,nem devemos admirar-nos1 se em alguma letra nem todos concordem3 nam sendo posivel1 que convenham todos1 em materia tam duvidoza e arbitraria4 ,tambem sobre as terminasoens1 am1 e a1 fazem alguns longuisimas disputas1 e mui superfluamente4 ,confesa o ,bluteau na sua ,proza ,apologetica1 que ja saram livros inteiros1 para deitar fra o a3 e que outros lhe respondram dizendo1 que o til nam era letra1 mas risco4 ,o ,bluteau protege a pose do-a4 mas declara1 que o til supre a letra n3 e defende constantemente1 que nam se-deve tirar o til1 porque a terminasam a1 segundo ele diz1 mais engrasada1 que o am2 e por-este motivo deve-se conservar3 muito mais porque seria necesario tambem1 desnaturalizar as palavras1 ,birimbao1 ,catimbao1 ,pao1 c4 ,mas o ,bluteau nesta materia1 deixou-se guiar por-alguns prejuizos4 ,dizer1 que o til risco1 e nam letra1 o mesmo1 que nam dizer nada4 ,o certo 1 que este risco faz1 que eu pronuncie um n demais1 que as letras que ali vejo3 onde1 chamem-lhe como quizerem1 um verdadeiro n4 ,dizer1 que a terminasam am1 diferente na pronuncia1 de a1 outro engano3 pois em qualquer disam ,portugueza1 que se-ache a terminasam am1 todos a-pronunciam como a3 e ,portuguezes mui doutos servem-se indiferentemente de ambas3 e cuido que com muita razam2 se que a segunda se-deva tolerar4 ,os que contrareiam isto1 nam intendem bem a materia2 nem d'onde naceo1 esta particular pronuncia em a4 ,quem bem considera o ponto1 reconhece facilmente1 que aquele til1 um rigorozo m final3 e deveria escrever-se1 ,falaom3 porque escrevendo-se desta sorte1 e pronunciando-se depresa1 faz o mesmo soido1 que ,fala4 ,daqui naceo1 aquela particular terminasam em a dos-,portuguezes3 porque com a presa de pronunciarem1 tocam tam de pasagem o o2 que nam se-ouve mais1 que o m3 o qual1 em vez de o-pronunciarem com os beisos fechados1 que a sua propria pronuncia2 pronunciam com um soido fanhozo do-nariz3 que o estilo prezente de pronunciar todo o m final1 em ,portugal3 nam avendo aqui m1 que se-pronuncie como deve ser4 ,alemdeque bastava alguma reflexam1 para conhecer isto2 acha-se manifesta razam1 para o-persuadir4 ,a plica ou til1 deve significar alguma letra3 de outra sorte seria superflua1 e nam produziria algum efeito4 ,esta letra s pode ser m1 ou n1 e ambos finais3 porque de outra sorte sera1 ,falamo1 ou ,falano3 o-que nam pode ser4 ,onde fica claro1 que ,falam1 uma sincope de ,falaom3 e que tanto se-pode escrever um1 como outro4 ,reconhece-se isto melhor nos-plurais4 v4g4 ,ma1 faz maons3 ,vara1 varoens3 nos-quais declaradamente se-ve o m1 ou n1 segundo a pronuncia4 ,e eu creio1 que antigamente nestes plurais1 em vez de n1 punham m2 e que a dificuldade de pronunciar o m junto com o s2 ou o som do-nariz1 que pouco a pouco se-foi introduzindo no-m1 o-converteo em n nestas terminasoens3 pois ainda oje escrevendo-se com um m final1 a pronuncia o-faz parecer1 como n4 ,o que1 como dise1 um idiotismo particular dos-,portuguezes4 ,e esta a razam1 porque os ,estrangeiros1 nam podem pronunciar bem estas dezinencias2 que na verdade sam feias1 e asperas terrivelmente3 porque nam quem lhe-explique1 que o til de a1 um m1 que os ,portuguezes1 por-corrusam1 pronunciam como um n2 nam s no-fim1 mas ainda no-meio das-palavras4 ,reconheci isto por-experiencia3 pois tantoque dei esta explicasam a alguns1 e mostrei o vicio da-linguagem2 pronunciram melhor1 que os outros4 ,daqui concluo1 que as ditas terminasoens1 a1 e am1 podem-se uzar indiferentemente2 vistoque uma sincope da-outra3 tendo introduzido o uzo1 nam pronunciar na segunda1 o o4 ,onde dise um erro ,inacio ,garcez ,ferreira1 e alguns outros1 quando quizeram defender1 que estas dezinencias eram diferentes no-soido3 e quando ele lhe-chamou1 sincopes das-,castelhanas4 ,e nam sei1 se confirma tambem o que ate aqui dise1 ver1 que na ,provincia de ,entre ,doiro1 e ,minho1 ainda oje se-pronunca1 em muitas destas palavras1 o o2 pois dizem1 ,tabaliom1 ,escrivom c4 ,mas eu digo mais1 e asento1 que aindaque uma seja abreviatura da-outra1 emportava muito lingua ,portugueza1 que se-deitase fra o til1 e a terminasam a1 escrevendo-se tudo extensamente3 e uma de duas1 ou que se-escrevese ,falaom2 ou1 abreviando1 ,falam4 ,introduzir a primeira escritura1 sera mais dificultozo2 porque estes amigos nam querem reformas utis3 e asim ser melhor1 preferir a segunda am1 que ja est recebida em ,portugal4 ,certo 1 que quando os ,portuguezes escrevem1 a dita terminasam am1 pronunciam a3 e tambem certo1 que muitos omens doutos servem-se da-primeira terminasam4 ,este modo de escrever1 encostava-se mais para a pronuncia3 e com ele se-evitavam confuzoens4 sera tambm a lingua mais facil de ler1 e pronunciar1 aos ,estrangeiros3 pois bastava advertir-lhe1 que entre1 o a e m1 deve-se pr um o1 e pronuncialo depresa4 ,advertimos porem1 que aindaque os ,portuguezes tenham1 esta pesima pronuncia na sua lingua2 quando porem pronunciam a dita terminasam am1 no-,latim2 devem pronunciala com os beisos fechados1 como em seu lugar advertiremos3 poisque a lingua ,latina nam est sugeita1 s suas leis4 ,querem alguns1 que em ,tempo1 e outras palavras1 em lugar do-m1 se-ponha n1 porque asim soa4 ,cuido1 que dizem mal3 porque aindaque alguns pronunciem o dito m1 como n1 pronunciam muito mal2 pois nesta voz muito bem se-ouve o m1 e em outras tambem4 ,e aindaque em outras partes1 nam seja tam sensivel o m1 deve conservar-se3 pois se ouvesemos de tirar todos os mm1 que nam se-explicam bem1 poucos mm ficariam em ,portugal4 ,em ,contigo1 ,consigo c4 podem tiralo4 ,contudo quem o-quizese tirar em todas as outras1 nem por-iso o-condenaria como erro4 ,a terminasam an1 tambem cauza duvidas1 a muitos ,portuguezes3 e eu julgo1 que nam deve ter nenhuma4 ,acham-se omens que asentam1 que nam tal terminasam no-,portuguez1 e defendem isto1 com muita forsa4 ,se disesem1 que a terminasam an1 antigamente era am1 nam diriam mal3 mas querer defender1 que oje nam tal terminasam1 dizer um erro4 ,distinguem-se oje os nomes ,femininos1 dos-,masculinos1 com esta terminasam4 ,vg4 ,vam1 e ,van3 ,irmam1 e ,irman4 ,nem me-digam1 que o til risco1 e nam letra3 pois ja asima mostrei1 que o til uma letra2 e que a pronuncia ensina1 que -de ser n4 ,por-esta razam concluo1 que ser necesario1 pr o dito n expreso1 deitando fra o til4 ,muitos ,portuguezes doutos seguem esta opiniam3 os quais rim-se de ,duarte ,nunes1 que queria se-dobrasem os aa1 dizendo ,va1 ,menha4 ,sobre o ,p1 ja asima dise1 que nam se deve escrever ph por-f3 ,agora digo1 que nem menos se-pode sofrer1 o que muitos fazem1 pr p1 antes de t1 em muitas disoens4 vg4 ,prompto c4 ,esta uma afetasam pouco toleravel3 vistoque a pronuncia ,portugueza1 tem ja desterrado este p4 ,onde nam a mesma razam do-b1 ou do-g1 ou do-d1 que se-conservam nas palavras1 ,obscuro1 ,significo1 ,adverte3 porque este1 ouve-se mui bem3 e o p1 nam se-ouve sem afetasam4 ,e nam falta quem diga1 que nas duas primeiras palavras tem ja introduzido o uzo1 deixar aquelas letras na pronuncia3 o que eu nam condeno3 como nem menos condeno1 quem as-pronunca4 ,pode ser que com o tempo1 se-deixem totalmente4 ,quimera por-,chimera1 defende ,bluteau1 e alguns outros3 eu julgo1 que sem razam alguma2 sendoque o qui1 tem mui diferente pronuncia1 doque a que se-ouve na palavra1 ,chimera4 ,ja asima dise1 que a quem nam agrada1 escrever estas palavras1 por-ch1 melhor1 uzar o k dos-,gregos1 doque o qui2 que tem em ,portugal diferente pronuncia1 na qual expresamente se-ouve o u4 ,introduzio o uzo em ,portugal1 dobrar os rr1 quando tem pronuncia forte3 e parece-me que este uzo se-deve observar1 nam fazendo cazo1 do-que aconselham alguns1 que um s r bastava4 ,nam poso sofrer1 que o ,bluteau na sua ,proza ,gramatonomica1 queira introduzir1 no-principio das-palavras ,portuguezas1 o s antes de consoante3 e escrever1 ,squeleto1 ,spasmo1 ,scena1 ,sciencia c4 ,esta corresam tam fora do-escolio1 que nenhum ,portuguez1 que nam seja ,latino1 saber pronunciar aquele s1 no-tal lugar3 e o que souber ,latim1 ser necesario1 que pronuncie um e mui redondo4 ,a razam disto 1 porque o s ,portuguez1 que nam final1 um verdadeiro sibilo ou letra sibilante1 que faz ouvir a vogal ou antecedente1 ou consequente4 e asim1 querer escrevela sem vogal1 mudar a pronuncia da-letra1 e fazer uma ridicularia1 fundada unicamente em querer mostrar1 que sabe a derivasam daquelas palavras4 ,abrasram algumas pesoas cegamente1 a opiniam do-,bluteau3 mas nem por-iso dam razam1 ou fazem autoridade nesta materia4 ,onde1 antes de consoante1 nunca se-deve escrever s simplez4 ,deve-se com cuidado distinguir o u vogal1 do-consoante v1 ou v1 para nam originar duvidas4 ,o que muitos nam fazem1 ainda prezados de doutos3 pois vejo escrituras deles1 que merecem compaixam4 ,isto porem nam s no-,portuguez1 mas ainda no-,latim necesario3 ,pois aindaque antigamente1 7que os ,romanos escreviam com letras maiusculas7 todos os vv tinham a mesma figura3 oje que1 com muita razam1 se-introduzio esta necesidade1 devemos1 no-carater pequeno1 distinguir na figura estas duas letras1 asimcomo as-distinguimos na pronuncia4 ,e fazem mui bem os ,alemaens1 que1 ainda nas letras maiusculas1 distinguem o vogal1 do-consoante1 nos-livros impresos4 ,diz ,alvaro ,ferreira ,vera1 que nenhuma disam ,portugueza1 deve acabar em x4 ,muitos porem acabam em x algumas palavras1 e entre elas1 ,felix1 ,simplex c4 ,o que eu sei 1 que a pronuncia ,portugueza acaba em x1 todas as palavras que acabam em s3 quero dizer1 que todo o s final pronunciam como x4 de que nam quero outra prova mais1 que cada um observe1 como pronuncia o s final2 e que diferensa tem do-s1 que pronunciam no-meio das-disoens4 ,o que suposto1 se seja mais util1 acabar em x1 o que se-pronuncia como x1 ou pronunciar diferentemente os ss finais2 eu o-deixo considerar a ,v4 ,p4 ,mas deixemos o s1 na sua pose3 observo1 que nam s o s final se-pronunca como x1 mas tambm o z final3 o que ,v4 ,p4 pode ver em1 ,diz1 ,luiz1 ,fiz c4 ,e daqui cuido que naceo a facilidade1 de pr o z1 em lugar de s final1 naquelas vozes de que se-formam outras3 como1 ,diz1 dizes2 ,faz1 fazes2 para por-este meio fazer os plurais1 somente com acrecentar es4 ,o que eu nam condeno1 mas antes aprovo1 e pratco com o exemplo1 e com a razam3 e cuido asim se-deve fazer4 ,nesta letra digno de atensam1 o demaziado escrupulo de alguns1 que magistralmente decidem1 que o x tem diferente pronuncia do-ch1 antes de e1 ou i3 e que erro dizer1 ,xapeo2 mas que se-deve pronunciar1 ,chapeo1 carregando muito no-ch1 para o-distinguir do x3 e advertem1 que erro da-pronuncia da-,estremadura1 pronunciar o ch1 como x4 ,mas1 sem fazer cazo da-decizam destes ,senhores1 julgo1 que devemos continuar1 na pronuncia da-,estremadura4 ,nam digo1 que na escritura convertamos o ch1 em x3 deixo as coizas como se-acham3 s digo1 que na pronuncia1 nam diferensa entre uma1 e outra letra4 ,em materia de pronuncia1 sempre se-devem preferir1 os que sam mais cultos e falam bem na ,estremadura1 que todos os das-outras ,provincias juntas4 ,ora certo1 que os ditos pronunciam docemente como um x3 e nem s eles1 mas muitisimos de outras ,provincias1 tem a mesma pronuncia4 ,somente alguma diversidade achei nos-,beirenses1 que batem mais o dito c1 encostando-se pronuncia ,romana do-c4 ,mas seja como for1 estas nam sam razoens1 para persuadir um omem1 a que pronuncie o dito ch1 diferentemente do-x3 quando a pronuncia comua est a seu favor3 a qual por-iso mesmo que mais suave1 deve ser preferida outra4 ,e saiba ,v4 ,p4 que notei outra coiza1 e vem aser1 que os que querem pronunciar o ch1 nam como x1 esforsam-se desorte1 que1 na violencia comque pronunciam1 mostram bem1 que nam esa a sua pronuncia4 ,o dizer1 que se-devem distinguir na pronuncia1 nem menos persuade3 porque eles mesmos admitem que s1 e c1 antes de e1 e i1 pronunciam-se da-mesma sorte3 onde nam tem que se-escandalizar4 ,e asim o dizerem eles1 erro1 nam faz forsa3 devemos responder-lhe1 que eles sam os que erram4 ,advirto porem1 que no-meio das-disoens introduzio o uzo1 nam pronunciar o x1 como no-principio2 mas segundo o estilo ,latino1 como se fose um cs brando1 tocando ligeiramente o c3 v4 g4 em ,reflexam1 ,conexam c4 porque asim mais suave4 mas ,paixam1 ainda se-conserva em toda a sua forsa2 e nam sei qual outro4 ,o ,y tem tantos apaixonados1 principalmente entre os modernos ,portuguezes1 que quazi abuzam dele3 e acham-se livros1 em que sam mais os yy1 que os ii3 especialmente o ,curvo na sua ,atalaia da-,vida1 e alguns outros4 ,o ,bluteau1 seguindo a ,bento ,pereira1 diz1 que se-deve admetir nas palavras1 para mostrar a origem remota delas1 principalmente do-,grego c4 ,como se sem esta noticia1 nam pudesemos saber ,portuguez6 ,tomra porem que me-disese1 se ,meio1 ,cuidado1 ,saia c4 em que poem o tal y1 tem alguma analogia com a origem4 ,outros dam outras razoens1 que nam merecem reflexam1 nem resposta3 ,o certo 1 que esta vogal antigamente valia o mesmo1 que o u1 ou tinha um soido mais semelhante a u1 que a i4 onde se a-quizer-mos tomar1 no-seu antigo vigor1 faremos uma voz desemelhante1 que queremos pronunciar3 e se acazo deve valer um i simplez1 tomra que me-disesem1 por-qual razam a-poem1 onde nam necesaria4 ,daqui vem1 que erro escrever1 ,meyo1 ,ley1 ,hey1 ,rey c4 tudo isto se-deve escrever sem y1 porque nam sam nomes ,gregos1 mas puros ,portuguezes4 ,onde nam s os ,portuguezes1 mas os mesmos nomes ,gregos1 quando estam bem aportuguezados1 como ,idropezia1 ,ulizes c4 se-devem escrever sem y4 ,confeso1 que nam pude sofrer o ,bluteau1 o qual1 seguindo ao ,pereira1 quer1 que a vogal i nam seja suficiente1 para fazer ditongo com a1 dizendo1 ,pai1 ,dai1 c4 mas que seja de necesidade pr o y1 para o ditongo4 ,este parecer nam necesita de confutasam3 pois quemquer conhece1 que com ai1 se-pronunca1 da-mesma sorte que ay3 onde o uzo serve de resposta2 e nam temos necesidade do-y1 para fazer o mesmo1 que fazemos com o i4 ,paso daqui ao ,z1 aquela letra desgrasada1 que teve a infelicidade de dezagradar1 maior parte dos-escritores ,portuguezes deste seculo3 os quais nam s a-desprezram1 para introduzir em seu lugar o s2 mas alguns deles com decreto asentram1 que se-devia desterrar do-meio das-disoens1 e prover o seu lugar no-s4 ,estes ,senhores escrevem quazi tudo com s4 ,achar ,v4 ,p4 em alguns dos-bem modernos 99 99 99 ,cezar1 ,fazer1 ,quizeram1 ,miudeza1 ,reduzir1 ,fazenda c4 tudo escrito com s4 ,entre eles achei um1 de mui boa fama1 que em uma orasam 99 99 escreve1 ,alteza1 ,solenizado com z3 e pouco abaixo1 ,usurpram1 ,lisonja com s4 poem ,riqueza1 e logo ,luminoso1 ,profusam4 poem ,fazem1 e logo ,religioso4 ,emfim a maior parte destes modernos doutisimos escrevem1 ,alteza1 ,luzes1 e outras poucas palavras com z3 e tudo o restante1 em que devia entrar o z1 vai com s4 ,o ,vieira1 e outros1 que nam admitem tantos ss1 contudo em algumas disoens seguem o mesmo1 e escrevem vg4 ,brazil1 com z1 e ,reside1 com s4 ,mas eu creio1 que necesaria mui pouca meditasam para conhecer1 que todos estes erram4 ,os ,portuguezes tem a pronuncia do-z asperisima3 que creio lhe-ficou1 da-comunicasam com os ,moiros1 e ,arabios1 que abundam muito diso3 e eu acho em ,portugual1 muitos vocabulos destas ,nasoens4 ,onde tendo o s1 e z1 diferentisimas pronuncias1 erro sem desculpa1 pr o s1 em lugar do-z1 quando este deve ter toda a sua forsa1 como no-principio1 ou meio das-disoens4 ,dezafio todos os ,portuguezes1 paraque pronunciem estas palavras diferentemente1 vg4 ,luzes1 e ,lizonja2 ,abrazado1 e ,plauzivel2 ,riqueza e ,religiozo4 nam aver algum que se-atreva a dizer1 que nas primeiras se-ouve z1 e nas segundas s3 mas em ambas as partes se-ouve um z mui grande1 e gordo4 ,sendo pois esta pronuncia particular na lingua ,portugueza1 acha ,v4 ,p4 que se-pode sofrer1 desterrar todos os zz1 para introduzir uma letra1 que soa diferentemente8 a isto chamo eu destruir1 nam emendar1 a boa ,ortografia4 ,alem diso1 eu acho em ,portugal motivo1 para dizer o contrario4 ponhamos exemplo nestas duas palavras1 ,azeite1 e ,aceite2 ou tambem1 ,razam1 e ,raam4 ,ninguem dir1 que estas duas palavras soam da-mesma sorte3 porque em tal cazo nam averia motivo1 para as-distinguir na pronuncia4 todos tambem conhecem1 que o c1 com cedilha 1 antes de vogal1 pronuncia-se como s2 e que por esta razam muitisimos ,portuguezes indiferentemente uzam delas4 ,daqui pois segue-se1 que se z1 se-deve pronunciar como s1 os ditos pares de vocabulos devem pronunciar-se da-mesma sorte4 ,mas sem eu perguntar isto a omens doutos1 mas somente ao leigo da-cozinha de ,v4 ,p4 sei que me-responder1 que ,razam1 e ,raam1 sam coizas mui diferentes3 ,azeite1 e ,aceite1 nam menos3 ,e asim nam tenho lugar de duvidar1 que1 pronunciando-se diferentemente1 devem tambem escrever-se1 com letras diferentes4 ,se concedem1 que o z se-deve conservar1 em algumas vozes1 como todos concedem2 que razam 1 para o-nam-conservar nas outras8 ,se dizem1 que o dito s se-deve pronunciar como z1 merecem rizo quando querem pr aquele por-este4 ou deitem fra esta letra do-alfabeto2 ou escrevam-na onde deve entrar4 ,fazer o contrario1 destruir a pronuncia da-lingua1 ou batizar de novo as letras4 ,somente porei z em lugar de s1 no-fim de algumas disoens1 de que se-formam outras1 como asima dise3 porque o uzo introduzio esta pronuncia do-z1 semelhante ao s4 o que suspeito que provm de uma ,apocope1 que se-acha nas tais palavras3 e que antigamente despois do-z se-punha uma vogal3 como exemplo em muitas linguas1 e tambm na ,portugueza4 ,lendo eu a este intento o ,bluteau nos-opusculos1#i fiquei confirmado1 que poucos omens pensam bem1 ainda dos-que tem bom nome4 ,confesa1 que muitos eram de parecer1 que s'escrevese ,filozofia1 sem ph3 e que sempre se-avia de seguir a pronuncia1 pois era esta a maior excelencia do-,portuguez2 no-qual as letras dobradas eram inutis4 ,que desta opiniam era ,duarte ,nules de ,leam1 ,joam de ,barros1 nas suas ,ortografias2 e outros muitos autores1 que escrevram da-lingua4 ,contudo diz1 que na ,academia do-,ericeira se-asentra1 que nem sempre se-devia escrever como a pronuncia3 ,mas aqueles nomes que conhecidamente encerravam origens sem corrusam1 s'escrevesem como na sua etimologia1 quando as letras nam fosem como a pronuncia3 e asim ,coro1 e nam ,choro3 ,monarquia1 e nam ,monarchia3 ,e que os zz s'evitasem muitas vezes1 servindo-se do-s4 ,confeso a ,v4,p4 que nam pude ler isto sem rizo4 ,eu nunca li as obras do-,leam1 ou ,barros1 nem me-cansei em buscalas3 mas agora fico formando melhor conceito deles4 ,polo contrario nam sei1 quais eram os votantes na dita conferencia3 porem olhando para o que asentram1 formo mao conceito do-seu juizo3 pois conhecendo a razam1 e tendo bons autores1 que os-apadrinhasem2 ainda asim quizeram seguir os prejuizos e preocupasoens que mamram1 somente por-serem antigas4 ,isto certamente nam emendar a ,ortografia4 ,o pior 1 que o ,bluteau conhecendo isto mesmo1 como em algumas partes confesa1 deixa-se guiar da-corrente4 ,asima mostrei1 que ,monarchia1 deve-se escrever com ch1 vistoque asim escrevem ,archanjo os contrarios c4 e nam tem divesa razam1 sem cairem em uma superfluidade4 ,devendo pois desterrar o ch1 melhor servir-se de k2 mas nunca de q4 ,o mais tambem ja fica advertido4 ,certamente que o dizer o ,bluteau1 que nos-nomes se-deve observar1 a ,ortografia da-derivasam1 como em ,philosophia c4 porque de outra sorte nam se-saberm buscar nos-,dicionarios2 reflexam que merece rizo3 porquanto as derivasoens1 s as-procuram os doutos3 e estes bem as-sabem4 os ignorantes1 nem asbuscam1 nem necesitam de buscalas1 aindaque queiram falar1 e escrever puramente4 ,at aqui tenho feito algumas reflexoens1 principalmente sobre as coizas1 que se-devem deixar3 agora farei outras1 sobre as que se-devem acrecentar4 ,nam cuide ,v4 ,p4 que estas sam de menor momento nesta materia3 antes muitas vezes delas depende o aumento1 a pureza1 e elegancia da-lingua4 ,ponho em primeiro lugar os ,acentos3 que creio1 sam indispensavelmente necesarios1 para distinguir muitas palavras4 ,nam podemos sem eles saber1 se ,amara1 preterito1 ou futuro3 e damesma sorte em outras muitas palavras4 ,tambem para distinguir os ,nomes1 dos-,verbos1 vg4 ,pronuncia nome1 de ,pronunca verbo4 ,asimque este deve ser todo o cuidado dos-mestres3 que devem advertir aos discipulos1 em que partes se-devem pr1 para bater com mais1 ou menos forsa as vogais1 e distinguir os tempos1 e as vozes3 vistoque os ,portuguezes nam tem letras dobradas1 que antigamente serviam a outros1 para mostrar as diferentes pronuncias4 ,porque eles com as dobradas1 pronunciavam diferentemente3 e os ,portuguezes1 tirando em pouquisimas palavras1 pronunciam como se estivese uma simplez letra4 ,nam ignora ,v4,p4 que as virgulas1 pontos1 e dois pontos1 foram inventados1 para distinguir melhor o discurso4 ,este um dos-defeitos da-antiga escritura1 que tinha poucos sinais destes3 e por-iso s vezes bem embrulhada4 ,muitas vezes ver ,v4,p4 um ponto1 despois de cada palavra3 o que faz grandisima confuzam4 ,outras vezes1 o lugar em que punham o ponto1 mostrava a diversidade da-pontuasam3 quero dizer1 que o polo na cabesa1 ou no-corpo1 ou no-p da-letra1 mostrava que era virgola1 dois pontos1 e ponto4 ,e como nam temos documentos bem claros1 ainda oje vareiam muito os ,gramaticos no-determinar1 quando era ponto1 e quando virgula c4 ,com efeito eu vi uma lapide antiga1 na qual os pontos todos estavam em um mesmo sitio1 no-corpo das-letras3 o que aumentava a confuzam4 ,os ,modernos mais advertidos inventram estes diversos sinais1 para nam nos-enganar-mos nas pauzas1 e no-sentido do-discurso4 ,mas ainda nisto procedram devagar3 e eu vi livros impresos nos-primeiros tempos1 quero dizer1 nos-fins do-seculo ,,xv4 e principios do-,,xvi4 nos-quais nam avia mais que virgulas1 e todas damesma figura3 o que aumentava sensivelmente o embaraso3 sendo necesario um grandisimo estudo1 para distinguir os sentidos4 ,e isto se-pratca ainda oje nos-originais das-,bulas ,romanas1 escritos sem virgulas1 nem pontos3 os quais quem nam pratico dos-estilos da-,dataria1 nam pode ler2 nam s polo carater ,gotico1 mas pola ,pontuasam4 ,os ,modernos evitram isto1 com a diferensa de figuras4 ,onde sendo os ,acentos1 os que tiram a confuzam pronuncia1 e ensinam1 como se-devem distinguir as partes do-discurso2 valem infinito preso1 e devem praticar-se com cuidado4 ,nam digo1 que escrupulozamente pratiquemos as trez sortes de acentos3 pois nem os mesmos ,romanos se-serviam muito do-circumflexo1 que com o tempo perdram4 basta uzar do-agudo1 que se-escreve asim 77 para bater mais as silabas3 do-grave neste modo 77 para as particulas1 que se-tocam menos3 em algum cazo quem quizese podia pr o circumflexo sobre o 1 para dar lugar ao ponto desima4 ,ifto o que basta4 ,aos acentos seguem-se as linhas1 que se-escrevem entre as disoens1 para as-juntar1 ou dividir na pronuncia4 ,os ,ebreos tambem tinham estas linhas1 e alguns ,povos ,europeos4 ,algum ,portuguez a-uza4 mas sera justo que a-uzasem mais1 e com regras determinadas3 pois ajuda muito a pronuncia1 e distingue muito as disoens1 principalmente as compostas4 ,julgo1 que se-deve uzar naquelas1 que compoem duas palavras perfeitas1 que costumam estar s vezes separadas4 v4g4 ,fazemos-lhe1 lhes-fazem1 nos-dizem1 dizem-no c4 ,com isto se-mostra1 quando os ,pronomes unem com os ,verbos1 nam s no-sentido1 mas na pronuncia3 e finalmente1 quando muitas disoens na pronuncia compoem uma4 ,deve-se tambem pr entre a ,particula se1 quando ,pronome1 e o ,verbo4 v4g4 ,se se-fizer4 o primeiro se1 ,conjunsam condicional3 o segundo1 ,pronome1 e une com o ,verbo4 ,onde a dita linha de grande utilidade1 para mostrar as palavras1 que devem pronunciar-se unidas4 v4g4 o ,nos1 algumas vezes ,nominativo1 ,ns fazemos2 e pronuncia-se separado1 e com acento forte3 outras vezes ,cazo1 v4g4 nos-fazem3 o que se-distingue mui bem com a dita linha4 ,tambem s vezes serve1 para distinguir os tempos4 v4g4 ,amse preterito1 e ,ama-se prezente1 com esta linha se-distinguem3 porque esta separasam de vozes mostra1 que1 quando chegamos ao a1 deve correr a pronuncia1 para apanhar o se3 que o mesmo que dizer1 deve nam parar no-a1 nem carregalo3 no-que se-distingue o tempo4 ,sei1 que com os acentos se-podem distinguir estas coizas1 digo1 este ultimo cazo2 e por iso digo1 que ou uma1 ou outra coiza se-deve praticar3 aindaque eu1 por-intender que sam necesarias1 pratco ambas4 ,quanto ao se1 nam s deve ter linha1 quando se-une imediatamente ao ,verbo1 mas tambem quando s'interrompe com a ,particula negativa4 v4 g4 se-nam-faz1 quando vale o mesmo que1 nam se-faz4 porque aindaque a ,particula paresa que separa2 contudo no-dito cazo a negasam unida ao ,verbo1 e faz com ele um s corpo1 e sentido3 damesma sorte que entre os ,latinos1 a particula in unida aos ,verbos4 ,onde a separasam1 somente quanto vista3 e as duas linhas ensinam1 que se-deve pronunciar tudo1 como uma s palavra4 ,serve s vezes a dita linha nam s para unir as palavras1 que ese o seu principal fim2 mas para evitar os equivocos4 ,e asim poem-se na ,particula ,por1 quando significa cauza c4 para distinguila do-,verbo ,pr4 tambem nas ,particulas no1 do1 da1 para as-distinguir dos-,sustantivos n1 e d1 e do-,verbo d1 ou ds4 ,em todas estas1 e outras semelhantes1 milita a mesma razam4 nas quais porem ser justo pr acento1 quando deve ser4 ,em outras partes tenho visto uzar estas linhas1 que nam me-parecem de tanta necesidade4 v4g4 ,fazemos3 que algum douto escreve3 ,faze-mos3 ou tambem quando uma consoante se-converte n'outra1 para evitar o concurso de muitas vogais3 v4g4 ,faz-la1 ,am-la1 que vale o mesmo que1 ,fazer-a1 ,amar-a4 ,mas nestas primeiras pesoas do-plural parece escuzada1 porque se-intendem muito bem1 e estam muito em uzo4 ,e o mesmo julgo1 dos-segundos exemplos3 muito mais porque nestas em que vai ,la1 muitas nam se-acham separadas s vezes1 v4g4 ,quere-la c4 ,mas quem nestes segundos exemplos ateimse a praticala1 nam faria erro4 ,o que porem me-parece afetasam 1 querer separar esta voz ,mente1 dos-nomes com que faz ,adverbio3 ,pia-mente1 ,antiga-mente c4 ,na pronuncia destas disoens1 nam pode aver engano3 e quem as-separa1 intende mal as coizas4 ,podem opor-me uma dificuldade1 vem aser1 quando se-dividem as palavras no-fim das-regras1 como -de conhecer quem copeia1 se na seguinte regra deve pr a palavra inteira1 ou com a dita linha4 ,mas a isto respondo1 que se-conhece muito bem deste modo3 se as palavras se-dividem por-necesidade da-regra1 poem-se no-fim duas linhas asim 3 quando se-dividem na divizam da-linha1 basta pr uma s linha4 ,primeiro exemplo asim3 ,fazia3 segundo exemplo3 ,faz-me4 ,se no-fim da-regra se-acha o ,fa com duas linhas1 sinal que na imprensa1 ou copia deve ser inteira a disam3 se tem s uma linha1 sucedendo ficar toda a disam na seguinte regra1 deve ter tambem a linha3 e isto facil de praticar4 ,creio que ser mui justo1 introduzir na lingua ,portugueza1 os ,apostrofes3 que sam umas virgulas1 que se-escrevem no-alto de uma consoante antes da-vogal seguinte2 para mostrar1 que falta uma vogal1 e que a consoante se-deve unir na pronuncia1 com a vogal da-seguinte disam4 ,digo na proza1 porque no-verso o ,camoens1 e outros ja os-introduzram4 ,os nosos ,italianos introduzram os ,apostrofes1 para abreviarem as disoens3 vistoque1 comendo-se as ditas vogais na-pronuncia1 superfluo escrevelas3 bastando ali pr o sinal1 de que deveriam estar4 ,o mesmo fazem os ,francezes3 e cuido que1 sem alguma censura1 o-podem introduzir os ,portuguezes4 ,onde ser permetido escrever1 ,amor d' ,antonio3 ,cam d'agua c4 ,a razam disto 1 porque ou na proza1 ou no-verso nam se-faz cazo daquela primeira vogal3 e asim podemo-nos dispensar de a-escrever4 ,em #b4 lugar1 porque nam se-perde com isto o sentido1 nem se-faz equivoco4 ,em #c4 porque faz a pronuncia mais doce4 o que principalmente se-conhece1 quando as vogais sam semelhantes3 no-qual cazo pronunciar dois ee1 ou dois aa1 aspero1 e cansa4 ,asim cuido1 que neste cazo1 necesario2 nos-outros1 mui agradavel o ,apostrofe4 ,nem isto tam novo em ,portugal1 que nam se-achem vestigios desta uniam na pronuncia3 antes nam coiza mais frequente4 ,considere ,v4,p4 estas palavras1 ,deste1 ,daquele1 ,damesma1 e outras semelhantes2 e ver nelas o que digo4 ,antigamente escrevia-se1 ,de este1 ,de aquela1 ,de a mesma c4 o que facilmente alcansa quem considera1 o que vale aquele d1 e com que motivo se-introduzio4 ,mostrou a esperiencia1 que1 pronunciando estas particulas separadas1 ficava aspera a pronuncia3 e asim deitaram-nas fra at da escritura4 ,o que suposto1 o que eu aconselho 1 que pratiquem com as outras disoens1 que se-unem na pronuncia1 o mesmo que tem praticado com estas3 e que em ambas as partes ponham o ,apostrofe1 para mostrar a vogal que falta2 e com isto ensinar melhor a compozisam das-disoens1 sabelas conhecer1 e buscar4 ,apostarei eu1 que de dezmil omens ,portuguezes1 a um s nam veio nunca imaginasam1 que ,deste c4 composta de ,de1 e ,este4 ,proguntei isto a alguns1 e nam me-souberam responder3 e contudo serviam-se indiferentemente destes termos4 ,eu teria uzado mais amiudo dos-,apostrofes3 mas como ainda nam estam bem introduzidos1 temo que me-nam-intendam4 pouco a pouco devemos acostumalos a isto4 ,outra coiza tenho que repreender1 na maior parte dos-,portuguezes1 e vem aser1 que dividem muitas disoens1 que deviam estar juntas4 ,vg4 escrevem1 ,ainda que1 ,para que1 ,com que1 ,por que1 e outras conjunsoens semelhantes4 ,mas erram1 porque aquelas palavras quando se-seguem umas a outras1 devem estar unidas1 e fazem uma s palavra3 e at isto pode ser necesario1 para fugir de equivocasoens4 ,se eu diser3 ,para que omem me-manda6 ,com que razam me-persuade6 neste cazo o que1 ,relativo4 e deve estar separado4 ,mas quando significa o mesmo1 que etsi1 ut1 igitur1 quia1 como nas quatro asima apontadas2 deve estar junto3 o que servir muito1 para os-distinguir ambos4 ,isto mesmo praticram os ,romanos4 ,attamen1 ,etenim1 sam compostos de ,at1 tamen2 ,et1 enim4 ,quamobrem composto de trez disoens1 nenhuma das-quais ,adverbio3 e contudo juntas fazem de muitos nomes um4 ,e isto mesmo devem fazer os ,portuguezes nestas disoens indeclinaveis3 e ainda algumas vezes nas declinaveis1 que se-unem com o ,articulo c4 o que o uzo ensinar2 e a pratica dos-omens doutos confirmar4 ,tambem sobre os ,plurais sera necesario1 establecer um uzo constante4 ,o ,p4 ,bento ,pereira diz1 que o plural de al1 ais1 e nam aes4 e parece que tem razam2 porque a pronuncia mostra um i1 e nam um e4 ,mas nisto tanta variedade1 que uns escrevem ais1 outros aes3 e o pior 1 que o mesmo escritor serve-se s vezes1 d'ambas as terminasoens4 ,um destes o ,bluteau3 que1 tendo aprovado na ,proza ,gramatonomica a opiniam do-,pereira1 contudo escreve ,misaes1 e outros plurais semelhantes4 ,mas ja adverti1 que o ,bluteau inconstante na ,ortografia4 ,mais controversos sam1 os que acabam em er1 como ,chanceler1 cujo plural querem muitos que seja ,chancereis3 e nisto tropesa muita gente boa4 ,cuido1 que mais proprio1 e mais chegado analogia1 ,chanceleres3 e asim todos os mais4 ,damesma sorte ,almiscar1 deve fazer1 ,almiscares4 ,tambem mui duvidozo o plural de ,simplez1 como tambem ,feliz4 ,muitos escrevem o primeiro com x1 em ambos os numeros3 o que aumenta a confuzam4 ,outros escrevem no-singular1 ,simplice3 que parece afetasam vergonhoza4 ,ou acabe em s1 ou z no-singular1 o plural deve acrecentar somente um es3 v4g4 ,simpleses1 ou ,simplezes4 ,o mesmo digo1 dos-que afetam dizer no-singular1 ,felice1 e plural ,felices4 ,digo1 que no-singular deve-se dizer ,feliz1 ou com s1 ou z2 e no-plural ,felizes3 e asim dos-mais4 as palavras ,indice1 e ,index1 ja oje se-recebem indiferentemente em ,portugal4 ,que ,brazil1 fasa ,brazis1 est muito bem3 mas que ,malsim1 ,beleguim1 fasam ,malsis1 ,beleguis1 como querem alguns2 contra a pronuncia boa1 que mostra um n mui claro4 ,e asim estes em im1 devem acabar em ins1 ,malsins4 ,os outros plurais em aons1 aens1 e oens1 facil determinalos2 advertindo as anomalias que se-acham nas tais regras1 que nam sam poucas4 ,mas nam pra a qui a reforma3 deve-se dar um paso mais adiante1 e acrecentar muita coiza1 em que defeitoza a lingua ,portugueza4 ,consiste a primeira1 em adotar algumas palavras ,estrangeiras1 para explicar melhor o que queremos4 ,nam acho em ,portugal palavra1 que explique a idea que formam os nosos ,italianos1 7e ainda os ,francezes7 quando proferem esta palavra1 ,penso3 dizendo1 ,um omem que pensa bem3 ,que pensa mal c4 ,dizer1 ,ajuizar1 nam explica3 porque ajuizar uma especie de ,pensar2 mas nam compreende tudo quanto diz1 ,pensar4 ,nem menos serve1 ,considerar3 porque considerar o mesmo que ,meditar1 ,examinar uma materia2 e ,pensar diz mais4 ,um meu amigo1 para dezatar este n1 servio-se de ,pensamentear3 mas parece afetado4 mais proprio e natural1 servir-se do-,verbo ,pensar1 que compreende todas as operasoens do-intendimento4 ,onde1 diremos que um omem ,pensa bem1 quando se-serve de todas as qualidades da-mente ou intendimento1 como deve ser4 ,a mesma dificuldade pode nacer em outras palavras4 ,aqui confundem ,iuizo1 e ,intendimento3 sendo coizas muito diferentes4 porque cada nome destes distingue uma particular faculdade da-alma1 esta de intender1 aquela de julgar4 ,a estas duas unem outras duas1 ,ingenho1 e ,talento3 as quais nam s sam diferentes das-ditas1 mas entre si4 ,ingenho1 somente explica a facilidade que temos1 para unir diferentes ideias1 de um modo que eleve4 ,talento1 significa a capacidade tanto de intender1 como de julgar1 e discorrer4 ,sera bom1 que se-distinguisem estes significados1 e se-explicasem aos rapazes1 para nam confundir as palavras4 ,parece-me1 que para explicar aquilo1 a que os ,latinos chamam1 ,mens1 ,intelligentia1 e algumas vezes ,intellectus1 se-podia adotar em ,portugal a palavra ,mente1 como fazem os nosos3 a qual explica melhor tudo4 ,o uzo tem introduzido1 que ,intendimento seja sinonimo de ,mente4 ,a estas se-podiam ajuntar outras muitas palavras ,estrangeiras1 que explicam melhor o que se-quer dizer2 principalmente quando se-trata de ,artes e ,ciencias3 cujos termos necesario uzar1 mas com cautela4 ,nam digo1 que se-devam adotar cem mil termos ,latinos1 que no-,portuguez sam inutis3 antes condeno isto muito em bastantes ,portuguezes1 que enchem os seus escritos1 de mil palavras ,latinas sem tom nem som1 somente para parecerem eruditos4 ,este aquele vicio dos-pedantes ou ignorantes1 a que os nosos chamam1 ,pedanteria4 ,o que digo 1 que nam avendo termo proprio em ,portuguez1 se-pode1 e deve buscar fra3 e muitas vezes pode-se buscar fra1 nam tanto por-preciza necesidade1 quanto para maior ornato da-lingua3 aqual justo que nam seja tam pobre1 que nam tenha algumas ocazioens dois ou trez sinonimos1 para explicar as mesmas coizas3 outras vezes para adosar a pronuncia aspera de algumas vozes antiquadas3 e fazer seja mais bela1 e mais suave a lingua materna4 ,mas aqui que est o juzo1 em sabelos adotar sem afetasam4 ,porei um1 ou dois exemplos4 ,em ,portugal nam nome proprio1 para nomiar aquele criado de libr1 que acompanha seu amo a p vizinho carruagem1 ou cavalo4 ,os nosos ,italianos explicam isto com uma palavra1 ,staffiere1 ou ,palafreniere4 ,porque nam uzaremos destes termos em ,portugal8 ,chamamos aqui ,letrado1 ao que advoga nas cauzas3 chamamos aos omens doutos1 ,letrados4 ,mas isto uma impropriedade4 ,letrado1 ,douto1 ,erudito1 ,sabio1 sam sinonimos1 mas de significasam mui generica4 ,aos que advogam1 deviam chamar ,advogados3 que o seu nome proprio1 ainda na lingua ,latina1 como diz ,quintiliano1 e ,asconio3 ,advocatus1 i4 e4 ,patronus1 ,caussidicus4 ,adotram os ,portuguezes estas palavras1 ,berlinda1 ,paquebote1 ,estufa1 ,sege c4 para distinguir as diferentes sortes de carruagens de que uzam3 mas podiam adotar muitas mais3 avendo aqui outras carruagens1 que nam tem nome proprio1 que em outras partes o-tem4 ,as artes ,liberais1 ,ciencias c4 tratando-se em ,portuguez1 devem ter os seus nomes ,estrangeiros1 mas aportuguezados4 ,finalmente1 se eu ouvese de escrever tudo1 o que me-ocorre nesta materia1 faria um groso volume3 e asim contento-me1 de apontar estes exemplos4 ,o que encomendo muito 1 que com este pretexto1 nam nos-encham a lingua de ,latinismos1 ,francezismos1 e ,italianismos1 como entre outros fez ,inacio ,garcez1 nas ,notas ao ,camoens4 ,sera mui util1 que os omens doutos introduzisem uma terminasam certa1 em todos os ,patronimicos de ,provincias c4 no-que falta muito a lingua ,portugueza4 ,a um omem das-,provincias1 chamam ,algarvio1 a outro ,alemtejam1 a outro ,minhoto1 ,beiram c4 ,e ainda estes nomes nam sam geralmente1 e benignamente recebidos2 porque se-reputam injuria4 ,mas o pior 1 quando pasamos aos ,patronimicos de ,cidades2 comumente nam se-acham3 mas dizem3 ,um omem d',evora3 ,um d',elvas c4 ,neste cazo parece licito1 fazer nomes novos1 e dizer1 ,evorense1 ou ,eborense1 ,coimbrense1 ,portuense c4 ,e o mesmo dos-outros antecedentes3 os quais podem terminar-se em duas maneiras3 v4g4 ,algarviense1 ou1 com outra dezinencia ,romana1 ,algarviano3 ,alemtejense1 ,alentejano3 ,beirense1 ,beirano c4 ,nos-nomes de ,provincias ,ultramarinas1 deve-se observar o mesmo4 v4 g4 ,brazileense c4 ,insolense1 ,indiano c4 ,em todo o cazo porem1 tanto na introdusam de nomes novos1 como na pronuncia dos-antigos1 sempre se-deve cuidar1 em adosar a pronuncia1 e fazela1 quanto mais puder ser1 facil4 ,nisto pois muito que condenar em ,portugal1 principalmente nestes modernos eruditos2 que1 querendo parecer elegantes1 e mui versados na sua lingua1 e origens dela2 dizem coizas1 que uma piedade ouvilos4 ,v4g4 ,escrevem1 ,volumozo3 sendo ,voluminozo muito mais suave1 e mais chegado analogia ,latina4 ,dizem1 ,exceptas3 sendo mais natural ,excetuadas1 que vem do-,verbo ,excetuar1 que mui ,portuguez3 quando polo contrario nam acho nela1 o verbo ,exceptar4 ,dizem1 ,eregia3 que ofende os ouvidos com a pronuncia3 sendo melhor ,erezia1 que mais doce e nem por-iso menos conforme ao ,latim4 ,dizem1 ,pesoa comum3 que uma verdadeira ridicularia3 porque aindaque a palavra comum1 signifique coiza de muitos2 deve ter as suas duas terminasoens em ,portuguez1 asimcomo tem no-,latim1 em que explica diferentemente o ,neutro3 e o superlativo ,communissimus1 tem trez mui redondas4 ,onde deve dizer-se1 ,coiza1 ou pesoa comua c4 ,finalmente1 7deixando por-agora outras reformas destes escrupulozos7 nto que escrevem ,pai1 ,mai1 ou com y1 ou com i4 ,quanto ao primeiro concordamos3 mas nam no-segundo3 porque na pronuncia ouve-se um e1 e n mui redondo3 e asim deve escrever-se ,maen1 porque asim pronunciam os omens de melhor doutrina4 ,nem vale o dizer1 que com isto se-conformam mais1 com outras semelhantes palavras ,portuguezas3 porque1 como ja dise1 o uzo1 fundado sobre a pronuncia mais doce1 faz lei neste particular#aj4 ,tambem eles dizem ,catam1 ,varram c4 e no-mesmo tempo dizem ,cicero1 ,pollio c4 e nam ,ciceram1 ,polliam c4 sendo a mesma razam4 ,no-mesmo ,latim1 ou ,italiano vemos1 que uma palavra se-pronunca de um modo1 e outra1 que vem damesma origem1 diferentemente4 o que ,v4 ,p4 pode ver nos-livros de ,cicero1 que apontei asima1 que traz exemplos de tudo3 por-nam citar agora exemplos vulgares1 que sam muitos4 ,asim asento1 que1 com esta regra diante dos-olhos1 que se-deve emendar e reformar a lingua4 ,mas o que me-d mais vontade de rir 1 ver as cautelas que praticam1 para dizerem1 ,porco4 ,uns dizem1 o ,gado mais asqueroso3 outros dizem1 ,carne suina3 e louvam muito isto em alguns antigos escritores4 ,tudo puerilidades4 ,porco nam palavra obcena3 dizem-na os ,latinos1 e os nosos ,italianos diante do-,papa4 ,antes creio que asquerozo1 traz a memoria nam s coiza suja1 como o porco1 mas coiza que volta o estomago4 ,estas delicadas orelhas pronunciam1 sugidade1 escremento1 lesmas1 ratos1 persevejos1 piolhos1 pulgas1 e outras coizas imundisimas sem dificuldade3 e acham-na grande em pronunciar1 ,porco4 ,que lhe-parce a ,v4 ,p4 a esquipasam8 ,finalmente devo advertir a ,v4 ,p4 que estes seus nacionais1 ainda falando1 pronunciam mal muitas letras no-meio2 mas principalmente nos-fins das-disoens4 ,v4g4 e final1 pronunciam como i3 como em ,de-me1 ,pos-me c4 todo o o final1 acabam em u3 v4g4 em ,tempo1 ,como1 ,buxo c4 cujos nomes quem quer pronunciar ,portugueza1 deve acabar em u4 todo o m final1 e no-meio1 como n4 todo o e antes de a no-meio da-disam1 pronunciam como se-fose um tritongo4 v4g4 ,cea1 ,vea3 que pronunciam ,ceia1 ,veia3 namobstanteque na escritura1 comumente nam ponham o i4 ,e nisto merecem rizo alguns ,portuguezes1 que nas suas ,ortografias impresas ensinam1 que na lingua ,portugueza se-devem pronunciar algumas letras1 aindaque nam estejam escritas3 e que umas letras devem pronunciar-se por-outras2 v4g4 achando-se ,outo ,dous c4 se-deve pronunciar o u1 como i4 ,isto1 como digo1 querer confirmar os rapazes1 nos-seus erros4 ,deveriam polo contrario dizer1 que1 pronunciando-se o i em ,cea1 se-deva escrever tambem com i1 para se-conformar com a pronuncia3 ,muito mais porque eles escrevem ,meio1 ,veio1 ,correio com i1 e a mesma razam milita1 nos-que apontamos1 e semelhantes4 ,damesma sorte achando-se escrito ,outo com u1 deveriam ensinar aos rapazes1 a conformar-se com a escritura1 se intendem que arrezoada3 se porem intendem1 como na verdade 1 que parece aspera e dura2 deviam dizer1 que se-escrevse com i2 e nam enganar os rapazes na pronuncia4 ,e na verdade nam poso intender1 por-que razam1 pronunciando os omens doutos nos-seus discursos1 ,dois1 ,oito1 ,oitenta1 ,toiros1 ,coizas c4 devam na escritura mudalo em u2 se nam por-se-conformar com quatro velhos impertinentes1 que intendem e julgam mal das-coizas4 ,este o mesmo cazo de ,optumus1 ,maxumus1 ,dividundo1 ,faciundo1 e outros semelhantes dos-,latinos4 ,cicero1 ,cezar1 ,nepote1 e outros omens cultos1 nam puderam sofrer aquela pronuncia2 e convertram aquele u em i1 para fazer suave a lingua3 ,salustio1 que nos-ultimos tempos o-quiz conservar1 foi criticado3 e nem menos agradou ,varram1 que era o protetor das-antiguidades4 ,onde deve isto tambem ser permetido na lingua ,portugueza1 que filha damesma maen1 tem as mesmas qualidades4 ,parece coiza galante1 que estes omens1 em vez de facilitar aos ,estrangeiros1 a pronuncia da-sua lingua2 s busquem meios de aumentar1 a aspereza dela4 ,certamente que o ,camoens no-,,xvi4 seculo1 apurou muito a sua lingua1 servindo-se da-,italiana c4 e isto devemos ns tambem fazer1 emendando os erros de ,camoens1 nam s no-que digo2 mas em outras coizas1 em que ele pecou1 e eu podia advertir4 ,concluo dizendo1 que na lingua ,portugueza1 nam s se-devem tirar as letras superfluas1 onde nam se-pronunciam2 mas escrever outras1 que se-pronunciam1 e at aqui se-deixavam4 ,onde1 todas as vezes que se-pronunca o i entre e1 e a2 deve-se escrever4 ,v4g4 ,cadeia1 ,ideia1 ,ceia1 ,veia c4 vistoque os ,portuguezes escrevem comumente1 ,meia de calsar1 meia duzia c4 e a razam a mesma em ambas as partes4 ,por-esta mesma razam se-deve escrever em todos os ,verbos1 como ,leia1 ,paseia c4 porque se os-pronunciasem como ,ceo1 ,plebeo1 ,chapeo c4 neste cazo era justo que lho-tirasem3 mas levando o i na-pronuncia1 tambem o-deve ter na escritura4 ,desta sorte somente1 se-poder introduzir uma ,ortografia certa1 e geral1 que nam necesite dar diversas razoens em todas as palavras4 ,repare ,v4 ,p4 que eles escrevem ,aia1 ,maia c4 com i1 porque o som desta vogal claro3 e porque nam faram o mesmo com outros nomes1 que sam puros ,portuguezes8 ,acho alem disto omens1 que aconselham1 se-tire de ,arrecadar1 ,arrematar c4 o arre2 e se-diga1 recadar1 rematar4 ,sam deste parecer o ,bluteau1 e algum outro4 ,mas estas orelhas tam delicadas e escrupulozas1 que se-ofendem com tais minucias2 nam tem dificuldade1 de se-servirem em todas as paginas destes termos1 ,com noticia2 c4 o que abunda no-,bluteau3 ou1 como diz o ,vieira1 ,por razam1 e outras tais4 ,parece-me1 que estas cacafonias menos sofriveis1 se-deveriam evitar2 deixando as outras que nada ofendem4 ,este metodo de reformar a ,ortografia1 era melhor que se-nam-impremise4 ,ora deste dano de pronunciar mal o ,portuguez1 de que at aqui fizemos mensam2 rezulta outro1 de conservar no-,latim os mesmos erros4 onde sera mui util1 que se-emendasem quanto pudesem4 ,sei1 que isto tem sua dificuldade1 porque os ignorantes sam muitos1 e pronunciam mal3 mas ,roma nam se-fez em um dia4 ,seja ,v4 ,p4 um dos-primeiros a dar exemplo3 persuada isto mesmo aos seus amigos3 que os outros os-imitarm4 ,deste modo introduzirm em ,portugal uma ,ortografia1 quanto mais poder ser1 constante2 o que at aqui nam tem avido3 e asim ser mais bela1 e facil a pronuncia2 e mais armoniozos os versos ,portuguezes4 ,isto me-parece basta advertir1 sobre a ,ortografia ,portugueza1 visto nam fazer tratado dela4 muito mais1 porque com estas poucas regras1 se-pode responder1 s outras dificuldades que ocorrerm4 ,algumas observasoens de menor momento1 podem-se ver1 nas ,ortografias ,portuguezas3 tendo a advertencia1 de nam se-deixar enganar1 das-regras que dam1 porque comumente sam mui ms4 ,o ,p4 ,bento ,pereira1 que cuido foi dos-primeiros que escrevram nesta materia1 d muito ms regras2 e s proprias para destruir1 o que cada um sabe4 ,o ,barreto1 o ,leam1 o ,vera1 tem algumas coizas boas1 entre outras muito ms4 ,na mesma clase ponho1 o que diz o ,p4 ,argote1 nas suas ,regras ,portuguezas2 e algum outro4 ,tais autores copiaram-se fielmente uns a outros1 sem examinarem a materia4 ,sei que alguns1 dam em razam do-que escrevem1 acharem-no asim escrito1 nos-antigos ,portuguezes4 ,mas esta razam1 de caboesquadra4 ,porque tratando-se de linguas vivas1 que nam estavam purgadas polo pasado1 mas que na nosa idade1 se-vam reduzindo perfeisam2 e desta1 da-qual no-noso tempo1 apareceo o primeiro ,vocabulario2 nam devemos estar1 polo que diseram os ,velhos3 mas examinar1 se razam1 para se-dizer asim4 ,observe ,v4 ,p4 que os que asim respondem1 contrareiam-se na pratica3 porque nam uzam daquelas palavras toscas1 que ainda lemos nas leis antigas1 nos-testamentos1 doasoens1 e outros documentos1 que deixram os ,antigos4 ,sera uma ignorancia manifesta1 e afetasam indesculpavel1 falar oje com muitas palavras1 de que uzram os antigos ,portuguezes4 ,e isto1 nam por-outra razam1 senam porque a lingua se-foi purgando1 e os omens mais capazes intendram1 que se-devia falar de outra maneira4 ,e se isto se-pratca1 com inteiras palavras1 porque o-nam-praticaremos1 com melhor pronuncia8 ,alem disto1 ja coiza muito antiga1 que o uzo e juizo dos-omens doutos1 e de boa eleisam1 decida neste particular4 ,e como ajam muitos ,portuguezes inteligentes1 que escrevem polo contrario2 e asinam boa razam do-que dizem2 nam tem lugar nisto1 uma prescrisam sem fundamento4 ,no-tempo de ,cicero1 a lingua ,romana tinha de idade1 polo menos1 uns setecentos anos2 7contando somente da-fundasam de ,roma3 porque sabemos1 que a lingua do-,latio muito mais antiga7 e contudo ele1 e outros omens doutos1 a-purgram muito bem4 ,observe ,v4 ,p4 os fragmentos que temos1 de ,livio ,andronico1 ,enio1 ,estacio ,cecilio1 ,pacuvio c4 e as obras de ,catam o velho1 de ,plauto2 e achar1 palavras dezuzadas1 e mui toscas2 e1 em algumas obras1 uma compozisam languida1 e sem grasa4 ,prosiga mais para baixo1 examine as obras de ,terencio1 ,lucrecio1 ,varram1 ,catlo1 ,salustio c4 achar neles a lingua mais mudada1 e palavras mais polidas4 ,desa finalmente ultima fineza da-idade de oiro da-,latinidade1 quero dizer1 aos que melhor falram1 no-seculo de ,augusto2 e sempre lhe-crecer a admirasam1 porque crece a mudansa4 ,pacuvio1 e ,estacio tem tanta semelhansa com ,cicero1 ,cezar1 ,cornelio ,nepote1 ,virgilio1 ,oracio c4 como o dia com a noite4 naqueles1 tudo inculto3 e nestes1 tudo polido1 palavras1 fraze1 e metodo4 ,e mais todos entram na idade de oiro6 ,o mesmo ,cicero1 em alguns seus tratados1 adverte1 quanto trabalhra neste particular1 para apurar a lingua4 ,oracio tambem adverte1 que o bom uzo1 o que emenda as linguas4 ,finalmente advertiram os ,gramaticos1 e ,oradores de melhor nome1 que a ,ortografia1 est sugeita ao costume#aa3 e um douto ,latino1 deixou escrito nesta materia3 ,antiquitatem posterior consuetudo vicit#ab4 ,e nem somente encontrar ,v4 ,p4 palavras mudadas1 mas novas4 ,os ,romanos nam tinham palavras para tudo3 e asim foi necesario tomalas prestadas3 principalmente em materias de ,ciencias1 e ,artes3 as quais adotram como ,latinas4 ,este o privilegio das linguas vivas4 ,mas certamente nam conhece este privilegio1 quem se-escandaliza1 como vi alguns1 de que se-recebam palavras estrangeiras em ,portugal4 ,se os ,portuguezes as-nam-tem1 que mal fazem1 em pedilas aos outros8 ,nam aprovo porem1 o que muitos fazem1 servir-se sem tom nem som1 de vozes estrangeiras1 e palavras puramente ,latinas1 tendo outras ,portuguezas tam boas4 ,o que observo em muitos1 que prezumem de ,criticos1 e ,poetas3 especialmente no-dito ,inacio ,garcez ,ferreira4 ,o que digo 1 que nam se-achando proprias1 nam delito1 procuralas em outras linguas2 ou fazelas novas3 e que1 quando as proprias sam asperas1 se-devem adosar4 ,este mesmo uzo1 de purgar as linguas1 melhorando na boa pronuncia1 e enriquecelas com palavras novas1 quando necesidade2 est geralmente introduzido4 ,achei livros1 ainda impresos1 ,inglezes1 ,francezes1 ,espanhoes1 e ,italianos1 com infinitas palavras1 que ja oje nam estam em uzo1 e com um estilo de fraze pouco uzada4 e lembro-me agora1 ter visto anos1 um livro de ,genealogias de ,flandres1 escrito polos anos de ,cristo #adjj41 em um ,francez tam embrulhado1 que o-tinham imprimido1 com a versam de ,francez moderno a lado3 sem o qual socorro1 nam era facil intendelo4 ,os nosos antigos ,poetas tem palavras1 que oje se-nam-recebem4 ,em ,dante1 e ,petrarca1 acham-se coizas nam mui finas2 e tambem em outros4 ,os ,modernos de todas estas ,nasoens1 melhorram sobre os ,antigos1 e serviram-se do-seu direito1 para emendar a lingua4 os mesmos ,portuguezes o-fizeram4 ,finalmente isto tam claro1 que me-envergonho de o-provar4 ,e com efeito1 a estes que asim respondem1 ou asim argumentam1 seria mais acertado1 nam-lhe-responder4 fazer-lhe muito favor mostrar1 que tais argumentos tem resposta4 ,mas eu o-faso aqui1 porque a amizade de ,v4,p4 me-obriga a obedecelo3 e escrevo isto1 mais para satisfazer seu dezejo1 doque materia4 ,a outra razam1 que outros afinam1 para se-desculparem dos-seus erros 1 que umas vezes dobram as letras1 para mostrarem donde se derivam3 outras1 para a significasam1 quero dizer1 os diversos tempos3 ,e asim escrevem ,escritto com dois tt1 para mostrar1 que vem de ,scriptus3 e ,amasse com dois ss1 para o-distinguir do-prezente ,ama-se4 ,esta razam achar ,v4 ,p4 em alguns livros impresos4 ,mas1 com todo o respeito que devo1 a quem uza dela1 digo1 que nada vale4 ,a maior parte das-palavras ,portuguezas1 tem origem ,latina3 o que at as criansas sabem3 quizera pois que me-disesem1 porque se-devem dobrar em vinte1 ou trinta palavras1 e nam nas mais8 ,alem diso se ,v4 ,p4 observa1 muitas palavras ,portuguezas1 achar1 que nam s tem origem1 mas sam puras ,latinas4 ,v4g4 ,aplaudo1 ,aplico c4 e nestas ser tambem necesario dobrar os pp1 e escrever trez consoantes seguidas1 como no-,latim4 ,ser tambem necesario pr o s1 antes de ,ciencia4 e finalmente comesar muitas disoens1 por-duas consoantes1 mn1 pn1 sp1 ps3 porque tudo isto no ,latim4 ,o c antes de t1 tambem se-deve pr1 em muitas palavras1 como em ,benedicto1 ,doctor1 c4 ,e nam sei1 se1 os que seguem o dito parecer1 admitirm todos estes acrecimos3 o que nem menos o ,italiano1 que se-preza de filho primogenito do-,latim1 admite em tudo4 ,crece o argumento se observamos1 que o ,portuguez tem palavras ,arabias1 ,goticas1 ,inglezas1 ,tudescas c4 o que suposto1 ser necesario em cadauma1 pr a sua diferensa original3 ou ao menos nas ,latinas1 para as-nam-confundir com as outras4 ,finalmente se a tal razam valese1 nam deveria quem uza dela2 pr h1 em verbo1 e outros destes3 porque na sua origem nam o-tem4 ,mas1 deixando outras observasoens1 com que podia provar1 a insufisiencia das-ditas razoens2 darei s uma1 que prova por-todas3 e esta especialmente serve1 contra aqueles ,portuguezes que dizem1 que se-devem dobrar muitas letras1 porque se-pronunciam dobradas2 e expresamente se-ouvem os dois mm1 em comum1 e outras semelhantes4 ,digo1 que para responder a estes1 basta citar-lhe o exemplo1 da-lingua ,italiana4 ,nam vi ainda ,portuguez algum 7nam falo dos-que pasram a ,italia at a idade de #g ou #h anos3 porque estes perdram a sua lngua1 e falam o ,italiano1 como lingua propria7 por-mais estudiozo1 e diligente que fose1 que aprendse a pronuncia1 principalmente ,toscana1 ou ,romana3 em que expresamente se-pronunciam as duas letras consoantes3 todos as-pronunciam como una simplez4 ,v4 g4 ,distinguem os nosos ,capello1 que significa ,cabelo1 de ,cappello1 que significa ,chapeo2 com pronunciar dois pp1 e dois ll no-#b4 ,nenhum ,portuguez o-chega a distinguir3 e por-iso sam logo conhecidos1 por-,estrangeiros4 ,o mesmo digo em todas as outras dobradas3 ,o mais que vi foi1 pronunciar os dois zz1 v4g4 em ,palazzo1 ,ragazzo3 mas isto com muito esforso1 e pola razam1 de que se-pronunciam diferentemente3 quero dizer1 que os dois zz1 pronunciam-se como ds3 que1 se tivesem soido igual1 nam os-pronunciariam4 ,esta experiencia constante mostra1 que falso dizer1 que os ,portuguezes1 na-sua pronuncia natural1 e sem fazer um grande esforso1 pronunciem as dobradas4 ,do-que se-segue1 que sam inutis as tais letras4 ,e em tal cazo entra a minha regra1 que as letras inutis1 se-devem desterrar1 da-lingua ,portugueza4 ,sobre a pontuasam1 tenho pouco que advertir a ,v4 ,p4 claro1 que a ,virgula foi inventada1 para denotar a interrusam que se-faz1 quando se-toma a respirasam3 e para dar alguma distinsam ao discurso1 e impedir a equivocasam nele4 ,tem seu proprio lugar1 quando se fazem distinsoens de ,nomes1 ou de outras palavras1 que dependem do-mesmo ,verbo1 e se-unem em uma propozisam4 v4 g4 ,pedro foi soldado1 capitam1 coronel1 e chegou a ser general4 ,uza-se tambem dela1 antes da-,conjunsam copulativa1 e adversativa4 v4g4 ,pedro1 e ,paulo partram3 ,nem ,pedro1 nem ,paulo partio4 ,mas nam se deve uzar1 quando a conjunsam est entre sinonimos3 v4 g4 ,antonio tem eloquencia e facundia4 ,pedro tem grande animo e valor4 ,porem muito bem se-uza entre propozisoens1 que signifiquem o mesmo2 a que podemos chamar sinonimas4 v4g4 ,cezar subjogou todo o imperio ,romano1 e com a serie das-suas vitorias conseguio1 que os ,governadores1 o-reconhecesem soberano4 aindaque entre estas1 sendo longas1 podese escrever ponto e virgula1 ou dois pontos4 ,utilmente se-uza da-virgula1 para distinguir e fazer mais claro o discurso3 o que se-faz em trez cazos4 ,i4 separando as propozisoens1 regidas pola mesma pesoa1 ou coiza4 v4g4 ,umas vezes ri1 outras chora4 ,tomou uma lansa1 e lhe-atravesou o peito4 ,,ii4 interrompendo o sentido1 com outras palavras4 v4 g4 ,deus1 autor do-mundo1 pai de mizericordia2 e tem providencia das-criaturas2 mas quando a interrusam comprida1 melhor pr-lhe ponto e virgula2 como abaixo diremos4 ,,iii4 separando aquelas propozisoens1 emque a segunda1 objeto da-primeira4 v4g4 ,dezejo ver1 como suceder o negocio4 ,querer ,deus1 que iso nam se-verifique4 ,finalmente se s vezes nam se-poem virgula1 pode nacer confuzam no-discurso4 v4 g4 ,cuidando na minha aflisam1 e ocupado neste pensamento1 confuzo sa de caza4 se nam ouvse virgula1 em pensamento1 podia unir-se com confuzo1 e cauzar nova confuzam4 ,mas nisto das-virgulas1 necesario ter muito cuidado1 de nam ser excesivo3 como fazem alguns1 prezados de doutos1 que em cada palavra poem virgula4 o exceso1 e a falta igualmente se-devem evitar4 ,tambem a parentezis1 especie de virgula3 e consiste neste sinal1 77 com o qual se-compreendem algumas palavras4 ,escreve-se1 quando dentro de uma propozisam1 se-inclue outra1 separada do-sentido2 ou para excesam1 ou declarasam de alguma coiza4 v4g4 ,deixo de dizer 7aindaque poderia com razam7 as atrocidades que cometeo4 ,o ,amor1 7como achamos escrito na ,sagrada escritura7 tam forte como a morte4 ,porem1 se a interrusam breve1 bastam duas virgulas4 v4g ,o ,amor1 como ja dise1 uma grande paixam4 ,despois da-virgula1 seguem-se os dois pontos4 ,estes se-poem1 quando o sentido da-orasam completo1 quanto sustancia2 mas nam em quanto ao fato3 quero dizer1 quando o que se-escreveo1 faz por si s sentido perfeito2 desorteque podia-se terminar com um s ponto3 mas quem escreve1 ainda tem alguma coiza que acrecentar1 para melhor declarar a coiza1 ou expremir alguma circunstancia1 com a qual se-acabe de todo o periodo4 v4g4 ,recebi o doutisimo livro que v4m4 me-mandou3 para me-obrigar com isto ainda mais1 doque estava4 ,neste periodo1 despois de mandou1 escrevem-se dois pontos3 porque o sentido1 ja est completo2 mas ainda que acrecentar4 ,e estes dois pontos se-podem replicar1 em um longuisimo discurso1 tantas vezes1 quantas o sentido da-orasam for suficientemente completo4 ,mas a melhor regra que nisto se-pode observar1 esta3 ,se a propozisam que se-segue1 nam muito independente da-antecedente1 deve-se pr dois pontos4 v4 g4 ,estudar varias ciencias1 no mesmo tempo1 antes confunde1 que doutrina3 como tambem o comer no-mesmo tempo comeres diferentes1 tanto nam engorda1 que ofende4 ,mas se eu comesse a segunda1 por-palavras menos dependentes1 deveria pr um ponto4 v4 g4 ,estudar varias ciencias1 no-mesmo dia1 antes confunde1 que ensina4 ,damesma sorte1 como dizem os ,medicos1 mui diferentes comeres no-estomago1 impedem a digestam4 neste cazo ponho ponto1 porque o sentido mais separado4 ,porem se as propozisoens sam breves1 intendo mais acertado1 separalas com uma virgula4 v4 g4 ,o estudar muito junto faz confusam1 como tambem o comer muito4 ,o ponto1 costuma-se pr1 no-fim do-periodo1 e quando o sentido totalmente completo4 ,neste particular observo1 que muitos em ,portugal ensinam1 que despois de ponto1 sempre se-poem letra grande4 ,o que um engano manifesto2 e contra a pratica dos-que melhor escrevem3 que dizem1 que quando os periodos sam breves1 e em certo modo dependem uns dos-outros2 basta despois de ponto1 pr letra pequena3 e quando isto sucede no-fim do-verso1 poem-se dois pontos3 vistoque o verso seguinte deve sempre comesar1 por-letra grande4 ,onde os omens doutos advertem1 que nam s se-pode escrever letra pequena1 despois de ponto final2 mas tambem algumas vezes1 despois de dois pontos1 letra grande3 quando o periodo comprido1 e se-tem posto muitas vezes dois pontos3 ou tambem quando se-introduz alguma pesoa que fala1 ou coiza semelhante4 ,e aqui incidentemente advirto1 que nisto de escrever letra grande1 um grande abuzo3 avendo escritores que a-escrevem1 em mil coizas desnecesarias3 o que ofende a vista4 ,e asim1 nam avendo razam forsoza1 deve-se escrever letra pequena1 que mais natural4 ,as regras que nisto dam1 os omens mais advertidos1 se-reduzem a estas4 ,poem-se letra grande4 ,i4 quando se-comesa o discurso4 ,,ii4 nos-nomes proprios1 e sobrenomes tanto de ,pesoas1 como ,provincias1 ,cidades1 ,ilhas1 ,montes1 ,mares1 ,rios1 ,ventos1 e ,animais4 ,,iii4 nos-nomes de dignidade1 ou abstratos1 como ,bispado1 ,papado c4 ou concretos1 como ,papa1 ,rei1 ,abade1 ,conego1 ,senador c4 mas nam se-poem nos-de oficios inferiores1 como soldado1 pintor1 sapateiro4 ,,iv4 nos-nomes apelativos1 quando se-tomam por-alguma coiza particular4 v4 g4 ,o ,orador ,romano1 por-,cicero3 o ,doutor ,angelico1 por-,s4 ,tomaz3 ,religiam1 pola vida ,religioza c4 ,v4 nos-nomes do-genero1 ou especie1 quando significam todo o genero1 ou especie4 v4 g4 ,a ,terra redonda4,os ,rios correm para o mar4 porque significando um individuo particular da-dita especie2 v4g4 um bocado de terra c4 basta letra pequena4 ,,vi4 as coizas inanimadas tomadas como pesoas1 ou polo genero4 v4 g4 ,a ,ira uma grande paixam4 ,o ,amor cega os mais doutos c4 ,,vii4 os ,adjetivos tomados como ,sustantivos4 v4g4 ,o ,amigo1 outro eu4 ,o ,forte1 aumenta o animo nos-perigos4 ,,viii4 os nomes que significam multidam4 v4g4 ,senado1 ,republica1 ,cabido1 ,turcos1 ,inglezes c4 ,,ix4 os nomes da-materia1 de que principalmente se-trata4 v4g4 ,a ,incarnasam1 a ,simonia4 ou tambem os nomes das-principais partes1 em que se-divide um todo4 v4g4 ,neste cazo pecam alguns1 por-,ignorancia1 ou por-,malicia4 ,por-,ignorancia1 pecam aqueles c4 ,x4 quando no-discurso se-introduz alguma pesoa1 que fala4 v4g4 ,voltando-se entam para o ceo ,s4 ,paulo1 dise1 ,senhor1 que quereis que eu fasa8 mas se o discurso que se introduz1 fose mui longo1 sera mais acertado1 separalo com um ponto sinal4 ,e a palavra que se-segue1 despois do-ponto interrogativo1 nam deve ter letra grande2 porque nam comesa um sentido novo4 ,estas sam as regras1 establecidas polo melhor uzo4 ,contudo alguns1 que ainda s vezes as-limitam1 quando intendem1 que nam sam necesarias4 v4 g4 ,vindo juntos dois nomes1 um generico1 e outro particular1 como ,seita ,turquesca1 ,igreja ,catolica1 ,senador ,romano1 ,academia ,real1 ,concilio ,toletano1 ,concilio ,geral1 c4 deitam fra a letra grande dos-primeiros1 e somente a-conservam nos-segundos1 que distinguem os primeiros4 ,porque ainda-que em outras ocazioens1 achando-se somente a palavra1 ,igreja1 oncilio1 c4 tenha letra grande2 neste cazo porem1 parece ser escuzada3 o que eu aprovo4 ,outros ainda fazem mais1 que1 achando muitas destas ultimas palavras1 que aponto1 como ,senador1 ,consul1 c4 escrevem-nas com letra pequena3 principalmente se est unida a algum sustantivo ,proprio4 v4 gr4 ,joannes rex4 ,cicero consul4 ,e isto achamos mui praticado1 em antigos manuscritos2 e belisimas edisoens de livros modernos1 emendadas por-omens mui doutos4 ,onde nam se-deve condenar1 se algum o-praticar em alguma conjuntura1 para evitar tanta letra grande4 ,outros ainda limitam1 o que se-diz nos-numeros ,v1 e ,,ix4 porque intendem1 que nem sempre necesaria1 a dita letra grande4 ,e em tal cazo1 ou escrevem letra grande1 s na primeira vez3 ou poem uma risca por-baixo1 escrevendo2 o-que na imprensa convertem em letra cursiva3 ou nam a-poem3 ,nam parecendo muito bem um papel1 em que repetidas vezes se-encontram as mesmas palavras1 com letra grande3 o que ofende a vista4 ,tornando pois aos pontos3 algumas vezes o periodo inteiro1 acompanhado de admirasam1 ou interrogasam3 e em tal cazo o ponto se-acompanha1 com o final proporcionado4 ,a admirasam1 nota-se asim1 767 v4g4 ,morreo1 cazo admiravel6 dezesperado4 ou em qualquer outra parte1 em que entre a admirasam1 ou simplez exclamasam4 ,a interrogasam1 ou progunta1 distingue-se com este final1 787 v4g4 ,e porque nam poderei eu fazer isto8 qual de vos outros mo-pode impedir8 ,muitas vezes sucede1 que a nterrogasam acompanhada de exclamasam4 v4 g4 que grandes consequencias1 sem-de seguir de um tal fato6 ou tambem3 ,e como posivel1 que te-occorrese fazer isto8 e nestes cazos1 licito pr um1 ou outro final1 como melhor lhe-parecer4 porem de advertir1 que quando a progunta mui comprida1 e que na longueza1 perde a forsa de progunta2 os omens mais doutos1 nam costumam pr-lhe no-fim1 o final de interrogasam3 mas se lho-poem1 no-principio1 ou no-fim do-primeiro periodo1 ou nam lho-poem4 ,v4g4 ,julgas tu1 que omens de tam pouca considerasam1 que siguam um tal estilo1 nem fasam cazo da-palavra1 nem procurem ileza a sua onra1 nem tenham diante dos-olhos estas circunstancias3 as quais se eu nam tivese executado1 totalmente me-faltaria aquela benevolencia1 que certamente me-mostram1 os que examinam as minhas asoens 4 ,neste periodo1 ou se-deve pr ponto de interrogasam1 despois de tu3 ou1 despois de circunstancias3 ou1 em nenhuma parte3 vistoque o contexto mostra bem1 em que sentido se-fala4 ,finalmente deve-se advertir1 que outra separasam de periodo1 a que chamam ,paragrafo3 o qual se-comesa1 quando a materia que se-trata1 se-acabou2 e se-pasa a outra materia4 ,muitas vezes se-comesa paragrafo1 quando o discurso tem sido comprido1 e1 por-nam-fazer confuzam1 necesario varialo4 o que sucede1 quando sobre a mesma coiza1 alego muitas razoens1 e cada uma ocupa uma meia pagina4 ,em tal cazo1 para evitar a confuzam1 e dar mais gosto1 e repoizo a quem le2 justo comesar paragrafo4 ,o que porem se-deve regular1 pola prudencia de quem escreve3 pois tam enfadonho 1 comesar paragrafo1 despois de trez folhas1 como despois de trez ou quatro regras4 ,caiem no-primeiro destes defeitos1 alguns prezados de doutos3 que1 ouvindo dizer1 que os ,antigos nam uzavam das-separasoens de capitulos2 sem mais outra reflexam1 fazem um longuisimo discurso1 sem divizam de paragrafos3 em modo tal1 que se-perde a respirasam lendo-os4 ,no-segundo1 caiem muitos ,escolasticos1 que de cada texto fazem um paragrafo4 ,uma1 e outra coiza se-deve evitar4 ,alem das-ditas pontuasoens2 inventram os escritores1 principalmente modernos1 outra1 a que chamam1 ponto e virgula4 e isto para variar a pontuasam1 e para evitar pr tantas virgulas seguidas1 antes dos-dois pontos1 nos-periodos longos4 ,este ponto e virgula1 uma pauza1 maior que a virgula1 e menor que os dois pontos4 ,poem-se1 quando a orasam ja faz algum sentido2 mas nam o que basta para se-intender1 de que se-fala3 e ainda a primeira propozisam1 espera pola segunda1 para se-poder intender4 v4 g4 ,aindaque eu nam tenha1 todo o dinheiro necesario1 para a compra2 farei o posivel1 polo alcansar3 para concluir de uma vez1 este negocio4 ,no-qual periodo1 quando chegamos palavra1 compra2 ja temos algum sentido3 e quer dizer1 que nam tem dinheiro para a compra4 mas fica o sentido imperfeito1 por-cauza da-palavra ainda3 a qual faz que eu espere1 pola seguinte propozisam at alcansar1 onde faz suficiente sentido4 ,daqui fica claro1 que ponto e virgula tem o seu proprio lugar1 despois das-prepozisoens1 que comesam por-como1 qual1 quanto1 se1 aindaque c4 as quais introduzem aquela dependencia1 que digo4 ,finalmente despois de qualquer prepozisam1 em que aja palavras1 que unam com as palavras seguintes4 ,especialmente se-poem1 quando se-fala de coizas opostas3 ou quando se-faz enumerasam de muitas partes1 e se-especificam todas4 v4 g4 ,destruia cazas1 e templos2 o sagrado1 e profano2 o seu1 e o alheio1 c4 ,adverte-se porem1 que os periodos1 os quais1 sendo longos1 podem receber ponto e virgula2 em cazo que sejam curtos1 basta que tenham virgula3 por-nam fazer tam enfadonha a repetisam dos-pontos e virgulas4 v4 g4 ,neste particular duas opinioens3 uma de ,cujacio2 a outra seguem ,joam ,andr1 e ,ostiense4 parecer a muitos1 que em ,cujacio1 basta uma virgula1 o que eu nam dezaprovo3 outros quererm ponto e virgula4 e asim livre a cada um1 fazer o que lhe-agradar4 ,polo contrario1 se os periodos fosem mui compridos1 se-deveria pr ponto4 v4 g4 se eu disese3 ,prova-se isto com duas razoens4 ,a primeira 1 porque c4 neste cazo se a explicasam desta primeira razam1 se-estendse at metade da-folha1 ou ainda mais2 no-fim1 deve-se pr ponto somente3 e muitas vezes pode ser necesario1 comesar a segunda razam1 nam s com letra grande1 mas ainda em novo paragrafo4 ,tambem quando se-tem posto algumas vezes1 ponto e virgula2 costumam os omens doutos1 escrever dois pontos2 aindaque o sentido nam seja completo quanto ao fato3 para mostrar1 que se-deve fazer maior interrusam2 e descansar quem le1 e quem ouve4 ,isto 1 o que me-ocorre advertir1 neste particular da-pontuasam4 ,devo porem declarar a ,v4 ,p4 que esta materia1 nam ponto matematico1 que nam admite mais1 ou menos3 antes1 polo contrario1 depende muito1 da-vontade de quem escreve4 ,porque aindaque todos convenham1 na-razam das-regras2 quando porem decemos aos cazos particulares1 e a examinar1 se neste1 ou naquele cazo1 deve entrar virgula1 ou ponto e virgula c4 acha-se muitas vezes diversidade1 ainda entre os omens doutos4 ,eu neste particular1 propuz o que vejo praticar1 aos que melhor escrevem2 e que se estriba1 na razam das-regras3 mas nam condenarei1 quem se-afastar alguma vez destas advertencias1 comtantoque nam se-desvie em modo1 que fasa despropozitos4 ,eu mesmo sou o primeiro1 que as-nam-sigo escrupulozamente3 antes muitas vezes1 em lugar de ponto e virgula1 escrevo virgula3 em vez de dois pontos1 ponho virgula e ponto3 e quando os periodos sam curtos1 nam tenho s vezes dificuldade1 de escrever virgula1 em lugar de ponto3 ou outra semelhante mudansa4 ,o que faso quando me-parece1 que com estes sinais1 fica bastantemente separado o discurso1 e livre de confuzam3 e porque vejo1 que muitos escrevem damesma sorte1 e me-intenderm tambem4 ,esta a principal regra1 em materia de pontuasam3 evitar as confuzoens1 e procurar que os outros intendam1 tudo quanto eu quero dizer4 ,devo porem dizer a ,v4 ,p4 que vejo muitos autores ,portuguezes bem modernos1 que fazem gala1 de as-desprezar3 e publicam obras1 nas quais em uma pagina tudo sam virgulas1 e apenas se-acha um ponto4 ,especialmente 99 99 99 e outros que ,v4 ,p4 bem conhece4 ,o ,conde da-,ericeira ,d4 ,francisco ,xavier de ,menezes tambem seguia esta doutrina3 pois em algumas suas aprovasoens de livros1 que tenho visto1 tudo sam virgulas3 desorteque ninguem o-pode ler seguidamente1 porque cansa a respirasam4 ,e se isto pode ser louvavel1 eu o-deixo julgar aos dezapaixonados inteligentes4 ,muitas outras miudezas1 se-podiam advertir1 tanto na materia de ,pontuasam1 como de ,ortografia3 mas estas ou se-acham1 nas instrusoens impresas a este intento2 ou1 se nam se-acham1 como na verdade as-nam-vemos2 aprendem-se com o uzo3 e quem percebe bem1 as advertencias que temos dado1 escrever sem embaraso algum com perfeisam3 e poder rezolver1 qualquer das-que ocorrerem4 ,eu nam determinei1 escrever um tratado completo3 mas unicamente1 sugerir a ,v4 ,p4 o que se-acha mais bem notado1 nesta materia3 e o que deve ensinar um mestre1 ao dicipulo1 a quem explica a lingua ,portugueza4 ,para ,v4 ,p4 isto superfluo3 e para os ignorantes1 ainda muito4 mas eu tomo a liberdade de falar com ,v4 ,p4 como com um principiante1 porque asim mo-tem ordenado4 ,somente acrecento1 que isto que dise da-,pontuasam1 se-deve intender1 nam s no-,portuguez1 mas no-,latim2 e nas-mais linguas1 que desta nacram4 ,concluirei esta carta lembrando a ,v4 ,p41 que1 para facilitar este estudo ,mocidade1 seria necesario1 que algum omem douto1 abrevise o ,dicionario do-,p4 ,bluteau1 e o-reduzise grandeza1 de um tomo em folha1 ou dois em #d4o ,ninguem pode olhar para a obra do-,p4 ,bluteau1 sem ficar esmurecido1 pola quantitade de volumes4 ,este ,religiozo era douto1 e infatigavel3 e fez nasam ,portugueza um grande serviso2 compondo um ,dicionario1 que ela nam tinha3 e quem diser mal dele neste particular1 invejozo1 ou ignorante4 ,mas tem alguns defeitos1 que sera necesario emendar3 ,era mui medrozo3 e nam tinha metodo4 ,o medo1 reconhece-se em cada pagina das-suas obras4 ,fora maltratado por-alguns ,portuguezes injustamente2 e a cada paso se-queixa1 e d uma satisfasam4 ,os ,prologos1 tanto na primeira ,obra1 como no-,suplemento1 sam insoportaveis3 e apostarei1 que se-nam-acha omem1 de tanta paciencia1 e tam mao gosto1 que os-posa ler todos seguidamente3 porque a cada momento1 repete as mesmas coizas4 ,e o pior 1 que com dizer tanto1 nam explica o que deve3 pois querendo um leitor saber1 o que ele faz no-,dicionario1 e que razam d da-obra2 nam sabe por-onde -de comesar4 ,com um s titulo dirigido ao leitor 99 99 99 compreendia todos1 os que ele poem no-seu ,prologo3 e com um ,prologo mui breve1 dava razam de toda a obra4 ,os omens doutos1 intendem mui bem as coizas3 e sabem desculpar um autor1 que escreve uma voluminoza obra3 especialmente um que escreva um ,dicionario1 que seja o primeiro que aparece naquela lingua4 ,nam pior trabalho que este3 e nam algum que menos paresa grande1 a quem o-nam-provou1 doque este4 ,desorteque chegou a dizer o douto ,escaligero#ac1 que era pior este trabalho1 que ser condenado s minas1 como faziam os ,romanos4 ,comque a estes1 bastam poucas palavras3 a os ignorantes1 nam se-devem dar satisfasoens1 ou digam bem1 ou mal4 ,nem menos me-agrada o titulo da-obra1 que mui afetado1 e cheio de superfluidades4 ,ja se-sabe que um ,dicionario1 compreende todas as palavras1 com que se-explicam na dita lingua1 todas as coizas imaginaveis4 ,e o exemplo que ele traz de ,furetiere1 ,moreri1 ,hofman1 que enchram o titulo1 de semelhantes coizas1 nam desculpa os seus erros3 porque se-caza muito bem1 que errem dois omens de diferentes ,nasoens1 na mesma materia4 ,avulta tambem muito a obra1 porque as explicasoens sam longas1 e o carater mui grande4 ,o que tudo se-podia reduzir1 a menor extensam3 bastando um exemplo de um bom autor1 e deitando fora tantos ,latins1 e citasoens superfluas4 ,e asim1 todo aquele grande ,vocabulario1 se-pode reduzir nas segundas-impresoens1 a trez ou quatro volumes1 se lhe-tirasem o que tem de superfluo3 e sera tambem mais barato1 e mais util ,republica4 ,mas1 ainda despois de tudo iso1 sera necesario1 fazer um ,compendio1 para uzo dos-rapazes4 ,que o que os ,nosos tem feito1 compendiando o ,vocabulario da-,crusca1 quero dizer1 da-lingua ,toscana1 7sam trez ou quatro volumes7 em dois tomos de #do4 ,mas neste ,dicionario1 se-deveria acautelar outra coiza1 em que caio o ,p4 ,bluteau2 que foi1 nam distinguir as palavras boas1 de algumas plebeias1 e antigas4 ,ele ajuntou tudo3 e ainda muitas palavras ,latinas1 que muitos ,portuguezes modernos afetadamente aportuguezram4 ,e este o maior defeito que eu acho1 naquele ,dicionario4 porque nam ensina a falar bem ,portuguez2 como o da-nosa ,crusca1 que nam tem1 senam o que puro ,toscano2 e nota s vezes o que antigo1 ou poetico c4 ,sei1 que alguma diversidade se-acha3 porque os nosos autores1 que fazem texto1 sam os que escrevram1 em um seculo determinado3 e asim tudo o que moderno1 entre ns barbaro4 ,polo contrario a lingua ,portugueza1 como pouco tempo que comesou a aperfeisoar-se1 nam pode excluir1 tudo o que moderno4 ,contudo1 deveria o ,p4 ,bluteau1 nam abrasar senam os autores1 que falram melhor4 v4 g4 desde o fim do-seculo pasado para c3 ou encurtar mais o tempo4 ,e ainda neses1 que talvez nam seram iguais em tudo1 escolher1 o que mais racionavel3 e nam tudo o que aportuguezram alguns destes1 prezados de eruditos2 que1 por-forsa1 querem introduzir1 uma mixtura de ,portuguez1 com ,latim4 ,temos o exemplo da-,academia ,franceza1 a qual no-seu ,dicionario1 nam poz as vozes plebeias1 e antigas2 mas as puras1 e que oje falam os omens cultos4 ,aindaque1 como diz o ,senhor de ,furetiere1#ad justo1 que se fasa um ,dicionario parte1 das-vozes antigas1 e baixas3 paraque1 por-meio dele1 posamos intender1 os antigos documentos4 ,isto fizeram muitos na lingua ,latina1 compondo somente ,vocabularios da-inferior ,latinidade1 como ,vossio1 ,izidoro1 ,spelman1 ,du ,cange3 o qual ultimo fez tambem outro1 para o ,grego inferior4 ,e isto mesmo deveria ter feito ,bluteau3 pondo em um volume1 as palavras boas2 no-outro1 as antigas c4 ,o certo 1 que os ,nosos no-,compendio da-,crusca1 somente puzeram as puras3 e advertram as que sam poeticas1 e nam tem lugar na proza4 ,o mesmo ,bluteau em certa parte#ae1 reconhece a necesidade deste distinto livro2 e deu uma ideia dele1 nos-,catalogos que traz1 no-,suplemento4 ,mas se o dito ,p4 o-nam-fez1 porque quiz compreender1 tudo o que se-acha em ,portuguez1 ou por-outro motivo2 no-,compendio porem do-dito ,dicionario1 nam se-deviam escrever1 senam palavras puras e boas1 e segundo a pronuncia mais suave4 ,e4g4 nam escrever ,devaam1 porque o dise o ,vieira3 mostrando a analogia1 que se-deve dizer ,devosam3 muito mais1 porque asim o-pronunciam os doutos1 e mais agradavel4 ,o mesmo digo1 de ,outo c4 porque escrevendo muitos omens doutos comumente1 ,oitenta2 nam acho que tenham boa disparidade1 para1 no-mesmo livro1 escreverem1 ,outo3 como ,v4 ,p4 ver em muitos livros modernos4 ,e asim a pronuncia melhor1 sendo apadrinhada por-omens doutos1 deve ser preferida4 ,tambem se-devia no-dito cazo1 emendar a ,ortografia do-,bluteau1 que variante3 e establecer uma certa1 e sempre a melhor4 ,este ,compendio seria mui necesario4 os que quizesem majores noticias1 podiam procurlas no-,vocabulario grande4 ,isto o que me-ocorre4 ,v4 ,p4 conserve-me a sua benevolencia1 e rogue a ,deus por-mim nos-seus sacrificios4 ,deus ,guarde c4 ,illustrao ,,notas ,,de ,,rodap3 #c ,sueton4 de ,cl4 ,rhet4 ,c4 ,i4 #d ,auditis oratoribus ,grcis1 cognitisque eorum litteris1 adhibitisque doctoribus1 incredibili quodam nostri homines dicendi studio flagraverunt4 ,cicero l4 ,i4 de ,orat4 num4 ,,xiv4 #e ,a4 ,gel4 l4 ,i4 c4 x4 #f ,o ,bluteau no-,prologo do-,suplemento1 falando com o leitor ,pseudo-critico1 confesa1 que muitos omens doutos1 nam dobram as letras no-,portuguez3 aindaque condena1 que muitos nam observem1 a analogia e derivasam do-,latim1 e ,grego4 que a costumada cantilena dos-,velhos4 ,reconhece porem1 que seria necesario1 reformar a ,ortografia ,portugueza4 ,mas1 conhecendo isto1 adotou no-seu ,dicionario1 todas as variasoens de ,ortografia dos-autores2 como confesa no-,prologo do-,suplemento4 ,o que nam tem desculpa em um omem1 que estudou trinta anos1 o argumento do-seu livro4 #g ,s4 ,aug4 l4 ,i4 confess4 ,c4 ,,xviii4 ,catullus ,carm4 #he4 #h ,no livro1 ,orator ad4 ,m4 ,brutum4 #i ,na #f4 conferencia literaria aos #ah de ,maio de c4 em caza do-,conde da-,ericeira4 #aj ,impetratum est a consuetudine1 ut peccare suavitatis caussa liceret4 pomeridianas quadrigas1 quam postmeridianas1 libentius dixerim3 mehercule1 quam mehercules4 ,non scire quidem1 barbarum jam videtur3 nescire dulcius4 ,ipsum meridiem cur non medidiem8 ,credo1 quod erat insuavius4 ,cicero4 ,orator4 ad ,m4 ,b4 num4 #dg4 ,et infra ,consule veritatem1 reprehendet3 refer ad aures1 probabunt4 qure1 cur8 ita se dicent juvari4 voluptati autem aurium morigerari debet oratio4 #aa ,quintil4 l4 ,i4c4,i4 ,varro de lingua ,l4 l4#f4 alii4 #ab ,marius ,victorinus ,aff4 de ,ortographia4 #ac ,si quem dira manet sententia ,judicis olim ,damnatum aerumnis1 suppliciisque caput3 ,hunc neque fabrili lassent ergastula massa1 ,nec rigidas vexent fossa metalla manus4 ,lexica contexat1 nam cetera quid morer8 omnes ,pnarum facies hic labor unus habet4 ,sylvarum ,carm4 #ci4 #ad ,pref4 du ,dicionaire ,universel4 #ae ,prozas ,academic4 fol4 #bf4 ,illustrao ,,carta ,,segunda4 ,,sumario4 ,danos que resultam da-,gramatica ,latina1 que comumente se-ensina4 ,motivos porque nas-escolas de ,portugal1 nam se-melhora de metodo4 ,nova ideia de uma ,gramatica ,latina facilisima1 com que1 em um ano1 se-pode aprender fundamentalmente ,gramatica c4 ,despois do-estudo da-,gramatica ,vulgar1 segue-se o da-,latina4 e desta direi a ,v4,p4 o meu parecer1 na prezente carta4 ,quando entrei neste ,reino1 e vi a quantidade de ,cartapacios1 e ,artes1 que eram necesarias1 para estudar somente a ,gramatica2 fiquei pasmado4 ,falando com ,v4 ,p4 algumas vezes1 me-lembro1 que lhe-toquei este ponto3 e que nam lhe dezagradram as minhas reflexoens1 sobre esta materia4 ,sei1 que em outras partes1 onde se-explica a ,gramatica de ,manoel ,alvares1 tambem lhe-acrecentam algum livrinho3 mas tantos como em ,portugal1 nunca vi4 ,as declinasoens dos-,nomes1 e ,verbos estudam1 pola ,gramatica ,latina4 a esta se-segue um ,cartapacio ,portuguez1 de ,rudimentos4 despois outro1 para ,generos1 e ,preteritos1 muito bem comprido4 a este um de ,sintaxe1 bem grande4 despois um livro1 a que chamam ,chorro3 e outro1 a que chamam ,promtuario3 polo qual se-aprendem os escolios de ,nomes e ,verbos4 e nam sei que mais livro 4 ,e parece-lhe a ,v4 ,p4 pouca materia de admirasam1 quando tudo aquilo se-pode compreender1 em um livrinho em #ab4o e nam mui grande8 ,despois diso ouvi dizer1 que ocupavam seis1 e sete anos estudando ,gramatica3 e que a maior parte destes dicipulos1 despois de todo ese tempo1 nam era capaz de explicar por-si s1 as mais facis cartas de ,cicero4 ,confeso a ,v4 ,p4 que nam intendi isto1 nem donde proviese o dano4 ,alguns sugeitos1 bem inteligentes de politica1 me-deram algumas razoens1 que nam pareciam inverosimeis4 ,mas eu1 sem aprovar1 ou reprovar alguma delas1 e tambem sem me-demorar com esta materia2 discorrerei sobre o merecimento da-,gramatica ,latina2 e sobre o modo1 com que se-deve aprender4 ,ora convem todos os omens de bom juizo1 e que tem visto paizes ,estrangeiros1 e lido sobre isto alguma coiza2 convem1 digo1 que qualquer ,gramatica de uma lingua1 que nam nacional1 se-deve explicar na lingua1 que um omem sabe4 ,se ,v4,p4 quizese aprender ,grego1 e para este efeito lhe-desem uma ,gramatica toda ,grega1 e um mestre que somente false ,grego2 poderia1 forsa de acenos1 vir a intender alguma palavra2 mas nam sera posivel1 que aprendese ,grego3 o mesmo sucederia1 em qualquer outra lingua estrangeira4 e se algum ateimase1 que somente daquela sorte1 se-podia aprender ,grego1 diriamos1 que era louco4 ,pois suponha ,v4,p4 que estamos no-cazo4 coiza digna de admirasam1 que muitos omens deste ,reino1 queiram aprender ,francez1 ,tudesco1 ,italiano1 de uma sorte1 e o ,latim de outra muito diferente4 ,aprendem aquelas linguas com um mestre1 que as-fala ambas1 e explica a lingua incognita1 por-meio daquela que eles conhecem e falam3 e com uma s ,gramatica se-poem em estado1 de intenderem os autores bem1 e1 junto com o exercicio1 de falarem ,francez correntemente4 ,e tomra que me-disesem1 porque nam se-deve praticar o mesmo1 no-,latim3 e porque razam se-aja de carregar1 a memoria dos-pobres estudantes1 com uma infinidade de versos ,latinos1 e outras coizas1 que nam servem para nada neste mundo8 ,chega este prejuizo a tal extremo1 que o ,p4 ,bento ,pereira1 escreveo uma ,ortografia ,portugueza1 em ,latim4 ,desorteque quem nam intende ,latim1 segundo o dito ,p41 nam pode escrever corretamente ,portuguez4 ,os defensores deste metodo1 nam alegam outra razam mais1 que serem os versos1 mais facis de se-conservarem na memoria3 e que em todo o tempo1 a eles se-pode recorrer1 para ter prezentes as regras4 ,mas esta razam1 pueril1 e ridicula4 ,primeiramente se alguma coiza valse1 deveria praticar-se com versos ,portuguezes3 porque s eses intendem os estudantes4 ,e qual o estudante que intende1 os versos ,latinos das-regras1 principalmente sendo tam embrulhados1 como os do-,p4 ,manoel ,alvares8 ,o certo 1 que proguntando eu a alguns rapazes1 a explicasam deles1 nenhum ma-soube dar4 ,e eisaqui temos1 que para os rapazes1 nam servem os tais versos4 ,se pois falamos dos-omens adiantados1 estes sabem ,latim1 polo exercicio de ler1 escrever1 e falar3 comque nam tem necesidade1 de recorrer a semelhantes regras4 ,e se querem examinar1 alguma dificuldade de ,gramatica1 vam consultar os ,criticos1 que as explicam3 nam as simplezes ,gramaticas1 que nem menos as-tocam3 e talvez establecem principios1 contrarios mesma solusam4 ,finalmente a ,gramatica ,latina para os ,portuguezes1 deve ser em ,portuguez4 ,e isto parece quiz dizer o ,p4 ,manoel ,alvares1 na advertencia que faz aos mestres1 no-fim das-declinasoens dos-,verbos#af4 aindaque ele praticase o contrario1 do-que aconselha3 pois deveria1 nam ter dado o exemplo1 introduzindo uma ,gramatica puramente ,latina4 ,a outra coiza que se-deve reprovar 1 que obriguem os rapazes1 a aprender trez sortes de regras3 em verso1 em proza ,latina1 e em proza ,vulgar3 como adverte bem o dito ,padre4 ,isto1 quando nam lhe-queiramos dar outro nome1 perder tempo1 sem utilidade1 e com prejuizo grande3 sem aver outra razam1 que seguir um costume envelhecido1 aindaque prejudicial4 ,mas o que mais me-admirou neste particular1 e claramente me-mostrou1 quanto pode nos-,omens a preoccupasam dos-primeiros estudos1 foi1 ver que o ,sargentomr ,manoel ,coelho1 que parecia ser mais alumiado nestas materias1 pertendendo distinguir-se do-,comum1 dando aos principiantes1 uma facil explicasam das-oito partes da-orasam2 ainda asim caie na simplicidade1 de pr primeiro a regra em ,latim para um rapaz1 que ainda nam tem noticia da-dita lingua2 mas que aprende os primeiros elementos4 ,tal a forsa de um mao costume1 que cega ainda aqueles1 que querem dezembrulhar-se dele6 ,esta reflexam sustancial3 mas ainda outras de maior momento4 ,entremos bem dentro na ,gramatica4 ,toda a ,gramatica ,latina se-reduz a explicar1 a natureza1 e acidentes das-oito vozes1 que podem entrar na orasam ou discurso3 e o modo de as-unir1 e compor os periodos4 ,e isto deve-se fazer com a maior clareza1 e mais breves regras1 que se puderem excogitar4 ,o que certamente nam se-consegue com a ,gramatica uzual3 porque nam coiza mais confuza1 nem mais cheia de excesoens1 que a dita ,gramatica1 como todos vem4 ,o mundo estava mui falto de noticias1 e de metodo1 antes do-seculo pasado4 ,desde o restablecimento das-letras ,umanas na ,europa1 direi melhor1 no-,ocidente1 que podemos fixar nos-principios do-seculo ,,xv4 melhor direi1 desde a invensam da-,imprensa no-meio do-dito seculo2 at o fim do-,,xvi4 nam tiveram os omens tempo de cuidar1 em dar metodo proprio s ,letras1 e ,ciencias4 ,nam fizeram pouco aqueles primeiros doutos1 em procurar manuscritos1 e impremir os antigos autores1 mais corretamente que pudese ser4 ,achamos alguns1 no-fim do-,,xv4 e no-,,xvi4 seculo1 que foram letrados forsa de estudo1 mas nam de metodo4 ,temos tambem alguns omens1 que souberam bem ,latim nese seculo1 porque liam muito polos bons autores3 nam porque tivesem achado a chave1 de ir para diante com facilidade1 e explanar as dificuldades de ,gramatica1 aos estudantes4 ,finalmente esa gloria estava rezervada1 para o seculo ,,xvii4 ,os pasados seguiam uns a outros1 sem mais eleisam1 que o costume4 viam1 e estudavam com os olhos1 e juizo alheio4 ,mas no-principio do-seculo ,,xvii4 aparecram alguns1 que quizeram servir-se do-proprio3 e foi-lhes facil1 conhecer os erros dos-antecedentes1 porque eram grandes4 ,asim se-abrram os olhos ao mundo1 em todo o sentido4 um conhecimento facilitou outro4 e eisaqui aberta a porta ao metodo4 ,de-me ,v4 ,p4 omens1 que queiram examinar as materias com razam2 que nam inculquem um autor1 porque seus mestres lho-diseram1 mas porque digno de seguir-se2 que eu lhe-prometo1 adiantamento nas ,ciencias todas4 ,a seu tempo discorrerei das-outras3 agora continuemos com a ,gramatica4 ,tinha no-tempo do-,concilio de ,trento o douto ,julio ,cezar ,escaligero1 comesado a examinar a ,latinidade1 seguindo o exemplo1 e lumes do-famozo ,agostinho ,saturnio2 o qual tinha ja notado varios erros1 nos-outros ,gramaticos4 ,escaligero1 dando um paso adiante1 publicou um livro1 com o titulo ,de ,caussis ,lingu ,latin3 em que doutisimamente expoem o seu sentimento1 sobre os elementos da-,gramatica3 mas nam toca a construisam das-,partes4 ,a leitura deste livro1 abrio os olhos a ,francisco ,sanches1 que era um profesor celebre de letras ,umanas1 na ,universidade de ,salamanca4 ,este douto empreendeu no-seguinte seculo1 com o mesmo titulo1 a explicasam da-construisam das-partes daorasam3 e com tanta felicidade1 que descobrio as verdadeiras cauzas1 at quele tempo ignoradas4 ,este livro incontrou em ,salamanca1 e trouxe para ,roma1#ag nos-principios do-seculo pasado1 o famozo ,gaspar ,scioppio1 ,conde de ,claravale1 de nasam ,tudesca3 aquele grande omem em letras ,sagradas e ,profanas2 e que empregou toda a sua vida1 em estudos gramaticos4 ,o livro de ,sanchez fez todo o efeito1 que podia esperar-se4 ,scioppio 7que nam costumava dizer bem1 daquilo que o-nam-merecia2 antes1 polos seus inimigos1 tachado1 como censor dezumano7 cedendo evidencia das-razoens1 proseguio o mesmo metodo de ,sanches3 ilustrou1 e reformou a sua doutrina3 e compoz a primeira ,gramatica1 que apareceo segundo os tais principios4 ,no-mesmo tempo o famozo ,gerardo ,joam ,vossio em ,olanda1 tam benemerito das-letras ,umanas1 e ,sagradas1 explicou ainda melhor o dito metodo2 seguindo em tudo ,sanches1 e ,scioppio2 os quais ou copeia1 ou ilustra4 ,esta 1 e ser sempre1 a ,epoca famoza da-,latinidade1 e ,gramatica4 ,a estes trez grandes omens1 seguram em tudo e por-tudo os melhores ,gramaticos1 que despois ouveram3 e devem seguir1 os que tem juizo para conhecer1 como se deve estudar a ,latinidade4 ,por-,fransa1 ,alemanha1 ,olanda1 ,italia1 e outras partes se-dilatou este metodo3 e alguns escrevram belisimas ,gramaticas1 segundo os tais principios4 ,a razam porque nam se-propagou mais 1 porque pola maior parte os estudos da-,mocidade1 sam dirigidos por-alguns ,religiozos1 que seguem outras opinioens4 ,os doutisimos ,jezuitas1 ensinam grande parte da-,mocidade1 em varias partes da-,europa3 e nam querendo apartar-se1 do-seu ,manoel ,alvares1 rejeitram todas as novas ,gramaticas4 ,alguns destes ,religiozos1 que trato familiarmente1 e estimo muito pola sua doutrina1 e piedade2 me-diseram claramente1 que bem viam1 que o ,alvares era confuzo1 e difuzo2 e que as outras eram melhores3 nem se-podia negar1 que os principios de ,scioppio fosem claros1 e certos3 mas que o ,p4 ,geral nam queria1 se-apartasem do-,p4 ,alvares1 por-ser ,religiozo da-,companhia4 ,este o motivo1 porque o ,p4 ,alvares se-conservou1 nas escolas dos-tais ,religiozos3 e esta tambem a origem da-tenacidade1 comque muitos seguem1 aquilo mesmo que condenam4 ,os outros ,religiozos1 aindaque nam sejam ,jezuitas1 tem as mesmas obrigasoens1 e opinioens4 ,a maior parte1 cuida pouco niso3 e vam vivendo1 como seus mestres lhe-ensinram4 ,nam tem noticia dos-melhores autores1 que na materia3 cuidam1 que no-mundo nam outra ,gramatica1 fra que a do-,p4 ,alvares4 ,e todos estes1 contentando-se de intender1 um pouco de ,latim bom1 ou mao1 nam cuidam em saber ,gramatica4 ,os mestres ,seculares1 pola maior parte1 sam ignorantisimos1 e puros pedantes4 e desta sorte de gente nunca esperou aumento1 a republica ,literaria4 necesario porem confesar1 que fra de ,portugal1 aindaque perzistam algumas destas razoens1 muitisimos ,religiozos1 e ,seculares ensinam1 segundo os verdadeiros principios4 ,comque1 considerado bem tudo isto1 nam tem que se-maravilhar ,v4 ,p4 de que um metodo1 que louvam tanto os omens doutos1 tenha tido tam mao recebimento1 em varias partes4 ,mas estas ,gramaticas que tem saido1 aindaque sigam os mesmos principios1 nem todas se explicam com igual clareza4 ,eu direi o que achei nas melhores1 e o como se-pode ordenar uma ,gramatica1 util para a ,mocidade4 ,a ,gramatica deve-se dividir1 em dois volumes4 ,no-primeiro1 devem-se tratar aquelas coizas1 que indispensavelmente devem estudar os principiantes4 no-segundo1 aquelas reflexoens1 que sam mais proprias para os adiantados1 e para os mestres3 como sam as dificuldades de ,gramatica1 e as razoens daquelas regras1 que parecem menos comuas4 ,explico agora a primeira parte4 ,esta primeira parte 7podemos-lhe chamar pura ,gramatica3 porque a segunda1 sam comentos sobre ela7 divide-se naturalmente1 em quatro partes3 ,etimologia1 ,sintaxe1 ,ortografia1 e ,prozodia4 a primeira trata das-,vozes3 a segunda da-,uniam delas3 a terceira das-,letras3 a quarta da-,quantidade das-silabas4 ,,etimologia4 ,na primeira parte1 trata-se da-origem e diferensa das-vozes ,latinas1 que podem entrar na orasam1 por-sua ordem4 ,primeiro1 explica-se o ,nome1 e suas especies4 ,o ,nome1 tem trez acidentes1 que sam1 ,genero1 ,cazo1 ,terminasam4 ,os ,generos1 que tanta bulha fazem nas escolas1 explicam-se com toda a brevidade4 regras gerais da-significasam1 e particulares da-terminasam4 ,na primeira regra1 poem-se todos os que pertencem ao ,masculino4 v4g4 ,sam do-,masculino1 os nomes de ,omens c4 #b4 ,sam do-,feminino1 os nomes de ,molheres1 ,naos c4 #c4 ,sam do-,neutro1 os nomes de ,letras1 ,frutas c4 ,tambem as particulares1 se-reduzem a trez4 v4 g4 ,sam do-,masculino os nomes em ,o1 como ,sermo3 em il1 como ,mugil c4 ,acabado isto1 poem-se um escolio que diga3 ,nomes que sam do-,masculino1 por-excesam das-outras regras4 v4g4 ,cometa1 ,adria1 ,harpago1 ,splen c4 ,o mesmo metodo se-pode praticar no-,feminino1 e ,neutro4 ,e com seis regras1 se-explicam todos os ,generos3 e se-acaba esta grande barafunda de ,cartapacios4 ,se pois o estudante quizer saber a razam1 porque alguns nomes1 que pareciam de um genero1 se-atribuem a outro2 pode ir ver1 a segunda parte da-,gramatica4 ,segue-se explicar1 quantos ,cazos tem o ,nome4 e em #c4o lugar a ,declinasam3 mostrando quantas 3 e em cada uma delas1 quais sam a ,latinas1 quais as ,gregas4 ,tudo isto se-pode dizer1 com muita clareza e brevidade2 bastando alegar um exemplo1 em cada especie de terminasoens1 que podem entrar em cada declinasam4 ,com este metodo1 em uma vista de olhos1 percebe o estudante os nomes1 que pertencem a cada declinasam4 ,despois1 podem-se explicar os ,nomes ,compostos1 os ,anomalos de genero1 de numero1 de cazo1 e de declinasam4 ,a segunda especie de ,nome1 o ,adjetivo4 ,e aqui tem lugar explicar1 as diversas especies de ,adjetivos3 ,pozitivos1 ,comparativos c4 as suas declinasoens1 e anomalas4 ,o ,pronome1 tem seu lugar despois do-,nome3 porque tambem 1 uma especie de ,adjetivo4 ,onde deve explicar-se logo1 a sua diversidade3 e as declinasoens dos-,simplezes1 e ,compostos4 ,o ,verbo1 a mais dificultoza parte1 nas ,gramaticas vulgares3 e por-iso pede grande atensam4 ,explicadas as divizoens dos-,verbos2 e apontado1 que quatro ,declinasoens ou ,conjugasoens3 segue-se logo1 explicar os ,preteritos4 v4 g4 ,a primeira1 tem no-infinito a longo antes de re3 no-,preterito faz1 avi3 no-,supino atum3 ut amo1 amavi1 amatum1 amre4 ,tiram-se os ,verbos em bo1 ut ,cubo3 em co1 ut ,mico c4 ,e isto se-observar em todas as ,conjugasoens4 ,desta sorte conclue-se em poucas palavras1 toda aquela grande arenga de ,preteritos1 que nam tem fim nas escolas de ,portugal4 ,se pois o estudante nam quer aprender1 toda aquela enfiada de ,verbos1 nam emporta3 basta que aprenda um exemplo1 e saiba buscar os outros3 porque a pratica ensina o demais4 ,seguem-se as ,declinasoens dos-,verbos1 a que vulgarmente chamam1 ,linguagens4 ,e aqui achamos bastantes erros1 nas ,gramaticas comuas1 e tambem confuzoens3 porque mandam aprender aos rapazes1 coizas totalmente superfluas2 e nam explicam as necesarias4 ,quanto ao ,indicativo1 concordamos com ,manoel ,alvares3 s dizemos1 que aquele ,preterito plus quam perfeito1 uma arenga1 que nenhum estudante intende2 nem os mestres explicam4 ,deve-se explicar asim3 ,amavi1 ,preterito perfeito proximo2 que afirma uma coiza1 simplezmente pasada3 ,amaveram1 ,preterito perfeito remoto1 que nam s se-intende de uma coiza pasada2 mas que ja era pasada1 antes de outra1 de que eu falo como pasada4 ,dizemos mais1 que aquele ,futuro perfeito1 nam o- no mundo3 pois esta voz1 o mesmo ,futuro segundo1 que ele poem no-,conjuntivo4 ,alem dos-primeiros tempos do-,indicativo1 tem o ,verbo1 segundo ,prezente1 que ,amem3 segundo ,imperfeito1 que ,amarem3 segundo ,perfeito1 que ,amaverim3 segundo ,preterito remoto1 que ,amavissem3 segundo ,futuro1 que ,amavero4 ,mas isto pode-se explicar em ,portuguez1 com diversas palavras4 ,a estas segundas vozes1 ou segundo modo1 podemos chamar ,conjuntivo3 porque pola maior parte1 une-se com outras partes4 ,daqui vem1 que erro1 pr nas ,gramaticas3 ,modo ,optativo1 ,conjuntivo1 ,potencial1 ,permisivo3 porque por-este estilo1 podem-se acrecentar muitos outros ,modos3 sendo certo1 que1 ajuntando-lhe novas particulas1 nacem diferentes modos de se-explicar4 ,basta advertir ao estudante1 que aquele ,amem1 pode-se tomar1 em diversos sentidos3 o que se-conhece1 polo contexto da-orasam4 tudo o mais tempo perdido1 e ensinar uma falsidade3 pois nam tais modos separados3 sendo que a linguagem1 ou a voz sempre a mesma4 ,amem1 quando significa posibilidade1 e quando significa permisam1 nam se-distingue mais1 que polo contexto4 ,e isto bastava que brevemente se-advertise1 apontando um exemplo3 porque o mais ensina a lisam1 e reflexam sobre os bons autores4 ,o terceiro ,modo o ,imperativo3 a que podemos chamar1 por-distinsam1 ,prezente terceiro3 ,ama4 ,futuro terceiro3 ,amato4 ,o ,infinito1 aquele2 a que verdadeiramente devemos chamar1 ,impesoal3 pois nam tem determinado numero1 ou pesoa1 ou tempo c4 ,este tem uma voz3 a que1 aindaque impropriamente1 podemos chamar1 ,prezente1 e ,imperfeito3 que ,amare4 a qual tem todas as significasoens do-,prezente1 e ,imperfeito primeiros4 ,para os outros ,preteritos serve1 ,amavisse4 ,tem ,futuro1 que ,amaturum esse3 e outro ,futuro remoto1 que ,amaturum fuisse4 ,gerundios1 ,supinos1 e ,participios4 ,isto posto1 deve-se explicar1 como se-formam os tempos4 ,e nisto se-compreende1 a primeira parte das-,linguagens4 ,seguem-se os ,verbos ,anomalos1 quero dizer1 os que nam tem analogia1 com as quatro ,conjugasoens3 sam ,volo1 ,nolo1 ,malo1 ,fero1 ,eo1 ,edo1 ,fio1 ,memini c4 ,aio1 ,inquam1 ,forem4 ,e nisto se-encerra tudo1 o que se-diz do-,verbo4 ,os ,gramaticos fazem aqui uma barafunda de explicasoens1 e divizoens1 em ,neutros1 ,comuns1 ,depoentes1 ,diminutivos1 ,frequentativos1 ,denominativos1 ,imitativos c4 mas tudo isto superfluo4 ,todos os ,verbos1 tirando dois1 sam ,ativos1 ou ,pasivos3 porque ou significam asm1 ou paixam3 e a estas especies se-reduzem os apontados4 ,basta advertir1 o que significam estas palavras1 e a que conjugasam pertencem os ditos verbos3 apontando um exemplo de cada um4 o que porem melhor se-faz1 no-exercicio da-leitura1 e tradusam4 ,ao ,verbo1 segue-se o ,participio3 que aqui se-deve explicar com as suas divizoens4 notando quais sam os ,verbos que os-tem3 quais os em que faltam3 quais deles formam ,comparativos1 e ,superlativos4 ,no-,adverbio1 deve-se explicar e apontar1 os que sam de proguntar1 os que significam tempo1 lugar2 e outras diferentes especies deles4 ,despois1 a ,prepozisam3 mostrando as que sam separaveis1 e as que se-nam-separam4 ,como tambem advertir1 que coiza acrecentam ao ,nome1 e ,verbo1 estas ,prepozisoens4 ,sobre a ,interjeisam1 deve mostrar1 quais sam as que significam1 os diferentes afetos do-animo1 para o estudante poder servir-se na ocaziam4 ,a ,conjunsam1 tambem tem suas especies3 que sam ,conjuntiva1 e ,disjuntiva1 ,condicional1 ,concesiva c4 e estas todas devemos apontar3 alegando exemplos em cada uma4 ,despois da-,etimologia das-vozes1 tem lugar explicar o ,metaplasmo3 que vale o mesmo que dizer1 certas figuras1 polas quais se-acrecentam1 ou diminuem as letras das-disoens3 v4 g4 ,gnavus pro ,navus c4 ,noticia esta sumamente util para intender1 as diferentes vozes ,latinas4 ,e nisto se-compreende1 tudo o que deve saber-se sobre a ,etimologia1 com a maior clareza1 e brevidade imaginavel4 ,,sintaxe4 ,despois1 segue-se a ,sintaxe4 ,e a qui maior a dificuldade3 porque se a ,etimologia1 nas ,gramaticas ordinarias1 confuza2 a ,sintaxe delas a mesma confuzam4 necesario variar muito do-comum1 para ensinar verdadeira ,sintaxe4 ,nam tenho tempo para provar o que digo3 mas seguro a ,v4 ,p4 que o que escrevo1 ja provado evidentemente1 polos autores que aponto1 e outros que os-comentram3 e que1 se a necesidade o pedise1 com pouco trabalho mostraria tudo3 porque tenho visto o que basta4 ,e asim apontarei somente1 as rezolusoens4 ,a ,sintaxe ensina a unir as vozes1 para fazer a orasam3 e1 por-meio desta1 formar um bem regulado discurso4 ,a construisam ou uniam ou ,regular1 que segue as regras da-,arte3 ou ,figurada1 que se-desvia delas1 mas funda-se na autoridade dos-bons escritores4 ,a construisam ,regular funda-se na ,concordancia1 ou na ,regencia4 ,chamo ,concordancia1 quando as partes concordam1 em alguma coiza comua4 v4g4 o ,sustantivo concorda com outro ,sustantivo em cazo1 que comum a ambos4 ,nas ,concordancias achamos alguns erros comuns1 que em breve apontaremos4 ,nam se-devem admetir mais concordancias1 7nam falo daquela entre dois ,sustantivos7 que de ,sustantivo com ,adjetivo3 ,verbo com o ,nome4 ,o ,adjetivo concorda com o ,sustantivo em numero1 e cazo1 que sam comuns a ambos3 nam em genero1 porque o ,adjetivo nam tem genero1 mas somente o ,sustantivo3 poem-se porem o ,adjetivo em uma terminasam1 conrespondente ao genero do-,sustantivo4 ,alem disto o ,adjetivo1 nam concorda com o ,sustantivo proprio1 v4g4 ,petrus3 mas com o ,sustantivo comum1 v4g4 ,homo3 e vale o mesmo dizer3 ,petrus est bonus3 que se disese-mos3 ,petrus est homo bonus3 vel artifex1 vel magister bonus c4 ,quando nam nome comum1 recorre-se aos nomes1 ,res1 ,factum1 ,opus1 ,negotium1 e outros semelhantes1 que antigamente tinham1 significasam mais extensa1 que a que oje lhe-dam4 ,damesma sorte quando ,ovidio dise3 ,nox1 ,amor1 ,vinum nil moderabile suadent2 deve-se intender asim3 non suadent factum1 vel opus1 vel negotium moderabile4 ,virgilio umas vezes dise3 ,prneste altum3 intendendo ,oppidum4 outras vezes3 ,prneste sub ipsa3 intendendo sub ipsa ,civitate4 podia tambem dizer3 ,prneste altus3 intendendo ,locus4 ,terencio dise3 ,eunuchum suam2 intendendo ,comoediam1 ou ,fabulam2 porque ,eunuchus masculino4 ,deixo outros exemplos1 com que se-mostra1 que a concordancia sempre com o ,sustantivo comum4 infinitos exemplos que provam1 que o ,relativo concorda com o susequente expreso1 ou supreso1 em numero1 cazo1 e terminasam conrespondente ao genero3 damesma sorte que outro ,adjetivo4 ,temos exemplo bem claro em ,cicero1 do-expreso3 ,ego tibi illam ,aciliam legem restituo1 qua lege simul accusasti#ah3 e em outra parte#ai3 ,sequitur enim caput1 quo capite non permisit4 ,cezar abunda muito destes modos de falar1 porque afetava clareza4 ,acham-se exemplos do-supreso3 ,populo ut placerent1 quas fecisset fabulas#bj3 i4 e4 ,populo ut placerent fabul1 quas fabulas fecisset4 ,do-que fica claro1 que o ,relativo concorda1 em genero1 numero1 e cazo1 como dizem comumente1 com o seu susequente2 que o mesmo antecedente-repetido4 ,isto basta por-agora4 ,a segunda concordancia1 do-,verbo com o ,nome3 os quais concordam em numero1 que comum a ambos3 nam em pesoa1 porque esta somente do-,verbo3 mas poem-se o ,verbo em uma terminasam1 conrespondente pesoa1 que o ,nome significa4 ,devem-se porem advertir algumas coizas4 ,i4 ,a primeira1 e segunda pesoa do-,verbo1 raras vezes se-construe com o ,nome expreso1 senam por-distinsam1 ou emfaze4 ,,ii4 ,a terceira pesoa do-,verbo1 construe-se tambem com um ,verbo infinito4 v4g4 ,scire tuum nihil est3 pro1 scientia tua4 ,tambem algumas vezes sem nome expreso3 v4g4 ,aiunt1 supple1 homines4 ,tonat1 sup4 ,deus4 outras vezes com o ,nominativo3 ,saxa pluunt4 ,tambem se-uza do-,nome1 sem ,verbo expreso3 ,rari quippe boni4 i4 e4 sunt4 ,,iii4 ,no-,verbo com o ,nome1 tem lugar a ,figura ,sintesis1 que parece1 que discorda do-,nome expreso3 mas a verdade que concorda1 com o sinonimo oculto4 v4 g4 ,pars epulis onerant mensas3 onde o ,verbo concorda1 com o sinonimo oculto1 ,plurimi4 ,tem tambem lugar a figura ,zeugma1 em que o ,verbo concorda1 com o mais vizinho3 ,tu quid ego1 populus mecum desideret1 audi4 ,tem tambem lugar a ,silepsi1 emque o ,verbo concorda1 com o mais digno3 ,si tu1 ,tullia lux nostra valetis1 ego1 suavissimus ,cicero valemus4 ,,iv4 ,porque o ,adjetivo significa acidente1 nam pode estar s sem sustantivo1 que signifique a sustancia4 o mesmo digo das-terminasoens do-,verbo que significa1 movimento de alguma coiza3 e asim sempre se-subintende a dita coiza4 ,nam ,orasam sem ,verbo1 e ,nome4 se o ,verbo finito1 o suposto ,nominativo3 se infinito1 ,acuzativo4 ,a ,letra1 ,silaba1 ,voz1 e ,orasam1 pode ser suposto do-,verbo1 e do-,adjetivo4 ,v4 ,do-sobredito se-inferem varias coizas4 falso1 que os ,nomes de numero1 come tres1 decem1 concordem entre si4 falso1 que os ,adverbios1 e ,conjunsoens concordem com o ,indicativo1 ,optativo c4 deve-se dizer1 que se-construe um com outro4 ,e nisto com pouca diferensa se-comprende1 tudo o que se-diz da-,sintaxe de concordar4 ,a ,regencia1 a que mostra o seu efeito1 em outra coiza que rege4 ,quatro sam as vozes que regem outras3 ,nome1 ,verbo1 ,participio1 e ,prepozisam4 falso1 o que se-ensina comumente1 que o ,adverbio1 ,conjunsam1 ,interjeisam1 ,verbo pasivo1 ,participio pasivo1 ,gerundio1 ,nome adjetivo1 reja1 e pesa cazo3 porque o cazo que se-acha com eles1 regido de uma parte supresa1 pola figura ,ellipsis4 ,a regencia ou ,gramatical1 que segue as regras da-arte3 ou ,figurada1 que se-desvia delas4 ,e porque a regencia se-exercita nos-,cazos do-,nome1 daqui vem1 que toda a ,sintaxe de ,regencia se reduz1 explicasam deses seis ,cazos4 v4g4 no-,nominativo aponta-se1 quando entra na orasam4 despois1 quais sam as partes da-orasam1 que se-construem com ele1 ou simplez1 ou dobrado4 ,o mesmo digo de todos os outros ,cazos3 na explicasam dos-quais deve-se muito advertir1 de mostrar quais sam as partes1 que verdadeiramente os-regem3 e nam enganar os estudantes1 com as doutrinas das-,gramaticas vulgares4 ,v4g4 o ,genitivo cazo somente regido1 por-um ,sustantivo expreso1 ou supreso3 ou por-uma parte1 que esteja em lugar de ,sustantivo4 pois necesario mostrar-lhe1 que se-enganam os outros1 que atribuem o tal ,genitivo1 a outras partes da-orasam4 ,com este metodo1 explica-se mui brevemente a ,sintaxe1 e mui solidamente3 porque se-reduzem todas as construisoens figuradas1 ao modo de falar regular3 e se-descobrem os verdadeiros principios da-,regencia3 postos os quais1 dezaparecem todos aqueles ,apendices1 e ,limitasoens da-,gramatica uzual3 as quais nam de outra coiza nacem1 senam de establecer principios falsos4 ,despois1 explica-se a ,gramatica ,figurada3 e se-aponta o fundamento da-,figura1 e como se-pode reduzir construisam natural4 porque sem esta inteligencia1 nam se-pode ir para diante na ,gramatica4 ,,ortografia1 ,e ,,prozodia4 ,as outras duas partes da-,gramatica sam mais facis1 porque menos contrariadas4 ,a noticia das-,letras1 e ,ortografia1 sumamente necesaria1 para escrever bem1 e ler correntemente nam s a moderna1 mas tambem a antiga escritura3 em que vareiam muito as letras4 ,o mesmo digo da-,prozodia1 ou quantidade das-silabas4 ,tambem nisto necesario1 uzar melhor metodo1 que o da-,gramatica comua3 e conheso eu muito bem1 que se podem dizer1 com mais clareza4 ,eisaqui tem ,v4,p4 uma idea do-que sinto1 sobre a ,gramatica4 ,parece-me bastante o que dise1 paraque veja ,v4 ,p4 quanto trabalho encurtaria uma ,gramatica1 concebida nestes termos3 e uns principios tam claros1 como os em que se-funda4 ,nam poso dilatar-me mais nesta materia1 porque sera compor ,gramatica2 e o meu argumento nam ese4 ,eu sei1 quem tem composto uma ,gramatica1 pouco diferente da-ideia que propuzemos3 e tem composto outro particular escrito1 com que se-aprende ,gramatica mais facilmente1 e em menos tempo3 os quais podia publicar1 para utilidade deste ,reino4 ,dois nosos amigos lhe-pediram instantemente1 que a-impremise3 mas ele desculpa-se sempre com dizer1 que mais facil1 conquistar um novo mundo2 doque despersuadir os ,velhos1 da-antiga ,gramatica4 ,cita alguns exemplos com que mostra1 que a paixam obra nestes particulares mais1 que o juizo3 e lamenta-se muito1 que se-tenham reprovado tantas coizas1 sem as-lerem1 nem intenderem4 ,o que eu poso segurar a ,v4 ,p4 1 que com este metodo1 aprende-se em um ano mais ,gramatica1 doque nam sabem muitos1 que a ensinam trinta anos1 ou pasram nela toda a sua vida4 erro persuadir-se1 que um omem ou deva1 ou posa ter prezentes todas as regras1 que se-acham na ,gramatica do-,p4,alvares4 ,a experiencia deveria dezenganar1 os que estudram por ela2 e mostrar-lhe1 que aquele estudo morre com a escola4 ,um estudante1 despois de seis ou sete anos de ,manoel ,alvares1 se acazo nam le os antigos ,latinos1 e procura intendlos2 ou nam pasa para a ,filozofia1 onde a necesidade o-obriga a intendlos1 e falar a tal lingua2 fica toda a sua vida ignorante de ,latim1 com toda a sua ,gramatica4 ,porem se acazo segue o exercicio do-,latim1 de tal sorte se-familiariza com a lingua1 como se fora nacional2 e comesa a falar por-uzo4 ,aqui nam necesario mais prova1 que proguntlo a eses mesmos leitores4 apenas conservam umas ideias gerais1 das-regras de ,gramatica4 ,onde fica claro1 que tudo aquilo superfluo4 ,o metodo porem que aponto1 mais facil de se-conservar na memoria1 porque natural3 e chega origem das-coizas4 ,mas em um e outro sistema verdade1 que preceitos sem uzo1 nada valem4 ,onde deve o estudante1 nam s aprender a ,gramatica1 mas exercitar esas regras no-discurso1 na leitura1 e na composizam3 descobrindo em toda a leitura as regras1 que na ,gramatica lhe-insinuam3 no-que deve ter igual cuidado o mestre1 que o estudante4 ,no-primeiro ano1 deve ensinarlhe ,gramatica3 o que se-pode fazer com muita facilidade4 ,no-segundo1 traduzir os autores mais facis3 como algumas ,cartas de ,cicero1 as ,fabulas de ,fedro1 ,terencio1 ,cornelio ,nepote4 procurando que o estudante asine a regencia das-partes1 e descubra neses livros1 os principios que estudou3 e intendendo as outras particularidades mais reconditas da-,gramatica3 as quais nam sam para o primeiro ano4 ,mas1 para proceder nisto com utilidade1 deve o mestre ordenar ao estudante1 que ja vio uma vez a ,sintaxe1 que escreva em ,portuguez1 polas palavras que melhor lhe-parecer1 mas sempre diferentes daquelas1 que estam na regra1 a razam de alguma regra2 apontando um exemplo1 e explicando as partes todas dese exemplo4 ,pode tambem o mestre tomar1 um periodo de duas regras1 em algum autor claro2 e dalo ao rapaz1 paraque o-explique em uma folha de papel3 pondo nela toda a regencia gramatical1 sem deixar nem menos uma virgula1 por-explicar4 ,e quando o rapaz aprezenta a sua carta1 examinlo de tudo1 o que nela se-contem2 para ver se verdadeiramente o-intende4 ,e isto mesmo se-pode praticar ao principio1 quando traduzem os autores4 ,este modo de estudar1 nam enfada os principiantes1 visto darem-lhe tempo para considerar1 o que m-de escrever4 ,ao principio1 deve ser em caza3 quando sam adiantados1 na escola4 ,alem diso o estudante1 para escrever a sua explicasam1 necesario que leia1 e intenda bem a regra3 que busque no-,dicionario1 o significado das-palavras3 e desta sorte que a-imprime bem na memoria4 ,quando o estudante for adiantado1 entam que se pode obrigar1 a repetilo de memoria3 mas nem sempre3 pois algumas vezes bom1 dar-lhe o periodo1 paraque fasa a explicasam por-papel3 ,com a diferensa porem1 que se o periodo avia ser de quatro regras1 seja de seis1 ou oito4 ,explicando isto por-escrito1 incrivel1 quanto se-intende melhor3 principalmente se o mestre1 quanto lhe-tomar conta1 fizer as proguntas necesarias2 emendar os erros1 e explicar tudo como deve4 ,mas esta carta ja mais comprida1 doque eu queria faz-la3 porem poso segurar a ,v4 ,p4 que ainda me-fica muito que dizer4 ,contudo do-que tenho escrito1 fica bem claro1 o que eu intendo3 e para ,v4 ,p4 mais que bastante4 ,fico s ordens de ,v4 ,p4 como seu criado4 ,illustrao ,,notas ,,de ,,rodap3 #af ,patrio sermone tantum declaranda ,rudimenta1 ,genera1 ,declinationes1 ,anomala1 ,prterita1 ,supina3 ne simul ligata soluta oratione prcepta memoriter recitare cogantur4 ,quod etiam in ,syntaxi1 quando ea primum explicatur1 observandum est4 #ag ,veja-se a sua ,gramatica da-edisam de ,scavenio1 na ,prefasam4 #ah ,in ,ver4 act4 #c4 #ai #b4 ,agrar4 #bj ,terent4 in ,andria4 ,illustrao ,,carta ,,terceira4 ,,sumario4 ,abuzos que se-introduzram em ,portugal1 no-ensinar a lingua ,latina4 ,mao modo que os mestres tem1 para instruir a ,mocidade4 ,propoem-se o metodo1 que se-deve observar1 para saber com fundamento1 e facilidade o que pura ,latinidade4 ,necesidade da-,geografia1 ,cronologia1 e ,istoria1 para poder intender os livros ,latinos4 ,apontam-se os autores1 de que os mestres se-devem servir na ,latinidade3 e como devem servir-se deles2 e expliclos com utilidade3 e as melhores edisoens4 ,aponta-se o modo de cultivar a ,memoria1 e exercitar o ,latim nas escolas4 ,meu amigo e senhor1 ,tardei em escrever a ,v4,p4 porque tive legitimas ocupasoens4 ,continuando pois o fio das-minhas reflexoens1 da-,gramatica paso para a ,latinidade3 porque me-persuado1 que este mesmo caminho deve seguir o estudante1 que quer ter perfeita noticia1 da-lingua ,latina4 ,esta noticia certamente nam se-consegue1 com a pura ,gramatica3 mas com a continua lisam de bons autores1 e reflexam sobre as suas melhores obras4 ,aliud est grammatice1 aliud latine loqui3 advertio ja no-seu tempo ,quintiliano4 e com muita razam3 porque a escrupuloza sugeisam s regras da-,gramatica impede1 saber falar a lingua4 ,a ,gramatica a porta1 pola qual se-entra na ,latinidade3 e quem pra no-vestibulo1 nam pode ver as singularidades do-,palacio4 ,quantos omens acha ,v4 ,p4 que1 com terem sido mestres de ,gramatica muitos anos1 saibam pegar na pena1 e escrever uma pagina em bom ,latim8 responder a uma carta com facilidade8 e fazer qualquer outra coiza1 em que seja necesario1 uzar da-lingua ,latina8 ,eu conheso infinitos sugeitos1 que pasram a sua vida neste exercicio1 e quando m-de escrever ,latim1 servem-se de expresoens em tudo barbaras1 e indignas do-seu exercicio4 ,outros1 aindaque tenham eleisam de palavras1 nam se-despem dos-idiotismos da-sua lingua3 que o mesmo que falar ,portuguez1 com palavras ,latinas4 ,uma vez que observam1 aquela regencia gramatical que estudram1 parece-lhe que fazem a sua obrigasam4 ,os que se-querem apartar deste uzo1 declinam para outro extremo viciozo1 que a afetasam3 e nam buscam1 senam palavras grandes e sonoras1 sesquipedalia verba1 com as quais atroem os ouvintes1 ou leitores4 ,e daqui entam nace1 aquele estilo ridiculo1 que tanto dominou nos-seculos da-ignorancia2 e oje em ,italia chamamos1 estilo do-seculo ,,xvi4 ,a estes ultimos chama o comum dos-,gramaticos1 grandes ,latinos4 um louvar a ,deus1 ver a prezunsam de uns1 e a ignorancia de outros4 ,achei-me prezente em algumas orasoens ,latinas1 que se-recitram sobre diversos asumtos2 e nam podia ass admirar1 a afetasam1 e estilo dezigual1 que reinava em toda a orasam4 ,despois diso1 li muitas compozisoens1 feitas por-eses mesmos3 li muitas postilas de diversos leitores1 que tinham pasado com louvor1 por-aqueles bancos3 e em tudo notei o mesmo defeito4 ,e tudo isto provm1 de se-contentarem com a erudisam de quatro temas1 que lhe-mandam compor3 e de nam se-internarem na lisam dos-bons autores1 e que escrevram no-tempo da-mais pura ,latinidade4 coiza imposivel1 que um omem que tenha tomado o gosto1 verdadeira ,latinidade1 com facilidade o-perca4 ,ainda quando trata asumtos umildes1 e argumentos em que obrigado servir-se1 de expresoens barbaras1 v4g4 na ,filozofia1 ou ,teologia ,peripatetica2 ou ainda quando despreza o falar elegante2 la mostra sempre1 o conhecimento que pose daquela lingua4 ,nos-seus escritos conhecem muito bem os omens inteligentes1 o que ele podia fazer4 caiem-lhe da-pena palavras proprias4 um estilo facil e natural o carater das-suas obras4 ,mostra a experiencia o que digo3 e convem nisto os omens de alguma doutrina4 ,daqui vem1 que os que querem fazer progreso na ,latinidade1 procuram logo um autor facil e elegante1 como qualquer dos-que na minha ultima apontei2 e desorte se-familiarizam com ele1 que tomam e imitam a sua fraze1 e modo de falar4 ,quem quer falar uma lingua1 deve conversar com os omens que a-falam bem4 ora os que oje falam bem ,latim1 sam eses quatro livros1 que nos-deixou a ,antiguidade3 e com eles necesario conversar tanto1 que aprendamos o que se-pode aprender4 ,pode tambem aver perigo1 na lisam deses mesmos bons livros3 e pode suceder1 que com bons livros1 se-saiba mal ,latim3 ,digo isto1 polo que tenho observado1 em grande parte deste ,reino4 ,omens 1 que lem indiferentemente1 todos os livros antigos2 e pola vaidade de quererem saber tudo1 nam sabem nada4 ,formam um estilo dezigual1 que nam de seculo algum3 e com grande trabalho1 nam conseguem o fim que queriam4 ,neste defeito1 nam s caiem os pouco doutos2 mas chegram a cair1 omens de grande doutrina4 ,erasmo1 que foi um omem tam douto como ,v4,p4 sabe1 censurado neste ponto4 ,a grande lisam que tinha1 dos-antigos autores1 e ,padres1 impedio-lhe formar um estilo determinado4 ,contudo iso1 nam sei se achar ,v4,p4 muitos no-seu ,reino1 que escrevam como ele4 ,o certo 1 que ,erasmo nam lia os ,antigos por-vaidade1 mas por-necesidade dos-seus estudos3 mas estes de quem eu falo1 nam se-livram deste pecado4 ,outros1 furtam indiferentemente1 de todos os autores que lem2 para poderem encher as suas compozisoens3 servido-se imprudentemente1 destes livros de ,fraseologia3 sem advertirem1 que sempre -de ser capa de romendos3 e que os diversos mantimentos primeiro se-m-de digirir1 para se-converterem em uma sustancia1 que seja uniforme e simplez4 ,a outra razam que 1 para que se-posam enganar1 a diversidade de estilo1 e merecimento deses mesmos ,antigos4 ,quanto ao estilo1 certo que os querem ser ,istoricos1 faram mal em ler as ,filipicas de ,cicero1 as ,comedias de ,terencio1 os ,epigramas de ,catlo1 e outras semelhantes compozisoens3 porque nam conduzem ao seu fim2 aindaque sejam escritas1 no-seculo da-bela ,latinidade4 omesino digo das-outras proporcionadamente4 ,podem-se ler estes autores3 mas cada um deve aplicar-se ao que insigne1 na materia que ele trata4 ,se bem ouso dizer1 que ,terencio serve-se das-expresoens1 no-seu proprio significado3 que ,cezar falou melhor1 que nenhum dos-,romanos3 nem por-iso ei-de logo meter ,cezar1 e ,terencio em toda a parte4 para o conhecimento da-lingua1 todos me-podem servir3 nam asim para o exercicio particular1 que eu quero4 ,quanto ao merecimento certo1 que nem todos os ,antigos sam iguais4 antes muitos que escrevram no-seculo de ,augusto1 e em tempo de ,tiberio1 fizeram-no com tal negligencia1 que mal tem lugar1 na idade de prata da-lingua ,latina3 e sem injuria se-podem colocar1 na idade de bronze4 ,esta advertencia mais necesaria em ,portugal1 que em outros ,reinos3 porque os mestres aqui1 tem pouca noticia destas coizas4 ,nas escolas da-,latinidade1 ver ,v4,p4 traduzir livros1 de merecimento mui dezigual3 e pasar de um para outro sem eleisam1 nem advertencia1 somente para encher tempo1 e completar o ano4 ,na #c4 e #d4 em que os rapazes comesam a traduzir1 explicam pola menhan1 as ,filipicas de ,cicero c4 e de tarde1 a ,eneide1 ou ,ovidio de ,trist4 ,na #b4 e #c4 pola menhan1 ,suetonio2 de tarde ,oracio4 ,mas eu vi mais3 vi um mestre que explicava aos dicipulos1 as ,orasoens de ,cicero1 ,marcial1 e o ,thesaurus ,poeticus4 ,e que coiza boa pode sair daqui8 ,nam ensinam aos estudantes1 qual o merecimento de cada autor1 que lhe-mandam traduzir3 e como pode o estudante advinhlo8 ,alem diso1 aquilo de explicar no-mesmo tempo1 proza1 e verso1 e isto a principiantes1 nam pode menos1 que produzir monstruozidades4 ,o pobre estudante1 com a memoria cheia de tam diferentes especies1 nam pode distinguir o branco1 do-negro3 nem chegar a conhecer bem1 qual o estilo da-proza1 e qual o do-verso4 ,muito pior ainda 1 comesar por-tais livros3 porque as ,filipicas1 e ,eneide1 nam ,latim para rapazes1 mas para omens feitos4 por-estes livros devem acabar o estudo1 e nam principilo4 ,tambem o ,suetonio1 nam livro proprio da-,escola1 porque nam escreve com a pureza dos-outros da-idade de oiro4 era melhor ,livio1 ,nepote c4 que1 alem da-pureza de lingua1 sam perfeitos modelos de eloquencia4 ,outros mandam traduzir lisoens do-,breviario1 ou ,concilio de ,trento3 dizendo que sam necesarias1 para quem -de seguir a ,igreja4 ,e isto tambem uma solenisima loucura4 ,cada lisam do-,breviario de seu autor1 e de estilo diferente4 ,ainda das-que se-tiram da-,escritura1 se-deve dizer o mesmo3 umas sam oscuras1 que sam as dos-livros profeticos2 outras mais claras1 que sam as dos-istoricos3 e o ,latim delas nam bom1 porque a fraze barbara4 ,e querer1 que um estudante traduza isto1 querer1 que nam saiba ,latim4 ,tambem o ,concilio nam prprio1 para dar boa doutrina3 porque se-serve de um estilo ,forense proprio de ,roma1 que nam ,latino4 ,se o-fazem para intender estes livros1 superfluo expliclos4 ,nam omem nenhum tam decepado1 que1 se intende bem ,latim1 nam intenda as ,bulas2 aindaque nunca as-tenha lido4 ,estar o verbo vizinho ou distante1 nam muda1 ou dificulta o sentido1 a quem le todo o periodo3 e quem tem alguma pratica delas1 intende-as maravilhozamente1 aindaque seja mao ,latino1 como vi muitas vezes em ,roma4 ,o que suposto1 muito mao emprego1 obrigar o estudante a traduzir ,bulas1 ou ,constituisoens3 e principalmente a traduzilas palavra por-palavra1 como fazem estes mestres4 ,o ,ecleziastico1 nam necesario que traduza2 basta que as-intenda4 ,antes muito mal feito1 obriglos a traduzir asim3 porque o tal ,latim nam se-deve traduzir ad verbum1 mas ad sensum4 ,o que bastava que o mestre advertise1 quando quizese dar-lhe alguma noticia diso3 pois em tal cazo bastaria1 que mandse ler alguns periodos1 e explicar o sentido4 ,isto basta3 o mais perder tempo4 ,contudo iso sam poucos os que conhecem1 que com isto se-perde o tempo3 antes blazonam1 quando procuram embrulhar os rapazes1 com coizas oscuras4 ,achava-me eu em uma parte1 em que certo ,m4 de ,filozofia1 para examinar um rapaz1 mandou-lhe traduzir aquelas palavras de ,s4 ,paulo ad ,cor4 ,aemulor enim vos ,dei mulatione c4 que era o capitulo da-,ora1 que estava rezando4 ,o rapaz1 que nam era mao estudante1 traduzio literalmente3 mas como nam fazia bom sentido1 o mestre dito deu grandes rizadas1 e fez escarneo do-rapaz4 ,eu calei-me por-prudencia3 mas tive meus impetos de lhe-dizer1 ,v4,p4 ri-se de um pobre rapaz1 que nam obrigado a saber1 o sentido da-,escritura1 nem os ebraismos1 que se-acham na ,vulgata3 e eu apostarei1 que ,v4,p4 o primeiro que nam intende1 o que nisto diz ,s4 ,paulo4 ,com efeito se eu apertava os negalhos1 estava certo1 que sera mui mao interprete1 da-dita ,epistola4 ,o certo 1 que nam maior parvoice1 que mandar traduzir palavras oscuras3 e que esta pedanteria se-devia desterrar de lugares1 onde se-sabe falar4 ,alem disto1 obrigado o estudante1 a compor varios periodos1 a que chamam orasoens3 repetir uma quantidade de regras ,latinas1 e ,portuguezas3 e se o pobre rapaz nam pode responder a tudo1 em vez de lhe-aliviar o pezo1 e mostrar-lhe a estrada1 e animlo a proseguila2 dam-lhe muita palmatoada2 e obrigam-no a odiar1 todo o genero de estudos4 ,de que nace1 aquela grande ignorancia1 que se-observa nestes paizes4 ,daqui fica claro1 que com tal metodo1 pouco se-pode saber de ,latim4 lastima que os ,profesores1 nam cheguem a conhecer por-uma vez1 o ridiculo deste costume4 ,todos os primeiros estudos naturalmente dezagradam1 porque sam cansados3 e paraque avemos enfastiar mais os pobres rapazes8 ,um omem consumado nos-estudos1 quando estuda uma lingua estrangeira1 v4g4 ,grego1 ,ebraico1 ou ,caldaico1 nam pode menos que enfastiar-se1 daqueles primeiros elementos4 ,tem grande dezejo de sabla3 conhece o metodo de aprender a dita lingua3 reconhece a necesidade que tem dela1 para intender as ,escrituras ,santas3 contudo iso quando se-aplica a ela1 mil vezes deita fra os mesmos livros3 e nam-se-acha com rezolusam1 de tornar a servir-se deles4 ,falo pola experiencia propria1 e pola de alguns amigos1 que se-aplicram s linguas estrangeiras4 ,e nam acha ,v4,p4 que uma crueldade1 castigar rigorozamente um rapaz1 porque nam intende logo a lingua ,latina8 que de si mesmo dificultoza1 e ainda o-parece mais1 na confuzam comque lha-explicam4 ,isto o mesmo1 que meter um omem1 em uma caza sem luz1 e dar-lhe pancadas1 porque nam acerta com a porta4 ,v4 ,p4 est em uma ,universidade1 onde facil dezenganar-se com os seus olhos4 ,entre no-,colegio das-,artes1 corra as escolas baixas2 e ver as muitas palmatoadas1 que se-mandam dar aos pobres principiantes4 ,penetre porem com a considerasam1 o interior das-escolas3 examine se o mestre lhe-ensina1 o que deve ensinar3 se lhe-facilita o caminho1 para intendla3 se nam lhe-carrega a memoria1 com coizas desnecesariisimas3 e achar tudo o contrario4 ,o que suposto1 todo este pezo est fra1 da-esfera de um principiante4 ,ora nam lei que obrigue um omem1 a fazer mais do-que pode3 e que castigue os defeitos1 que se-nam-podem evitar4 ,nam nego1 que deve aver castigo3 mas deve ser proporcionado4 ,um estudante que impede1 que os outros estudem3 que faz rapaziadas pezadas c4 justo que seja castigado3 e1 avendo reincidencia1 que seja despedido4 ,sera bom1 que nesa sua ,universidade1 se-dese um rigorozo castigo1 ainda de morte1 aos que injustamente acometem os ,novatos2 e fazem outras insolencias4 ,a brandura comque se-tem procedido neste particular1 talvez foi cauza1 do-que ao despois se-fez1 e ainda se-faz4 ,nese particular sera eu inexoravel3 porque a paz publica1 que o ,principe promete1 aos que concorrem para tais exercicios1 pede-o asim3 e em outros ,reinos1 executam-no com todo o rigor4 ,falo somente do-castigo que se d1 por-cauza de nam acertar com os estudos4 a emulasam1 a repreensam1 e algum outro castigo deste genero faz mais1 que os que se-praticam4 necesario ter muita paciencia com os rapazes1 e ensinlos bem3 nam seguindo a opiniam daquele ,bispo de ,vizeo ,d4 ,ricardo ,rosel1 que em um exame reprovou ,,xvi4 estudantes afio1 porque pronunciram ,idolum1 com a segunda breve4 ,isto s faz1 quem nam conhece o que deve4 ,um omem pode ignorar1 a quantidade de muitas silabas1 e ser um grande ,latino4 ,todos os dias se-oferecem duvidas na quantidade delas1 aos omens doutos3 principalmente naquelas palavras1 que tem origem ,grega3 na qual lingua o ,o1 e ,e sam de duas sortes1 breves1 e longos4 ,este rigor censuravel4 deve-se praticar outro estilo4 ,acho ainda mais outro inconveniente1 para saber ,latim1 praticado nas escolas3 que 1 compor muito naquela materia1 que intendem mui pouco4 ,um pobre estudante ainda nam intende ,latim1 e ja lhe-dam varios temas1 que sam certas orasoens vulgares1 para traduzir na lingua ,latina4 ou dam a orasam ,portugueza1 com partes ,latinas2 ou uma sentensa ,latina1 para eles a-dilatarem1 e provarem4 ,mas um e outro metodo1 um erro masicho4 ,que coiza boa -de fazer um rapaz1 que ainda nam sabe ,latim8 ,dar as partes conrespondentes ao ,portuguez1 e obrigar o estudante1 a que se-sirva delas em uma orasam longa2 o mesmo que querer1 que ele siga os despropozitos do-seu mestre4 ,ainda quando o estudante acertse com tudo1 nam acertaria com os idiotismos1 isto 1 com os modos de falar1 que sam proprios da-lingua ,latina3 e falaria ,portuguez1 com palavras ,latinas4 ,pode-se permetir o dar as partes1 em uma breve orasam2 e isto a um rapaz que comesa3 mas nam se-deve obrigar outro mais adiantado1 a seguir tal metodo4 ,devia o mestre ensinar ao dicipulo1 compor bem uma orasam ,portugueza breve1 uma carta1 um comprimento1 ou coiza semelhante4 ,para isto tem o estudante1 toda a facilidade posivel1 porque o-faz em uma lingua que sabe2 e na qual o mestre pode claramente mostrar-lhe os erros4 ,quando o estudante soubse fazer isto bem1 entam lhe-aconselharia1 que a-convertse em ,latim1 deixando-lhe toda a liberdade da-compozisam4 ,emendados os erros de ,gramatica1 se os-ouvse1 emendaria os erros da-lingua3 e lhe-mostraria1 a diferensa que 1 entre estas duas linguas3 e a diversidade que aparece1 entre escrever segundo as regras de ,gramatica1 e segundo o estilo da-boa ,latinidade4 ,mas nisto procederia com advertencia4 ,primeiro1 nam procuraria que escrevesem1 senam em estilo familiar e facil4 despois1 segundo o adiantamento que tivesem1 pasaria aos argumentes ou asumtos mais dificultozos2 os quais explicaria muito bem4 ,desta sorte1 acompanhando a tradusam com a compozisam1 facilitaria muito o estudo1 e conseguiria promtamente o intento4 ,deste estilo rezultariam muitas utilidades4 ,primeiramente1 sairiam os omens da-escola1 nam s sabendo a lingua ,latina1 mas tambem a sua4 lastima1 que omens que pasram tantos anos1 nas escolas pequenas1 e grandes2 omens que estam oje ensinando a outros1 e ocupam cargos de ,letras1 e ,politica2 nam saibam escrever uma carta6 ,pois isto coiza1 que sucede todos os dias4 ,eu me lembro1 que ,v4,p4 se-queixou ja disto3 e me-dise1 que achava muitos ,religiozos1 que tinham o mesmo defeito3 e reconheceo comigo1 que a origem destes danos era1 a que aponto4 ,cometem-se mil erros de ,gramatica1 na propria lingua1 e infinitos de ,ortografia4 ,preparam-se muitos para escrever uma carta1 como para fazer um ato publico4 ,procuram palavras bem dezuzadas1 ou estrangeiras2 e verbos que nam no mundo4 ,e com isto compoem uma carta1 sumamente afetada1 e de um estilo1 que mais declamatorio1 que epistolar4 ,estes sam os que sabem mais3 e os que sabem menos1 pedem a estes1 que lhas-componham4 ,e tudo isto provm1 de nam terem uzo de compor na sua lingua3 e de nam terem quem lhe-ensine1 qual o estilo de ,carta1 qual o de ,orasam3 e nam aver uma alma cristan1 que lhe-persuada1 que a afetasam deve-se evitar1 em todos os generos de eloquencia1 mas muito principalmente1 no-estilo familiar4 ,a segunda utilidade 1 sobre a inteligencia da-lingua ,latina4 ,um rapaz que de sua cabesa escreve uma carta1 ou comprimento1 ou oferecimento ,portuguez1 com palavras proprias2 ja sabe1 o que -de dizer em ,latim3 s lhe-falta1 ter as palavras ,latinas1 para as-colocar4 ,a isto pois deve suprir o mestre4 ,suponho1 que lhe-tem ja ensinado a ,gramatica3 e tambem a traduzir de ,latim1 em ,portuguez1 para intender os termos3 e supondo estes principios1 facilmente o rapaz intender1 quais sam as palavras1 de que -de uzar3 ou ao menos ser facil ao mestre1 mostrar-lhas4 ,eu no principio seguiria esta regra4 ,comporia diante dele em ,latim1 parte da-dita carta1 ou toda3 e lhe-daria a razam do-que fazia3 explicando-lhe1 porque uzo daquele verbo1 e nam de outro3 porque uzo daquela fraze1 mais doque outra4 ,capacitando-o1 que a todas as palavras ,portuguezas1 nam pode conresponder uma ,latina3 mas necesario uzar de perifraze1 ou rodeio de palavras1 para as-poder explicar4 ,este o defeito que ns achamos1 no-metodo de dar as partes3 porque nam conrespondendo elas sempre umas a outras1 por-forsa -de sair uma embrulhada4 ,sabido tudo isto1 darlhea a incumbencia1 de escrever a dita carta em ,latim1 sem lhe-mostrar1 a que eu tinha composto3 e pedirlheia a razam1 de tudo o que tinha feito4 ,alem disto1 com este metodo aprende-se o que significa1 escrever ,latim com propriedade4 ,um mestre que se-contenta1 com a ,arte do-,p4,alvares1 e com a noticia do-,dicionario do-,p4,bento ,pereira1 nam sabe distinguir entre muitos sinonimos1 qual o proprio1 para o que quer explicar4 ,figuro um exemplo4 ,tenho necesidade de uzar1 do-,verbo ,pedir3 para isto ocorrem logo mil ,verbos3 ,postulo1 ,posco1 ,peto1 ,flagito1 ,efflagito1 ,oro1 ,rogo1 ,precor1 ,obsecro1 e alguns outros4 ,quem sabe pouco1 intende que sam rigorozos sinonimos2 e nam tem dificuldade1 de servir-de indiferentemente de todos3 mas quem sabe mais1 conhece que nem todos o-sam3 porem que alguns daqueles ,verbos1 significam mais1 ou menos4 v4g4 ,postulo significa pedir aquilo1 que se-me-deve3 postulare jure4 ,flagito significa pedir com instancia1 e injuriozamente4 ,efflagito pedir com grande instancia2 e acrecenta sobre ,flagito1 alguma coiza4 ,o mesmo dos-outros com sua proporsam4 ,do-que fica claro1 que querendo eu explicar1 que peso com instancia2 direi muito mal3 ,vehementer postulo4 cum clamore magna instantia obsecro4 basta que diga1 ,flagito4 ,o mesmo digo1 em diversas outras materias4 ,isto nam ensina o ,alvares1 nem o ,pereira3 mas isto deve ensinar o mestre1 mostrando ao estudante1 quais sam os vocabulos proprios1 para explicar o que quer4 ,desta sorte acostuma-se o rapaz desde o principio1 a servir-se de termos proprios1 e frazes naturais ,lingua3 ,e com isto insensivelmente toma o gosto da-boa ,latinidade1 e da-sua mesma lingua3 e aprende as leis da-,tradusam1 mui necesarias a quem -de ler1 e servir-se de autores estrangeiros4 ,dirme ,v4,p4 que eu peso muito3 e que isto nam facil1 praticlo nas escolas3 porque nem todos os mestres1 tem a erudisam que aponto2 e nem todos os estudantes1 sam capazes desa doutrina3 ,e eu respondo1 que nam coiza mais facil de se-executar4 ,ponha-me ,v4 ,p4 nas escolas outra ,arte3 um bom ,calepino dos-modernos1 reduzidos grandeza do-,dicionario do-,p4 ,pereira2 que tudo se-remedeia4 ,estas duas coizas sam sumamente necesarias4 ,a ,arte comua1 ensina muita coiza m3 e a ,prozodia1 tem muito erro4 ,nam distingue as idades dos-vocabulos3 mas com uma simplez estrelinha quer1 que ns suspeitemos mal1 de tudo o que dezagradou ao corretor3 o qual s vezes erra1 como ouvi queixar os mesmos ,jezuitas4 ,alem diso1 desterra da-,latinidade muitos nomes1 que sam ,latinos2 e introduz outros1 puramente barbaros4 ,nam explica a forsa das-vozes3 nem mostra com exemplos1 os significados proprios1 e figurados de cada palavra3 alem de muitas outras coizas1 que se-podem notar4 ,e asim sera necesario1 compor um ,dicionario pequeno para os rapazes2 ou servir-se de algum estrangeiro4 v4g4 o de ,danet1 ou ainda melhor1 o que ultimamente se-compoz em ,turin1 por-ordem d',el-,rei de ,sardanha1 para uzo das-escolas3 que sam dois tomos in #do4 ,italiano e ,latim1 ,latim e ,italiano3 e traduzir as palavras ,italianas em bom ,portuguez4 ,establecido isto1 conheso eu entre os doutisimos ,jezuitas1 mosos de toda a erudisam1 e capacidade1 proprios para executarem dignamente1 este emprego4 ,comque1 tire ,v4,p4 das-escolas1 os que sabem pouco2 e em seu lugar ponha estoutros3 prescreva-lhe o metodo apontado3 fasa com que o executem sem epikeas1 7como fez ultimamente o dito ,duque de ,saboia aos seus suditos1 determinando-lhe o metodo1 de ensinar ,latim1 e ,leis c47 e ver1 com que facilidade se-reformam as escolas4 ,todos os estudantes1 asim como sam capazes de sofrerem1 aquele mao metodo1 com mais razam receberm outro1 que seja mais claro e facil1 e seguilom com mais boa vontade4 ,o dano desta era consiste em quererem1 que um estudante1 que sabe pouco1 e a quem nam ensinam a saber mais1 mostre que sabe muito2 e1 para o-mostrar1 componha muito4 ,eu nam peso tanto4 ,suponho que tem ja1 um bom ano de ,gramatica1 e que tem pasado parte do segundo ano1 traduzindo de ,latim em ,portuguez3 onde nam me parece que peso muito1 se quero que no-resto do-ano1 se-empreguem em compor ,latim1 polo metodo que asima digo4 ,este tal estudante nam noviso1 mas adiantado2 e pode com fruto aplicar-se a este estudo4 ,falando-lhe em ,portuguez1 e compondo polo metodo que aponto2 muda-se de sistema4 ,nas escolas comuas sabe-se pouco1 quando os-obrigam a compor3 v4g4 na quarta1 e terceira1 em que comesam a traduzir de ,latim1 em ,portuguez2 nesa mesma clase1 e no-mesmo tempo comesam a fazer tema4 ,e isto nam pode produzir bom efeito4 ,mas neste sistema1 quando se-compoem1 ja o negocio est adiantado3 e vai-se adiantando mais1 com a dita compozisam4 ,acha-se tambem outro inconveniente bem grande1 nestas escolas1 sobre isto da-compozisam2 que 1 obrigar os estudantes a fazerem1 ou indireitarem versos rotos3 e castiglos rigorozamente1 se os-nam-fazem4 desorteque ou sejam1 ou nam aptos para a ,poezia1 todos m-de fazer1 o mesmo numero de versos4 ,mostra pouco intender de versos1 quem pratca isto3 porque nam facil1 obrigar o entuziasmo a que venha1 quando quer o mestre4 ,mas o que mais para rir 1 que fasam isto omens1 que prezumem muito de ser ,poetas1 e matam gente com as suas poezias4 ,falando com alguns mestres neste particular1 responderam-me que o-faziam1 para que os estudantes tivesem alguma erudisam1 dos-,poetas ,latinos4 ,proguntei-lhe1 que necesidade avia desa noticia3 responderam-me3 ,que era necesaria1 para a inteligencia da-lingua ,latina4 ,poisque1 continuei eu1 quando ,v4,v4,p4,p4 intendesem bem ,cicero1 ,cezar1 ,cornelio ,nepote1 ,livio1 ,paterculo c41 e pudesem expliclos com facilidade1 e escrever como eles2 tinham medo de nam saber ,latim2 ou sera necesario1 recorrer a eses ,poetas8 ,aqui nam souberam que responder mais1 doque recorrer ao costume1 das-,universidades da-,europa4 ,mas eu1 que nam queria deixar fugir a preza1 pedi-lhe1 que me-provasem1 que nesas ,universidades1 emque se-sabe ensinar1 7avemos de concordar1 que algumas que seguem1 o estilo de ,portugal1 aindaque mais moderado7 explicavam os ,poetas1 s para intender a lingua3 ou que obrigavam os estudantes1 a que fizesem versos como eles4 ,aqui ficram calados4 ,e1 na verdade1 era dificil coiza1 que quem nunca sara de ,portugal1 ou nam tinha examinado com grande atensam1 os estudos estrangeiros1 discorrese fundadamente sobre eles4 ,mas a verdade 1 que nam coiza mais contraria boa razam1 que esta pratica de fazer versos4 ,os omens nam tem capacidade igual2 e nem todos sam capazes de tudo3 antes s vezes acham-se mosos tam rudes1 que dificultozamente podem intender o ,latim4 ,e como m-de estes compor versos elegantes8 ,asentamos1 que1 para a inteligencia da-lingua ,latina1 loucura1 obrigar a fazer versos4 ,o mais que podem fazer1 e que eu nam reprovo1 1 quando o estudante sabe bem a lingua ,latina1 mandar-lhe traduzir1 alguns dos-,poetas antigos melhores1 como ,lucrecio1 ,virgilio1 ,ovidio1 ,oracio1 ,catlo1 e algum outro3 mas raro2 porque nisto se-compreende o melhor4 ,e isto para mostrar1 as frazes particulares dos-,poetas1 e tambem o bom gosto da-lingua4 sendo certo que alguns destes escrevram1 com purisima ,latinidade1 como ,virgilio nas ,georgicas1 e ,eglogas3 ,oracio nas ,epistolas1 e ,satiras3 ,ovidio nas ,epistolas s ,damas ilustres4 ,quanto ao ,verso1 querer perder tempo1 obrigar os omens a fazlos3 e sera melhor1 empregar aquele tempo1 em coiza mais util4 ,ouveram omens doutisimos1 e os- prezentemente1 que nam sabiam fazer versos4 ,no-tempo de ,cicero avia omens1 que faziam versos1 com grande facilidade1 e insignes na dita profisam3 e contudoiso estavam mui longe1 do-merecimento de ,cicero4 ,este grande omem nam ignorava1 o como se-faziam os versos3 e com efeito alguns fez1 cujos fragmentos ainda oje existem3 mas o seu talento1 e a sua maior propensam era1 para a ,retorica4 ,nam que eu julgue1 que os versos de ,cicero sejam maos2 como muitos ignorantes1 e que querem falar do-que nam intendem1 se-persuadem4 ,os versos de ,cicero1 principalmente os ,fenomenos de ,arato1 sam tam elegantes e tam belos1 como os de ,lucrecio3 nem eu acho diversidade sensivel entre uns1 e outros3 e igualmente admiro ambos1 principalmente olhando para a materia1 sobre que compuzeram4 ,pois se todos admiram em ,lucrecio1 explicar com tanta naturalidade1 coizas tam dificultozas1 conservando a elegancia1 e o espirito de ,poeta2 o mesmo louvor1 e polas mesmas razoens1 compete a ,cicero3 o qual com a frequencia de ler1 e emendar ,lucrecio1 tinha aquistado a mesma facilidade1 e estilo4 ,para conhecer o que nisto podia ,cicero1 basta lelo nas partes1 em que nam violentado1 pola esterilidade da-materia4 ,nam sei se se-podem achar na ,antiguidade1 versos mais armoniozos1 que os que ainda oje lemos1 do-livro segundo do-seu ,consulado4 ,este bocado somente mostra bem1 na minha estimasam1 o que ,cicero podia4 ,nem obsta1 que ,marcial1 ,juvenal1 ,quintiliano1 zombasem de um certo verso de ,cicero3 isto1 como nota bem o doutisimo ,turnebo#ba1 nada prova4 ,o que nam agradava a estes1 agradava no-tempo de ,augusto3 e muitos omens grandes1 7como advertio um grande critico daqueles tempos7 estimavam mais os ,antigos1 que outros bem nomiados#bb4 ,se em muitas partes1 ,cicero nam se-asemelha a ,virgilio1 nem por-iso perde nada do-seu merecimento4 ,nem menos semelhante ,oracio nas suas ,satiras1 e ,epistolas3 nem em tudo ,lucrecio2 e com tudo sam famozos ,poetas3 e a naturalidade com que se-explicam1 e acomodam o verso exametro1 a tudo o que querem1 mais estimada1 entre os criticos de bom gosto1 doque a elevasam de ,virgilio4 ,o estilo daquele tempo pedia1 grande naturalidade nas-compozisoens4 ,e nam falta quem censure ,virgilio1 em ser tam elevado e artificiozo nos-versos3 no-que alguma coiza se-desvia de ,omero4 ,contudo ninguem nega1 que1 se na ,eneide1 e ,georgica observou bem o decoro2 e sustentou a dignidade do-argumento2 nas ,eglogas pecou muito1 porque nam observa a simplicidade natural no-estilo pastoril3 mas procura que falem os pastores1 com toda a civilidade1 e arrogancia de cidadoens3 o que nam verosimel4 ,mas1 tornando a ,cicero1 ficaria prejudicada a ,republica de tam grande talento1 se1 pola ,poezia1 deixse a ,oratoria4 ,conheceo aquele grande omem o seu talento3 cultivou-o3 e saio aquele oraculo1 que entam venerou ,roma1 e oje admira o mundo4 ,esta1 uma grande lisam para os ,modernos1 consultar o talento2 e nunca violentar a natureza4 ,onde neste particular1 deve-se consultar1 a inclinasam dos-rapazes3 e avendo-a1 explicar-lhe brevemente1 as diferentes sortes de compozisoens metricas3 nam os-ocupando senam em asumtos brevisimos3 deixando-lhe toda a liberdade no-compor3 mas emendando-os1 e dando-lhe distintamente1 a razam da-emenda4 ,at aqui tenho falado a ,v4,p4 em alguns abuzos1 das-escolas deste ,reino1 que impedem saber a lingua ,latina4 ,agora falarei nos-requizitos1 para a inteligencia da-dita lingua3 a falta dos-quais1 nam se-deve contar1 entre os menores abuzos3 e tambem apontarei o modo1 comque se-deve regular1 o estudo do ,latim2 e a eleisam de livros1 para o-conseguir com brevidade4 ,parecer um paradoxo1 se eu diser a ,v4,p4 que1 ainda observando tudo quanto asima digo1 nam se-pode saber ,latim1 7nam digo com toda a perfeisam2 porque uma lingua morta1 nam se-chega a saber bem3 mas sablo no-melhor modo posivel7 sem alguma noticia da-,geografia1 e ,cronologia1 e das-,antiguidades1 em que entram os ,costumes1 a ,fabula c4 e contudo1 nam coiza mais verdadeira doque esta4 ,eu nam quero sair do-livro mais uzual1 que nas escolas se explica1 que ,quinto ,curcio4 ,nele ocorrem todos os momentos nomes1 de ,gentes1 de ,povos1 ,regioens1 ,cidades c4 fala-se de guerras entre ,nasoens e ,nasoens4 ,e que conceito -de formar do-escritor1 aquele que o-explica1 se ele nam sabe1 se diz bem1 ou mal8 porque1 ignorando a ,geografia1 nam sabe1 nem chega a compreender1 em que parte do-mundo1 estejam as tais ,gentes1 se vizinhas1 ou distantes4 ,como -de o leitor intender1 as conquistas de ,alexandre1 se ele nam sabe por-onde foi1 que ,nasoens venceo1 que dificuldades superou8 ,alem diso1 sucede muitas vezes1 que ese escritor1 que o estudante le1 se-enganse nos-lugares3 e isto entam erro sobre erro1 que o leitor nam poder decifrar4 ,nam isto cazo metafizico1 mas engano bem comum em muitos escritores4 ,q4 ,curcio enganou-se muitas vezes1 por-ignorancia da ,geografia3 ,plinio1 e alguns outros3 como admiravelmente mostra o douto ,joz ,escaligero1 nos-,prolegomenos de ,manilio4 ,o mesmo ,manilio1 ,virgilio1 ,lucano1 ,floro errram algumas vezes na ,geografia1 e podem cauzar o mesmo erro no-juizo1 de quem for ignorante dela4 ,dirme ,v4 ,p4 que este conhecimento1 parece ser mais necesario1 para nam se-enganar na leitura dos-autores1 doque para intender a lingua3 para a ,critica1 e nam para a ,latinidade4 ,confeso1 que para a ,critica1 de indispensavel necesidade3 mas o que digo 1 que nam pode o estudante1 intender com facilidade um autor1 que trata a istoria de um conquistador1 sem a noticia dos-pazes de que fala3 e nem menos o-poder intender com gosto4 ,polo contrario1 se informado1 aindaque superficialmente1 desta noticia1 percebe maravilhozamente o fato3 facilita-se a inteligencia do-autor3 e por-este meio a da-dita lingua4 ,um moso1 que ignora totalmente a ,geografia1 toma limpamente um nome de ,cidade1 polo de um ,reino1 e polo de uma ,pesoa3 e outros destes enganos1 que vam acompanhados1 da-ignorancia da-lingua4 ,quem nam souber v4g4 que ,napoles1 nome de uma ,cidade1 e de um ,reino juntamente2 nam s confundir os termos1 mas tambem as coizas1 que a ambas se-aplicam4 ,e isto nam somente dano da-,istoria1 mas tambem impedimento1 para a inteligencia da-lingua ,latina4 ,acham-se alem diso muitas ,cidades do-mesmo nome1 em ,regioens bem distantes4 v4 g4 a antiga ,geografia mostra-nos na ,azia muitas1 com o nome de ,alexandria1 de ,seleucia1 de ,ecbatana1 e bem longe umas de outras4 ,o que quem nam sabe1 persuade-se1 que se-fala somente de uma3 e nam intende a materia de que se-fala4 ,e destes exemplos1 de que abunda muito a ,istoria antiga1 se-colhe a necesidade da ,geografia1 ainda para a lingua4 ,sera coiza ridicula1 que um omem lese ,q4 ,curcio1 para intender as palavras1 e nam para o sentido da-,istoria3 ou que1 sem a inteligencia desta1 prezumise que poderia alcansar1 a propriedade das-palavras4 ,muito mais sendo certo1 que com o socorro da-,istoria1 se-intendem muitas coizas1 que sem ela imposivel intender2 e a inteligencia do-contexto abre a porta1 para se-intenderem muitos nomes4 bem vulgar aquele lugar de ,lucano1#bc em que1 falando dos-,arabios1 que sairam do-seu paz1 diz ,umbras mirati nemorum non ire sinistras 3 o que1 sem ,geografia1 imposivel intender4 ,virgilio diz l em certa parte#bd3 ,gens inimica mihi ,tyrrhenum navigat quor 3 ,como se-pode saber sem ,geografia1 que coiza aquele mar ,tirreno8 quem a-ignora1 pode-o tomar polo mar ,baltico1 ou ,etiopico1 ou ,pacifico4 ,de que vimos a concluir1 que1 alem do-sentido istorico1 a mesma propriedade das-palavras ,latinas1 nam se-alcansa em varias ocazioens1 sem ,geografia4 ,parece-me pois1 que uma breve noticia da-,geografia1 deve ser o preludio1 da-lisam dos-autores4 ,a observasam das-principais ,cidades1 de que fala o autor1 que se--de ler3 das-viagens1 que fizeram os conquistadores3 os fins e limites dos-seus imperios3 isto deve primeiro observar-se4 ,mas porque esta noticia sera de-minuta1 se a-nam-unisem com a noticia1 da-,geografia de toda a terra2 deve-se aprender esta noticia brevemente em um ,mapamundo3 ajuntando-lhe a noticia da-,esfera ,armilar3 das-divizoens do-,ceo1 e da-,terra c4 ,o que com grande facilidade se-pode fazer3 pois1 como diz um omem douto1 este estudo nam pede mais1 doque olhos1 e alguma memoria4 ,na ,esfera ,armilar conhece-se1 a dispozisam do-,ceo1 respetivamente ,terra3 no-,globo1 a dos-,reinos3 e em uma carta particular1 a da-,provincia1 ou ,reino de que se-trata4 ,advertindo1 que quando se-falar em alguma ,cidade1 deve-se notar1 de quais delas se-mudram os nomes antigos1 em alguns modernos4 ,acham-se cartas1 que apontam os antigos nomes1 das-,cidades da-,grecia1 e ,italia3 e estas sam1 as que principalmente se-deverm notar1 para intender os escritores antigos1 que falram destas ,regioens4 ,sophianus descreveo bem1 a antiga ,grecia3 e ,cluverius1 a antiga ,italia4 ,e isto precizo saber1 comparando os nomes daquelas antigas ,cidades1 com os das-modernas2 e procurando nas cartas modernas1 os sitios das-antigas ,cidades1 muitas das-quais ja nam existem4 ,celario publicou um belisimo ,compendio da-antiga ,geografia1 em #b4 volumes de #d4o ,tambem compuzeram ,introdusoens ,latinas ,cluverio1 principalmente para a antiga2 e ,luitz4 ,quem quizese maiores noticias deveria ler1 o ,petrus ,bertius,theatrum ,geographi ,veteris4 fol4 c4 e este mesmo autor compoz3 ,veteris ,geographi ,tabul4 fol4 c4 ,este autor1 que escreveo nos-principios do-seculo pasado1 famozo4 ,oje muitos modernos que escrevram bem1 em ,francez1 ou ,italiano4 ,duplessis1 e ,buffier escrevram bons ,compendios2 que temos oje nas ditas duas linguas4 ,jacobo ,ode fez tambem um belo compendio ,latino3 e mais moderno4 ,os ,senhores ,sanson1 e de l',isle compuzeram cartas ,geograficas1 nam s de todas as partes do-mundo1 mas especialmente1 das-antigas divizoens do-,imperio ,grego1 e ,romano c4 ,e isto o que deve fazer o mestre1 e ensinlo quando necesario3 porque desta sorte1 acostumando os rapazes a buscar na carta1 que deve ter na escola1 a dita ,cidade2 imprime-se a ,geografia na memoria1 como quem brinca4 ,em segundo lugar entra logo a ,cronologia1 que nam menos necesaria1 para intender os autores1 e fugir os anacronismos1 ou confuzam de tempos4 ,nam necesario nestes principios entrar1 nas disputas que 1 sobre os principios dos-,reinos c4 isto negocio1 que pede grande estudo1 e doutrina1 e se-rezerva para outra idade4 ,basta apegar-se ao calculo mais recebido e comum1 que poem a vinda de ,cristo no-ano #djjj4 da-criasam do-,mundo3 a que chamam o calculo de ,usserius por-ser este autor1 o que o explicou melhor4 ,aqui pois necesario ler1 em um breve compendio1 a serie dos-tempos1 desde o principio do-,mundo1 at agora3 notando os maiores sucesos1 em que ano acontecram3 v4g4 ,diluvio de ,no1 ,vocasam de ,abram1 ,saida dos-,ebreos do-,egito1 ,destruisam do-primeiro ,templo de ,jeruzalem1 ,vinda de ,cristo1 ,paz da-,igreja c4 ,especialmente deve notar o que emporta1 para a inteligencia dos-autores1 que quer explicar3 e sempre que mudar de autor1 deve notar1 em que tempo escreveo1 e de que tempo escreveo4 para o que nam servem pouco1 os ,dicionarios ,istoricos de ,hofman1 e ,moreri c4 ,quanto aos ,compendios de ,istoria tantos1 que superfluo1 que eu aponte nenhum4 ,neste principio deve-se buscar1 o mais breve4 ,por-iso me-parece1 que o ,petavio mui longo4 o ,celario bom1 mas tambem nam curto4 ,turselino1 e alguns outros escrevem bem2 mas em ,latim4 o ,bossuet parece-me melhor para o principio2 e acha-se em ,italiano1 ou ,francez4 ,tambem o ,valemont1 no-primeiro tomo1 traz uma carta ,cronologica geral1 que pode bastar para o intento4 ,e como este volume est traduzido em ,portuguez1 parece-me1 que por-ele deve ler o estudante3 e o mestre pode servir-se1 de quaisquer dos-apontados asima1 que sam dos-melhores4 ,em quanto nam aparece alguma istoria ,portugueza1 proporcionada aos rapazes1 que estudam nas escolas3 aos quais basta dizer1 o que somente precizo1 sem tantos rodeios3 o que me dizem est atualmente fazendo1 um omem douto meu conhecido4 superfluo que eu mostre1 a confuzam que nace1 no juizo dos-pobres principiantes1 por-falta de alguma noticia de ,cronologia3 e quanto podem errar1 se derem credito a tudo1 o que dizem os antigos escritores4 ,eles errram em muitas partes1 por-nam terem noticia dos-tempos3 e para ns nam cairmos nos-mesmos erros1 que julgam todos os omens doutos1 que sam necesarios1 estes requizitos4 ,um omem que ouve falar em ,alexandre ,macedonio1 e nam sabe1 em que tempo ele floreceo2 confundilo com muita facilidade1 com ,alexandre ,severo ,imperador dos-,romanos4 ,filipe ,macedonio1 e ,filipe ,romano nam se-distinguem polo nome1 mas polo diverso tempo em que florecram4 os dois ,romanos tambem foram ,reis de ,macedonia3 e a diversidade est1 em que foram juntamente1 ,imperadores ,romanos1 e florecram alguns seculos despois dos-primeiros4 ,esta confuzam se-aumenta1 quando se-fala de omens do-mesmo nome1 da-mesma ,nasam1 e talvez do-mesmo tempo4 ,ouveram alguns ,marcos ,catoens1 ,marcos ,antonios1 ,marcos ,brutos1 ,marcos ,valerios1 ,marcos ,ciceros1 ,apios ,claudios c4 todos ,romanos1 e alguns contemporaneos4 ,e quem nam distingue isto1 nam pode formar conceito das-coizas4 ,isto suposto1 alguma tintura de ,cronologia necesaria1 para intender a ,istoria1 e1 sem a inteligencia desta1 nam se-pode intender o ,latim1 dos-que escrevram nesta lingua4 ,para facilitar este estudo grande segredo1 ter em caza uma carta ,cronologica1 de que se-tem feito algumas ,latinas1 em duas folhas grandes de papel4 ,acham-se umas tiradas das-obras do-,p4 ,petavio1 ,latinas3 estas1 com a diferensa de poucos anos antes de ,cristo1 uniformam-se com as de ,usserius4 ,o ,delfini fez umas em ,roma1 segundo a ,cronologia do-,usserius1 em #d folhas grandes1 que eu tenho1 e sam boas4 ,lanceloti fez outras em ,pariz1 segundo a ,vulgata1 quero dizer1 segundo o ,usserius3 e sam otimas1 principalmente despois de ,cristo4 ,o ,p4 ,pedro de ,s4,catarina ,religiozo ,bernardo1 fez outras em ,fransa1 seguindo o ,usserius3 sam boas1 aindaque alguma coiza extensas4 ,o ,musanzio ,jezuita ,italiano fez umas1 em quatro folhas grandes1 se me-nam-engano1 porque aver anos que as-vi2 em que segue a ,cronologia do-,labb ,jezuita1 que poem a vinda de ,cristo no-ano #djec4 do-,mundo3 mas nam sam ms4 ,outro ,jezuita1 que o ,p4 ,cassini1 acrecentou-as por-ordem de ,benedito ,,xiii4 ,o ,sanson1 e ,perizonio c4 compendiram tambem taboas boas4 ,as do-,senhor ,langloit sam otimas1 mas cuido que nam sam para rapazes2 porque unem os trez calculos ,grego1 ,ebraico1 ,samaritano3 o que carrega muito a memoria4 ,o ponto est que o estudante abrse1 uma ,cronologia certa3 e nam mude de cartas todos os dias2 mas meta umas na memoria4 ,toda a diversidade est1 antes da-vinda de ,cristo3 porque despois dele todos concordam1 e rarisima a disensam4 ,se algum curiozo traduzise1 umas destas melhores taboas1 em ,portuguez1 para uzo da-,mocidade1 emendando-as em alguma parte1 e acomodando-as necesidade do-,reino2 faria grande serviso ,republica4 ,eu comecei tempos este trabalho1 e tinha ideiado uma carta mui facil3 mas impedido com outras ocupasoens1 nam pude acabla4 se ,v4 ,p4 tiver gosto1 porlheei a ultima mam4 ,feito isto1 deve-se ler um compendio de ,istoria4 ,neste principio basta o ,valemont1 que j se-acha em ,portuguez3 e o mestre no-emtanto pode ler um compendio da-,istoria universal3 v4 g4 o que fez o ,cluverio em #d4o que bom3 e principalmente o que se-impremio em #afgb4 que mais correto3 ,e preparar-se para saber explicar1 estas noticias aos dicipulos1 quando falam na ,cronologia4 ,mas disto falaremos em outra ocaziam4 ,quanto pois s antiguidades ,gregas1 e ,romanas1 ou aos ,uzos1 e ,costumes destas ,nasoens2 sam indispensaveis para perceber1 os autores antigos4 ,um destes escritores nam escrevia para ns1 mas para os seus3 aos quais eram notorios os costumes1 nam s publicos1 mas tambem privados da-sua ,nasam4 onde aludindo aos ditos1 nam se-cansa em os-explicar4 ,entam intendiam-no todos3 mas oje nam4 e necesario para o-intender-mos1 que procuremos esta noticia naqueles1 que as-recolhram4 ,um ,istorico que na prezente era1 contando as virtudes de um servo de ,deus1 disse1 que celebrava ,misa todos os dias1 tinha ,extazis c4 como falava com gente1 que o-intendia1 nam tinha necesidade1 de se-explicar4 ,se pudese suceder1 que daqui a mil anos nam ouvese ,misa1 ou aquele livro caise em maons de outra ,nasam1 que nam tivese noticia de ,misa2 certo1 que nam intenderia1 o que se-dizia2 ainda que intendese a lingua3 e sera necesario1 que primeiro intendse1 que coiza era ,misa1 e outros destes nomes2 para dizer1 que intendia bem a istoria1 em que se-achavam estas expresoens4 ,os antigos escritores em quazi todas as paginas1 aludem aos seus costumes civis1 e ecleziasticos4 ,falam de ,flamines1 ,augures1 ,paterpatratos1 ,sacrificios1 ,apoteozes1 ,vestais c4 ,encontram-se mil nomes pertencentes guerra1 ,tribunus ,militum1 ,tribunus ,plebis1 ,centurio1 ,quinquagenarius1 ,decanus1 ,triarius1 ,primipilus c4 como tambem de machinas1 e aparelhos belicos de muitas especies4 ,a cada paso se-tropesa com o nome1 de ,consul1 ,proconsul1 ,prtor1 ,proprtor1 ,qustor1 ,legatus1 ,edilis c4 cada emprego dos-quais tinha seu particular exercicio2 sem a noticia do-qual1 nam posivel intender1 a forsa da-expresam que o-significa4 ,quem nam sabe1 que os ,consules1 que prezidiam aquele ano no-,senado1 eram os mesmos aquem se-distribuam as ,provincias1 onde se-fazia a guerra2 e a quem se-entregava o governo do-exercito2 nam poder intender1 como uma dignidade1 que parece civil1 se-introduza nas-materias militares4 ,quem nam sabe1 que no-tempo dos-,consules1 ouveram ,tribunos ,militares1 os quais governram a ,republica em lugar dos-,consules1 com imperio consular2 e continuram muitos anos com suas interrusoens2 intender1 que ,tribunus ,militaris nam era magistrado2 mas valia o mesmo1 que ,tribunus ,militum3 que conrespondia aos ,coroneis dos-nosos ,regimentos4 ,quem nam tem lido1 que no-mesmo ano se-elegiam muitos ,consules1 e ,proconsules1 ou muitos ,tribunos ,militares1 para abrangerem a todas as necesidades da-,republica2 justamente se-persuadir1 que1 em se-falando de ,consul1 discorre-se damesma e unica pesoa4 ,quem nam souber1 que os ,pretores mandavam-se para as provincias pequenas1 com imperio consular2 intender1 que se-fala somente do-,pretor ,urbano1 ou ,peregrino1 que administravam a justisa em ,roma4 ,finalmente s os ignorantes1 que podem negar esta necesidade3 os doutos todos a-reconhecem4 ,ns nam temos ,istoricos ,latinos que escrevesem1 os seus costumes patrios3 sam os ,gregos de quem recebemos1 o que oje sabemos3 porque como os ,gregos escreviam1 para os seus ,gregos1 aos quais nam eram notos1 os estilos ,romanos2 tinham cuidado de lhe-advertir1 tudo o que era necesario1 para a inteligencia da-,istoria4 ,polibio deixou-nos uma particular descrisam1 da-,diciplina militar1 dos-,costumes domesticos1 das-,leis publicas dos-,romanos4 ,dionizio de ,halicarnasso1 dos-,sacrificios1 ,magistrados1 e toda a politica da-,religiam1 e do-,estado4 ,plutarco tambem nos-ensina muita coiza4 ,mas como nem todos sam capazes1 de lerem estes autores1 por-iso ser bom recorrer1 aos ,compendios4 ,joam ,rossino fez uma boa colesam das-,antiguidades ,romanas1 em ,latim3 que oje se-acha acrecentada por-,dempsterus4 ,estima-se pola brevidade1 a ,republica ,romana do-,cantelio3 mas eu intendo que melhor o ,neuport,rituum qui olim apud ,romanos c4 ,quem quizer maiores noticias pode-as ler1 no-,corpus ,antiquitatum ,romanarum do-,grevio1 em #ab4 tomos fol4 que compreende todos1 os que escrevram nesta materia3 e onde pode consultar-se alguma dificuldade1 que ocorrer4 ,tambem bom1 ter alguma noticia das-,religioens diversas dos-,antigos3 e para isto pode servir1 ,alexander ,sardi de ,moribus1 ,ritibus ,gentium4 #ab4o ou ,joannes ,bohemus ,aubanus de eodem #af4o ou ,van-,dalen de ,oraculis ,ethnicorum4 #d4o o mesmo de ,idolatria #d4o obra moderna3 ou o ,barclai ,icon ,animorum2 para os costumes das-,nasoens3 ou o ,p4,pomei ,pantheon ,mythicum4 ,nam aponto outros livros1 porque sam em linguas vulgares estrangeiras3 aindaque estes1 talvez sejam os melhores1 porque expoem tudo com clareza1 e brevidade4 ,o mesmo digo da-,fabula1 a que aludem todos os momentos1 os ,antigos4 necesario saber1 esta mitologia dos-,antigos1 para os-intender2 e buscar autores que a-expliquem1 sem a qual noticia1 falarm muito1 e nam saberm nada4 ,dos-,modernos melhor1 o ,jovet ,istoria de todas as ,religioens do-,mundo #c4 tomos de #d que se-acha em ,francez1 ou ,italiano4 ,esta noticia necesaria1 senam aos rapazes1 que se-divertem com outras coizas1 ao menos aos mestres1 que explicam os ditos autores3 e1 se a-nam-tiverem1 por-forsa m-de dizer muito des-propozito3 e mostrarm ensinar1 o que nam chegram a intender4 ,ja sei1 que chegando ,v4,p4 a este emportante ponto1 me-proguntar1 qual mestre conheso eu1 que tenha toda esta erudisam3 ou se me-persuado1 que um rapaz1 que saie das-escolas1 e que nam tem no-corpo mais1 que quatro anos de ,filozofia1 asim ou asado1 quando entra a ensinar nas escolas baixas2 seja capaz desta doutrina tam necesaria1 para fazer bem a sua obrigasam8 ,a isto respondo1 que quanto capacidade1 ninguem lha-pode negar3 pois este pezo nam maior1 que as suas forsas4 ,bastaria que o-obrigasem1 e ensinasem a estudar isto que digo1 mostrando-lhe a necesidade que de o-intender1 para poder fazer a sua obrigasam2 que ele faria tudo1 o que era necesario4 ,e se acazo introduzisem1 este metodo nas escolas1 e o-protegese quem pode fazlo1 continuarsea1 damesma sorte que se-conserva1 o metodo ordinario4 ,reconheso1 que sera alguma coiza dificultozo1 persuadir a muitos omens mosos1 que1 aindaque ensinem o ,latim1 nam s tem pouca noticia dele1 mas nem menos tem noticia1 do-que necesario1 para o-saber3 o que sera facil provar-lhe1 fazendo-lhe uma exata lista dos-requizitos2 e proguntando-lhe1 se os-posuiam4 ,mas emfim tudo se-vence1 tratando-se com pesoas de juizo1 piedade1 e docilidade3 e as razoens que apontamos1 poderiam obrar muito1 se tivesem a paciencia1 de as-quererem ler1 e intender4 ,suponho pois que o estudante1 tem alguma noticia1 do-que asima apontamos1 ou que polo menos a-tem o mestre1 que seja capaz de lhe-explicar em poucas palavras2 e apontar-lhe os livros1 onde se-podem beber estas noticias3 7as quais podem-se ir aprendendo no-mesmo tempo1 que se-explicam os autores1 explicando uma ora cada menham1 alguma parte delas7 ,apontarei agora o modo1 com que se-deve regular1 no-estudo da-,latinidade4 ,em primeiro lugar1 deve somente procurar de saber1 a propriedade dos-vocabulos3 para o que deve buscar autores1 que falasem mui naturalmente1 e com estilo familiar4 ,para isto nam melhores autores que ,plauto1 e ,terencio3 porque ainda-que em alguns lugares sejam1 ou paresam oscuros2 falam porem com estilo familiar1 e com fraze naturalisima1 e longe de ornamentos3 que toda a dificuldade na inteligencia da-lingua4 ,certamente ,terencio um autor1 que nam tem preso1 pola pureza da-lingua3 e tambem certo1 que estes ,comicos parecem mais ,prozadores1 que ,poetas4 ,onde nam poso ass rir-me1 quando ouso a alguns mestres responder1 que ,terencio nam para rapazes1 porque oscuro4 ,os que asim falam1 nam leram ,terencio1 nem sabem ,latim4 ,proguntra-lhe eu1 se mais oscuro ,terencio1 que ,oracio3 ou se prezumem eles1 que este1 e ,virgilio sejam mais claros1 e proprios para rapazes1 doque um ,comico4 ,se bem considerasem estes1 quanto necesario para dizer1 que intendem ,oracio1 e a ,eneide2 certamente julgariam diferentemente4 ,mas com estes omens nam falamos4 ,o certo 1 que ,cicero julgou1#be que a poezia ,comica1 nam se-distinguia da-,proza1 senam em ser escrita como verso3 mas nam na dificuldade4 e tambem ninguem duvda1 que a ,proza mais facil1 que qualquer ,poema4 ,em todo o cazo devem-se ler estes autores1 com os ,comentarios3 e o mestre deve suprir com a explicasam2 nam traduzindo muito2 mas ese pouco com tal clareza1 que nam fique dificuldade alguma ao rapaz4 ,quem nam souber explicar bem ,terencio1 pode contentar-se com ,fedro4 ,este autor tratou argumentos simplezes1 que sam certas fabulas1 com uma disam pura e natural3 e1 aindaque ,poeta1 parece ,prozador2 e para principiantes famozo4 estimada a edisam1 que o douto ,gronovio nos-deu1 de ,plauto4 ,sobre ,terencio muitos tem escrito1 mas nem todos bem4 ,com razam se-dise1 que ,farnabio1 e-,minelio1 afetando brevidade1 deixram mil coizas emportantes4 ,madame le ,fevre publicou a mais bela tradusam1 e notas sobre ,terencio1 que at o seu tempo tinha aparecido3 mas em ,francez1 lingua que nem todos intendem3 como tambem ,monsieur le ,fevre seu ,pai1 tinha ilustrado eruditamente ,fedro4 ,no-estado prezente servirmea da-edisam de qualquer deles1 ad usum ,delphini1 c4 que parece ser a mais toleravel1 das-modernas4 ,estes primeiros autores nam se-devem ler correndo1 como muitos fazem2 mas devem-se ler1 e reler atentisimamente4 v4g4 lendo ,fedro deve o mestre1 nam deixar de explicar coiza alguma1 que seja necesaria1 para intender a lingua4 ,onde deve notar e explicar1 todas as dificuldades de ,sintaxe3 porque aindaque na ,gramatica se-expliquem1 somente lendo os autores se-intendem bem4 ,e ter cuidado1 de reduzir a construisam embarasada e figurada1 ao modo de falar natural3 explicando a ,figura1 em que se-funda4 ,despois1 notar a propriedade das-palavras4 ,e quando encontrar algumas1 que paresam sinonimas1 deve ensinar1 se verdadeiramente o-sam1 ou que coiza acrecentam4 ,em terceiro lugar deve ensinar-lhe1 a pronunciar bem o ,latim3 que o que comumente nam sabem em ,portugal3 pois ainda os mesmos mestres1 pronunciam as palavras corrutamente4 v4 g4 ,em ,omnis nam proferem o m3 os tt finais pronunciam como dd3 o m final pronunciam como n3 e entre e1 e a sempre pronunciam superfluamente um i4 v4 g4 ,meam1 ,deam c4 os ss finais como x4 ,o que sem duvida grande defeito da-pronuncia3 deixando por-agora outros erros1 que se-podem notar4 ,alem diso oferecendo-se-lhe algum termo1 do-,latim antigo1 deve ensinar1 o modo antigo de pronunciar4 v4g4 ,maxumus1 ,militiai c4 ,estas noticias dam muita erudisam1 a quem estuda o ,latim3 e como muitos nam fazem cazo delas1 por-iso ignoram1 o que ,latim1 e todos os momentos encontram1 dificuldades novas4 ,isto que digo de ,fedro1 deve-se intender de qualquer outro autor3 ,mas isto o que muitos nam intendem3 antes querem ler muito1 intendendo poco2 doque saber bem a lingua1 com um s livro4 ,de que vem1 que a ,mocidade nam aprende nada1 com o seu metodo3 pasam-se os anos nas escolas baixas1 que se-deviam empregar1 em coizas mais utis3 pois na verdade quem nam reflete1 como deve1 no-que le1 tanto emporta que leia ,cicero1 como os atos de ,maria ,parda4 ,o que emporta muito no-principio 1 nam dar aos rapazes livros1 que tenham periodos longos3 mas breves1 e com fraze natural4 ,por-esta razam alguns ,italianos doutos1 e despois deles os ,francezes1 aconselham1 que no-principio devem-se fugir1 as istorias difuzas1 os ,oradores1 e coizas semelhantes3 especialmente os ,poetas ,eroicos c4 e que melhor1 tirar de ,cicero1 e outros autores elegantes e claros2 tirar1 digo1 alguns paragrafos melhores3 indireitar as frazes1 e transpozisoens dos-,verbos3 e polas na ordem natural4 ,sendo breves1 e elegantes1 podem os rapazes intend-las1 e tirar da grande utilidade4 ,a experiencia mostrou-me1 que diziam bem3 pois vendo eu1 que alguns rapazes nam intendiam1 os discursos compridos1 e as figuras da-orasam2 feita esta experiencia1 intendram tudo facilmente4 ,mas isto que a estes aconselho1 acha-se feito ja por-omens doutos3 os quais escolhram entre os autores1 as coizas mais facis1 e melhores1 e reduziram-nas a capitulos diferentes3 v4 g4 s quatro virtudes principais3 para que os rapazes1 nam s aprendam a lingua1 mas tambem o moral das-asoens4 ,a maior parte sam de ,cicero3 mas tambem se-acham de outros autores4 ,sam trez livrinhos pequeninos1 impresos em ,pariz3 e tambem se imprimram em ,italia na ,cidade de ,pezaro1 em #agdj4 ,estes livros valem um mundo1 e tem aproveitado a infinitas pesoas3 e quem ajudse com eles os seus dicipulos1 conheceria a verdade do-que dizemos4 ,e por-esta mesma razam digo1 que a leitura dos-,comicos1 infinitamente util aos rapazes3 v4 g4 a de ,terencio4 todos os periodos sam breves3 rarisima vez se-acha transpozisam mui oscura3 e os modos de falar1 sam tirados do-estilo comum3 motivo polo qual1 sem trabalho se-intendem4 ,plauto tambem sera bom3 mas como tem bastantes palavras antigas1 ou escritas no-antigo modo1 nam tam proprio1 para principiantes4 ,oracio nam o-aconselho3 nem outros semelhantes1 que pedem maior erudisam4 ,em lugar de ,oracio nestes principios1 aconselharia ,catlo1 que nam s purisimo ,latinista1 mas mui natural1 e com infinitas grasas4 ,devem-se separar1 os poemas impudicos1 e explicar os outros1 com todo o cuidado1 e diligencia4 ,mas1 supondo que o mestre1 nam tem os ditos livros1 direi o que deve fazer1 despois da-leitura de ,fedro1 e ,terencio4 ,dever pois explicar em outra clase1 as cartas de ,cicero1 a que chamam ,familiares1 com os comentrios de ,manucio1 ou ad usum ,delphini1 que sam otimas3 nam todas juntas1 mas saltiadas4 ,onde dever preferir1 as que escreve a sua molher ,terencia1 e a seu liberto ,tiro3 como tambem as de recemendasam4 ,estas sam as mais naturais1 breves1 e claras3 desorteque nam enfadam o estudante3 porque sam compostas naquele estilo familiar1 que todos intendem4 ,vi nam muito tempo uma pequena colesam1 destas mais facis epistolas de ,cicero1 cuido que impresas em ,padova2 que eram otimas1 para estes principios4 ,despois1 na mesma clase pode ler1 os ,istoricos mais facis3 como sam ,caio ,cezar1 ,cornelio ,nepote1 ,veleio ,paterculo4 ,estes trez escrevram no-seculo da-mais pura ,latinidade1 e sam incomparaveis3 principalmente os dois primeiros1 que sam sumamente naturais1 e claros4 ,mas estes autores nam se-devem ler seguidos3 sim interrompidos1 e tirando deles os lugares mais singulares4 ,se o estudante1 tiver feito aproveitamento no-,terencio1 e tiver ja lido alguns extratos1 reduzidos ordem natural2 basta explicar-lhe estes autores1 sem mudar a ordem das-palavras3 paraque pouco a pouco das-coizas facis1 v intrando nas dificultozas4 ,e ter o mestre a advertencia1 de nam obrigar sempre os rapazes1 a que traduzam de repente3 mas em dias alternados4 ,e comumente deve ordenar-lhe1 que escrevam em caza a sua tradusam3 e quando vierem escola1 far que dem a razam1 de tudo o que traduzram4 ,este modo de ensinar1 aproveita muito1 e imprime as coizas na memoria4 polo contrario o metodo comum1 de dizer de cr1 falar como papagaio1 e exposto a mil enganos4 ,onde dever o mestre cuidar muito1 em que escrevam as suas tradusoens2 pois com o tempo serve isto1 para ensinar a traduzir bem3 que o que muitos nam sabem4 ,quando o estudante chega a este estado1 pode-lhe ordenar1 que componha alguma coiza3 mas sempre asumtos breves3 pola maior parte tirados das-obras1 que traduz3 o que pode fazer trez vezes na semana4 ,eu comecaria polas cartas3 que um modo de compor facil4 ,uma ou duas vezes darlhea as partes3 tendo cuidado de escrever primeiro1 uma carta ,portugueza pequena1 e com ordem natural4 ,ou traduzir uma pequena de ,cicero1 que sera o mais acertado3 obrigando-os a que compuzesem outra semelhante1 sem porem se-servir em tudo1 das-mesmas palavras1 e fraze4 ,despois1 daria outra carta facil1 sem partes3 obrigando-o a que as-buscse3 e ensinando-lhe o modo4 ,em #c4o lugar daria uma carta mais elegante1 sem a ordem natural3 porque se acazo se-acostumam1 a escrever o ,latim conrespondente ao ,vulgar1 nunca saberm fazer outra coiza4 ,despois diso1 pasaria a outro asumto mais dificultozo1 e sempre breve4 v4g4 a discrisam1 ou carater1 de uma pesoa determinada3 no-que singular ,velleio ,paterculo4 ou obrigalosa a referir1 algum pequeno suceso3 dando-lhe primeiro o ,portuguez2 e deixando-lhe a incumbencia1 de pr o ,latim4 ,isto quanto pode fazer um rapaz1 no-dito tempo3 e se o-chega a fazer1 nam faz pouco4 ,com o tempo1 e quando for lendo outros autores mais dificultozos1 que lhe-podem dar outros asumtos3 porque o rapaz1 em quanto estiver na ,latinidade1 deve fazer duas coizas1 compor1 e traduzir4 ,deve porem o mestre fugir1 de lhe-dar pensamentos e sentensas oscuras1 por-tema2 porque as-nam-intendem3 e neste tempo nada mais se-procura1 que ensinar-lhe que coiza 1 pura ,latinidade4 ,quando o mestre ler as compozisoens1 deve emendlas1 e dar-lhe a razam1 de tudo o que faz4 ,ao principio somente cuidar1 na propriedade3 com o tempo ensinar-lhe tambem1 o que elegancia1 e particular idiotismo da-lingua ,latina3 mostrando-lhe como se-deve traduzir1 tanto de ,latim em ,portuguez1 como de ,portuguez em ,latim4 ,sera bom que o mestre algumas vezes1 traduzise ele mesmo1 algum paso de ,cicero c4 e o-propuzese ao estudante por-tema3 nam lhe-deixando ver o original1 senam despois de feita a compozisam3 paraque asim reconhecese o moso a diversidade1 entre o que tinha feito1 e devia fazer4 ,mas isto somente se-pode fazer1 nas clases altas1 e quando ja o rapaz tem noticia bastante1 da-,latinidade3 porque desta sorte1 que se-aprende1 qual o estilo dos-bons autores4 ,pode1 despois dos-ditos autores1 explicar os ,istoricos mais dificultozos3 que sam ,tito ,livio1 ,salustio1 ou tambem ,quinto ,curcio4 ,o qual ,curcio1 aindaque se-suponha ter escrito1 no-reinado de ,vespaziano1 que era a idade de prata2 ou1 como diz ,scioppio1 o principio da-idade de bronze da-lingua ,latina2 contudo1 escrito com a mais pura ,latinidade do-seculo de ,augusto3 e o estilo belisimo4 ,livio mais copiozo1 e magestozo1 e digno da-grandeza do-,imperio ,romano4 ,quanto a ,salustio1 convem todos1 que as suas frequentes ,ellipsis1 e o demaziado laconismo1 fazem-no duro1 e oscuro3 mas escritor de sumo pezo1 e singular eloquencia4 ,nam me-parece porem1 proprio para rapazes1 polas muitas e mui fortes metaforas1 e bastante oscuridade4 ,onde o meu parecer sera1 que dos-dois primeiros1 se-tirasem alguns lugares escolhidos1 para se-explicarem aos principiantes4 ,na mesma ultima clase podem-se explicar1 alguns extratos das-orasoens de ,cicero1 principalmente das-mais facis1 que sam3 ,pro ,archia ,poeta3 ,pro lege ,manilia3 ,pro ,marcello3 e as ,catilinarias4 ,mas obrigar um rapaz1 a que as-v traduzindo seguidamente1 e inteiramente1 como costumam muitos1 intender mal o negocio4 ,nenhum omem pode ler com gosto1 uma inteira orasam de ,cicero1 se nam um grande ,latino1 e ,retorico3 e orasoens de ,cicero tam longas1 v4g4 as ,verrinas1 que ainda um omem douto1 nam as-le1 sem se-cansar4 ,ler uma pagina oje1 e no-seguinte dia outra2 ainda pior3 porque se-perde o sentido1 e nam se-intende o que se-explica3 de que nace o enfado1 nam s nos-rapazes1 mas nos-grandes4 ,onde o melhor 1 procurar alguns pasos breves1 e escolhidos3 uma descrisam3 um inteiro argumento3 um inteiro periodo do-exordio4 ,o mesmo digo1 daqueles que explicam1 o ,somnium ,scipionis1 o livro de ,senectute1 ,amicitia1 c4 quem faz isto1 nam intende o que faz4 ,os ditos livros nam se-podem intender1 sem saber a istoria3 da-antiga ,filozofia3 o que nam deve1 nem pode um rapaz4 ,eu1 tendo lido algumas vezes ,cicero inteiramente1 s o-cheguei a intender1 7se que o-intendo7 quando li em ,laercio1 e ,plutarco1 a istoria das-setas dos-,filozofos4 ,os que introduziram o estilo comum1 e que achamos no-livro a que chamam1 ,selecta1 certamente ou nam refletram1 ou nam intendiam isto3 porque dam aos rapazes1 livros muito diferentes1 e que s sam para omens adiantados4 ,salustio nam para rapazes4 ,ouvram dizer1 que os livros pequenos de ,cicero1 eram perfeitisimos no-seu genero2 e sem mais reflexam os-traduzem4 ,mas polo mesmo principio deviam explicar1 os livros de ,oratore ad ,q4 ,fratrem3 ,orator ad ,m4 ,brutum3 e os trez de ,officiis3 que sam a melhor coiza que ele fez1 neste genero4 ,acho porem outras razoens1 que se-devem atender1 quando se-fala com principiantes4 ,quando o rapaz traduz estes autores mais dificultozos1 com a mesma ordem que se-acha neles1 entam precizo1 que escreva a sua tradusam4 ,a razam 1 porque estes autores uzam de muitas transpozisoens1 frazes1 e figuras1 as quais nem sempre se-podem traduzir literalmente3 e asim querer que um rapaz1 de repente ache o verbo1 ou perifraze propria1 loucura3 e vale o mesmo que ignorar1 que coiza seja tradusam4 ,os mestres ao seu bofete1 muitas vezes nam acham1 a palavra propria1 para a boa tradusam3 como mostra bem o famozo ,monsieur ,huet1 no-seu livrode ,claris ,interpretibus3 em que1 aponta os defeitos1 em que caram os omens grandes3 ,e se isto sucede aos doutos2 como posivel1 que o-fasa derepente um principiante8 ,o que suposto1 deve o mestre dar-lhe tempo1 para escrever em caza a sua tradusam3 ou ao menos na escola4 ,e despois ensinar-lhe1 como se-deve traduzir bem de ,latim em ,portuguez3 porque intendido isto bem1 conhece-se como se-devem converter as mesmas frazes ,portuguezas1 em outras ,latinas3 ao que chamamos1 boa ,latinidade4 ,por-esta razam digo1 que o que fez aquele livro1 a que chamam1 ,pai ,velho2 que poem a tradusam de ,virgilio1 ou o que quer que 1 palavra por-palavra2 merecia ser asoitado polas ruas publicas3 e tambem os mestres1 que se-servem dele3 e o livro1 queimado em prasa publica4 ,nam coiza mais prejudicial para a ,mocidade1 que semelhantes livros3 pois mostrando ensinar a traduzir1 sam a cauza1 de que se-nam-saiba4 ,o pior 1 que os mestres praticam o mesmo1 que diz o livro1 nas suas tradusoens4 ,cujo metodo tal1 que ou os rapazes estejam dez1 ou vinte anos nas escolas1 nunca intenderm ,latim3 como na-verdade sucede3 pois traduzindo todos ,virgilio1 nenhum o-intende4 ,achei-me em certa parte1 emque um celebre mestre traduzia1 o principio do-quarto livro da-,eneida3 ,at ,regina gravi jamdudum saucia cur c4 palavra por-palavra3 e tam pago de si mesmo1 como se fose1 o melhor interprete do-mundo4 ,dise eu a um-discipulo1 que escrevese a tradusam do-seu mestre1 e despois lha-mostrse1 proguntando-lhe1 se era boa aquela tradusam4 ,asim o fez3 e o mestre1 cuidando que era coiza do-dicipulo1 foi o primeiro que dise1 que nam prestava para nada4 ,pois esta1 replicou o discipulo1 a que ,v4,p4 ontem dise4 ,envergonhado o mestre1 quiz saber1 quem lhe-dera o conselho1 e respondeo3 ,que uma coiza era1 compor na banca1 e outra1 explicar na escola4 ,que parvoice6 esta propozisam vale o mesmo que dizer3 ,que na banca se-deve compor bem3 e na escola explicar mal4 ,a falar a verdade quem explica a rapazes o dito livro1 ou coiza semelhante1 sabe mui pouco3 porque pola maior parte aquelas palavras1 nam se-devem tomar no-proprio sentido1 mas metaforicamente3 e expliclas segundo o sentido do-,poeta4 ,e por-este motivo torno a dizer1 que os ,poetas1 principalmente ,eroicos1 nam sam para rapazes1 que estudam ,latim4 ,confeso a ,v4,p4 que ainda nam ouvi um mestre1 que na escola disese3 ,esta palavra1 nam se-pode traduzir bem3 necesario explicla asim4 mas todos seguem o comum estilo1 que muito mao4 ,onde a minha regra geral esta3 ,quando ouso um mestre1 que1 explicando livros eloquentes1 traduz asim3 ,petrus ,pedro3 ,amat1 ama3 ,joannem1 a ,joam3 sem mais outro exame asento1 que nam sabe ,latim4 ,deve o mestre praticar outro estilo1 se quer que aproveite aos estudantes3 e o melhor 1 o que aponto4 ,isto basta por-agora1 sobre a tradusam4 ,quando digo1 que se-devem ler estes livros1 nam quero dizer1 que se-leiam todos3 mas um1 ou outro dos-que aponto2 que sam os melhores1 e mais proporcionados ao noso cazo4 ,mas tambem certo1 que1 lendo-os como digo1 quazi se-podem ler todos4 ,o principal ponto est1 em seguir a ordem que insinuo3 porque sem ela1 nacer confuzam e impedimento1 como todos os dias observamos no-metodo vulgar3 sendo certo1 que primeiro se-devem ler1 os que falram a lingua naturalmente1 doque os que abundam muito de metaforas1 e mil outros ornamentos dificultozos4 ,mas nem menos isto basta1 se o mestre nam explicar o que deve4 ,onde o ponto de toda a consideram consiste1 no-modo da-explicasam4 ,quando pois o estudante estiver adiantado1 deve o mestre1 alem das-coizas que asima apontei1 explicar outras4 v4g4 a sintaxe dificultoza3 a forsa das-palavras3 o modo de pronunciar antigo3 e notar outras coizas1 que se-encontrarem4 ,porque os rapazes das-escolas maiores devem saber1 nam s o que ,latim puro1 mas tambem as outras particularidades1 que constituem a elegancia4 ,acham-se autores1 que se-servem de palavras ,latinas1 e contudo nam tem aquela particular grasa1 a que chamam os inteligentes1 boa ,latinidade4 ,consiste esta s vezes1 em uma fraze inteira3 tambem em um diminutivo1 ou frequentativo c4 coizas que dam infinita grasa ao estilo ,latino2 e frequentemente se-acham1 nos-melhores autores ,latinos1 como ,terencio1 ,cicero c4 ,onde1 este deve ser o cuidado do-mestre3 mostrlas quando ocorrem3 e notar a particular grasa que tem1 naquele lugar4 ,deve tambem notar o modo1 com que os bons autores comesam1 ou acabam o discurso1 ou os unem entre si1 quando compoem uma orasam inteira4 ,esta uniam consiste s vezes1 em uma conjunsam3 s vezes1 em outra particula4 ,e este o particular estilo da-boa ,latinidade3 que necesariamente se-deve ensinar aos rapazes1 paraque o-executem1 quando compoem4 ,alem disto1 quando encontrar alguma expresam oscura1 ou porque fundada em uma fabula1 ou coiza semelhante1 deve explicla4 ,desta sorte se-intenderm os autores1 e se-poder tirar proveito da-sua leitura4 ,e isto o que um mestre douto faz1 com muito gosto1 porque conhece a utilidade1 que daqui rezulta3 e s entam pode repreender com justisa os rapazes1 quando da-sua parte faz tudo o que deve1 para os-ensinar4 ,mas antes de concluir isto1 quero dizer alguma coiza1 sobre as edisoens deses mesmos autores1 que tambem noticia util4 ,em todo o cazo devem-se procurar1 as melhores edisoens destas obras1 as mais corretas1 e com boas notas4 ,todos os livros comentados ad usum ,delphini1 aindaque uns sejam melhores que outros1 comumente1 e principalmente para o noso cazo1 sam bons4 mas devem ser da-edisam de ,pariz1 ou de ,olanda3 porque as de ,italia modernas1 nam prestam para nada4 ,emporta muito ter o texto correto1 para se-nam-enganar1 neste particular4 ,os ,olandezes sam famozos4 ,as edisoens de ,grevio1 e ,gronovio1 e outros omens doutos1 aindaque nam tenham notas1 7mas quazi todas as-tem7 sam corretisimas4 a edisam de ,cicero por-,verburgio1 cum notis variorum1 em ,olanda exatisima4 ,em ,inglaterra tambem fizeram algumas boas3 e a imprensa de ,inglaterra1 e ,pariz mais negra1 que a de ,olanda3 e por-iso agrada mais4 ,isto que digo das-edisoens1 se-intenda1 nam s dos-,prozadores1 mas dos-,poetas4 ,o que porem encomendo muito ao estudante 1 que1 nestes principios1 se quer saber ,latim1 leia poucos livros3 mas eses que escolher1 leia-os tantas vezes1 e com tanta atensam1 como se ouvesem de ser eles1 o seu unico estudo4 na segunda vez achar menores dificuldades3 e asim nas outras4 ,isto basta1 para ser um grande ,latino4 ,nem aconselharei a rapaz algum1 que leia os ,poetas4 ,para saber ,latim1 escuzado1 e serve de impedimento3 na ,retorica melhor que se-leiam3 mas melhor quando sam grandes4 ,porem por-nam deixar de dar metodo1 na leitura dos-autores1 direi brevemente o modo3 e servir1 para os que se-quizerem aplicar totalmente a isto4 ,digo pois1 que os que quizerem aplicar-se leitura dos-,poetas1 podem fazlo1 despois de ter feito estas preparasoens3 procurando somente1 os mais estimados polos doutos4 ,para intender estes necesario1 ler algum tratado1 que explique a ,mitologia dos ,antigos3 e que nos-de uma noticia breve das-fabulas1 que eles todos os momentos aludem4 ,isto posto1 deve-se ler ,ovidio nas ,metamorfozes1 e ,fastos1 em que explica toda a ,mitologia3 despois as ,eroidas1 que sam as suas melhores obras1 e as mais facis4 as outras podem-se rezervar para outro tempo4 ,despos1 ler ,virgilio todo atentisimamente3 ao qual deve seguir ,oracio1 nas suas ,odes2 melhor direi1 todo1 porque um autor inimitavel4 ,querem muitos1 que com este se-leia1 ,gracio ,falisco1 ,olimpio1 e ,nemesiano1 ,poetas ,bucolicos3 aindaque na verdade sejam muito inferiores1 a ,oracio4 ,e finalmente1 ,estacio1 e ,lucano4 ,isto basta para ter1 uma grande noticia de ,poetas3 principalmente lendo-se1 com a devida atensam4 ,e quem tiver bem estudado os ditos1 pode1 sem mais mestre1 ler qualquer dos-outros1 que se-oferecer3 mas apontarei alguns4 ,quem pois quizer ler amores1 veja ,ovidio1 de ,arte amandi1 ,catlo1 ,tiblo1 ,propercio3 que sam todos no-seu genero famozos4 ,os melhores satiricos sam1 despois de ,oracio1 que o mestre2 ,juvenal1 e ,persio4 ,marcial um autor1 que entre mil coizas insulsas1 tem algumas boas4 agradam mais aos omens inteligentes de ,poezia1 e ,latinidade os ,epigramas de ,catlo4 ,quanto a ,lucrecio1 e ,manilio1 sam juntamente ,filozofos1 e ,poetas3 e o primeiro sempre teve1 e ainda conserva1 muitos admiradores2 e um puro ,latinista4 ,nisto se compreende1 o melhor da-,antiguidade4 ,sobre as edifoens pouco que dizer4 ,todos estes autores foram comentados1 para uzo do-,delfim de ,fransa1 por-ordem de ,luiz ,,xiv4 ,estas edisoens sam melhores que as antecedentes3 e as concordancias que se-fizeram1 de cada um destes autores1 valem infinito1 para a inteligencia dos-vocabulos da-lingua3 pois mostram os diferentes uzos1 e a forsa das-expresoens4 ,alem das-,delfinas1 outras edisoens anteriores1 que tem seu merecimento4 ,por-pouco que um omem se-familiarize com os livros1 e consulte os ,bibliotecarios impresos1 e trate os omens que sam verdadeiramente doutos2 conseguir todas as noticias necesarias1 para se-regular na eleisam dos-livros1 e edisoens4 ,mas quem quizer ler estes autores1 advirto-lhe1 que os-nam-leia seguidos1 sim interrompidos3 pois nem tudo neles igualmente bom4 ,onde1 devem-se colher as coizas melhores3 porque esta sorte de leitura agrada3 uma longa leitura enfastia1 e s serve para um omem1 que nam fasa outra coiza4 ,nam aconselho1 que se-expliquem ,poetas nestas escolas3 mas que aja uma ou duas separadas1 em que somente se-trate esta materia4 ,e ja che falamos de livros1 necesarios para a inteligencia do-,latim1 deve tambem o estudante saber1 de quais se-deve servir1 para compor c4 ,nisto muito abuzo2 porque comumente alguns aconselham livros1 que nam prestam4 ,o ,cardial ,adriano de ,sermone ,latino2 ,huberto ,gifanio1 nas suas ,observasoens1 ,tomaz ,linacer1 sam autores famozos1 para ensinar o modo1 de escrever bem3 principalmente o ultimo4 ,enrique ,estevam1 e o ,vossio1 escrevram bem sobre as palavras1 que nam sam ,latinas1 ou que o-parecem4 ,o ,ducange fez um belo ,dicionario1 de ,infima ,latinitate3 que oje se-acha mui acrecentado1 polos ,beneditinos de ,s4 ,mauro1 e cuido que sam1 alguns seis tomos de folha4 ,o ,dicionario ,etimologico de ,vossio1 pode dar grande e fundada noticia1 da-,latinidade4 ,nizolio1 e ,carlos ,estevam1 compoz cadaum seu ,dicionario1 para as vozes que se-acham em ,cicero3 mas o ultimo melhor1 que o primeiro4 ,para ter noticia de toda a ,latinidade1 e ver o uzo dos-vocabulos1 necesario consultar1 o ,tezoiro da-,lingua ,latina1 de ,roberto ,estevam4 #d4 tom4 para os rapazes1 pode servir o ,calepino de ,facciolati1 que mais breve4 ,para ver as diferensas das-palavras1 utilisimo ,anzonio ,popma1 e o ,p4 ,vavassor ,jezuita1 e tambem o ,borrichio4 ,para saber o uzo1 e forsa das-,particulas da-,latinidade1 famozo o ,stevvechio1 e despois dele o ,p4 ,turselino1 da-edisam do-,facciolati4 ,os mestres podem ler o ,tomasio1 e ,schvvartio1 que sam amplisimos4 ,as ,fraseologias nam as-aconselho a ninguem3 mas das-melhores1 a de ,manucio1 que compendiou as de ,terencio1 e ,tullio3 e melhor que este1 o ,pareo1 que acrecentou as de ,plauto3 e fez mais outras obras utis1 para a ,latinidade4 ,acham-se mais alguns autores1 como o ,schorus1 ,cellarius c4 que escrevram nestas materias3 mas estes que apontamos1 sam os melhores4 ,e estas noticias bastam ao principiante3 as outras aprender com o tempo4 ,tenho dito o meu parecer1 sobre o modo facil de aprender1 a boa ,latinidade4 ,mas antes que acabe1 direi a ,v4,p41 que para conseguir este fim1 e saber compor com facilidade1 conduz muito1 ter a memoria cheia de muitas especies4 ,sem ela nada vale a aplicasam3 vistoque a nosa ciencia nada mais 1 que a simplez memoria1 do-que temos estudado4 ,ninguem duvda1 que a memoria com o exercicio se-aperfeisoa1 principalmente nos-rapazes3 e que todo o trabalho1 que nisto se-poem na mocidade1 serve muito1 para quem -de seguir os estudos4 ,mas a dificuldade est1 em saber cultivar a memoria4 ,quem obriga os rapazes1 a aprender muito verso1 e muita arenga2 faz-lhe mal1 cuidando fazer-lhe bem4 ,eu comparo a memoria1 cheia de semelhantes ideias1 a uma livraria grande1 cujos livros nam estam nas estantes1 mas amontoados no-meio1 e polos cantos3 quem nela procura um livro determinado1 nam o-encontra3 mas ofrecem-se-lhe cem mil1 que nada fazem ao cazo4 ,damesma sorte a memoria mal regulada3 quando lhe-pedem uma ideia1 ofrece tantas1 e tam fra do-propozito2 que o retrato da-confuzam3 de que nace1 que nunca se-aprendem bem1 as outras ,ciencias4 ,isto suposto1 deve cuidar o mestre1 em exercitar a memoria dos-principiantes1 em algumas determinadas materias4 ,primeiro1 acostumlos a dizerem em breves palavras a lisam1 que m-de explicar4 ,despois1 explicar aos ditos1 alguns pasos seletos de autores1 principalmente ,poetas3 v4g4 alguma das-fabulas de ,fedro1 ou ,ovidio3 mas curtas1 e sempre agradaveis2 pois s asim entram4 ,nestas1 os rapazes devem dizer primeiro1 o que contem3 despois1 poco a pouco ir repetindo1 todas as palavras3 com o tempo pode-se aumentar1 o numero dos-versos4 ,e este exercicio pode-se fazer dois1 ou trez dias da-semana4 ,quando o rapaz tem algum exercicio2 entam tem lugar1 servir-se de metodo1 nas coizas que decora4 ,onde tera cuidado de lhe-ensinar1 algumas descrisoens1 algumas exortasoens1 ou-breves orasoens c4 mas primeiro explicar-lhas bem3 pois sem iso querer1 que pronunciem como papagaios4 ,nisto nam devem molestar os rapazes1 com pancadas3 mas animlos com premios1 a que decorem bem algumas coizas3 remunerando ou louvando1 os-que o-fazem melhor3 sempre coizas utis1 e que posam servir com o tempo4 ,mas deve cuidar muito o mestre1 de nam permetir aos rapazes1 a leitura destes livros de ,fraseologia1 antes banilos1 como coiza mui prejudicial4 ,sam cpas de romendos1 cadaum de sua cor1 que nam podem fazer coiza boa4 cauzam preguisa aos estudantes3 e arruinam o bom gosto da-,latinidade4 ,devem-se escolher as descrisoens c4 nos-mesmos livros que estudam3 e mandar-lhe aprender as frazes1 nos-mesmos autores que traduzem4 ,o mais madrasaria1 e ignorancia4 ,tenho ainda outra reflexam que fazer3 esta1 sobre o falar ,latim nas escolas4 ,nisto dois vicios3 alguns falam sempre a sua lingua3 de que vem1 que saiem das-escolas1 sem saber dizer1 um comprimento ,latino3 e este o defeito1 que reina em ,portugal4 ,outros1 que pola maior parte sam ,polacos1 ,ungaros1 ,alemaens1 obrigam a falar sempre ,latim3 ainda antes de intenderem bem ,latim4 ,tambem isto um grande defeito3 pois se os que sabemos bem ,latim1 nam podemos falar com dezembaraso2 que far um rapaz1 que ainda o-nam-sabe6 ,esta a razam1 por-que vemos muitos destes ,estrangeiros1 7e eu vi tambem molheres7 que falam ,latim corrente4 mas que ,latim8 um ,latim tal1 que melhor nam intendlo4 ,para falar ,latim depresa1 servem-se de frazes barbaras1 e termos vulgares3 e enchem a cabesa com aquilo1 em modo tal1 que em nenhum tempo podem deixar1 o dito estilo4 ,nam sei que grasa tem cansar-se1 para escrever ,latim bem1 e cansar-se tambem1 para falar ,latim mal3 nem menos intendo1 que necesidade aja1 de falar semelhante ,latim4 ,quem -de fazer jornadas1 por-paizes ,estrangeiros1 se sabe bem ,latim1 nunca tem dificuldade em se-explicar1 se acazo tem algum uzo4 que o-fale mais ou menos depresa1 iso nada emporta4 ,nem menos aprovo1 aquela afetasam de alguns ,portuguezes1 que1 querendo falar ,latim com algum ,estrangeiro1 estam meia ora a considerar1 um periodo ,ciceroniano3 e desprezam as vozes vulgares4 ,este tambem outro defeito consideravel4 ,se os que falam ,portuguez afetado1 nam se-podem suportar2 que faram os que falam com afetasam1 o ,latim8 ,o ,latim das-conversasoens deve ser1 o mais natural de todos4 o ponto est ter palavras puras3 a sintaxe delas deve ser natural1 e clara4 ,v4,p4 nam ver afetasoens em ,terencio1 ou ,plauto1 ou ,fedro1 porque falavam com estilo familiar4 ,a lingua ,latina tem isto de bom1 que se-caza com a elevasam1 e naturalidade4 ,onde1 devemos saber aplicar o estilo1 materia2 para conseguir o fim1 de falar com muita naturalidade1 e nam falar mal4 ,isto supposto1 parece-me que deve aver nas escolas1 algum exercicio de ,latim3 mas requerem-se algumas cautelas4 ,primeiro1 nam se-deve falar ,latim1 senam na ultima escola da-,latinidade1 ou da-,retorica3 quando ja os rapazes1 intendem bem o ,latim4 ,em segundo lugar1 nam devem falar ,latim sempre1 mas em dias determinados4 ,primeiro1 podem ensinar-lhe a dizer1 alguns comprimentos de uma1 e outra parte3 despois1 pode-se introduzir algum ,dialogo1 sobre a materia que se-estuda3 em que de uma parte1 um rapaz progunte alguma coiza3 da-outra1 responda outro1 sempre em ,latim4 ,mas primeiro deve o mestre explicar1 como isto se-deve fazer3 e ser ele o primeiro1 a dar exemplo4 ,e nam deve obrigar todos1 a que falem no-mesmo dia3 mas comesar polos melhores3 despois por-turno os outros1 em dias determinados3 avizando-os primeiro1 para que venham preparados4 ,desorteque cada estudante ousa falar muitas vezes1 os outros3 e asim v aprendendo1 para quando lhe-chegar a sua vez4 ,pode o mestre falar a miudo1 algumas coizas ,latinas1 com algum dos-estudantes1 que forem mais capazes1 ainda fra dos-dias asinados3 tendo cuidado1 de falar bem2 e ensinar-lhe sempre1 o como se-deve falar4 ,desta sorte pode ajudar muito1 os estudantes3 principalmente se souber excitar entre eles1 a emulasam1 louvando muito os que o-fazem bem1 e remunerando-os4 ,este o verdadeiro metodo1 de ensinar a falar ,latim4 ,comesando desta sorte1 mais facilmente o falarm1 nas escolas da-,filozofia3 e deste modo aquistarm aquela facilidade1 que necesaria1 a quem -de seguir as letras4 ,isto o que me-ocorre dizer1 sobre o estudo da-lingua ,latina3 poderia acrecentar muita coiza2 mas estas bastam1 para o que se-quer4 ,prouvera a ,deus1 que estas se-puzesem em execusam2 entam me-diria ,v4,p4 se me-enganava eu no-meu conceito4 ,deixando para a vista outras razoens1 com que podia persuadir1 o que digo2 insinuarei uma bem clara4 ,entre tantos que se-aplicam1 ao estudo da-,lingua ,latina1 mostre-me ,v4,p4 quantos sam capazes de se-apontarem1 como exemplo de boa ,latinidade4 ,examine ,v4,p4 quantos autores tem c1 nos seus pazes1 que componham ,latim1 como milhares1 que eu poso apontar1 nos-,reinos estrangeiros2 e ainda alguns em ,espanha1 que escrevram asombrozamente4 ,se me-mostrar um ou dois1 que nam ignoro que aja1 asente que o-nam-trouxeram das-escolas2 mas custou-lhe boas fadigas em caza3 ou talvez porque saram fra do-,reino1 e tratram1 com quem lhe-abrise os olhos1 como o ,bispo ,ozorio c4 ,quazi todos os outros falam ,latim das-escolas4 ,e tantas testemunhas1 que todos os dias saiem das-escolas1 provam bem1 que esta ignorancia1 influencia do-mao metodo4 ,disto podia eu citar muitos1 e muitos exemplos1 se mo-nam-impedise a modestia4 99 99 99 porque aindaque tenham doutrina1 e talento1 o mao metodo que bebram na mocidade1 impede o aproveitamento4 ,certo ,religiozo douto1 devendo dar conta de si1 em um congreso erudito1 queixando-se de lhe-nam-terem dado1 certos papeis1 concluia asim3 ,qu ad nostram faciunt historiam monumenta omnia3 sive scripta1 sive transcripta1 sive prscripta2 sive congesta1 sive digesta1 sive indigesta2 peto1 expeto1 repeto3 posco exposco1 reposco3 quro1 exquiro1 requiro3 flagito1 efflagito3 oro1 peroro4 ,todo o corpo do-discurso era semelhante4 ,nam sei se se-pode fazer1 coiza pior3 e apostarei eu1 que os seus ,religiozos doutos1 seram os primeiros1 a condenar este ,latim4 ,o pior 1 que afetando tanto1 saber a forsa dos-,verbos1 enganou-se em alguns4 ,porque o flagito1 e efflagito1 nam s significam1 pedir com istancia1 mas pedir com injuria#bf1 e com pouca vergonha3 o que suponho1 ele nam quiz dizer4 ,tambem o peroro1 nunca ouvi1 nem achei em autor ,latino1 que significse pedir4 tambem ,orare monumenta1 fraze que nunca achei nos-,latinos4 ,os primeiros trez nomes significam a mesma coiza1 no-noso cazo3 pois ele nam pedia cazas1 nem estatuas2 mas coizas escritas3 e asim o sive1 parece mal inserido4 ,damesma sorte o congesta1 nam se-opoem1 a digesta1 e indigesta2 pois a cadaum destes se-pode aplicar3 sendoque generica4 ,as outras examinar ,v4,p4 com mais vagar1 que eu nam tenho4 ,e nam somente os que se aplicam1 a diferentes materias1 mas aqueles mesmos1 que se-empregam na ,latinidade1 muitas vezes nam sam iguais4 v4 g4 ,antonio ,rodriguez da-,costa1 ,conselheiro do-,vltramar1 que escrevia ,latim com muita facilidade1 esquecido s vezes de simesmo1 escreve algumas cartas ,latinas1 fra do-estilo familiar1 que paresem orasoens academicas4 ,mas pior que este1 o ,marquez ,manoel ,teles da-,silva1 e o ,conde de ,vilarmaior1 os quais ambos tropesam terrivelmente nesta materia1 de elevasam afetada4 ,o primeiro1 na carta com que aprova1 os ,epigramas do-,p4 ,reis1 que comesa ,cum nullum c4 uza de um estilo1 que ainda nam vi coiza mais impropria3 ,o segundo1 nas cartas que escreve1 a ,antonio ,roz da-,costa1 afetado por-um novo modo2 e inclina muito para a declamasam1 demora-se muito com os lugares comuns1 e nam observa1 o verdadeiro estilo epistolar c4 ,confeso a ,v4,p4 que lendo1 e examinando ,cicero1 nam achei nele nem orasoens1 nem cartas afetadas4 ,somente na idade de prata 1 que comeso a ver1 a afetasam1 porque ja degenerava a eloquencia4 ,de que concluo1 que os que lem bem polos ,antigos1 e sabem imitlos1 escrevem com muita naturalidade1 e no-mesmo tempo sublimidade4 ,quando porem nam se-lem os ,antigos1 ou1 lendo-se1 nam se-faz como se-deve2 nam se-pode fazer coiza boa4 o que1 como asima dizia1 nace do-mao metodo1 de quem ensina4 ,quando em um paz1 florecem com grande aplicasam as ,artes1 coiza observavel1 que saiem muitos excelentes4 ,no-tempo de ,cicero1 nam s ele falava bem ,latim2 mas avia uma infinidade que o-falavam1 com a mesma pureza1 e grasa2 e muitos ,oradores1 de grande merecimento4 ,se ,v4,p4 tira das-cartas de ,cicero1 os nomes de muitos1 que lhas-escrevram2 entre elas1 e as de ,cicero1 nam achar diferensa alguma4 ,o bom gosto naquele tempo1 era tam rafinado1 que ,cezar1 e ,atico1 repreendram alguma palavra de ,cicero3 e o modo de orar deste ultimo1 nam agradava a ,bruto1 a ,calvo1 e ,pollio1 que eram omens doutisimos4 ,toda a magestade1 e pureza da-lingua de ,tito ,livio1 nam o-livrou1 de ser censurado em ,roma1 por-aqueles delicados criticos4 ,o grande ,asinio ,pollio achou neste escritor1 certas palavras1 e estilo do-paz em que nacra2 que os omens cultos de ,roma1 nam lhe-queriam perdoar4 tal era o delicado gosto daqueles ,senadores1 e ,cortezoens6 ,os mesmos ,romanos1 tinham um demaziado escrupulo1 neste ponto4 ,um ,comico1 que no-teatro errava uma silaba1 e um acento1 levava grandisimas surriadas#bg4 tal era a fineza do-juizo daquela ,republica6 ,se damos um paso mais atraz1 e entramos em ,atenas1 onde as ,artes1 e ,ciencias tanto florecram1 que dali se-espalhram1 polo resto da-,europa2 acharemos1 que nesta grande escola1 at a gente plebeia1 polo costume de ouvir orar1 e falar bem em publico1 aqueles grandes ,oradores2 tinha aquistado1 um tam exquizito gosto da-lingua1 que quando os ,oradores subiam tribuna1 temiam ofender1 com alguma menos boa expresam1 orelhas tam delicadas4 ,avia muitos anos1 que o ,filozofo ,teofrastro abitava em ,atenas1 e tinha feito um particularisimo estudo1 de falar a sua lingua1 segundo o dialeto de ,atenas3 comtudo iso diz a ,istoria1 que da-pronuncia de uma palavra1 conheceo que era estrangeiro uma molher1 que vendia legumes em ,atenas#bh4 ,achamos na istoria ,grega1 mil outros exemplos1 que confirmam1 quam geral era1 o bom gosto da-eloquencia1 entre os ,gregos4 ,nas asembleias publicas da-,grecia1 em que se-recitavam ,poemas1 e ,istorias ao ,povo2 sabemos1 que muitas vezes regeitram algumas1 por-nam chegarem1 fineza de outras4 ,dionizio o velho1 ,rei de ,saragosa nam era mao ,poeta3 vistoque com uma das-suas compozisoens1 alcansou o premio1 nos-jogos da-,grecia1 digo1 nos-jogos ,olimpicos3 mas porque mandra primeiro duas1 que nam chegavam ao merecimento1 da-terceira1 foi escarnecido por toda a asembleia4 ,deixo outros ,antigos4 ,e1 se decemos a estes ultimos seculos1 e ao prezente1 poso mostrar a ,v4 ,p4 com toda a evidencia1 que em ,londres1 ,amsterdam1 ,leiden1 ,pariz1 ,roma1 ,napoles1 ,padoa1 ,bolonha1 ,piza1 e outras muitas partes1 onde se-cultivam os bons estudos2 os que neles sam instruidos1 por-pouco que saibam1 aquistam um particular gosto1 em todo o genero3 e que neses mesmos empregos de ,ciencias1 e ,artes1 infinitos omens excelentes4 ,do-que manifestamente se-prova1 que onde se-ensina bem1 sempre omens grandes3 e que onde os-nam-1 uma prova manifesta1 do-mao metodo1 de quem ensina4 ,tenho dito a ,v4 ,p41 quanto a brevidade de uma carta permite1 o que me-parece deve fazer1 quem quer saber ,latim4 ,poderia acrecentar outras coizas2 mas esas sam somente necesarias1 aos que querem ser insignes1 nas letras umanas4 ,para ,v4 ,p4 que tam versado nelas1 o que digo1 parece ainda superfluo3 e para os-outros1 muito mais3 vistoque nam acho muitos1 que queiram esta gloria1 e queiram conseguila1 com estes meios4 ,comque pro aqui3 ,e dezejando a ,v4 ,p4 felicisimas festas1 e boas intradas de anos2 com todo o corasam me-asino c4 ,illustrao ,,notas ,,de ,,rodap3 #ba ,adversar4 l4 #g4 c4 #ai4 #bb ,as palavras de ,furio ,albino citado por-,macrobio1 sam estas4 ,nemo debet antiquiores ,poetas ea ratione viliores putare1 quod eorum versus nobis scabri videntur4 ,ille enim stilus maxime1 tunc placebat3 diuque laboravit tas secuta1 ut magis huic molliori stilo acquiesceret4 ,itaque minime defuerunt1 imperantibus etiam ,vespasianis1 qui ,lucretium pro ,virgilio1 ,lucilium pro ,horatio legerent4 ,petrus ,crinitus1 de ,poetis ,latinis4 #bc ,l4#c4 v4 #bdh4 #bd ,aeneid4 ,i4 v4 #fg4 #be ,itaque video visum esse nonnullis1 ,platonis1 ,democriti locutionem1 etsi absit a versu1 tamen1 quod incitatius feratur1 clarissimis verborum luminibus utatur1 potius poema putandum1 quam comicorum poetarum3 apud quos1 nisi quod versiculi sunt1 nihil est aliud quotidiani dissimile sermonis4 ,cicer4 de ,orat4 ad ,m4,b4 num4#bj4 #bf ,expectatione promissi tui moveor1 ut admoneam te1 non ut flagitem3 misi autem ad te quatuor admonitores1 non nimis verecundos3 qui metuo1 ne te forte flagitent3 ego autem mandavi1 ut rogarent4 ,cicero ,epist4 famil4 l4#i4 ep4 #h4 ,quintil4--,efflagitasti quotidiano convitio1 ut libros jam emittere inciperem c4 #bg ,at in his 7numeris7 si paullum modo offensum est1 ut aut contractione brevius fieret1 aut productione longius2 theatra tota reclamant4 ,cicero l4#c4 de ,oratore n4#ej4 #bh ,cicero1 de ,claris ,orator4 n4#df4 ,illustrao ,,carta ,,quarta4 ,,sumario4 ,necesidade das-linguas ,orientais1 principalmente ,grega1 e ,ebraica1 para intender as letras ,umanas3 mas muito principalmente1 para a ,teologia4 ,modo de as-aprender4 ,utilidade da-lingua ,franceza1 e ,italiana1 para ser erudito com facilidade1 e sem despeza4 ,meu amigo e senhor1 ,talvez esperava ,v4 ,p4 que eu nesta carta1 passe direitamente ,retorica2 e comesse a discorrer sobre aquela materia1 que nos-ocupou bastante tempo2 e nos-deu ocaziam1 para fazer muitas1 e mui utis reflexoens4 ,tambem esa era a minha intensam2 se me-nam ocorrese outra coiza1 que julgo ser igualmente necesaria3 e que nam nos-ocupar1 senam uma carta1 e nam mui longa4 ,falo do-estudo das-linguas ,orientais3 que muitos desprezam1 porque nam tem juizo1 para conhecer o bom1 rezolusam para o-emprender1 e metodo para o-conseguir4 ,eu nam falarei de todas3 mas das-duas mais principais1 e que todos os omens doutos reputam1 que sam sumamente necesarias3 e como tais se-ensinam1 em quazi todos os estudos1 da-,europa culta3 tais sam a ,grega1 e ,ebraica4 ,sam estas duas linguas em ,portugal1 totalmente desconhecidas1 ainda nas-,universidades3 o que mui observavel3 porque ,universidade deve compreender1 todo o genero de estudos4 ,os ,espanhoes conhecram muito bem1 esta necesidade3 e vemos que nas principais das-suas ,universidades ensinam1 nam s estas1 mas outras ,orientais4 ,mas em ,portugal observo1 que nam noticia delas4 ,nese colegio das-,artes1 dizem que uma cadeira de ,grego3 mas como se a-nam-ouvese1 porque nam tem exercicio4 ,os ,seculares1 que algumas vezes entram na aula1 para se-divertirem4 ,os ,jezuitas mosos1 sam na verdade obrigados1 a frequentar por-algum tempo1 a dita escola2 e nos-dias santos le-se um capitulo de ,s4 ,joam ,crizostomo1 ou coiza que o valha3 mas como todos estes mosos1 estam na opiniam1 que aquilo para nada serve2 nenhum se-aplica a ela4 ,despois de quatro anos de estudo1 me-dise um1 que nam sabia mais1 que esta palavra3 4 ,achei outro1 que sabia o ,padre noso1 e ,ave ,maria3 e destes acham-se alguns3 mas nenhum o sabia escrever derepente4 ,finalmente nam achei algum1 que soubse explicar1 quatro regras de ,grego1 nam digo eu de algum ,poeta1 ou coiza dificultoza2 mas nem menos do-,testamento ,novo1 ou algum ,s4 ,padre facil4 ,e isto observei ainda naqueles1 que tinham sido mestres de ,grego3 7nam por-falta de capacidade3 mas de aplicasam7 e fasa ,v4 ,p4 a experiencia1 que achar1 que nam minto4 ,os outros todos1 ou sejam ,regulares1 ou ,seculares1 nam tem mais noticia do-,grego1 que do-,kyrie ,eleison3 e do-,ebreo1 s conhecem a palavra ,aleluia1 ,amen1 e alguns nomes proprios de omens1 ou ,cidades1 que se acham na ,vulgata1 ainda-que transfigurados3 e contentam-se com esta noticia3 ,antes rim-se muito1 se acazo lhe-dizem1 que um estudo necesario4 ,mas a verdade 1 que aos ,teologos indispensavelmente necesario1 sablo2 senam a todos1 ao menos aos que se-internam na ,teologia1 e a-ensinam4 ,senam diga-me ,v4 ,p4 se nacse uma dificuldade1 sobre a inteligencia do-texto ,ebreo1 ou ,grego1 ou de algum ,s4 ,padre2 como muitas vezes sucede1 conversando com os ,erejes1 ou disputando entre os ,catolicos2 a quem se--de proguntar8 ser necesario escrever1 a ,fransa1 ,roma1 ,veneza1 ,napoles c4 para saber a resposta8 que coiza mais vergonhoza6 ,e que diriam aqueles ,teologos1 se ouvisem1 que aqui nam avia1 quem os-intendse8 ,mas disto falaremos1 em outra parte4 ,por-agora s digo1 que asim como ao ,teologo necesario1 intender ,latim1 para ler a ,vulgata ,latina2 asim tambem necesario1 intender os textos ,originais1 de que esa ,vulgata se-tirou4 ,persuadem-se muitos1 e alguns mo-confesram1 que s a ,vulgata merece autoridade4 isto 1 porque nam estudram a materia4 ,convem todos os ,teologos de boa doutrina1 que o ,concilio ,tridentino1 quando declarou ,autentica1 a nosa ,vulgata2 s a-preferio1 s outras ,vulgatas ,latinas3 mas nam a-preferio1 nem a-comparou com as ,fontes1 ,grega1 e ,ebraica4 ,de que vem1 que estas conservam oje1 toda a sua autoridade3 e por-elas se-emendou a ,vulgata1 no-tempo de ,sixto ,v41 e ,clemente ,,viii4 e ainda oje se-pode emendar1 em varias coizas1 que nela advertem os omens doutos4 ,e por-este principio fica claro1 que pode aver grande utilidade1 e necesidade1 em consultar as ditas ,fontes4 ,alem da-,escritura1 temos os ,,ss4,padres da-,igreja ,grega1 que escrevram na sua lingua4 ,o ,teologo todos os instantes tem necesidade1 de consultar estes ,originais3 porque as ,versoens nem sempre sam fieis4 ,muito mais porque nam se-ignoram as controversias1 que todos os dias nacem1 nas escolas ,catolicas1 sobre as palavras dos-,padres1 e dos-,concilios4 ,alem diso1 o ,jurista tem necesidade do-,grego1 para alcansar o verdadeiro sentido1 de muitas constituisoens ,imperiais2 que foram escritas em ,grego4 ,o ,canonista o mesmo3 vistoque deve procurar1 as fontes da-,diciplina ,ecleziastica3 a qual pola maior parte1 determinou-se nos-,concilios3 muitos dos-quais celebrram-se no-,oriente3 e ainda algum no-,ocidente1 em ,grego2 como o ,florentino no-tempo de ,eugenio ,,iv4 ,tambem para intender1 o ,decreto de ,graciano1 que se-funda todo1 sobre a antiga ,diciplina3 e os mesmos ,,pp4 ,gregos4 ,o ,medico tem necesidade do-,grego1 para intender as obras1 de ,ipocrates3 para ver o que dise ,galeno1 e ,areteo de ,capadocia2 que1 despois de ,ipocrates1 foi o melhor ,medico dos-seus tempos3 e alguns outros4 tambem necesaria ao ,medico1 para intender a ,anatomia1 e suas partes1 cujos nomes sam ,gregos3 nam avendo ,ciencia1 em que se-encontrem mais nomes ,gregos3 como tambem para intender os nomes1 de muitas infermidades4 ,nisto cuido que convirm sem dificuldade1 os mesmos ,peripateticos1 se quizerem examinar o cazo4 ,mas eu paso adiante1 e digo1 que as ,letras ,umanas1 e ainda a mesma ,latinidade1 nam se-pode intender bem1 sem alguma noticia do-,grego4 ,os ,romanos adotram infinitos termos ,gregos3 cuja propria significasam nam se-alcansa1 sem saber o ,grego4 ,as mesmas declinasoens1 a dezinencia de muitos ,verbos1 pedem alguma erudisam ,grega4 mas isto s o-intende1 quem se-familiariza com o ,latim4 ,quanto pois ao estudo do-,grego1 e ,ebraico1 nam ele tam embarasado1 como o-pintam4 ,os ,mestres podiam brevemente dar1 alguma noticia do-,grego3 nam se-cansando em explicar1 todos os preceitos de ,gramatica 7este o defeito de muitos ,profesores74 ,basta ao principio saber1 as declinasoens1 e conjugasoens1 sem falar nos-dialetos4 as anomalias podem-se deixar2 e basta que com o tempo se-observem1 quando se-vai lendo4 ,as outras partes da-,gramatica basta velas uma vez1 para as-saber procurar1 quando ser necesario4 ,despois1 toma-se um autor1 que tenha junto a versam ,latina3 e em cada voz se-deve observar1 se raiz1 ou nam3 e1 quando duvidar1 procurlo no-,dicionario4 ,em um mez1 ou dois1 pode conseguir1 bastante noticia destes principios4 ,despois1 com o socorro do-,dicionario1 e da-versam1 deve comesar a explicasam1 de algum autor facil4 ,os ,istoricos1 e ,prozadores devem ser preferidos1 aos ,poetas2 como mais dificultozos4 ,um omem douto ensina1 que se-deve seguir este metodo4 #a4 ,ler os ,estratagemas de ,polyeno1 que sam mui claros3 os ,dialogos de ,luciano1 e principalmente os ,characteres ,ethici1 de ,teofrasto2 que elegantisimo4 #b4 os dois famozos ,istoricos1 ,xenofonte1 e ,erodoto3 que encerram as delicadezas1 e grasa1 da-lingua ,atica4 #c4 a estes podem seguir-se ,tucidides ,istorico2 ,isocrates1 e ,demostenes ,oradores2 e ,platam1 ,filozofo o mais eloquente1 e culto da-,antiguidade4 ,quem chegar a intender bem estes1 tenha a consolasam1 que sabe bem ,grego4 ,pode-se aprender alguma noticia1 dos-costumes ,gregos1 nas obras de ,ubbo ,emmius1 e ,joannes ,meursius1 que sam os que melhor explicram1 as antiguidades ,gregas4 ,outros querem1 que se-comece polo ,evangelho de ,s4 ,lucas1 e ,atos dos-,apostolos2 ou polas fabulas de ,esopo3 despois ,luciano1 ,erodoto1 ,xenofonte1 ,isocrates3 e no-fim ,omero1 e ,plutarco1 e alguma coiza de ,demostenes4 ,um1 e outro destes metodos se-pode seguir3 mas agrada-me mais o primeiro4 ,o principal ponto est1 que nestes principios1 quando se-acham lugares dificultozos1 deve-se pasar adiante3 e ler os autores saltiados1 por-nam enfastiar os rapazes4 ,sobre os ,poetas1 nam me-canso em dizer muito3 porque quem tem noticia da-lingua1 tem ja bastante luz para ver1 como se--de regular1 na sua lisam4 ,concordam os omens da-profisam1 que o melhor ,poeta1 e mais claro 1 ,aristofanes3 mas bastantemente obceno4 ,onde1 quem nam souber ler tais coizas1 sem perigo2 dever pasar a ,omero1 e ,esiodo1 que sam os mais facis entre os ,eroicos1 e que se-servem de expresoens1 mais claras4 ,verdade 1 que nestes ,poetas1 uma dificuldade nam pequena1 que consiste1 na variedade de dialetos1 e inflexoens1 e mudansas de palavras1 proprias-dos ,poetas3 mas a isto se-supre com o ,dicionario1 que explica distintamente1 estas palavras4 ,aconselham os doutos1 que1 antes de ler ,omero1 leia-se o ,everhardo ,feithio,antiquitates ,homeric3 no-qual ele descreve a istoria1 dos-tempos ,eroicos1 de que trata ,omero4 ,dos-,poetas ,eroicos pode-se pasar1 aos ,bucolicos1 que sam ,moscho1 ,bion1 ,theocrito2 para aprender o dialeto ,dorico1 em que escrevem3 servindo-se do-pequeno ,dicionario1 de ,schrevelius4 ,a melhor edisam destes autores 1 a de ,daniel ,heinsio3 em que1 alem das-deste1 se-acham tambem as notas1 de ,scaligero1 e ,casaubon4 ,despois pode ler1 os ,poetas ,tragicos3 entre os quais os mais facis1 e judiciozos sam1 ,euripides1 e ,sophocles3 porque os outros1 s os-podem intender1 os que sam bem praticos da-lingua4 ,e como suponho1 que o estudante neste tempo1 7isto nam se-faz nas primeiras escolas3 mas quando um ja adiantado no-,latim7 ter ja noticia1 das-leis da-,poezia2 pode1 lendo estes autores1 ir descobrindo1 e bebendo na sua fonte pura1 as grasas da-,poezia1 em todos os generos4 ,uma coiza porem necesario advertir1 nam s aos dicipulos1 mas tambem aos mestres1 porque neste defeito caiem muitos profesores publicos3 e vem aser1 que nam se-cansem em mandar compor1 aos pobres rapazes3 porque esta lingua1 que oje morta1 nam necesario falla1 basta intendla com facilidade4 ,encontram-se muitos1 que explicam aos rapazes1 trez1 ou quatro regras de ,grego1 e obrigam-nos a compor1 paginas inteiras4 ,onde vem a cair no-mesmo defeito1 que em outra carta ja dise1 7falando da lingua ,latina7 de quererem1 que os rapazes sejam mestres1 naquela materia1 na qual nam chegram ainda aser1 dicipulos4 ,em uma palavra3 a experiencia ensina1 que absolutamente necesario1 intender ,grego3 e que inutil1 o escrevlo2 quando um omem nam est empregado em coizas1 que o-pesam4 ,sobre as ,gramaticas1 oje tantas1 que superfluo1 que eu diga coiza alguma4 ,muitos sam apaixonados1 pola de ,clenardo1 com as notas de ,antesignan3 porque nela se-acha com facilidade1 o que s com grande trabalho se-busca1 em outros livros3 e tambem ensina o uzo da-,gramatica1 reduzindo-a aos preceitos gerais3 o que ilustra muito o intendimento4 ,mas oje asentam todos1 que a de ,lanceloto1 a que chamam de ,porto real1 a mais facil1 e as reflexoens mais solidas4 mas em ,francez1 ou ,italiano1 e nam para o cazo4 ,alem destas1 infinitas mais modernas1 que sam mui boas1 e ,latinas4 ,um amigo noso compoz a ,gramatica ,grega1 e ,ebraica1 cada uma em duas folhas de papel grande1 com uma clareza inimitavel1 para um principiante4 ,procuro que a-imprima1 para utilidade dos-,portuguezes4 sem duvida a mais facil1 que tenho visto nesta materia4 ,no-cazo que o estudante nam tenha1 quem o-aconselhe1 na eleisam de livros2 deve sempre apegar-se a uma ,gramatica1 das-mais modernas1 e mais breves3 principalmente compostas por-alguns seculares1 ,inglezes1 ,olandezes1 ,alemaens1 e alguns ,francezes4 ,porque como estes nam seguem as leis1 que obrigam alguns ,regulares1 a nam se-desviarem1 dos-seus antigos metodos2 procuram sempre1 melhorar no-metodo1 e na inteligencia3 como a experiencia me-tem mostrado4 ,e nestas letras ,umanas sem duvida1 que os ,seculares excedem muito1 aos ,regulares4 ,sobre o ,dicionario1 parece-me que o estudante deve servir-se1 do-,scapula1 que costuma reduzir todos os derivados1 sua raiz4 ,isto ao principio cauza dificuldade1 porque se-ignora1 que coiza os derivados acrecentam1 sobre a raiz2 para os-poder separar1 e procurar no-seu lugar4 ,mas neste cazo basta procurar1 no-fim do-,lexicon1 a voz como se-acha2 que ali se-ensina1 de que raiz vem1 e aonde se-deve procurar4 ,e desta sorte aprende um omem1 o verdadeiro modo de separar os derivados das-suas raizes3 e fica com a inteligencia1 de uma quantidade de termos3 coiza que vale infinitamente nesta lingua4 ,se o estudante pouco a pouco aprendse de memoria1 as raizes2 facilitaria muito este estudo1 e intenderia mais depresa os derivados4 ,o ponto todo est em nam deixar totalmente este estudo1 por-todo o decurso da ,latinidade1 e ,retorica3 porque aindaque s expliquem1 duas regras cada dia1 no-cabo de um ano1 adianta-se muito4 ,a ,gramatica ,ebraica muito mais facil1 que a ,grega4 ,antigamente escreviam os ,ebreos1 sem vogais3 e o verdadeiro modo de pronunciar1 pasava de pais a filhos1 por-tradisam3 e ainda oje a ,biblia1 que se-conserva nas suas sinagogas ou escolas1 costuma escrever-se sem vogais1 como eu vi muitas vezes4 ,mas despoisque os ,ebreos1 tornram do-cativeiro de ,babilonia1 e1 com permisam de ,artaxerxes ,longimano1 restablecram1 a ,igreja ,judaica1 e todos os ritos da-sua antiga religiam3 entam1 segundo se-prezume1 se-inventram os ditos pontos1 ou vogais4 ,certa coiza 1 que nese tempo os ,ebreos1 tinham perdido a sua lingua1 e s intendiam a ,caldeia4 ,onde nas sinagogas1 que entam se-introduzram1 era necesario1 que um interprete explicse em ,caldeo1 as palavras da-,biblia1 que outro proferia e lia em ,ebreo4 ,e como uma lingua morta1 nam se-pode aprender1 nem ensinar1 sem vogais2 fica claro1 que os doutores1 que com ,esdras publicram1 uma edisam correta da-lei1 os-inventram1 para poderem ensinla1 aos que ignoravam a lingua4 porem provavel1 que entam somente inventasem1 as cinco vogais3 e nam tantas1 como ao despois se-uzram4 ,esta noticia conservou-se1 nas escolas dos-,gramaticos1 ou escolas de ler3 7entre os ,ebreos avia escolas de ,gramatica2 e outras de ,teologia7 mas nam nas escolas de ,teologia3 porque os omens doutos1 que ja sabiam a lingua1 nam necesitavam diso4 ,mas despois da-ultima destruisam de ,jerusalem1 no-ano #gj4 de ,cristo1 tendo-se espalhado os ,ebreos1 por-todo o imperio ,romano2 e muito principalmente1 despois da-dispersam que tiveram1 no-tempo de ,adriano2 acrecentando-se todos os dias as tradisoens1 foi necesario escrevlas1 para se-poderem conservar na memoria1 e chegarem a todos4 ,isto fizeram eles1 polos anos de ,cristo #aej43 cujo libro chamam ,misn2 que um corpo de toda a doutrina dos-,ebreos1 ritos1 ceremonias1 e religiam4 ,a esta fizeram dois comentarios3 um em ,babilonia1 polos anos de ,cristo #cjj43 outro em ,jeruzalem #bjj4 anos quazi despois4 ,e deste ,comento1 e da-,misn1 se-compoem os dois ,talmudes1 que ainda oje temos4 ,isto suposto1 vendo os doutores1 que os pontos dos-,gramaticos eram utis1 para conservar a antiga maneira de ler2 adotram os ditos pontos1 e comesram a servir-se deles1 pouco mais ou menos1 no-seculo quinto de ,cristo4 ,muitos suspeitam1 que se-deve isto aos doutores1 da-escola de ,tiberiades4 ,seja como for1 o que sabemos de certo 1 que desde ese tempo1 comesram a escrever certos sinais1 debaixo1 e desima das-consoantes2 paraque todos os ,ebreos1 pronunciasem as vozes ,ebraicas1 segundo a antiga tradisam4 ,de entam para c 1 que noticia expresa1 das-vogais#bi4 ,mas como os ,ebreos sempre foram misteriozos2 para ocultar o verdadeiro sentido do-texto ,ebreo1 inventram tanta vogal que nam se-le1 entre outras que se-lem2 que esta oje a maior dificuldade1 desta lingua4 ,umas vezes a mesma vogal le-se3 outras1 nam se-l3 umas vezes converte-se em outra2 e talvez nam se-converte3 e isto embarasa muito os principiantes4 ,intendido isto1 o metodo de aprender o ,ebraico 1 a prender a conhecer1 e unir as letras1 e proferir as disoens3 porque a pronuncia diligente somente necesaria1 aos que querem falar1 nam aos que somente a-querem intender4 ,deixando ao principio1 aquela infinidade de excesoens1 sobre a mudansa de pontos1 c4 deixados os infinitos acentos1 que para nada servem3 basta ter noticia1 das-regras gerais1 para saber ler1 e pronunciar facilmente4 ,daqui pasa-se s declinasoens dos-,nomes1 e seus diversos estados4 ,a maior dificuldade est1 nos-,verbos3 porque tem terminasam masculina1 e feminina1 o que ao principio parece imbarasado3 aindaque com o tempo1 ajude muito para intender1 com quem1 e de quem se-fala2 se com omem1 ou com molher4 ,deve pois saber distintamente1 quais sam os verbos quiescentes1 e defetivos4 ,as anomalias deles podem-se deixar1 porque se-aprendem com o uzo4 ,esta lingua nam tem sintaxe particular3 e todos os idiotismos aprendem-se em meia ora4 ,daqui deve pasar a ler a ,biblia1 tendo sempre prezente um ,dicionario1 v4g4 o ,compendio ,hebraico ,chaldaico de ,buxtorfio4 utilisimo servirse do-texto ,ebreo1 com a versam literal de ,pagnino1 correta por-,montano3 porque alem-de que se-aprende1 a propria significasam dos-vocabulos1 tem margem1 boas notas de ,gramatica1 e aponta as raizes4 ,o que ajuda muito um principiante1 principalmente se a-quer buscar1 no-,lexicon3 e muito necesario saber1 quais sam as raizes1 para ter suficiente noticia1 da-lingua4 ,com o tempo observa-se a ,sintaxe da-lingua1 e os idiotismos1 ou maneiras proprias de se-explicar1 diferentemente das-outras linguas3 o que se-reduz a poucos pontos1 e se-aprende do-contexto4 ,os livros que primeiro se-devem ler1 sam os mais facis1 como o ,pentateuco1 os livros dos-,juizes1 e ,reis1 ,paralipomenon4 ,os ,profeticos1 e ,sapienciais podem rezervar-se1 para outro tempo1 por-serem mais oscuros4 ,mas para intender estes livros1 necesario preparar-se com a lisam1 das-antiguidades ,ebraicas4 ,o ,senhor de ,fleury publicou um tratadinho1 dos-costumes dos-,israelitas1 em ,francez1 que tambem se-acha em ,italiano3 que me-parece proporcionado1 para um principiante3 e escrito com grande atensam4 ,podem tambem servir1 a ,politia ,judaicade ,bertramo3 ,respublica ,hebrorumde ,sigonio1 ou de ,cuneo2 que sam muito boas4 ,nam aponto livros de maior erudisam1 porque nam servem1 para estes principios4 ,se a isto que dizemos1 ajuntar cada dia1 a lisam de um capitulo da-,escritura1 e consultar nas coizas em que duvidar1 a versam ,grega dos-,,lxx42 ou as ,concordancias de ,conrado ,kirker2 poder conseguir facilmente1 bastante noticia da-lingua ,ebraica4 ,isto digo1 para um principiante3 porque para os ,teologos de profisam1 a seu tempo direi1 que mais necesario1 nesta materia4 ,este estudo1 como tambem o da-lingua ,grega1 uma vez que se-intendeo1 pode continuar-se em dias alternados1 por-todo o tempo dos-outros estudos1 sem perturbasam alguma3 porque a estas linguas basta consagrar1 as oras menos preciozas do-dia4 ,isto 1 o que muita gente nam intende1 ou nam quer intender1 nestes pazes3 porque quando nam tem1 outra razam que dar1 alegam a dificuldade da-dita lingua1 e a pouca utilidade1 que dela se-tira3 aqual nam basta1 para compensar o trabalho1 que se experimenta em aprendla4 ,seguro a ,v4 ,p4 que com grande admirasam minha1 ouvi isto a alguns1 de quem formra bom conceito2 e que totalmente se-desvaneceo1 com este discurso4 ,nam acho que falasem asim1 alguns antigos-,portuguezes1 que cuido sabiam um pouco mais1 do-que estes1 que agora respondem asim3 antes polo contrario acho1 que alguns ,religiozos antigos1 aplicram-se a estas linguas com cuidado1 e por-iso sam mais conhecidos1 no-mundo literario1 do-que estes1 com quem prezentemente conversamos4 ,eu atribo isto1 maior comunicasam que entam avia1 com os doutos das-,nasoens estrangeiras3 pois s acho vestigios de maior erudisam1 quando a este ,reino vinham ensinar1 os ,estrangeiros3 ou quando os ,portuguezes am aprender1 e ensinar1 fra dele4 ,polo contrario despoisque se-deixou1 este comercio literario1 vejo as coizas mui mudadas4 ,nam podem ser ocultos a ,v4 ,p4 os nomes de alguns deles3 ,o ,p4 ,jeronimo ,oleastro1 ,dominicano ,lisboense1 que cuido se-chamse ,jeronimo da-,zambuja1 compoz um comentario ,ebraico ao ,pentateuco1 e cuido que a outros livros mais1 se-nam me-engano2 poisque aver anos1 que vi esta obra4 ,acho tambem citado um certo ,d4,pedro1 ,conego ,regular1 e um ,fr4,eitor ,pinto1 ,jeronimiano1 ambos ,portuguezes1 por-omens mui versados1 na lingua ,ebraica3 ainda-que eu nam poso1 formar juizo das-tais obras1 porque as-nam-vi4 ,mas tenho motivo para suspeitar1 que fosem omens doutos1 vistoque aprendiam as linguas originais1 para comentarem a ,escritura4 ,tambem achei um ,religiozo meu1 quero dizer ,observante1 chamado ,fr4,francisco de ,s4,luiz1 ,lisboense1 posterior aos ditos2 que floreceo no-tempo do-,concilio de ,trento1 e alguns anos despois4 ,este tal compoz em ,italia1 uma ,gramatica ,ebreia1 com o titulo ,globus ,canonum ,arcanorum ,lingu ,sanct1 ,sacr ,scriptur 3 que um livro bem voluminozo em #d4 e que dedicou ao ,cardial de ,medici1 impreso em ,roma #aehf4 ,este tal autor1 7que1 segundo diz1 fora no-seculo leitor de ,leis em ,coimbra1 e ,salamanca2 e se-metra ,frade em ,espanha7 d a intender1 que compuzera o livro em ,italia3 declarando1 que de cincoenta anos aprendra o ,ebraico1 que ao despois foram as suas delicias4 ,onde persuade com muitas palavras1 a necesidade da-dita lingua2 e se-enfastia1 contra os que a-regeitam4 ,com efeito o omem parece bem informado1 da-dita lingua3 aindaque caise no-defeito1 dos-,gramaticos do-seu tempo2 quero dizer1 em fazer uma confuzisima e mui enfadonha ,gramatica2 na qual quiz epilogar1 quanto achou em ,elias ,levita1 e outros ,rabinos3 como tambem em vrios autores1 que o precedram4 ,mas este era defeito daquele tempo1 em que nam sabiam1 que coiza era bom metodo4 ,contudo verdade1 que o dito ,p4 fez um grande progreso1 na dita lingua1 em uma idade maior2 naqual tambem estudou ,teologia3 e entre ocupasoens de predicas1 e outras semelhantes1 segundo diz1 nunca deixou1 este estudo tam util4 ,esta noticia que dou do-tal autor1 porque ignoro1 se ,v4 ,p4 tem noticia dele1 visto escrever longe de ,portugal4 ,acrecento a este1 o ,p4 ,macedo1 ,portuguez1 e da-mesma ,religiam3 omem de prodigioza memoria1 7aindaque nam de igual juizo7 segundo mostrou nas suas famozas concluzoens1 que defendeo em ,veneza1 de que ,v4 ,p4 tem boa noticia3 que sabia a lingua ,grega1 segundo me-diseram alguns dos-seus ,religiozos1 da-mesma ,provincia4 ,do-,grego tambem no-seculo #af4 avia mais noticia1 que nam oje1 neste ,reino4 ,polos tempos do-,concilio de ,trento1 um tal ,joam ,vaz1 que foi mestre de ,umanidades em ,salamanca1 sabia bem ,latim1 e ,grego3 e no-mesmo tempo ,fernando ,soares1 7que compoz uma ,gramatica ,latina1 para uzo do-,duque de ,bragansa1 impresa em ,evora no-ano #aegb47 era suficientemente informado1 do-,grego4 ,ajunto a estes1 o ,bispo ,jeronimo ,ozorio1 o qual nam s aprendeo fra de ,portugal ,latim bem1 mas teve bastante noticia do-,grego1 e ,ebreo3 e podia nomiar alguns outros1 que agora nam me-ocorrem4 ,doque se-segue1 que naqueles tempos1 os mestres ,portuguezes1 nam seguiam o parecer1 que agora vejo tam comum1 deque estas linguas ,orientais devam desprezar-se4 ,onde1 com estes exemplos1 podiam muitos aplicar-se1 a coizas mais utis ,republica4 ,eu apontei algum exemplo3 pode ser que ajam muitos mais1 e de linguas peregrinas3 porque eu nam escrevo esta istoria4 ,sera tambem justo1 que o estudante com o tempo1 aprendse ,francez1 ou ,italiano1 para poder ler as maravilhozas obras1 que nestas linguas se-tem composto1 em todas as ,ciencias2 de que nam temos1 tradusoens ,latinas4 ,antigamente intendiam os doutos1 que era necesario saber ,latim1 para saber as ,ciencias3 mas no-seculo pasado1 e neste prezente1 dezenganou-se o mundo1 e se-persuadio1 que as ,ciencias se-podem tratar1 em todas as linguas4 ,parece-me que com muita razam3 porque a maior dificuldade das-,ciencias consiste1 em serem escritas em ,latim1 lingua que os rapazes nam intendem bem4 ,onde nam s sabem mal a materia1 mas o tempo que deviam empregar1 em a-estudar1 ocupam em perceber a lingua4 ,com esta advertencia1 os ,inglezes1 ,olandezes1 ,francezes1 ,alemaens c4 comesram a tratar todas as ,ciencias1 em ,vulgar4 ,esta oje a moda4 ,os melhores livros acham-se escritos1 em ,vulgar3 e qualquer omem que saiba ler1 pode intender na prezente era1 todas as ,ciencias4 ,nam que isto seja totalmente1 ideia nova3 porque me-lembro1 ter lido uma carta de ,paulo ,manucio1 escrita a ,diogo ,hurtado de ,mendonsa ,embaixador ,cezareo1 dedicando-lhe os livros ,filozoficos de ,cicero2 emque se-diz1 que o maior impedimento das-,ciencias 1 serem tratadas em linguas estrangeiras1 digo1 ,latina c4 ,o que o dito ,manucio1 com toda a paixam que tinha lingua ,latina1 nam dezaprova4 ,desorteque ja no-seculo #af41 emque o mundo comesou a abrir os olhos1 em muitas coizas1 pensavam asim3 o que porem somente se-executou1 nestes ultimos tempos4 ,de certo tempo a esta parte1 os nosos ,italianos comesram a seguir1 o mtodo dos-,transmontanos4 ,comesou isto1 traduzindo os livros ,inglezes1 e ,francezes3 despois1 pasram a compor originalmente4 ,desorteque quem oje quer ter1 muitas noticias boas com facilidade1 deve intender ,francez1 ou ,italiano4 ,este estudo nam pede grande tempo1 podendo servir-se dos-livros ,latinos1 que tem a tradusam literal ,franceza2 como sam o ,terencio1 e ,oracio1 de ,madame ,d',acier1 e de um ,jezuita c4 ,e estes mesmos autores ,latinos1 se-acham traduzidos em verso ,italiano1 defronte do-,latim1 por-dois omens mui doutos de-,italia4 ,o ,italiano mais facil4 ,mas nam intenda ,v4 ,p4 que eu sou tam inexoravel1 que queira carregar os pobres rapazes1 com tanto pezo4 nada aponto1 que nam vise executar a muitos rapazes3 e poso afirmar a ,v4 ,p4 que estes estudos1 nam sam dificultozos em si mesmo3 o mao metodo os-pinta dificultozos4 ,contudo nam obrigo3 aponto somente a utilidade4 ,quando o estudante nam se-ache1 com este dispozisam1 pode rezervlo para tempo mais descansado4 ,fico s ordens de ,v4 ,p4 como seu criado c4 ,illustrao ,,notas ,,de ,,rodap3 #bi ,veja-se ,ludovicus ,cappellus in ,arcano punctuationis1 contra ,j4 ,buxtorf4 ,filium4 ,illustrao ,,carta ,,quinta4 ,,sumario4 ,discorre-se da-utilidade1 e necesidade da-,retorica4 ,mao metodo com que se-trata em ,portugal4 ,vicios dos-,pregadores3 que sam totalmente ignorantes de ,retorica4 ,que absolutamente deve deixar o antigo estilo1 quem quer saber ,retorica4 ,finalmente tempo1 de pasar-mos ,retorica3 para com ela completar os estudos1 das-escolas baixas4 ,sei que ,v4,p4 tem gosto1 de ouvir-me falar dos-outros3 e me-faz a merce nesta sua dizer1 que imprime as minhas cartas1 na memoria3 mas sei tambem1 que de todos os estudos das-,umanidades1 de nenhum tem mais empenho1 que da-,retorica4 ,pois se bem me-lembro das-nosas conversasoens1 conheci entam em ,v4 ,p4 um ardente dezejo1 de me-ouvir falar nesta materia2 e de querer instruir-se1 dos-particulares estilos de ,retorica1 e muito principalmente dos-sermoens1 de outros pazes3 porque me-dise1 que nam lhe-agradava1 o estilo deste ,reino3 o qual muitas vezes segura1 por-necesidade4 ,nesta carta direi brevemente1 o que me ocorre1 sobre os defeitos1 e tambem sobre o modo de os-evitar4 ,a ,retorica naceo na ,grecia1 como todos os outros melhores estudos3 e de la se-espalhou1 polas mais partes da-,europa4 mais moderna1 que a ,gramatica3 mas teve a mesma origem4 ,querendo os omens na ,grecia1 persuadir aos ,povos1 varias coizas2 foi necesario que observasem1 como eles se-persuadiam3 e quais eram os meios1 comque se-moviam1 as paixoens do-animo4 ,de que naceo esta arte1 a que chamam ,retorica3 que quazi tam antiga1 como a ,filozofia2 quero dizer1 que comesou a florecer1 despois da-metade do-quarto milenario4 ,agradou esta erudisam aos ,romanos1 que se-regulram polo mesmo metodo3 e tanto se-entregram a ela1 que1 se nam excedram aos ,gregos1 na ciencia2 sem duvida excedram-nos na aplicasam1 e exercicio3 porque na verdade chegram a namorar-se1 da-sua galantaria1 e utilidade4 ,dos-,romanos a-recebram os outros ,povos1 e ,nasoens3 entre as quais as que mostrram mais juizo1 aplicram-se a ela com cuidado1 polos mesmos motivos4 ,e1 na verdade1 nam coiza mais util1 que a ,retorica3 mas nam alguma1 que com mais negligencia se-trate1 neste ,reino4 ,se ,v4,p4 observar1 o que os mestres ensinam nas escolas1 achar1 que uma embrulhada1 que nenhum omem1 quanto mais rapaz1 pode intender4 ,primeiramente1 ensinam a ,retorica1 em ,latim4 ,erro consideravel3 porque nada tem a ,retorica1 com o ,latim3 sendoque os seus preceitos compreendem1 e se-exercitam em todas as linguas4 ,daqui nace o primeiro dano1 que 1 que os rapazes nam a-intendem1 porque ainda nam intendem ,latim3 e nace tambem o primeiro engano1 que 1 persuadirem-se os ditos rapazes1 que a ,retorica s serve1 para as orasoens ,latinas4 ,asim me-respondram muitos1 nam s rapazes1 mas tambem sacerdotes4 ,do-que eu conclui1 que saiem da-,retorica1 como nela intrram3 e examinando as ,retoricas1 que eles aprendem1 fiquei tambem persuadido1 serem elas tais1 que nam podiam produzir1 outro fruto4 ,e1 valha a verdade1 nam s os rapazes que estudam1 mas nam sei se os mesmos mestres1 vivem persuadidos desta razam3 porque observo1 que falando-lhe muito1 em exemplos ,latinos1 nam se-servem dos-vulgares1 para mostrar o artificio da-,retorica4 ,como se os preceitos s servisem1 para compor ,latim1 e orasoens estudadas3 ou como se nas linguas vulgares1 nos-discursos familiares1 nam pudesem ter lugar1 os preceitos da-,arte6 ,e com isto ficam novamente persuadidos os estudantes1 que s para orasoens ,latinas1 serve a ,retorica4 ,mas por-pouco que se-examine1 o que ,retorica1 acharse1 que ,arte de persuadir3 e por consequencia1 que a unica coiza1 que se-acha1 e serve no-comercio umano2 e a mais necesaria para ele4 ,onde quem diz1 que s serve para persuadir na cadeira1 ou no-pulpito2 conhece pouco1 o que ,retorica4 ,confeso1 que nos-pulpitos1 e cadeiras faz a ,retorica gala1 de todos os seus ornamentos3 mas nam se-limita neles3 todo o lugar teatro para a ,retorica4 ,nam agrada um livro1 se nam escrito com arte3 nam persuade um discurso1 se nam formado com metodo4 finalmente uma carta1 uma resposta1 todo o exercicio da-lingua1 necesita da-diresam da-,retorica4 ,a mesma ,filozofia1 serve-se utilmente da-elegancia4 ,a ,teologia tem necesidade dela2 porque 7como adverte um omem douto7 nam pode explicar as verdades espirituais1 que sam o seu objeto1 senam vestindo-as de palavras sensiveis1 com que as-persuada4 ,a ,lei ou ,civil1 ou ,canonica1 nam se-pode dispensar1 da-,retorica4 ,como -de orar um ,advogado1 informar o ,juiz1 defender o ,reo2 se ele nam sabe1 em que lugar devem estar as provas1 ou de que prova -de servir-se1 para aclarar a verdade da-sua cauza1 e excitar os afetos do-,juiz8 ,como -de compor uma escritura1 se ele nam sabe1 o metodo de a-tecer1 de dilatar os argumentos1 e servir-se das-suas proprias razoens8 ,o discurso de um omem despido de todo o artificio1 nam pode menos1 que ser um ,cahos4 ,poder ter boas razoens3 excogitar provas mui fortes3 mas se as-nam-sabe dispor com ordem1 quem poder intendlo8 quem se-persuadir delas8 ,a dispozisam das-partes1 d nova alma ao todo3 convida a conhecer as proporsoens3 mostra a relasam e dependencia1 que umas tem das-outras3 coloca na sua justa proporsam1 o que de outra sorte nam se-poderia intender4 ,os diamantes1 os rubis1 e outras pedras preciozas sam belas1 e servem de grande ornamento3 mas segundo o lugar em que estam4 ,encastoadas com artificio1 mostram toda a sua galantaria1 e dam novo lustre mesma prata1 e oiro que as-rodeia2 e ornam muito as pesoas1 que as-trazem3 postas porem sem ordem em um monte1 ou misturadas com outras pedras1 nam parecem preciozas1 mas ou pedras groseiras1 ou cristais4 ,os astros1 que compoem a beleza do-,universo1 nam tem em si mesmos1 beleza alguma3 mas a proporsam os-faz vistozos4 ,quem vise a ,lua de perto1 acharia um globo1 sem diversidade alguma deste terreste3 o mesmo digo1 dos-outros planetas opacos4 ,quem examinse de vizinho o ,sol1 nam veria mais1 que uma fogueira3 o mesmo digo1 dos-outros igneos4 ,mas todos estes vastos globos1 postos na sua justa proporsam1 fazem tal efeito1 mostram tam extraordinaria beleza2 que um famozo argumento1 para ver1 a suprema mam que os-criou4 ,o ,sol posto no-centro do-,universo1 segundo a ipoteze 7que agora suponho7 de ,copernico1 d luz aos mais planetas1 alma ao ,mundo1 vigor terra1 utilidade aos omens1 e gloria ao seu criador4 ,se se-chegse mais vizinho a ns1 queimaria tudo3 e acabava-se o ,mundo4 ,e eisaqui o efeito1 da-boa proporsam e ordem4 ,um omem douto advertidamente chamou ,retorica1 a ,perspetiva da-razam3 porque na ordem inteletual faz o mesmo1 que a ,perspetiva1 nas distancias locais4 ,em uma taboa liza1 ideia a pintura um palacio1 com imensa profundidade3 e muitas vezes com tal artificio1 e tam semelhante ao natural1 que se-enganam os olhos4 ,nam sam as cores que originam1 esta delicioza equivocasam2 porque com uma s cor1 se-consegue o mesmo intento3 mas a dispozisam das-partes1 o saber pr cada uma na sua justa distancia1 o saber-lhe dar as sombras1 com proporsam da-arte1 produz este maravilhozo efeito3 e faz que eu veja1 reconhesa1 e admire1 o que de outra sorte nam poderia ver4 ,este mesmo o cazo da-,retorica4 ,ela tem forsa tal1 que me-obriga a descobrir1 o que eu de outra sorte nam vera4 ,os materiais podem ser simplezes1 as razoens mui singelas2 mas a dispozisam delas far efeitos tais1 que sem ela nam se-conseguiriam4 eu verei1 e intenderei1 o que sem ela nam facil intender4 ,ora de toda esta doutrina se-concle1 a extensam da-,retorica3 porque sendo ela a que d alma1 a todos os discursos2 e novo pezo1 a todas as razoens2 fica claro1 que tem lugar em toda a parte1 em que se arrezoa e discorre4 ,dirmem1 e ja mo-diseram alguns1 que este discurso dirigido1 a introduzir um estilo afetado nas conversasoens2 e carregar todos com o pezo1 de falar por-tropos e figuras3 nam proferir discurso1 que nam seja segundo as regras da-arte3 cuja afetasam pior1 que falar sem ,retorica4 ,mas esta objesam igualmente distante1 da-boa razam1 que do-meu intento2 e unicamente fundada1 em nam saber1 que coiza ,retorica4 ,permita-me ,v4,p4 que eu me-dilate alguma coiza1 neste particular1 para explicar o que digo1 o que devo1 e livrar a muita gente1 deste prejuizo4 ,os rapazes1 que estudam nestes pazes1 nam sabem nada de ,retorica1 porque lha-nam-ensinam3 ,os que sam adiantados1 e continuram os estudos1 sabem ainda menos2 porque bebram principios1 tam contrarios boa razam1 que ficam imposibilitados1 para se-emendarem4 ,em todo este discurso protesto1 que nam falo daqueles omens1 que com raro juizo1 e fina critica se-dezenganram1 das-preocupasoens comuas1 e seguem outra estrada3 dos-quais eu conheso alguns3 falo somente do-,comum1 e falo fundado nas suas obras3 nas quais se-reconhece a verdade1 de quanto digo4 ,estam todos persuadidos1 que a ,eloquencia consiste na afetasam1 e singularidade3 e1 por-esta regra1 querendo ser eloquentes1 procuram de ser mui afetados nas palavras1 mui singulares nas ideias1 e mui fra de-propozito nas aplicasoens4 ,tem ,v4,p4 mui belo exemplo nos-sermoens3 que eu1 para maior clareza1 dividirei em varias especies4 ,encomenda-se um sermam v4g4 de ,exequias1 de um ,general4 ,o meu bom ,pregador mostra aqui1 todo o seu ingenho1 e eloquencia4 ,saie logo um texto da-,escritura1 para tema3 e -de ser do-testamento ,velho1 porque -de ser profetico4 ,no-sermam mostra o ,pregador1 que estava revelado1 na escritura da-,antiga igreja1 que aquele ,general avia fazer famozas asoens3 e nam s asoens in genere eroicas1 mas especialmente estava revelado1 que avia ganhar a batalha do-,canal1 ou das-,linhas de ,elvas4 ,e isto estava profetizado1 com tanta individuasam1 que nam se-podia dezejar mais4 ,despois1 vai recolhendo as outras profecias1 da-vida daquele ,general4 ,mostra1 que a batalha de ,saul contra os ,filisteos1 era figura da-grande batalha1 que o seu eroe ganhou4 ,se sucedeo1 que nesta batalha algum piquete1 dse principio asm2 se era em partes montuozas2 nam deixa de observar1 que tudo iso tinha ja sucedido a ,jonatas1 e ao seu escudeiro3 onde vem1 que at aquela circunstancia1 estava profetizada4 ,pasa adiante1 e comesa a levantar1 e requintar pensamentos4 ,diz1 que o seu eroe1 era maior que ,saul1 nam s de corpo1 mas tambem de animo3 que era mais afortunado que ,david3 mais prudente que ,salamam3 ,e se nam logo um texto claro1 com que se-prove isto1 nam falta um expozitor1 que diga uma palavra1 da-qual o ,pregador conclue manifestamente1 que o texto nam se-pode intender1 de outra sorte4 ,daqui pasa um pouco mais para baixo4 ,mostra1 que ,alexandre ,magno1 em sua comparasam1 era um ridiculo3 que o seu eroe tinha um corasam1 ao menos1 como metade da-,america3 que fez coizas1 que a ninguem vieram imaginasam3 e que somente a ele se-pode aplicar o1 ,siluit terra in conspectu ejus4 ,se tem alguma noticia de-,istoria1 nam deixa de mostrar1 que ,julio ,cezar1 ,paulo ,emilio1 ,quinto ,fabio1 ,anibal1 ,pirro1 c4 podiam ser seus dicipulos4 ,e outras coizas destas1 que se o dito ,general fose vivo1 e as-ouvise1 nam podia deixar de envergonharse1 de tal panegirico4 ,isto quanto ao asumto4 ,quanto dispozisam3 ,despois de um grande exordio1 e comumente improprio1 divide o sermam em trez pontos3 raras vezes em dois3 rarisimas conclue com um s discurso4 ,promete mostrar em cada um1 que o seu eroe teve uma singularidade1 a maior do-mundo3 o que tudo quer tirar1 da-,sagrada escritura4 ,pede a grasa1 paraque ,deus lhe-inspire1 o que deve dizer1 em materia de tanta importancia3 e prosegue o sermam1 na frma dita4 ,se pois as exequias sam de ,molher1 saie logo1 o ,mulierem fortem quis inveniet8 e nam a-tendo achado o ,sabio1 afirma ele1 que a gloria de achar esta mulher1 estava rezervada sua diligencia4 ,e1 aindaque a ,senhora fose ,religioza1 e de animo pacifico2 nam pode deixar de intrar1 o fato de ,judita2 em que ele mostra1 que a dita ,senhora ,judita3 a sua espada eram as diciplinas1 e cilicios3 ,olofernes era a figura do-mundo1 que ela matou1 e prostrou com facilidade1 c4 ,mas como na escritura ,antiga1 poucos exemplos de molheres eroicas1 recorre logo ,nova1 e la vai buscar1 a ,molher do-,dragam1 e outras destas figuras4 ,finalmente1 discorre das-virtudes da-dita ,senhora1 polo estilo das-do-,general4 ,nam me-negar ,v4,p4 que esta a pratica deste ,reino3 porque lhe-mostrarei1 muitos livros impresos1 em que se-acham estes sermoens2 e de omens que tiveram1 e conservam grande fama4 ,progunto agora3 acha ,v4,p4 que isto pregar8 que saber discorrer8 que ser eloquente8 ,em primeiro lugar1 o tema da-,escritura1 e as provas tiradas dela1 sam erro de toda a considerasam4 ,estes ,pregadores nam devem ter lido1 o concilio de ,trento#cj1 que proibe1 uzar das-palavras sagradas1 aplicadas a coiza profana3 nam devem saber1 que expresamente proibido1 explicar a ,escritura1 senam segundo a expozisam1 dos-,,ss4,,pp4 da-,igreja4 ,concedo1 que um expozitor moderno1 disse alguma propozisam1 que se-pudese aplicar ao asumto3 por-iso ei-de seguila8 quantos destes expozitores1 nam vemos todos os dias1 que nam sabem o que dizem8 que omem prudente faz cazo1 de semelhantes escritores1 que nam fundam a sua expozisam1 na doutrina da-,igreja8 ,despois diso1 quem poder defender aquelas provas1 tiradas da-,escritura8 ,ou quer o ,pregador dizer1 que os fatos da-,antiga igreja1 eram figura do-seu asumto2 e esta uma propozisam temeraria1 por-nam lhe-dar outro nome2 e contraria comua doutrina dos-,padres1 e da-,igreja3 ou nam se-persuade disto2 e nam se-livra da-censura1 fulminada por-muitos canones1 por-abuzar imprudentemente1 de palavras sacrosantas4 ,porque eu nam acho1 que semelhante aplicasam seja outra coiza mais1 que aplicar com grande irreverencia1 umas palavras santas1 a um sentido1 para que nam foram proferidas3 e a um sentido indigno1 profano1 e falso3 que o mesmo1 que condena o ,concilio4 ,respondem alguns1 que isto quando muito prova1 que a aplicasam nam boa2 por-ser de coiza sagrada1 a uma profana3 mas nam prova1 que no-sermam nam se-observram1 os preceitos da-,oratoria4 ,mas esta mesma resposta mostra1 que nam intendem1 que coiza ,retorica4 ,se a ,retorica arte de persuadir1 quem mais se-persuadio com provas1 que nam fazem ao cazo8 ,que omem de juizo -de intender1 que aquele ,general foi grande1 porque ,saul o-foi tambem8 que parentesco tem uma coiza1 com outra8 ,e como a obrigasam daquele panegirista seja1 mostrar1 e engrandecer1 as virtudes do-seu eroe2 todas as provas que tirar da-,escritura1 nam concluem para o seu intento4 ,conheso1 que alguma vez se-pode alegar1 um paso da-,escritura1 damesma sorte que se-cita um paso1 da-istoria ,profana3 porque a istoria da-,escritura1 tambem na materia de ,politica ensina muito3 mas neste sentido nam se-servem1 os ,oradores deste ,reino1 como coiza notoria3 porem sim1 no-sentido de profecia4 ,se pois aquele paso1 nada faz ao cazo1 com que razam o-alega8 ,pode-se chamar ,orador1 um omem que se-funda em razoens1 que nam conduzem1 para o seu intento8 ,temos ja1 que a este omem falta1 a principal parte de ,orador1 que ,inventio3 o saber buscar razoens proprias1 para o seu intento1 e que prvem o que ele quer4 ,peca logo na aplicasam3 e niso mesmo peca1 contra a ,retorica4 ,suponha ,v4,p4 que da-outra parte estava outro ,orador1 que respondse aos argumentos4 suponha que o cazo sucedia no-,egito1 aonde antigamente se-expunham os cadaveres1 diante dos-juizes1 para serem julgados4 ,um publico acuzador1 referia todos os defeitos1 e respondia aos louvores1 que nam eram fundados4 ,se o omem era de boa fama1 dava-se a sentensa a seu favor1 e enterrava-se com onra e panegirico1 acompanhado de grandes louvores do-,povo3 se era condenado1 privava-se de sepultura1 e a sua memoria ficava abominavel#ca4 ,que coiza julga ,v4,p4 que diria o noso ,pregador1 neste cazo8 parece-me1 que ficaria convencido de falsidade1 o ,orador2 e envergonhada a fama do-eroe1 que ele nam soubera defender4 ,ora esmeuce ,v4,p4 as mais partes daquele sermam1 e ver quantas faltas de ,retorica1 ali se-incontram4 ,que m dispozisam dos-argumentos6 que arrastada confirmasam das-provas6 ,isto supondo1 que o paso que ele cita1 tenha alguma semelhansa1 com o que quer provar4 ,mas nam ve ,v4 ,p4 quantas coizas os ,pregadores inculcam1 que de nenhum modo se-seguem1 do-texto8 ,este o segundo ponto1 que nam me-parece de pouco momento1 nesta materia3 e isto melhor se-conhece1 quando querem esquadrinhar1 as palavras dos-,profetas1 ou dos-livros cientificos4 ,primeiramente tomam umas palavras troncadas1 7que se fosem inteiras1 eram contrarias ao asumto7 e delas deduzem o seu pensamento4 ,e que diz ,v4,p4 a este modo de comentar8 parece-me que isto aquilo mesmo1 a que1 em bom ,portuguez1 se-chama1 impostura3 porque tirar pensamentos de um texto1 que nam diz tal coiza4 ,despois1 recorrem a um expozitor1 ou ,s4 ,padre1 o qual talvez guiado do-furor do-seu zelo1 ou com exceso retorico1 dise alguma propozisam1 que1 para nam ser erezia1 necesario tomla muitos furos abaixo1 do-que soa3 no-que concordam todos os ,criticos1 e ,teologos4 ,aqui o meu ,pregador1 sem perder nem menos uma silaba1 traduz a propozisam como se-acha3 e nela ,levanta uma machina de paradoxos1 com que pertende provar1 coizas mui verdadeiras1 e sezudas4 ,nam cito exemplos1 porque falo com ,v4,p4 que sabe mui bem1 de quem eu falo4 ,e aver quem me-negue1 que isto faltar ,retorica8 aver quem se-atreva a dizer1 que isto saber elogiar8 ,se os argumentos sam verdadeiros1 sempre sam fra do-asumto3 se o-nam-sam1 nam deixam de ser imposturas3 e nam sei qual destas1 pior falta de ,retorica4 ,mas prosigamos o exame1 e vejamos o que fazem1 nos-outros asumtos4 ,saie um sermam de asm de grasas a ,deus1 por-algum grande beneficio concedido2 como saude1 batalha c4 ou por-alguma asm m castigada1 com gloria de ,deus2 como o roubo do-,sacramento em ,s4,engracia1 ,ato da-,f c4 ,intende ,v4,p4 que por-mudarem de asumto1 mudam de metodo8 nam senhor3 e a pratica mostra o contrario4 ,o argumento dos-primeiros dois sermoens deve ser1 dar grasas a ,deus1 por-tam especial beneficio3 e excitar a piedade dos-,fieis1 para que o-louvem1 por-este favor que fez4 ,este o asumto3 e a este fim deve o ,pregador dirigir1 todos os seus particulares argumentos4 ,mas iso o que ele nam faz4 ,o que ele cuida 1 buscar algum conceito sutil1 e singular1 com que posa dizer alguma novidade1 e mostrar o seu ingenho4 ,eu li um sermam do 99 99 99 que pertencia a uma destas clases3 em que o ,pregador1 por-querer dizer uma novidade teologica1 dise uma erezia3 que somente o-nam-foi na sua boca1 porque nam intendeo1 o que dise3 aindaque tivese bastantes anos1 ensinado ,teologia4 ,la achou porem um ,s4,padre moderno1 que cuido fose ,s4 ,bernardo1 que lhe-deo materia ao conceito4 ,mas a verdade 1 que o dito ,s4 que frequentemente uza de iperboles1 nam dise literalmente1 o que ele supoz4 ,mas fose o que fose1 o sermam teve mil aplauzos1 e impremio-se com onra 99 99 994 ,ja se-sabe1 que a saude ou batalha1 -de ser profetizada1 na ,escritura do-,antigo testamento1 ou polo menos do-,evangelho1 e com sinais mui particulares3 porque segundo estes autores1 nam sermam sem tema sagrado2 seja o que for4 ,se o tema nam calsa bem1 nam falta quem o estenda3 que este o comum refugio1 de todos estes senhores4 ,contou-me pesoa mui verdadeira1 que1 achando-se em certa ,cidade deste ,reino1 sucedra1 que a molher de um tangedor de rabeca1 fazendo voto por-uma infermidade perigoza2 quando se-vra livre1 quizera agradecer ao ,santo1 o tal beneficio1 com uma festa estrondoza1 e com sermam4 ,o dito amigo conhecia o ,pregador3 e incontrando-se com ele1 dise-lhe3 ,que tema toma vos8 ao que ele respondeo1 ,ja tenho escolhido as palavras3 ,surge1 ascende ,bethel2 fac ibi altare c4 ,reproguntou o meu amigo1 ,que conexam tem iso1 com o que vos quer dizer8 ao que o ,pregador respondeo seriamente3 ,o texto otimo3 porque que ,jacob era rabequista1 iso provo eu logo1 com dez expozitores4 ,e com efeito o sermam1 saio semelhante promesa4 ,eu mesmo asisti uma vez a um sermam1 de asm de grasas1 porque ,deus concedra chuva1 despois de uma grande esterilidade4 necesario advertir1 que se-tinham feito varias procisoens1 com imagens milagrozas1 semque ,deus ouvise1 os clamores do-,povo4 ,na ultima1 levram um ,cristo com a cruz2 e sucedeo1 que pouco despois choveo alguma coiza4 ,o meu ,pregador1 que tinha fama de grande letrado1 prometeo mostrar no-sermam1 que a chuva nam podia vir1 por-outro estilo4 ,e provou isto1 com a nuvem de ,elias3 a qual asimque a pareceo1 desfez-se o ceo em tempestades4 ,mostrou pois1 com dois expozitores modernos1 que aquela nuvem1 era ,cristo com a cruz s costas4 ,faltavam algumas circunstancias1 entre as quais era1 a da-tempestade seguida2 que ca nam tinha exemplo4 ,remediou o omem a isto1 prometendo em pouco tempo1 a tempestade4 7o que podia seguramente profetizar2 porque despois de uma grande elevasam de vapores1 uma vez que estes comesam a mover-se1 claro1 que m-de cair7 ,sucedeo o cazo da-grande chuva3 e o meu ,pregador1 alem da-fama de ,orador1 saio com a de ,profeta2 que lhe-frutou muito bem4 ,os que sabiam pouco1 estavam pasmados1 da-felicidade de ingenho do-omem3 mas um dos-que estavam no-confeso1 e tinha pezado bem o sermam1 falou-me em diferente maneira4 ,e destes sermoens1 pudera eu citar infinitos4 ,se o sermam do-dezagravo do-,sacramento1 ja se sabe1 que somente pregar bem1 quem mostrar1 que textos expresisimos1 em que se-declara1 que no-ano ,n4 sendo ,bispo ,n4 ,mordomo da-festa ,n4 s tantas oras do-dia1 avia suceder a dita coiza4 ,mas nam basta isto1 porem necesario1 algum novo pensamento1 que comumente prova tudo o contrario1 do-que quer persuadir4 ,e aqui devem intrar1 todas as outras circunstancias1 que apontmos4 ,nam se-lembra o ,pregador1 que o asumto sempre o mesmo3 que 1 dar grasas a ,deus1 por-descobrir1 com altisima providencia1 os sacrilegos3 e com iso mostrar1 a sua mizericordia1 mansidam1 e justisa3 e que este asumto sempre se-deve inculcar1 variando unicamente as palavras1 com mais ou menos ingenho1 segundo o cabedal de quem fala4 ,nam adverte1 que faria muito maior impresam1 pintar a atrocidade daquele delito1 de uma parte2 e da-outra1 as infinitas virtudes1 que ,deus quiz mostrar1 naquele castigo4 ,nada disto lembra ao ,pregador4 o que emporta 1 subtilizar bem4 ,mas o que dali se-segue 1 sair o auditorio tam persuadido1 da-pouca capacidade do-,pregador1 como pouco persuadido1 do-que ele determinra persuadir-lhe4 ,e que nam diz um destes amigos1 quando se-lhe-encomenda um sermam de ,intrada1 ou ,profisam de ,freira6 ,aquele sermam nada mais 1 doque um panegirico da-eleisam1 e perseveransa da-,freira1 e outras boas qualidades2 acompanhado de uma exortasam1 para perseverar na virtude4 ,isto o que deve dizer o ,pregador3 mas isto o que nenhum diz4 ,o que importa 1 mostrar1 que esta ,freira era tanto do-agrado de ,deus1 que mandou ao mundo um1 ou muitos escritores ,sagrados1 para lhe-comporem a vida1 muitos seculos antes de nacer4 ,um amigo meu teve a incumbencia1 de um destes sermoens3 e logo lhe-advertram1 que teria mui boa paga1 se achse na ,escritura1 toda a vida da-,freira4 ,ela era ,dominicana1 e mui devota do-,rozario3 tinha sido ,pupila alguns anos1 no-dito ,convento3 o sermam era na oitava da-festa do-,rozario4 ,ele1 que somente queria um bom prezente1 tomou as palavras do-capitulo ,,iv4 do-,cantico3 ,veni de ,libano sponsa mea1 veni de ,libano1 veni3 coronaberis4 ,mostrou1 que a ,freira tivera tres estados1 de ,pupila1 ,novisa e ,profesa3 e que a cadaum conrespondia sua vocasam1 e seu veni1 com que ,deus a-chamava1 por-boca de ,salamam4 ,que o ,libano1 reprezentava o ,mundo1 donde ,deus a-chamava para o ,claustro4 ,coronaberis1 explicava a ,religiam1 que toda consagrada ao ,rozario3 e que no-mesmo ,rozario1 que uma coroa de rozas1 achava o premio da-sua eleisam1 e obediencia4 ,acomodou novamente isto ao ,rozario1 dividido em misterios dolorozos1 gozozos1 e gloriozos2 cada especie dos-quais conrespondia1 aos seus trez estados3 o que ele provou1 com textos expresisimos4 ,desorteque a concluzam do-negocio foi1 que todas as circunstancias da-vida da-,freira1 estavam profetizadas com tanta clareza1 por-,salamam2 que qualquer cego reconheceria1 que aquele texto somente falava1 da-,senhora ,d4 ,fulana1 filha de ,fulano1 moradora em tal parte1 ,freira em estoutra1 c4 ,o que eu sei 1 que toda esta metafizica frutou1 cinco moedas1 e um bom prezente3 e que as ,freiras nam cabiam na pele de contentes4 ,e isto sucede todos os dias3 e alguma vez eu o-tenho prezenciado1 nestas festas4 ,se o sermam do-,ato da-,fe1 comumente declinam para dois extremos3 ou nam chegam a dizer1 o que devem2 ou dizem muito mais1 do-que nam devem4 ,o ,santo ,oficio justamente manda pregar1 queles omens penitenciados1 para os-alumiar na sua cegueira3 e esta uma ideia sacrosanta4 ,mas eu nam sei1 se os tais ,judeos ficam persuadidos3 o que sei 1 que os sermoens que eu leio1 nam sam proprios1 para os-persuadir4 ,avemos asentar em primeiro lugar nisto1 que estes ,judeos ,portuguezes1 sam ignorantisimos diso mesmo1 que querem profesar4 ,nam sabem mais1 senam que o ,sabado se-deve guardar3 e outras noticias gerais4 de lingua ,ebraica nada sabem3 menos de ,caldaica3 que sam as duas linguas1 em que estam escritos1 os ritos e costumes ,judaicos4 ,isto sem duvida3 e quem ouve os procesos1 conhece claramente1 qual a sua ignorancia neste ponto4 ,quanto ignorancia dos-ritos ,judaicos1 nam necesario alegar1 testemunhas ,orientais1 nem ir buscar os ,rabinos1 ,maimonides1 ,jacob ,baal-aturim1 ,joseph ,caro c4 basta que ,v4 ,p4 leia o ,sigonio1 ,menochio1 ,cuneo1 ,reimero1 ,spencero1 que escrevram eruditamente1 de ,republica ,hebrorum3 ou algum dos-outros1 que tratram das-escolas1 e ritos1 como ,selden1 ,godvvin c4 e ficar mui bem persuadido1 que estes seus ,portuguezes1 nam sabem que coiza ser ,judeo3 e sam ,judeos1 mais por-genio depravado1 que por-erudisam4 ,isto suposto1 alguns ,pregadores1 como o ,cranganor1 para mostrarem a sua erudisam ,rabinica1 entram em certas materias dificultozas1 e procuram noticias mui particulares1 tiradas dos-que impugnram os ,rabinos2 para mostrarem aos ,judeos1 o seu ingano4 ,copeiam fielmente1 toda a noticia que se-lhe-oferece1 na tal materia3 nam sem se-inganar algumas vezes1 como sucedeo ao dito ,cranganor2 que por-nam ter inteligencia1 das-ditas linguas1 nem da-istoria ,judaica1 nem ter nunca aberto o ,talmud2 servio-se algumas vezes de argumentos1 que tem mui boas respostas4 7devemos confesar em obzequio da-verdade1 que entre os ,ebreos ouveram sempre1 omens mui doutos1 que propuzeram tais dificuldades sobre a ,escritura1 que fazem suar muitos ,catolicos doutisimos1 para lhe-responder4 onde sem exquizita erudisam1 melhor nam tocar1 semelhantes materias7 ,finalmente forsa de ajuntarem noticias1 em lugar de um sermam1 fazem um tratado ,contra ,judos4 ,o que digo1 com boa paz do-dito ,arcebispo1 e seus apaixonados3 porque nam quero diminuir-lhe a estimasam3 mas somente trazelo para exemplo1 do-que aponto4 ,o que se-segue daqui 1 que com todo este trabalho1 nem fazem sermam1 nem podem persuadir2 pois nam proporcionam as provas1 ao asumto4 ,porque inculcar erudisam ,rabinica1 a omens totalmente ignorantes destas materias1 manifestamente zombar do-seu emprego1 e do-auditorio3 e tanto vale isto1 como se lhe-pregasem em ,persiano1 ou discorresem em diferente materia4 ,alem diso1 grande diversidade1 entre uma disputa1 e um sermam2 entre uma disertasam1 e uma exortasam3 e perde o seu tempo e a sua fama1 quem confunde estes dois nomes1 e o significado deles4 ,ora eisaqui tem ,v4 ,p4 o que fazem estes1 com quererem dizer muito4 ,os outros1 que asima apontamos1 seguirem diversa estrada1 nam sei se os-chame1 mais condenaveis4 ,estes sam aqueles1 que querem pregar aos ,judeos1 polo estilo dos-outros sermoens1 com conceitos sutis1 e pensamentos exquizitos4 ,e nam necesario muito para intender1 que se os ,catolicos ,romanos1 que estudamos aquela doutrina1 que eles inculcam2 os-nam-intendemos1 e nos-dezagradam muito2 que coiza suceder1 aos ,judeos8 ,ouve s vezes ,v4 ,p4 propor um asumto1 que parece ao intento3 segue com o pensamento1 o ,pregador no-seu discurso3 e quando nam se-precata1 este o-dezempra1 e infere uma consequencia tal1 que obriga a rir4 ,seguro a ,v4 ,p4 que1 tendo lido alguma coiza nesta materia1 e tendo observado muito2 somente neste genero achei1 um sermam ,portuguez1 que se-pudese ler3 aindaque tambem carregava no-silogismo1 e intrava bem dentro na ,metafizica3 mas foi o que vi menos mao4 ,mas1 colhamos as velas1 parece a ,v4 ,p4 que este modo de pregar louvavel1 ou toleravel8 parece-lhe1 que est fra da-jurisdisam1 de uma arrezoada critica8 ,o nam proporcionar as provas ao auditorio1 ou seja dizendo-lhe1 o que eles nam chegam a intender2 ou falando-lhe com ideias1 de que ninguem se-pode persuadir2 erro da-primeira esfera4 ,temos outro modo de pregar1 aos ,ebreos idiotas1 deixando de parte1 toda a verdade especulativa1 e servindo-se unicamente1 de exemplos sensiveis3 os quais1 bem discorridos1 produzem efeitos1 que talvez se-nam-alcansam1 com erudisam mui exquizita4 ,de todos os argumentos1 que se-oferecem para persuadir1 a extinsam da-,antiga igreja1 deve o orador escolher1 os menos embrulhados2 e persuadilos1 com a forsa da-sua eloquencia4 ,niso que consiste a arte1 em dilatar os argumentos1 que nam sam reconditos4 ,a vinda de ,cristo ao mundo1 oje bem clara3 e para o-ser mais1 necesario ter cuidado1 em dispor os-argumentos1 e fugir das-sutilezas4 ,nam verdade mais notoria1 que a existencia de um ,deus3 e observasam dos-melhores ,filozofos1 e ,teologos1 que os antigos ,padres para a-provarem1 nam se-serviam de sutilezas inauditas3 mas contentavam-se com a prova mais trivial1 que 1 a existencia do-,mundo1 e principalmente deste noso globo terreste4 ,esta unica prova1 bem explicada e esmeusada1 convenceo o intendimento umano muito mais1 doque nam fizeram1 despois do-undecimo seculo1 todas as sutilezas dos-,dialeticos3 e ainda oje os melhores ,filozofos asentam1 que s nela nam se-acham sofismas4 ,isto ao que ns chamamos1 saber conhecer o merecimento das-provas1 e saber manejar a eloquencia4 ,mas os nosos ,pregadores1 intendem o contrario3 e s cuidam em procurar ideias1 que a ninguem tenham ocorrido3 e por-iso nacem aqueles sermoens1 de que o mundo ,literario se-ri4 ,a outra especie de sermoens1 em que com mais facilidade1 se-dizem despropozitos1 sam os ,panegiricos de ,santos4 ,esta especie compreende1 muitas sortes de sermoens3 nos-quais infinitas coizas1 que condenar4 ,ouvir ,v4 ,p4 coizas1 que cauzam orror4 v4g4 ,devem pregar um sermam de ,s4 ,antonio3 em que deviam referir1 as virtudes do-,santo3 ilustrlas com o artificio da-,retorica2 para animar os fieis a imitlo4 ,mas isto1 que era a obrigasam do-,panegirista1 parece coiza mui trivial1 aos ,pregadores modernos4 ,julgariam que ficavam dezacreditados1 se-dizesem s esta verdade4 necesario levantar machina3 e fazer uma trepesa1 composta de mil ridicularias4 ,dividem pois o sermam1 nas-trez partes solitas3 em cada uma das-quais prometem provar coizas1 que nada tem de verosimel4 v4g4 ,que ,s4 ,antonio nam foi omem1 mas anjo3 e a este seguem-se outros pontos1 damesma especie4 ,concluem pois1 que se a ,f nam estudse cautelas1 chegariam a dizer1 que se equivocava com ,deus4 ,eu tenho ouvido isto1 algumas vezes3 e contou-me pesoa de muita autoridade1 que ouvira ele mesmo1 em certa ,cidade do-,reino1 propor estes trez pontos3 ,que o ,santo de que pregava1 era grande omem3 grande anjo3 e grande ,deus4 e que tudo isto avia de sair1 do-,evangelho4 ,e segurou-me a dita pesoa1 que1 ouvindo isto1 sara da-igreja1 sem querer esperar polas provas3 tam escandalizado ficou6 ,lembra-me ao intento1 o que escreve um autor1 mui acreditado em ,portugal4 ,pregava ele de ,s4 ,antonio1 com o costumado tema1 ,vos estis lux mundi3 e querendo dizer alguma coiza singular1 tirou este asumto3 ,que uma vez que ,s4 ,antonio naceo em ,portugal1 nam fora verdadeiro ,portuguez1 se nam fora luz do-mundo4 porque o ser luz do-mundo nos-outros omens1 s privilegio da-,grasa3 nos-,portuguezes1 tambem obrigasam da-,natureza4,pareceo-me argumento nam s singular1 mas inaudito1 querer fazer que os ,portuguezes1 fosem ,apostolos por-natureza3 muito mais1 porque se o ,pregador provse o que prometia1 tam longe estava1 de fazer ao ,santo um ,panegirico1 que lhe-preparava uma ,satira3 e desmentia com as suas provas1 aquelas singularidades1 que queria descobrir no-,santo3 pois quando muito se-diria1 que pregava de todos os ,portuguezes4 ,com esta opiniam examinei as provas3 as quais se-reduziam a isto4 ,que ,cristo constituira os ,portuguezes1 ,apostolos das-,nasoens estrangeiras3 e que asim o-prometra1 a ,el-,rei ,d4 ,afonso ,i4 e1 como se nam ouvse1 quem negse tal coiza1 chama-lhe verdade autentica4 ,a isto acrecenta1 uma profecia de ,s4 ,tom1 7nam sei em que archivo a-achou7 que os ,infieis se-conquistariam na ,india1 com as armas de ,portugal3 nam com as de ferro1 mas com as do-escudo1 que sam as ,quinas3 as quais ,cristo1 diz ele1 deu aos ,portuguezes1 por-armas4 ,e como ,s4 ,antonio era ,portuguez1 avia conquistar ,infieis1 como fez3 e avia conquistlos com as ,quinas3 que nam s de ,portugal1 mas tambem sam as armas1 da-minha ,religiam4 ,pareceo duro ao ,pregador dizer1 que os ,indios se-aviam conquistar com as ,quinas1 e nam com as espadas3 mas a isto1 achou ele genuina solusam1 na saida que os ,ebreos fizeram1 do-,egito4 ,pondra1 que1 sendo-lhe proibidas as armas1 diga a ,vulgata#cb3 ,armati ascenderunt filii ,israel de terra ,aegypti4 ,examina pois1 que armas eram estas3 e logo as-acha1 no-original ,ebreo1 que diz3 ,ascenderunt filii ,israel quini1 quini ,a sim1 diz o ,pregador1 saram os ,ebreos com quinas2 pois esas lhe-servirm de armas1 ascenderunt armati4 ,confirma isto1 com as cinco pedras de ,david1 das-quais afirma1 que eram as cinco chagas de ,cristo1 tiradas da-torrente do-seu sangue1 com as quais derrubou o gigante4 ,esta a virtude das quinas4 ,por-iso ,s4 ,antonio seguio as bandeiras das-quinas1 para mostrar que era ,portuguez1 derrubando com elas1 o ,filisteo da-,erezia4 ,at aqui o ,pregador4 ,esta em sustancia a primeira prova do-dito sermam2 na qual achar ,v4 ,p4 materia1 para mil reflexoens4 ,deixo as istoricas1 pois bem claro1 que sam mui ligeiras provas1 para afirmar tal paradoxo4 ,esta aparisam ao ,rei ,d4 ,afonso3 a redoma de vidro cheia de olio1 que veio do-,ceo a ,clodoveo3 e outras destas coizas1 que se-acham nas istorias1 sam boas para divertir rapazes3 e os ,criticos as-conservam todas1 no-mesmo armario1 em que guardam as penas da-,fenix4 ,mas nam poso perdoar-lhe1 a m interpretasam1 e aplicasam do-texto4 ,este autor certamente nam leo o texto ,ebreo1 ou se o leo1 nam o-chegou a intender3 porque o texto diz uma coiza1 muito diferente1 doque ele supoem4 verdade1 que o texto ,ebreo serve-se de uma palavra1#cc que em ,latim quer dizer1 ,quintati3 como se diseramos1 de cinco em cinco3 mas este modo de falar nam proprio2 translato1 e deduzido do-estilo belico4 ,donde vem1 que explicando os antigos ,ebreos1 a dita expresam1 asentam todos que quer significar1 armados4 ,s diversificam1 para explicar particularmente1 a forsa da-dita palavra4 ,kimchi diz asim3 ,cingidos de armas1 na quinta costa4 outros explicam3 ,cingidos com cinco generos de armas4 ,sepharadi verte3 ,quinque turmis ascenderunt1 sub quatuor vexillis4 ,nam ,moises cum senioribus ,israel1 in medio quatuor turmarum manebat4 ,alem diso1 todos os omens mais doutos na lingua ,ebreia1 expondo a dita expresam1 despois de porem o termo proprio e literal1 que ,quintati1 acrecentam1 id est1 ,accinti1 ,expediti3 que o mesmo que1 ,armati1 ,parati4 ,desorteque com grandisima advertencia1 o tradutor da-,vulgata dise1 ,armati4 ,e quer dizer o ,ebreo1 que os ,israelitas saram armados1 e em frma de batalha2 promtos para acometerem1 e se-defenderem4 ,e isto coiza certa1 entre os doutos4 ,o que suposto1 veja ,v4 ,p4 que parentesco tem isto1 com as quinas4 ,alem diso1 suponhamos que verdadeiramente se-devia intender1 de cinco em cinco3 que tiramos daqui para o intento8 poderia dizer o texto1 que am quini1 quini3 mas nunca dise3 ideo armati1 quia quini quini3 e pesima ,logica aquela1 que de duas coizas sem conexam1 tira tal consequencia4 ,tambem falso dizer1 que os ,ebreos saram dezarmados3 quando lemos o contrario3 pois nam s as batalhas que deram1 mas as obras que fizeram no-campo1 mostram bem1 que nam s armas1 mas toda a sorte de instrumentos1 levram do-,egito4 ,ja nam falo na aplicasam da-profecia1 a ,s4 ,antonio3 pois se ,s4 ,tom falou das-,indias1 que tem isto que fazer1 com ,s4 ,antonio1 que pregou na ,europa8 ,nam falo nas pedras de ,david1 cuja aplicasam tem tanta proporsam1 como entre um1 e cinco4 ,isto que unicamente disemos1 basta paraque ,v4,p4 intenda1 o conceito que se-deve fazer1 de semelhantes sermoens3 os quais nada mais sam1 que um mero jogo de palavras1 sem verdade1 nem verosimilidade alguma3 e que se-desfazem em vento1 quando1 se-examinam de perto4 ,eu parei no-primeiro ponto3 avia ainda quatro que examinar3 mas eses deixo eu1 sua considerasam4 ,ora intende ,v4,p4 que o ,santo fica elogiado1 com tal panegirico3 que o auditorio ficar persuadido3 que o ,orador merece ser louvado1 por-tal sermam8 ,sei a resposta que ,v4,p4 me--de dar1 porque sabe dar s coizas1 a sua justa estimasam3 mas nem todos sam do-seu parecer4 e apostarei eu1 e ,v4,p4 nam mo-negar1 que mais gente estuda1 polo tal autor1 doque pola ,escritura1 e ,,ss4 ,padres4 ,o mesmo autor em outra parte1 devendo pregar de ,s4 ,bartolomeo1 e sucedendo isto em uma ,cidade1 em que se-estava para eleger1 um grande ,prelado1 que nam tinha conexam com a festa2 tomou por-tema estas palavras1 de ,s4 ,lucas3 ,elegit duodecim ex ipsis1 quos ,apostolos nominavit3 e em vez de pregar de ,s4 ,bartolomeo1 pregou das-obrigasoens das-eleisoens3 sem dizer em todo o corpo do-sermam1 uma s palavra de ,s4 ,bartolomeo4 ,no-ultimo paragrafo1 lembrou-se da-sua falta3 e1 para remediar o cazo1 diz mui secamente1 que tudo o que disera1 se-devia aplicar1 ao dito ,santo4 ,porque sendo ele o sexto ,apostolo1 estava no meio1 que o lugar de mais autoridade3 ,e a razam disto era1 porque conrespondendo ele #f4;a pedra da-nova ,jeruzalem1 que era o ,sardio2 esta no-,racional de ,aram1 era a primeira3 onde ficava claro1 que o sexto ,apostolo1 devia ser o primeiro4 ,acha nova semelhansa entre ,s4 ,bartolomeo1 e o ,sardio3 porque esta1 segundo ,plinio1 de cor de carne viva3 e conseguintemente1 um belo retrato de ,s4 ,bartolomeo1 que ficou em carne viva1 e sem pele4 ,e tornando das-peles vivas1 s eleisoens1 acaba o sermam1 damesma sorte que o-comesou4 ,progunto agora3 que outra coiza avia ele dizer1 se pregse das-eleisoens8 ,nam ignora ,v4,p4 que os sermoens panegiricos1 pertencem ao genero demonstrativo2 e quem jamais pode sofrer1 que um ,orador1 que deve elogiar ,pedro1 false de ,paulo8 ,julga ,v4,p4 que se-pode chamar justa digresam1 nam falar uma palavra no-asumto1 para se-meter em matera alheia2 e que por-titulo nenhum pertencia ao ,pregador8 ,mas examinemos ese pouco que diz1 de ,s4,bartolomeo3 eu nam acho ali coiza1 que nam seja inverosimel4 ,aquilo de querer1 que ,s4 ,bartolomeo fose criado ,apostolo na #f4 eleisam1 falso2 porque tal nam diz o ,evangelho4 ,o que eu acho no-,evangelho 1 que ,cristo1 despois do-jejum de #dj4 dias1 pasando defronte de ,joam1 e dizendo este3 ,ecce ,agnus ,dei3 dois seus dicipulos seguram ,cristo3 um deles era ,andr1 que incontrando de tarde1 seu irmam ,simam1 o-conduzio a ,cristo4 ,no-dia seguinte ,cristo chamou ,filipe3 e este1 incontrando ,natanael1 convidou-o para seguir ,cristo4 ,pouco despois1 tornando ,cristo de ,cafarnaum1 tornou a chamar ,simam1 e ,andr2 que provavelmente se-tinham apartado de ,cristo1 para exercitarem o seu oficio3 e nunca mais se-apartram dele3 e no-mesmo caminho chamou ,jacob1 e ,joam4 ,se pois ,natanael o mesmo que ,bartolomeo1 como alguns doutos modernos#cd conjeturam1 com muito fundamento2 em tal cazo o #d4 eleito3 ou o segundo1 fazendo outra contra4 ,se ,natanael diferente de ,bartolomeo1 como diz ,s4 ,agostinho#ce1 e ,gregorio ,magno#cf1 neste cazo devemos confesar1 que nam sabemos1 quando foi chamado ,bartolomeo4 ,o certo 1 que o ,evangelho nam explica1 circunstancia alguma da-sua vocasam1 e da-sua vida1 com o nome de ,bartolomeo4 ,nem menos da-,istoria temos1 como morreo ,bartolomeo2 avendo grande disparidade de pareceres3 aindaque a mais comua 1 que morrse esfolado4 ,o motivo que teve o ,pregador foi1 ver que em ,s4,lucas1 despois das-ditas palavras1 nomeia-se em #f4 lugar ,bartolomeo3 e asim intendeo1 que foram todos eleitos1 naquela ocaziam4 ,um bocadinho que soubse mais de ,istoria1 lhe-pouparia este erro1 tam censuravel em um ,teologo4 ,mas aindaque isto asim fose2 nam bastava para lhe-chamar1 a #f4 eleisam1 por-ser uma s3 e muito menos deveria esta circunstancia1 dar materia a um sermam4 ,a outra coiza1 que o #f4 ,apostolo fose mais nobre1 que o primeiro1 uma ideia nova3 o que s poderia intender-se1 se puzese-mos os ,apostolos em linha1 ou dobrase-mos a linha em angulo4 ,despois diso seguirsea1 nam que o #f4 era mais nobre que o primeiro3 mas sim1 que #f4 e primeiro era o mesmo4 ,e ja em lugar de ,,xii4 que entam se-nomeiam1 se-reduzem os ,apostolos a ,,xi4 ,tambem aquilo de querer1 que ,s4 ,bartolomeo seja maior1 que ,s4 ,pedro1 nam sei se se-pode sofrer4 ,mas pior que tudo o cazo1 da-pedra ,sardio4 ,se esta1 por-ser de cor de carne1 se-chama carnerina1 tanta semelhansa tem com ,bartolomeo1 como com os mais ,apostolos3 porque todos eram de carne1 e carne vivente4 ,mas o noso ,pregador fundou-se na palavra1 viva3 que aplicada carne1 significa em ,portuguez1 7mas nam na lingua de ,plinio7 carne sem pele3 e da que tirou o pensamento3 que1 como asima dizia1 se-reduz1 a um mero jogo de palavras4 ,este o costume destes ,pregadores3 quando se-examinam as suas provas1 com sangue frio2 nada mais sam1 que um mero trocadilho de palavras1 sem verdade1 nem ainda verosimilidade3 sem a qual certo1 que ninguem se-pode persuadir4 ,ora eu podia citar destes exemplos1 a milhares1 e sem sair do-mesmo ,pregador3 mas coiza enfadonha1 e tambem escuzada1 para quem1 como ,v4 ,p41 tem tanta pratica destes panegiricos4 ,se o panegirico de ,n4 ,senhora1 parece a estes tais1 que nam coiza1 que nam seja licito dizer1 em obzequio seu3 ,sem advertirem1 que a ,santisima ,virgem1 se-daria por-mais bem servida1 sem tais sermoens1 com a simplez relasam1 das-suas grandes virtudes4 ,o pior 1 que autores1 que fomentam estes sermoens1 com livros bem grandes compostos ao intento1 a que chamam conceitos predicaveis4 ,os ,espanhoes abundam muito disto3 e ajuntam uma infinidade de paradoxos1 que cuidam provar1 com algumas expresoens figuradas1 que se-acham nos-,,ss4 ,padres4 ,achei um ,espanhol1 chamado ,bartolomeo de los ,rios1 que compoz um groso volume1 todo tecido destas iperboles4 ,ele prova1 que ,n4,senhora meza do-,sacramento3 pam3 vinho3 ,cristo em carne4 finalmente diz tanta coiza insolita1 que nam sei como puderam vir imaginasam1 de um omem prudente4 ,e tudo isto tira de umas iperboles1 de ,s4 ,anselmo1 ,bernardo1 e alguns asceticos mais modernos4 ,estranho modo de provar6 servir-se das-figuras de que uzram os ,padres1 separlas do-contexto1 para provar uma propozisam absoluta4 ,se valse esta ,logica1 e ,retorica1 com as mesmas palavras da-,escritura1 se-poderia provar muita coiza falsa1 e ridicula4 ,ns temos em ,s4,joam1 uma iperbole bem famoza4#cg ,sunt autem alia multa1 qu fecit ,jesus3 qu scribantur per singula1 nec ipsum1 arbitror1 mundum capere posse eos1 qui scribendi sunt1 libros4 ,quem daqui quizese provar mui seriamente1 que uma livraria grande como o ,mundo1 nam compreenderia1 todas as asoens de ,cristo1 sera louco3 porque todos os ,padres intendem o texto1 iperbolicamente3 e a ,escritura abunda muito1 destas expresoens4 ,o mesmo digo1 das-expresoens figuradas dos-,padres4 ,comque1 semelhantes autores sam a origem1 de todos estes danos3 porque os ignorantes1 que nam sabem distinguir o branco do-negro1 servem-se de semelhantes livros1 como de oraculos4 ,mas1 sem buscar exemplos de longe1 tornemos ao meu ,pregador asima1 e ver ,v4,p4 provas bem eficazes1 do-que lhe digo4 ,pregava ele da-,asumsam da-,senhora1 na igreja de ,n4 ,s4 da-,gloria2 com o tema1 ,maria optimam partem elegit4 ,protesta em primeiro lugar1 que nam lhe-agrada coiza alguma1 do-que tem dito os ,,pp4 e ,expozitores todos3 e que quer1 coiza mais fina4 ,os ,padres o mais que diseram foi3 ,que ,maria escolheo a maior gloria1 entre todos os bemaventurados4 o noso ,pregador parecendolhe1 que1 dizendo aquilo1 diziam uma bagatela2 sobe de ponto1 e diz3 ,que a comparasam de gloria a gloria1 nam se-deve fazer s1 entre a gloria de ,maria1 e a gloria de todas as outras criaturas umanas1 e angelicas3 senam com a gloria do-mesmo ,criador delas1 a quem ,maria criou4 ,a palavra optimam 7continua ele7 a tudo se-estende3 porque sendo superlativa1 poem as coizas no-supremo lugar3 do-qual se-nam-exclue ,deus1 antes se-inclue esencialmente4 ,neste tam remontado sentido pertendo provar1 e mostrar oje1 que a gloria de ,maria1 comparada com a gloria do-mesmo ,deus2 e fazendo da-gloria de ,deus1 e da-gloria de ,maria1 duas partes2 a melhor parte1 a de ,maria4 ,at aqui o ,pregador4 ,bastava a propozisam do-asumto1 para provar o que digo3 mas peso a ,v4 ,p4 um bocadinho de sofrimento1 para ouvir a expozisam1 e a primeira prova4 ,aindaque a gloria de ,deus1 7diz ele7 infinitamente maior1 que a de ,maria2 a melhor parte que pode escolher uma maen 1 que a gloria de seu filho seja a maior4 ,como ,maria maen de ,deus1 e ,deus filho de ,maria2 mais se-gloreia a ,senhora1 de que seu filho goze1 esa infinidade de gloria1 doque se a gozra em si mesma4 ,e daqui se-segue1 que considerada a gloria de ,deus1 e a gloria de ,maria1 em duas partes2 porque a parte de ,deus a maxima2 a parte de ,maria a otima4 ,posto isto1 prova com ,seneca1 ,ovidio1 ,plutarco1 e ,claudiano1 que os ,filhos podem vencer os ,pais1 em beneficios1 e em gloria3 e que isto 1 o que mais deve dezejar um ,pai4 ,de que conclue3 ,que se entre a gloria de ,deus1 e de sua maen1 fora a escolha da-mesma ,senhora1 o que a ,senhora avia escolher para si 1 que seu ,filho a-excedse1 e vencse na mesma gloria2 como verdadeiramente a-excede e vence4 ,despois disto produz alguns ,padres1 que1 escrevendo a diversas pesoas1 dezejavam1 que os ,filhos deles excedesem aos proprios ,pais3 traz outros exemplos da-,escritura2 e conclue com uma prova teologica1 que diz o contrario1 do-que ele quer provar4 ,este o sermam em breve3 no-qual nam pouco1 que observar4 ,primeiramente o asumto que tira tal1 que se tivese a infelicidade1 de o-provar direitamente1 dizia uma erezia4 cauza orror somente ouvir propolo4 ,a explicasam pior1 que o mesmo asumto4 ,n4 ,senhora nam podia escolher uma coiza1 emque nam entra liberdade3 como 1 ser a gloria de um tal filho maior1 que a da maen3 porque iso era necesario4 ,teve a ,senhora liberdade para aceitar1 ou nam aceitar1 o ser maen de ,cristo3 mas nada1 de liberdade1 sobre a gloria4 ,na supozisam imposivel1 que ,senhora desem a escolher1 o tomar para si a gloria toda do-,filho2 ou contentar-se de ter um filho1 que a-tivese asim2 eu nam sei o que a ,senhora diria3 nem pertence ao ,pregador1 advinhlo4 verosimel1 que a ,senhora nam deixaria de escolher para si1 uma gloria de tanta dignidade4 ,mas de supozisoens imposiveis1 que omem prudente tirou jamais1 consequencias absolutas8 ,fica logo claro1 que aqui nam ouveram1 duas partes de gloria3 entre as quais a da-,maen fose maior1 que a do-,filho4 ,e quanto a estas sutilezas metafizicas1 nam provam1 nem concluem coiza alguma1 quando se--de persuadir1 alguma coiza verdadeira4 ,quanto prova teologica1 ela tal1 que me-envergonho saise da-boca1 de quem estudou ,teologia4 ,propoem as palavras de ,s4 ,paulo#ch3 ,non rapinam arbitratus est1 se esse qualem ,deo3 sed semetipsum exinanivit1 formam servi accipiens1 in similitudinem hominum factus1 habitu inventus est ut homo4 propter quod ,deus exaltavit illum3 dedit illi nomen1 quod est supra omne nomen4 ,daqui deduz1 ,que recebeo o ,filho do-,pai1 por-verdadeira e propria eleisam1 o oficio e dignidade de ,redemtor do-genero ,umano1 fazendo-se juntamente omem3 e com esta nova1 e inefavel dignidade1 recebeo um nome sobre todo o nome1 que o nome de ,jezus3 mais sublime e veneravel1 polo que 1 e polo que significa1 que o mesmo nome de ,deus3 ,in nomine ,jesu omne genu flectatur4 ,recebeo a potestade judiciaria3 ,pater non judicat quemquam3 sed omne judicium dedit ,filio4 ,recebeo o primeiro trono1 entre as pesoas da-,,ss4 ,trindade3 ,dixit ,dominus ,domino meo1 sede a dextris meis4 ,se pois o ,padre podia tomar tudo isto para si1 porque o-nam-tomou todo8 por-nenhuma outra razam1 senam porque era filho4444 intendendo1 que quando fosem de seu filho1 entam eram mais suas3 e que mais e melhor as-gozava nele1 que em si mesmo4 ,sam palavras do-,pregador4 ,aplica isto ,senhora1 e conclue1 ,que por-iso elegeo a melhor parte3 ,maria optimam partem elegit4 ,nam me-quero demorar muito neste exame1 porque sera nunca acabar3 direi somente de pasagem1 que o noso ,pregador com todo este discurso desfaz1 quanto pertendra mostrar4 ,concedamos-lhe tudo de barato1 e que o ,filho teve maior gloria que o ,pai4 c4 progunto3 ou daqui se-segue1 que desa maior gloria do-,filho1 rezultou no-,pai maior gloria1 doque tinha o ,filho1 ou nam8 ,se rezultou maior gloria2 ficam desmentidas todas as provas do-,pregador1 com que quer mostrar1 que o ,filho excede ao ,pai1 na gloria4 ,se nam rezultou maior gloria2 nunca se-pode dizer1 que o ,pai escolheo meliorem1 immo optimam partem4 paraque serve pois toda aquela arenga1 se nam -de provar1 o que quer8 ,de toda esta metafizica pois1 com que o ,pregador enche o sermam1 o que se-segue 1 que se-contradiz a si mesmo4 ,mas quem poder admetir1 as provas do-,pregador1 tomadas literalmente1 como ele as toma8 ,em primeiro lugar falso1 que o ,pai dse ao ,filho1 com propria eleisam somente sua1 a grandeza de ,redemtor3 porque sendo a ,incarnasam1 obra ad extra1 como lhe-chamam os ,teologos1 todas as trez pesoas com uma unica vontade1 concorrram para ela4 ,e isto nam sam ,teologias exquizitas3 mas os primeiros elementos da-,f4 ,polo contrario1 o noso ,pregador supoem mui distintamente1 que o ,pai tinha uma vontade1 e o ,filho outra3 porque sem esta supozisam1 nam corre o argumento4 ,e semelhante supozisam1 nam sei como os ,qualificadores a-deixram pasar4 ,em-segundo lugar falso1 que o nome de ,jezus seja maior1 que o nome de ,deus4 ,aquele supra omne nomen nam se-intende1 compreendendo o nome de ,deus4 falso1 que o ,pai abjudicase de si1 a potestade judiciaria4 falso1 que o ,filho tenha o primeiro trono1 entre as pesoas da-,,ss4 ,trindade4 ,todos aqueles textos1 se-devem intender1 com seu gram de sal1 segundo a expozisam dos-antigos ,santos1 e doutrina da-,igreja4 falso finalmente1 que a gloria do-,filho1 que lhe-rezulta da-redemsam1 seja maior que a do-,pai4 ,ora tudo isto era necesario1 que fose verdade1 paraque a paridade fose boa1 e provse1 o que o ,pregador queria4 ,alguns me-respondram ja1 que as palavras dos-textos mostravam1 o que o ,pregador dizia3 e que nos-sermoens nam se-deve procurar1 rigor teologico4 ,esta a cantilena comua1 destes apaixonados por-tais sermoens4 ,a isto ja respondi varias vezes1 e nesta mesma carta4 ,o que dal se-segue 1 que tais sermoens sam trocadilhos de palavras3 e que pram na superficie1 sem profundarem o sentido4 ,semelhantes nisto a outro sermam1 que eu li1 em que o autor1 para provar a negrura da-,morte1 trazia o texto3 ,lanarum nigr nullum colorem imbibunt4 como se bastse alguma semelhansa de palavras1 para provar pensamentos graves6 ,tambem falso dizer1 que nos-sermoens nam se-deve buscar1 rigor teologico4 ,eu intendo por este nome1 verdade teologica3 e suposto isto constantemente defendo1 que nenhum sermam se-deve tolerar entre ,catolicos1 que tenha propozisoens contrarias1 dita verdade4 ,as ampliasoens1 as iperboles1 as delicadezas1 podem ter lugar nas orasoens3 mas devem ser de outra qualidade1 que as que aponto4 ,eu deixei o sermam quazi no-fim1 em que avia outro pensamento1 bem galante3 mas nam tenho tempo1 para me-demorar tanto1 com estas coizas4 ,do-que at aqui tenho dito1 cuido ficar ,v4,p4 persuadido1 do-que afirmo1 se quizer ter o trabalho1 de ajuntar as minhas reflexoens1 com a leitura do-tal sermam4 99 99 99 ,esta materia de panegiricos tam ampla1 que sera necesario um grande volume1 para tocar levemente1 o que lhe-pertence4 ,acham-se porem outros panegiricos1 que rigorozamente o-sam1 e eu considero divididos1 em varias clases4 ,compreende a primeira aqueles1 que tratam de varias asoens de ,cristo1 como ,mandato1 ,sacramento1 ,resurreisam1 ,acensam c4 ,aqui onde os ,pregadores lambicam o ingenho1 para dizerem coizas mui singulares3 e aqui onde se-mostra1 a quinta esencia de toda a sutileza4 ,aquele1 ,cum dilexisset suos1 in finem dilexit3 tem-se espremido de tantas maneiras1 que eu ja nam sei1 que coiza boa pode botar de si3 e ,pregador conheso eu1 que1 aplicando o texto a mui diferente asumto1 em lugar de pregar de ,cristo1 pregou de si4 ,nas provas porem concordam estes sermoens1 com os antecedentes1 com a unica diferensa de mais1 ou menos4 ,sobre o da-,resurreisam1 ja se-sabe1 que os melhores ,pregadores dizem suas galantarias1 e nam poucas parvoices1 improprias daquele lugar1 e da-materia que tratam3 como tambem pouco decentes1 a qualquer outro lugar sezudo4 ,ajunto a esta1 outra quinta especie de sermoens1 tambem panegiricos1 que sam os louvores de algumas obras pias1 como ,publicasam do-,jubileo1 ,obras de ,mizericordia1 ,procisoens c4 ,estes ja sabemos1 que sem profecia nam podem pasar3 porque como ja dise a ,v4 ,p4 muitas vezes1 este um pecado nacional destes paizes1 para o qual ainda at aqui1 nam ouve redemsam4 ,com o que asima dise dos-outros1 pode-se intender o que se-deve dizer destes4 o defeito geral3 e asim a resposta sempre a mesma4 ,quanto aos sermoens das-,domingas de ,quaresma1 e ,misoens1 devo confesar1 que tem menos defeitos1 que os outros3 porem sempre conservam os esenciais4 ,tambem neles 7de ,quaresma7 sutilezas1 asumtos impropriisimos1 pesima dispozisam de provas1 e outras coizas destas4 ,o que verdadeiramente nam poso sofrer 1 que estes seus ,pregadores ,portuguezes1 procurem singularizar-se1 com esquipaticos asumtos1 nos-mesmos sermoens da-,quaresma4 ,o ,pregador da-menhan1 dizem que explica o ,evangelho3 o de tarde1 toma um asumto mais geral1 que distribue em sinco ,domingas1 sem se-sugeitar ao ,evangelho do-dia4 ,aqui pois move a compaixam ouvir1 o que alguns excogitam1 e quanto trabalham para descobrir na ,escritura1 um numero de cinco1 que seja acomodavel1 ao dito asumto4 ,uns1 vam buscar1 as cinco pedras de ,david3 para atirar ao auditorio1 uma seixada espiritual cada ,dominga4 ,asumto improprio1 e s coiza digna de um menino1 que nam intende1 o que eloquencia3 sendo certo1 que dezemparam logo o seixo1 para falarem em outra materia4 ,outros1 vam buscar no-,cardial ,ugo1 que afeta ser moral1 e misteriozo1 algumas palavras gerais1 que posam calsar s cinco ,domingas4 ,tudo isto sam arengas3 mas estes ainda sam mais toleraveis4 ,os que eu nam poso sofrer sam1 os que1 saindo fora do-numero de cinco1 por-se-quererem singularizar dos outros1 tomam ideias mais improprias4 ,tal foi um ,pregador de boa fama1 que ouvi1 o qual tomou por-asumto1 explicar o ,racional de ,aram1 ou aquele pano que trazia o ,sumo ,sacerdote dos-,ebreos1 no-peito1 em dias de funsam1 com doze pedras preciozas cravadas1 em que estavam esculpidos1 os nomes das-doze tribus4 ,este titulo de sermam agradou muito1 aos que tem o juizo nos-cotovelos1 que sam os mais4 ,concorri eu tambem1 para ouvir o sermam1 porque cazualmente naquele dia1 achava-me na dita ,cidade3 e como ja se-falava muito nas tais ,domingas1 que foram pregadas em outra parte1 fui ouvir1 que asumto tirava do-,racional3 e como acomodava as doze pedras1 com as cinco ,domingas4 ,com efeito o meu bom ,pregador1 escolheo entre as pedras1 as que lhe parecram1 e regeitou as outras4 ,galante modo de explicar1 o ,racional de ,aram6 ,do-sermam nada digo1 porque a coiza fala de si4 ,saindo eu para fora1 incontrei um ,religiozo da-,companhia meu amigo1 e um dos-omens de melhor juizo1 que eu tenho c visto2 o qual apertando-me a mam1 me-dise3 ,amigo1 o ,racional uma peste3 o pobre ,aram nam esperava1 que o-tratasem tam mal3 e concluio dizendo1 que tudo aquilo era uma parvoise4 ,com efeito eu nam acho1 que proporsam tenha uma coiza1 com outra3 ou para que ei-de ir buscar um titulo1 que nada tem que fazer1 com o sermam4 ,nam sei como estes ,pregadores ingenhozos1 nam tem buscado1 os cinco escudos das-armas de ,portugal1 ou as cinco quinas3 em que se-podia dizer1 muita coiza boa4 ,nam sei como nam se-tem apegado1 s cinco torres de ,lisboa1 a de ,s4,giam1 do-,bugio1 de ,belem1 a ,torre ,velha1 e o ,forte da-caza da-,india3 daqui podiam sair muitos tiros espirituais1 e se-podia dizer1 muita coiza bonita4 ,nam sei como nam explicam1 os cinco dedos da-mam1 e mil outras coizas1 que se-podem compreender1 debaixo desta ideia de cinco4 ,mas1 a falar a verdade1 tudo isto sam rapaziadas3 e os que procuram estes asumtos1 nam sabem o seu oficio1 nem de que cor 1 pregar4 ,eu intendo que o ,pregador de tarde1 deve tirar do-,evangelho1 um asumto proprio para o auditorio4 ,nem me-digam1 que o de menhan ja explicou o ,evangelho4 os que asim falam1 nam sabem que coiza ,escritura4 ,o mesmo ,evangelho1 pode dar infinitos asumtos4 ,nam necesario1 que todos se-sirvam das-mesmas palavras3 podem-se escolher outras3 procurar os ,,ss4 ,padres1 e tirar um asumto proprio3 para iso servem os ,expozitores4 ,na quinta ,dominga de ,quaresma1 todos se-servem das-palavras3 ,se ,veritatem dico vobis c e pregam da-,verdade em geral4 ,um omem que eu conheci1 pregando em um ,convento de ,freiras1 tomou as ultimas palavras3 ,tulerunt ergo lapides ut jacerent in eum4 ,jesus autem abscondit se1 exivit de templo4 ,daqui tirou este asumto3 ,que ,cristo nesta asm quizera ensinar-nos1 com quanta diligencia devemos fugir1 de profanar os ,templos4 porque nam s se-escondeo ,cristo3 mas fugio4 ,com a primeira asm1 evitava a profanasam com a obra1 impedindo a morte3 com o sair1 evitava a profanasam com a intensam1 fugindo da-prezensa de omens2 que ainda conservavam os dezejos1 de o-profanar4 ,acomodou isto ao intento1 mostrando1 quanto ,deus abominava1 a profanasam dos-,templos4 ,nam avia asumto mais proprio1 ao lugar3 porque nam avia lugar mais profanado com asoens1 e intensoens pecaminozas4 ,este era um asumto novo3 nam sutil1 e ridiculo2 mas verdadeiro1 e mui proprio3 ,e isto chama-se pregar3 o mais1 falar de alto4 ,quem tem ingenho1 e leitura1 pode tirar infinitos asumtos1 do-mesmo ,evangelho1 acomodados ao seu cazo4 ,mas quando o ,pregador nam quizese1 servir-se do-,evangelho1 pouco importaria3 bastava que escolhese um ,vicio1 para o-condenar1 em cada ,dominga1 digo dos-que mais reinam naquela ,cidade4 ,porque os sermoens de ,quaresma1 sam rigoroza misam3 e se-deve buscar1 argumento proprio para isto4 ,quero ainda conceder1 que cada um destes cinco sermoens1 deva ter relasam1 com os outros1 e compor um corpo de doutrina3 digo ainda neste cazo1 que fcil a um omem de juizo1 buscar um argumento natural1 e solido1 que se-posa dividir em cinco partes2 para explicar cada parte1 em sua tarde3 ,sem dizer ridicularias e sutilezas2 mas coizas1 verdadeiras1 utis1 e graves3 e aplicando sempre o sermam1 necesidade do-auditorio4 ,este o defeito geral1 da-maior parte destes ,pregadores1 que comumente se-servem de ideias gerais1 que nam calsam bem ao auditorio2 e de que nam se-tira fruto algum3 pois tam ridiculo 1 falando a omens doutos1 querer-lhe explicar1 as pesoas da-,trindade c4 como falando a pesoas ignorantes1 servir-se de ideias especulativas2 ou1 falando s ,freiras1 pregar da-politica de ,machiavelo1 e aos ,rusticos1 do-,principium quo in divinis3 da-,existencia definitiva e circunscritiva na ,eucaristia c4 como eu ja ouvi a alguns pregadores1 e mestres4 ,a isto chama-se1 nam saber o decoro1 quero dizer1 nam saber tratar a materia1 nem aplicar os argumentos aos ouvintes3 coiza que condenam os ,retoricos#ci4 ,tambem notei em certos ,pregadores1 alem dos-ditos1 certos defeitos1 que nam sam de pequena considerasam4 ,omens 1 que aplicam os sermoens1 s suas particulares intensoens2 e em lugar de pregarem1 do-que devem1 pregam de si3 ,e como o tema nam d para isto1 dezempram logo o asumto1 para meterem outros pensamentos mui alheios3 e querendo dizer tudo1 nam dizem coiza que valha4 ,alguns1 despedem-se no-sermam1 das-pesoas suas conhecidas3 99 99 99 outros1 fazem satira aos ,prelados1 ou ao governo politico da-,cidade c4 ou1 a pesoas particulares1 ou aos seus mesmos ouvintes4 ,e neste ultimo ponto1 nam s caiem os ignorantes1 mas pola maior parte1 os de maior doutrina1 e prezumsam3 e por iso s vezes as provas1 sam tam arrastadas1 que uma piedade ouvilos4 ,eu quero conceder de barato1 que seja verdade o que dizem3 mas nam aquele o seu lugar3 e sempre tem promto o argumento3 ,v4 ,p4 foi chamado para pregar disto1 e nam daquilo4 ,este nam pequeno defeito de ,retorica3 pois alienar os animos dos-ouvintes3 de que se-segue1 nam se-poder obter a persuazam4 ,estes sam os defeitos mais gerais1 mas comuns1 de todos estes seus ,pregadores4 ,dos-quais se-conclue claramente1 que lhes-falta a principal parte da-,retorica1 que a ,invensam3 da-qual falta nacem1 todos os outros defeitos1 que impedem o bom gosto da-eloquencia4 ,criados desde a primeira mocidade1 com aquele pesimo estilo1 de buscar conceitos exquizitos1 e dividir a orasam em tantas partes1 quantos eles sam2 perdem os melhores argumentos1 que lhe-dariam materia1 para tecer uma orasam continuada2 que persuadise o auditorio1 e fose digna de se-ouvir4 ,nam reprovo as divizoens1 quando sam necesarias1 e a materia as-pede3 reprovo sim muito1 o acomodar a materia s divizoens1 para fazer a costumada trepesa4 ,desta falta1 de nam saber buscar as provas1 nace a segunda1 e tam importante1 da-,dispozisam4 ,pois nam tendo argumentos proprios1 nam podem dispolos em maneira1 que formem uma orasam unida3 na qual o exordio1 ou seja unido1 ou separado1 forme um perfeito corpo com o todo3 e em que as partes observem1 a sua justa proporsam1 e tal1 que umas sirvam de aclarar as outras3 e conduzam para o fim1 de persuadir o que se-quer4 ,desta mesma falta nace1 a da-,locusam3 sendo certo1 que quem nam acha um argumento1 acomodado ao que quer1 mas vai buscando sutilezas2 nam incontra com palavras proprias1 para expremir um pensamento sezudo1 e nobre3 nem acha aquelas que sam necesarias1 para ornar com armonia os pensamentos2 desorteque fasam uma orasam armonioza1 e agradavel1 sem ser afetada3 o que nam tem pouca dificuldade#dj4 ,de que vem1 que comumente enchem o discurso1 de mil tropos e figuras1 fra do-seu lugar2 que mostram1 o pouco talento do-,pregador1 e a ignorancia1 da-sua propria lingua4 ,nace daqui tambem1 nam saber escrever uma carta1 ou formar qualquer outro discurso1 que posa persuadir4 ,finalmente nace1 o nam saber discorrer com propriedade1 em materia alguma4 ,leia ,v4 ,p4 as cartas que se-acham de ,frei ,pedro de ,s1 e ,frei ,lucas de ,santa ,catarina1 e outros semelhantes3 leia os seus discursos3 e ver1 que cartas1 orasoens1 sermoens c4 tudo o mesmo4 ,nam se-acha mais1 que equivocos1 palavras sem significado1 pensamentos inverosimeis1 encarecimentos inauditos1 em uma palavra1 uma lingua nova1 que serve para toda a sorte de asumtos1 sem distinsam4 ,os ignorantes gostam muito disto1 e copeiam esta sorte de papeis1 com todo o cuidado1 e acumulam quantos podem3 mas os que verdadeiramente intendem a materia1 nam podem menos que rir-se1 de tais escritos2 dos-quais toda a alma cristan deve fugir1 como contrarios1 boa eloquencia4 ,a razam de tudo isto a mesma3 porque quem bebe aquele estilo1 de sutilezas1 afetasoens1 e singularidades2 nam sabe distinguir os estilos1 proprios dos-diversos argumentos1 que se-lhe-oferecem3 e asim nam sabe1 nem pode fazer coiza boa1 nem chegar a persuadir ninguem4 uma prova manifesta disto1 a infinita distancia que eles poem1 entre sermam funebres na ,igreja1 e orasam funebre na ,academia4 ,nesta nam tema3 comumente nam divizam de pontos3 nam textos da-,escritura3 menos sutilezas3 e acha-se um discurso continuado1 ainda-que cheio de mil impropriedades1 e ridiculos encarecimentos3 ,no-outro acha-se tudo o contrario4 ,de que provm esta grande mudansa8 eu o-direi3 ,de nam saber1 o que ,retorica3 porque os preceitos em ambas as partes1 sam os mesmos4 ,no-pulpito1 poso uzar de mais asm do-corpo2 e animar com a voz o discurso3 na-academia recito com mais brandura4 ,mas o papel em ambas as partes o mesmo3 e doque se-faz na academia1 podiam eles inferir1 o que devem fazer no-pulpito4 ,porem aqui me-parece1 que ouso dizer a ,v4 ,p4 que ja que apontei os defeitos1 aponte o modo de os-emendar4 ,mas isto2 ,p4 muito reverendo1 nam negocio que se-posa fazer1 com tanta brevidade1 pois pediria um tratado inteiro4 ,o que tenho dito1 bastava para um omem de juizo3 e a lisam dos-bons autores1 completaria tudo4 ,contudoiso1 para obedecer a ,v4 ,p4 nam deixarei de fazer alguma reflexam1 adquerida parte com a lisam dos-outros1 parte com a minha propria experiencia1 e reflexam3 as quais ,v4 ,p4 aplicar1 aos cazos particulares4 ,mas como isto pede mais tempo1 quero rezervlo para outra carta3 e acabo esta1 com pedir a ,v4 ,p41 me-conserve na sua grasa4 ,deus guarde c4 ,illustrao ,,notas ,,de ,,rodap3 #cj ,quia nonnulli ,sacrarum scripturarum verba sententias1 ad profana quque detorquent2 ad scurrilia1 scilicet1 fabulosa1 vana1 adulationes1 detractiones1 superstitiones1 impias diabolicas incantationes1 divinationes1 sortes1 libellos etiam famosos3 ad tollendam bujusmodi irreverentiam1 prohibet ,s4 ,synodus1 ne quisquam quomodolibet verba scriptur ,sacr ad hc1 similia audeat usurpare3 atque bujusmodi temeratores violatores verbi ,dei1 juris arbitrii pnis per ,episcopos coerceantur4 ,trident4 ,sess4 ,i4 #ca ,diodor4 ,sic4 l4 #a4 sect4#b4 #cb ,exodi ,,xiii4 #ah4 #cc #cd ,rupert4 in ,johann4 ,i4 ,tostat4 in ,matth4 ,x4 ,jansen4 ,alapide ,harm4 in ,johann4 ,i4 c4 #ce ,aug4 in ,johann4 ,homil4 #g4 in ,ps4 #fe4 #cf ,in ,job4 ,,xxxii4 #ae4 #cg ,,xxi4 #be4 #ch ,ad ,philipp4 ,,ii4 #f4 #ci ,est autem quid deceat oratori videndum1 non in sententiis solum1 sed etiam in verbis4 ,non enim omnis fortuna1 non omnis honos1 non omnis auctoritas1 non omnis tas1 nec vero locus1 aut tempus1 aut auditor omnis1 eodem aut verborum genere tractandus est1 aut sententiarum3 semperque in omni parte orationis1 ut vit1 quid deceat1 est considerandum3 quod in re de qua agitur positum est in personis eorum1 qui dicunt1 eorum1 qui audiunt 4 ,cicer4 ,orat4 num4 #ba4 #dj ,atque illud primum videamus1 quale sit1 quod vel maxime desiderat diligentiam1 ut fiat quasi structura qudam1 7verborum7 nec tamen fiat operose3 nam esset cum infinitus1 tum puerilis labor4 ,cicer4 ,orat4 num4 #dd4 ,illustrao ,,carta ,,sexta4 ,,sumario4 ,continua-se a mesma materia da-,retorica4 ,fazem-se algumas reflexoens1 sobre o que verdadeira ,retorica1 e origem dela4 ,que coiza sejam figuras1 e como devemos uzar delas4 ,diversidade dos-estilos1 e modo de os-praticar3 e vicios dos-que os-nam-admitem1 e praticam4 ,qual seja o metodo de persuadir4 ,qual o metodo dos-panegiricos1 e outros sermoens4 ,como se-deve ensinar ,retorica aos rapazes1 e ainda aos mestres4 ,algumas reflexoens1 sobre as obras do-,p4 ,antonio ,vieira4 ,nam intenda ,v4 ,p4 que ei-de faltar promesa3 pois nam s com promtidam1 mas com muito gosto executarei nesta carta1 o que prometi na ultima3 e direi o como se-devem intender1 as coizas que dise1 para emendar os defeitos1 que nestes ,retoricos vulgares s'incontram3 e que eu apontei na carta pasada4 ,digo pois1 que o primeiro1 e mais importante ponto que deve advertir1 quem quer formar1 o bom gosto literario1 1 fugir totalmente destas ,retoricas comuas1 nam s manuscritas1 mas tambem impresas4 ,estou persuadido1 que elas sam a primeira ruina dos-estudos3 porque inspiram mui maos principios1 e nam ensinam o que devem4 ,ouso louvar muito nestes pazes1 o ,candidatus ,rhetoric do-,p4 ,pomei1 o ,ariadne ,rhetorum do-,juglar c4 e mestres conheso eu1 que nam tem mais noticia da-,retorica1 que a que d o dito livro1 ou outro semelhante4 ,isto porem mera iluzam3 porque para nam saber nada1 nam melhores livros1 que os ditos4 ,estes1 e outros tais autores1 fazem uma enumerasam das-partes da-,retorica1 mui seca e descarnada4 propoem mil questoens1 e nam rezolvem nenhuma bem4 todo o livro consiste em divizoens1 e subdivizoens1 que enfadam antes de s'intenderem4 ,mas o pior 1 quando ensinam a servir-se1 dos-lugares ,retoricos3 quando mostram os diversos modos1 de ampliar um argumento3 dizem mil coizas inutis1 e que mais facilmente s'aprendem1 lendo os bons autores1 que estudando as tais observasoens4 ,este em carne o defeito1 em que caiem os ,logicos ,peripateticos1 quando se-dilatam muito1 sobre a frma silogistica1 e ponte dos-asnos3 despois de dizerem muito1 sam obrigados a reconhecer1 que nada daquilo serve1 para coiza alguma3 e que na pratica do-argumentar1 nam s sam inutis1 mas at imposiveis as tais regras4 ,nam achei at aqui ,peripatetico algum1 que1 devendo em algum ato publico1 provar de repente alguma propozisam1 que lhe-duvidasem2 se-servise de tal metodo3 nem menos achei omem algum1 que1 senam intendeo1 e estudou bem a materia1 que -de tratar2 servindo-se unicamente dos-lugares ,retoricos1 fizese coiza capaz4 ,chama-se perder inutilmente o seu tempo1 querer ensinar todas aquelas arengas3 das-quais unicamente rezulta1 a desvanecida opiniam de uma ciencia1 que nam tem4 ,os rapazes que estudram aquilo1 persuadem-se1 que sam ,retoricos da-primeira esfera3 que podem1 com a ajuda de quatro adjetivos e sinonimos1 e quatro descrisoens afetadisimas1 arengar de repente1 em qualquer materia4 ,intendem1 que nam orasam1 que nam observe a dispozisam1 que eles lem na sua ,retorica4 julgam1 que nam discurso oratorio1 sem todas aquelas mexerofadas4 ,finalmente1 como nam lhe-explicam1 o verdadeiro uzo da-,retorica1 e artificio da-verdadeira eloquencia2 persuadem-se1 que s nos-discursos academicos1 tem ela lugar4 ,de que nace1 que despois de perderem bem tempo nas escolas1 a que chamam de ,retorica1 ficam totalmente ignorantes dela4 ,isto suposto1 necesario desterrar uma1 e admetir outra sorte de ,retorica4 ,ja asentamos1 que a ,retorica deve ser em ,portuguez1 para os que nacram em ,portugal3 porque1 asim s'intendem os preceitos3 e na sua mesma lingua se-mostram1 os exemplos4 ,nam avemos de carregar os rapazes1 com dois pezos3 intender a lingua1 e intender a ,retorica3 tambem nam avemos fingir os ,omens1 como nam sam2 imaginando rapazes mui agudos1 e espertos4 ,tudo isto iluzam4 ,os rapazes sam de diversas capacidades3 e muitos sam rudes4 comumente aprendem ,retorica1 quando ainda nam intendem bem ,latim4 ,e asim1 necesario falar-lhe em ,portuguez3 muito mais1 porque ou queiram ser ,pregadores1 ou ,advogados1 ou ,istoricos c4 tudo isto se-faz c em ,portuguez3 e loucura ensinar em ,latim uma coiza1 que pola maior parte1 se -de executar1 em ,vulgar4 ,esta a primeira regra do-,metodo1 facilitar a inteligencia4 ,nam tenho at aqui visto1 7pode ser que aja7 ,retorica ,portugueza impresa4 ,certo sugeito mostrou-me tempos1 alguns apontamentos que fizera3 mas nam mereciam o nome de ,retorica4 tenho visto varios livros de conceitos3 mas nam era coiza1 que merecese ler-se4 ,sei porem1 que atualmente se-copeia1 uma ,retorica ,portugueza1 que me-parece propria para formar1 o bom gosto da-,eloquencia4 ,um amigo meu mui particular a-compoz1 para uzo seu4 pedio-me noticia1 dos-melhores autores nesta materia3 e deles copiou1 o que conconduzia1 para o seu intento4 uzou comigo a amizade1 de consultar-me na dispozisam dela4 teve a moderasam de ouvir1 e nam desprezar1 as minhas reflexoens4 cuido que felizmente conseguio1 o seu intento3 devo fazer esta justisa1 sua grande capacidade4 ,nam sei1 se a-determina divulgar3 o que se puder ser1 procurarei de a-comunicar a ,v4 ,p4 seguro1 de que nam lhe-dezagradar4 ,mas1 tornando ao fio das-minhas reflexoens3 ,ja dise ao principio1 que sendo a ,retorica1 arte de persuadir1 tinha lugar em todo o discurso1 que seja proferido com este fim4 ,doque se-segue1 que a ,retorica tem tanta extensam1 quanta qualquer lingua3 o que muitos nam intendem1 ainda dos-que lem as ,retoricas4 ,parece paradoxo a muitos1 destes enfarinhados nos-estudos1 dizer-se1 que n'uma carta1 que escrita com estilo simplez2 n'uma ,poezia1 na ,istoria1 e n'um discurso familiar c4 deve ter lugar a ,retorica4 ,e isto provm de intenderem1 que a ,retorica consiste1 em figuras mui dezuzadas1 tropos mui estudados c4 e asim parece-lhe1 que nam se-caza uma coiza com outra4 ,mas por-pouco que estes tais1 examinasem a materia2 conheceriam1 que tudo se-deve tomar1 em diverso sentido4 ,nam lingua neste mundo1 tam fecunda de palavras1 que posa expremir1 todas as ideias do-intendimento3 ,a fecundidade que tem a mente1 em formar conceitos1 e a facilidade com que de uma mesma coiza1 frma infinitas ideias1 tal2 que pode empobrecer1 todas as linguas do-mundo4 ,seriam necesarias muitas palavras1 para um omem poder dizer sofrivelmente1 o que intende4 ,mas isto pediria tempo infinito1 e o comercio umano se-faria insoportavel4 ,conhecram os ,omens muito bem isto1 e cuidram em lhe-pr o remedio4 ,daqui naceo a necesidade de servir-se1 de algum modo de expremir1 que1 aindaque nam diga tudo1 excite diversas ideias no-intendimento1 e poupe o trabalho1 de proferir muitas palavras4 ,a experiencia mostrou1 que as nosas ideias tem uma certa uniam1 com que mutuamente se-ajudam3 proferida uma das-quais1 todas as outras se-aprezentam4 ,isto asim posto1 os ,omens souberam aproveitar-se1 desta experiencia2 e comesram a servir-se de um nome por-outro1 para poder excitar a ideia1 do-que queriam4 ,um nome que significava uma coiza1 aplicou-se para significar outra2 e se-transportou da-sua significasam propria para outra1 por-cauza de certo respeito1 ou relasm1 ou ordem1 ou nexo1 que uma coiza tem com outra4 ,a isto chamram ,tropo1 palavra ,grega1 que significa transpozisam3 e estes modos de falar1 chamram-se ,figuras3 as quais podem ser infinitas3 mas os ,retoricos as-reduzram a pequeno numero1 contando as mais uzuais3 e destas se-faz memoria1 nas comuas ,retoricas1 com diversos nomes4 ,estes ,tropos1 ,metaforas1 ou ,metonimias1 que significam o mesmo1 tem grande uzo1 e sam necesarias em todas as linguas1 e ornam muito3 nam s porque encurtam o discurso1 e fazem mais gostoza a conversasam2 mas tambem porque exprimem melhor1 o que se-quer dizer1 doque outras palavras4 ,diz mais s vezes1 uma s metafora1 que um longo discurso3 e com uma s palavra1 mais bem intendido um omem1 doque com a fecundidade de infinitas4 ,quem ouve dizer1 que ,alexandre era um raio da-guerra2 a ideia do-raio1 que uma coiza sensivel1 exprime bem o grande poder1 com que este omem sugeitava tudo3 a velocidade das-suas conquistas3 o eco das-suas vitorias2 que atroava tudo1 e ainda as mais remotas ,nasoens4 ,este justamente o carater de ,alexandre3 como ja a ,escritura tinha delineado4 ,uma s ideia excita mil outras1 ao intento4 ,e como os ,omens estam acostumados1 a estas imagens sensiveis2 os tropos que delas se deduzem1 valem infinito4 ,apenas o comum dos-,omens pode intender1 e julgar de outra sorte4 ,sam boas1 asim 3 mas o uzo que as-faz racionaveis3 quero dizer1 que se-devem uzar em tempo1 e lugar proprio1 e quando o discurso o-pede4 ,o que nam advertindo os ignorantes1 servem-se pouco sabiamente das-,figuras2 e com muito estudo1 falam bem mal4 ,nam maior beleza em uma cara1 que os olhos3 mas se um rosto nacse com mais de dois2 se chegse a ter meia duzia1 sera um monstro4 ,deve aver figuras3 mas -de aver proporsam1 eleisam1 dispozisam3 ou seja no-discurso familiar1 ou na ,istoria1 ou na ,cadeira4 ,este o grande segredo do-falar bem3 o qual como muitos1 segundo adverti1 nam chegam a penetrar1 quando ouvem falar em ,tropos1 tremem de ps e cabesa3 e persuadem-se1 que algum enima singularisimo1 rezervado para algum ato publico1 ou coiza semelhante4 ,como as palavras sam as que significam1 o que pasa dentro d'alma1 ouve necesidade de procurar palavras1 para expremir1 nam s o que a alma conhece1 mas tambem o que quer2 ao que chamamos1 afetos da-alma1 ou paixoens4 ,o ,omem nem sempre se-acha1 na mesma dispozisam de animo3 mas esporiado de alguma coiza1 saie fra de si1 e entam fala de outra maneira1 mui diferente4 ,as expresoens com que se declara isto1 se-chamam ,figuras2 com a diferensa1 que os ,tropos sam figuras das-vozes3 e estas que aqui digo1 sam figuras do-animo4 incrivel1 a diversidade destas vozes do-animo4 ,um omem agitado1 nam s no-exterior do-rosto1 mostra a sua perturbasam1 mas tambem no-modo do-seu discurso4 ,as paixoens violentas1 alteram a bela armonia dos-umores3 engrosam os objetos3 impedem que a alma d a devida atensam1 ao que julga3 no-mesmo instante a-transportam1 de uma coiza para outra3 sam como o mar alterado1 que joga a pela com um navio4 ,onde1 agitadas com tanta confuzam1 as fibras do-cerebro1 a alma1 que em virtude daquela armonioza dependencia1 que estableceo ,deus entre ela e o corpo2 deve conhecer todas as imagens1 que elas lhe-prezentam2 nam tem1 se me- licito explicar asim1 repouzo algum4 ,a alma agitada1 imprime novo movimento nas fibras1 e estas na machina3 de que nacem as palavras3 com as quais dando-se dezafogo ira1 que moveo a machina1 se-d tambem repouzo1 alma4 ,sendo pois as nosas palavras1 consequencias dos-movimentos d'alma1 e conrespondendo perfeitamente1 aos nosos pensamentos2 claro1 que o discurso de um omem1 que est sumamente agitado1 deve ser dezigual4 ,algumas vezes parece este omem difuzo1 e frma uma exata pintura1 das-coizas que sam objeto1 da-sua paixam3 e cuidando que o-nam-intendem bem1 repete a mesma coiza1 em cem diferentes maneiras4 ,algumas vezes interrompe o discurso1 e sepra as palavras umas das-outras1 dizendo de uma s vez1 bastantes coizas4 ,muitas vezes vareia o discurso1 com mil proguntas1 com exclamasoens1 com frequentisimas digresoens4 ,finalmente um discurso destes vareia-se1 com infinitos modos de falar3 os quais modos sam tam proprios1 daquelas paixoens d'onde nacem1 que1 ouvindo-os proferir1 fica um omem formando1 justa-ideia da-paixam4 ,estas pois sam as tanto celebres ,figuras do-animo3 as quais nenhuma outra coiza sam mais1 que modos de falar particulares1 e diferentes dos-modos de falar natural e uzual4 ,estas ,figuras1 que sam as naturais pinturas das-paixoens1 sam sumamente utis1 e necesarias no-comercio umano4 ,um pintor famozo1 7dise um grande ,retorico1 de quem eu aqui sigo as pizadas7 que quer delinear um painel istoriado1 nam s pinta as figuras1 que devem intrar no-quadro2 mas procura1 que cada uma esteja naquele ato1 que exprima1 o paraque ele ali a-poem3 nem s isto1 mas at no-rosto lhe-pinta1 aqueles acidentes1 que denotam a paixam1 de que sam produzidos4 ,explico-me melhor4 ,um omem agitado1 e alterado com a colera1 nam tem o rosto sereno2 mas fica palido3 abre uns olhos1 que parecem cheios de fogo3 carrega a vizeira3 finalmente mostra no-rosto mil acidentes1 que sam os carateres da-,colera4 ,isto pois o que procura imitar1 o pintor3 e se chega a imitlo bem1 s este o bom pintor4 ,o ,retorico nam tem cores1 com que imitar a natureza1 como o pintor3 mas tem palavras1 para imitar aquelas1 que profere um omem dominado da-paixam1 que ele quer persuadir3 e como estas paixoens tenham1 diferentes carateres2 necesario que se-sirva de diferentes figuras1 para as-expremir#da4 ,alem disto1 ninguem pode persuadir outro1 sem que excite nele aquela paixam1 que lhe quer persuadir3 porque as paixoens sam os instrumentos2 e1 para me-servir de uma expresam filozofica1 as machinas que abalam a alma1 e a-inclinam para onde querem4 ,ora para excitar estas paixoens nos-outros1 necesario1 que um omem se-mostre dominado1 da-mesma paixam3#db porque1 suposta aquela particular dispozisam1 e semelhansa dos-nosos corpos1 deixamo-nos persuadir daquela paixam1 que vemos nos-outros3 dos-mesmos sentimentos3 dos-mesmos afetos3 se nam se-acha algum obstaculo1 que empesa o curso da-natureza4 ,naturalmente inclinamos a ter compaixam1 de uma pesoa1 que mostra estar sumamente aflita3 rimos quando nos-achamos1 em um grande divertimento dos-sentidos4 ,polo contrario1 nam choramos1 nem mostramos compaixam1 de uma pesoa que ri2 aindaque verdadeiramente seja mizeravel4 necesario ter um animo mui nobre1 para se-vestir dos-sentimentos1 e necesidades dos-outros1 semque lhas-exponham4 ,nam obram os ,omens comumente asim3 obram porem asim1 quando recebem o movimento1 do-impulso das-paixoens4 ,esta a simpatia das-paixoens3 7se acazo tal voz1 significa coiza alguma7 e daqui se-mostra bem1 a necesidade das-,figuras1 para efeito de persuadir4 ,nam me-cansarei1 em dar o numero das-,figuras1 e explicar o que significam1 e quando se uza delas4 ,disto abundam muito1 as ,retoricas ordinarias3 aindaque sam poucas1 que o-expliquem de um modo1 que se-posa perceber4 ,as ,figuras sam infinitas3 mas os ,retoricos reduzem-nas1 a umas certas regras gerais1 e-mais comuas4 ,direi somente1 que estas ,figuras1 sam as verdadeiras1 armas da-alma1 com que ela faz guerra s outras almas2 ou vence1 ou vencida3 e produzem juntamente mil outros efeitos4 ,primeiramente1 elas declaram aquelas verdades1 que sam oscuras2 e excitam nos-,omens a atensam1 para as-perceber4 ,aquela grande repetisam1 aqueles muitos sinonimos1 nam sam inutis na ,retorica#dc3 antes sam de infinito preso3 porque mostram o que se-pertende em tanta luz1 e de tantas partes2 que imposivel o-ignorlo3 imprimem com tanta forsa uma verdade1 descobrem todas as circunstancias com tanta clareza2 que imposivel nam admetilas4 ,mas no-mesmo tempo estas ,figuras1 se sam bem naturais1 e se pintam bem a origem de que nacem2 movem de tal sorte a alma1 que a-arrastam e conduzem1 para aquele objeto1 de que se-fez a imagem#dd4 ,e como a alma nam pode ver uma verdade clara1 sem a-receber2 daqui nace1 que por-forsa admite o objeto1 e consente3 e temos o omem persuadido4 ,estas sam as ,figuras1 que sam a baze da-,eloquencia4 ,mas nam intenda ,v4 ,p4 que eu quero persuadir indiferentemente1 toda a sorte de ,figuras1 e uzo delas3 estou mui longe diso1 e defendo constantemente1 que s no-bom uzo delas1 que est a ,eloquencia1 principalmente sublime4 ,isto o que eu dezejra refletisem comigo algumas pesoas1 que1 por-nam-advertirem este importante ponto1 dam luz partos monstruozos4 ,se as nosas paixoens sam mal ordenadas2 se nam se-excitam quando deve ser2 coiza clara1 que as ,figuras s servirm1 de pintar a confuzam das-nosas ideias1 e a pouca eleisam do-noso juizo4 ,um omem que s'enfada quando nam deve2 que em um discurso placido1 introduz mil ,figuras fortes2 que progunta2 que responde2 que exclama2 e mostra grande paixam1 aindaque nam aja de persuadir1 ou disputar com alguem3 um verdadeiro louco1 que guiado1 da-sua destemperada imaginasam1 empunha a espada1 para combater com um inimigo imaginario4 ,pois este o retrato de muitos autores1 que julgam nam serem bons escritores1 se nam uzam de todas as sutilezas d'arte3 ,semelhantes nisto a um omem de ,provincia1 com que eu jantei uma vez1 que para mostrar que tivera boa educasam1 comia as uvas com o garfo4 ,outros1 que devem persuadir1 e tem materia para empregar1 boa ,retorica2 s estudam palavras1 que tenham cadencia armonioza1 mas tam afetada1 que pola maior parte degenera em verso4 ,fazem mil reflexoens inutilisimas3 procuram falar sempre por-sentensas3 cuidam em introduzir conceitos sutis1 e divizoens importunas3 com as quais arengas nam procuram persuadir1 mas agradar1 e conseguir fama de eloquentes4 ,e estes eu os-reputo muito mais ignorantes1 que os primeiros1 pola sua afetasam4 ,o certo 1 que uns e outros nam intendem1 nem o fim1 nem os limites da-,retorica3 e que em lugar de estimasam1 conseguem desprezo4 ,as ,figuras devem-se empregar1 em toda a ocaziam4 ,temos ,figuras para tudo3 negocios graves1 mediocres1 e para a mesma conversasam familiar4 ,basta persuadir-se1 de uma importante verdade1 que 1 que a ,figura nam se-deve procurar1 mas naturalmente aprezentar-se3 porque1 como tenho mostrado1 sam consequencias das-paixoens4 ,observe ,v4 ,p4 um omem rustico1 que nam seja totalmente estupido1 ou uma molher de juizo1 mas nam doutora3 entre com eles em um discurso familiar1 sobre alguma materia1 que lhe-pertensa3 dificulte-lhe conceder-lhe alguma coiza1 que a eles paresa verdadeira1 ou que na realidade o-seja3 e observe miudamente1 quantas ,figuras introduzem no-discurso4 ,e finalmente1 achar mais forsa1 nas suas razoens1 quando sam em materia verdadeira1 doque nos-discursos1 de muitos ,oradores de fama4 ,eu fiz esta experiencia muitas vezes3 e sempre tirei por-fruto1 da-minha meditasam1 que as ,figuras m-de ser naturais3 e que somente se-fala bem1 quando se-fala animado1 de algum verdadeiro interese1 e se-deixa guiar1 de uma paixam arrezoada4 ,v4 ,p4 observar isto1 nos-seus proprios discursos1 ainda naqueles1 que parecem menos considerados1 e que sam proferidos1 quazi por-impulso da-natureza4 ,as coleras nam sam iguais1 nem as paixoens3 e asim ,figuras nestes mesmos discursos4 ,fazem-se antitezes1 por-cauza de grandes movimentos1 e tambem por-ligeiras comosoens4 ,o dezejo que um omem tem1 de expremir-se1 e de persuadir as coizas que diz1 tem varias destas ,figuras4 ,na conversasam mais placida1 repetem-se sem reparo1 os mesmos termos muitas vezes4 servimo-nos de diversas expresoens1 para significar o mesmo4 permitem os mais escrupulozos criticos1 fazer alguma breve descrisam1 e procurar alguma semelhansa1 para explicar melhor a materia4 pode-se proguntar o parecer dos-que ouvem1 sobre o que se-profere2 e mostrar-lhe1 que necesario refletir1 sobre algumas das-circunstancias alegadas4 ,tudo isto pratica-se todas as oras1 ou se-pode praticar1 sem enfado de quem ouve1 e sem incorrer na censura1 de quem observa4 ,ora as ,figuras nam sam verdes nem azuis1 sam em carne estas mesmas que apontamos1 e outras a estas semelhantes4 ,e eisaqui1 que nam s nas orasoens1 e discursos estudados1 mas em todo o discurso1 tem lugar as ,figuras4 ,em uma palavra1 primeiro ouveram ,figuras1 doque ouvse arte de ,retorica3 aqual nada mais 1 doque a observasam das-naturais ,figuras4 ,e asim todo o estudo de um omem1 verdadeiramente eloquente1 consiste1 em observar bem1 a necesidade da-materia2 e intrar tanto dentro nela1 que posa formar um discurso natural1 mas no-mesmo tempo eficaz3 e em que as ,figuras fujam-lhe da-boca1 sem que ele v detraz delas1 para ornar o discurso4 ,muito necesario 1 estudar a natureza3 estudar o carater das-,paixoens3 falar naturalmente3 que s asim se-fala eloquente1 e s asim se-persuade4 ,este o primeiro ponto1 ou o mais importante1 em materia de ,retorica4 ,o segundo1 e de nam menor consequencia1 est1 em saber proporcionar o estilo1 ao argumento que se-trata4 ,consiste o estilo1 em certas maneiras de s'explicar1 e certas particulares expresoens1 que cada omem uza3 as quais comumente seguem o impeto do-fogo1 que cadaum tem3 nam se achando dois omens1 que sejam perfeitamente iguais no-estilo1 como nem menos no-temperamento4 ,digo pois1 que o estilo se-deve regular1 segundo a materia1 que se-trata#de4 ,as expresoens magnificas e nobres1 ornam as coizas1 de uma certa magestade1 e mostram o grande conceito que delas frma1 quem asim fala3 se a materia nada tem de extraordinario1 antes sumamente vil2 impropriamente se-lhe-aplicam1 tais expresoens4 ,polo contrario1 as coizas que se-podem considerar sem comosam1 devem-se dizer com estilo simplez3 outras mais estudadamente3 o que faz a variedade de estilos3 que os mestres da-arte reduzem comumente1 a trez4 ,querem dizer1 que ou o discurso sumamente nobre1 ou sumamente trivial1 ou mediocre3 primeira1 conresponde o estilo sublime3 segunda1 o estilo simplez3 terceira1 o mediocre4 ,a prudencia e inteligencia com que se-devem aplicar1 estes trez generos d'eloquencia1 o principal emprego1 do-,retorico4 ,,sublime4 ,quando se-quer dar uma alta ideia1 de alguma coiza1 necesario refletir no-mesmo tempo1 em muitas circunstancias4 ,por-muito nobre que seja o sugeito1 de que se-trata1 pode ter mil imperfeisoens3 onde necesario procurar1 de o-por vista d'aquela parte1 que melhor parece2 para poder impremir1 uma justa ideia da-sua grandeza3 procurando quanto pode ser1 de lhe-cobrir1 ou disfarsar os defeitos1 sem prejuizo da-verdade3 voltando-o e revoltando-o de todas as melhores partes1 para poder mostrar1 at as minimas perfeisoens que tem3 e tendo muito cuidado1 de nam sair com alguma expresam1 ou pensamento1 que destrua o que se-tem fabricado4 ,caiem neste defeito infinitas pesoas1 ainda d'aquelas1 que nam sam decepadas3 ,oradores1 ,istoricos c4 mas sobre tudo os ,poetas3 que1 por-forsa do-consoante1 ou da-quantidade do-verso1 dizem mil coizas ou mal ditas1 ou mal aplicadas4 ,li um soneto de certo ,espanhol1 que descrevia um nariz grande3 o qual1 despois de ter dito muita coiza do-dito nariz1 conclue desfazendo1 quanto encarecra4 ,porei somente os tercetos4 ,erase un espolon de una galera4 ,erase una piramide de ,egito4 ,las dose ,tribus de narizes era4 ,erase un narizissimo infinito4 ,muchissima nariz1 nariz tan fiera1 ,que en la cara de ,ans fuera delito4 ,despois dos-quatro versos antecedentes1 em que exagerava terrivelmente o tal nariz1 saie com uma frioleira1 que destrue tudo4 ,admetida de grasa1 a comua opiniam do-vulgo1 de que os ,judeos tem narizes grandes3 admetida novamente a frioleira1 de que ,ans1 por-ser ,pontifice1 o-devese ter maior3 certo1 que nam teria um nariz maior1 que todo o corpo4 ,demos-lhe1 que fose tam grande3 que proporsam tem isto1 com uma piramide1 e nariz infinito8 ,destes exemplos acho a cada paso3 de que concluo1 que estes nam sabem1 as leis da-,retorica1 nem da-,poezia4 ,quanto s expresoens1 aindaque as-dezejo nobres1 e com armonia sonora2 devem porem uzar-se1 com moderasam4 ,prudentemente se-comparou um discurso1 no-genero sublime1 com um palacio magnifico3 neste -de aver cazas para os amos1 para os criados1 e tambem estrevarias para os cavalos4 ,estas nam m-de ser1 como as anticameras1 nem ornadas como os gabinetes3 mas m-de ter certa magnificencia rustica1 e proporsam ao todo3 m-de ser todas as partes no-seu genero1 belas1 grandes1 magestozas4 ,um palacio que tem um portam pequenino1 parece coiza ,mourisca1 e nam de ,architeto inteligente4 tudo -de ser grande1 mas no-mesmo tempo proporcionado4 ,damesma sorte em um discurso1 nem todos os pensamentos podem ser exquizitos1 ou a locusam sublime3 -de aver pensamentos bons1 exquizitos1 e mediocres3 a locusam damesma sorte1 em alguns lugares sublime2 v4 g4 nas perorasoens1 e exagerasoens c4 em outras mediocre2 v4 g4 nos-exordios1 nas confirmasoens de provas c4 e em outras simplez e natural1 como nas narrasoens1 e outros lugares4 ,mas todas estas coizas m-de ter proporsam entre si3 devem ser ornadas e vestidas daquela tal grandeza1 que mostre serem partes1 de uma coiza grande4 ,asim se-compoem1 um discurso perfeito4 ,esta magnificencia de expresoens grandiozas1 e armoniozas1 convem ao estilo sublime1 com a distribuisam dita1 de aplicar as melhores1 s coizas que merecem maior atensam4 ,tambem no-estilo sublime devem intrar1 reflexoens judiciozas1 e varias sentensas1 que excitem a atensam4 ,nele tem seu proprio lugar1 as ,figuras grandes3 ,sendo certo1 que um argumento nobre1 nam se-pode tratar1 sem alguma particular comosam3 de que nace aquele modo de expremir-se1 em que consistem as ,figuras4 ,devem porem praticarse1 segundo as observasoens asima feitas4 ,esta porem a maior dificuldade1 do-estilo ,sublime3 e sam poucos os omens1 que saibam abrasar1 uma distribuisam moderada de ornamentos1 no-discurso4 ,a maior parte dos-que escrevem1 sam como aquelas pesoas1 que nam tem educasam de ,corte4 ,estas1 para se-mostrarem bem informadas1 e de boa eleisam2 carregam tanto os vestidos de oiro1 e a cabesa de joias2 que em lugar de parecerem bem1 ofendem a vista4 ,o pior 1 que no-defeito que repreendemos1 caiem tambem os que sam da-,corte1 como os que sam de fra3 e mais dificultozo emendar-se4 ,um omem que tem m eleisam no-vestir1 tem tantos censores vista1 que forsa de critica1 e de observasam1 consegue a emenda4 ,nam asim o que escreve3 sam poucos os que censurem1 porque sam pouquisimos os que saibam1 como se-deve censurar4 ,alem diso1 nam algum1 que prezuma tam mal do-seu juizo1 que leia por-livros1 que lhe-mostrem1 as suas imperfeisoens4 ,busca somente aqueles1 que mais lhe-agradam1 e sam mais uzuais3 e em vez de s'emendar1 confirma-se na sua m eleisam4 ,v4 ,p4 nam achar um ,pregador1 que estude por-,cicero1 ,demostenes1 ,m4 ,seneca1 ,quintiliano3 ou leia alguns1 dos-que compuzeram boas reflexoens1 sobre as ditas obras3 achar porem muitos1 que estudam por-sermonarios1 e muito maos3 e estes nam podem escrever melhor1 doque lem nos-tais autores4 ,outros escritores1 querendo-se distinguir do-,comum1 nam gostam senam1 de expresoens grandes3 e de tal sorte se-deixam guiar1 por-este furor2 que nam produzem palavra1 que nam seja de p e meio2 e que nam acabe d'estoiro1 como uma bomba4 ,as palavras e fraze natural1 o modo de s'expremir uzual1 aindaque seja o mais proprio da-materia1 nada vale4 desprezam tudo1 o que nam estrondozo4 ,nenhum destes dir3 ,petrus amavit ,joannem3 nam senhor3 mas querem perifraze3 ,accidit ut ,petrus amore prosequeretur ,joannem2 ou alguma fraze mais comprida4 ,estes omens vem todas as coizas1 por-microscopio3 tudo lhe-parece gigantesco3 ou1 para melhor dizer1 tudo transformam4 ,a sua cabesa como a de ,d4 ,quixote3 a quem moinhos pareciam palacios2 e nam avia coiza para ele1 que nam fose magestoza4 ,daqui nace1 que tudo exprimem pola mesma maneira4 o discurso comesa por-,figura1 e acaba em ,figura4 ,este o vicio comum destes pazes2 mas muito principalmente dos-,poetas1 e ,oradores4 ,estes omens confundem o ,eloquente1 com o ,arrogante2 a ,exagerasam com a ,inverosimilidade3 sem advertirem1 que sam coizas bem diferentes4 ,ora este o verdadeiro carater da-ignorancia3 tanto mais dificultozo de s' evitar1 quanto certo1 que muitos omens grandes em outro genero1 tem caido neste defeito4 ,este o ponto que se-deve advertir1 com mais circunspesam3 este o defeito que se-deve fugir1 com mais cautela4 ,o que se-consegue primeiro1 com alguma reflexam judicioza3 segundo1 com a lisam de bons autores1 que falem como devem1 e proporcionem o estilo1 ao asumto4 ,nam coiza mais ridicula1 doque uma grande afetasam de palavras sonoras1 em coizas onde nam devem intrar#df4 ,em lugar de engrandecerem quem fala1 mostram a pobreza do-seu intendimento3 que nam tendo cabedal1 de dar palavras para tudo1 pede-as emprestadas1 ou furta sem advertencia1 as que incontra4 ,ver tambem ,v4 ,p4 que muitos1 querendo falar elegante1 acabam tudo em tom de verso3 ,porque nam chego a amar1 nam poso padecer3 e com este ar1 e er2 ir1 e or2 e consonancias semelhantes1 vam enchendo o discurso1 que deveriam cuidar de ornar1 com bons pensamentos e conceitos4 ,isto mais vulgar1 doque ,v4 ,p4 imagina3 e acha-se muita gente de bigode1 que chama a isto elegancia4 ,eu sei que o numero oratorio1 ou armonia dos-periodos1 de que ,cicero fala em varios lugares1 uma grande beleza1 em todo o discurso1 principalmente oratorio#dg3 mas sei1 que muito diferente1 do-que condeno4 ,nam regra exata1 para o numero oratorio3 a orelha a que ensina1 quando o periodo armoniozo#dh4 ,mas necesario que tenha mui ms orelhas1 quem nam distingue1 que as consonancias que apontamos1 em lugar de agradarem1 ofendem1 e sam uma afetasam4 ,em ,portugal sam rarisimos1 os que observam o numero1 ainda nos-discursos estudados4 ,ou afetam verso1 e isto vicio#di3 ou declinam para outro extremo1 que a languideza1 e tambem isto vicio insoportavel4 ,a mediania que se-busca2 e quem bem intende o que numero1 nas cartas1 e no-discurso familiar1 sem advertir o-pratica4 ,para isto quer-se boa orelha1 acostumada a ouvir ler1 e pronunciar bem4 ,pecam alem disto2 em fazer periodos tam compridos1 que nam se podem ler de um jato3 o que tambem falta de numero4 ,a lisam dos-bons livros remedeia isto1 e introduz um omem1 na verdadeira estrada da-,eloquencia4 ,mas necesario1 lelos sem prejuizos1 e com animo de aprender4 ,o estilo ,sublime tem seu proprio lugar1 nas orasoens1 e sermoens3 na ,poezia ,eroica1 e ,tragica3 e pode s vezes ter lugar1 na ,istoria1 quando s' introduzem a falar1 algumas pesoas4 ,as orasoens de ,cicero1 os poemas ,epicos de ,omero1 e ,virgilio1 sam de estilo sublime4 ,,simplez4 ,ao estilo ,sublime contrapomos1 o estilo ,simplez ou umilde4 ,asim como as coizas grandes1 devem explicar-se magnificamente2 asim o que umilde1 deve-se dizer com estilo mui simplez1 e modo d' expremir mui natural4 ,as expresoens do-estilo simplez sam tiradas1 dos-modos mais comuns de falar a lingua3 e isto nam se-pode fazer1 sem perfeito conhecimento1 da-dita lingua4 ,esta 1 segundo os mestres d'arte1 a grande dificuldade1 do-estilo simplez4 ,facil coiza a um omem1 de alguma literatura2 ornar o discurso com figuras3 antes todos propendemos para iso3 nam s porque o discurso s' encurta2 mas porque talvez nos-explicamos melhor1 com uma figura1 doque com muitas palavras4 ,polo contrario1 para nos-explicarmos naturalmente e sem figura1 necesario buscar o termo proprio1 que exprima o que se-quer3 o qual nem sempre se-acha1 ou ao menos1 nam sem dificuldade3 e sempre se-quer perfeita inteligencia da-lingua1 para o-executar4 ,alem disto1 as ,figuras encantam o leitor1 e impedem-lhe penetrar e descobrir os vicios1 que se-cobrem1 com tam ricos vestidos4 ,nam asim no-estilo simplez1 o qual1 como nam faz pompa de ornamentos1 deixa considerar miudamente1 todos os pensamentos do-escritor4 ,por-iso se-diz1 que o estilo simplez 1 o lapis ,lydius do-,juizo4 ,isto que digo1 das-expresoens comuas e naturais1 deve-se intender com proporsam4 ,nam quero dizer1 que um omem civil fale1 como a plebe2 mas que fale naturalmente4 ,a materia do-estilo umilde1 nam pede elevasam de figuras c4 mas nem por-iso se-deve expremir1 com aquelas toscas palavras1 de que uza o povo ignorante4 ,nam o mesmo estilo baixo1 que estilo simplez3 o estilo baixo1 sam modos de falar dos-ignorantes e pouco cultos3 o estilo simplez1 modo de falar natural e sem ornamentos2 mas com palavras proprias1 e puras4 ,pode um pensamento1 ter estilo sublime1 e nam ser pensamento sublime3 e pode achar-se um pensamento sublime1 com estilo simplez4 ,explico-me4 ,para ser sublime o estilo1 basta que eu vista um pensamento1 e o-orne com figuras proprias1 aindaque o pensamento nada tenha1 de sublime4 ,polo contrario1 chamamos simplezmente sublime1 7com os ,retoricos7 quela beleza e galantaria de um pensamento1 que agrada e eleva o leitor1 aindaque seja proferida1 com as mais simplezes palavras4 ,desorteque o sublime pode-se achar1 em um s pensamento1 ou figura c4 ,importa muito intender1 e distinguir isto1 para nam ser enfandonho nas conversasoens1 e nas obras que pedem estilo umilde4 ,v4 ,p4 tem um bom exemplo de estilo simplez1 nas ,cartas familiares de ,cicero1 principalmente nas que escreve aos de sua caza3 nas ,eglogas c4 de ,virgilio3 nas ,fabulas de ,fedro3 ,cartas de ,plinio a algumas pesoas3 e outras obras da-,antiguidade4 ,em ,portuguez as ,cartas do-,p4 ,vieira1 tirando algumas que degeneram em sermam c4 podem-se ler1 para o estilo simplez4 ,e estas sam as melhoras obras1 do-dito ,religiozo4 ,,mediocre4 ,do-que a ,v4 ,p4 tenho dito fica claro1 qual o estilo ,mediocre3 aquele digo1 que partecipa de um e outro estilo4 ,tambem este estilo nam pouco dificultozo3 porque necesario1 conservar uma mediania1 que nam degenere em viciozos extremos3 e sam poucos aqueles1 que conhecem as coizas1 na sua justa proporsam1 e formam aquela ideia1 que merecem4 ,ja dise1 que a materia a que determina1 qual -de ser o estilo3 e asim uma materia mediocre1 pede um estilo proporcionado4 ,a maior parte das-coizas de que falamos1 sam mediocres3 e daqui vem1 que neste estilo de falar1 deve-se empregar um omem1 que quer falar bem2 e conseguir fama1 de omem eloquente4 ,um omem de juizo1 que conhece as coizas como sam1 frma delas ideias justas1 e verdadeiras2 e as-explica com as palavras1 que sam mais proprias4 ,d' onde vem1 que o estilo mediocre compete propriamente1 s ,ciencias todas1 ,istoria1 e outras coizas d'este genero3 nas-quais se-reprezentam coizas nam vis1 mas mediocres2 porem reprezentam-se1 damesma sorte que sam1 e com palavras proprias4 ,tambem as cartas de negocios graves1 ou eruditas1 e aquelas de ceremonia a pesoas grandes c4 costumam ser neste estilo4 porem de advertir1 que o estilo mediocre1 admite todos os ornamentos d'arte3 beleza de figuras1 metaforas1 pensamentos finos1 belas discrisoens1 armonia do-numero1 e da-cadencia3 ,contudo nam tem a vivacidade1 e grandeza do-sublime4 ,participa de um e outro1 sem se-asemelhar a nenhum4 tem mais forsa e abundancia que o simplez2 menos elevasam que o sublime3 e prosegue com paso igual1 e mui brandamente4 ,alegam-se por-bons exemplos neste genero1 as ,georgicas de ,virgilio3 a maior parte das-cartas de ,cicero a ,pomponio ,atico3 c4 os ,comentarios de ,cezar c4 aindaque estes1 por-nam terem ornamentos1 quazi pertencem ao simplez3 as vidas de ,cornelio ,nepote4 c4 ,quem bem intende isto1 fica perfeitamente instruido do-modo1 com que deve aplicar-se1 a diferentes materias4 ,o estilo da-,istoria pede clareza1 e brevidade4 aquela1 para explicar todos os acidentes da-materia3 esta1 paraque1 sem longas frazes1 que suspendem a atensam1 descreva as coizas que deve1 com um fio de discurso continuado1 e sem ser interrompido com aqueles movimentos1 que constituem o ,orador#ej4 ,porque neste cazo nam pode conservar1 uma certa inalterabilidade1 e quietasam de animo1 que tam necesaria1 para nam inclinar mais para uma parte1 que para outra2 e dizer as coizas com verdade1 e sem exagerasam4 ,pode porem o ,istorico1 mostrar a sua eloquencia1 no-referir as arengas1 que s' introduzem na ,istoria2 no-pintar as paixoens c4 mas tudo isto com advertencia1 e sem perder de vista a verdade4 pois a ,istoria aquela materia na qual1 despois da-,oratoria1 mais se mostra1 a eloquencia vigoroza4 ,em segundo lugar fica claro1 qual deve ser o estilo ,dogmatico ou ,didascalico1 a que por-outro nome chamamos1 estilo ,cientifico4 ,aqui nam se-trata de persuadir1 omens apaixonados1 excitando as armas1 comque a alma se-move para esta1 ou aquela parte4 ,o primeiro postulado que se-poem1 no-principio dos-,tratados modernos 1 que o leitor se-dispa1 de todo o genero de prejuizos1 e paixoens3 e que examine as razoens1 como merecem4 ,onde supondo-se um leitor docil1 nam necesario1 seguir o estilo veemente#ea4 ,mas nisto mais1 e menos1 segundo as ,ciencias4 ,a ,geometria1 que explica verdades claras1 e que nam interesam ninguem1 deve-se tratar placidisimamente1 com aquelas palavras1 que sam precizamente necesarias1 para a explicasam dos-termos c4 ,a ,logica1 ,fizica1 ,metafizica pedem ja um estilo mais ornado3 ja se-disputa com omens1 que tem suas prevensoens3 as verdades nam sam tam claras3 permetido servir-se de um estilo mais nervozo4 ,principalmente na era prezente1 em que a ,filozofia1 despida daquela antiga e ridicula severidade1 trata-se oje em todas as linguas1 e com vocabulos proprios1 e se-familiariza com todos4 ,onde pode tratar-se em estilo familiar1 por-carta1 em dialogo1 ou de outra maneira2 emque pode ter lugar1 um genero de eloquencia mais ornada4 ,a ,teologia pode ser tratada1 com estilo mais elevado4 ,somos interesados em defender1 a verdade da-religiam1 contra os ,ateos1 e ,infies1 e ,erejes4 ,este interese nam pode menos1 que acender em ns1 alguma paixam bem devida4 ,onde nam maravilha1 se algumas vezes nos-transportamos1 falando de ,teologia1 e seguimos um estilo mais elevado e viril4 ,nam digo1 que tudo se aja de tratar1 em estilo oratorio1 ou que se-devem defender as questoens1 com ironias c4 e nam com razoens solidas3 sera isto um erro consideravel1 e mui condenavel3 digo somente1 que ja permetido1 servir-se de alguma figura1 e uzar de estilo mais elegante4 ,os antigos ,padres uzram deste estilo1 quem mais1 e quem menos4 ,e oje todos os omens de melhor doutrina1 nam desprezando a frma da-,escola1 uzam porem dela com tanta moderasam1 que comumente expoem as suas sentensas1 sem aquele estilo das-escolas1 que at aqui reinava4 ,o que faz que seja mais bela a ,teologia3 mais concludente o discurso3 e poem vista1 e na sua luz todas as razoens3 porque s asim as-intendem todos1 e se-evitam palavras1 que nada significam nas escolas4 ,quanto s outras ,ciencias profanas1 pola maior parte tratam-se mais placidamente1 segundo a necesidade da-materia4 ,em terceiro lugar fica claro1 qual o estilo dos-,poetas4 ,querem os ,poetas1 7diz um ,retorico7 agradar1 e elevar o animo dos-ouvintes1 com coizas extraordinarias e maravilhozas3 e nam podendo chegar ao fim que se-propoem1 senam sustentando a sublimidade das-coizas que dizem1 com o sublime das-palavras que uzam2 daqui vem1 que nam se-sugeitam s leis do-uzo comum2 mas formam1 para se-explicar1 um idioma novo4 ,tudo neles grande e extraordinario2 imaginasam1 conceito1 e palavras4 ,daqui nace1 que as figuras devem ser1 as suas mimozas1 ,alem diso1 como as verdades abstratas nam agradam1 porem sim as coizas1 que entram polos sentidos2 fica claro1 que querendo o ,poeta agradar1 deve procurar metaforas1 com que reprezente as coizas sensiveis1 e quazi palpaveis3 porque asim que imprimem1 uma particular comosam4 ,este o principio1 que obrigou os antigos ,poetas1 a romperem com certas ideias1 que nos-parecem chimeras4 ,cada ,virtude1 e cada ,paixam na ,poezia1 uma ,deuza3 porque a descrisam destas ,deuzas tam medonhas1 ou tam engrasadas1 faz outra impresam no-animo1 doque a simplez palavra de ,virtude1 ou ,vicio4 ,est ,deus in nobis1 agitante calescimus illo4 ,quando uma vez s'esquenta1 a imaginasam do-,poeta1 nam fala como os demais omens3 e asim nam maravilha1 que encha o discurso de ,figuras1 e ingenhe tantas fabulas e fingimentos4 ,isto tam proprio dos-,poetas1 que at os sagrados ,poetas1 para se-explicarem1 servem-se de todo o genero de metaforas4 ,isto porem deve intender-se dos-poemas1 que tem por-objeto1 materia grande3 os divertimentos dos-pastores1 que compoem as ,eglogas2 as istorias que dam materia s ,comedias2 e mil outras poezias1 que se-podem considerar com menos paixam1 devem ser tratadas1 por-outro estilo4 ,a regra geral1 que ao principio demos1 infalivel1 e consiste nisto3 ,a qualidade da-materia deve determinar o estilo1 aindaque posa ser mais ou menos ornado3 o que s'intenda tanto da-,proza1 como do-,verso4 ,isto quanto ao estilo4 quanto pois s regras do-,poema1 nam aqui1 o proprio lugar1 de as-explicar3 porque eu nam faso tratado1 mas reflexoens4 ,dirmem alguns1 que estas advertencias conduzem1 para fazer uma obra solida1 mas nam para a-fazer bela1 e ornada3 que o principal emprego da-,retorica4 ,e com efeito esta a costumada cantilena1 destes vulgares ,oradores1 que ignoram as belezas da-arte4 ,em algumas partes1 temos notado este defeito3 e aqui1 para o-confutar melhor1 faremos outra advertencia4 ,digo pois1 que este ingano comum1 fica suficientemente asima convencido3 sendo certo1 que nam se-requerem outras regras1 para falar com elegancia1 e ornato1 doque as que asima dmos1 para falar com propriedade4 ,a mesmisima coiza se-pode expremir1 com diversos nomes1 segundo o modo com que se-considera4 ,a maior beleza e ornamento de uma compozisam1 aquilo que eleva um leitor racionavel e judiciozo1 7que sam os que podem fazer lei7 a exasam1 e propriedade com que se-acha disposta1 e executada uma-obra4 ,quem nam intende este ponto1 noviso na ,retorica4 ,mas1 declarando isto melhor aos principiantes3 ,tem a ,retorica ornamentos naturais1 e artificiais3 aqueles entram necesariamente em qualquer obra3 estes com parcimonia4 ,o primeiro ornamento a verdade1 ou semelhansa das-palavras com as ideias1 e objeto delas4 ,a mais medonha cobra pintada1 agrada3 as coizas mais ordinarias1 quando sam bem explicadas1 nam podem dezagradar4 ,deve o discurso ter primeiramente1 clareza nas expresoens1 para poder insinuar-se no-animo2 armonia1 e facil pronuncia4 ,estes sam os naturais4 ,entre os artificiais1 poem-se as ,figuras todas1 os ,tropos1 as magnificas expresoens1 as aluzoens1 alguma ingenhoza aplicasam c4 as quais sam s vezes tambem recebidas1 como a mesma verdade3 e elevam a alma com o encanto oculto da-grandeza1 para a qual ela tem propensam natural4 ,nestes em que se-deve empregar o juizo1 distribuindo-os com muita parcimonia1 e boa eleisam4 ,nenhuma coiza orna1 que nam seja racionavel3 quando os ornamentos sam repetidos1 ou estam muito juntos1 sam importunos1 e dezagradam muito3 confundem a vista1 e cobrem toda a beleza do-sugeito4 ,ja nisto falmos larguisimamente4 ,finalmente quando o ornamento1 nam se-funda em verdade1 aindaque um pouco encarecida2 uma afetasam ridicula1 que mostra nacer1 de um ingenho mui trivial4 ,os ignorantes sam1 os que procuram com cuidado1 estas ridicularias1 para aquistar fama de doutos por-esta via1 visto que a-nam-podem por-outra4 ,outro defeito ainda acho1 em que comumente caiem1 e vem aser1 encher o discurso de alegasoens importunas1 de pasos ,latinos1 de versinhos1 e outras coizas que incontram4 ,podem as aluzoens1 alegasoens c4 ter lugar1 quando necesidade de ouvir as palavras1 na mesma lingua original2 ou para mostrar a sinceridade1 de quem as-cita2 ou a elegancia1 de quem as-escreveo3 o que raras vezes sucede3 tudo o mais tempo perdido1 e trabalho mui escuzado4 ,este dezejo de parecer erudito1 com a repetisam de mil pasos de autores1 tem alucinado infinita gente4 ,conheci um1 que nam abria a boca1 que nam repetise um verso de ,marcial1 de ,juvenal c4 ,examine ,v4,p4 este ponto1 e achar1 que o defeito mais geral1 doque nam parece4 ,conheso pouquisimos estudantes desa ,universidade1 falo principalmente dos-,opozitores1 e dos-que tem prezunsam de literatura2 cuja conversasam seja toleravel4 ,para dizerem1 que agora dia2 sairm com um1 e talvez muitos textos do-,digesto1 ou ,codigo c4 ,nam deixam pasar coiza1 que nam ornem com algum versinho moderno3 e quem sabe mais disto1 mais ciente4 ,aquele1 ,erubescimus sine lege loqui1 intendem-no tam n e cr1 que uma piedade4 ,tambem entre os ,religiozos1 nam falta desta fazenda3 aquele1 tandem1 item1 a parte rei1 cum hoc quod1 hoc unum est2 e outras destas palavras1 sam mui frequentes nos-seus discursos3 e tambem seus textos da-,escritura1 e seus versinhos ,latinos4 ,isto entra em todas as conversasoens1 aindaque sejam de idiotas1 e molheres3 antes nese cazo melhor1 porque se-grangeia fama sem embaraso4 ,este mao modo de pensar1 e discorrer1 pasou ja das-conversasoens1 para as compozisoens3 e por-iso ,v4 ,p4 ve tantos discursos1 ou sermoens1 ou orasoens1 que se-nam-podem sofrer4 ,tenho lido mil orasoens modernas 99 99 99 e rarisima achei1 em que nam intrse ,plinio o moso1 claro ou oculto3 mas pola maior parte entra claro3 e s vezes a orasam tem mais palavras de ,plinio1 doque de quem a-compoz4 ,ouvram dizer1 que o ,panegirico de ,plinio1 o mais suportavel1 que nos-deixou a ,antiguidade2 e sem mais exame1 enchem tudo de ,plinio4 ,outros pasam do-,panegirico s ,cartas3 um destes o ,p4 99 99 que no-elogio funebre de ,julio de ,melo1 faz uma istoria1 em que introduz muitos periodos1 tirados de varias cartas de ,plinio1 que dizem o mesmo1 que ele repete4 ,este modo de elogiar1 totalmente novo1 e ignoto ,antiguidade3 mas nem por-ser novo cuido que agradar1 aos que intendem a materia4 ,nestes ,panegiricos achar ,v4 ,p4 duas coizas comumente3 uma1 ,plinio1 e algum autor semelhante3 a segunda1 o ,sol1 com as ,estrelas4 ,mais vara menos vara1 aqui vem dar todos4 ,sera porem melhor1 que estes autores puzesem departe1 ,plinio2 e disesem alguma coiza de sua caza3 e nam dezenquietasem as ,estrelas1 trazendo-as para uma coiza1 para a qual nam calsam bem4 ,nam este1 o modo de elogiar4 disto se-rim todos os omens que sabem4 ,at as aprovasoens dos-livros1 andam cheias destes textos1 s vezes arrastadisimos1 e talvez tirados da-,escritura1 para provar uma frioleira4 ,os que nam trazem textos1 introduzem razoens bem desnecesarias1 e difundem-se em elogios1 tam excesivamente encarecidos1 que ninguem os-pode ler sem nauzea4 ,aindaque disesem a verdade1 e bem2 sempre era um grande defeito1 e impropriedade4 ,vi anos a vida do-,infante ,d4 ,luiz1 em #d4o escrita polo ,conde de ,vimiozo2 da-qual as aprovasoens1 sem encarecimento algum1 compoem metade do-volume4 ,e nam s fazem isto nos-livros2 mas em papeis avulsos1 e breves4 ,vi uma ,egloga1 escrita por-um certo ,felipe ,joz da-,gama1 no-nacimento de um neto de ,joam ,alvares da-,costa2 cujas aprovasoens eram maiores1 que a obra4 ,o pior 1 que tinha uma aprovasam do-,conde da-,ericeira1 ,d4 ,francisco ,xavier de ,menezes1 que caa na mesma simplicidade4 ,com efeito1 este era o carater do-dito ,conde3 que1 para mostrar que sabia muito1 carregava as suas pinturas1 com tantos ornamentos1 e doutrina1 que pareciam ridiculas4 ,ele era um omem erudito3 mas ignorava totalmente aquilo1 a que chamam modo1 metodo1 e criterio4 comtantoque false muito1 nam lhe-importava se dizia bem4 ,e naverdade na dita aprovasam da-,egloga1 tem coizas indignas4 ,deixa logo o argumento1 e pasa a descobrir entre ,joam ,alvares da-,costa e ,asinio ,pollio1 grande uniformidade4 despois1 difunde-se sobre os louvores da-,poezia4 finalmente faz uma selada tal1 que nam vi coiza mais confuza4 ,eu nam disputo agora1 se a dita ,egloga merece eses louvores3 concedo tudo de grasa3 o que digo 1 que se-explicava em duas palavras3 e grande impropriedade fazer uma censura eterna istoriada1 para uma brevisima ,egloga4 ,certamente o ,p4 ,estacio de ,almeida1 que em materia de ,poezia ,latina1 cuido que sabe alguma coiza mais1 que o dito ,conde2 mostrou o seu juizo na aprovasam1 contentando-se com dizer1 que era digna de s'impremir4 ,e isto deviam tambem fazer os outros3 deixando de fazer ,panegiricos1 a coizas que nam merecem1 ou que merecem menos3 e fazlos de um modo1 que merece mais rizo a erudisam que trazem1 que a que lhe-falta4 ,o ,p4 ,d4 ,manoel ,caietano de ,souza1 tambem seguia esta opiniam4 ,compoz o ,sargentomr ,manoel ,coelho1 uma ,explicasam das-oito partes da-orasam3 mas tam pequenina1 que nem menos se-lhe-deve chamar livro1 mas caderninho4 7foi impresa em ,lisboa1 no-ano #agbf47 ,sucede que ,d4 ,manoel aprova esta obra3 e aqui1 tomando as coizas desde o principio1 faz uma longuisima censura1 e um catalogo dos-,gramaticos do-,reino c4 ,tudo coizas desnecesarias6 ,e sei eu1 que1 se ouvse de impremir-se em outro ,reino1 se-contentariam com escrever1 ,imprimatur4 ,com esta advertencia observe ,v4 ,p41 as aprovasoens dos-livros1 e ver1 que ainda nam digo metade1 do-que devia4 ,neste particular de aprovasoens1 nam vi omem em ,portugal mais moderado1 que ,fr4 ,manoel ,guilherme3 fugia quanto podia de mentiras e afetasoens2 e claramente dizia1 o seu parecer4 ,mas oje sucede o contrario3 porque s vezes fazem-se empenhos1 para determinar os censores3 e estes tais1 nam censuram o livro1 mas agradecem a eleisam4 ,e sei eu tambem1 que quando o ,p4 99 99 99 impremio a sua obra 99 99 tendo feito um ,teologo1 a censura difuza2 foram-lhe pedir novamente1 que se-dilatse mais1 e louvse a obra com maior extensam4 ,e nam podendo livrar-se do-empenho1 que era forte2 acrecentou alguns sinonimos1 para satisfazer s partes3 o que sei da-mesma boca do-censor4 ,onde com estes exemplos1 nam devemos admirar-nos1 se incontramos os elogios tam frequentemente 99 99 99 ,mas1 tornando dita erudisam afetada1 digo1 que a este modo de ornar e discorrer1 chamam os ,retoricos1 ornamentos falsos4 ,porque os outros1 podem ter lugar no-discurso1 e s se-procura a parcimonia3 estes1 de nenhum modo devem intrar nele4 ,ja gran tempo 1 que os omens de juizo clamram1 contra este abuzo3 principalmente porque1 bem examinada a coiza1 uma solenisima impostura1 e azilo de ignorancia3 sendo certo1 que estes tais nunca tem menos erudisam1 que quando mostram ter tanta4 ,quem ouve aquela machina de textos1 persuade-se que um omem1 de erudisam infinita3 mas nada menos3 e eu poso jurar de muitos1 que nam abriram os livros que citam1 aindaque sejam bem uzuais4 ,remedeiam-se com o ,theatrum ,vit ,human1 ,polyantea de ,langio1 e outros destes armazens1 em que polo ,a4 ,b4 ,c4 acham-se as materias1 dispostas4 ,de que vem1 que os omens inteligentes nam podem menos1 que rir-se de tais compozisoens4 ,lembro-me1 que um leitor de certa ,religiam1 querendo persuadir-me1 que um seu amigo sabia ,latim perfeitamente2 dizia-me1 que lia sempre por-,plutarco3 e carregava muito em ,plutarco4 ,ouvi esta muzica algum tempo2 e nam podendo sofrer mais1 proguntei-lhe1 se ,plutarco era bom ,latino4 ,aqui o omem3 ,poisque1 iso tem duvida8 na antiguidade nam acha ,v4 ,p4 um ,latino1 como ,plutarco4 ,o que daqui se-seguio foi1 ficar eu formando mui mao conceito1 dele1 e do-seu amigo4 ,de um1 por-dizer o que nam sabia3 pois se tivese aberto ,plutarco1 ou acharia o texto ,grego com a versam ,latina2 ou tendo somente a versam1 acharia no-frontispicio1 o nome do-tradutor4 ,do-outro1 porque aindaque a tradusam1 nam seja barbara1 contudo nam livro para se-imitar3 falo da-versam de ,curserio1 e ,xilandro1 c4 ,tambem nam pequeno defeito1 a grande repetisam de sentensas1 sem necesidade4 ,persuadem-se muitos1 que1 falando por-sentensas1 ficam graduados como sutilisimos1 e fundadisimos letrados4 ,lram em ,seneca ,filozofo1 ou ,lucano1 ou ,tacito1 ou algum semelhante1 uma quantidade destas sentensas2 e1 sem mais exame1 nem advertencia1 adotam aquele estilo2 e deitam mais sentensas pola boca fra1 que uma carranca de xafariz nam deita agua4 ,verdadeiramente um divertimento1 bem digno de se-procurar em oras ociozas1 ter uma conversasam com um destes4 ,eu gozei esta felicidade algumas vezes3 e nam me-podia satisfazer de observar1 aquela circunspesam magistral1 com que proferem as palavras1 em tom decizivo e com toda a magistralidade1 de um ,padre de ,concilio4 ,ja eu lhe-perdora a materia3 o que nam poso sofrer 1 o modo com que se-explicam4 ,se eles tivesem observado e intendido1 que aquele mesmo ,seneca foi o primeiro1 que comesou a perverter1 o bom gosto da-,latinidade1 com tam enfadonhas sentensas3 com as quais perdeo entre os seus1 e entre todos os que se-seguram de alguma estimasam2 aquele conceito1 que poderia aquistar1 se fose mais parco de ornamentos2 saberiam entam1 com que olhos se-devem ler1 certos autores4 ,mas eu falo em um suposto1 que me-parece falso1 e vem aser2 que estes tais profiram1 verdadeiras sentensas3 falam como se fose por-sentensas2 mas nam sei se o que dizem1 merece este nome4 ,porque a ,sentensa deve1 em poucas palavras1 dizer muito1 e dize-lo com modo singular3 o que raras vezes se-acha neles4 ,note tambem ,v4 ,p4 outro defeito de eloquencia1 no-mesmo frontispicio dos-livros4 ,estam estes seus autores1 tam preocupados polas esquipasoens1 que nam se-contentam1 de pr o titulo do-livro claro3 mas ou inventam um estrambotico1 ou acrecentam algum epiteto1 que oscurece o negocio4 v4 g4 ,cristais1 d'alma1 fraze do-corasam3 ,fenix renacida3 ,alivio de tristes1 consolasam de queixozos3 e outras coizas destas1 que quando eu as-leio1 me-vem memoria1 o ,belorofonte literario1 ,clypeus ,mundi1 e outros titulos ridiculos1 que s estavam bem1 na boca de ,d4 ,quixote de la ,mancha4 ,e isto nam s achar ,v4 ,p4 entre os ,antigos1 mas entre estes ,modernos4 ,traduz um ,bacharel os ,epigramas do-,p4 ,reis1 em verso ,portuguez1 e d-lhe este titulo3 ,imagens conceituozas4 ,ora1 falemos sem paixam1 intende ,v4 ,p4 que1 lendo-se estes titulos1 poder um omem advinhar1 o que contem estes livros8 ,eu nam tenho dificuldade em apostar1 que nam3 e digo mais1 que este autor nam intendeo1 o que quer dizer aquele titulo3 pois1 a falar verdade1 nam maior despropozito1 que a uniam daquelas duas palavras1 para explicar a dita versam4 ,e ponho agora de parte a loucura1 de traduzir em ,portuguez1 epigramas destes ,latinos1 cuja galantaria nam consiste1 em um conceito nobre2 mas em palavrinhas1 ou equivocos1 que perdem o pico1 na tradusam4 ,mas nam pra nisto o abuzo3 antes chegou a termos1 de se-nam-chamarem as coizas1 com os seus nomes1 porem com outros muito diferentes4 ,vi concluzoens de ,logica1 que se-intitulavam3 ,regnum ,algarbiense in quatuor vicos distinctum3 ,vicus primus1 de ,signis3 secundus1 de ,enunciatione c4 que se-podia intender1 ser uma carta geografica4 ,outras de ,filozofia intitulavam-se3 ,pigmenta ,philosophica4 ,finalmente chamavam-lhe como queriam4 ,e isto mui frequente1 nas escolas da-,companhia3 e nam faltou ja quem me-disse1 que eram titulos ingenhozos4 ,estes titulos1 ,conclusiones1 ,propositiones1 ,theses1 nam prestam ja para nada3 sam coizas dos-antigos1 e nomes mui ordinarios4 ,e que chama ,v4 ,p4 a isto1 senam jurar1 de nam dizer as coizas direitas1 mas de falar em ,persiano1 ou ,chinez8 ,e se ,v4 ,p4 examinar este defeito1 achar1 que sam poucos os autores1 que nam caiam nele4 ,outros acrecentam epitetos afetados4 v4g4 ,regras da-lingua ,portugueza1 ,espelho da-lingua ,latina3 deixando agora muitos outros1 que podia acrecentar4 ,contudo eu intendo1 que era mais natural1 e nobre dizer3 ,regras da-,gramatica ,portugueza1 para introduzir os rapazes1 na ,gramatica ,latina3 ou ainda mais breve1 e melhor3 ,introdusam para a ,gramatica ,latina3 e falando asim1 todos o-intenderiam4 ,que fizesem isto nos-dois ultimos seculos1 paciencia3 mas agora1 que o mundo abrio os olhos1 e todos procuram explicar-se bem2 nam se-pode sofrer3 e vale o mesmo que mostrar1 que nam intendem em que consiste1 a elegancia da-lingua1 e a forsa da-eloquencia4 ,os seicentistas sam os que caram1 nesta ridicularia3 os antigos doutos todos1 a-evitram3 e se algum se-desviou dela1 nam teve sequazes1 e deve ser reprovado4 ,os titulos dos-,antigos1 todos sam simplezes3 ,cornelius ,celsus1 de ,re ,medica3 ,caii ,julii ,csaris1 de ,bello ,gallico c4 ,ciceronis ,orationes1 ,epistol1 de ,finibus bonorum c4 e outros a estes semelhantes4 ,estas palavras mostram bem1 o de que se-trata3 e aquela nobre simplicidade encanta mais1 que todas as afetasoens1 a quem intende1 que coiza ,eloquencia4 ,os ,modernos doutos1 quando nam sam anonimos1 que querem brincar2 servem-se de titulos sezudos1 breves1 e claros3 e nisto em que oje se-cuida4 ,com efeito nos-titulos se-mostra1 o juizo do-autor4 ,eles sam os que apontam a materia3 e devem nam dizer mentiras1 e falar em lingua1 que todos intendam4 ,pertencem a esta clase1 os que nas ,concluzoens publicas1 poem por-questam principal uma coiza1 que nam significa nada1 e nam pertence materia4 ,confeso a ,v4 ,p4 que quando a primeira vez1 vi neste ,reino estas concluzoens1 fiquei pasmado3 e quando vi1 que a dita questam nam se-disputa1 nem serve de nada1 ainda me-admirei mais4 ,um destes imprime umas ,concluzoens de ,logica3 dedica-as a ,cristo ,crucificado3 7porque estes mosos tem tanta devosam1 que em nenhum lugar a-podem encubrir7 e poem por-questam principal3 ,se ficou mais gloriozo ,cristo na cruz1 que no-,tabor4 ,outro faz umas concluzoens de ,materia ,primeira1 e poem por-questam3 ,utrum in ,lun concavo degant homines8 ,finalmente bem raro aquele1 que poem questam principal1 tirada das-concluzoens3 mas ou da-dedicatoria1 ou de outra coiza1 que nam significa nada4 ,e estarm s vezes semanas inteiras1 lambicando o ingenho1 para excogitar uma questam sutilisima1 que calse bem dedicatoria4 ,e que chama ,v4 ,p4 a isto8 senam dizer mentiras3 servir-se de palavras que nam significam nada3 improprias ao argumento3 s para mostrar1 que tem ingenho4 ,saiem eles logo dizendo1 que um costume antigo3 ,e eu respondo1 que mao costume3 e que se-deve emendar4 ,na minha ,italia poem-se as concluzoens simplezmente1 sem estes rodeios4 ,se as concluzoens sam dedicadas a ,cardiais1 ou ,bispos1 ou outras pesoas grandes2 estes vam asistir em publico1 asentados defronte do-,defendente3 o qual porem est na cadeira3 e ali faz ao principio um comprimento ,latino1 pesoa a quem dedica1 breve1 e claro3 e procura falar em lingua1 que todos intendam1 e mostrar a sua doutrina sem sutilezas1 nem coizas que meresam rizadas4 ,nem intenda ,v4 ,p4 que estes defeitos que aqui aponto1 sam de um ou dois autores3 nam senhor1 sam gerais4 ,leia ,v4,p4 estas obras ,portuguezas modernas1 principalmente orasoens ,academicas1 em que fazem ostentasam1 de toda a erudisam e advertencia2 e confirmar o que digo4 99 99 99 ,entre os modernos1 o ,conde da-,ericeira tem muito disto1 como ja disemos4 ,comesa as suas coizas com uns rodeios1 e umas oscuridades1 que sem comentos nam se-intendem4 ,daqui pasa a acarretar1 tudo quanto leo3 e comumente dezempara o asumto1 para dizer o que lhe-ocorre4 v4g4 ,no-elogio ,funebre de ,francisco ,dionizio de ,almeida diz1 que tomava por-empenho1 descrever o elogio de ,tito ,pomponio ,atico1 que morrra no-dito dia4 ,mas sem falar em ,atico1 mete outras noticias estrangeiras1 e diz mui pouco do-defunto4 ,promete encarecer a perda do-defunto3 mas nada disto faz4 ,o mesmo ,conde no-elogio do-,papa ,inocencio ,,xiii4 declara logo1 que nam seguir os preceitos da-,retorica1 mas da-,istoria3 e com efeito faz um catalogo difuzisimo e insoportavel1 da-gerasam do-dito ,papa3 e deste nam diz nada4 ,devendo porem saber1 que a obrigasam sua era1 exaltar as virtudes do-seu eroe1 e nam as dos-pasados4 ,pois asimcomo nenhuma molher feisima merece ser louvada1 porque filha1 de uma molher mui bonita3 antes polo contrario1 a fermozura da-maen d ocaziam1 paraque nos-admiremos da-filha3 asim tambem as virtudes dos-pasados1 nam servem de panegirico aos prezentes3 necesario mostrar1 que estes excedem os seus maiores1 nas mesmas asoens4 ,do-que fica claro1 que o dito ,conde sabia pouco1 elogiar4 ,e nam se podia esperar menos1 de um omem que protesta1 de nam seguir a ,retorica4 ,e quantos parentes1 quero dizer1 apaixonados1 nam vemos deste fidalgo6 ,mas sem nomiar mais ninguem1 provarei tudo com outra orasam1 feita na morte1 de ,d4 ,manoel ,caietano de ,souza3 da-qual porem nam sei quem o autor1 nem onde foi impresa2 porque uma que achei em certa parte1 e ainda conservo1 nam tem as primeiras folhas1 e comesa na folha #g4 ,mas seja quem for1 moderno3 vistoque o ,souza morreo pouco tempo3 e se ,v4 ,p4 a-tem lido1 achar uma grande prova do-que digo4 ,este omem faz uma orasam1 que um groso volume4 ,primeiro defeito do-panegirico4 ,confeso1 que asisti a muitas e diferentes exequias1 de ,pontifices1 ,imperadores1 ,reis1 ,principes soberanos1 ,cardiais1 e ,senhores grandes3 e nunca vi alguma1 que chegse metade desta4 ,mas isto nada4 tudo o que ele diz do-tal ,souza1 podia-se reduzir quarta parte1 e ainda sera longa4 ,consiste pois este grande volume1 emque o tal ,panegirista1 para mostrar que era erudito1 verteo nela1 quanta erudisam tinha4 ,explicarmeei se diser1 que ali se-acha o ,teatro de los ,dioses1 e ,theatrum ,vit ,human1 em corpo e alma4 ,nam diz coiza alguma1 para que nam traga um bocado de antiguidade1 comumente arrastada4 v4g4 ,para dizer1 que o ,souza unia a piedade com a ciencia#eb2 introduz a parentezis de uma pagina1 em que entra ,alexandre1 ,cezar1 ,cipiam c4 ,para dizer1 que o dito nam quizera mostrar a sua ciencia1 senam em ,lisboa#ec2 nomeia ,universidades sem tom nem som3 saltando de ,bolonha aos ,paizes ,baixos3 de ,pariz outra vez a ,padua3 de ,espanha a ,germania c4 e a cada paso mete fabulas1 sem ps nem cabesa4 ,e este justamente o defeito1 que eu asima condenava4 ,sobre o que me-lembro das-grasas1 de um omem mui douto1 que foi ,monsenhor ,sergardi3 ,este quando se-achava em alguma parte1 em que algum destes1 que tinham lido alguma fabula1 ou istoria1 a-queriam introduzir ou bem ou mal2 dizia-lhe galantemente3 ,diga1 meu senhor1 diga tudo o que tem estudado1 esta noite4 ,nam falo ja em alguns erros de istoria3 como dizer1 ,que a barca de ,s4 ,pedro navegou polo ,tibre3 ,que por ele tambem intrram1 as ,troianas gals de ,eneas3 e outros semelhantes#ed4 ,um bocadinho que estudse mais de ,istoria1 e ,geografia1 lhe-mostraria1 como as coizas ou foram1 ou nam foram3 e lhe-ensinaria1 que o lugar em que dezembarcou ,eneas1 nam foi o ,tibre1 polo qual nunca navegou4 ,chama aos ,romanos1 decendentes de ,eneas1 e ,ascanio4 como se ,eneas fose o ,no dos-,lavinios1 ,albanos1 e ,romanos6 ,mas a isto chamo eu venialidades3 o que nam poso sofrer1 sam outras falsidades1 que diz naquele panegirico2 principalmente quando quer sar1 fra de ,portugal4 ,neste cazo o omem transforma tudo4 ,um comprimento feito a ,d4 ,manoel ,caietano1 uma carta escrita mais cortezmente1 sam autenticas provas1 da-sua imensa literatura4 ,que pouco informado 1 da-politica dos-outros ,reinos1 este ,panegirista6 e quam pouco sabe distinguir1 o encarecer uma coiza1 e o inventala6 ,pode o ,retorico dilatar1 e exagerar muito um argumento3 mas sempre dentro dos-limites da-verosimilidade4 ,ora uma parvoice manifesta dizer1 ,que o ,souza foi a ,roma1 para espantar todo o orbe literario3 ,que em todo o mundo se-ouviam1 os brados da-sua fama3 ,que a ,europa suspensa e admirada confesou1 que excedia a sua mesma fama c4#ee3 ,que a ,europa confesou1 que a sua erudisam era maior1 que todos os encarecimentos1 com que o-celebravam no-mundo1 as mesmas cem bocas da-,fama#ef4 ,isto sam mentiras mui manifestas3 e a isto chama-se satirizar1 e nam1 elogiar4 ,nam pra aqui a galhofa3 diz1 ,que nam se-sabe em ,portugal1 que os ,reinos estrangeiros desem1 nestes ultimos tempos1 um omem1 que se-posa comparar ao ,souza#eg4 ,que o-nam-saiba ele1 concedo3 vistoque pola sua orasam1 mostra saber muui pouco3 mas que o-ignorem outros ,portuguezes1 nego redondamente4 ,conheso eu omens1 que sabem distinguir muito bem ,d4 ,manoel ,caietano1 de infinitos omens1 muito mais doutos que ele4 ,eu creio que ,d4 ,manoel ,caietano foi douto1 e soube mais1 doque o comum dos-,portuguezes3 aindaque eu nam poso julgar por-experiencia1 porque nunca o-tratei3 mas polas suas obras o-discorro3 mas nam sam elas tais1 que ponham um omem1 na primeira esfera dos-doutos4 ,e sei eu muito bem1 que a sua ,expeditio ,hispanica1 mui pouco estimada em muitas partes3 e que nam pode obrigar1 os omens mais doutos1 e de uma critica purgada2 a que mudasem de opiniam1 sobre a vinda de ,santiago3 e eu sou um daqueles1 que ainda nam se pode persuadir1 das-suas razoens4 ,mas querlo comparar1 com outros grandes omens da-,europa1 mostrar1 que nam intende este oficio4 ,que semelhansa tem o ,p4 ,souza1 com ,petavio1 ,sirmondo1 ,launoi1 ,arnaud d',andilly1 ,valois1 ,morin1 ,huet1 ,bossuet1 ,tomassin1 ,noris1 ,calmet1 ,mabillon1 e outros muitos ,catolicos8 ou com algum dos-,erejes1 como ,grotio1 ,scaligero1 ,usserio1 ,selden1 ,j4 ,gerardo ,vossio1 ,daniel ,heinsio1 ,dall1 ,samuel ,petit1 ,saumaise1 ,bochart1 ,lightfoot1 ,hottinger1 ,joam ,gronovio1 ,luiz de ,dieu1 e outros muitos que deixo8 os quais todos vivram no-seculo pasado1 e muitos deles alcansram ,d4 ,manoel ,caietano1 e morrram neste seculo8 ,que semelhansa1 torno adizer1 em vastidam de noticias1 em antiguidades1 linguas orientais1 ,teologia c48 tanta como o dia com a noite4 ,estes que foram conhecidos1 em todo o mundo douto1 e seram eternamente venerados4 ,bem mostra este ,panegirista1 que nam sabe que coiza erudisam1 quando fala desta sorte4 ,nam falo na ,filozofia1 pois todos sabem1 que omens florecram1 no-fim do-seculo pasado1 e no-prezente3 dos-quais a ,d4 ,manoel ,caietano1 7que dizem era ,peripatetico1 ou aindaque o-nam-fose7 bem legoas de distancia4 ,em tudo se-mostra o ,panegirista1 pouco informado do-mundo3 e1 polo que vejo1 cuido que era algum pobre ,religiozo1 que nunca sara de ,portugal2 e asim vivia mui satisfeito da-sua terra3 pois chega a dizer1 que as ,universidades de ,portugal1 at no-edificio1 excedem muito1 as dos-outros ,reinos#eh4 ,no-que mostra intender tanto de ,architetura1 como de erudisam4 ,mui diferentemente me-falou um ,portuguez1 que estivera em ,roma1 e tinha outros conhecimentos3 o qual confesou limpamente1 que em materia de bom gosto1 valia mais uma s janela da-,sapiencia1 ou ,universidade ,romana1 ou do-,colegio ,romano dos-,jezuitas1 que todas as ,universidades1 e ,colegios de ,portugal3 e nam era encarecida a propozisam4 ,este o motivo1 meu amigo e senhor1 porque os ,estrangeiros nam crem1 em nenhum destes panegiricos3 porque dizem1 que os ,portuguezes1 namobstanteque comumente sejam invejozos1 e digam mal uns dos-outros2 quando porem tomam o empenho de elogiar1 mentem dezencaixadamente1 e tudo transformam3 e at dizem mal dos-outros todos1 para elogiar o seu eroe4 ,se louvam um ,santo1 nam s nam ,santo igual ao seu2 mas quazi chegam a dizer mal1 dos-outros todos4 ,o mesmo faz o noso ,panegirista4 ,que um omem fasa uma orasam mui mal3 que se-explique infelizmente3 que introduza na-orasam1 quantas coizas leo3 que ignore o estilo de elogiar1 e amplificar os argumentos3 que seja languido e sem grasa na compozisam3 que nam saiba1 manejar a sua lingua3 que ignore a colocasam das-palavras1 e armonia dos-periodos3 como faz este ,panegirista2 nam sera grande coiza3 o que nam poso sofrer 1 que tenha prezumsam desmedida1 e que diga mal dos-outros1 e d'aquilo que nam intende4 ,o que se-faz nestas orasoens1 e com especialidade o autor desta4 ,para dizer1 que o ,souza estudou em ,portugal1 e nam fra dele2 emprega quatro boas paginas#ei1 dizendo mal1 dos-que vam estudar fra de ,portugal3 porquanto c em ,portugal1 segundo ele diz1 tudo se-acha1 e muito melhor1 que nos-outros ,reinos4 ,os mesmos livros3 omens mais doutos3 ,universidades melhores1 e mais florentes da-,europa3 ,portugal o ,reino da-,sabedoria2 do-qual os ,estrangeiros podiam participar com mais razam1 doque os ,portuguezes deles3 e outras semelhantes4 ,e que diz ,v4 ,p4 a esta propozisam8 coiza mais estupida6 ,e concedem-se licensas1 a semelhantes escritos6 ,senhor ,panegirista1 responderia eu1 nam basta ter os livros1 necesario intendlos3 e iso o que os praguentos dizem1 que muitos c nam sabem4 ,todos os ,latinos nas escolas lem ,cicero2 e poucos o-intendem2 e muito menos o-imitam4 ,mas1 suponhamos que o-sabem alguns2 ,porventura1 sabem-no ou ensinam-no nesas ,universidades8 nam senhor1 que eu prezenciei tudo o contrario4 ,alem diso1 aqui nam exercicio de linguas1 ,filozofia boa1 ,matematicas1 ,teologias ,pozitivas c4 ,istoria1 ,medicina verdadeira1 e outras faculdades3 se me-nacer alguma duvida1 a quem o-ei-de proguntar8 ,alem diso1 esa falta de exercicio cauza1 de que se-ignorem muitos livros3 pois certo1 que em ,portugal1 nam se-conhecem livros bons1 que sam bem vulgares em outros ,reinos3 e o ,panegirista um deles2 que por-nam conhecer os autores1 diz muita falsidade1 no-seu ,panegirico4 ,despois que se-fundou a ,academia da-,istoria1 quantos livros nam se-conhecem1 que antigamente se-ignoravam8 ,concedo1 que se em ,portugal se-introduzisem outros estudos1 com o andar do-tempo fariam o mesmo1 que nos-outros pazes3 mas como ainda estamos mui longe d'esa epoca1 nam maravilha1 que muitos vam estudar fra1 o que c se-nam-sabe4 ,prouvera a ,deus1 que fosem muitos mais3 e que estudasem bem3 e viesem introduzir ese bom gosto1 em ,portugal4 ,quanto ao que diz o ,panegirista1 que os ,estrangeiros podiam aprender1 dos-,portuguezes2 tem muita razam3 mas deixo a ,v4 ,p4 o-determinar1 se -de ser em armas1 ou letras4 ,se ele soubse o conceito1 que aqueles tem dos-,portuguezes1 ficaria mui admirado4 ,e para nam buscar exemplos remotos1 direi a ,v4,p4 que eu falei em certa ,cidade1 com um ,religiozo1 que viera instruir em ,rilhafoles1 os ordinandos3 e me-dise1 que ficra pasmado1 de ver a ignorancia destes pazes1 principalmente dos-,clerigos3 muitos dos-quais1 nam obstante terem fama de doutos1 necesitavam aprender1 os primeiros rudimentos da-,f4 ,este falava por-experiencia2 pois estivera dois anos em ,portugal3 era alemdiso um omem de virtude1 e mui moderado no-falar4 ,veja ,v4 ,p4 que conceito eles tem disto4 ,pode-se notar no-mesmo ,panegirista1 a incoerencia3 ,quando lhe-tem conta1 para avultar a ciencia do-,souza2 ,roma uma ,cidade cheia de omens doutos3 a ,arcadia uma coiza famozisima3 um congreso de ,virgilios1 e ,oracios4 ,quando nam lhe-tem conta1 os ,estrangeiros nam sabem nada3 e tudo podem aprender1 dos-,portuguezes3 quem intender tal omem6 ,em uma palavra1 este omem cuido nam fez coiza pior1 na sua vida4 ,todas as comparasoens que faz1 sam arrastadas1 e inverosimeis3 as exclamasoens1 que frequentemente introduz1 fra do-propozito1 e do-lugar3 as parentezis longuisimas1 superfluas1 e insoportaveis3 a fraze afetada1 mas sem elevasam ou nobreza2 repetindo em cada regra a ,ilustrisima1 a um ,religiozo1 e a um morto4 ,finalmente nam sabe dar forsa1 aos argumentos que traz1 dilatando-os com artificio retorico4 ,mas nam quero falar mais nesta materia1 porque parece que faso grande cazo1 de uma coiza que o-nam-merece4 fazer grande favor ao autor1 criticar-lhe os defeitos1 que sam infinitos4 ,antes devo pedir a ,v4 ,p4 perdam1 de o-ter demorado1 com semelhante orasam3 o que fiz por-duas razoens3 ,primeira1 paraque ,v4 ,p4 vise1 a infinita distancia que poem1 entre sermam funebre na igreja1 e orasam funebre na academia3 como se os preceitos da-,retorica fosem diferentes6 ,segunda1 paraque vise pintados em uma s orasam1 todos os defeitos que lhe-tenho apontado1 reinarem nestes pazes3 pois sendo este um dos-modernos1 caie em todos eles1 nam dizendo o que deve2 e dizendo o que nam deve4 ,os quais sam mui consideraveis defeitos1 de ,retorica4 ,o que at aqui tenho exposto a ,v4 ,p4 bastantemente mostra1 o que eu tinha proposto3 e d uma verdadeira ideia1 do-que ,retorica1 em que se-deve uzar1 e como se-deve uzar4 ,e com efeito menos ainda basta3 poisque tendo ,v4 ,p4 grande compreensam de materias1 e mais que tudo1 formando juizo exato das-coizas2 nam lhe-podem ser ocultas1 estas que aponto2 e nam pode deixar de falar1 com belisima ,retorica4 ,mas juizos tam sepultados na materia1 que nam podem considerar outras coizas1 senam aquelas que uma vez vram3 nem receberm a verdade mais clara1 e demonstrada1 se nam proposta com aqueles termos1 e por-aquele metodo1 que uma vez ouvram4 ,isto me-obriga a fazer alguma reflexam1 sobre as partes da-,retorica1 ou sobre estas ,retoricas uzuais1 e principalmente sobre o estilo do-pulpito3 vistoque nestes pazes1 para isto inclinam mais3 e nisto que necesitam1 de melhor diresam2 para os-livrar daqueles ridiculos prejuizos1 de que estam cheios4 ,,metodo ,,de ,,persuadir4 ,manifesta loucura persuadir-se1 que necesario saber tudo1 o que dizem as ,retoricas1 para ser ,orador#fj4 ,ja adverti a ,v4 ,p4 que estas ,retoricas comuas1 eram pola maior parte uma lista de nomes1 e divizoens1 impertinentes de se-aprenderem1 e dificultozas para se-conservarem3 mas tudo isto podia suceder1 aindaque a materia fose boa4 ,porem eu nam paro aqui1 mas digo1 que nam s polo modo com que o-dizem1 mas iso mesmo que dizem1 tem pouquisima ou nenhuma utilidade2 e nada conduz para o fim1 de falar bem1 e persuadir4 ,e digo da-maior parte delas1 o que l dise ,cicero de outra ,retorica1 que escrevra ,cleantes1 ,que para nam saber falar1 nam avia coisa melhor#fa4 ,sam sinco as partes da-,retorica3 ,procurar meios de persuadir3 dispolos3 fallos bem3 estudlos de memoria3 e pronuncilos com as asoens que se-devem4 ,a isto ajuntam1 os trez meios de persuadir1 que sam as provas1 os costumes1 e as paixoens dos-ouvintes4 ,dizem alem diso1 que qualquer discurso oratorio deve ter exordio3 despois1 narrar o fato3 despois provlo1 e responder aos motivos contrarios3 finalmente perorasam1 na qual se-faz um epilogo dos-motivos1 e se-excita novamente1 o animo dos-ouvintes4 ,tudo isto verdade3 mas se pararmos aqui1 pouco saberemos de ,retorica4 ,eu direi alguma coiza da-,invensam3 sobre as outras1 reporto-me a eses livros comuns2 e s tocarei1 o que me-for necesario4 ,para buscar argumentos ou provas1 que persuadam1 o que pertende o ,orador2 propoem os ,retoricos uma lista de nomes1 aque chamam1 lugares comuns3 os quais ensinam1 considerar o argumento de tantas partes1 e voltlo de tantas maneiras1 que seja facil1 dizer muita coiza do-tal sugeito4 ,confeso1 que estas considerasoens genericas1 dam materia para falar muito2 e em tal ou qual cazo1 podem nam ser inutis3 mas1 seguindo o parecer dos-omens de exata critica1 constantemente digo1 que estes lugares nada menos ensinam1 que a falar bem3 suministram ideias gerais1 palavras sem sustancia1 narizes de cera1 que se-aplicam a tudo1 e nam persuadem nada em particular4 ,um destes que cre muito nos-,topicos1 falar uma ora inteira1 sem dizer coiza alguma com propozito3 justamente como os ,logicos da-,escola4 ,estes escrevem longuisimos tratados de ,syllogismo1 dam mil regras1 para discorrer com propriedade1 e sem falencia2 e para provar tudo o que ocorrer4 ,a ouvilos na cadeira1 julgar um omem1 que sam letrados universais3 mas introduza-os ,v4 ,p4 em um discurso particular1 e ver1 que tudo aquilo palhada3 concluirm um discurso pior1 doque nam far1 um oficial ignorante4 ,muitas vezes nam sabem nem comeslo1 nem acablo3 e se lhe-metem a pena na mam1 lastima ver1 como escrevem as suas razoens4 ,o mesmo ,cicero1 que tam apaixonado era pola ,retorica1 e seus preceitos1 que escreveo um livro dos-,topicos2 contudo reconhece1 que necesario muito juizo1 para se-servir destes lugares1 em modo que nam digamos parvoices#fb4 ,quem pois reflete nisto1 intende o conceito que se-deve fazer1 de semelhantes lugares4 ,se nam fose permetido falar1 senam naquilo que se-sabe1 a maior parte destes1 que fazem profisam de falar em publico1 ficaria calada4 ,ninguem capaz de discorrer em uma materia2 se que a-nam-tem estudado fundamentalmente3 e nunca poder deduzir1 boas consequencias1 se acazo nam pose bem1 os principios4 ,pode um ,fizico estar cheio de silogismos1 at os olhos2 ter lido quantas ridicularias se-tem dito1 sobre os apetites da-,materia2 se acazo nam tem bem examinado1 as experiencias3 nam poder explicar1 qualquer uzual fenomeno4 ,pode um ,teologo saber1 a quinta esencia da-frma silogistica2 mas se nam sabe bem1 em que textos se-fundam os ,dogmas1 nam ser ,teologo senam de nome4 ,isto suposto1 a primeira e importantisima regra da-,invensam 1 intender bem a materia1 que se-trata#fc3 porque s asim facilmente se-incontram1 os argumentos proporcionados ao sugeito3 e tam facilmente se-incontram1 que naturalmente se-aprezentam1 caiem da-boca1 e da-pena4 ,este o grande defeito1 destes ,pregadores ,portuguezes4 ,propoem-lhe uma materia1 que eles ignoram3 e em lugar de estudarem o que devem1 formam logo ideia1 do-que querem dizer2 e despois procuram os textos1 que fasam ao intento3 e se os-nam-acham1 violentamente os-arrastam3 porque finalmente1 seja como for1 deve-se provar1 o que se-propoz4 ,ora a ,escritura nem sempre d textos literais1 para confirmar todas as chimeras1 que os ,pregadores propoem3 e asim necesario recorrer1 a algum destes comentadores ,peripateticos3 muitos dos-quais adotam nos-comentarios1 as sutilezas3 e1 se falta este1 nunca falta um destes ,asceticos1 que provam tudo o que querem3 e temos o sermam feito4 ,se o ,pregador tivese estudado a materia1 conheceria1 que verdades importantes1 como sam as da-religiam1 nam se-podem provar com sutilezas1 mas com razoens solidas3 razoens solidas nam se-podem achar1 para provar conceitos ridiculos3 de que vem1 que necesariamente um omem que sabe a materia1 deve desprezar estas puerilidades2 e considerar todos os sermonarios1 talhados por esta medida1 como livros que nam se-devem ler4 ,que seria do-mundo ,retorico1 se todos os omens um dia1 abrisem os olhos6 ,eu seguro a ,v4 ,p4 que de cemmil livros1 que se-acham nesta materia1 pouquisimos se-poderiam conservar2 e alguns deles1 s por-fazer favor1 aos seus autores4 ,pois aquilo que entam fariam todos1 devem oje fazer os omens1 que se-querem aproveitar a si1 e aos outros4 ,quando eu era rapaz1 e somente conhecia os autores polo sobrescrito1 considerava mais felizes1 e doutos aqueles omens1 que posuiam mais livros1 doque os que tinham menos3 porque1 dizia eu1 aqueles gozam a lisam1 de mais autores1 e de mais omens insignes4 ,naquele tempo1 ,escritor1 e ,doutor1 eram sinonimos no-meu ,vocabulario4 ,eu era um daqueles1 7que por-nosos pecados1 ainda vemos oje tantos7 que meda a ,ciencia a palmos3 quanto mais livros1 mais ciencia3 e o livro maior sempre me-parecia1 tezoiro mais preciozo4 ,mas despois que me-familiarizei1 com aqueles mortos3 que revolvi muitas1 e grandes livrarias3 que consultei omens doutisimos3 que li atentamente os ,criticos3 e finalmente que tomei o trabalho de examinar1 com os proprios olhos1 o merecimento de muitas das-ditas obras3 transformei-me neste particular3 e formo tam diferente conceito do-mundo2 que se explicse tudo o que intendo1 nam conservaria tam boa conrespondencia1 com tanta gente4 ,ora isto que se-pode dizer1 de toda a sorte de livros1 aplico eu oje aos sermonarios1 e outros que tratam de ,retorica3 e conclo1 que pouquisimos destes livros se-podem ler1 e ainda eses com cuidado4 coiza digna de observar1 que nestes pazes1 a maior parte dos-que estudam1 confundem o ,ingenho1 com o ,juizo3 o ,juizo1 com a ,doutrina3 esta1 com o ,criterio3 sendo coizas na verdade bem diferentes4 ,pode um omem ser ingenhozo1 porque pode unir diferentes ideias que elevem1 ao que chamamos ,ingenho2 e nam ter uma oitava de ,juizo3 porque finalmente o ,juizo aquela faculdade da-alma1 que sepra uma coiza da-outra1 e conhece cadauma1 como em si4 ,pode este omem ter ,juizo1 e nam ter ,doutrina1 porque nam tem estudado4 ,pode ter alguma ,doutrina1 e nam ter aquela que necesaria1 para formar bom ,criterio4 ,isto parece-me bem claro4 ,mas nam o-intendem asim aqueles1 que por-verem um1 que ideiou varias chimeras1 e formou algumas ideias sutis1 mas ridiculas2 logo o-batizam1 por-omem de juizo1 e grande doutor4 ,e daqui entam nace1 que as ideias daquele tal omem1 sam recebidas com mais respeito1 doque nam eram as respostas1 em ,delfos4 ,mas1 tornando ao argumento4 ,para persuadir1 quer-se em primeiro lugar1 boa ,logica1 que d os verdadeiros ditames1 para julgar bem#fd3 em segundo lugar1 um juizo claro1 que os execute4 ,sem estes primeiros principios4 sam superfluos todos os ditames4 ,da-,logica em seu lugar falaremos4 ,decendo pois ao particular digo1 que s a verdade ou verosimilidade1 a que pode persuadir um omem2 e aquela valente arma1 com que nos-acomete a razam4 ,ninguem deixa de se-persuadir1 de uma verdade clara4 ,verdade que muitos se-persuadem1 da-aparencia3 mas tambem certo1 que os-move a verdade1 que nela imaginam4 ,asimque s a verdade a que persuade1 quando se-lhe-d atensam4 ,a forsa que os omens fazem1 para divertir os olhos do-intendimento1 para outra parte2 a que impede1 que a verdade nam triumfe1 produzindo o seu efeito1 que a persuazam4 ,nisto que est o empenho do-,orador1 em descobrir a verdade3 mostrla em toda a sua clareza3 e manifestar o erro oposto4 ,nisto se-distingue o verdadeiro ,orador1 do-,declamador4 ,este1 contentando-se das-aparencias1 veste o erro com a mascara da-verdade3 o ,orador porem descobre e manifesta o erro1 e poem a verdade em toda a sua luz4 ,orar nam inganar1 sim introduzir no-animo1 alguma verdade importante4 ,mas muitas vezes os ,oradores1 tem mais necesidade1 de convencer o erro1 doque establecer alguma verdade notoria4 ,ninguem toma o trabalho de persuadir1 que ,deus castiga1 e premeia3 isto sabem todos os ouvintes3 o ponto est em mover os omens penitencia1 mostrando o grande erro1 de a-deferir para a ora da-morte4 ,em descobrir o erro1 que deve cuidar muito o ,orador4 ,os omens nam se-inganam nas consequencias1 porque comumente deduzem-nas muito bem3 o em que se-inganam 1 nos-principios2 porque1 por-falta de exame1 recebem uns falsos1 como se fosem verdadeiros4 ,deve pois o ,orador1 mostrar a falsidade destes principios4 deve mostrar-lhe em que diseram bem1 e em que falram inganados4 ,desta sorte mostrando-lhe a verdade1 se a materia o-pede2 ou1 se notoria1 descobrindo-lhe bem o erro1 se-consegue o fim da-persuazam4 ,mas nam basta isto1 para persuadir3 e sam necesarias outras circunstancias1 para introduzir no-animo1 a verdade4 ,a primeira 1 a atensam4 ,que importa1 que o ,sol alumeie o ,mundo1 se eu depropozito me-retiro em uma caza oscura2 ou polo menos1 nam dou atensam aos objetos1 que se-me-propoem8 ,damesma sorte importa pouco1 que a verdade seja notoria1 e o erro muito bem convencido2 se eu nam faso atensam para uma1 nem para outra coiza4 ,deve pois com cuidado o ,orador1 excitar a atensam3 e como as coizas ordinarias1 nam conseguem isto1 mas sim a singularidade e novidade2 deve o ,orador1 vestir iso mesmo que diz1 de uma certa novidade1 que o-reprezente singular4 ,as ,figuras dam esta novidade s coizas3 e por-iso elas sam1 as que movem muito a atensam3 dando a intender1 que o objeto novo1 grande1 singular4 ,certo amigo meu1 descrevendo a cara de uma molher1 igualmente feia1 e desvanecida2 soube dar tal novidade a este asumto1 que bem umilde1 e esteril2 que com gosto se-lia a descrisam1 do-principio at o fim4 ,porei aqui um soneto1 que fez ao dito asumto1 e que tem o mesmo artificio4 ,es feia3 mas desorte1 que orroroza tua vista bela a feialdade4 ,mas tens fortuna tal1 que a enormidade ,te-consegue os tributos de formoza4 ,cara tam feia1 coiza tam pasmoza ,todos observam1 e move a raridade4 ,nam desperta o comum1 a curzidade3 ,ser rara1 que te-adla vaidoza4 ,ama-se o ,belo1 e cega o mesmo afeto4 ,o ,feio1 pois nam liga o pensamento1 ,deixa miudamente ver o objeto4 ,iso faz1 que se-observe ese portento4 ,quanto ests obrigada1 a ese aspeto2 ,se no-enorme te-d merecimento6 ,o outro importante ponto1 de excitar a atensam 1 nam mostrar o objeto1 que se-propoem1 senam quando a atensam1 ja nam necesaria4 ,embebido o omem da-curiozidade1 de saber o que se-propoem1 vendo sempre coizas novas1 e que prometem despois de si1 outras maiores2 vai seguindo com a considerasam o ,orador1 atque lhe-explique1 a inteira sustancia do-negocio4 ,asim se-conserva o ouvinte atento2 e1 estando atento1 se-lhe-introduzem1 as verdades que se-querem4 ,nos-,poetas de algum nome ver ,v4 ,p4 este artificio1 bem executado3 e tambem em muitos ,prozadores4 ,o mesmo ,gracian no-seu ,criticon1 ingenha desorte a narrasam1 das-figuras que introduz2 que acaba o capitulo1 quando se--de explicar1 algum grande fato3 e rezervando a solusam1 para o seguinte1 conduz o leitor1 desde o principio at o fim1 sempre com curiozidade de ler4 ,este tambem o artificio mais comum1 das-orasoens de ,cicero1 e de alguns ,oradores modernos1 que o-souberam imitar3 como eruditamente adverte1 um grande ,retorico da-minha ,religiam#fe4 ,e nisto que se-distingue o ,orador1 do-,filozofo4 ,ambos tem por-objeto1 a ,verdade3 mas o ,filozofo nam costuma1 mover a vontade3 contenta-se1 de expor as razoens3 porem se acazo nam acha um leitor1 sem prejuizos e preocupasoens nam conclue nada4 ,mas o ,orador move as paixoens3 excita a curiozidade3 mostra a verdade de tantos modos1 com tanta clareza1 com tanta eficacia3 desfaz os prejuizos com tanto estudo2 que finalmente convence o ouvinte4 ,o #c4o ponto importante 1 saber ganhar a vontade1 ou insinuar-se1 no-animo dos-ouvntes4 ,a ,verdade1 diz o proverbio1 amargoza3 e uma verdade nua e crua1 proposta a uma pesoa1 que as-nam-coze bem1 dura de digerir4 ,deve pois o ,retorico1 insinuar-se galantemente1 no-animo dos-ouvintes3 propondo-lhe a verdade1 vestida de um tal modo1 que ele a-admita1 quazi sem advertir4 ,v4,p4 ja sabe1 que as pirolas de quinaquina1 e outras tais amargozas1 se-cobrem com marmelada1 ou obreia branca1 para se-engulirem sem dificuldade4 ,eu sei muito bem1 que este negocio1 nam est na esfera1 de todos os ,pregadores4 ,requer grande pratica do-mundo3 grande-conhecimento dos-omens3 do-modo com que obram1 e com que se-excitam as paixoens3 finalmente uma ,filozofia particular1 que descubra a origem de todos os movimentos do-animo3 lisam de bons autores3 e perfeita sagacidade3 qualidades todas que pouquisimos chegam a conhecer1 quanto mais posur4 ,julga-se comumente1 e nam sem razam1 que o conceito que os ouvintes tem1 da-virtude e merecimento do-,pregador2 conduz muito1 para se-persuadirem4 ,quem vai ouvir um omem1 de quem fama comua1 ser muito santo1 ou muito douto2 vai meio convertido1 ou persuadido4 ,em todas as ,aldeias1 -de aver um barbeiro1 que julgue de sermoens3 o qual estimado1 como o omem mais inteligente4 ,os ,aldeioens talvez nam ouvem1 o que diz o ,pregador2 mas estam atentisimos aos movimentos1 que faz o barbeiro3 se este aprova o discurso1 o ,pregador famozo4 ,asim se-vive nam s nas ,aldeias1 mas tambem nas ,cidades4 ,sam poucos os omens capazes1 de julgarem por-si3 mas vem1 ouvem1 e julgam1 polos sentidos dos-outros4 ,a prevensam pois com que se-ouve um omem1 aquela que1 entre a maior parte dos-omens1 decide do-seu merecimento3 e esta tal opiniam de merecimento1 a que faz receber com agrado1 os discursos3 os quais1 quando nam acham opozisam no-animo1 produzem todo o seu efeito4 ,e asim deve o ,pregador1 mostrar-se digno de o-ser3 deve pregar primeiro com as obras1 que s entam os seus discursos1 seram bem recebidos1 e os seus ouvintes ficarm persuadidos1 do-que lhe-propoem4 ,mas devem estas virtudes ser verdadeiras1 porque sem iso1 nada conclem4 ,em #d4 lugar1 deve cuidar muito o ,orador1 em nam ofender com palavras1 os seus ouvintes4 ,os ,omens nam gostam1 de repreensoens publicas3 e parece que com razam4 ,tudo se-pode persuadir1 com bom modo3 e facilmente concordamos no-que nos-dizem1 se ouvimos as razoens1 propostas com amizade1 e com brandura3 e propostas por-um omem1 que nam faz vaidade da-,eloquencia3 que nam ostenta triumfos3 mas que utilmente se-serve dela1 para nos-inclinar1 para onde devemos4 ,em quinto lugar1 necesario tambem1 mostrar aos ouvintes a utilidade1 daquilo que lhe-propoem3 mostrar-se parcial dos-seus intereses1 para os-poder trazer1 para a parte contraria4 ,ns facilmente damos orelhas queles1 que intendemos obram1 polo noso mesmo motivo2 e estam persuadidos1 da-mesma paixam4 ,por-iso muitas vezes necesario1 nam condenar tudo quanto eles dizem3 louvar alguma parte1 para podermos condenar a outra1 com mais eficacia1 e efeito4 necesario1 saber dizer mal nas ocazioens1 modificando a censura1 com alguns elogios4 ,observei sempre1 que um omem que nega tudo1 ou concede tudo1 nam concle nada4 ,devemos dar lugar prevensam2 e algumas vezes dar tempo colera3 esfogada a qual1 entam que pode ter lugar1 a persuazam4 ,para isto requer-se doutrina1 prudencia1 afabilidade1 e outras muitas virtudes4 ,deve em #f4 lugar1 saber excitar propriamente1 as paixoens2 e inspirar aquelas que sam proprias1 para mover o ,omem4 ,sam as paixoens as que nos-movem3 e nam coiza1 que nam posa fazer um omem1 se-acazo se-lhe-excitou1 a paixam proporcionada4 ,nisto pois que deve estudar o ,orador3 inspirando aquelas1 que sam necesarias1 para abrasar a verdade que propoem4 ,para isto necesario1 estudar bem as paixoens do-animo2 porque1 sem estas machinas1 certo1 que nada obram os ,omens4 ,isto que at aqui temos dito1 abrasa todo o genero de orasoens1 e sermoens3 mas especialmente se-devem notar algumas coizas1 para a eloquencia do-pulpito3 que compreende duas sortes de orasoens1 ,panegiricas1 e ,morais4 ,em primeiro lugar uma ridicularia e impropriedade1 tomar um texto da-,escritura1 para fazer um panegirico ,funebre4 ,nam o asumto1 explicar a ,escritura3 mas sim engrandecer1 as virtudes todas daquele omem2 paraque todos o-imitem3 e consolar o auditorio da-sua perda1 com a vista dos-monumentos1 das-suas singulares prerogativas4 ,onde deve-se descrever a vida dele2 tomando as asoens mais famozas1 e deixando menudencias ridiculas1 que nam dam maior ideia1 da-dita pesoa4 ,devem-se narrar1 e engrandecer as asoens3 deve-se na exagerasam empregar todo o artificio da-,retorica2 sem degenerar naquelas ridicularias1 que todos os momentos vemos3 a ,istoria1 o exemplo pode dar novo lustre1 s mesmas virtudes4 ,mas sempre devemos ter diante dos-olhos1 que uma coiza orasam1 em que se-persuade1 a execusam da-virtude2 e outra panegirico3 naquela tem lugar1 os textos da-,escritura2 nesta de nenhuma sorte4 ,em uma palavra1 todo o artificio que se-deve praticar1 em todas as orasoens exornativas1 que ou louvam1 ou vituperam2 consiste em narrar1 e amplificar4 ,desorteque1 para nam fazer istoria1 deve nam s narrar2 mas de tal sorte distribuir a narrasam1 que despois de narrar um fato1 ou uma serie de fatos1 que pertensem ao mesmo ponto2 os-amplifique3 e asim mostre o seu juizo1 na narrasam2 e a sua eloquencia1 na amplificasam#ff4 ,como todas as orasoens do-genero demonstrativo1 tenham estado de comparasam1 porque nam se-disputa1 an res sit1 mas quanta sit3 deve ser o principal artificio do-,orador1 introduzir a controversia conjetural2 com que manifeste1 a grandeza da-asm1 considerando miudamente todas as coizas1 que a-podem relevar4 ,despois1 conjeturar das-virtudes pasadas1 o que ele faria nestas1 ou em outras circunstancias c4 ,podem tambem nestes panegiricos ter lugar1 diversos outros artificios1 de controversia ,definitiva1 ,translativa1 e ,judicial2 praticados polos antigos ,retoricos3 os quais conduzem muito1 para este mesmo fim4 ,quanto dispozisam dos-argumentos1 aconselha ,cicero1 que primeiro se-toquem1 os bens externos1 quero dizer1 da-gerasam3 despois1 os do-corpo1 e os do-animo4 ,quanto s asoens1 que ou se-siga a ordem dos-tempos1 ou se-reduzam a diversos titulos de virtudes#fg4 ,desta sorte narrando1 e amplificando1 se-poder formar1 um panegirico perfeito4 ,pasando daqui aos panegiricos de ,santos1 em quanto se-puderem evitar temas1 ser mais arrezoado3 mas quando ou o costume1 ou o genio obrigue1 a tomar algumas palavras da-,escritura2 nam necesario1 esquadrinhar profecias1 nem procurar de acomodalas literalmente3 basta que as ditas tenham alguma analogia1 com a materia de que se-trata4 ,pode-se seguir a sentensa da-,escritura1 para comesar o sermam2 sem a-introduzir novamente1 no-corpo dele4 ,isto tenho visto fazer1 a omens muito grandes3 e parece-me que um tal exemplo1 se-deve preferir aos outros4 ,no-corpo da-obra1 deve-se seguir o mesmo estilo1 das-outras orasoens laudatorias2 narrar1 e amplificar4 ,mas como a vida dos-,santos1 principalmente antigos1 ja nota a todos2 para evitar o fastio a estes delicados1 pode escolher uma1 ou duas asoens mais famozas1 e delas formar o seu panegirico4 ,e este metodo o mais frequente1 quando se-fala em ,santos antigos3 cujas asoens todas ou sam bem notas1 ou deles somente sabemos1 uma ou outra virtude1 mas publica a todo o mundo3 ou algum grande privilegio1 concedido por-,deus ao dito omem3 e este o-engrandecem1 com todo o artificio da-,retorica4 ,mas nos-modernos1 cuja vida nam mui notoria2 melhor1 seguir a ordem dos-tempos1 ou virtudes1 e explicar toda a vida do-,beato4 ,o grande ,orador ,paulo ,segneri1 pregando de ,s4,estevam1 engrandece a virtude deste ,martir1 com varias considerasoens4 #a4 ser ,s4,estevam o primeiro1 que dse a vida pola ,f4 #b4 tela dado por-uma f1 que entam comesava1 e era ainda desconhecida4 #c4 tela dado nam s sem esperansa1 de receber aplauzos1 mas com certeza moral1 de experimentar oprobrios e derrizoens4 #d4 ter dado o proprio sangue por-um1 de quem nam tinha recebido1 tam privilegiados favores1 como recebram os ,apostolos4 #e4 porque uma tal asm mereceo1 comunicar a ,paulo1 e outros que o perseguiam1 a sua mesma f4 ,com este exemplo1 se-podem tecer mil panegiricos3 advertindo muito1 que estes pontos1 nam se-devem provar separadamente1 como fazem neste ,reino2 porque este metodo destrue1 a uniformidade do-sermam1 e impede o exercicio oratorio3 mas de um se-deve pasar a outro1 de modo tal que1 sem advertir o ouvinte1 se-veja introduzido na considerasam1 de uma nova prerogativa2 com que o ,pregador vai requintando1 as virtudes que narra2 e seguidamente o-conduz ao fim1 de o-persuadir1 que grande o sugeito1 de que se-trata4 ,e nisto se-compreende tudo1 o que pertence ao genero laudatorio1 quero dizer1 aos sermoens em que se-louva alguma pesoa1 ou alguma asm de piedade4 ,a outra especie de sermoens1 a que chamam ,morais1 podem em certo modo pertencer1 ao genero demonstrativo3 o qual nam s compreende1 os que louvam alguma asm1 mas os que vitupram outras3 como sam os morais1 que pintam o ,vicio mui feio1 para mover os ,omens1 a que abrasem a ,virtude oposta4 ,mas como nisto entra a persuazam1 e admoestasam1 que sam proprias do-genero deliberativo2 podemos chamar-lhe1 mixtos de ambos os generos4 ,mas chamem-lhe como quizerem1 o mesmo artificio1 que asima disemos1 se-pratica nos-outros2 deve praticar-se nestes1 com sua proporsam3 quero dizer1 que se-tome um asumto singular1 e proprio do-que se-quer dizer2 e que se-busquem argumentos1 e se-dilatem demaneira1 que sempre se-v subindo2 para chegar a persuadir-se1 o que se-quer4 ,isto suposto deve o ,pregador1 fugir de dois extremos3 um1 de querer agradar muito1 dizendo galantarias1 e enchendo a orasam de pensamentos sutis1 de aplicasoens chimericas1 e outras coizas destas3 outro1 de nam querer agradar coiza alguma1 como fazem certos misionarios1 que propoem as verdades tam nuas e cruas1 que infinitamente dezagradam4 ,contra os primeiros1 ja asima dise alguma coiza1 repreendendo as afetasoens1 onde nam entram3 sendo certo que nam entram tais coizas1 em materias tam sezudas e graves4 ,mas porque muita gente1 que1 querendo fugir do-primeiro defeito1 caie no-ultimo2 e para cubrir a propria ignorancia1 despreza todos os ornamentos da-,retorica2 necesario mostrar a estes1 o seu ingano1 com o exemplo dos-omens doutos1 e pios4 ,o ,pregador ,evangelico deve instruir1 e mover3 e nam se-insinuando1 no-animo dos-ouvintes1 nam conseguir o persuadilos4 ,onde1 diz com muita razam ,s4 ,agostinho#fh1 que o ,orador ,cristam1 deve saber uzar1 dos-livros dos-,etnicos2 principalmente dos-,retoricos1 para agradar1 e persuadir3 o que prova com exemplos1 de muitos ,padres1 que fizeram o mesmo4 ,semelhante pensamento expoem ,s4 ,jeronimo1 escrevendo a ,magno ,orador ,romano3 e ,s4 ,gregorio ,nazianzeno diz mui claramente#fi1 que todos os seus estudos profanos tinha deixado1 menos a ,retorica3 na qual experimentava todos os dias1 infinitas utilidades2 e que dela se-servra1 e servia sempre4 ,s4 ,bazilio1 ,s4 ,ambrozio1 e outros ,,ss4 mui doutos nas letras profanas1 praticram o mesmo3 e nas suas obras conhecemos ns1 como podemos uzar1 dos-tais autores4 ,onde deve o ,pregador1 ter sempre na memoria1 aquelas palavras de ,s4 ,agostinho no-lugar citado3 ,volumus non solum intelligenter1 sed libenter audiri4 e em outra parte3 ,nolumus fastidiri etiam quod submisse dicamus 44444 ,illa quoque eloquentia generis temperati1 apud eloquentem ,ecclesiasticum1 nec inornata relinquitur1 nec indecenter ornatur4 ,deve alem diso o ,pregador1 nam s instruir1 e agradar2 mas principalmente mover3 o que conseguir por-meio do-genero sublime1 e patetico1 quando se-trata de persuadir1 as obras boas3 porque no-saber mover que consiste1 o verdadeiro triumfo da-eloquencia4 ,e para fazer isto1 nam se-requerem1 como j dise1 sutilezas1 mas razoens fortes1 e bem dispostas1 e exageradas4 c4 ,isto obrigasam4 ,quanto ao meio de o-conseguir1 deve1 despois de bom fundamento1 nas letras umanas1 ter grande lisam da-,escritura1 e dos-,padres que apontamos3 cujas homilias ensinam1 como se-deve pregar1 para tirar fruto4 ,nam creio1 que aja ,pregador ou ,misionario1 que queira ser mais santo1 mais douto1 e mas zelante1 da-onra de ,deus2 que os que apontamos1 e outros semelhantes1 como ,s4 ,joam ,crizostomo c4 e tendo eles praticado isto1 com tanto louvor2 eles tambem devem ser1 os nosos mestres4 ,especialmente se-deve ler ,s4 ,agostinho1 nos-livros de ,doctrina ,christiana1 onde explica bem a materia4 ,mas porque a maior parte destes1 prezados de ,criticos1 e ,retoricos1 que nam sabem a istoria ,ecleziastica1 nem ,literaria2 intenderm1 que estes ,padres s cuidavam na virtude1 e nam sam bons para se-imitarem1 na eloquencia c4 ser necesario explicar-lhe em breve1 quem eles eram4 ,bazilio ,cesareense1 ou ,magno1 de quem aqui falamos1 estudou muitos anos1 na mais famoza escola1 que era ,atenas4 foi um dos-mais famozos ,filozofos1 ,gramatico1 e ,retorico insignisimo4 as suas homilias sam um perfeitisimo modelo de eloquencia3 e o grande ,photio chega a dizer1 que se-podem igualar1 a ,demostenes4 ,leva a palma principalmente1 nos-,panegiricos4 ,gregorio ,nisseno seguio as pasadas1 de seu irmam ,bazilio4 foi publico profesor de ,retorica1 e insigne ,filozofo3 e tam amante das-letras profanas1 e especialmente da-,retorica1 que ,s4 ,gregorio ,nazianzeno1 amigo comum de ambos1 na carta #dc4 condena1 este seu nimio estudo4 ,o estilo dele sublime1 e juntamente agradavel4 ,s4 ,gregorio ,nazianzeno foi condicipulo1 e amigo de ,s4 ,bazilio4 ,na eloquencia querem muitos1 que exceda ao mesmo ,bazilio4 finalmente tam sublime na pureza1 e elegancia2 que o grande ,erasmo diz1 que nam se-pode traduzir bem em ,latim1 por-cauza da-magnificencia c4 ,s4 ,ambrozio era eruditisimo em ,grego1 e ,latim1 mais doque comumente se-nam-cre4 o seu estilo concizo1 e agudo1 e quazi semelhante ao de ,seneca2 aindaque melhor4 ,nam era grande ,retorico3 mas fluido1 e proprio para convencer os erros com doutrina1 piedade1 e gravidade4 ,s4 ,jeronimo todos sabem que era um omem eloquentisimo1 em ,latim1 e ,grego c4 e mui versado nos-livros dos-,etnicos1 e na ,filozofia ,grega1 e ,istoria2 e sumamente veemente3 ,onde pode-se aprender nele1 muita coiza boa4 ,s4 ,agostinho aindaque nem na pureza da-lingua1 nem no-estilo seja igual a ,jeronimo1 e outros asima2 contudo na sutileza1 e no-mesmo tempo na profundidade do-juizo1 talvez o-excede4 ,certamente que aindaque fose1 profesor de ,retorica1 nam fez grande aproveitamento2 nem chegou erudisam dos-outros4 ,mas dele se-pode aprender muito3 principalmente nos-ditos livros de ,doctrina ,christiana1 emque ensina que dotes se-requerem1 para interpretar bem as ,escrituras2 e fazer as outras obrigasoens de um ,ecleziastico4 ,asimque dele se-podem aprender1 muitos ditames4 ,s4 ,joam ,crizostomo tambem era doutisimo4 ,alem da-pureza da-lingua1 que parece um verdadeiro ,atico1 une trez coizas admiravelmente2 que sam a facundia1 a erudisam1 e a facilidade3 desorteque ninguem tratou as materias1 com mais clareza1 e naturalidade4 ,alem diso singular nisto1 que acomodou a sua doutrina1 capacidade dos-ouvintes2 e por-iso agrada a todos3 em modo que para pregar ao povo1 as suas obras ensinam muito4 ,estes sam os ,santos1 que propomos ao estudante2 e nam s porque sam santos1 e mui versados nas doutrinas sagradas2 mas especialmente porque o-sam nas profanas3 com as quais formram o bom gosto1 e intendram melhor as sagradas4 ,porque muitos nam tem1 estes principios de letras umanas1 aplicadas s divinas2 por-iso vemos tantos ,pregadores1 que nam sabem abrir a boca4 ,e porque nas mesmas letras umanas1 muitos as-nam-estudram como deviam1 nem chegram a conhecer1 qual era o bom gosto1 da-,eloquencia2 por-iso tambem ,v4,p4 ve todos os dias omens1 que nam s nam sabem1 fazer um papel sofrivelmente2 mas nem menos conhecer nos-outros1 as delicadezas da-,oratoria4 ,desorteque se acazo lhe-mostram1 uma orasam bem feita2 nam lhe agrada3 ou s vam buscar nela1 as coizas menos sofriveis2 palavrinhas1 e coizas semelhantes3 sem olharem para o todo da-orasam1 para a proporsam1 e dispozisam das-partes1 o modo de dilatar os argumentos1 de aclarar uma verdade2 a verosimilidade dos-mesmos argumentos1 e outras particularidades1 em que consiste a eloquencia4 ,a este modo pois de examinar1 como eles fazem1 chamo eu1 julgar com os cotovelos3 e tudo isto nace1 de terem estudado mal4 ,tambem outra coiza importante1 deve advertir o ,pregador1 que sam as asoens4 parece isto nada1 e uma principal parte na ,oratoria4 ,nisto pecam bastantemente em ,portugal4 ,vemos ,pregadores1 que peneiram no-pulpito1 movendo os brasos e maons orizontalmente1 com afetasam vergonhoza4 vemos outros1 que amasam1 e dam estocadas com os brasos1 arregasando as mangas1 e fazendo mil coizas e posturas improprias4 ,nam pode ,v4,p4 crer1 quanto isto desfigura o ,orador1 e esfria o animo dos-que o-ouvem4 ,um papel bom1 quando mal reprezentado1 nam vale nada3 o que todos os dias experimentamos4 ,bem nota a istoria de ,demostenes1 o qual tendo ja dezesperado1 de poder orar em publico1 pola infelicidade da-sua pronuncia2 um ,comediante o animou1 com a esperansa de reprezentar bem3 e deo-lhe tais lisoens1 que foi a cauza principal1 do-grande nome1 e aceitasam que ao despois teve4 ,os ,romanos1 que sabiam quanto importava1 reprezentar bem o seu papel1 desorte se-exercitavam nisto1 que tomavam lisoens dos-,comediantes2 como o mesmo ,cicero de si confesa4 ,e com efeito1 nam podiam tomar melhores mestres3 porque os ,comicos eram tam insignes nisto1 que falavam somente1 com as asoens4 ,nos-ultimos tempos da-,republica1 se-introduzram nos teatros1 os ,pantomimos3 que era uma especie de ,comediantes1 que com as asoens somente explicavam1 o que outro1 que estava imovel no-fim do-teatro1 dizia4 ,desorteque um falava2 e o ,pantomimo animava com a asm1 a expresam do-outro4 ,tal era a diligencia1 com que sabiam com a asm1 acompanhar os movimentos do-animo6 ,isto faziam aqueles que sabiam1 que coiza era ,retorica3 e isto deve fazer qualquer omem1 que -de orar em publico4 ,os nosos ,italianos sam os unicos1 entre todas as ,nasoens1 que melhor exprimam com a asm1 o que dizem3 e nam s quando oram1 mas tambem quando rectam versos4 ,os ,inglezes nam se-movem1 quando rectam3 os ,francezes esfogueteiam1 e cantam3 os ,espanhoes choram3 outros tem outros defeitos4 ,mas pola maior parte convem todos1 que os ,italianos1 sam os mais expresivos3 e um grande ingenho ,francez1 do-seculo pasado1 chegou a dizer1 que os nosos ,italianos naturalmente eram1 ,comediantes4 ,porem em ,portugal1 muita falta disto4 ,dos-,pregadores notorio1 que nam s lhe-falta a asm1 mas at o tom da-voz1 que nam acompanha com a asm4 ,confeso a ,v4,p4 que nunca pude sofrer a afetasam1 com que muitos pregam a ,paixam1 ou as ,lagrimas4 ,estudam uma voz flebile1 mas com modo tal1 que em lugar de fazer chorar1 provoca o rizo3 muito mais se consideramos o que dizem1 com a dita voz flebile4 ,eles circunscrevem o estilo patetico1 na dita voz3 e asentam que ela basta1 para mover4 ,loucuras6 ,o mesmo digo1 quando fazem a exclamasam para o ,sepulcro1 nos-sermoens de ,quaresma4 todo o ponto est1 em gritar muito3 pedir mil mizericordias3 e com isto se-contentam4 ,mas a falar a verdade1 estes nam sabem o seu oficio4 ,o estilo patetico1 a coiza mais dificultoza1 da-,retorica1 como confesa ,cicero#gj3 e nele que consiste o triumfo1 e aplauzo da-eloquencia4 ,nam pequena dificuldade1 ou para melhor dizer1 coiza admiravel1 que as palavras que profere um omem1 ajam de mover em mil ouvintes1 os mesmos sentimentos1 que quer o ,orador3 amor da-,virtude3 odio do-,vicio3 aborrecimento de si mesmo6 ,que cuida ,v4,p4 que ser necesario1 para conseguir isto8 necesaria doutrina admiravel3 particular conhecimento das-paixoens umanas2 como se-excitam1 e adormecem3 asoens proprias3 e em uma palavra1 saber uzar das-,figuras1 na ultima perfeisam3 e isto nam se-faz com voz flebile1 nem com gritarias1 mas com outras virtudes oratorias4 ,nam digo1 que quem prega estes sermoens1 esteja rindo3 digo sim1 que deixe aquelas afetasoens1 e reconhesa em que consiste1 o mover os animos3 qual a asm1 qual a voz proporcionada4 ,mas pior que tudo 1 quando rectam versos3 rarisimo vi1 que pronuncise verso bem4 ,comumente vam detraz do-consoante1 e fazem pauza1 nam no-fim do-sentido1 mas no-fim do-verso3 o que erro manifesto4 ,parece isto pior1 quando rectam versos ,latinos1 nos-quais nam consoante3 de que vem1 que um carmen pronunciado por-um deles1 e por-outro que o-saiba animar com a voz1 e asm1 parece diferente4 ,este defeito deve emendar o omem1 que qur ser perfeito4 deve exercitar-se em caza1 diante de algum amigo bem informado2 para ver1 se expremio bem1 a asm que quer4 ,s asim conseguir1 ser ouvido com gosto4 ,mas eu quero parar1 neste ponto3 porque se deixo correr a pena1 em lugar de reflexoens1 escreverei um tratado de ,retorica4 ,reconheso que j ca1 no-mesmo defeito que condeno3 mas a materia tam fecunda1 e as reflexoens ocorrram-me1 com tanta promtidam1 que nam pude deixar1 de as-admetir4 ,direi porem a ,v4 ,p41 que lendo o que tenho escrito1 acho que suficiente1 para introduzir um moso no-estudo1 da-verdadeira ,eloquencia4 e quem se-capacitar bem destas reflexoens2 e comesar a ler os bons autores1 tanto ,latinos1 como ,vulgares2 e observar neles1 o artificio das-orasoens2 sem ler mais outra ,retorica1 pode sair gravisimo ,orador4 ,esta prezunsam nam nace de mim1 mas damesma qualidade dos-preceitos3 os quais sam tam antigos1 como os ,oradores3 que o mesmo que dizer1 sam os mesmos que executou ,demostenes1 e ,eschines1 e ,isocrates3 que nos-deixou escritos ,aristoteles1 ,demetrio1 e ,longino3 que praticou e ensinou com tanto louvor ,cicero1 ,m4 ,seneca1 e ,quintiliano1 e outros autores antigos4 ,as ,retoricas comuas nam apontam1 senam alguns nomes1 que eu aqui nam quiz apontar3 sem saber os quais1 pode um omem ser1 muito bom ,retorico1 se souber imitar estes treslados4 ,como tambem pode um omem1 com exata lisam de bons livros1 discorrer bem1 sem saber as especies de silogismos1 que apontam os ,logicos4 ,neste pouco que tenho proposto1 cuido que cheguei1 ao verdadeiro principio da-,eloquencia4 ,nam apontei o artificio1 dos-diversos estados de controversias oratorias2 porque nam era ese o meu argumento2 nem tambem se-acha1 nas ,retoricas ordinarias3 e somente se-pode aprender1 nos-mesmos autores originais4 ,o meu ,religiozo que asima aponto1 explica muito bem estes artificios1 dando os exemplos originais3 mas tambem se-demora com minucias3 e como escreve em lingua estrangeira1 nam para o cazo4 ,outros1 de que eu me-aproveitei mui bem1 tambem escrevem em linguas estrangeiras1 ou sam difuzisimos4 ,neste cazo para dizer a ,v4 ,p4 o meu parecer1 aconselho ao estudante ,portuguez1 que nam tem alguma boa ,retorica ,portugueza2 que1 despois de intender bem1 o que aqui lhe-aponto1 tome alguma ideia1 da-distribuisam da-orasam2 a saber1 exordio1 narrasam1 provas1 epilogo3 que leia brevemente1 o nome das-figuras das-palavras1 e do-animo3 o que o mestre facilmente podia explicar4 ,posto isto1 segue-se ler um autor ,portuguez1 no-qual posa fazer1 as reflexoens necesarias4 ,mas aqui esta a dificuldade3 e eu que nam costumo inganar ningum1 devendo dizer-lhe sinceramente o que intendo2 digo1 que nam acho algum1 que posa ser modelo4 ,dos-sermoens nam tenho que dizer1 sendoque ja expliquei1 o que eram4 ,as orasoens ,academicas1 que se-lem nos-,anonimos c4 nam merecem que se-leiam4 ,algum elogio da-,academia ,real1 que mais toleravel1 peca por-outro principio3 porque mera istoria1 sem artificio algum retorico4 99 99 99 ,e aos que respondem1 que tambem os ,francezes praticam o mesmo1 nos-elogios dos-seus ,academicos2 respondo o mesmo3 que os ditos elogios sam istorias1 e nam panegiricos3 e asim o-julgam todos1 os que tem voto na materia4 ,li nam muitos dias o do-,cardial de ,polignac1 que teve ultimamente seus aplauzos3 e achei que o autor1 se ouvse de escrever a istoria do-dito1 nam se-serviria1 nem de outras palavras1 nem pensamentos1 nem frazes4 ,com efeito eu julgo1 que aqueles omens nam querem fazer outra coiza1 que explicar em breve1 a vida1 e merecimentos dos-seus ,academicos4 ,onde como eles nos-dispensem1 de lhe-chamar orasam1 ou panegirico2 concedemos-lhe tudo o mais3 mas devemos porem reconhecer1 que nam sam obras no-genero ,oratorio3 e que nam sam para se-imitarem4 ,onde neste cazo deve o mestre1 tomar sobre si o trabalho1 de explicar tudo em ,cicero3 servindo-se para isto do-,p4 ,cigne ,jezuita3 o qual1 seguindo o metodo de um certo ,inglez1 faz a analize das-orasoens de ,cicero4 ,e asim nelas deve o mestre1 mostrar o artificio da-,oratoria1 fazendo as seguintes reflexoens4 ,notar primeiro a forsa das-razoens1 dispostas com boa ordem1 unidas naturalmente1 e amplificadas com artificio4 ,notar a verosimilidade das-ideias3 a pureza e elegancia das-palavras3 a moderasam e propriedade dos-epitetos3 o numero oratorio1 que consiste em certa colocasam armonioza de palavras1 mas que nam degenere em verso3 a introdusam das-figuras1 quando necesario excitar as paixoens3 as precausoens que observa1 para nam dezagradar4 ,observando bem isto1 na lisam dos-autores1 bastava para conseguir1 o bom gosto da-,eloquencia4 ,deve porem unir-se com isto1 o exercicio4 ,onde o mestre compor1 uma breve orasam ,portugueza1 segundo as regras da-arte3 e mostrar nela aos dicipulos1 o artificio e galantaria dela4 ,fazendo-se isto em ,portuguez1 facilmente se-aprende3 e s asim podem eles1 intender bem os preceitos1 e executlos4 ,isto nam fazem em ,portugal os mestres1 e quazi se-envergonham1 de escrever em ,portuguez3 sem advertirem1 que a ,retorica nestes pazes1 mais se-exercita em ,vulgar1 que em ,latim4 ,mas por-esta razam sucede1 que saiem todos da-,retorica1 sem saberem dela mais1 que o nome4 ,porem1 tornando ao estudante1 tendo-lhe proposto um modelo1 de fazer uma breve orasam2 ser necesario exercitlo4 ,isto facilmente se-faz1 propondo-lhe na escola um asumto1 e proguntando-lhe1 o que eles diriam em tal cazo1 para defender v4g4 ou acuzar aquela pesoa4 ,certamente um rapaz com a logica natural1 dir algumas razoens1 que lhe-ocorrem3 pois vemos1 que a nenhum rapaz faltam razoens1 para se-desculpar dos-erros que faz1 quando o-querem castigar4 ,a um rapaz pode dar1 a incumbencia de acuzar1 e a outro de defender4 ,despois que ambos tem dito o seu parecer1 dever o mestre1 suministrar alguma razam mais2 e ordenar aos rapazes1 que as-escrevam1 e fasam as suas orasoens1 do-melhor modo que puderem4 ,isto feito1 deve o mestre emendar os erros1 tanto de lingua1 como de ,retorica2 dando-lhe razam1 de tudo o que faz3 e variando sucesivamente os asumtos4 ,desta sorte aprende-se mais ,retorica1 em uma semana2 doque polo metodo vulgar1 em dez anos4 ,quando o estudante sabe bem1 que coiza ,retorica1 no-resto do-ano se-pode empregar1 em compor ,orasoens ,latinas3 ou traduzindo1 as que compoz em ,portuguez1 o que mais acertado ao principio3 ou compondo outras novas4 ,para quem ja intende ,latim1 e sabe compor bem em ,portuguez1 isto um divertimento1 sem ter dificuldade alguma4 ,ter pois o mestre cuidado1 de lhe-encomendar1 que leia os trez livros de ,oratore de ,cicero1 e ,orator ad ,m4 ,brutum1 como tambem o de ,oratoriis ,partitionibus3 os quais dois ultimos sam a quinta esencia1 de toda a ,retorica4 ,encomende-lhe que se-familiarize1 com as ,orasoens de ,cicero1 para aprender os seus modos de explicar4 ,as outras reflexoens sam iguais1 em ambas as linguas1 com sua proporsam3 e tambem o modo de emendar os defeitos1 que os estudantes cometem4 ,desta sorte sem duvida que em um ano1 podiam saber muito facilmente ,retorica1 e mui solidamente4 ,quanto aos mestres1 sou de parecer1 que leiam atentamente1 nam s os ditos livros1 que apontamos de ,cicero1 e alguns outros1 pertencentes tambm ,retorica2 mas os de ,quintiliano1 em que faz belisimas reflexoens1 sobre ela4 ,valla diz#ga1 que ninguem pode1 intender bem ,quintiliano1 sem primeiro saber bem ,cicero3 nem menos seguir perfeitamente ,cicero1 sem obedecer aos preceitos1 de ,quintiliano4 ,o certo 1 que ,quintiliano um ,retorico insigne1 e um grande ,critico1 que toda a sua vida empregou em refletir1 e ensinar3 e tem maravilhoza eloquencia3 e dele podem tirar os mestres1 as necesarias reflexoens1 para comunicar a seu tempo1 aos rapazes4 ,se o mestre quizese1 mais alguma noticia particular1 e ver as fontes1 de toda a ,retorica2 devia ler os livros ,retoricos de ,aristoteles1 que o mestre nesta materia1 e os ditos sam a sua melhor obra3 nela bebram todos4 ,podia servir-se da-versam ,latina1 se nam intendse o ,grego4 ,a este ajunto um famozo ,critico1 e ,retorico1 que ,dionizio ,longino1 no-seu tratadinho de ,sublimi stilo3 em que faz admiraveis reflexoens1 servindo-se tambem da-,versam#gb4 ,e quem quizese mais1 podia ler o ,demetrio ,falereo3 aindaque nos-outros acha-se tudo4 ,a estes quatro1 ,aristoteles1 ,cicero1 ,quintiliano1 e ,longino1 se-reduz tudo o que melhor na ,antiguidade1 sobre a ,retorica4 ,aconselharia tambem ao mestre1 que lese os panegiricos ,latinos1 que temos dos-,antigos1 comesando em ,plinio1 e pasando aos outros que se intitulam1 ,panegyrici ,veteres2 que cuido sam uns quinze1 compostos no-quarto1 e quinto seculo3 nam para os-seguir em tudo3 mas para os-conferir com os antigos1 ver em que diferem1 e aproveitar-se deles1 em alguma coiza menos m4 ,advertindo nestes ultimos1 que o que aconselhamos nam a lingua1 que tem seus defeitos2 mas algum pensamento c4 ,retoricas modernas nam aconselho nenhuma1 nem a dicipulos1 nem a mestres3 tirando o ,vossio1 nas suas ,instituisoens ,oratorias1 que famozo3 o qual podiam ler uns1 e outros1 quando quizesem particularizar1 alguma noticia4 ,aindaque quem le1 e intende bem1 o livro ,orator de ,cicero1 nam necesita mais3 mas como breve1 pode-se permetir1 ler alguma coiza mais4 ,aconselharia tambem1 que aprendesem bem a lingua ,italiana1 para lerem as famozas tradusoens que se-acham1 dos-,antigos ,oradores ,gregos1 e ,romanos1 feitas por-omens insignes3 como tambem para lerem as belisimas obras1 em materia de ,eloquencia2 que os nosos ,italianos tem produzido1 e produzem todos os dias4 ,ninguem nos-disputa a prerogativa1 de que a ,eloquencia sempre se-conservou1 em ,italia4 ,os ,francezes1 que nam cedem facilmente1 no-particular de literatura1 fazem-nos este elogio4 ,e aindaque eles abundem de omens doutos1 nesta faculdade2 vemos que na ,italia se-conservou sempre1 com mais extensam1 e pureza4 ,quem le o ,p4 ,paulo ,segneri ,jezuita1 o ,cardial ,cassini ,capucinho1 e ainda o mesmo ,monsenhor ,barberini1 tambem ,capuchinho1 e mil outros de diversas ,religioens1 e ,seculares sem numero2 parece-lhe que conversa1 com o mesmo ,cicero3 porque formados sobre estes antigos modelos1 em nada se-distinguem1 dos-originais4 ,acrecenta-se a isto a lingua1 que1 despois da-,latina1 a mais bela1 e armonica1 para a ,eloquencia4 ,tem mais os ,modernos1 outra circunstancia2 vem aser1 que tendo-se aplicado a diversas materias1 nam s profanas1 mas sagradas1 de que nam vestigio1 nos-antigos ,retoricos2 fizeram aos nosos olhos mais familiar esta faculdade1 e mais facil de se-imitar3 porque dam belisimos exemplos1 em tudo4 ,desta sorte familiarizando-se muito1 com os ,antigos1 e ,modernos2 observando em que diferem1 e em que sam louvados2 se-pode conseguir1 a verdadeira ,eloquencia4 ,conheso1 que se eu false com outra pesoa1 que nam fose ,v4 ,p4 se-escandalizaria muito1 que eu nam aconselhse aqui1 a leitura do-,p4 ,vieira1 do-,baram ,conego ,regular1 do-,bispo de ,martiria1 do-,arcebispo de ,cranganor1 e de alguns outros1 que nam aponto2 persuadindo-se1 que estes omens sam originais1 de toda a estimasam4 ,e nam sei se ,v4,p41 aindaque superior no-criterio aos outros1 intende1 que algum deles podia ter lugar1 entre outros que louvo4 ,mas eu1 meu amigo e senhor1 nam tenho nisto parcialidade alguma2 e julgo1 segundo o que intendo1 na minha conciencia4 ,verdadeiramente coiza indigna1 de todo o omem ingenuo1 quanto mais de um ,religiozo2 desprezar autores1 que o-nam-meresam1 e sejam em simesmos dignos1 de todo o louvor3 mas nam menos indigno1 aprovar um escritor1 contra aquilo que intendo4 ,eu ja fiz a minha solene protesta1 na primeira carta1 e nesta da-,retorica tambem2 que nam pertendia defraudar ninguem1 da-sua justa estimasam3 e novamente aqui repito1 que estimo infinitamente qualquer destes ,religiozos3 mas eu os-distingo muito das-suas obras1 que nada estimo4 ,e comesando polo mais famozo1 o ,p4 ,vieira teve mui bom talento2 grande facilidade para se-explicar2 falou mui bem a sua lingua2 e nas suas cartas autor1 que se-pode ler com gosto1 e utilidade4 ,quanto aos sermoens1 e orasoens1 deixou-se arrebatar1 do-estilo do-seu tempo2 e talvez foi aquele que com o seu exemplo1 deu materia a tanta sutileza1 que sam as que destruem a ,eloquencia4 ,nos-seus sermoens1 nam achar ,v4 ,p4 artificio algum retorico1 nem uma ,eloquencia que persuada4 ,muitos1 que gostam daquelas galantarias1 lendo-o sairm divertidos3 mas nenhum omem de juizo exato1 sair persuadido delas4 ,sam daquelas teias de aranha1 bonitas para se-observarem1 mas que nam prendem ninguem4 ,eu comparo esta sorte de sermoens1 aos equivocos3 que parecem bonitos1 quando se-ouvem a primeira vez2 mas quando se-examinam de perto1 nam concluem nada4 ,porque finalmente se ,v4 ,p4 le os tais sermoens1 e examina as provas e artificio delas2 ver muitas coizas1 que cheiram a ,metafizica das-escolas3 mas nam achar alguma1 das-que asima aponto1 como necesarias4 ,os exemplos que asima apontei1 sam comumente tirados1 dos-seus sermoens3 e com eles vista1 poder ,v4 ,p4 conhecer1 quantas coizas eu deixei1 que podia apontar4 ,se pois isto se-chama pregar1 e pregar bem1 eu o-deixo considerar1 aos dezapaixonados4 ,o dezejo que o ,p4 ,antonio ,vieira1 em quazi todos os sermoens mostra1 de agradar ao ,publico1 ainda quando s vezes o-critica2 deixa bem compreender1 que se-conformava muito1 com o estilo corruto do-seu seculo4 ,tinha ingenho1 imaginasam fecunda1 e deixando-se conduzir1 do-impeto do-seu fogo1 ou talvez procurando de excitar em si1 uma especie de entuziasmo2 rompia nas primeiras ideias1 que lhe-ocorriam2 que sempre eram sutis1 polo costume que tinha1 de ideiar asim4 ,eu falo com ,v4,p4 que tem grande noticia dos-ditos sermoens1 em virtude da-qual conhece1 com que razam eu-digo isto3 que se-false com outro1 sera mui facil1 provar tudo quanto escrevo4 ,mas nam poso deixar de insinuar1 que a maior prova do-que proponho1 a sua decantada obra1 ,clavis ,prophetarum3 de que nos-d uma ideia1 no-livro que intitula1 ,istoria do-,futuro4 ,neste livro acha ,v4,p41 uma chimera mui bem ideiada1 e que a ninguem mais ocorreo4 ,promete provar primeiro1 que -de aver no-mundo1 um novo ,imperio3 mostrar1 que ,imperio -de ser3 determinar1 as suas grandezas e felicidades3 explicar1 por-que meios se--de introduzir3 individuar1 em que terra1 em que tempo1 e em que pesoa -de comesar este ,imperio#gc3 o qual -de ser tam grande como todo o mundo1 sem iperbole1 nem sinedoche#gd4 ,prova isto1 segundo diz1 com uma profecia de ,s4 ,frei ,gil3 com o juramento d',el-,rei ,d4 ,afonso3 e com outras provas deste calibre4 ,diz tambem1 que a maior parte1 -de sair da-,escritura2 na qual estam reveladas1 todas estas coizas4 ,quanto ao ,imperador1 aindaque claramente o-nam-explica1 d muito bem a intender1 que sair de ,portugal2 porque aos ,portuguezes que propoem1 estas felicidades4 ,alem disto em outra parte#ge declara mui bem1 que este ,imperador ser o filho primogenito1 do-,serenisimo ,rei ,d4 ,pedro ,,ii4 e pretende provlo com os mesmos fundamentos1 com que prova o ,imperio1 na ,istoria do-,futuro4 ,e nas cartas que escreve1 a algumas pesoas1 lhe-explica1 que as felicidades de ,portugal1 estam muito vizinhas4 ,eu nam entro aqui a disputar1 se estes fundamentos1 7nam falo das-,escrituras1 pois loucura persuadir-se1 que falam em tal materia7 sejam bastantes1 para afirmar tal paradoxo3 bem claro1 que isto tem aparencias de comedia2 e bem parece obra feita1 para divertir o tempo4 ,mas aindaque fose verdade1 que as conquistas feitas1 estivesem tam distintamente profetizadas1 na ,sagrada escritura2 e despois do-suceso se-intendesem2 fica em p a dificuldade1 de tirar da-,escritura1 as conquistas futuras1 deste novo ,imperador4 ,e quanto aos expozitores que ele aponta1 e s profecias destes modernos1 em que se-funda2 creio nam faremos injuria ao ,p4 ,vieira1 se nos-rirmos de todas estas provas1 esperando1 que as-procure mais fundadas4 ,mas o que digo a ,v4,p4 1 que na dispozisam deste livro preambulo1 se-ve o estilo do-,p4 ,antonio ,vieira3 porque tudo prova com a ,escritura4 ,ainda as coizas mais triviais1 as profanas1 e a mesma justisima exaltasam de ,d4 ,joam ,,iv4 ele as-quer provar aos ,espanhoes1 com as ,escrituras4 ,o pior 1 que pola major parte1 funda-se em palavrinhas da-,vulgata4 ,e este mui mao modo de interpretar3 porque nam tendo ,deus falado em ,latim1 mas em ,ebraico1 ,caldaico1 e alguma coiza em ,grego2 necesario saber estas linguas1 para alcansar1 a verdadeira inteligencia do-original4 ,sem estas preparasoens1 nenhum interprete se-mete a dizer1 coizas novas3 mostrando a experiencia1 que comumente se-inganam1 e s podem dizer1 sutilezas pouco sofriveis4 ,e eu creio que nam sam mui toleraveis1 as que ele aqui escreve3 observando-se suma contrariedade1 na interpretasam que d1 aos seus mesmos fundamentos4 ,umas vezes1 a decimasexta gerasam1 o ,cardial ,rei ,d4 ,enrique3#gf e ainda lhe-faz a merce1 de nam contar a vida d',el-,rei ,d4,alfonso ,i4 que cuido devia ser o primeiro1 no-catalogo4 ,outras vezes1 a decimasexta gerasam ,d4 ,joam ,,iv42 e ,d4 ,pedro ,,ii4 a prole atenuada#gg3 e como ao dito ,rei nam se-pode aplicar1 a palavra atenuada2 procura aplicla a seu filho1 o ,principe entam nacido4 ,eisque morre o tal ,principe ainda menino3 ,neste cazo o noso interprete excogita a saida1 de lhe-ir dar no-,ceo1 a investidura do-,imperio#gh3 e comesa com outra metafizica pior1 que a primeira4 ,finalmente despois de muitas observasoens1 fica desmentida a verdade1 do-juramento d',el-,rei ,d4 ,alfonso3 e o ,imperio do-mundo1 que tam claramente estava profetizado1 e prometido ao tal ,principe1 l vai polos ares3 e nem menos aparencia1 que se-torne outra vez a restablecer3 pois do-tempo em que ele escrevia at este1 vam bons #hj4 anos2 e ainda nam vemos aparencias diso4 ,eisaqui tem ,v4 ,p4 o que sam todas estas chimeras1 da-,istoria do-,futuro2 e das-coizas que tem parentesco1 com ela4 ,ora estas sutilezas do-,p4 ,vieira1 cuido que tem arruinado1 muita gente3 porque formando grande conceito1 do-seu talento2 o-imitram tanto letra1 que nada agradou1 que nam cheirse ao mesmo estilo4 ,ja coiza muito antiga1 que em materia de literatura1 um omem seja o treslado1 para que olhem os outros do-seu tempo4 ,quando em uma ,cidade um sugeito consegue1 fama de eloquente1 os outros o-imitam2 e s vezes por-seculos inteiros1 se-conserva o mesmo estilo#gi4 ,aquele ,seneca a quem chamam o ,filozofo1 nam se-duvida1 que tinha grande ingenho1 e doutrina3 mas querendo-se singularizar2 entre os antecedentes1 comesou a fazer um estilo tam florido2 que foi a primeira cauza1 de se-perder o bom gosto da-,eloquencia1 que reinra no-tempo de ,augusto4 ,mult in eo clarque sententi3 7diz um ,orador grande7 multa etiam morum gratia legenda3 sed in eloquendo corrupta pleraque3 atque eo perniciosissima1 quod abundant dulcibus vitiis4 ,vettes eum suo igenio dixisse1 alieno judicio4 nam si aliqua contempsisset1 si parum concupisset1 si non omnia sua amasset1 si rerum pondera minutissimis sententiis non fregisset2 consensu potius eruditorum1 quam puerorum amore comprobaretur#hj4 ,palavras que me-parecem cortadas1 para o ,p4 ,antonio ,vieira3 do-qual creio que se-pode dizer1 que se1 servindo-se do-seu ingenho1 seguise outro estilo2 sera um grande omem3 quando porem nam se-ocupse com o argumento1 da-,istoria do-,futuro4 ,e daqui compreender ,v4,p4 que conceito se-deve formar1 daqueles muitos epitetos1 com que os apaixonados o-louvam4 ,chamam-lhe1 ,mestre do-pulpito3 ,principe dos-,oradores3 ,mestre universal de todos os declamadores ,evangelicos3 ,aguia ,evangelica3 e mil coizas destas4 ,outros lem as suas obras de joelhos1 em sinal de respeito3 e omens de tam pouca considerasam1 que imprimem estas noticias#ha2 e nam se-envergonham de dizer1 ,que o mundo sem contradisam1 lhe-deo a coroa1 de ,principe dos-,oradores4 ,mas este censor1 que nam fez maior jornada1 que de ,lisboa a ,madrid2 nam era juiz competente1 nesta matria3 nam s1 porque tinha visto pouco mundo2 mas porque tendo somente conversado1 com os que liam o ,vieira de joelhos2 e nam sendo a ,eloquencia1 e belas ,letras profisam sua1 segundo mostra2 tinha impedimento dirimente1 para votar com acerto4 ,isto pois que digo destes1 aplico a todos os outros4 ,criados com o prejuizo1 de que o ,vieira foi1 um grande ,orador2 e ouvindo sempre repetir isto aos velhos1 que bebram aquela doutrina2 nam maravilha1 que digam tantas coizas dele1 e que o-imitem tam cegamente4 ,v4,p4 pode fazer uma experiencia1 que eu ja fiz1 e vem aser3 quando ouvir a um destes1 gabar muito o ,vieira1 e louvlo com alguns dos-ditos epitetos2 fasa-me a merce de lhe-proguntar primeiramente1 emque consiste ser grande ,orador3 despois1 que lhe-explique1 que qualidades oratorias sam1 as que excedem no-,p4 ,vieira4 ,se lhe-responder bem ao primeiro ponto1 estou certo1 que nam responder ao segundo3 mas a experiencia mostrar1 que o primeiro nam ter resposta4 ,eu aindaque nam costumo ofender ninguem1 e muito menos na sua cara2 achando-me porem com certa pesoa1 que me-dise maravilhas do-tal autor1 rezolvi-me a fazer-lhe esta progunta4 ,leu ,v4,m4 bem as obras de ,lysias1 ,isocrates1 ,iseus1 ,demostenes1 ,eschines1 ,teofrasto1 e ,cicero1 e tudo o que de bom na ,antiguidade8 observou miudamente as delicadezas1 e singularidades daqueles2 e a diferensa que se-acha entre eles1 e ,plinio1 e alguns outros mais inferiores1 como ,nazario1 ,auzonio1 ,pacato c48 leu os antigos ,retoricos1 ,aristoteles1 ,cicero1 ,quintiliano c4 ou algum destes modernos1 que deram belisimos preceitos1 como ,vossio1 ,cavalcanti1 e ,platina3 e outros que nas suas orasoens os-executram1 como ,policiano1 ,mureto1 ,vavaflor1 ,cuneo1 ,gravina1 ,paolino1 ,politi c48 ,diz1 nam senhor4 ,pois sem tais preparasoens1 conclui eu1 nam entro em discurso com ,v4 ,m4 sobre estas materias1 porque nos-nam-intenderemos4 ,onde vem ,v4 ,p4 a conhecer1 que as aprovasoens destes omens1 nam devem fazer forsa a ninguem1 para reconhecer por-grande ,orador1 o ,p4 ,vieira4 ,eu que tenho visto mais algum mundo3 e falado com bastante gente douta3 e conhecido em ,roma omens1 que tinham tratado1 com os que ouviram o ,p4 ,vieira3 nam achei nada doque ouso dizer dele4 ,bem sim1 que foi um ,religiozo estimavel1 polas suas prendas1 e virtudes3 o que tudo pode estar1 sem ser mestre dos-,oradores4 ,falei com muitos ,religiozos da-,companhia1 que tinham dele perfeita noticia2 e me-falram como de um omem1 que era estimado em ,portugal1 mas nam em ,roma4 ,acrecente ,v4,p4 a isto1 que muitos opusculos do-,vieira1 foram compostos em ,italiano3 e at os mesmos sermoens se-acham traduzidos nele1 por-um seu apaixonado1 ao menos um tomo que vi anos3 e asim pode-se julgar1 com todo o conhecimento da-materia4 ,vejo sim1 que os mesmos ,jezuitas1 e todos os omens doutos1 reconhecem o merecimento1 do-,p4,paulo ,segneri ,jezuita1 e de varios outros ,oradores damesma1 e de diferente ,religiam2 que sam reconhecidos e venerados1 como ,oradores da-primeira esfera3 e que tanto se-distinguem dos-sermoens do-,vieira1 como o dia da-noite4 ,de que venho a concluir1 que quatro ,portuguezes1 ou ,espanhoes1 que dizem o contrario1 nam podem fazer mudar de conceito1 ao mundo inteligente4 ,ainda nas suas mesmas cartas1 que louvo1 acho coizas que reprovar4 ,deste numero a afetasam1 de repetir em cada regra1 o tratamento da-pesoa1 com quem fala4 ,pois aindaque nos-discursos familiares1 posa ter s vezes lugar iso2 nas cartas1 enfadonho3 e as pesoas1 e ,nasoens cultas1 fogem todas dese vicio4 ,nem vale o-dizer1 que em ,latim se-costuma3 porque na tal lingua1 nam ofende os ouvidos2 vistoque o tratamento comumente nam se-distingue1 das-diversas inflexoens do-,verbo4 ,os nosos ,italianos1 que participam mais do-,latim1 uzam da-palavra ,ella1 para evitarem aquela repetisam3 e ainda esta com moderasam4 ,e oje os que escrevem melhor1 despois de darem o tratamento1 uma ou duas vezes1 ou em carta particular1 ou prologo de livro2 servem-se da-palavra ,vostra1 que se-refere a ,alteza1 ,eminencia1 ,santidade1 ,excelencia c4 nam s porque esta ,elipsi1 nam prejudica1 ao respeito que se-deve1 aos ,senhores grandes2 mas porque sendo mais simplez e natural1 tambem mais nobre2 e se-evita a ridicula afetasam de alguns modernos1 chegando-se mais ao estilo1 da-,antiguidade4 ,e1 valha a verdade1 este periodo3 ,excelentisimo senhor1 a excelentisima pesoa de ,vosa ,excelencia guarde ,deus1 como ,portugal1 e os criados de ,vosa ,excelencia avemos mister3 com que o ,vieira fecha muitas cartas1 ao ,marquez de ,gouveia1 e outras pesoas2 nam se-pode ler sem nauzea3 achando-se muitas vezes1 em quatro regras das-suas cartas1 cinco vezes ,vosa ,senhoria c4 ,o segundo reparo caie1 sobre a fetasam de muitos periodos1 e cartas inteiras4 ,o que o mesmo coletor delas nam oculta1 quando diz1 que muitas nam publicra1 por-nam serem tanto naturais4 ,de que eu cuido1 nam se-pode produzir melhor prova1 que a carta que o ,p4 ,argote publicou1 nas suas ,regras ,portuguezas2 e que escrita ao ,cardial ,lancastro3 a qual composta naquele estilo1 que chamamos dos-,seicentos4 ,basta ler o primeiro periodo3 ,com melhor saude que o ano pasado2 e com menos vida1 porque ele pasou3 a segunda parte do-qual1 noticia mui digna1 de se-mandar a um ,cardial1 porque coiza mui recondita4 ,o que se-segue no-segundo paragrafo1 sam1 ,sepulturas do-segredo3 resurreisoens da-confiansa3 exequias no-templo do-dezingano3 estatuas da-ingratidam1 e coizas semelhantes1 que oje tem ranso4 ,e nam sei se se-pode perdoar1 a um omem douto como o ,p4 ,argote1 o trazer a tal carta1 para exemplo de construsam facil1 e boa locusam4 ,conheso1 que muitas vezes as cartas damesma pesoa1 nam sam iguais3 ou porque algumas escreveo1 quando era moso1 e sabia pouco2 ou porque as-fez muito em presa4 ,conheso isto1 e o-perdoo3 o que reprovo 1 que o coletor nam soubse separar umas1 das-outras1 impremindo as melhores4 ,e aqui noto incidentemente1 que o que fez o prologo da-colesam1 que eu ignoro quem fose1 dise uma falsidade1 quando afirmou2 ,que nas linguas vulgares1 tem todas as ,nasoens escritores1 mas nam em grande numero1 deste estilo4 ,eu lhe-poso nomiar1 somente na ,italiana1 nam digo duzias1 mas centos3 publicadas muitos e muitos anos antes1 que saisem luz1 as do-,vieira3 e entre estes escritores1 muitos de purisima locusam1 e estilo inimitavel4 ,e o que mais de admirar1 omens que tratram as ,ciencias1 mas principalmente todas as partes da-melhor ,filozofia2 com tal clareza1 propriedade1 e metodo1 que envergonham os ,filozofos da-,escola3 os quais1 empregados toda a sua vida nela1 explicam-se muito mal4 ,na lingua ,franceza1 infinitos tomos de cartas1 em todas as materias2 e alguns famozos4 ,deixo a ,ingleza1 e ,olandeza1 nas quais sei que se-tem seguido1 este estilo4 ,onde1 nam avendo coiza mais uzual1 que estes escritores2 mostra-se o tal coletor1 mui pouco informado do-mundo4 ,o terceiro reparo que faso 1 sobre a ,ortografia1 que nada me-agrada4 ,nelas acho mui praticado aquele estilo1 que se-deve desterrar1 da-lingua ,portugueza2 e vem aser1 a duplicasam escuzada1 de muitas consoantes2 e mil outras1 que na minha primeira carta mostrei a ,v4 ,p4 que nam deviam seguir1 os omens doutos4 ,onde persuado-me1 que neste particular1 tam longe est de ser omem insigne1 que eu o-nam-porei por-exemplar1 a um principiante4 ,ora eisaqui tem ,v4 ,p4 que as mesmas cartas do-,vieira1 que eu julgo serem a sua melhor obra2 aindaque tenham muita coiza boa1 sejam facis1 e as palavras nam sejam ms2 contudo1 nam merecem aqueles cegos1 e encarecidos louvores1 que lhe-dam estes apaixonados3 os quais ou estam preocupados1 polas mesmas opinioens2 ou julgam por-cabesa alheia2 e nunca tiveram a paciencia1 de examinar bem a materia4 ,defeito mui antigo nestes censores3 que aprovam os livros comumente1 sem os-lerem3 e nam se-contentam de aprovlos1 mas os-elogiam1 e tam encarecidamente1 que perdem toda a f4 ,deixo aos omens de melhor juizo1 fazer a analize das-tais obras1 com mais tempo1 que eu nam tenho4 ,mas eu ja vejo1 que me-tenho aberto muito com ,v4,p4 o que fiz1 confiado na nosa amizade4 ,certamente nam disera tanto com outro3 pois sei certamente1 que quem nam tiver examinado isto1 me-ter quazi por-louco4 ,eu sempre fugi1 desta sorte de conversasoens1 com pesoas que sabem pouco3 porque me-ensina a experiencia1 que se-perde o tempo1 e o conceito4 ,mate-me ,deus com gente1 que me-intenda3 e que me-nam condene1 sem perceber as minhas razoens1 e responder a elas4 ,porque aquilo de reprovar um escritor1 somente porque impugna os defeitos1 de que eu gosto2 sem ter o sofrimento de examinar1 as dificuldades que propoem2 aindaque seja uzo mui comum1 nam sei porem se concludente4 ,emfim com ,v4,p4 nam este perigo3 porque eu sei muito bem1 que ao seu talento1 nada se-encobre3 e que mais para exercitar o seu juizo1 doque para aprender alguma coiza nova1 que tem a bondade1 de me-consultar4 ,mas sempre devo declarar-lhe1 que o juizo que formo das-obras1 do-,p4,antonio ,vieira2 deve ser intendido1 com todo o respeito devido1 sua memoria4 ,eu estimo muito este ,religiozo1 polas suas virtudes1 e capacidade4 ,vejo nas suas cartas retratado1 um animo grande3 um dezinterese nobre3 uma viva paixam polos aumentos do-seu ,reino3 e ardente dezejo de se-sacrificar por-ele3 e1 para nam ocultar coiza alguma1 vejo a suma ingratidam dos-seus nacionais1 que conrespondram a tantas finezas1 com asoens indignas3 e nam s nam souberam estimar1 tam grande omem1 mas pozitivamente o-opremram1 e a sua familia4 ,estas circunstancias todas mo-pintam1 mais estimavel3 e se eu vivse no seu tempo1 sera o seu maior amigo4 ,deve tambem o que digo intender-se1 sem a minima ofeza da-,religiam da-,companhia3 a qual tem produzido1 tantos omens grandes neste genero2 que sem dor alguma pode ouvir declarar1 que um dos-seus ,religiozos1 nam iguala1 nem chega1 gloria de muitos outros3 o que provm menos do-talento1 que do-infeliz estilo daquele tempo1 que nam conhecia1 outro gosto de ,eloquencia4 ,damesma sorte que ,plinio ,cecilio1 aindaque tivese talento1 e indole insigne2 nam pode menos que participar1 do-estilo do-seu seculo2 que degenerava muito1 da-magestade da-primeira ,eloquencia4 ,unicamente devo advertir isto a ,v4 ,p41 para justificar o meu proceder1 contra aquela acuzasam1 que me-podiam fazer aqueles1 que1 ouvindo-me falar d'eloquencia ,portugueza1 visem que nam citava1 o ,p4 ,vieira4 ,o conceito que formo1 dos-sermoens e orasoens do-,vieira1 com mais razam se-deve aplicar1 a todos os outros sermonarios2 que ,v4 ,p4 conhece1 estarem muitos furos abaixo do-,vieira4 ,digo pois1 que o ,orador1 que quer avultar no-mundo literario1 deve deixar todos os sermonarios ,portuguezes1 ou ,espanhoes2 e seguir a estrada que asima lhe-abrimos3 que parece ser1 a verdadeira estrada da-,eloquencia3 e isto parece-me que basta1 para regular o metodo da-,oratoria4 ,deve a isto ajuntar1 o continuo exercicio de compor3 e exercitar-se juntamente em particular1 para poder falar em publico3 sendo certo que o exercicio de compor1 e falar conduz muito1 para beber os principios1 e sablos uzar a seu tempo1 com dezembaraso4 ,perdoe-me ,v4 ,p4 a extensam desta1 que desde o principio eu prev1 que sera comprida3 e conserve-me muito na sua memoria4 ,deus guarde etc4 ,illustrao ,,notas ,,de ,,rodap3 #da ,sic igitur dicet1 ut proponat quid dicturus fit3 ut cum transegerit jam aliquid1 definiat3 ut se ipse revocet3 ut quod dixit iteret3 ut argumentum ratione concludat3 ut interrogando urgeat3 ut rursus quasi ad interrogata sibi ipse respondeat3 ut contra1 ac dicat1 accipi sentiri velit3 ut addubitet quid potius aut quomodo dicat3 ut dividat in partes3 ut aliquid relinquat ac negligat3 ut ante prmuniat3 ut in eo ipso1 in quo reprehendatur1 culpam in adversarium conferat4 ,ut spe cum his1 qui audiunt1 nonnunquam etiam cum adversario quasi deliberet3 ut hominum sermones moresque describat3 ut muta qudam loquentia inducat3 ut ab eo quod agitur avertat animos3 ut spe in hilaritatem risumve convertat3 ut ante occupet quod videat opponi3 ut comparet similitudines3 ut utatur exemplis3 ut aliud alii tribuens dispertiat3 ut interpellatorem coerceat3 ut aliquid reticere se dicat3 ut denuntiet1 quid caveant3 ut liberius quid audeat3 ut irascatur etiam3 ut objurget aliquando3 ut deprecetur1 ut supplicet3 ut medeatur1 ut a proposito declinet aliquantulum1 ut optet1 ut execretur3 ut fiat iis1 apud quos dicet1 familiaris4 ,atque alias etiam dicendi quasi virtutes sequatur3 brevitatem si res petet3 spe etiam res dicendo subjiciet oculis3 spe supra feret1 quam fieri possit3 significatio spe erit maior1 quam oratio3 spe hilaritas1 spe vit1 naturarumque imitatio 4 ,cicero4 ,orat4 n4 #dj4 #db ,nec umquam is1 qui audiret1 incenderetur1 nisi ardens ad eum perveniret oratio4 ,cicer4 ,orat4 n4 #ch4 #dc ,sic igitur dicet ille1 quem expetimus1 ut verset spe multis modis eandem1 unam rem3 hreat in eadem1 commoreturque sententia c4 ,cicero4,orator4n4#dj4 #dd ,hoc 7genus dicendi7 vehemens1 incensum1 incitatum1 quo causs eripiuntur3 quod cum rapide fertur1 sustineri nullo pacto potest4 ,idem1 ibid4n4#cg4 #de ,is ergo erit eloquens1 qui ad id1 quodcumque decebit2 poterit accomodare orationem4 ,quod cum statuerit1 tum1 ut quidque erit dicendum1 ita dicet2 ut nec satura jejune1 nec grandia minute1 nec item contra3 sed erit rebus ipsis par qualis oratio4,cicer4,orat4n4#cf4 #df ,quam enim indecorum est de stillicidiis cum apud unum judicem dicas1 amplissimis verbis1- locis uti communibus3 de maiestate populi ,romani summisse1 subtiliter8 ,cicer4 ,orat4 num4 #ba4 #dg ,omnino duo sunt qu condiant orationem3 verborum numerorumque jucunditas4 ,in verbis inest quasi materia qudam1 in numero autem expolitio4 ,cicer4 ,orat4 num4 #ee4 #dh ,sed quia rerum verborumque judicium prudenti est3 vocum autem1 numerorum aures sunt judices3 quod illa ad intelligentiam referuntur1 hc ad voluptatem3 in illis ratio invenit1 in his sensus artem4 ,ibidem num4 #di4 #di ,nam circuitus ille1 quem spe jam diximus1 incitatior numero ipso fertur labitur1 quoad perveniat ad finem1 insistat4 ,perspicuum est igitur1 numeris astrictam orationem esse debere1 carere versibus4444 ,inculcamus autem per imprudentiam spe etiam minus usitatos1 sed tamen versus3 vitiosum genus1 longa animi provisione fugiendum4 ,ibid4 n4 #ef4 #ej ,in historia narratur ornate1 regio spe aut pugna describitur3 interponuntur etiam conciones hortationes4 sed in his trata qudam fluens expetitur1 non hc contorta acris oratio4 ,cicer4 ,orator4 num4 #bj4 #ea ,mollis est enim oratio ,philosophorum umbratilis nec sententiis1 nec verbis instructa popularibus1 nec juncta numeris1 sed soluta liberius4 ,nihil iratum habet1 nihil invidum1 nihil atrox1 nihil miserabile1 nihil astutum4 ,casta1 verecunda1 virgo incorrupta quodammodo4 ,cicer4 ,orator4 n4 #ai4 #eb ,pag4 #bg4 #ec ,pag4 #df4 #ed ,pag4 #ee4 #ee ,pag4 #eg4 #ef ,pag4 #ff4 #eg ,pag4 #ec4 #eh ,pag4 #di4 #ei ,pag4 #dg4 #dh4 #di4 #ej4 #ea4 #fj ,ego hanc vim intelligo esse in prceptis omnibus1 non ut ea secuti oratores1 eloquenti laudem sint adepti3 sed qu sua sponte homines eloquentes facerent1 ea quosdam observasse1 atque id egisse4 ,sic esse non eloquentiam ex artificio1 sed artificium ex eloquentia natum4 ,cicer4 l4 ,i4 de ,orat4 num4#cb4 #fa ,scripsit artem ,rhetoricam ,cleantes1 sed sic1 ut siquis obmuttescere concupierit1 nihil aliud legere debeat4 ,cicer4 lib4 ,i4 de ,orat4 num4 #g4 #fb ,judicium igitur adhibebit3 nec inveniet solum quid dicat1 sed etiam expendet4 ,nihil enim est feracius ingeniis iis prsertim1 qu disciplinis exculta sunt4 ,sed ut segetes fcund uberes1 non solum fruges1 verum herbas etiam effundunt inimicissimas frugibus3 sic interdum ex his locis aut levia qudam1 aut caussis aliena1 aut non utilia gignuntur3 quorum ab oratoris judicio delectus magnus adhibebitur alioqui4 ,cicer4 ,orator4 num4 #ae4 #fc ,volo enim prius habeat orator rem1 de qua dicat1 dignam auribus eruditis2 quam cogitet1 quibus verbis quidque dicat1 aut quomodo4 ,idem4 ibid4 num4 #cd4 #fd ,esse igitur perfecte eloquentis puto1 non eam solum facultatem habere1 qu sit ejus propria1 fuse lateque dicendi2 sed etiam vicinam ejus atque finitimam1 dialecticorum scientiam assumere4 ,cicer4 ,orat4 n4 #cb4 ,et infra ,nec vero dialecticis modo sit instructus1 sed habeat omnis philosophi notos tractatos locos 4444 nihil1 inquam1 sine ea scientia1 quam dixi1 graviter1 ample1 copiose dici explicari potest4 #fe ,fra ,gianangelo ,serra1 ,capucinho de ,faenza1 na sua ,retorica c4 #ff ,conficitur autem genus hoc dictionis narrandis exponendisque factis1 sine ullis argumentationibus2 ad animi motus leniter tractandos magis1 quam ad fidem faciendam1 aut confirmandam accommodate4 ,non enim dubia firmantur3 sed qu certa1 aut pro certis posita sunt1 augentur4 ,cicero de ,partit4,orat4n4#ba #fg ,deinde est ad facta1 veniendum3 quorum collocatio est triplex3 aut enim temporum servandus est ordo3 aut inprimis recentissimum quodque dicendum3 aut multa varia facta in propria virtutum genera sunt dirigenda4 ,cicero ibidem n4#bc4 #fh ,de ,doctr4 ,christ4 lib4#b4 n4#fj4 #fi ,orat4 #c4 #gj ,cicer4 de ,orat4 n4 #cg4 #ga ,l4 ,i4 ,antidot4 in ,pog4 #gb ,imprimio-se este autor1 ,grace ,latine1 cum notis ,tanaquilli ,fabri1 ,salmurii anno #affc4 in #h4 #gc ,istoria do-,futuro ,cap4 ,,iii4 num4 #bg4 #gd ,ibidem1 num4 #cb4 #ge ,sermam da-,palavra de ,deus desempenhada4 4 ,,viii4,sermam da-,palavra do-,pregador empenhada1 e defendida4 4 ,,ii4 #gf ,istoria do-,futuro4 ,c4 ,,viii4 nu4#abb4 #gg ,palavra de ,deus empenhada4 4,,viii4 num4#d4 ,sermam da-,palavra de ,deus dezempenhada4 4 ,,ii4 #gh ,palavra do-,pregador empenhada1 e defendida4 4 ,,iii4 #gi ,hc vitia unus aliquis inducit1 sub quo eloquentia est3 ceteri imitantur1 alter alteri tradunt4 ,seneca ,epist4 #aae4 #hj ,quintiliano4 #ha ,aprovasam do-primeiro tomo das-,cartas do-,vieira1 por ,alexandre ,ferreira4 ,illustrao ,,carta ,,setima4 ,,sumario4 ,fala-se da-,poezia4 ,os ,portugueses sam meros versejadores4 ,prejuizos dos-mestres1 de nam poetarem em ,vulgar4 ,que coiza seja ingenho bom1 e mao4 ,especies de obras de mao ingenho1 em que caram alguns ,antigos1 mas principalmente os ,modernos4 ,necesidade do-,criterio1 e ,retorica1 em toda a sorte de ,poezia4 ,primeiro defeito de ,poezia1 a inverosimilidade3 exemplos4 ,segundo defeito1 os argumentos ridiculos4 ,reflexoens particulares1 sobre as compozisoens pequenas ,portuguesas2 que nam podem dar nome1 a um omem3 defeitos da-,nasam1 provados com exemplos4 ,reflexoens sobre o ,epigrama ,latino1 ,elogios1 inferisoens ,lapidares1 ,eglogas1 ,odes1 ,satiras1 poemas ,epicos4 ,que os ,portugueses nam conhecram as leis1 do-poema ,epico3 prova-se com ,camoens1 ,chagas1 ,botelho de ,morais4 ,aponta-se o metodo1 com que se-devem regular os rapazes1 no-estudo da-,poezia4 ,nova ideia de uma ,arte ,poetica1 util para a ,mocidade4 ,a carta que ,v4 ,p4 me-mandou nesta semana1 deu-me particular consolasam2 porque vi nela a imagem1 da-sua soberana prudencia1 do-seu criterio exatisimo1 e da-sua inimitvel ingenuidade4 ,mas isto pouco3 vi nela executado1 tudo o que este genero pode permetir1 em materia de ,retorica4 ,v4 ,p4 quiz dar-me dois contra3 e mostrar-me1 que as minhas reflexoens eram superfluas3 pois avia um omem neste mundo1 que sabia executar primorozamente1 tudo aquilo4 ,mas diso mesmo me-rezulta1 grande gloria4 ,ou ,v4 ,p4 o-fez1 porque eu lho-avizei2 e neste cazo1 que gloria nam ser a minha1 de ter um dicipulo desta qualidade8 ou o-fez porque asim o intendia1 sem que lhe-avizse2 e fico igualmente gloriozo1 vendo que as minhas reflexoens se-conformam1 com as de uma pesoa1 que eu estimo tanto4 ,ponho de parte os outros comprimentos1 que me-faz3 porque nam quero uzurpar1 o que nam mereso4 ,o que eu escrevi1 nam meu1 mas o que ensinram os omens mais insignes1 nesta faculdade3 de cuja lisam eu o-tirei4 a estes 1 que ,v4 ,p4 o-deve agradecer3 e a mim1 s a boa vontade que tenho1 de o-servir4 ,no-fim da-sua carta1 repete ,v4 ,p4 uma circunstancia1 que ja me-pedio em outra sua3 vem aser1 que diga alguma coiza1 da-,poezia4 ,eu me-lembro mui bem1 da-sua petisam3 a qual nam deixei por-esquecimento1 mas com suma advertencia3 vistoque s despois da-,retorica1 se-deve tratar da-,poezia3 a qual nada mais 1 que uma ,eloquencia mais ornada4 ,s me-resta uma dificuldade1 quero dizer1 se poderei eu dezempenhar1 o que ,v4 ,p4 me-encomenda4 ,eu tenho pouca noticia de ,poetas ,portuguezes3 ou nam tenho toda1 a que necesaria1 para formar juizo exato deles4 ,desde que li alguns1 os-desprezei quazi todos1 porque me-nam-agradram4 ,contudo lembrando-me1 que a medida do-verso ,portuguez1 a mesma do-,italiano2 e que as regras em todo o mundo culto1 sam as mesmas2 direi alguma coiza que me-ocorre3 se errar1 dever desculpar-me2 lembrando-se que s o-faso1 para lhe-obedecer4 ,digo pois1 que o estilo dos-,poetas deste seu ,reino1 e desta sua lingua1 pouquisimo me agrada3 porque totalmente contrario1 ao que fizeram os melhores modelos da-,antiguidade1 e ao que ensina a boa razam4 ,a razam disto 1 porque os que se-metem a compor1 nam sabem que coiza compor3 onde1 quando muito sam ,versificadores1 mas nam ,poetas4 ,e disto nam queira ,v4 ,p4 melhor prova que ver1 que nenhum at aqui se-rezolveo a escrever1 uma boa arte ,poetica ,portugueza3 todos se-remedeiam com esta ,espanhola1 que muito m fazenda4 ,certo meu conhecido me-mostrou tempos1 uma manuscrita3 mas nada mais era1 que um compendio da-dita ,espanhola2 em que somente se-trata1 das-medidas dos-versos1 e combinasoens de consoantes3 o que est mui longe de se-chamar1 arte ,poetica4 ,onde concluo1 que ainda nam vi livro ,portuguez1 que ensinse um omem1 a inventar1 e julgar bem2 e formar um poema como deve ser4 ,de que nace1 que os que querem poetar1 o-fazem segundo a forsa da-sua imaginasam3 e nam produzem coiza1 digna de se-ver4 ,com efeito ver ,v4 ,p4 muitos1 que quando escrevem dez versos1 lhe-chamam ,decima3 e quando unem quatorze1 chamam-lhe ,soneto3 e asim das-mais compozisoens4 ,desorteque compoem antes de saberem o que devem dizer1 e como o-devem dizer3 e quando tem formado uma caraminhola1 em trajes de ,poezia1 ficam mui satisfeitos2 e comesam a dizer mal1 de tudo o que nam intendem4 ,destes se acham1 nam duzias1 mas centos4 ,de nam terem profundado a materia1 nacem todos os defeitos da-,poezia3 de que se-acham infinitos na ,espanha1 e tambem em ,portugal4 ,geralmente intendem1 que o-compor bem consiste1 em dizer bem sutilezas2 e inventar coizas1 que a ninguem ocorresem3 e com esta ideia produzem partos1 verdadeiramente monstruozos2 e que eles mesmos1 quando os-examinam sem calor1 dezaprovam4 ,os mestres de ,retorica1 em cujas escolas que se-faz algum poema1 e que deviam ensinar estas coizas2 sam os primeiros que se-calam1 e deixam fazer1 o que cadaum quer4 ,envergonham-se1 de poetar em ,portuguez3 e tem por-pecado mortal1 ou coiza pouco decoroza1 fazelo na dita lingua4 ,imaginasoens1 e prejuizos ridiculos6 ,a ,poezia nam pecadora3 a aplicasam a que a-pode fazer condenavel1 se nam reta3 e como iso pode suceder tanto na proza1 como no-verso2 da vem1 que estes que julgam asim1 nunca deviam escrever em ,portuguez4 ,em todos os tempos os omens de virtude1 se aplicram a este exercicio4 ,os ,santos ,padres mais doutos1 compuzeram muita coisa em verso4 ,s4 ,bazilio1 ,s4 ,gregorio ,nazianzeno foram grandes ,poetas4 ,o primeiro1 compoz expresamente um tratado1 no-qual ensinava o modo1 de ler os ,poetas com utilidade4 ,o segundo1 vendo que ,juliano ,apostata ,imperador ,romano1 proibra aos ,cristaons1 ler os ,poetas ,etnicos2 compoz algumas poezias1 imitando ,omero1 ,pindaro1 ,euripides1 ,menandro c4 para instrusam da-mocidade ,cristan4 ,e isto nam o-fizeram em ,persiano1 ou ,arabio2 mas na sua lingua materna1 que era a ,grega4 ,o mesmo fez ,apolinario ,bispo de ,laodicea1 e alguns outros4 ,s4 ,inacio de ,loyola1 e outros modernos tambem fizeram1 versos vulgares4 ,se damos um paso atraz1 acharemos1 que muitos escritores ,sagrados1 escrevram em verso4 ,o que tam claro1 que ningum pode menos que rir-se de ver1 que um ,portuguez se-envergonhe de poetar na-sua lingua1 fazendo-o em ,latim4 ,como se na lingua ,latina1 nam se-pudesem dizer todas as loucuras1 que se-dizem na ,portugueza6 ,de que vem1 que1 segundo o estilo das-escolas1 um ,portuguez obrigado a nam saber1 que coiza ,poezia4 ,alem disto1 aquilo que lhe-ensinam de ,latim1 nada mais 1 que a medida de quatro versos2 e fazer alguma breve compozisam4 ,desorteque em nenhuma lingua se-fazem1 as reflexoens necesarias1 para ser bom ,poeta4 ,antes praticando-se na ,latina1 uma sorte de versos feitos moderna1 com muitas sutilezas1 e conceitozinhos2 este estilo se-difunde1 nas compozisoens ,portuguezas1 com geral dano da-,poezia4 ,duas sam as partes1 que compoem o ,poeta1 ,ingenho1 e ,juizo4 ,ingenho para saber inventar1 e unir ideias semelhantes1 e agradaveis3 ,juizo para as-saber aplicar1 onde deve4 ,e nestas duas partes pecam1 nam s os modernos1 e mediocres ,poetas2 mas pecram ainda os antigos1 e grandes omens2 nos-quais nem tudo igual3 como mostram1 aqueles1 que criticram com juizo1 os ,antigos4 ,achamos omens com muito ingenho1 e com pouco juizo3 porque estas duas coizas1 podem-se unir muito bem3 e para nam parecer falsa1 a minha propozisam1 permita-me ,v4 ,p4 que me-explique melhor4 ,o ,ingenho consiste1 em saber unir ideias semelhantes1 com promtidam1 e grasa2 para formar pinturas que agradem1 e elevem a imaginasam3 desorteque nam basta que sejam semelhantes2 necesario que divirtam1 e arrebatem4 v4 g4 ,quando o ,poeta diz1 que a garganta da-sua amada1 branca como a neve3 nisto nam aparece ingenho3 se porem acrecenta1 que igualmente fria2 nisto est o ingenho4 ,polo contrario o ,juizo1 aquela faculdade da-alma1 que peza exatamente todas as ideias3 sepra umas das-outras3 nam se-deixa inganar da-semelhansa3 e atribe a cada uma1 o que seu4 ,isto1 pede uma exata meditasam1 e prudencia fundada3 aquilo1 s pede uma memoria cheia de muitas1 e diferentes ideias4 ,e daqui vem1 que vemos frequentemente1 omens de imaginasam fecunda1 e ingenho vivo2 sem um escrupulo de juizo3 antes comumente tem menos juizo1 os que tem mais ingenho3 motivo polo qual produzem obras1 que merecem rizo4 ,os que nam distinguem isto1 confundem ,ingenho1 e ,juizo3 e chamam omens de juizo1 aos que dizem mil ridicularias1 e produzem infinitas monstruozidades1 e despropozitadas imaginasoens4 ,o verdadeiro ingenho pois1 uma semelhansa de ideias1 que diverte1 e eleva4 ,polo contrario o falso ingenho consiste1 na semelhansa de algumas letras1 como os ,anagramas1 ,cronogramas c4 s vezes na semelhansa de algumas silabas1 como os ,ecos1 e alguns consoantes insulsos3 outras vezes na semelhanzas de algumas palavras1 como os ,equivocos c4 finalmente consiste tambem1 em compozisoens inteiras1 que aparecem com diferentes figuras ou pinturas1 como abaixo diremos4 ,destas duas especies de ingenho bom1 e mao1 se-compoem uma terceira1 que participa de ambas1 a que alguns doutos chamram ,ingenho mixto3 que consiste1 parte na semelhansa das-ideias1 e parte das-palavras4 v4 g4 ,imagina o ,poeta1 que o ,amor tem1 semelhansas de fogo3 e une estas duas ideias1 na sua imaginasam4 ,serve-se das-palavras de fogo1 e chama2 para explicar esta paixam do-animo3 e como elas tem significasam incerta1 rezulta daqui um todo1 que tem parte de ingenho1 e parte de aparencia3 o qual mais ou menos estimado1 segundo que domina mais ou menos1 um que outro3 quero dizer1 segundo que a semelhansa caie mais1 sobre as ideias1 que sobre as palavras4 ,na idade de oiro da-,latinidade1 apenas se-acha vestigio diso1 tirando em ,ovidio1 que tem alguma coiza3 na idade de prata1 ,marcial cuido que foi o inventor3 e nestes ultimos seculos1 nam se-ve outra coiza4 ,mas a verdade 1 que um conceito que nam justo1 nem fundado sobre a natureza das-coizas1 nam pode ser belo3 porque o fundamento de todo o conceito ingenhozo1 a verdade3 nem se-deve estimar algum1 quando nam se-reconhesa nele1 vestigio de bom juizo4 ,e como os ,antigos observram muito isto1 por-iso neles se-observa1 certa maneira natural de escrever1 e certa simplicidade nobre1 que tanto os-faz admiraveis4 ,polo contrario1 os que nam tem ingenho para fazerem31 que um conceito brilhe1 com a sua propria luz1 sem a-pedir emprestada2 vem-se obrigados1 procurar toda a sorte de ornamentos1 e apegar-se a quaisquer agudezas boas1 ou ms2 para com elas fazerem figura1 e parecerem ingenhozos4 ,nas obras dos-,antigos nam distinguem o bom1 nem o mao3 abrasam os mesmos erros1 como se fosem maravilhas3 sem advertirem1 que aindaque fosem nosos mestres1 nam os-devemos seguir1 com os olhos fechados2 mas abrasar neles1 o que nam repugna boa razam4 ,deste principio naceram1 aquelas ridiculas compozisoens1 que tanto reinram1 no-seculo da-ignorancia1 digo no-fim do-seculo ,,xvi4 de ,cristo1 e metade do-,,xvii4 e desterradas dos-pazes mais cultos1 ainda oje se-conservam em ,portugal1 e nas mais ,espanhas4 ,os omens daqueles seculos ignorantes1 nam observram nos-,antigos o bom1 mas o mao4 ,vram1 que neles se-achavam vestigios1 de um mao ingenho2 e ese foi o que abrasram3 de-sorteque ainda oje tem os doutos grande trabalho1 em desterrar isto1 da-mente dos-omens4 ,alguns ,poetas ,gregos ridiculos1 autorizram este uzo4 ,atribue-se a ,theocrito1 mas falsamente1 uma especie destes poemas1 a que ns podemos chamar pintados1 ou figurados4 ,reprezenta um1 o ,ovo2 outro1 uma ,machadinha2 outro1 um ,altar c4 ,isto uma puerilidade1 indigna de um ,poeta tam grande1 como ,theocrito4 ,certamente para fazer semelhantes versos1 deve o ,poeta andar detraz1 nam do-bom conceito1 mas da-palavra longa1 ou curta3 vistoque os versos nam sam1 de igual medida e grandeza4 ,este pesimo gosto se-restableceo1 no-seculo pasado1 nam s no-verso1 mas tambem na ,proza4 ,eu vi um ,ecce ,homo1 feito de letrinhas miudas1 que continham o testamento ,novo4 vi um retrato do-,imperador ,joz1 cuja cabeleira1 e vestido era feito de versos4 finalmente acha-se muito disto1 nos-,poetas tolos do-seculo ,,xvi4 e ,,xvii4 ,o que me admira neste particular 1 que o ,padre ,bluteau1 que nacra em um ,reino1 no-qual se-sabe1 que coiza ,eloquencia1 e bom gosto2 quizese introduzir tambem isto1 em ,portugal4 ,li aver anos um papel avulso1 que ele compuzera nas exequias1 da-,rainha ,d4 ,maria de ,saboia1 molher d',el-,rei ,d4 ,pedro ,,ii4 e o-intitulou ,protheus doloris2 em que se-continha bastante disto4 ,avia um epitafio piramidal1 cujo artificio consistia1 em ter algumas regras mais compridas que outras4 ,avia tambem variedade de disticos1 em que se-aludia s letras todas do-,a4 ,b4 ,c43 e muita desta ridicula fazenda4 ,tinha tambem uma enfiada daqueles titulos1 que ele costuma pr nos-seus prologos1 e que embrulham o estomago1 aos leitores de perfeito juizo4 ,com efeito eu ja dise a ,v4,p4 que este era o estilo1 do-tal ,religiozo3 metodo1 criterio1 bom gosto1 nam sabia de que cor era4 o mais cansado escritor1 que eu tenho visto4 ,na verdade era infatigavel1 em algumas coizas3 mas nam era autor para se-imitar3 porque bebra desorte1 este estilo de ,portugal2 que at em ,pariz quiz defender a um ,cardial1 que o estilo de pregar dos-,portuguezes1 era excelente3 o que cuido ter lido1 em uma das-suas obras predicaveis4 ,emfim tudo isto efeito1 de mao gosto1 e nenhum criterio4 ,daqui tambem nacram1 as outras compozisoens mais ridiculas4 ,conta a ,istoria1 de um certo ,tryphiodoro2 que compoz uma ,ode1 sobre os trabalhos de ,ulizes2 e dividio este poema em #bd4 livros1 a que deo o nome das-#bd4 letras do-,alfabeto1 pola razam contraria3 vistoque no-primeiro livro1 faltava o ,a4 no-segundo1 o ,b4 c4 e em nenhum se-achava a palavra1 que tivese a dita letra do-titulo4 ,eu vi uma compozisam moderna1 que seguia o mesmo metodo4 ,certamente nam coiza mais ridicula1 que estes ,lipogramas4 ,sera um belo divertimento1 observar este ,poeta1 empenhado a revolver todos os ,dicionarios2 s para deitar fra1 a letra escomungada4 ,sera necesario1 desprezar a voz mais propria1 e mais elegante2 somente por-ter a desgrasa1 de se-achar nela1 a dita letra4 ,mas que coiza sera a tal compozisam6 que palavras ridiculas6 que fraze inaudita6 que conceitos improprios6 ,foi fortuna1 que o tal autor teve poucos sequazes1 na ,antiguidade4 ,dos-,enigmas de palavras1 entre os ,povos do-,oriente achamos muito4 ,era entre eles1 uma principal parte da-sabedoria2 saber propor1 e decifrar os ,enigmas4 ,os mesmos ,reis se-divertiam1 em propor uns a outros1 estas advinhasoens3 e s vezes nos-convites1 este era o ultimo prato4 ,mas destes omens nam falamos1 porque ignorram1 o que era bom gosto4 ,mas ainda entre os ,gregos ouve algum1 que fez algum enigma3 mas foram raros1 como mostra o noso ,lilio ,gregorio ,gyraldi1 nos-seus ,opusculos4 ,os ,romanos mais advertidos1 fugram disto4 ,sobre a outra sorte de ,enigmas pintados c4 algum vestigio vemos1 nos-,antigos3 mas eles tinham outro diferente motivo4 ,em ,roma era proibido1 que um particular puzese a sua efigie1 que era o mesmo que a sua arma1 no-dinheiro corrente4 ,caio ,cezar1 que era o ,provedor da-,caza da-moeda1 mandou esculpir nelas1 a figura de um ,elefante3 porque a palavra ,cezar em lingua ,punica1 significa ,elefante4 ,tambem entre os ,gregos1 principalmente ,ateniezes1 era proibido severamente1 que os estatuarios1 e artifices puzesem o seu nome1 nas estatuas c4 ,mas dois ,architetos1 tendo feito um grande palacio1 esculpiram em varias partes1 uma ,lagartixa1 e uma ,ran1 que eram os seus nomes4 ,observei eu tambem muitas vezes1 na famoza estatua equestre de bronze1 do-,imperador ,marco ,aurelio1 que se-acha em ,roma na prasa do-,capitolio2 que as crins do-cavalo entre as orelhas1 reprezentavam uma coruja3 que sem duvida era o nome do-autor3 que verosimelmente era ,ateniez1 vistoque em ,atenas avia grande abundancia delas4 ,mas isto que os ,antigos fizeram1 por-necesidade1 alguns ,modernos o-fazem1 por-eleisam3 e se-cansam em inventar um enigma1 como em fazer alguma obra eloquente4 ,nam poso deixar de escrever aqui um epitafio1 que cita um autor de bom juizo1 que se-poz na lapide sepulcral4 ,o morto chamava-se3 ,nicolao ,antonio ,simeoni3 e querendo-lhe fazer um epitafio ingenhozo1 escrevram isto3 ,hic jacet ,barium1 ,patavium1 de ,nunc dimittis4 ,barium aludia a ,s4,nicolao ,arcebispo de ,bari3 ,patavium a ,s4,antonio de ,padua3 e ,nunc dimittis ao canto do-velho ,simeam4 ,veja ,v4,p4 que tal era o enigma1 e que tal sera o autor6 ,disto ainda oje se-acha muito1 entre os ignorantes3 e eu tenho visto bastante1 em ,portugal4 ,intrei uma vez na caza1 de certo cavalheiro ,portuguez1 que estava lendo um livro de ,epigramas ,latinos1 in #d4 proguntei-lhe1 que coiza lia3 e respondeo-me1 ,que lia o melhor ,epigramatista1 e o melhor ,enigmatico4 ,que o autor era um ,portuguez moderno1 o qual em cada ,epigrama ocultra um enigma1 com tanto estudo2 que toda aquela menhan procurra decifrar um1 sem o-conseguir4 ,que ja tinha alcansado1 o segredo de outros3 e que reconhecia1 que neles avia muito ingenho4 ,ofereceo-se para me-emprestar o livro1 e decifrar algum4 ,eu agradeci a atensam3 e respondi-lhe1 que tinha mais que fazer3 e que nam queria privlo do-gosto1 de se-ocupar em coizas tam ingenhozas4 ,e a isto chama-se ingenho6 e quem publique tais livros1 neste seculo6 ,ponho na mesma clase os ,ecos1 ,equivocos1 ,anagramas1 ,acrosticos1 ,cronogramas1 ,consoantes forsados1 ,laberintos c4 ,tudo isto aindaque tivese seus vestigios1 em alguns menos advertidos da-,antiguidade2 resucitou1 ou se-inventou1 nos-seculos da-ignorancia4 ,eu sei que ,ovidio1 em uma parte das-suas ,metamorfozes1 quando fala da-,ninfa ,eco1 antes de ser mudada em puro eco1 introduz algum4 ,mas alem de que o-pedia1 a necesidade da-materia2 visto ser ela o argumento1 da-sua descrisam2 os omens de juizo rim-se1 da-sua puerilidade3 sendo certo que ,ovidio1 caio em muitos defeitos1 e escreveo com mais facilidade1 que reflexam4 ,mas nam se-pode sofrer1 que omens modernos1 e que mostrram doutrina em muitas coizas1 caisem nesta rapaziada1 condenavel ainda em um rapaz3 e que fizesem compozisoens1 expresamente para mostrar1 que sabiam fazer eco4 ,eu vi ecos1 que respondiam em ,latim1 e outras linguas3 e tive compaixam do-,poeta1 que se-cansra com aquilo4 ,os ,equivocos nam os acho na ,antiguidade1 separados dos-,enigmas1 tirando rarisimo1 que em outra parte direi3 sam invensam moderna4 ,v4 ,p4 sabe muito bem1 que s reinram1 no-tempo da-ignorancia2 e que os ,espanhoes1 e ,portuguezes mais advertidos1 fogem oje deles4 ,com efeito nam coiza mais ridicula1 que chamar conceito1 a um ingano3 e procurar aquilo1 que se-devia evitar4 ,quando eu li algumas das-,jornadas1 de ,jeronimo ,baa1 tive compaixam do-dito ,religiozo3 e asentei1 que a jornada que devia fazer1 era de sua caza para o ,ospital4 ,esta sorte de ,poetas sam doidos1 aindaque nam furiozos4 ,mas nam cuide ,v4,p4 que isto est totalmente reprovado3 eu ainda conheso1 quem o-pratica3 e quando se-lhe-oferece ocaziam1 de dizer um equivocozinho1 banham-se em agua de ,cordova4 ,nam falo dos-idiotas1 porque estes nam cuidam niso3 mas destes chamados doutos1 ,frades1 ,seculares1 ,sacerdotes1 ,estudantes c4 entre estes acha-se muito disto3 porque nam se-incontra uma alma cristan1 que dezinganadamente lhe diga1 que aquilo uma parvoice4 ,mas o pior 1 que ja o ,equivoco pasou do-,portuguez1 para o ,latim3 e muitos que deviam saber1 que coiza era ,latim1 nam fazem escrupulo1 de introduzirem nele equivocos2 compondo um ,latim novo1 cheio de todas estas arengas4 ,um autor de credito1 a quem eu estimei muito1 pola sua doutrina1 e piedade1 tambem tropesou nesta materia2 compondo uma descrisam do-,ceo1 por-equivocos4 ,esta obra1 que fora prometida anos antes1 com diferente titulo2 teve muita gente em grande esperansa2 e eu fui um deles3 mas despois que a-li1 confirmei-me no-conceito em que estava1 de que nam obra para este seculo2 mas cento cincoenta anos antes1 sera um prodigio4 ,todo o artificio consiste1 em ter buscado nomes de ,santos1 que signifiquem varios oficios da-,republica1 de que se-acham carros nos-martirologios c4 e descrever uma ,cidade ideial1 introduzindo em seus lugares1 os ditos nomes4 ,contudoiso esta obra teve mil adoradores1 e apologistas2 que mostram abrasar1 a mesma opiniam4 ,eu porem que dezejo cooperar1 para o credito deste omem1 quizera que se-nam-tivese publicado3 porque me-parece1 que nam digna de estar ao p1 de outras obras do-mesmo autor3 e que defender o contrario1 mostrar mais paixam1 que dicernimento3 e deste meu parecer foram1 os ,estrangeiros de juizo1 a quem a-mostrei4 ,mas o que este fez em uma s materia1 fazem outros em toda a ocaziam3 e desculpam-se com um ou dois ,estrangeiros1 que sam os gavadinhos4 ,como se os ,estrangeiros1 nam fizesem tambem parvoices6 ou como se naquelas ,nasoens nam ouvese1 quem abominse tal metodo6 ,com efeito o ,tezauro1 mas principalmente o ,juglar1 de quem se-servem neste genero de equivocos1 e agudezas2 insoportavel3 e tem sido o que arruinou muita gente1 que nam peza bem o que abrasa4 ,ele compoz uma certa coiza1 a que chama ,elogios3 feitos em um ,latim1 que nam se-sabe de que seculo 2 porque todo cheio de sutilezas1 e equivocos2 e cada palavra se-deve tomar1 em sentido diferente doque soa4 ,o primeiro ,elogio feito ao ,verbo ,eterno1 comesa asim3 ,amicus silentii ,deus est4 ,semel in tota ternitate locutus ,deus1 ,uno omnia dixit in ,verbo4 ,prima sui fecunditate facundus1 ,ipsa sui conceptione fit parens2 ,veja ,v4 ,p4 o que aqui vai6 ,a palavra silentium aqui tam impropria1 que nam pode ser mais3 porque silentium um termo relativo1 que significa estar calado1 ou quieto2 quem primeiro falou1 ou fez rumor3 e isto nam se-pode aplicar ao ,p4 ,eterno1 o qual sempre fala a mesma palavra1 que entam falou4 ,onde nam coiza mais contraria ao silencio1 que o falar do-,eterno ,pai3 e1 seguindo a sutileza do-,juglar1 deve-se dizer1 que nam quem seja1 mais amigo de falar1 porque nunca se-cala4 ,a palavra semel tambem impropria4 ,ela nam significa uma coiza1 que sempre se-faz3 mas que se-faz uma vez s3 e no-noso cazo1 que j pasada3 e isto nem menos se-pode aplicar1 ao ,padre4 ,tambem o nome locutus1 rigorozamente falando1 nam significa1 quem pronunca uma palavra1 como ele supoem2 mas quem faz um discurso4 ,uno omnia dixit in ,verbo1 nam fraze ,latina1 no-sentido em que ele a-toma3 porque uno verbo1 ou verbo dicere1 de que uzam os ,latinos2 nam significa1 pronunciar uma voz1 como supoem o elogio2 mas dizer poucas palavras1 e explicar muito em pouco3 a palavra ,verbum1 aqui rigorozo equivoco4 ,prima sui fecunditate1 nam sei o que quer dizer3 porque eu nam acho1 que o ,padre ,eterno gerse mais1 que um filho3 e a palavra prima relativa4 ,alem diso a palavra fecunditas1 nam significa1 gerar uma s vez2 mas muitas1 e ser fertil3 e nem menos isto se-aplica1 ao ,p4 ,eterno4 ,o mesmo digo da-palavra facundus1 que nam significa1 quem pronuncia uma s palavra2 mas quem eloquente1 e sabe fazer muitos e bons discursos3 e tudo isto est longe do-sentido1 em que o-toma ,juglar4 ,a palavra conceptio1 outro equivoco4 ,ela nam significa1 conhecer e intender alguma coiza2 mas compreender1 como um vazo compreende o licor1 que lhe-deitam3 e neste sentido se-transfere1 para explicar o modo1 com que o utero das-molheres1 recebe a semente2 de que rezulta a gerasam4 ,significa tambem1 excogitar3 e em nenhum destes sentidos se-pode aplicar1 ao ,p4 ,eterno3 pois nem o ,pai excogita o ,filho2 nem se-concebe a si1 mas ao ,filho4 ,asimque toda esta arenga se-reduz1 a um trocadilho e jogo de palavras3 como ,v4 ,p4 poder reconhecer1 se quizer ler o dito autor4 ,e que diriam os nosos antigos ,romanos1 se visem abuzar da-magestade dos-,elogios3 destruir a naturalidade1 e simplicidade da-lingua ,latina3 perverter a propriedade das-suas expresoens3 somente para dizer quatro sutilezas1 que nam concluem nada8 ,contudo iso este autor1 bandido de outros ,reinos1 achou muitos imitadores1 e idolatras neste3 aos quais ser mais facil persuadir1 que os antigos ,romanos nam souberam1 escrever com elegancia2 doque que o ,p4 ,juglar nam seja1 um milagre de doutrina1 e facundia4 ,mas permita-me ,v4 ,p4 repetir o versinho1 quisque suos patimur manes3 o certo 1 que este estilo1 com mais razam se-deve evitar no-,latim1 que no-,portuguez4 ,os ,anagramas sam invensam nova1 e tambem agradam muito1 nestes paizes4 ,que divertimento nam 1 ver um perfeito anagramatista1 dezentranhar daquela palavra1 mil coizas diferentes6 ,eles convertem o branco em negro2 o dia em noite2 o omem em besta4 ,se o tempo que aplicam1 a esta rapaziada1 o-aplicasem a coiza seria2 podiam fazer um poema ,epico bem grande4 ,acham-se alem disto mestres1 que fomentam isto2 dando premios aos rapazes1 que nas escolas1 ouvindo alguma palavra1 descobrem nela um anagrama puro4 ,sera isto nada1 se se-contivese dentro das-escolas3 mas o mao 1 que saie para fra1 e se-introduz nos-discursos graves4 ,asisti uma vez a um sermam da-,conceisam1 pregado polo ,p4 99 99 99 o qual fora muitos anos mestre1 e tinha fama de grande ,teologo2 que provou o que dise1 com anagramas1 tirados do-nome da-,senhora1 e de algumas palavras do-,evangelho4 ,creio que necesaria mui pouca reflexam1 para conhecer o ridiculo1 deste estilo4 ,os ,acrosticos sam primoscomirmaons dos-,anagramas1 e nacram no-mesmo seculo4 ,acham-se ingenhos mariolas tam infatigaveis1 que no-mesmo ,soneto poem trez vezes1 o mesmo nome3 duas nas extremidades1 e uma no-meio4 ,para fazer isto ja ,v4 ,p4 sabe1 quantas palavras necesario voltar1 e revoltar4 ,e como as palavras se-buscam1 polo comprimento1 c4 segue-se que se-m-de desprezar as melhores2 s para achar aquela1 em que esteja aquela letra inicial1 e aquele numero de silabas4 ,e daqui fica claro1 que coiza pode ser1 a dita compozisam4 ,os ,ebreos despois do-,talmud1 sam os que se-aplicram a estas ridicularias1 de ,anagramas c4 mas fomente para achar misterios1 nas ,escrituras4 ,porem estes modernos1 procuram somente o divertimento4 ,dos-,cronogramas vi algum em ,portugal1 mas raro4 ,os ,tudescos sam insoportaveis nesta materia1 e tambem os ,ebreos modernos4 ,consiste pois o ,cronograma1 em pr no-principio1 ou fim de um livro1 ou em alguma inscrisam1 certas palavras2 parte das-quais letras sejam maiusculas3 as quais juntas declarem a era1 em que foi feito o livro4 ,omens 1 que perdem mezes1 para buscar as ditas palavras4 ,onde1 quando ,v4 ,p4 vir algumas destas inscrisoens1 em medalhas1 ou livros2 nas quais entre letras miudas se-achem majusculas2 nam se-canse em buscar o conceito1 que nam 3 busque o ano1 do-milezimo corrente4 ,mais vulgar em ,portugal1 outra sorte de ingenho falso1 a que chamam ,consoantes forsados4 ,quando querem experimentar um omem1 se tem ingenho2 dam-lhe consoantes estramboticos1 paraque complete os versos3 e como isto seja o mesmo1 que obrigar um omem1 a que diga despropozitos2 ja se-sabe que saiem compozisoens1 indignas de se-verem4 ,se um omem quando quer fazer um ,soneto1 polos consoantes de outro1 ao mesmo asumto1 e sem se-incontrar no-mesmo conceito2 lhe-custa3 se despois que um ,poeta faz1 uma boa quadra de um ,soneto2 nam acha s vezes os consoantes proprios1 para a segunda2 e para explicar o que tem ideiado3 considere ,v4 ,p4 que coiza poder fazer1 quando o-obrigam1 a dizer despropozitos8 ,o mesmo digo1 quando dam os motes com finais dezuzados1 e que nam tem outras vozes consoantes4 ,sempre me-pareceo ridiculo este estilo3 e nunca pude sofrer1 que vindo quatro amigos1 elogiar outro em um oiteiro2 lhe-ajam de dar motes1 para os-tormentar4 isto recompensar uma fineza com uma injuria2 e querer uma satira1 em lugar de louvor4 ,deviam dar ao ,poeta1 somente o asumto2 e deixar-lhe a liberdade1 de fazer a ,decima como quizese3 porque o entuziasmo deve ter1 liberdade na expresam3 sem a qual nam posivel1 deixar de dizer parvoises4 ,ou1 em cazo de lhe-darem o mote1 devia ser com algum final1 que tivese muitas vozes consoantes da-lingua3 paraque pudese contrafazer-se menos1 e produzir coizas dignas4 ,porem sempre direi1 que efeito de um ingenho mui mao1 dar consoantes estramboticos3 e que todo o omem de juizo deve fugir1 desta rapaziada4 ,em outros ,reinos1 sempre se-deixa a liberdade1 a quem gloza3 e na minha ,italia1 onde sabem que coiza ,poetar2 a estes glozadores1 a que la chamam ,improvizadores1 nunca dam motes1 mas s o asumto4 ,e por-iso alguns1 e vi tambem molheres1 que discorriam prodigiozamente3 e cujas obras escritas1 mereceriam grande louvor4 ,especialmente incontrei um omem1 de mente tam fecunda1 que polo espacio de trez oras despois de jantar1 fez continuamente versos2 variando eu sempre os asumtos4 ,versejava em oitava rima1 conforme o costume dos-versejadores de ,italia3 e com tanta promtidam2 que cheguei a suspeitar1 que as-trazia estudadas3 desorteque me-vi obrigado1 a variar infinitamente os argumentos3 mas o omem sempre era o mesmo3 e o profluvio de palavras nam tinha limite4 ,notei especialmente duas coizas singulares3 nunca errou verso1 ou na quantidade1 ou no-consoante3 e nam uzava de palavras sem significado1 de que frequentemente uzam os ,poetas2 mas dizia coizas bem ditas1 e de sustancia4 ,mas este grande omem1 querendo-lhe eu dar um mote1 nam se-quiz sugeitar a glozlo4 ,nele fiz algumas reflexoens1 das-que a ,v4 ,p4 aponto4 ,vemos ainda outra coiza pior1 que 1 introduzir os consoantes1 ou rimas1 no-verso ,latino4 ,nos-seculos da-ignorancia1 ouve um ,poeta destes1 que reduzio a metade da-,eneida1 em verso ,latino rimado4 ,acham-se ainda alguns ,imnos ecleziasticos1 feitos no-undecimo1 duodecimo1 e seguinte seculo1 com consoantes e toantes4 vi alguns ,portuguezes1 que gostavam disto4 ,mas tudo efeito de suma ignorancia2 e nam conhecer1 qual a beleza1 e armonia da-lingua ,latina4 ,ingenhos ordinarios1 que nam podem chegar galantaria1 dos-antigos e bons ,poetas2 querem-se singularizar1 com tal estilo3 e por-iso se-devem desprezar4 ,tambem os ,laberintos de letras1 sam mui mimozos em ,portugal3 e ,poeta conhece ,v4,p41 que estimou mais um laberinto que fez1 doque se fizera alguma famoza compozisam4 ,outros tem por-coiza grande1 fazer laberintos de quartetos1 dispostos em certa figura1 de-sorteque se-lem por-todas as partes2 e sempre conservam1 a mesma consonancia4 ,outros fazem versos1 que se-lem para diante1 e paratraz3 de uma parte1 fazem um sentido3 da-outra1 outro contrario3 empregam nisto tempo consideravel1 nam s em fazlo1 mas em decifrlo3 e chamam a isto1 emprego de sublime ingenho4 ,que omens6 ,o simplez nome de laberinto basta1 para desprezar esta sorte de compozisoens3 olhar para eles1 deve confirmar este propozito4 ,decifrado um laberinto de letras1 comumente acha-se o nome de uma pesoa1 e nada mais3 e onde est aqui o ingenho8 ,custa s vezes ao ,poeta1 fazer um laberinto de um quarteto1 um mez2 e como nam pode chegar a encobrir a compozisam1 de modo que outro em um abrir de olhos1 a-nam-decifre2 todo o ingenho do-,poeta1 que lhe-custou um mez1 excede outro1 com um abrir de olhos4 ,os outros laberintos de quartetos c4 nenhum tem conceito3 porque nam podem unir-se duas coizas1 poetar bem1 e poetar em laberinto4 ,e asim com muito trabalho consegue o ,poeta1 que os outros conhesam2 que ele nam sabe fazer1 versos bons4 ,igualmente estimada neste paiz1 uma especie de ,sonetos1 em que se-repete a mesma palavra1 em todos os versos3 que o mesmo que a galantaria1 dos-consoantes forsados4 ,porque obrigado o ,poeta1 a introduzir a dita palavra em cada verso1 nam pode ideiar livremente2 nem unir um verso com outro2 nem sair com alguma compozisam1 que seja digna4 ,podia citar mil exemplos3 mas nam queira ,v4 ,p4 nenhum melhor2 que o ,soneto que se-atribue ao ,chagas1 e comesa3 ,o tempo ja de si me-pede conta4 ,em todos os versos entra1 a palavra tempo3 que uma embrulhada terrivel3 e o conceito do-fim consiste nisto3 ,e que se-chega o tempo de dar conta4 que em carne o mesmo primeiro verso4 ,e onde acha ,v4 ,p4 a galantaria8 o mesmo digo dos-outros4 ,e tudo isto provm1 de que tais ,poetas intendem1 que o-fazer um ,soneto segundo as leis comuas1 coiza ridicula3 e asim querem1 esquipasam particular4 ,se os omens considerarem1 que coiza era a ,poezia3 se tivesem bem intendido1 os principios dela3 se quizesem decifrar1 em que consiste a beleza e armonia1 que nos-eleva1 quando ouvimos um bom poema3 nam podiam menos1 que desprezar todas estas compozisoens2 que sam indignas1 at dos-proprios rapazes4 ,s os que nam sabem1 que coiza ingenho1 se-aplicam a estas ridicularias4 ,dezesperando de chegar1 magestade dos-antigos compozitores2 nam achram outro meio de serem atendidos1 que fazendo ridicularias4 ,sucedeo-lhe o mesmo1 que aos ,godos1 com a ,architetura3 nam tendo sido instruidos nas boas artes1 como foram os ,gregos1 e ,romanos2 e nam podendo chegar1 nobre simplicidade da-antiga ,architetura3 ornram as suas fabricas1 de tudo o que lhe-ofereceo1 a sua mal regulada imaginasam4 ,desorteque os omens1 que no-seculo prezente observam1 os monumentos que nos-ficram1 destes barbaros2 nam cesam de admirar1 a pouca proporsam que se-descobre1 em todas as suas fabricas3 e o mao gosto que aparece1 em todos os seus ornamentos4 ,muitos deles viviam em ,roma3 tinham debaixo dos-olhos1 as famozas fabricas dos-,romanos3 e desprezando tudo isto1 produziam monstruozidades4 ,asim sam os autores destas ,poezias3 tem os bons livros3 podiam neles observar1 o que devem3 e desprezam tudo isto1 para seguirem fantasticas imaginasoens4 ,onde dise com galantaria1 um autor moderno2 que se a gloria de belo ingenho1 se-consegura somente1 com o trabalho que empregam1 naquelas ridicularias2 ele nam queria ser belo ingenho3 pois era melhor1 ser forsado da-gal1 que conseguilo com tanto custo4 ,e eu acrecento1 que se estivese na minha mam1 condenaria estes tais ,poetas1 a pasarem a sua vida fazendo ,acrosticos1 ,anagramas1 ,laberintos2 retirados do-comercio dos-omens2 e felicitar-se com os seus inventos4 ,tenho ainda outra coiza que advertir1 que tambem efeito1 de mao ingenho2 e sam aqueles ditos1 que chamam agudos1 e jogos de palavras2 que se-acham frequentemente nos-,prozadores1 e frequentisimamente nos-,poetas4 ,ver ,v4 ,p4 pesoas1 que cuidam dizer grasas1 e coizas ingenhozas2 e dizem insipidas ridicularias4 ,outros1 servem-se de uma palavra com um c1 que posta com um l1 significa coiza diferente3 e daqui formam uma caraminhola1 a que chamam ingenho2 e ficam mui satisfeitos1 da-sua agudeza4 ,o pior est1 em que omens que escrevram1 sobre a agudeza2 e quizeram ensinar isto1 aos leitores4 ,li anos um livrinho pequeno1 de um ,espanhol1 que cuido era ,gracian2 e se-intitulava ,tratado de la ,agudea3 lembro-me que o autor no-prologo1 dezejava ao livro a boa fortuna1 de cair em maons1 de quem o-intendse4 ,polos meus pecados eu fui um1 dos-que nam se-cansram em intendlo3 porque logo intendi1 que o livro nam merecia que se-lese4 ,querer ensinar a dizer grasas1 e agudezas2 o mesmo que querer ensinar1 a mudar a natureza3 quem nam proprio para estas coizas1 nam as-pode aprender4 ,as grasas1 pola maior parte1 tem beleza respetiva3 em boca de uns1 tem grasa2 na dos-outros1 nam3 a agudeza quando nam pura1 o mesmo4 ,pola maior parte1 as que pasam com este nome1 nam meresem este titulo3 sam meros jogos de palavras1 que agradam infinitamente aos ignorantes4 ,neste particular a verdadeira regra esta3 ,se o conceito traduzido em outra lingua1 conserva a mesma forsa2 pode-se chamar pensamento ou agudo1 ou ingenhozo1 segundo as circunstancias3 se a-perde1 pronuncie ,v4 ,p4 livremente1 que uma ridicularia3 e que s pode ter lugar1 entre gente que gosta daquilo4 ,acham-se1 verdade1 nos-,antigos muitas1 e mui insulsas4 ,aristoteles na sua ,retorica aponta algumas1 a que chama ,paragramas4 ,cicero no livro #b4 de ,oratore1 tratando das-facecias do-,orador1 indica outras muitas3 e ele mesmo em varias partes das-suas obras1 serve-se delas3 porque este era o seu defeito1 ser mui faceto3 e com as suas facecias aquistava1 perigozos inimigos4 ,mas devo dizer1 em obzequio da-verdade1 que as que ele aponta1 quazi todas sam frioleiras1 e ridicularias2 que nam merecem nome1 de pensamento ingenhozo3 e se ,v4 ,p4 me-nam-cre1 leia o dito livro1 e achar que lhe-digo a verdade4 ,estas venialidades em que caram estes grandes omens1 sam recompensadas com infinitas boas qualidades1 que neles vemos3 e sam tambem desculpaveis1 por-outro principio2 que a falta de ,critica1 que tiveram os ,antigos4 ,aqueles ingenhos elevados dos-primeiros autores1 nam faziam todas as reflexoens necesarias1 para procederem com exasam3 polo contrario1 os que os-seguram1 aindaque inferiores na grandeza de ingenho1 excedem no-metodo1 e na critica3 e souberam evitar1 os defeitos dos-primeiros4 ,omero grande1 natural1 tem pensamentos elevadisimos1 e excede nisto a ,virgilio3 contudo este1 que escreveo despois1 aindaque tenha menos natureza1 mostra mais arte que ,omero3 pois soube evitar um defeito1 que frequentemente se-acha em ,omero1 que 1 amontoar superfluos epitetos1 e s vezes insulsos3 como tambem as digresoens1 e coloquios insipidos1 sem necesidade alguma4 ,cicero no-seu livro de ,claris ,oratoribus1 em que censura1 tudo o que ouve de bom na ,antiguidade2 traz belisimas reflexoens1 sobre os defeitos de alguns ,oradores3 e bem procurou nas suas obras1 fugir dos-tais defeitos4 ,contudo ,quintiliano1 que floreceo um seculo e meio despois1 aindaque muitos furos abaixo1 do-merecimento de ,cicero2 advertio coizas1 que a ,cicero tinham fugido4 ,a verdade 1 que os escritores que escrevram1 despois dos-primeiros2 refletindo sobre as primeiras obras1 examinram melhor1 que coiza era bom ingenho2 e deram regras1 que os primeiros ignoravam4 ,quintiliano um destes3 mas sobre todos ,dionizio ,longino1 que floreceo no-meio do-#c4 seculo cristam4 ,este omem1 que alem de ,filozofo1 e ,retorico1 era um perfeitisimo ,critico2 ensinou no-tratado1 que nos-deixou de ,sublimi stilo1 como se-devia julgar nestas materias3 e que coiza se-devia chamar ,ingenho3 e todo o mundo douto1 concordou com ele4 ,a ignorancia1 que pouco despois se-introduzio no-,imperio2 fez com que se-esquecesem1 deste metodo de julgar3 o qual se restableceo nos-fins do-seculo ,,xvi4 mas principalmente no-pasado1 e no-prezente2 em que as coizas se-estimam1 nam polo que parecem1 mas polo que sam4 ,mas como nem todos tem juizo1 para intenderem as coizas2 daqui nace1 que neste mesmo seculo ,,xvii4 e ainda prezente1 se-acham pesoas1 que confundem as ditas coizas3 e que1 se acazo chegam a ler os ,antigos1 nam sabem advertir1 o que neles se-deve imitar1 ou desprezar3 e por-iso chamam pensamentos ingenhozos a coizas1 que estam mui longe diso3 o que frequentisimamente se-incontra1 neste ,reino4 ,um destes ,poetas1 observando as desprezantes maneiras de olhar1 da-sua ,dama2 e convencido no-mesmo tempo1 da-eficacia que os seus olhos tinham1 para inspirar-lhe amor2 os-considera como espelhos ustorios1 feitos de caramelo3 mas podendo ele viver1 nos-maiores ardores que o-abrazavam2 conclue1 que a zona torrida abitavel4 ,quando a sua ,dama tem lido a carta1 que lhe-escreveo1 com sumo de limam1 posta ao calor do-fogo2 lhe-pede1 que a-torne a ler1 luz das-chamas de amor4 ,quando ela chora1 dezeja que um suave calor1 excitado polo amor1 fasa destilar aquelas lagrimas1 pasadas polo alambique do-seu corasam4 ,quando ela est auzente1 acha-se alem do-oitentezimo grao de latitude2 quero dizer1 quarenta graos mais vizinho do-,polo1 doque quando se-acha com ela4 ,o seu amor ambiciozo um fogo1 que sobe naturalmente para sima3 o seu amor afortunado1 parece-se com os raios do-,sol3 e o seu amor dezafortunado1 asemelha-se s chamas do-inferno4 ,quando o amor lhe-tira o sono1 uma chama1 de que nam saie fumo3 e quando a prudencia o combate1 um fogo asoprado polo vento4 ,o seu corasam um ,etna1 que em vez da-oficina de ,vulcano1 oculta aquela de ,cupido4 s vezes1 o corasam do-,poeta acha-se nevado1 no-peito de todas as belas3 outras vezes asado1 na vizinhansa dos-seus olhos4 ,umas vezes1 afoga-se dentro das-lagrimas2 e no-mesmo tempo arde1 entre os brasos de amor3 semelhante a estes foguetes de nova invensam1 que ardem1 e estoiram debaixo da-agua4 ,em todo este discurso v ,v4 ,p4 que o ,poeta supoem1 que o amor verdadeiro fogo de cozinha2 e que une estas duas ideias1 fogo1 e amor2 para delas deduzir1 todos os seus conceitos2 a que ele chama sutis1 e ingenhozos4 ,isto agrada ao comum dos-omens1 namobstanteque seja uma fantazia impropria1 e estravagante4 ,porem ja eu lhe-perdora este ingenho mixto2 se uzasem dele com moderasam3 o que nam poso sofrer 1 que sem prudencia o-introduzam por-tudo3 e nos-queiram persuadir1 que grande ingenho1 chamar a uma coiza com diverso nome3 e que a dita coiza tal1 como a-pintam4 ,acho tambem mui radicado nestes paizes1 7aindaque tambem em alguns estrangeiros7 aquilo de servir-se sem reflexam1 das-divindades dos-,pagaons1 em toda a sorte de poemas1 ,sagrados1 e ,profanos3 e cuidam muitos1 que fazendo ao principio a solita protesta1 de que os-nomeiam no-estilo poetico2 tem feito a sua obrigasam4 ,pode-ser que a-tenham com a religiam3 mas certamente nam a-tem1 com os bons ,poetas4 ,com grasa dise um omem douto1 que toda a ciencia de muitos modernos ,poetas1 nam pasava1 das-,metamorfozes de ,ovidio4 ,a verdade 1 que os ,poetas modernos1 sam prodigos desta mitologia4 ,se louvam uma molher formoza1 ocupam-se mais em descrever ,elena1 ou ,venus2 ,leda1 ou ,europa2 doque a dita beleza4 ,se elogiam um eroe1 entra logo ,mavorte1 e ,alcides2 e pola maior parte nam saiem daqu4 ,mas isto sem duvida ridicularia4 ,em um poema burlesco1 tem grasa a dita mitologia1 porque s se-trata de divertir1 com a aplicasam3 mas em um poema serio1 fantazia condenavel4 ,que o-fizesem os ,etnicos1 tinham desculpa na sua cegueira3 mas que o-fasa um ,catolico1 em cuja religiam nada significam1 tais nomes3 que introduza ,d4 ,joam de ,castro1 como grande amigo de ,marte2 e establesa boa conrespondencia1 entre ,belona1 e ,diniz de ,melo2 um erro que nam se-pode perdoar a um ,poeta1 que pasa de #ae4 anos4 ,os que nam sabem engrandecer1 as verdadeiras virtudes2 que recorrem s fabulas1 para ornamento do-seu poema4 ,nunca pude sofrer um ,poeta1 no-principio de um poema moderno1 invocar as ,muzas1 e ,apolo2 para lhe-inspirarem os pensamentos3 mandar ,mercurio1 com algum despacho de importancia3 obrigar ,minerva1 a que tome a figura1 de algum conselheiro3 chamar do-,inferno ,plutam1 para excitar discordias1 entre algumas pesoas3 nam permetir tempestades1 semque ,venus v pedir a ,eolo1 que fasa das-suas3 nam consentir perda de batalha1 semque o ,destino atire alguma1 das-suas solitas pedradas4 ,isto uma afetasam1 digna de compaixam4 ,ns temos na nosa religiam coizas1 que podem suprir1 a todas as ideias dos-,antigos4 ,temos ,deus1 temos ,anjos1 temos ,santos1 que nos-podem inspirar o bem3 e temos ,diabos1 para inspirar o mal4 ,o ,poeta mostraria mais ingenho1 se ele fizese os seus versos2 doque pedindo a ,apolo1 que lhos-inspire4 ,um furiozo vento excitado polo ,diabo1 pode fazer o mesmo espalhafato1 em uma armada2 que ,eolo1 com todas as suas ,furias4 ,para dar razam de uma batalha perdida1 mais natural e verdadeiro1 recorrer polvora1 balas1 e prudencia do-,general2 doque ao ,destino1 ou ,fado1 que sam palavras sem significado4 ,o ,diabo nam menos prejudicial1 paz e quietasam dos-,omens1 que pode ser ,plutam1 com ,cloto1 e as suas companheiras4 ,quem dece ao ,inferno1 para tirar de l ,lachesis1 e outras destas ,furias2 nam lhe-era mais barato1 tirar um diabrete1 para concluir tudo aquilo8 ,os ,gregos nam se-servram das-divindades dos-,ebreos1 ou ,sirios1 para explicarem as suas coizas2 mas daquelas que estavam establecidas1 no-seu paz3 ,e porque avemos ns servir-nos das-,gregas1 tendo outras melhores8 ,o que suposto1 merecem rizo os ,poetas1 que se-ocupam com estas ridicularias3 porque ou querem significar com aqueles nomes1 alguma coiza2 e isto sacrificar o seu catechismo1 mitologia dos-,antigos3 ou nam significam coiza alguma2 e novamente merecem rizo1 por-falarem em coizas1 que nam pode aver3 e perder a verosimilidade do-poema1 servindo-se de coizas1 e vozes1 que ninguem pode intender4 ,que o ,poeta em uma metafora1 em uma semelhansa1 ou em alguma breve aluzam1 tocse algum destes pontos2 podersea alguma vez perdoar3 mas introduzilos em todo o corpo do-poema1 como faz o ,camoens na ,luziada1 que introduz ,venus1 e ,baco por-toda a parte1 sem descrisam alguma2 ou tambem o ,chagas1 e o comum deste ,reino2 isto mostrar2 que nam tem juizo ou dicernimento1 na aplicasam dos-ornamentos poeticos4 ,e muito de admirar1 que os que sabem tambem descrever ,venus1 e ,baco2 nam saibam descrever1 um omem seu contemporaneo1 sem recorrer ,antiguidade4 ,pode-se porem sofrer1 que o ,poeta fale com as coizas inanimadas1 como com pesoas3 v4 g4 com os ,ceos1 ,terra1 ,elementos1 ,morte c4 e fasa outras destas figuras de ,retorica3 isto nam ofende nem a religiam1 nem a boa razam3 aquilo1 ofende ambas as coizas4 ,estes defeitos nos-,poetas sucedem1 porque lhe-faltam os dois principais requizitos1 ,criterio1 e ,retorica4 ,chamo ,criterio1 a uma boa ,logica natural1 exercitada na lisam de bons autores3 ,retorica ja se-sabe1 que a arte de persuadir1 sem a qual nam se-pode ser bom ,poeta3 a qual supoem ,juizo1 e ,criterio4 ,a simplez propozisam destes dois requizitos basta1 para atarantar estes ,poetas ordinarios3 os quais se-rim de todo o corasam1 quando ouvem dizer1 que sem ter singular ,retorica1 nam se-pode ser bom ,poeta2 ou ao menos intender1 o artificio da-,poezia4 ,estes ingenhos das-duzias1 pram na superficie das-coizas4 ,julgam que ,retorica1 falar em proza2 ,poezia1 falar em verso4 ,mas os omens que intendem a arte1 rim-se ainda mais1 da-sua ignorancia4 ,cuido que facilmente persuadirei a ,v4,p4 o que digo1 se lhe-puzer diante dos-olhos1 que coiza ,poezia2 e isto a que chamamos1 arte ,poetica4 ,a ,poezia uma viva descrisam das-coizas1 que nela se-tratam3 outros lhe-chamam pintura que fala1 e imita o mesmo que faria a natureza1 e com que agrada aos omens4 ,o artificio da-,poezia tem por-fim1 agradar3 e por-iso s se-emprega em dar regras1 com que posa ocupar gostozamente um ingenho4 ,a isto consagram os ,poetas1 todo o seu ingenho1 e juizo4 ,se buscam argumento elevado1 para agradar1 com a ideia de grandeza3 se procuram imitar a verdade1 para agradar1 com a galantaria da-imitasam3 se nam dizem coizas contrarias s nosas inclinasoens1 isto mesmo para agradar3 se propoem movimentos apaixonados1 com que pintam ao vivo1 diferentes afetos da-alma2 tambem iso para agradar3 desorteque este o idolo1 do-artificio poetico4 ,e como isto nam se-pode conseguir1 sem saber procurar pensamentos1 ou argumentos proprios1 para mover as nosas paixoens3 saber servir-se de palavras proprias1 para pintar aquela coiza que se-quer2 o que encerra as ,figuras da-voz1 e do-animo3 ,fica bem claro1 que para fazer tudo1 o que pede a arte1 se-requer boa ,retorica4 ,mas esta razam se-intender melhor1 se-observarmos as diferentes especies1 de ,poezia4 ,todo o ,poema se-divide em ,dramatico1 e ,narrativo4 ,compreende o ,dramatico1 a ,comedia1 ,tragedia1 e tudo o mais em que os que entram no-poema2 reprezentam com a viva asm1 tudo o que se-diz3 o ,narrativo compreende1 todas as mais especies de poemas1 em que se-faz discurso1 sem asm viva4 ,estas sam infinitas2 mas ainda se-reduzem1 a duas principais especies3 uma1 compreende as poezias1 que se-cantam3 outra1 aquelas que se-lem4 ,na primeira1 entram as ,odes1 ,imnos1 e todas as especies de cantigas3 na segunda1 entram todas as outras compozisoens3 que ainda se-dividem em trez1 ,doutrinais1 ,istoricas1 e ,oratorias4 ,nestes trez generos se-tem composto1 famozisimos poemas4 v4g4 ,o poema de ,lucrecio1 um tratado em que expoem1 a ,fizica de ,epicuro3 os ,fenomenos de ,arato1 que ,cicero traduzio em ,latim1 sam um tratado de ,astronomia2 o mesmo digo do-,poeta ,manilio3 as ,georgicas de ,virgilio1 sam um tratado de ,re rustica3 os ,fastos de ,ovidio1 sam a istoria das-antiguidades ,romanas3 e o poema de ,lucano1 uma istoria das-guerras civis4 ,o que suposto1 quem pode negar1 que um tratado de ,doutrina1 ou de ,istoria1 pede uma exata noticia de ,retorica8 ,e com efeito para escrever semelhantes tratados em verso1 nam dezejam os mestres outra erudisam2 senam a que necesaria1 para escrever em proza2 tirando alguma expresam metrica4 ,pasando ao #c4o genero1 tudo o que os ,oradores fazem1 no-genero demonstrativo2 que compreende os louvores1 e vituperios1 de uma determinada pesoa1 ou asm2 fazem tambem os ,poetas4 ,os ,epitalamios sam louvores1 que se-dam a uma pesoa1 no-dia do-matrimonio3 os ,epicedios sam louvores1 despois de morto3 as ,apoteoses sam quando se-louvam desorte1 que se-finge colocrem-se1 entre os ,deuzes3 e tudo isto em carne1 um panegirico4 ,as ,satiras sam repreensam do-vicio2 e tambem pertencem ao genero demonstrativo4 as mesmas cartas se-escrevram antigamente1 em verso3 de que nos-deixou bons exemplos1 ,ovidio c4 ,nam ignora ,v4 ,p4 que a estes trez generos se-reduzem1 todas as compozisoens1 nam s ,latinas1 mas ,vulgares4 ,fazem-se ,sonetos1 ,silvas1 ,quintilhas1 ,elegias c4 em louvor1 e vituperio3 escrevem-se ,cartas em ,silvas1 ,decimas1 ,tercetos1 ,quartetos1 ,romances c4 finalmente todos os discursos de proza1 se-podem reduzir em verso4 ,e asim a mesma ,retorica que necesaria1 para regular os nosos discursos1 na proza2 o- tambem1 no-poema4 ,onde vem1 que a ,poezia1 uma ,retorica mais florida3 e a quem falta esta1 nam pode ser bom ,poeta4 ,como posivel1 que o ,poeta exprima na ,elegia1 a sua paixam1 desorteque mova2 se ele nam sabe1 a arte de mover8 como pode nos-dialogos expremir1 o que cadaum quer1 e deve dizer2 se ele nam sabe o que deve1 e como o-deve dizer8 ,torno s ,comedias1 e ,tragedias1 e delas progunto o mesmo3 ,como pode o ,poeta fazer1 que cadaum dos-reprezentantes exprima1 a paixam de que est posuido2 se ele nam sabe1 que coiza paixam1 nem como se-move8 nam pode ser que um omem1 que ignore isto1 fasa uma ,comedia boa4 ,tambem a ,tragedia nam consiste somente1 em inventar um argumento nobre3 em saber embrulhar uma quantidade de sucesos1 que cauzem maravilha1 quando se dezintrigam3 mas sobre tudo necesaria a propriedade1 e carater1 em cada parte2 para mover o animo3 o que pede1 particular ,retorica4 ,quanto ao poema ,epico1 certo que compreende1 todas as outras especies de poemas narrativos3 e nele se-pode empregar1 tudo o que de fino na ,retorica4 ,o principal asumto dele 1 um panegirico4 ,nele se-acham arengas famozas3 algumas sam deliberativas1 outras judiciais4 acham-se acuzasoens c4 acha-se a istoria do-eroe4 acham-se muitos conceitos de doutrina1 e outra erudisam4 entram nele cartas1 epigramas1 dialogos3 e finalmente tudo o que melhor1 na ,poezia4 ,motivo porque se-dise1 que era a coiza mais dificultoza1 da-arte ,poetica4 ,onde1 compreendendo todas as outras especies de ,poezia1 se cada uma delas pede ,retorica1 que far o poema pico8 ,daqui fica claro1 que conceito se-deve formar1 destes vulgares ,poetas1 que ,v4 ,p4 incontrar todos os dias4 ,eles nam sabem1 que coiza ,retorica1 e bom gosto em materia nenhuma2 como lhe-mostrei na minha ultima carta3 e asim que coiza boa podem fazer1 na ,poezia8 ,se fazem alguma coiza menos m1 porque cazualmente sucedeo2 ou asim o-lram em em algum livro1 d' onde o-roubram3 mas ignoram a razam1 porque asim se-faz4 ,e isto nam ser ,poeta1 nem para la vai4 ,e nam cuide ,v4 ,p4 que falo por-conjetura3 mas com experiencias mui certas3 e ja me-sucedeo pedir a um mestre1 que explicava um paso de ,virgilio a um dicipulo2 que me-explicse a mim1 porque se servra o ,poeta daquelas expresoens3 e nam s nam mo-explicou1 mas nem menos me-intendeo4 ,desorteque incontrando-se todos os dias1 tantos ,poetas2 nam coiza mais rara1 que um ,poeta4 ,e com efeito o segredo particular da-,poezia1 principalmente ,eroica1 nam o-pode conhecer1 senam quem bom ,retorico4 ,consiste ele1 segundo dizem os mestres da-arte1 em saber propor desorte1 o argumento que se-escolheo2 que s aparesa1 o que tem de extraordinario1 e nenhum defeito3 e em saber inspirar ao leitor1 curiozidade de ler todo o poema3 nam declarando tudo logo1 mas confuzamente3 fazendo nacer uma dificuldade da-outra1 paraque se-esporeie o dezejo3 dilatando a leitura1 e enchendo a istoria1 por-meio dos-,epizodios2 paraque o leitor nam perca de mira1 o seu principal argumento3 e finalmente nam dezatando o n da-dificuldade1 senam quando tem conduzido o leitor1 ao fim do-poema4 ,tudo isto pode ,v4 ,p4 observar1 na ,eneida de ,virgilio1 ou na ,jeruzalem do-,tasso4 ,eles propoem ao principio em breve1 o argumento da-sua obra2 e prometem coizas grandes4 ,nam comesam polo principio da-vida do-eroe2 mas por-uma asm famoza1 que empreendeo no-meio da-sua vida3 da-qual com artificio particular1 fazem recuar o leitor1 at os primeiros trabalhos do-seu eroe4 ,uma dificuldade excita outra3 demaneiraque o leitor nunca se-cansa1 na leitura4 ,e que outra coiza fazem os ,retoricos1 quando querem excitar1 a atensam dos-seus ouvintes8 ,ja eu dise a ,v4 ,p4 que ese era o principal artificio1 das-,orasoens de ,cicero1 e ainda de muitos ,oradores da-,antiguidade4 donde concluo1 que s um bom ,retorico o-pode fazer4 ,alem diso os ,retoricos encomendam muito1 que o ,orador nam diga1 senam coizas verosimeis3 porque com falsidades manifestas1 ninguem se-eleva4 ,e isto mesmo dizem1 todos os bons ,poetas3 antes nada mais cuidam1 que representar verosimel1 tudo o que propoem4 ,desorteque quanto mais se examina a ,poezia1 tanto mais claramente se-reconhece1 a ,retorica4 ,e esta a razam2 porque vemos todos os dias1 que muitos1 querendo ser ,poetas1 sam uns ridiculos3 porque lhe-falta o principal fundamento2 que 1 saber pezar as coizas1 e dar a cada uma o seu preso4 observando aquilo1 a que os ,latinos chamam1 decorum3 que consiste no-introduzir cada um1 a falar segundo o seu carater4 ,todos os defeitos apontados1 sam esenciais1 e frequentes3 mas este ultimo da-inverosimilidade1 mais geral1 doque se-nam-intende4 ,acham-se poucos ,poetas1 que nam pequem contra isto3 pecam no-,drama1 e pecam no-,epico3 aindaque neste menos2 porque sam rarisimos os que compoem1 poemas ,epicos4 ,mas em toda a outra sorte de poema ,narrativo1 sam mui frequentes em ,portugal4 ,nas ,comedias pouco caiem os ,portuguezes1 porque nam se-aplicam a elas3 raras vi1 fra das-de ,camoens3 mas os ,espanhoes caiem muito nisto4 ,ver ,v4 ,p4 um pastor1 que fala com mais filozofia e prudencia1 que um ,cipiam ,nasica1 ou ,catam ,uticense4 ,acham-se relasoens1 com encarecimentos tam despropozitados1 que nam merecem outro nome1 que uma enfiada de manifestas mentiras4 ,algumas vezes1 um omem vulgar faz uma ,decima1 ou ,oitava derepente3 outras vezes1 d melhores conselhos1 que um consumado ,jurisconsulto4 ,finalmente em tudo se-ve pintada1 a inverosimilidade4 ,nam digo eu s ,calderon1 mas o mesmo ,d4 ,antonio de ,solis2 que em outras coizas mostrou mais juizo1 que ,calderon2 nesta o-perde4 ,e finalmente todos os ,espanhoes sam o mesmo3 porque tropesam a cada paso na sutileza1 que impropria na boca1 de semelhantes pesoas3 e tambem impropria da-,comedia3 que nada mais 1 que uma imagem da-vida1 proposta aos olhos dos-omens1 para repreender as asoens ridiculas dos-mesmos4 ,dos-,espanhoes o-aprendram os ,portuguezes3 e comumente se-persuadem1 que quem sutiliza melhor1 e diz coizas menos verosimeis1 melhor ,poeta4 ,metaforas mui fra de propozito1 encarecimentos inauditos1 sam os seus mimozos4 ,ouvi gavar muito um ,soneto do-,chagas1 feito a um cavalo do-,conde de ,sabugal1 pola metafora da-,muzica1 e comesa asim3 ,galhardo bruto1 teu acorde alento ,muzica nova1 com que aos olhos cantas3 ,pois na armonia de cadencias tantas1 clave o freio2 solfa o movimento4 ,mas eu considerando o tal ,epigrama acho1 que uma completa parvoise1 desde-a primeira palavra1 at a ultima4 ,nam acho nele1 conceito algum3 as palavras sam improprias3 e muitas nam tem significasam certa3 e nam conclue com pensamento que eleve1 que a obrigasam do-,epigrama4 ,nam sei como o dito ,poeta nam fez outro1 a um burro de ,valada1 ou macho de ,almagro2 pola metafora da-,logica1 ou ,geometria4 ,podia descobrir na seriedade destes animais1 semelhansas de um omem que filozfa3 no-seu paso grave1 o fundado do-juizo3 tambem nas suas orelhas1 semelhansas de uma sesam conica3 no-corpo1 vestigios de um paralelogramo3 no-movimento1 a ideia de varias linhas3 e nas unhas1 uma porsam de circulo3 com outras ridicularias destas4 ,as metaforas podem ter lugar2 mas nam devem ser estas1 que sam arrastadisimas4 ,isto nam intendem os que o-louvam3 mas isto deviam intender1 os que prezumem ser ,poetas4 ,o outro ponto dos-encarecimentos1 frequentisimo nestes pazes4 ,nam coiza mais comua1 entre estes chamados ,poetas1 doque encarecimentos incriveis2 e servir-se de palavras1 que nam significam nada4 ,e sem sar do-,chagas1 que parece a muitos1 que bom ,poeta2 considere ,v4 ,p41 o que ele diz neste ,soneto1 feito a um p pequeno de uma ,dama4 ,instante de jazmin1 concepto breve1 ,atomo de azuzena presumido2 ,pues os juzgam las ancias del sentido1 ,sospecha de cristal1 susto de nieve4 ,n pie1 mentira sois3 pues como aleve1 ,ni verdad en un punto aveis cumplido4 ,antes creo que escrupulo aveis sido3 ,pues de ser1 o n ser1 la duda os mueve4 ,como1 si idea sois de ojos tan claros1 ,hazeis los ojos f para creeros1 ,y hazeis la vista f para miraros8 ,yo me resuelvo en fin que he de perderos4 ,pues si el veros es solo imaginaros2 ,siendo imaginacion1 como he de veros8 ,este ,soneto tem tido mil aplauzos3 e ja achei quem me-disese1 que era onde podia chegar1 o ingenho umano4 ,contudo iso eu defendo1 que os que o-louvam1 proguntados polas palavras do-,soneto2 m-de confesar1 que o-nam-intendem4 ,primeiramente estas palavras1 instante de jazmin1 concepto breve1 atomo presumido1 sospecha de cristal1 susto de nieve1 ancias del sentido3 sam frazes que nada significam3 e nam s em ,portuguez1 mas em nenhuma lingua4 ,dezafio todos estes poetas ,portuguezes1 paraque me-digam1 se ouvisem um omem falar em proza daquela sorte1 se o-intenderiam3 pois bem claro1 que o que nada significa em proza1 muito menos significa no-verso4 ,e temos1 que o primeiro quarteto nada significa3 porque querendo ele significar1 um p pequeno2 serve-se de termos1 que nam significam iso4 ,na segunda quadra sobe de ponto o encarecimento3 e nam se-contentando de dizer1 que pequeno1 e um ponto2 acrecenta1 que nam tal p no-mundo2 pois somente fica a duvida1 se o-ouve1 ou nam ouve4 ,nos-tercetos desfaz1 quanto tinha dito4 ,primeiro asenta1 que o p se-ve3 despois diz1 que nam asim1 e que somente se-pode saber por-tradisam1 que tal p3 e conclue1 que nam existe senam na imaginasam1 e nam posivel que se-veja4 ,esta a analize do-dito ,soneto4 ,ora diga-me ,v4,p4 polo amor de ,deus1 se intende o que quer dizer1 este ,poeta4 ,primeiramente1 ele nam conseguio o seu fim1 que era mostrar1 que o p da-sua ,dama era pequeno3 provou mais doque queria2 e mostrou1 que nam avia tal p4 ,alem diso nam adverte1 a inverosimilidade do-conceito4 ,nam consiste a beleza de uma figura1 em ter um ponto por-p2 antes isto deformidade3 consiste1 em ter um p proporcionado3 e nas-molheres1 a sua proporsam 1 que o p seja mais pequeno4 ,e eu intendo1 que a ,dama ficaria mais contente1 de ter um p grande2 doque de nam ter ps1 e necesitar de moletas4 ,dirme ,v4 ,p4 que o ,poeta deve fingir1 e inventar alguma coiza1 para louvar3 concedo3 mas nam devem ser semelhantes parvoices1 que em vez de agradar1 fazem nauzea4 ,podem-se dizer muitas coizas daquele p3 mostrar1 que para o complemento da-beleza1 nam proporsam melhor1 que um p pequeno3 que nisto excede ela muito1 todas as mais senhoras3 que a sua brancura1 e delicadeza inimitavel3 que tem toda a grasa que se-pode imaginar1 em semelhante parte do-corpo4 ,isto1 quanto ao serio4 ,pasando ao burlesco1 podem-se dizer mil outras coizas3 e pode o ,poeta inventar1 alguma coiza galante2 com que adorne estes conceitos4 ,asim torno a dizer1 que os que louvam o ,soneto1 sem considerarem isto1 nam o-intendem4 ,se ,v4,p4 examina o motivo1 de todos estes encarecimentos2 achar que provm1 do-que no-principio apontamos4 ,todo o ponto destes ,poetas est1 em singularizar-se1 seja como for3 e asim buscam argumentos esquipaticos1 os quais obrigam a procurar1 conceitos despropozitados4 ,e unido a isto1 que eles sabem pouco1 o que quer dizer elogiar2 daqui vem1 que amontoam conceitos inverosimeis2 e servem-se de expresoens1 que nada significam3 as quais ou por-forsa do-consoante1 ou da-novidade1 agradam aos ignorantes4 ,que o ,poeta disse maos conceitos2 aindaque fose um grande defeito1 era mais toleravel3 mas que1 por-querer dizer coizas peregrinas1 diga parvoices1 e contrariedades2 e fale em uma lingua1 que ninguem intende2 isto sim que se-chama1 grande defeito de ,poezia4 ,conheso1 que os sinonimos sam s vezes necesarios3 que os epitetos dam muita galantaria1 nos-poemas3 mas com algumas condisoens4 #a4o m-de ser coizas1 que signifiquem4 #b4o distribuidos com moderasam4 ,mas estas duas coizas sam1 as que pola maior parte ignoram1 estes ,poetas3 e com tantoque consigam o consoante1 nam reparam1 em tudo o mais4 ,mas sobre todos1 este tal ,frei ,antonio das-,chagas1 caio nisto3 quazi todas as suas obras1 consistem em palavras1 sem conceito1 e sem significado4 ,os ,romances sam menos maos3 tambem o ,saco da-,jeruzalem ,celeste1 aindaque cheio de aluzoens mui destemperadas1 pode pasar3 os ,sonetos quazi todos sam peste3 e o mesmo digo da-,filis1 que muitos louvam1 porque a-nam-intendem4 ,sei que se ,v4 ,p4 ler isto ao ,p4 99 99 99 me-ter por-um ,cafre1 que nam intende1 que coiza ,poezia3 mas eu nam falo sem prova3 e quando ele me-souber responder1 entam lhe-darei razam4 ,basta que ,v4 ,p4 leia os titulos1 de muitos ,sonetos2 para conhecer o que digo4 ,quando eu leio estas inscrisoens3,achando na beleza de ,filis1 razam para deixlaaos olhos de ,filis com nevoasfineza de nam amar a ,filisfazendo merito da-ouzadiaduvidas de declarar-sefazendo razam do-atrevimentoconfuzam do-seu amorsaindo ,filis de noite ao campo3 e outros asumtos semelhantes2 ja sei1 que as compozisoens sam parvoises3 e com efeito compare ,v4 ,p4 os do-,chagas1 com estes titulos2 e veja se concordam1 e se os-intende4 ,o mesmo lhe-digo do-,pina1 e outros semelhantes4 ,persuada-se ,v4 ,p4 que um asumto mao1 -de produzir ms obras3 porque se um argumento fecundo1 tratado por-um omem que sabe1 s vezes nam saie bem2 que far um infecundo1 principalmente tratado1 por-quem nam sabe elogiar8 necesario ter muito ingenho1 e juizo1 para saber tratar bem1 semelhantes argumentos4 ,e porque muitos nam tem1 estas duas circunstancias2 por-iso nacem estas compozisoens1 de que ns nos-rimos4 ,mas pasemos dos-,sonetos1 ao poema ,epico1 famoza ,filis do-dito ,chagas2 e ver ,v4 ,p4 que nada mais 1 que uma enfiada de antitezes1 que nada significam3 e que s agradam a estes1 que se divertem com consoantes ,gregos1 sem intenderem o que lhe-agrada4 ,tudo isto se-ve1 no-principio do-poema3 ousa ,v4,p4 a primeira ,oitava4 ,yo que en la flor de mis primeros aos ,cant de ,amor1 las dulces tiranias2 ,y en los echizos de agradables daos ,menti las horas1 y enga los dias3 ,aora en numerosos desengaos1 ,si llanto son las consonancias mias2 ,de la beldad que fue de ,grecia espanto1 ,lloro el amor1 y la tragedia canto4 ,nesta oitava acham-se mil coizas galantes3 dulces tiraniasagradables daosmenti las horas e outras coizas destas1 que jogam os murros4 ,especialmente considero1 a estrutura da-,oitava4 ,na primeira quadra diz isto3 ,que ele1 que no-principio da-sua idade1 fizera versos amatorios1 e asim pasra os dias3 ,esta parte pedia outra segunda1 em que disse3 ,que agora1 dezinganado daquelas puerilidades1 se-ocupava em fazer1 um poema ,epico1 e serio4 ,asim comesa ,virgilio a sua ,eneide1 e outros ,poetas3 mas isto o que nam diz o noso ,chagas4 ,parece-me1 que na palavra numerosos1 queira significar metricos3 e iso cuido que nam significa1 mas que s significa muitos3 porem isto nam nada4 ,a parentezis,si llanto son las consonancias mias nam tem conexam1 com o que asima dise3 as consonancias1 ou os versos podem ser choro1 e canto2 quero dizer1 alegria4 ,mas nem menos concorda com o que abaixo diz1 o que asima dise3 porque nam boa opozisam esta3 ,tendo at aqui feito versos amatorios2 agora com muitos dezinganos1 7se que os meus versos sam choros7 chro o amor1 e canto a tragedia4 ,a palavra canto na primeira quadra deve significar1 nam quem canta cantigas1 mas quem faz poemas3 e neste sentido a-tomam todos os ,poetas1 e o ,chagas tambem3 pois o que quer dizer isto3 ,que tendo feito muitos versos1 na sua mocidade2 agora se empregava em outros asumtos4 ,o que suposto1 opondo-lhe na segunda quadra1 o choro2 diz uma parvoice3 pois o contrario a poezias amatorias1 cantar coizas graves4 ,onde contrapondo-lhe o choro2 vem a tomar a palavra canto1 como equivoca2 que coiza indigna de um poema ,epico4 ,tambem aquela antiteze ultimalloro el amor1 y la tragedia canto uma puerilidade4 ,bem se-mostra que o ,poeta1 novamente quer introduzir por-equivoca1 a palavra canto4 ,alem diso1 se o argumento da-sua obra1 uma tragedia amatoria2 separando o amor da-tragedia1 diz outra parvoice4 ,pasemos segunda ,oitava4 ,musa que cultamente amaneciste ,candida en las auroras de mi oriente2 ,y al alma tantas vezes me infundiste ,tu divino furor1 tu afecto ardiente3 ,si dignos son de tu concepto triste1 ,numeros tiernos de una voz doliente2 ,mi afecto inflama1 har que en dulce rima ,cante el dolor1 la consonancia gima4 ,tem ,v4 ,p4 nesta ,oitava1 quazi as mesmas incoerencias4 ,musa candida1 eu nam sei o que quer dizer4 ,amaneciste en las auroras de mi oriente1 sam trez sinonimos viciozos3 amanhecer na aurora1 uma parvoice3 aurora do-oriente1 ainda maior parvoice4 ,aquela repetisam,tu afecto ardiente nam tinha lugar despois de furor3 porque a ,muza comunica o seu furor1 ou veia2 quero dizer1 dirige o ,poeta no-canto3 mas nam comunica o seu afeto4 ,concepto triste1 impropriamente se-aplica ,muza3 a qual nam triste3 e muito menos1 quando inspira ,epopeia4 ,finge-se que a ,muza seja uma ,deuza1 toda ocupada em alegrias2 a quem o ,poeta invoca1 paraque lhe-conceda um espirito1 digno do-,parnazo4 ,una voz doliente1 supoem1 que o ,poeta est aflito3 e isto improprio em um ,poeta1 que nam escreve os seus tormentos1 mas os alheios4 ,que outra coiza avia dizer ,demofonte1 se compuzese a sua istoria8 ,o ultimo verso uma antiteze ridicula1 e verdadeiramente coiza de rapaz3 novamente opoem aqui o ,poeta o choro1 ao canto2 sendo coizas1 que no noso cazo nam sam opostas3 porque canto aqui nam significa cantar4 ,o que diz o ,poeta1 se-reduz a isto3 ,que a dor -de cantar1 e a consonancia1 ou o verso -de gemer3 e quem pode ler isto sem rizo8 ,finalmente eu paro aqui3 porque se quizese examinar todas as ,oitavas1 comporia um volume4 ,basta que ,v4 ,p4 o-leia1 e examine1 e achar que todo o livro se-compoem disto2 e de palavras que nam se-intendem2 e epitetos que nam significam nada4 ,confeso1 que ainda nam vi ,poeta1 que escrevendo tanto1 disse tam pouco1 como o ,chagas4 ,estas reflexoens que faso a ,v4 ,p4 sobre o ,chagas1 poso fazer em outras obras2 nam s de autores das-duzias1 mas ainda daqueles que se-acham joeirados1 na ,fenix ,renacida2 e em outras colesoens de poemas4 ,mas escolhi este autor1 porque mui conhecido1 e louvado1 e procurado de muitos3 e asim quiz apontar um1 para exemplo4 ,o que porem digo dele1 deve-se aplicar a todos os outros1 que seguem o mesmo estilo4 ,o ponto est ter bem na cabesa1 as regras da-,poezia2 e examinar sem paixam1 as obras2 que facilmente se-descobrirm1 os defeitos4 ,se ,v4 ,p4 com estes principios1 toma o trabalho de examinar1 muitos dos-seus ,poetas1 ou a maior parte deles2 achar1 que tropesam no-mesmo defeito do-,chagas2 com a unica diferensa de mais1 ou menos3 e ainda muitos dos-que tem bom ingenho2 porque lhe-falta o juizo1 para saberem examinar as materias4 ,a regra que eu observo neste particular1 esta3 quando vejo um ,poeta destes1 que se-serve de expresoens1 que nada significam2 ou que compoem de sorte1 que o-nam-intendem2 asento que nam quiz ser intendido2 e em tal cazo1 procuro fazer-lhe a vontade1 e nam o-leio4 ,com esta sorte de omens faso o mesmo1 que com os laberintos1 e enigmas c4 os quais nunca me-cansei em decifrar4 eles que o-fazem1 que se-divirtam com iso4 ,se todos asentasem neste principio1 veria ,v4 ,p4 como se-mudava a ,poezia nestes pazes3 porque seriam obrigados os ,poetas1 a lerem somente as suas obras3 e asim1 ou se-dezinganariam eles mesmos com o tempo2 ou1 nam inganariam os outros3 e poderseam achar ,poetas1 de algum merecimento3 principalmente se chegasem a conhecer1 quais sam os requizitos necesarios1 para a ,poezia4 ,a razam destes inconvenientes 1 porque se-persuadem comumente1 que para ser ,poeta1 basta saber a medida de quatro versos3 e saber ingenhar conceitos exquizitos4 ,quem se-funda nisto1 nam pode saber nada3 sam necesarias muitas outras noticias4 necesario doutrina1 e intender bem as materias que se-tratam4 necesaria a ,filozofia1 e saber conhecer bem1 as asoens dos-,omens1 as suas paixoens1 o seu carater3 para as-saber imitar1 excitar1 e adormecer4 ,aqui entra novamente a ,retorica1 que supoem todas aquelas coizas3 entra uma pouca de istoria1 para nam dizer parvoices3 entra a istoria da-,fabula c4 ,tudo isto se-mostra manifestamente1 nos-melhores poemas que temos da-,antiguidade4 ,virgilio1 e ,oracio c4 eram omens que intendiam perfeitamente1 o que tratavam3 e sabiam muita coiza1 que introduziam proprisimamente1 nos-seus poemas2 de que se-compoem1 o ornamento deles4 ,o mesmo digo1 de outros ,poetas modernos1 e insignes4 ,onde1 quem nam tem estes fundamentos1 versejador1 mas nam ,poeta3 e necesariamente -de dizer1 muita parvoice4 ,seguia-se despois destas reflexoens gerais1 falar especialmente1 nos-defeitos das-particulares3 mas nem eu tenho tempo para isto1 nem o-permite1 a brevidade de uma carta4 ,onde1 somente direi alguma coiza mais geral1 que compreenda as compozisoens pequenas2 e tambem alguma coiza do-poema ,epico2 vistoque o ,dramatico nam tem uzo1 em ,portugal4 ,digo pois1 que nestes pazes vejo1 mui radicada certa opiniam1 de chamar ,poeta1 a quem o-nam-3 e dar estimasam a poezias1 que a-nam-merecem4 ,uma vez que um omem faz um ,soneto1 com algum conceito2 ou ,decimas1 com alguma naturalidade2 acham-se logo mil admiradores1 que dizem1 ser famozo ,poeta4 ,v4 ,p4 ter ouvido frequentisimamente1 que quando em um ,oitero se-gloza um mote1 com facilidade2 estam promtos mil aplauzos1 para o ,poeta3 eu o-prezenciei muitas vezes3 e esta a comua opiniam4 ,mas na verdade um ingano comum1 porque aquilo nam ser ,poeta1 nem para l vai4 ,semelhantes sortes de compozisoens1 nam dam credito a ninguem3 isto persuade a boa razam1 e a experiencia3 ,quanto experiencia1 progunte ,v4 ,p4 7o que eu ja fiz7 a um destes ,glozadores1 qual o artificio da-,poezia2 e ver que nam sabe de que cor 3 e nam digo s destes das-duzias1 mas ainda dos-que glozam felizmente3 e conseguentemente nam ,poeta4 ,a razam confirma o mesmo3 porque o artificio destas obras nam nenhum3 a sua contextura tam facil1 que por-mao que seja o ,poeta1 sempre acerta com elas4 ,a ,decima1 a ,quintilha1 o ,madrigal1 as ,liras1 a ,silva1 o ,romance lirico1 ,quartetos puros1 e de p quebrado1 ,tercetos c4 nada mais pedem1 que a naturalidade-do-conceito1 e expresam3 quando muito1 algum bocadinho daquele ingenho mixto2 que consiste1 em ter no-fim algum pensamento meigo2 explicado com alguma fraze agradavel1 e delicada1 ou coiza semelhante4 ,isto nam pede talento1 mas somente alguma imaginasam3 a qual nam se-acha omem tam desgrasado1 que a-nam-tenha4 ,onde1 posto isto em trages de ,poezia1 saie uma ,decima1 ou coiza semelhante4 ,nam digo1 que um bom ,poeta1 nam posa fazer estas coizas tam bem2 que agradem aos omens1 de melhor penetrasam3 sendo certo1 que quem tem juizo o-mostra1 ainda nas coizas pequenas2 como fizeram os ,antigos3 o que digo 1 que explicando um pensamento1 polo modo que aponto1 pode qualquer fazer ,decimas c4 que agradem4 ,antes muito de advertir1 que quando estes poemas pequenos se-estudam muito1 e neles querem mostrar muito estudo2 cheiram a ,filozofia1 e perdem toda a grasa4 ,este defeito tenho observado1 em muitos ,espanhoes1 e ,portuguezes2 que se-preparam para fazer uma ,decima1 a uns olhos azuis2 ou a uma ,dama que deixou cair1 uma luva em terra2 ou a um sinal que se-despegou do-rosto2 e outros semelhantes asumtos2 como se ouvesem de cantar a guerra dos-,romanos1 com ,mitridates1 ou com ,cartago4 ,isto um defeito esencial3 e nam saber aplicar o poema1 ao asumto3 sendo certo1 que semelhantes compozisoens s se-inventram1 para asumtos ou burlescos1 ou amatorios2 ou de coizas domesticas1 que nam permitem estudo particular3 e asim todo o merecimento de semelhantes obras consiste1 n'um conceito delicado1 e natural4 ,o ,poeta perde a naturalidade1 todas as vezes que procura1 com grande estudo1 mostrar ingenho3 e nunca dezagrada mais1 que quando procura agradar muito3 porque o conceito a-de aprezentar-se1 e nam procurar-se4 ,por-este motivo sam dignos de rizo certos ,poetas1 e ,poetezas1 que fazem ,romances1 e coizas semelhantes2 com tal estudo1 que nam se-intendem sem comentario4 ,a ,madre ,joana de ,mexico1 uma delas3 tambem ,gongora nos-seus ,romances3 e dos-modernos ,eugenio ,gerardo ,lobo3 que tem alguns1 que1 ainda despois de muito estudo1 nam se-percebem4 ,finalmente isto defeito geral dos-,espanhoes3 e dos-que eu li1 nam achei algum1 que nam pecase nisto4 ,dos-,espanhoes o-recebram os ,portuguezes1 e poucos sam os que se-excetam4 ,o ,chagas nos-seus ,romances1 tirando em certas partes1 dos-mais naturais3 tambem o ,camoens no-lirico4 ,vi tambem neste genero alguma coiza do-,conde de ,tarouca1 morto no-,imperio2 que me-agradou pola naturalidade1 e imaginasam3 e algum outro1 mas raro4 ,dos-oscuros nam cito exemplos1 porque nam coiza mais comua que isto3 e neles poder ,v4 ,p4 reconhecer1 este defeito4 ,o pior 1 que se um omem faz uma ,decima1 ou coiza semelhante1 como deve ser2 nam agrada a esta sorte de ,poetas1 e chamam-lhe coiza trivial3 querem ideia mais superlativa3 e sempre o oscuro1 inverosimel1 arrastado1 lhe-parece que encerra1 melhor doutrina4 ,mas o sal do-negocio consiste1 em mandar isto sua ,dama1 ou a um amigo1 que o-nam-intende3 e ficarem lambendo os beisos1 dos-aplauzos4 ,isto vale o mesmo1 que se lhe-mandasem uma ,ode de ,pindaro1 ou ,anacreonte2 porque umas e outras foram ,gregas4 ,nam crivel1 quanta gente padece esta infermidade3 que para mostrarem ou doutrina1 ou ingenho2 procuram nam serem intendidos1 nam s nas compozisoens1 mas ainda nos-discursos familiares4 ,achei-me em uma ,prosisam de ,freira1 onde vi certo 999999 que sendo dezafiado por-uma ,freira1 despois de falar muito1 lhe-falou nas precizoens objetivas dos-,logicos1 e repetio muito verso ,latino4 ,mas a ,freira nam cedeo3 porque se ele falava ,latim1 ela falava uma lingua1 que ninguem intendia4 ,despois de falar muito tempo1 com um profluvio de palavras incrivel2 juro a ,v4 ,p4 que nam pude perceber1 o que ela queria dizer3 pois aindaque as palavras eram ,portuguezas1 a fraze porem era tal1 que nam se-podia decifrar4 ,esta ,freira tem muitos parentes neste mundo4 ,conclo pois1 que esta sorte de poemas1 que pedem somente naturalidade1 e alguma imaginasam2 a ninguem podem dar nome1 de ,poeta4 ,o ,soneto tambem pertence a esta regra3 mas certo1 que pola qualidade do-verso1 admite mais elevasam de expresoens1 que os outros poemas nomiados4 ,contudo iso defendo1 que o conceito deve ser natural3 deve ter verdadeiro ingenho3 e s na maneira de explicar-se1 que est a galantaria do-,soneto4 ,consiste pois a obrigasam do-,soneto1 em propor na #a4 quadra o asumto3 na #b4 expliclo com algum conceito3 de que se-tire o argumento1 para os tercetos4 ,os ,poetas1 que tem mais cabedal1 expoem o asumto nos-primeiros dois versos3 nos-dois segundos comesam a discorrer4 ,tal o ,soneto feito morte de uma ,senhora1 cuido que polo ,bacelar1 e diz asim3 ,venceo a ,morte1 o ,fabio1 a ,formozura4 ,amarilis a bela cinza fria4 ,procura ,amor fazer1 que o-nam-sabia1 ,e esconde o cazo1 nesta pedra dura c4 ,outras vezes o ,poeta expoem na primeira palavra1 o asumto3 e desta sorte o ,soneto1 que citei a ,v4 ,p4 em outra carta1 feito a uma cara mui feia4 ,mas nem todos os asumtos1 se-podem propor asim2 e podendo1 nem todos os ,poetas sam capazes1 de o-fazerem4 ,porem grande beleza do-,soneto1 que na primeira quadra diga algum conceito2 que d materia a todo o discurso da-segunda2 e encadeie naturalmente com os tercetos4 ,e sem sair do-tal ,soneto1 o-repitirei novamente2 porque me-parece que prova1 o que digo3 ,es feia3 mas desorte1 que orroroza tua vista bela a feialdade3 ,mas tens fortuna tal1 que a enormidade ,te-consegue1 os tributos de formoza4 ,cara tam feia1 coisa tam pasmoza ,todos observam1 e move a raridade4 ,nam desperta o comum a curzidade3 ,ser rara1 que te-adla vaidoza4 ,ama-se o ,belo1 e cega o mesmo afeto4 ,o ,feio1 pois nam liga o pensamento1 ,deixa miudamente ver o objeto4 ,isto faz que se observe ese portento4 ,quanto ests obrigada1 a ese aspeto2 ,se no-enorme te-d merecimento6 ,neste ,soneto1 que em tudo natural1 o conceito dos-dois ultimos versos da-primeira quadra1 prova-se na segunda1 e se-confirma nos-tercetos3 dando materia ao conceito do-fecho1 que nobre e natural1 e diz mais doque soa4 ,mas nem todos seguem este parecer3 e ver ,v4 ,p4 infinitos ,sonetos1 ainda de omens que prezumem ser ,poetas1 que pecam contra tudo isto4 ,eles tem dois extremos3 ou dizem conceitos inverosimeis1 e encarecimentos tam fra do-escolio1 que ninguem os-pode sofrer2 ou dizem frioleiras2 ou finalmente servem-se de conceitos1 que nam fcil intender3 e o melhor da-galhofa est1 em que ornam tudo isto com frazes1 que nam se-percebem4 ,de tudo achar ,v4 ,p4 exemplos1 sem sair do-,chagas3 o qual tem ,sonetos em que se-acham1 estas trez coizas3 inverosimilidades1 oscuridades1 e frialdades4 ,quanto s inverosimilidades1 nam queira ,v4 ,p4 melhor prova1 que o ,soneto ,espanhol1 feito ao p pequeno d'aquela ,senhora c4 mas ainda outros4 ,faz ele alguns ,sonetos1 a que chama ,eroicos1 e entre eles algum ao ,conde da-,torre1 que matou de um golpe um toiro4 ,asumto mui mimozo dos-,portuguezes1 ao qual tenho lido infinitos ,sonetos1 de diferentes autores4 ,intende ,v4 ,p4 que este titulo ,eroico1 promete um pensamento nobre e admiravel8 asim devia ser2 mas nada menos 3 e nestes eroicos entram igualmente as sutilezas1 e impropriedades4 ,se me-nam-d credito1 ousa o primeiro1 que diz asim3 ,tam grande golpe1 o ,conde ilustre1 dstes ,nese amante de ,europa que matastes2 ,que s o estrago1 que ao ferir cauzastes1 ,todos os ,signos atroou celestes4 ,tam veloz1 tam bizarro acometestes2 ,que1 no-impulso menor com que voastes2 ,ao golpe orrendo a morte anticipastes3 ,e por-demais a execusam fizestes4 ,faltou emprego espada1 ao braso forte ,lugar3 onde aparece a desmedida ,forsa1 que enveja ,alcides1 e ,mavorte4 ,e intendo que ambiciozo da-ferida1 ,por-ser o bruto o credito da-morte1 ,cauza vos-deu1 para tirar-lhe a vida4 ,este ,soneto que ,v4 ,p4 aqui v1 mui gavado3 mas examinado ele bem1 parente chegado dos-outros amatorios4 ,na primeira quaderna se-observa a puerilidade1 de chamar ao toiro1 ,amante de ,europa2 somente para dizer1 que se-espantram os mais signos celestes4 ,tomra que me-disse1 se se-espantou tambem o signo de ,libra c4 ,na #b4;a quadra desfaz1 o que dise na primeira3 e afirma1 que o ,conde nam matou o toiro2 mas fez somente a eroica asm1 de dar em um corpo morto3 e o mesmo consuma1 no-primeiro terceto4 ,o que contem o ultimo terceto1 nam se-pode intender3 porque que queira dizer ,credito da-,morte1 eu nam sei3 o que sei 1 que para fazer uma antiteze ridicula1 de morte1 e vida3 compoem dois versos1 que nada significam4 ,parece que queria dizer o ,poeta1 que o bruto1 que era inimigo da-morte1 fora com gosto oferecer-se a ela4 ,mas isto1 alemdeque desmente o que primeiro disera1 que ele nam matra o boi2 nam se-pode explicar1 com o ultimo verso3 porque dar cauza pode alguem1 sem se-oferecer morte4 ,em uma palavra1 isto um conceito ,grego4 ,e disto achar ,v4 ,p4 frequentemente1 no-mesmo autor4 ,os seus conceitos eroicos1 sam tam superlativos1 que eu os-nam-intendo4 ,em outro ,soneto a ,d4 ,joam de ,castro1 sobre o mesmo asumto1 conclue asim3 ,do-valor sorte foi3 mas de tal sorte1 ,que a sorte foi valor1 ,castro bizarro3 ,sem ser azar do-bruto o dar-lhe a morte4 ,antes se-ve1 que com feliz desgarro ,l no carro da-,fama est mais forte1 ,que este que foi de ,europa amante escravo4 ,o consoante ultimo parece devia ser escarro1 e nam escravo3 mas o conceito obriga a dizer1 o contrario4 ,porem isto nada3 o que eu digo a ,v4 ,p4 1 que o que querem dizer estes dois tercetos1 confeso a minha ignorancia1 eu nam sei3 nem at aqui achei1 quem mo-explicse4 ,v4 ,p4 ter o trabalho de o-consultar1 com aquele seu amigo1 que louva tanto este autor3 e notar de caminho1 se1 escrevendo em ,tartaro1 podia ser menos inteligivel4 ,quando estes ,poetas1 querem fugir da-oscuridade1 declinam para outro extremo2 que 1 dizer coizas1 que nam tem grasa alguma1 a que se-chama frioleiras4 ,e tal o fecho de outro ,soneto1 ao mesmo asumto1 e polo mesmo autor3 que eu repetirei todo1 porque se no-fim mais claro1 nam menos galante no-principio4 ,foi1 o ,conde bizarro1 de tal sorte ,a vida dese bruto prezumida2 ,que o ,roxo mar da-mais cruel ferida ,julgava escrito seu alento forte4 ,mas s vs1 raio ilustre de ,mavorte1 ,fizereis1 com puxansa nunca ouvida1 ,que por-onde sair nam pode a vida1 ,soberba intrase arrebatada a morte4 ,emfim caio o bruto3 e parecia1 ,que o tom do-golpe1 que nos-vales dura1 ,em todo o ar exequias lhe-fazia4 ,pois foi tal desa espada a forsa dura1 ,que ainda a terra parece que lhe-abria1 ,com os sobejos do-golpe1 a sepultura4 ,este ,soneto parente do-antecedente4 ,esta fraze vida prezumida1 nam sei o que significa3 muito menos intendo1 os dois ultimos versos da-primeira quadra3 tam sublime o conceito1 que creio1 que nem menos o seu amigo 99 99 se-atrever a expliclo1 em boa proza4 ,tambem aquilo de chamar ,mar roxo1 ao ,mar vermelho2 nam se-pode perdoar a um omem1 que fez1 ou intentou fazer um poema ,epico4 ,a antiteze que se-acha na #b4;a quadra1 de ,sair vida1 e intrar morte1 outra inglezia4 ,o que eu acho 1 que se o toiro morreo de uma cutilada1 pola mesma parte por-onde introu a morte1 saio a vida no-sangue3 e isto nam puxansa nova2 mas coiza bem uzual4 ,o ultimo terceto1 tem um conceito bem ordinario1 e em tudo semelhante1 ao de outro famozo ,soneto ao mesmo asumto1 que comesa3 ,foi para o raio de aso curta esfera1 e conclue asim3 ,que emprego sofrer forsa tam dura8 ,abra o boi3 rasgue a terra3 e desta sorte ,saia em sobras da-morte1 a sepultura4 ,mas eu devo dizer o que intendo3 acho que em ambas as partes o ,poetas diseram1 o que diria qualquer omem de ganhar4 despois de terem engrandecido tanto o golpe1 sam mui frios na concluzam4 ,para acompanhar com o ,soneto1 parece-me que tinham dois conceitos1 mais exquizitos4 ,um era dizer1 que com a forsa da-caida furra o bruto1 o globo terraqueo2 e fora parar1 no-emisferio dos-,antipodas4 ,o outro era concluir1 que ao toque da-espada1 se-anihilra o bruto3 tomando esta palavra1 no-sentido filozofico1 que supoem uma forsa mais que umana4 ,cuido que isto era mais conveniente1 ao estilo de ,portugal4 ,v4 ,p4 diga ao seu amigo1 que fasa nota destes dois conceitos2 para se-servir1 nas ocazioens de toiros4 ,em outra parte faz o mesmo ,chagas dois ,sonetos1 que acabam com duas frioleiras insoportaveis4 ,um feito1 morte da-,infanta ,d4 ,joana1 e conclue asim3 ,transposta quando menos admirada1 ,anoiteceo na aurora de uma vida1 ,e se-eclisou de um ,sol na madrugada4 ,mas sendo as luzes tantas1 quem duvda1 ,se era o viver de muito dezejada1 ,que o morrer foi de pouco merecida4 ,o outro feito1 a outro cavalo do-,conde de ,sabugal1 que campiava bem4 ,este autor era tentado com tais asumtos3 e creio que na cavalarisa do-dito ,conde1 nam deixou animal sem ,soneto3 finalmente fez um1 que conclua asim3 ,n pues de ,febo el tiro luminoso1 ,n de ,alexandro el ,zefiro animado ,rapido se compita1 o generoso4 ,pues preferiendo a todo lo animado1 ,los puso desayrados en lo ayroso1 ,corridos los dex con lo parado4 ,estes dois fechos sam as majores frialdades1 que eu ainda vi3 nam se-podem ler sem compaixam3 e isto alem de terem antitezes1 e versos1 que nam se-intendem4 ,e nam cuide ,v4 ,p4 que isto sucede somente no-,chagas1 e outros ,poetas2 acha-se nos-melhores3 e ,camoens um deles4 ,este omem1 que no-,lirico tinha muita naturalidade2 querendo introduzila nos ,sonetos1 fez a maior parte deles sem grasa alguma4 ,ponho neste numero os dois gavadinhos1 que se-tem glozado cem-mil vezes3 comesa um3 ,sete anos de pastor ,jacob servia3 e conclue asim3 ,comesa de servir outros sete anos ,dizendo1 ,mais servra1 se nam fora ,para tam longo amor1 tam curta a vida4 outro comesa3 ,alma minha gentil que te-partiste3 e acaba3 ,roga a ,deus1 que teus anos encurtou1 ,que tam cedo de c me-leve a ver-te1 ,quam cedo de meus olhos te-levou4 ,considere ,v4 ,p4 sem paixam1 estes dois ,sonetos2 e observe se acha neles1 o carater do-,epigrama4 ,eu digo que nam3 porque o ,epigrama deve concluir1 com algum conceito que agrade1 e arrebate com a novidade2 e deixe intender mais1 doque nam diz3 e iso o que eu nam acho1 em nenhum deles4 ,o primeiro contem uma istoria1 sem artificio algum poetico3 e conclue com um comprimento bem uzual4 ,um amante logrado1 que menos podia dizer que isto3 ,mais servra1 se nam fora pouco todo o tempo1 para empregar no-seu serviso8 ,contudo iso1 nam obstante ser uma coiza fria1 eu observo outro defeito maior1 que a impropriedade4 ,para fazer uma antiteze1 de amor longo1 vida curta2 serve-se de uma fraze impropria3 pois amor longo1 parvoice2 porque refere-se a tempo3 e aqui deve-de referir a grandeza2 e dizer1 amor grande3 no-qual cazo vai por-terra1 o conceito4 ,do-outro ,soneto digo o mesmo3 todo ele se-reduz a isto ,tu que ests la no-,ceo1 pede a ,deus1 que me-leve a ver-te depresa3 e que menos se-pode dizer1 a um morto amado8 ,este outro fecho semelhante ao do-,borges1 que fazendo um ,soneto1 morte da-,infanta ,d4 ,francisca1 falando com a ,morte1 concle asim3 ,se nam podes ja ter igual projeto1 ,pendura a fouce1 e deixa de ser ,morte4 ,se o-disse ao principio1 e dele deduzise alguma coiza boa2 sera menos mao3 mas rezervlo para o fim1 nam intender este oficio4 ,esta especie de conceitos1 nam necesario dizelos3 estam ditos por-si1 e todos os-diriam4 ,neste mesmo fecho do-,camoens1 noto outra impropriedade4 ,a palavra cedo no-primeiro verso1 refere-se a tempo2 e quer dizer1 depresa e logo1 sem reparar em idade1 ou coiza semelhante4 ,o que posto1 compara muito mal o ,camoens um cedo1 com outro cedo1 sendo coizas diferentes2 e vale o mesmo que dizer3 ,asim como tu partistes na flor da-idade deste mundo1 asim eu parta logo c4 a qual propozisam manifestamente se-ve1 ser uma parvoise4 ,toda a grasa pois do-dito conceito1 se-reduz palavra cedo3 que aqui um rigorozo equivoco3 coizas indignas de um ,soneto4 ,onde conclo1 que no-,camoens nam vejo1 o espirito do-,epigrama2 porque a sua naturalidade talvez afetada1 o-faz languido3 e o ,epigrama1 aindaque natural1 deve ter outra elevasam4 ,e asim os que querem fazer bem ,sonetos1 devem evitar nam s a inverosimilidade1 e oscuridade2 mas tambem a frialdade4 ,muitas coizas reduzidas a ,decima1 ou outra tal compozisam1 parecem bem2 que em ,soneto parecem muito mal4 ,no-estado em que est oje a ,poezia2 pode intrar no-,soneto1 alguma coiza de ingenho mixto3 porque estes costumam agradar mais4 ,creio porem que melhor1 fazer poucos e bem1 que muitos dos-comuns4 ,esta sorte de poemas imperfeitos valem pouco1 e nam sam capazes de darem nome1 a um ,poeta4 ,onde quando nam sam superlativos1 nam se-podem sofrer4 ,este porem o defeito1 de muitos ,portuguezes2 que1 fazendo ,sonetos mal1 ainda asim nam cesam de fazlos3 faram dez e doze a uma roza1 e asumtos semelhantes3 outros em um ,oiteiro fazem bastantes glozas1 a um s mote3 e se os primeiros sam maos1 os ultimos sam peste4 ,mas1 tornando ao ingenho1 concluo1 que em toda a sorte de poemas pequenos1 deve o ,poeta ter sempre diante dos-olhos2 que o esencial deles 1 a naturalidade1 unida a um pensamento galante1 exposto com delicadeza4 ,esta pode consistir1 em um sentido oculto1 que diz muito1 quando parece que nam diz nada3 em alguma pancada picante1 coberta com um veo modesto3 em uma grasa1 exposta ironicamente com maneira seria3 em um pensamento fino1 coberto com uma palavra groseira4 ,no-,soneto porem deve praticar-se isto1 com menos meiguise1 e mais elevasam4 ,no-que reprovo o estilo de muitos1 que se-servem dos-,sonetos1 ou ,romanses ,eroicos1 para coizas amatorias2 nas quais nam entram bem3 porque o verso endecasilabo1 pede emprego mais sezudo3 o ,lirico proprio para estas coizas4 ,o que digo do-,epigrama ,portuguez1 digo tambem do-,latino1 porque as regras sam as mesmas3 e com mais razam se-devem nele evitar1 os equivocos c4 porque a lingua ,latina nam sofre1 semelhante estilo4 ,os ,epigramas dos-,gregos eram naturais1 aindaque com grasa3 este estilo seguio ,catlo4 ,porem ,marcial no-tempo dos-,vespazianos1 principalmente de ,domiciano2 que era a declinasam da-eloquencia ,latina2 e quazi o principio da-idade de bronze1 segundo os que intendem melhor2 foi o que comesou a introduzir1 ou rafinar as agudezas1 e equivocos1 nos-,epigramas3 o que agradou entam1 porque se-comesava na-,corte a perder1 o bom gosto da-,eloquencia4 ,com efeito alguns dos-seus ,epigramas podem pasar1 em obzequio daquele tempo2 e tambem do-nosso1 que ainda est alguma coiza ocupado1 com sutilezas3 mas sam rarisimos1 e apostarei que nam chegam a quinze1 os bons4 ,a maior parte porem sam frialdades1 e parvoises1 que os omens de juizo tem desprezado2 e reconhecem estar muito abaixo1 da-nobreza de ,catlo4 ,mureto1 que imitou tambem ,catlo1 que parece o mesmo autor1 chama a ,marcial1 ,bobo de ,comedia3 e o noso ,lilio ,gregorio ,giraldo1 a quem todos os doutos reconhecem1 por-omem de juizo exatisimo nestas materias2 diz deles com galantaria1 que s podem agradar1 aos asnos4 ,temos mais alguns antigos ,epigr4 que podem pasar4 ,dos-modernos acham-se alguns bonitos3 mas incontrei tambem1 colesoens de ,epigramas modernos1 indignisimos2 e a maior parte sam asim3 e asim necesario lelos1 com muita advertencia4 ,o ingenho mixto reina1 nestas compozisoens2 principalmente desde o fim do seculo ,,xvi4 a esta parte4 ,chamo felicidade fazer um ,epigrama1 que seja bom4 ,onde diz com grasa o douto ,p4 ,rapin1 que o ,epigrama se nam excelentisimo1 nada vale3 e que tam dificultozo 1 fazer um bom1 que se-pode contentar1 quem chega a fazer um1 em toda a sua vida4 ,esta materia dos-,epigramas1 que sam rigorozas inscrisoens funebres na sua origem2 aindaque ao despois se-aplicasem1 a outras materias2 me-conduz a falar1 nos-,elogios lapidares3 que sam um quid medium1 entre a proza e o verso2 e o ,juglar lhe-chama1 libera ,posis4 ,nesta materia tenho pouco que advertir a ,v4 ,p4 porque o-reduzirei a duas palavras4 ,nenhum omem de juizo1 deve seguir o estilo1 do-,tezauro1 ,juglar1 ,masenio1 ,labb c4 se uma rapaziada condenavel1 introduzir na lingua vulgar equivocos1 e sutilezas2 e que nenhum omem douto faz2 que ser introduzilos na ,latina1 em que ns nam temos jurisdisam8 ,alem diso1 a lingua ,latina nam permite isto4 os que estimam a bela ,latinidade1 devem escrever1 como os da-idade de oiro2 ou quando muito de prata2 e nadamais se-deve imitar4 ,nos-fins da-idade de prata1 que se-comesram a introduzir tais agudezas1 por-culpa de ,seneca ,filozofo1 e seu sobrinho ,lucano3 mas principalmente de ,marcial1 que floreceo pouco despois4 ,motivo porque muitos bons criticos querem1 que a idade de prata acabe com ,nero1 no-ano #fg4 de ,cristo3 vendo quanto dali para diante1 descaio a ,eloquencia4 ,mas ainda nos-fins da-idade de prata1 nam estava o cazo tam arruinado3 o que alcanso1 das-inscrisoens dese tempo4 ,do-tempo dos-,antoninos para diante1 quero dizer1 desde os principios do-segundo seculo de ,cristo1 que totalmente se-comesou a arruinar1 e intrram as sutilezas3 mas pior que tudo1 desde a metade do-dito seculo para baixo4 ,finalmente arruinou-se a lingua ,latina1 com o imperio ,romano1 no-quinto seculo3 da para diante reinou a ignorancia1 at o meio do-decimoquinto seculo4 ,contudo atrevo-me a dizer1 que nam s nos-fins do-,imperio1 mas nem ainda nos-seculos da-ignorancia1 se-acha muita sutileza1 e equivocos2 se os-comparamos com os nosos4 ,somente nos-fins do-decimosexto seculo1 comesram a aparecer3 mas totalmente se-rafinram1 nos-principios do-decimosetimo3 e durram quazi at os fins do-dito3 at que aparecram omens1 que reprovram este estilo1 e seguiram a ,antiguidade4 ,isto basta para mostrar1 que se-deve desprezar esta novidade2 que incompativel1 com a beleza das-expresoens1 e magestade da-antiga ,eloquencia4 ,os ingenhos pobres1 que vam detraz destas ridicularias1 para serem estimados2 visto nam o-poderem conseguir1 por-outro estilo4 ,no-tempo de ,augusto1 em que cozinheiros1 pasteleiros1 e mosos dos-moinhos1 sabiam mais de ,eloquencia1 e bom gosto2 doque a maior parte destes modernos doutores2 nam se-escrevia asim3 as inscrisoens eram naturais1 claras1 e em poucas palavras4 ,abra ,v4 ,p4 o4 ,grutero1 ,reinecio c4 e ver provado o que digo4 ,ainda na idade de prata1 e bronze1 a maior parte das-inscrisoens sam naturalisimas3 o que eu observei muitas vezes1 examinando os antigos monumentos1 que existem em ,roma2 esculpidos no-quarto1 e quinto seculo3 como tambem uma infinidade de sepulturas particulares1 dos-seculos inferiores1 escritas com toda a naturalidade1 e grasa4 ,e isto deve fazer1 quem quer mereser louvor3 e nam seguir os pasos destes ignorantes1 que fazem ,latins novos4 ,quanto s divizoens de regras em grandes1 e pequenas2 certo1 que algumas se-acham na ,antiguidade2 mas raras3 e regularmente por-necesidade1 de comesar outro capitulo c4 ,comumente escreviam sem divizoens1 e muito menos divizoens afetadas2 como quem escreve carta4 ,o que eu observei muitas vezes3 e nam s nas antiquisimas2 mas ainda nos-monumentos escritos1 at a ruina do-,imperio1 e inferiormente4 ,no-fim do-,,xvi4 seculo1 que comesram a introduzir1 esta ridicularia4 ,comesou polos titulos dos-livros3 pasou aos arcos triunfais c4 ,de entam para c estilo lapidar significa1 um ,latim escrito em diferentes regras maiores1 e menores1 segundo a eleisam de quem escreve4 ,eu certamente nos-principios de livros1 c4 deixaria as coizas como estam3 mas nas inscrisoens lapidares1 nam me serveria destas divizoens de regras moderna3 porque se aquilo nam verso1 que necesidade 1 de dispolo daquela sorte8 ,alem diso1 as inscrisoens lapidares devem ser brevisimas1 e clarisimas3 e asim nam necesario divizam1 porque nam motivo1 para se-confundir a gente4 ,isto o que eu nam poso sofrer1 nestes modernos pouco advertidos2 que fazem inscrisoens eternas4 ,mas isto contra o bom gosto3 a ,antiguidade explicava-se em duas palavras3 a simplicidade1 e brevidade1 era toda a galantaria das-inscrisoens4 ,li muitas vezes1 e sempre com particular gosto1 as inscrisoens que ainda oje vemos1 nos-antigos monumentos1 que existem em ,roma4 ,no-portico do-,pantheon ainda oje lemos3 ,m4 ,agrippa ,l4 ,f4 ,cos4 ,tertium ,fecit3 que quer dizer1 ,marco ,agripa1 filho de ,lucio1 terceira vez consul1 fundou este portico4 ,esta do-seculo de ,augusto4 ,mas ainda as inferiores sam asim4 ,vencra ,tito ,vespaziano os ,judeos3 demolra ,jeruzalem3 conclura uma das-mais obstinadas guerras1 que tiveram os ,romanos3 o ,senado1 levantando-lhe um arco ,triumfal perpetuo1 nam dise uma arenga sempiterna2 contentou-se de escrever estas palavras3 ,senatus ,populusque ,romanus ,divo ,tito1 ,divi ,vespasiani ,f4 ,vespasiano ,augusto4 ,no-frontispicio do-templo consagrado polo ,senado1 ao ,imperador ,antonino1 e sua molher2 lem-se estas palavras3 ,divo ,antonino1 ,d4 ,faustinae4 ,s4 ,c4 ,no-pedestal da-coluna ,antonina1 le-se3 ,m4 ,aurelius ,imp4 ,armenis1 ,parthis1 ,germanisque bello maximo devictis1 triumphalem hanc columnam rebus gestis insignem ,imp4 ,antonino ,pio patri suo dedicavit4 ,e na coluna ,trajana triumfal lemos ainda3 ,senatus ,p4 ,r4 ,imp4 ,csari ,divi ,nerv ,f4 ,nerv ,trajano ,aug4 ,germ4 ,dacico ,pontif4 ,max4 ,trib4 ,potest4 ,,xvii4 ,imp4 ,,vi4 ,cos4 ,,vi4 ,p4 ,p4 ad declarandum quant altitudinis mons1 locus tantis operibus fit egestus4 ,deixo de citar outras1 porque coiza bem vulgar4 ,nestas inscrisoens ve ,v4 ,p4 a naturalidade1 simplicidade1 brevidade3 sem divizoens1 mas com fraze continuada4 ,se porem algumas vezes1 eram as inscrisoens mais compridas1 provinham dos-titulos dos-,imperadores1 que se-costumavam escrever3 ou porque nela se-nomiavam varias pesoas1 cadauma com o seu titulo2 que o mesmo que diferentes inscrisoens3 mas isto raras vezes3 o comum era polo contrario4 ,nam asim nos-modernos1 que fazem inscrisoens eternas1 sem nobreza1 ou grasa alguma2 e com divizoens importunas e afetadas4 ,mas quando quizesem seguir estas divizoens1 pouco importaria2 contantoque fugisem1 dos-vicios apontados4 ,uma coiza porem nam poso sofrer1 e vem aser1 escreverem livros em estilo lapidar1 com as divizoens ditas4 ,se eles intendem1 que este estilo tam proprio das-lapides1 que nam pode aver lapide1 por-outro estilo2 quizera que me-disesem1 porque compoem livros asim3 ou lapide1 ou livro4 ,nam coiza mais ridicula que esta4 ,mas o que merece mais rizo ver1 que quando algum compoem um destes livros1 saiem logo os censores1 canonizando o dito estilo2 e dizendo mal1 dos que desprezam estas rapaziadas4 99 99 99 ,um bocadinho de melhor gosto na lingua ,latina1 e um bocadinho mais de reflexam1 pouparia estas criticas injustas4 ,pasando agora s compozisoens modernas1 pouco me-fica que dizer4 ,as mais consideraveis entre as pequenas sam1 a ,egloga1 ,elegia1 ,ode4 ,a ,egloga nam tem uzo em ,portugal3 em que nam se-aplicam a descrever1 a imagem da-vida pastoril1 cujo carater a simplicidade1 e moderasam3 nem tambem esta compozisam1 pede muito ingenho3 basta ser acertado4 ,camoens nas suas ,eglogas1 introduz tanta variedade de versos1 que nam se-pode ler com gosto2 porque faz perder1 a ideia da-,egloga4 ,alguma delas consta de ,oitavas1 ,cansam1 ,tercetos c4 mas isto nam se-deve imitar4 ,pode alguma vez variar-se1 a uniam das-rimas3 mas na mudansa de versos1 deve-se proceder com cuidado2 porque muito impropria4 ,as outras duas compozisoens1 sim se-uzam em ,portugal3 mas comumente debaixo de outros nomes4 ,a ,elegia1 tem por-emprego1 descrever sentimentos ou amores2 ou expremir qualquer paixam amoroza4 ,donde vem1 que o seu carater deve ser1 o enternecido1 explicado por-um modo animado2 mas quanto mais pode ser natural3 que o que faz quem chora1 ou ama3 e aqui tem lugar1 as ,figuras proprias desta paixam4 ,cuido que para isto mais proprio1 o ,romance ,lirico1 e a ,silva2 porque sam compozisoens naturais1 e que se-podem animar1 como cadaum quer3 o ,endecasilabo nam me-parece tam proprio para isto2 porque as de ,camoens em ,tercetos1 nam soam bem4 ,neste particular acho um notavel defeito1 em alguns ,poetas1 que querem fazer do-,soneto ,elegia3 e afetando um s conceito final1 mostram tanto estudo2 que destruem a ideia da-,elegia4 ,uma paixam nam se-dezafoga1 em #ad4 versos3 pede compozisam mais comprida1 e livre de afetasoens3 acrecentando a-isto1 que nem menos o verso os-ajuda4 ,mas ainda o ,lirico1 se se-compoem de discursos separados1 como sam as ,decimas2 nam permite liberdade da-expresam1 para dezafogar a paixam4 ,tambem nam aprovo os quartetos ,liricos1 porque mostram afetasam4 ,com efeito muitas que eu vi1 nestes dois generos1 cuido que mais moviam as ,damas a rizo1 que a compaixam4 ,a ,ode aquela compozisam1 com que se-louvam as asoens dos-,deuzes1 ou omens ilustres4 ,esta explicasam basta para mostrar1 que pede um grande ingenho1 imaginasam elevada1 expresam nobre e correta2 e toda a galantaria e vivacidade1 que se-acha na arte de persuadir4 ,quer-se juizo1 para tecer uma ,ode com magestade1 e sem defeitos4 ,a ,antiguidade nos-propoem ,oracio1 como o melhor exemplo nesta materia3 porque soube unir duas coizas bem dificultozas1 a elevasam1 com a delicadeza e dosura4 ,para isto na lingua ,portugueza parece proprio1 o ,romance ,eroico1 a ,cansam1 ,tercetos ,eroicos1 quero dizer1 endecasilabos3 mas o ,lirico nam creio que posa satisfazer1 toda a grandeza do-argumento4 ,sobre tudo reprovo muito1 elogiar as asoens de um omem1 em um ,soneto3 este s pode servir1 para uma asm4 ,o verso endecasilabo sezudo1 grave1 e parece proprio1 para estes argumentos3 mas deve a compozisam ter1 o comprimento necesario1 de outra sorte sofca-se3 motivo porque nunca pude perdoar a ,camoens2 principalmente fazer compozisoens amatorias1 com o titulo de ,ode4 ,estas trez compozisoens1 que aqui nomiamos1 reduzem-se ao poema ,narrativo ,epico1 de que sam partes1 ou dependencias4 ,a ,satira parte da-,comedia1 para a qual se-reduz3 contudo muitos que nam fazem ,comedias1 divertem-se em fazer ,satiras4 ,mas necesario muita advertencia1 nesta materia4 ,a ,satira nam deve repreender1 senam o que verdadeiramente viciozo2 para instruir os ,omens1 do-que devem fugir3 e para conseguir isto1 quer-se muita delicadeza4 ,quem repreende o ,vicio abertamente com invetivas1 concle pouco3 por-este motivo nam agrada ,juvenal1 que um declamador4 ,o melhor 1 pintar com galantaria1 o ridiculo do-,vicio1 quazi como quem o-nam-quer mostrar4 ,este foi o metodo de ,oracio2 que por-iso agradou muito3 mas nam foi ele o inventor2 foi o ,filozofo ,socrates1 que tinha uma arte particular1 de descobrir as ignorancias dos-,omens1 mostrando de o-nam-querer fazer4 ,os modernos que seguram este metodo1 conseguram melhor que outros1 o seu intento4 ,a istoria de ,d4,quixote1 neste genero famoza1 e galante3 gostei muito de a-ler4 ,polo contrario1 os que fazem ,satiras oscurisimas1 como ,persio1 e dos-modernos ,gracian no-seu ,criticon1 e ,barclai no-seu ,euformiam c4 nam se-podem sofrer3 e eu creio1 que eles mesmos em varias partes1 nam intendem o que dizem4 ,os nosos ,italianos tem um gosto particular1 para as ,satiras2 porque em duas palavras dizem muito1 e com galantaria2 deixando intender mais1 doque nam explicam4 ,tenho visto algumas ,latinas belisimas1 e bem modernas3 como tambem ,comedias1 no-seu genero famozas4 ,isto digo da-,satira em comum3 nam aconselho a ninguem1 que fasa ,satiras a pesoas particulares1 aindaque sejam viciozas2 porque contra a caridade4 ,em ,portugal ainda nam li uma ,satira bem feita1 ainda das-particulares3 as que vi eram afrontas e injurias1 nam ,satiras4 ,conclo dizendo1 que o verdadeiro modo1 que os omens inteligentes tem achado1 para compor estes pequenos poemas2 1 despois destas gerais reflexoens1 aprezentar-lhe os melhores exemplos na materia3 e mostrar-lhe com o dedo1 o artificio1 e toda a galantaria4 ,s asim se-observa1 que coiza ingenho1 e agudeza2 como1 e quando se-pode uzar dela4 ,finalmente tendo pasado brevemente1 polas compozisoens pequenas2 direi alguma palavra da-,epopeia1 ou poema ,epico4 ,se ouvse de falar nisto como devo1 faria um tratado3 e asim nam saindo do-meu estilo1 farei somente algumas reflexoens4 ,este poema1 como ja dise a ,v4 ,p41 a coiza mais dificultoza1 da-,poezia3 quer tal ingenho1 tal erudisam1 tal juizo1 que quem o-considera bem1 nam se-atreve a fazlo3 muito mais se observa os defeitos1 em que caram muitos1 dos-que o-tem emprendido4 ,asima dise a ,v4 ,p4 qual o artificio deste poema1 que compreende em si1 todas as especies do-,narrativo3 e que por-iso pede1 grandisimo fundamento de ,retorica1 para o-poder tratar bem4 ,nam esta a fruta dos-,sonetos1 e ,decimas1 que nacem a cada canto2 coiza mais dificultoza3 as regras sam tantas1 e tam dificultozas1 que sam poucos os que se-atrevam1 e rarisimos os que nam pequem1 contra algumas4 ,este o motivo1 porque nam produzirei muitos testemunhos1 principalmente sendo o meu argumento1 conter-me nos-limites de ,portugal4 ,certamente neste ,reino1 rarisimo o poema ,epico4 ,o ,condestavel de ,francisco ,rodriguez ,lobo1 o ,macabeo de ,miguel da-,silveira1 a ,ulisea de ,gabriel ,pereira de ,castro1 por-confisam dos-mesmos ,portuguezes de melhor doutrina1 nam merecem este nome3 algum outro que posa aver manuscrito1 e que agora nam me-ocorre1 pertence mesma clase4 ,asim parece1 que com razam se-dise2 que a unica ,epopeia que apareceo em ,portugal1 foi a de ,camoens4 ,mas isto mesmo confirma o que digo1 da-dificuldade do-poema ,epico4 ,se ,v4 ,p4 consulta os seus nacionais1 os-achar tam preocupados polo ,camoens2 que mais facilmente ouvirm dizer mal1 da-religiam1 doque do-poema ,epico de ,camoens4 ,os que deviam fazer a critica do-dito autor1 fazem o elogio4 ,um destes ,manoel de ,faria e ,sousa1 que de comentador1 se-converteo em panegirista3 e em vez de explicar1 o que o ,poeta quiz dizer1 nos-diz o que lhe-parece3 vendendo-nos as suas imaginasoens1 polas ideias do-,poeta3 e querendo desculplo ainda nas coizas1 em que mais condenavel4 ,com efeito este comentador1 mostra intender pouco1 a materia que trata3 ao mesmo tempo em que diz mal1 de todos os melhores ,poetas ,estrangeiros1 que certamente ele nam leo1 ou nam chegou a intender2 nam obstante que muitos o-louvem1 como um oraculo4 ,inacio ,garcez ,ferreira1 que fez as notas ao ,camoens1 intendeo melhor a materia4 ,dos-livros que ele cita1 se-conhece logo1 que -de ajuizar melhor2 porque se-servio dos-melhores na ,poetica1 tanto ,francezes1 como ,italianos4 ,alem diso1 escreveo em ,italia1 onde teve tempo de consultar1 os omens mais inteligentes2 sobre as dificuldades1 que lhe-ocorresem4 ,e com efeito ajuiza melhor3 mas nam tam bem1 que em algumas partes nam se-ingane3 como sera facil mostrar1 se tivese tempo4 ,contudo este ,portuguez sinceramente reconhece1 algumas faltas sustanciais no-,camoens4 ,o que basta para me-livrar da-calunia1 dos-que me-quizesem condenar1 por-meter colherada1 nesta materia4 ,mas como eu intendo bem1 a lingua ,portugueza2 parece-me que nam sou improprio1 para julgar4 ,avemos de confesar1 que ,camoens teve muito ingenho1 imaginasam fecunda e grande3 e que se-tivese estudado ou tratado1 com quem ensinse bem1 as coizas que devia2 poderia dezempenhar o argumento da-,epopeia4 ,com efeito o que fez de bom1 tomou dos-nosos3 pois nas suas obras reconheso eu1 que intendia o ,italiano1 e que se-aproveitou bem do-,petrarca1 ,boccaccio1 e outros4 ,teve finalmente muitas qualidades de ,poeta3 e para aquele tempo1 em que nam avia1 os conhecimentos que oje 1 maravilha1 que escrevse tam bem4 ,mas querlo comparar com ,omero1 como fazem muitos3 ou querlo colocar1 sobre os das-outras ,nasoens todas2 com a razam1 de que o seu poema o-traduzio um ,francez na sua lingua2 e o ,paggi na nosa ,italiana2 iso nam deixa de ser temeridade1 fundada em uma prova fra do-cazo4 ,tambem um curiozo se-divertio1 em traduzir o ,vieira em ,italiano2 e contudo ninguem faz cazo de tal tradusam1 e autor3 e o mesmo sucede ao ,camoens2 que a maior parte dos-nosos bons ,poetas1 nam sabem que o-ouve no-mundo4 ,alem diso1 sera necesario provar primeiro1 que estes tradutores eram ,poetas1 e nam ,versejadores3 que intendiam bem a materia2 e nam se alucinram na tradusam4 ,as versoens ,espanholas nem menos concluem3 porque foram feitas1 debaixo do-mesmo clima3 ,os outros ,estrangeiros que o-louvam1 fundam-se no-que dizem os ,espanhoes1 ou ,portuguezes1 como ,v4 ,p4 pode observar3 e alguns que chegram a lelo1 nam dizem bem dele4 ,na verdade o ,camoens1 entre muito boas qualidades1 tem muitos defeitos1 nacidos de dois pontos3 o primeiro1 falta de erudisam3 o segundo1 de juizo e dicernimento4 ,primeiramente1 errou o titulo da-obra4 ,os mestres da-arte tomam o titulo1 ou da-pesoa1 como ,odyssea1 ,eneide3 ou do-lugar da-asm1 como ,iliade1 que tomado da-,cidade de ,ilio primaria da-,troade4 ,o ,camoens em vez de tomar o dito titulo1 de ,vasco da-,gama c4 toma-o de todos os ,portuguezes3 buscando para isto um termo ,latino1 que tanto calsa aos ,portuguezes navegantes1 como aos que ficram no-,reino3 e o pior 1 que o-toma no-plural1 que nam tem exemplo1 na boa ,antiguidade4 ,errou a propozisam do-,poema3 pois devendo esta conter1 uma s asm principal2 ele porem em vez de propor1 a navegasam do-,gama1 que era a sua asm2 propoem todos os varoens illustres1 de que se-compoem a inteira istoria de ,portugal2 com expresa divizam das-coizas da-,europa1 ,africa1 e ,azia3 e deles expresamente promete a ,el-,rei ,d4 ,sebastiam1 cantar as asoens eroicas3 o que diz desde a ,estancia ou ,oitava #ab4 do-primeiro ,canto1 para diante4 ,com efeito executa literalmente1 o que promete3 porque no-principio do-,canto ,,iii4 descreve a ,europa3 e desde a ,estancia #ba4 dese ,canto1 at o fim do-,canto ,,iv4 expoem as coizas da-,europa1 e ,africa at ,el-,rei ,d4 ,manoel4 ,no-fim do-,canto ,,iv4 entra com o descobrimento da-,india2 e continua no-,v4 at o ,x4 em que fala nos-,governadores da-,india3 e de-pasagem toca na ,america4 ,desorteque este ,poeta na propozisam1 inclue todas as partes da-fabula do-poema3 que um erro masicho4 ,isto ver ,v4,p4 nas-duas primeiras ,estancias4 ,i4 ,as armas1 e os varoens asinalados1 ,que da-,ocidental praia ,lusitana2 ,por-mares nunca de antes navegados ,pasram ainda alem da-,taprobana3 ,que em perigos e guerras esforsados1 ,mais doque pode a natureza umana2 ,entre gente remota edificram ,novo ,reino1 que tanto sublimram3 ,,ii4 ,e tambem as memorias gloriozas ,daqueles ,reis1 que foram dilatando ,a ,f1 e o ,imperio3 e as terras viciozas ,d',africa1 e d',azia andram devastando3 ,e aqueles que por-obras valorozas ,se-vam da-lei da-,morte libertando2 ,cantando espalharei1 por-toda a parte2 ,se a tanto me-ajudar o ingenho1 e arte4 ,tudo o que se-compreende nestas duas ,estancias1 propozisam3 e tudo isto ele promete cantar4 ,mas aindaque na propozisam de um poema se-posam acrecentar1 alem da-asm1 algumas coizas2 estas devem ficar fra da-fabula1 e nam deve o ,poeta cantlas2 e somente nos-epizodios do-dito poema1 que se-toca alguma delas4 v4 g4 ,o novo ,reino que se-fundou entre gente remota c4 acrecentamento1 que rezulta da-asm2 e somente se-canta por-epizodio4 ,o ,camoens porem inclue tudo na propozisam1 e asim o-executa3 desorteque considerando os que inculca1 na segunda ,estancia2 bem se-ve que entram1 nam por-acrecentamento1 mas direitamente4 ,contudo os ,reis de ,portugal1 de que trata no-,canto ,,iii41 e ,,iv41 nada tem que fazer1 com a principal asm1 e entram por-epizodio4 ,os que por-obras valorozas se-vam da-lei da-morte libertando1 que sam todos os outros ,portuguezes ilustres1 tanto antigos1 como modernos2 tambem estam fra da-principal asm1 que a navegasam do-,gama4 ,com efeito o ,camoens l os-introduz por-epizodio1 no-principio do-,canto ,,viii4 mas nam obstante iso1 na propozisam do-poema mete-os direitamente1 com os outros4 ,os que foram governar a ,india1 tambem entram por-epizodio1 no-principio do-,canto ,x4 mas sem reparar niso1 ele os-propoem com os outros1 no-#e4 e #f4 verso da-#b4 ,estancia4 ,asim na primeira ,oitava confunde1 os que foram com o ,gama conquistar a ,india1 com os que ao despois foram governla3 e de uns e outros diz1 que edificram novo ,reino4 ,este defeito de toda a considerasam1 nesta materia4 ,garcez os-reconhece em ,camoens3 mas querendo desculpar nele1 o ter proposto muitos varoens1 com o exemplo de ,caio ,valerio ,flaco2 mostrar que ignora1 o pouco conceito que os eruditos tem1 das-obras de ,flaco2 nas-quais acham mil defeitos contra a arte2 e nenhuma grasa1 ou beleza3 desorteque os seus erros1 nam podem servir de desculpa1 aos de ,camoens4 ,errou alem diso o ,camoens1 em nam sustentar sempre o carater1 e grandeza do-seu eroe3 que abaixa sensivelmente no-,canto ,,viii4 do-meio para diante4 ,errou1 nas enfadonhas digresoens que introduz1 por-toda a parte4 ,errou1 em acabar quazi todos os ,cantos1 com esclamasoens mui fra de propozito1 e muito contra o estilo da-,epopeia4 ,tambem errou consideravelmente1 introduzindo no-seu poema1 as ,divindades dos-,etnicos3 nam alegorizando a coizas santas1 como puerilmente pertende o ,faria3 nam aos ,planetas personalizados1 como benignamente interpreta o ,garcez2 o qual fingio uma nova constelasam para ,baco1 que nam se-intende o que 3 mas em sentido proprio1 damesma sorte que falram os-idolatras ,romanos2 pois mete ,venus1 e ,baco imprudentemente por-toda a parte4 ,isto tam claro no-seu poema1 que me-admiro muito1 que aja quem o-queira desculpar1 nesta materia4 ,se nam quizer-mos dizer1 que se-servio de palavras sem significado2 que sera outro erro4 ,mas deixando muitos outros erros1 em materia do-,epico1 que se-podiam apontar2 tem outros nam menos censuraveis1 em todo o genero de ,poezia4 ,muitos versos errados1 por-exceso de silabas3 outros por-falsidade das-rimas1 que nam sam consoantes c4 muitas palavras ,latinas sem necesidade alguma2 vistoque em ,portugal bastantes igualmente boas4 ,tem alem diso outros defeitos1 comuns neste ,reino3 entre eles a prezunsam1 de dizer sempre sentensas3 o que nam nega o ,garcez1 nega porem1 que ,camoens seja oscuro2 e afirma1 que os seus versos sam canoros4 ,e eu confeso a ,v4 ,p4 que acho estes dois defeitos expresamente no-,camoens3 e que reconheso1 que um douto ,francez1 que o-censura nisto1 tem muita razam4 ,os versos de ,camoens sam languidos1 e pola maior parte sem grasa4 ,escreve comumente muitas vogais seguidas3 e como os ,portuguezes costumam na pronuncia1 comer as ditas vogais1 umas com outras2 necesario1 para nam errar o verso1 tomar frequentes respirasoens1 e fazer muitas pauzas no-meio do-verso3 o que faz perder a armonia4 ,a prova disto ler o ,camoens3 pois a cada paso se-incontram os exemplos3 que se eu quizese citar1 sera necesario fazer um livro4 ,mas deixando outros muitos1 observe ,v4 ,p4 estes1 no-principio do-primeiro ,canto4 ,o quarto1 e quinto ,afonso1 e o terceiro4 ,em vs os olhos tem o ,mouro frio4 ,dai-me agora um som alto1 e sublimado4 ,e costumai-vos ja a ser invocado4 ,com uma coroa e cetro rutilante4 ,guerra ,roma tanto se-afamram4 ,onde o dia comprido1 e onde breve4 ,da-antiga tam amada sua ,romana4 ,e outro polas onras que pertende4 ,deitando paratraz medonho1 e irado4 ,estrangeiros na terra1 lei1 e ,nasam4 ,a ,natura sem lei1 e sem rasam4 ,quem diser que estes versos1 e outros que podia apontar1 sam armoniozos1 e enchem bem a orelha2 necesario que tenha orelhas mui compridas4 ,sam poucos os versos de ,camoens1 que nam tenham algum defeito de disonancia4 ,a oscuridade ninguem lha-pode negar1 quando queira examinar1 as suas compozisoens4 ,nace em primeiro lugar1 de uzar de palavras ,latinas aportuguezadas1 sem necesidade alguma3 e isto nam uma ou outra vez1 o que se-podia perdoar1 e podia enriquecer a lingua1 multiplicando os sinonimos da-mesma palavra3 mas frequentisimamente1 com afetasam manifesta4 ,nace em segundo lugar1 de introduzir palavras1 e frazes1 que nada significam2 o que mais frequente na ,luziada3 porque no-,lirico explica-se naturalmente4 v4g4 ,estas palavras3 som sublimado3 furia grande1 e sonoroza3 esperar jugo1 e vituperio3 tenro gesto3 ,mouro frio3 suprema eternidade3 e outras que se-acham na-invocasam que faz1 a ,el-,rei ,d4 ,sebastiam2 sam palavras que nada significam1 e cauzam confuzam em quem le4 ,nace tambem1 de certas aluzoens forsadas1 e trazidas de longe1 que frequentemente uza4 ,a #f4;a e #g4;a ,estancia1 em que comesa o comprimento ao dito ,rei1 tam oscura1 que nam se-pode intender sem comentario3 e o mesmo podia dizer1 de quazi toda a invocasam4 ,isto acha-se frequentemente1 em todo o poema3 o que unido com a negligencia do-verso1 faz1 como dise um omem douto1 que cada ,estancia seja um misterio3 o que um consideravel defeito1 em um poema ,epico3 cuja disam deve ser1 aindaque nobre1 natural1 clara1 inteligivel4 ,onde quando o ,garcez quer defender1 a clareza de ,camoens2 mostra que nam est despido1 de toda a paixam3 e vem a cair no-mesmo defeito1 que ele condena no-,faria4 ,estes defeitos sam mui consideraveis1 neste ,poeta2 e mostram o pouco dicernimento que tinha1 das-coizas3 e quem os-nam-distingue1 nam intende que-coiza ,poezia4 ,contudo1 tirando estes defeitos1 nam deixa de ser um1 dos-melhores ,poetas ,portuguezes4 ,quanto ao poema de ,filis1 e ,demofonte1 obra do-,chagas1 de que asima falei2 ele tal1 que eu nam sei como lhe-chame4 ,pola figura1 parece ,epopeia3 mas examinado dentro1 nam mais que uma istoria de amor1 mui afetada4 ,reconheso1 que o autor o-deixou imperfeito3 como se-ve do-,canto ,,viii4 que nam tem mais que #e4 ,estancias2 e do-,x4 que tem #ae4 mas o corpo da-obra mostra mui bem1 o que o ,poeta queria4 ,o titulo este3 ,filis1 ou ,poema ,tragico de ,filis1 e ,demofonte4 e nisto se-descobre1 que o ,chagas nam sabia1 que coiza era poema ,epico1 nem como dele se-faziam os titulos4 ,a asm do-poema 1 a navegasam de ,demofonte1 que se-retirava do-sitio de ,troia3 e o ,poeta perde logo de vista este ponto1 e ocupa o poema com amores4 ,no-primeiro e segundo ,canto1 em que descreve a guerra de ,troia1 e o seu naufragio2 imita servilmente ,virgilio1 quazi palavra por-palavra4 ,somente o-nam-imita1 nas comparasoens3 pois sam tam frequentes e enfadonhas1 as que introduz2 que nam se-podem ler sem fastio4 ,o ,,iii4 ,canto uma disputa escolastica1 sobre o amor2 com mil conceitos improprios1 e de rapaz4 ,no-,,iv4 em uma casada ajusta-se o cazamento3 e copeia fielmente ,virgilio1 na cova onde se-retirram os amantes c4 ,o ,v4 ,canto consiste na descrisam do-lago ,averno1 caza de ,plutam1 e outras arengas mais2 em que entra um sacrificio1 que nam se-sabe o que quer dizer3 e finalmente ,demofonte mata ,ardenio4 ,as duas descrisoens do-,palacio de ,plutam1 e da-jornada que este fez2 sam as coizas mais ridiculas1 que eu ainda vi4 ,o ,canto ,,vi4 uma istoria tragica1 dos-amores de uma pastora2 que nada tem que fazer1 com a asm do-poema4 ,mas a melhor istoria est no-,canto ,,vii4 em que o ,poeta reprezenta o seu eroe mui descansado1 polo espaso de dez mezes2 sem que posamos saber1 o que fez nese tempo4 ,despois1 quando ele ja nam cuidava mais em ,atenas1 o-chama seu pai4 custa-lhe a persuadir a ,filis1 que o deixe partir3 mas finalmente parte4 ,o ,,viii4 ,canto nam diz nada4 ,o ,,ix4 uma embrulhada terrvel4 ,comesa com as saudades de ,filis3 esta vai consultar a ,sibila ,delfica1 sobre os sucesos de ,demofonte4 ,descreve a ,sibila e a sua caza mui mal4 ,poem na boca da-,sibila um epizodio1 da-,geografia de toda a terra2 em que mistura umas coizas1 com outras1 e comete alguns erros4 ,mostra-lhe a ,sibila o seu ,demofonte1 adorando a ,florisbe4 ,filis raivoza rompe o espelho magico2 e sucede um espalhafato orrendo4 ,filis fica esa noite no-campo1 7nam se-falando mais no-que sucedeo ,delfia7 exclamando contra as ingratidoens de ,demofonte3 e mata-se com a sua propria mam4 ,e aqui descreve puerilmente1 os efeitos da-sua morte4 ,no-,canto ,x4 torna ,demofonte para ,tracia1 e sabendo a morte de ,filis1 que se-convertra em arvore1 quer abrasla3 e sucede milagre1 que no-mesmo instante produzio a dita1 folhas1 frutos1 e aromas3 os ramos tangram1 e balhram as flores4 ,esta em duas palavras a serie1 e analize do-poema3 na qual ver ,v4 ,p4 que este ,poeta nem menos sabia1 o que significava poema ,epico4 ,esta sua compozisam1 nam tem unidade de asm3 porque toda a asm se-acaba em poucos dias1 com o cazamento3 a viagem ultima1 foi um divertimento4 ,nam tem fabula3 porque se-ve claramente1 que uma istoria1 sem enredo1 nem solusam4 ,a descrisam da-,terra que faz a ,delfia1 nam tem parentesco algum1 com a asm4 isto uma embrulhada1 que eu nam vi tal4 ,a transformasam de ,filis em arvore1 e o milagre das-flores2 outra parvoice1 que ali nam tinha lugar4 ,s faltou ao ,poeta dizer1 que ,demofonte se-enforcra na dita arvore3 e acabava a tragedia4 ,tambem lhe-falta a unidade de tempo c4 ,quanto ao modo de dizer2 em quazi todas as partes se-serve de palavras1 que nada significam3 as frazes sam afetadas3 os conceitos sam pueris3 e quando diz alguma coiza mais estudada1 ve-se uma afetasam condenavel em tudo4 ,ignora totalmente o decoro1 e carater dos-sugeitos3 o que se-ve1 quando introduz no-,canto ,,iii4 um guerreiro como ,demofonte1 disputando uma questam amatoria2 como faria um academico1 a quem encarregasem este asumto3 ou tambem quando deixa uma ,rainha como ,filis1 uma noite inteira1 no-meio de um bosque medonho1 sem companhia2 o que mostra1 a suma inverosimilidade3 alem de muitas coizas1 que podia notar4 ,onde torno a concluir1 que de poema ,epico1 o ,chagas nam sabia nada3 e que pode ,v4 ,p4 aconselhar ao noso 99 99 99 que nam tenha dificuldade1 de emprestar o tal poema2 porque se o-perder1 perde pouco4 ,outro ,portuguez chamado ,francisco ,botelho de ,morais1 e ,vasconcelos1 publicou dois poemas3 um intitulado ,el ,nuevo ,mundo3 cujo argumento 1 o triumfo de ,osiris1 na corte de ,atlantide3 e este nam pude ver4 ,o que porem vi aver anos1 foi o outro poema intitulado1 ,el ,alfonso3 em que com ,,xii4 ,cantos descreve1 a primeira conquista de ,portugal1 por-,afonso ,i4 ,polo que agora me-lembro1 cuido que nam se-pode chamar ,epopeia3 mas uma simplez storia da-dita guerra1 alterada com algumas fabulas3 desorteque nam tem artificio algum1 de ,epopeia4 ,este ,poeta quiz imitar em tudo1 ,lucano3 e nam o-podendo imitar naquilo1 que tem melhor2 somente o-imitou1 nas enfadonhas digresoens1 e exclamasoens1 que s vezes introduz3 sendo uma destas tam grande1 que ocupa um inteiro ,canto4 ,tambem o-quiz imitar na afetasam1 de mostrar-se ,astronomo1 e ,fizico3 pois nos-ultimos cantos1 faz sem necesidade vrios discursos escolasticos1 nesta materia3 a qual1 polo que mostra1 intendia mui pouco4 ,as fabulas sam afetadas1 e com bastantes inverosimilidades3 entre estas ponho a da-,deuza que vinha polo ar1 acavalo em um grande leam c4 os versos sam duros3 e em todo o poema reina1 uma oscuridade insofrivel3 o que creio provm tambem1 de escrever em ,espanhol4 ,nunca pude intender1 por-que razam um ,portuguez deixa a sua lingua1 para escrever na ,espanhola1 que pola maior parte nam alcansa bem4 ,mas esta afetasam mui vulgar1 em muitos destes seus nacionais1 que querem parecer eruditos4 ,isto o que agora me-ocorre1 sobre este ,poema3 o que digo1 porque nam sei se ,v4,p4 tem noticia dele1 por-ser impreso fra de ,portugal4 ,dos-outros ,poetas nam digo nada3 porque sendo uzuais1 do-que tenho dito1 pode ,v4,p4 formar conceito1 das-suas obras4 ,os ,romances1 a que os ,portuguezes chamam ,novelas1 sam verdadeiras ,epopeias em proza2 e devem ser feitos damesma sorte4 ,contudo acham-se poucos1 que meresam este titulo3 pois os ,portuguezes1 e ,espanhoes que se-acham1 nada mais sam1 que istorias de amor mui inverosimeis4 ,o ,telemaco de ,monsieur de ,salignac uma ,epopeia das-mais bem feitas1 e escritas1 que tem aparecido4 ,do-poema ,dramatico direi pouca coiza1 vistoque os ,portuguezes1 nam se-aplicam a ele2 por-se-persuadirem que o ,drama1 nam tem tanta grasa em ,portuguez1 como em ,espanhol4 ,mas este prejuizo comum1 nam tem sombra de verosimilidade4 ,reconheso1 que toda a ,poezia soa melhor1 na lingua ,italiana1 que noutra alguma3 o que confesam os eruditos das-outras ,nasoens1 que chegram a posuir bem1 a lingua ,italiana3 e ainda alguns ,francezes doutos3 nam obstanteque outros queiram1 que a ,franceza seja propria1 para a ,poezia4 7no-que1 com sua licensa1 intendo que dizem muito mal3 porque nam coiza mais insulsa1 que o verso duodecasilabo1 de que uzam comumente os ,francezes1 e o modo de rimar deles4 no-,lirico1 e algumas cantigas1 sam mais toleraveis4 ,mas geralmente falando1 a lingua ,franceza pouco propria1 para a ,poezia3 porque nam tem nervo1 nem armonia7 ,mas o certo que1 despois da-,italiana1 as duas melhores linguas sam1 a ,portugueza1 e ,espanhola4 ,e eu acrecento mais1 que a ,portugueza parece-me mais propria1 para alguns generos de ,poezia1 doque a ,espanhola3 porque sezuda e grave1 e nam tem aquele falso brilhante1 que muitos loucamente admiram1 na ,espanhola4 ,se tiramos as terminasoens em a1 ou am2 e aons1 e oens c4 nam sei que melhoria tenha a ,espanhola1 sobre a ,portugueza2 para dizerem1 que aquela propria para o ,drama1 e esta nam4 ,muito mais grave que a ,espanhola1 a ,latina2 e contudo ninguem lhe-nega1 o poder servir no-,drama4 ,onde1 os que por-este principio deixam de compor ,dramas1 em ,portuguez2 vivem mui preocupados1 e nunca considerram bem a materia4 ,mas a razam ultima 1 porque a estes modernos nam agrada1 o modo de compor1 a ,comedia antiga3 e s se deleitam1 com esta moderna3 7de que parece ter sido inventor1 ,lope de ,vega7 e como esta composta de mil sutilezas1 e coizas semelhantes2 por-iso gostam das-,espanholas1 que abundam disto4 ,mas como este estilo muito mao1 e se-deve praticar outra coiza diferente2 daqui vem1 que devem reconhecer1 que a lingua ,portugueza tam capaz para o ,drama1 como a ,espanhola4 ,o ,drama1 ou seja ,tragedia1 ou ,comedia1 nam mais que uma instrusam1 que se-d ao ,povo1 em alguma materia4 ,a ,tragedia trata1 de algum cazo extraordinario1 sucedido a pesoa grande4 ,com isto se-modra1 a grande ambisam dos-,omens1 ensinando-lhe a conhecer1 que as condisoens desta vida estam sugeitas1 a todas as infelicidades4 ,alguns defeitos se-tem introduzido1 na-,tragedia moderna3 pois devendo ela conter somente1 coizas eroicas2 introduzram muitos1 imitando aos ,espanhoes1 eroes amantes4 ,e ainda os nosos ,italianos1 para agradarem ao ,povo1 que tem secreta inclinasam1 para ouvir estes enredos amantes2 o-praticam3 aindaque os omens inteligentes desprezem este estilo1 que s proprio da-,comedia4 ,nam crivel1 que arte particular se-requer na ,tragedia1 para ser boa4 ,nela se--de ver1 um enredo bem ideiado3 um argumento digno e nobre3 uma elevasam de pensamentos grande3 uma particular arte de excitar as paixoens1 com pinturas exatas1 e discursos proprios das-pesoas que falam3 finalmente tudo -de ser animado1 grande1 singular1 sem ser afetado3 ,o que na verdade mui dificultozo3 e ainda muitos omens grandes1 em algumas destas qualidades2 nam conseguram1 unilas todas4 ,a ,comedia uma pintura1 do-que sucede na vida civil e domestica4 ,ela ensina mil coizas aos ouvintes1 mostrando de nam-querer ensinar1 mas somente divertir3 porem nese mesmo divertimento1 est o ensino3 porque ela pinta desorte1 os defeitos dos-,omens2 que quem os-ve1 ou ouve1 nam pode menos1 que envergonhar-se deles1 e condenlos4 ,este o segredo da-,comedia1 saber imitar bem a natureza2 porem em modo que o-vejamos1 sem advertir-mos o artificio4 ,convem pois com a ,tragedia1 em tudo3 s diversifica no-argumento4 ,e asimcomo na ,tragedia nam basta1 enredar bem um suceso2 mas necesario observar1 a verosimilidade2 desfazer naturalmente1 o n do-argumento1 observando escrupulozamente1 os carateres das-pesoas2 asim tambem a ,comedia3 na qual deve reinar em tudo a naturalidade1 mas judiciozamente disposta3 porque daqui rezulta1 aquela particular galantaria e sal1 que os omens de juizo acham1 nas boas ,comedias4 quando entra nelas afetasam1 acabou-se a grasa4 ,por-este principio digo a ,v4 ,p4 que nunca achei ,comedia ,espanhola1 que se-pudese sofrer4 ,raras vezes o ,espanhol imita a natureza3 reina a afetasam1 e as sutilezas em tudo4 ,o mesmo bobo1 que deveria reprezentar1 a figura de um louco2 fala com tanta descrisam1 como o omem mais eloquente1 e judiciozo3 as molheres todas sam doutoras3 todos dizem grasas1 e agudezas3 e asim nam se-observa1 a verosimilidade dos-carateres4 ,querendo afetar tanta grasa1 sam os omens mais insulsos1 que ainda vi4 ,porque a grasa deixa de o-ser1 todas as vezes que aparece o artificio1 e nam nace das-entranhas da-materia4 ,a nosa ,comedia ,italiana mais natural3 e aindaque alguns tenham introduzido1 outro estilo florido1 os omens mais doutos o-tem desprezado4 ,a nosa lingua propria para galantaria1 e dosura da-,comedia4 ,o ingenho do-,poeta prepra a materia1 para fazer rir3 e a galantaria da-expresam1 ajuda esa mesma materia1 para agradar mais3 o que se-acha frequentemente1 na nosa lingua4 ,na verdade dom da-natureza1 saber inventar materias agradaveis1 e expolas em modo que agradem3 mas alem deste ingenho requer-se juizo1 para saber distribuir as galantarias1 onde devem intrar4 ,parece facil1 o argumento da-,comedia3 contudo dificultoza a execusam3 e sendo tantos os que compoem1 sam poucos os que o-fazem com felicidade4 ,a maior parte daquelas ,comedias1 que em ,cidades inteiras tem tido1 grandes aplauzos2 examinadas de perto1 merecem compaixam4 ,os ,poetas ajuntram muitas ideias ridiculas1 com que pudesem divertir os ignorantes1 e adular as suas inclinasoens3 e como estes sam os mais1 daqui nace1 que se-dam aplauzos a coizas1 que os-nam-merecem4 ,o omem de juizo vai ,comedia1 com outros olhos1 que nam o ignorante1 e rude4 ,este pra na superficie do-que ouve3 aquele penetra com a considerasam1 a intensam do-,poeta3 e quando nam acha o que deve1 em vez de rir1 vem-lhe vontade de chorar4 ,alem do-que asima disemos1 acha-se outro defeito1 no-material das-obras de teatro1 quero dizer1 na sua reprezentasam3 vem aser1 quererem unir em tudo a reprezentasam1 com o original4 ,alguns1 para inspirarem orror1 reprezentam nas ,tragedias1 a morte de um omem1 e outras coizas improprias4 ,era melhor1 que o-matasem detraz dos-bastidores1 para poupar esta descortezia aos ouvintes3 bastando que expuzesem1 o corpo morto4 ,vi algumas vezes nas ,comedias1 intrar omens acavalo em verdadeiros cavalos3 vi carros triunfais tirados por-quatro cavalos brancos2 com perigo de darem quatro coices1 e deitarem abaixo os bastidores2 ou fazerem alguma porcaria no-teatro3 vi arrebentarem bombas1 e foguetes3 vi dar fogo a uma ,cidade1 e uma ,armada3 e muitas coizas semelhantes4 ,mas isto uma impropriedade1 indigna de omens prudentes4 ,a ,comedia imitasam do-natural1 e todos sabem isto3 e asim nam se-devem introduzir coizas1 que desmintam o que ,comedia4 ,muitas vezes ve-se voar um omem1 na ,comedia3 outras vezes um diabrete vivo dece do-teto1 prezo por-uma corda3 parecem-me os bonifrates do-,prezepio1 que tem um arame na cabesa4 ,tambem aquilo de introduzir um ,rei1 e ,rainha em uma camera1 rodiados de soldados armados2 ou aquilo de dar uma batalha sobre o teatro1 nada tem de verosimel3 ,porque nem o ,rei1 quando est falando com a ,rainha1 tem as guardas de corpus na mesma sala3 nem uma batalha se-pode dar1 em quatro palmos de terra4 ,um bom ,poeta dar melhor ideia de uma ,armada1 ou batalha1 com uma famoza descrisam2 e poder com ela inspirar1 sentimentos mais grandes1 e nobres2 doque com aqueles acidentes exteriores1 e improprios daquele lugar4 ,mas o ,povo vai ,comedia1 para a-ver1 e nam para ouvir3 e s fica satisfeito1 com estas coizas4 ,nam asim os omens que podem julgar1 do-merecimento das-obras3 estes nam podem deixar1 de condenar isto2 e sugerir ao ,poeta1 que disponha melhor as suas figuras4 ,isto o que agora me-ocorre4 ,acrecento somente1 que as ,comedias de ,camoens nam me-agradam2 aindaque uma delas parece mais sofrivel4 ,outras que vi modernas em ,portuguez1 tinham mais artificio3 e na verdade eram menos ms4 ,tendo pois apontado a ,v4 ,p4 os defeitos mais comuns dos-seus ,poetas2 segue-se examinar1 se estas reflexoens podem ser utis1 e como o-podem ser aos rapazes4 ,e quanto utilidade1 sem duvida1 que a noticia das-regras necesaria1 para intender os autores3 e a dos-versos1 para intender a diferente armonia das-suas obras3 especialmente na lingua ,latina1 porque a beleza dos-versos consiste1 na sua cadencia4 ,alem diso1 a leitura dos-bons ,poetas1 eleva o intendimento para perceber1 e ajuizar nobremente2 e ajuda muito a ,eloquencia3 e como nam se-posam intender os ,poetas1 sem saber as regras2 necesario ter1 alguma noticia delas4 ,quanto ao modo1 ja dise em outra carta a ,v4 ,p4 que loucura obrigar os rapazes1 a fazerem versos3 e misturar os versos1 com as outras compozisoens2 como se fose coiza necesaria1 para intender o ,latim3 os que fazem isto1 nam intendem a materia3 parece-me que o modo mais natural este4 ,a ,poezia deve-se ensinar1 em uma escola separada1 em que nam se-trate outra coiza4 ,examinando primeiro o rapaz1 se tinha ou nam genio para a ,poezia2 lhe-proguntaria expresamente1 se a-queria seguir3 e quando ele me-disse1 que sim2 e eu com a experiencia vise1 que tinha propensam para iso2 lhe-daria uma arte ,poetica ,portugueza1 feita por-este modo4 ,na primeira parte devem-se conter1 as regras gerais da-,poezia1 e a diversa noticia de poemas3 vistoque as regras sam as mesmas1 em todas as linguas3 e isto istoricamente1 porem ornado com algum exemplo4 ,na segunda parte1 deve-se primeiro tratar1 das-diferentes compozisoens ,portuguezas1 e algumas particulares do-,reino3 e aqui explicar1 como se-frma a ,decima1 ,soneto c4 apontando um exemplo1 em cada coiza3 notando especialmente1 a cadencia dos-versos1 e estilo da-fraze poetica4 ,isto nam parece coiza de momento1 aos que nam sam da-profisam3 mas de infinito preso1 aos que entram em semelhante estudo1 e o-profundam4 ,acham-se mil ,poetas1 que tem veia2 mas porque lhe-falta a doutrina1 pecam contra as leis da-arte1 e nam brilham4 ,neste tempo deve-se propor-lhe uma ,decima1 ou ,soneto escrito c4 que ele nunca vise2 e obriglo a que em escrito1 fasa a analize da-dita obra1 se boa1 ou m2 que defeitos1 ou belezas encerra4 ,este estilo de mandar pr a lisam por-escrito1 serve infinitamente1 para a inteligencia das-coizas que estudam2 e para a memoria3 e repetido varias vezes1 quando ja tem noticia das-regras1 poupa infinitas explicasoens1 e faz-se com toda a felicidade3 e tem o rapaz tempo de considerar1 e emendar4 ,desta primeira parte1 deve pasar segunda1 tambem em ,portuguez2 em que se-trate1 das-particulares compozisoens ,latinas1 e sua versificasam4 ,aqui deve-se repetir o mesmo1 que disemos da-lingua ,portugueza4 ,notar especialmente1 as diferentes frmas de versos1 de que se-formam as diferentes compozisoens ,latinas1 como a ,elegia1 ,epigrama1 ,ode1 ,idilio c4 ,despois a cadencia do-verso1 tanto a simplez1 que comua a todo o poema1 como as particulares3 as suspensoens1 elizoens c4 e as que sam proprias1 de varias paixoens do-animo4 ,despois o estilo e fraze poetica2 que aquele particular idiotismo1 de que se-servem os ,poetas3 que se-compoem de expresoens elevadas1 com que se-vareia muito o discurso2 expondo as coizas grandes1 com muita nobreza2 e as pequenas1 com muita galantaria4 ,finalmente aqueles epitetos proprios1 tam belos no-verso1 como afetados na proza3 e mil outras coizas1 que sam particulares do-estilo poetico1 e que constituem a sua beleza4 ,estas coizas a um rapaz1 que l um poema1 somente para intender a ,latinidade2 nam sam necesarias3 mas a um que quer compor1 sam sumamente importantes3 e sem elas far versos1 mas nam-ser ,poeta4 ,a ,compozisam sera a ultima coiza1 que eu mandse fazer aos rapazes3 porque pede uma memoria1 cheia de muitas especies3 o que nam pode ter um rapaz4 ,deve-se comesar1 polas compozisoens ,portuguezas3 dando asumtos facis1 e nam mandando compor1 senam obras breves2 para terem ocaziam1 de as-emendar4 ,e nesta ocaziam pode o mestre explicar-lhe melhor1 quais sam as expresoens proprias1 para expremir o que quer3 e dar-lhe por-este meio1 uma boa noticia da-sua lingua4 ,com o tempo1 e observando a capacidade do-estudante1 pode ir aumentando1 o numero das-compozisoens3 sendo sempre melhor1 mandar compor uma obra boa1 a um certo asumto1 doque muitas ms1 a diferentes4 ,feito isto1 nam crivel1 quanto se-facilita a compozisam no-,latim4 ,ser pois esta a ultima parte da-compozisam3 tendo a mesma advertencia1 de comesar por-,disticos1 ,epigramas c4 asumtos brevisimos3 pois nam enfastiam os rapazes2 antes com eles se-dezembarasam muito1 para as outras obras4 ,e aqui1 quando o mestre lhe-ensina1 a compozisam ,latina2 lhe-deve ensinar tambem1 o modo de pronunciar o ,latim4 ,certo 1 que a ,lingua ,latina1 despois da-,grega1 excedeo muito as modernas todas1 na armonia das-suas expresoens3 a qual coiza como ns nam sabemos1 por-iso nam achamos nela a beleza1 que achavam os ,antigos4 ,contudo devemos procurar de imitar1 a boa pronuncia3 o que principalmente necesario1 no-verso4 ,quanto aos exemplos1 devem eles ser poucos1 e bons3 e deve o mestre fugir de ,regia ,parnasi1 e outros livros destes1 que estragam o bom gosto da-,eloquencia1 e ,poezia3 porque na leitura dos-melhores autores1 aprende-se melhor4 ,asimque1 nam achando isto feito1 pode o mestre nos-mesmos autores mostrar os lugares1 que sam necesarios3 e encomendar muito aos rapazes1 que os-leiam1 e decorem3 pois s asim se-faz algum progreso1 na ,poezia4 ,desta sorte pode ser1 que ouvesem mais ,poetas bons1 doque nam 2 entre tantos mil versejadores1 que ,v4,p4 est ouvindo todos os dias4 ,a ,poezia nam coiza necesaria1 na ,republica3 faculdade arbitraria1 e de divertimento4 ,e asim nam avendo necesidade de fazer versos1 ou fazlos bem1 ou nam fazlos3 por-nam se-expor s rizadas1 dos-inteligentes4 ,se eu vise que o estudante1 nam tinha inclinasam compozisam1 explicaria brevemente1 as leis poeticas2 que uma erudisam separada da-compozisam1 e que todos podem aprender2 ao menos para intenderem as obras3 e o-deixaria empregar1 no-que lhe-parecse4 ,desta sorte1 livres os estudantes daquele cativeiro1 podiam empregar-se em coizas utis1 e dar outro lustre ,republica4 ,sei1 que nem todos os mestres sam capazes1 de escreverem semelhante arte3 mas se alguem a-fizese1 e se-imprimise2 podia ajudar muito a todos4 ,certo amigo meu1 omem mui douto1 me-dise um dia destes1 que um seu conhecido1 avia pouco tempo tinha acabado um manuscrito1 polo estilo que dizemos4 ,eu ainda o-nam-vi3 mas formo tal conceito de quem mo-dise1 que julgo nam ser mao3 se o-puder conseguir1 nam deixarei de avizar a ,v4 ,p4 ,finalmente com isto acabo esta carta1 que ja me-parece longa3 aindaque se olho para o que devia dizer1 curta4 ,tenho dito nela a ,v4,p4 o que me-ocorreo sobre uma materia1 que aver bastantes anos que deixei3 e conseguentemente nam sei se terei satisfeito1 a sua expetasam1 sobre a ,poezia ,portugueza3 da-qual1 como ja protestei1 tenho pouca noticia4 ,mas ,v4,p4 que me-obriga a falar1 em todas as materias2 deve estar preparado1 para ouvir coizas boas1 mediocres1 e algumas mal ditas4 ,e asim agradesa-me somente a boa vontade1 e promtidam com que obedeso1 ao que me-manda4 ,deus ,guarde c4 ,illustrao ,illustrao ,,carta ,,oitava4 ,,sumario4 ,trata-se da-,filozofia4 ,mao metodo com que se-ensina1 em ,portugal4 ,advertencia das-outras ,nasoens1 em procurar a ,ciencia4 ,necesidade da-istoria ,filozofica1 para se-livrar de prejuizos4 ,ideia da-serie ,filozofica4 ,danos1 e impropriedades da-,logica vulgar4 ,da-se uma ideia1 da-boa ,logica4 ,meu amigo e senhor1 ,dir ,v4 ,p4 que eu sou mui preguisozo em responder1 e conservar a conrespondencia1 com os amigos3 mas se-soubse como eu tenho estado1 reconheceria1 que nam falto1 senam com justificada cauza4 ,eu sou filho da-obediencia2 e esta me-ocupou bastantes dias3 a isto se-seguio1 a minha costumada indispozisam da-cabesa1 que me-impedio ler coiza alguma4 ,tambem me-lembrou1 que tinha remetido a ,v4 ,p4 um proporcionado livro1 com o titulo de carta2 e que nam lhe-faltava que ler4 ,agora livre de algum modo1 de um e outro impedimento2 pego na pena para continuar1 o noso comercio literario4 ,nas duas ultimas me-pede ,v4 ,p4 com instancia1 que me-dilate bem sobre a ,logica1 e que nam me-poupe1 a nenhuma outra parte da-,filozofia4 ,eu nam sei1 se poderei dignamente satisfazer1 a curiozidade que ,v4 ,p4 mostra1 nestas materias3 porque finalmente muito que dizer nelas2 e muitas coizas1 que nam am-de agradar3 mas finalmente direi4 ,lembro-me1 que na nosa ultima conversasam me-dise ,v4 ,p4 que as escolas de ,filozofia deste ,reino1 necesitavam ainda maior reforma1 que as outras3 porque o mao metodo das-escolas baixas1 alguma coiza se-pode emendar com o tempo3 porem uma vez que o estudante comesou a provar1 o ergo1 e atqui1 e a brincar com eles1 e excogitar sofismas1 e metafizicas oscuras2 de tal sorte se-ocupa1 com aquele negocio1 que nam posivel por-lhe remedio3 de que nace1 a confuzam na ,medicina1 ,teologia1 e mais ,ciencias4 ,como ,v4,p4 reconhece de antemam esta verdade1 me-animo a dizer-lhe sinceramente1 o meu parecer4 ,eu verdadeiramente nam sei1 se as escolas de ,filozofia deste ,reino1 tem pior metodo1 que as escolas baixas3 sobre iso avia muito que dizer3 o que sei porem 1 que nestes pazes nam se-sabe1 de que cor seja isto1 a que chamam boa ,filozofia4 ,este vocabulo1 ou por-ele intendamos ciencia1 ou com rigor gramatico1 amor da-ciencia2 vocabulo bem ,grego nestes paizes4 ,ver ,v4 ,p4 que se-d este nome1 a coizas bem galantes3 ,universais1 ,sinais1 ,proemiais1 e outras coizas destas4 ,os pobres rapazes pasam os seus trez e quatro anos1 lendo arengas mui compridas3 e saiem dali1 sem saberem o que lram1 nem o com que se divertram4 ,falo do-estilo das-,universidades3 porque o das-outras escolas o mesmo1 quanto materia2 e ainda pouco diferente1 quanto dispozisam4 ,no-primeiro ano se-pasa com dois tratados1 a que chamam ,universiais1 e ,sinais2 cadaum dos-quais ter quando pouco1 os seus #bj4 cadernos1 de duas folhas3 e ja vi mestre1 que ditou #dj4 cadernos1 somente de ,universais4 ,no-segundo ano acabam-se os ,sinais3 e parte do-ano fala-se muito1 em ,materia ,primeira1 e ,cauzas2 ao que chamam ,fizica4 ,no-terceiro ano estudam-se ,intelesoens1 ,noticias1 ,topicos1 e algumas questoens de ,metafizica1 digo do-,ente em comum3 e com estas quatro1 e as duas do-primeiro ano1 se-faz o ,bacharel4 ,no-quarto explica-se um tratado1 a que chamam ,gerasam e ,corrusam3 e avendo tempo1 outro a que chamam de ,anima in communi4 ,despois fazem concluzoens1 nas ditas materias1 ou semelhantes3 que um ato em que muitas vezes sucede1 que o defendente nam tem1 argumento algum4 ,segue-se o ,licenciado1 que um exame sobre as #f4 materias do-,bacharel1 com mais outras que apontamos3 e temos o omem graduado1 ,filozofo4 ,se isto pode ser bom metodo2 se tais materias podem formar1 um bom ,filozofo2 eu o-deixo considerar1 aos pios leitores4 ,progunte-lhe ,v4 ,p4 aqueles ,universais1 e ,sinais1 de que coiza servem1 quando se acaba a ,filozofia4 ,diga-lhe que lhe-apontem1 em que parte da-,teologia sam necesarios3 que dogma se-explica com tal doutrina3 fasa-lhe outras proguntas destas1 e ver que limpamente lhe-confesam1 que tudo aquilo morre com a escola4 ,se repetir a progunta em outras materias1 concluir o mesmo4 ,e eisaqui tem ,v4,p4 o que significa ,filozofia1 nestes pazes4 ,mas isto sera nada3 o melhor da-festa est1 na satisfasam com que ficam1 de terem estudado tudo aquilo4 ,se alguem lhe-contradiz um ponto2 se alguem quer tomar o trabalho de lhe-mostrar1 que nada daquilo vale um figo2 ou que ,aristoteles nam falou naquele sentido2 ou que a ,filozofia se-deve tratar de outra maneira2 e que asim a-tratam naqueles pazes1 que dam leis ao mundo1 em materia de erudisam2 e ainda em ,roma1 nas barbas do-,papa c4 acabou-se tudo1 e vem o mundo abaixo com gritarias4 ,a tal propozisam uma erezia1 contraria diametralmente ,escritura1 e s definisoens dos-,concilios1 e ,padres2 e ao costume da-,igreja ,catolica2 que canonizou as obras de ,aristoteles1 e tambem a doutrina dos-,arabes4 ,galilei1 ,descartes1 ,gazendo1 ,newton1 e outros destes que a-nam-seguram1 cheiram a ,ateistas2 ou polo menos estam um palmo distantes1 do-erro4 ,estas ,filozofias s reinam1 em pazes de ,erejes4 ,os estrangeiros que defendem isto1 sam quatro bebados1 que impugnam o que nam intendem1 e nam intendem o que proferem4 ,isto1 e outras coizas semelhantes1 tenho eu ouvido algumas vezes4 ,proguntava eu em certa ocaziam a um mestre1 que me-parecia bom omem2 e cujo defeito cuido que era1 nam malicia1 mas ignorancia3 ,tem ,v4,p4 lido nos-originais1 a doutrina de ,descartes1 ,galilei1 ,gazendo1 ,newton tem examinado fundamentalmente1 os que explicram melhor1 a doutrina do-primeiro2 como o ,p4 ,malebranche1 o ,baile1 o ,regis1 o ,le ,grand3 ou os que expuzeram a de ,gazendo1 como o ,saguens1 ,maignan c48 diz1 ,nam senhor4 ,observou1 continuei1 polo menos as objesoens1 que o ,p4 ,genari ,dominicano propoz ao ,saguens1 e ,monsieur ,arnaldo ao ,p4 de ,malebranche em outro sentido2 com as respostas destes ultimos8 diz1 ,nem menos4 ,muito bem3 pois diga-me1 intende ,v4,p4 na sua conciencia1 que pode ser juiz nesta materia1 sem ter examinado1 as razoens de ambas as partes3 e muito mais formar uma censura tam rigoroza1 como condenar a religiam1 dos-que seguem esta ,filozofia8 ,respondeo o omem3 ,na verdade eu nam sou informado1 da-materia3 mas tenho ouvido dizer muito mal dela1 a outros mestres1 de quem eu formo conceito4 ,maravilhozamente3 mas diga-me1 continuava eu1 tem ,v4,p4 certeza1 que eses tais examinasem o que digo2 ou1 aindaque o-examinasem1 que julgasem sem paixam1 e fosem capazes de decidir o ponto3 porque sem isto deve-me conceder1 que nada provam8 ,diz1 ,eles alegavam certas palavras1 de que eu inferi1 que os-tinham visto4 ,mas1 proseguia o dialogo1 poder ,v4 ,p4 mostrar-me1 que dogma se-destrue1 com esta nova doutrina8 ,os acidentes ,eucaristicos1 e todo o sistema da-,grasa4 ,muito bem3 vistoiso temos1 que as frmas acidentais no-sentido de ,aristoteles1 sam de f8 diz1 sem duvida4 ,vistoiso1 ou na ,escritura1 ou por-tradisam nam interrompida1 digo1 polo consenso de todos os ,padres1 definisoens de ,concilios1 ou ,igreja ,romana1 estar determinado isto3 porque eu nam reconheso outros principios1 para fundar propozisam de f4 ,mas atreverse ,v4 ,p4 a mostrar-me1 esa declarasam8 ,declaro1 que eu tambem sou catolico ,romano1 e creio que na ,eucaristia est ,cristo1 debaixo dos-acidentes de pam1 e vinho3 o que digo 1 que os tais acidentes nam sam frmas1 no-sentido peripatetico3 e disto que peso1 esa declarasam de f4 ,concluio ele dizendo3 ,iso nam poso eu fazer1 porque nam tenho visto a materia4 ,bem1 respondi eu1 pois pesa ,v4 ,p4 a um dos-seus amigos1 que lhe-descubra esta revelasam1 ou decreto2 e entam falaremos sobre o particular3 porque agora tem pozitivo impedimento4 ,este dialogo podia-se repetir1 com mais alguns acrecimos2 e executar-se com algumas pesoas1 que ouso falar nestas materias1 com tanta satisfasam2 como se soubesem o que dizem1 e intendesem a materia1 de que falam4 ,eu tive alguns ratos de divertimento1 conversando com alguns destes mestres4 ,eles confundem1 todos os autores modernos2 e sem mais exame os-acuzam1 dos-mesmos erros3 e com estranha dialetica os-condenam1 de ignorancia4 ,como se um omem doutisimo1 nam pudese uma vez1 dizer um despropozito6 ,os que tem erudisam exquizita1 sabem que no-mundo ouve um ,descartes3 e algum deles1 mais raro que mosca branca1 leo alguma coiza1 dos-,principios1 ou ,meditasoens ,metafizicas4 ,e aqui ela3 sobe cadeira1 e vomita mais decizoens1 contra o pobre ,descartes2 doque ele nam dise palavras3 ,e sem examinar1 se ele seguido em tudo1 intende que tudo o que ,descartes dise1 foi1 e recebido1 com a mesma venerasam2 e sam todos obrigados1 a seguilo4 ,em certa jornada que eu fiz1 incontrei em uma estalagem um ,religiozo 99 99 que tivera a felicidade1 de ler ,descartes3 o qual1 conhecendo que eu era ,estrangeiro1 introu logo na materia3 e todo o tempo que durou ceia1 empregou ele em provar1 que1 segundo os principios do-tal ,filozofo1 a ,eucaristia estava somente1 nos nosos olhos4 ,veja ,v4 ,p4 como este intendia bem1 a doutrina dos-,cartezianos6 ,mas eu que vinha cansado do-caminho1 e com fome2 para abreviar a disputa concedi tudo1 e meti-me na cama4 ,nam acho melhor modo de responder1 a esta sorte de gente4 ,eu certamente nam sou ,carteziano1 porque me-persuado1 que o tal sistema em muitas coizas1 mais ingenhozo1 que verdadeiro3 mas confeso a ,v4 ,p4 que nam poso falar no-tal ,filozofo1 sem grandisima venerasam4 ,este grande omem1 na ,matematica foi insigne1 e inventou algumas coizas1 at ali ignoradas2 e promoveo outras com felicidade4 ,em materia de ,filozofia1 acho que foi inventor1 de um sistema novo4 ,isto nam parece nada1 aos ignorantes3 mas aos omens que intendem1 qual a dificuldade de inventar1 e inventar com tanta propriedade2 que ainda despois de descubertas as machinas1 grande parte das-experiencias esteja da-sua parte2 sinal de um ingenho elevadisimo1 e de grande criterio4 ,alem diso ele foi o primeiro1 que abrio a porta1 reforma dos-estudos3 pois aindaque ,bacon de ,verulamio1 e ,galileo ,galilei1 tivesem indicado o metodo1 de fazer progresos na ,fizica2 e alguns outros os-fosem imitando2 certo porem1 que ,descartes foi o primeiro1 que fez um sistema1 ou inventou ipoteze2 para explicar todos os fenomenos naturais3 e por-este principio1 abrio a porta aos outros1 para a reforma das-,ciencias4 ,e aindaque em tudo nam acertse2 tambem certo1 que se ele nam fose o primeiro1 os outros nam teriam cuidado1 de emendar os seus erros1 e de adiantar os estudos1 como estam oje4 ,onde com todos estes principios1 nam poso sofrer1 que omens totalmente ignorantes da-materia2 e que nam sabem de ,descartes mais1 que o nome2 e aindaque o-leiam1 nam tem olhos para o-intender3 ainda asim tam indignamente o-tratem2 e injuriem um omem1 de quem eles nam seriam capazes1 de serem amanuenses4 ,se estes censores tivesem lido1 a istoria das-,ciencias1 e do-restablecimento delas1 desde o ,concilio de ,trento a esta parte2 formariam diverso conceito destas coizas3 e nam vomitariam tantos improperios1 contra os modernos ,filozofos3 como eu vejo todos os dias1 em varios autores1 que podendo mostrar1 o seu merecimento2 o-perdem todo1 quando entram a falar nestas materias1 com tanta seguransa1 como os que as-tem bem estudado4 ,dizem mil falsidades1 que nunca sucedram3 fingem definisoens1 que nunca se-sonhram3 confundem a doutrina revelada1 com as opinioens da-,escola3 e querem que os ,,ss4 ,,pp4 aprovasem profeticamente1 a ,escolastica2 que se-inventou alguns seculos1 despois d'eles mortos4 ,esta a celebre cantilena destes mestres1 principalmente deste ,reino3 ,a qual provm1 da-grande ignorancia em que se-vive1 da-,istoria antiga1 e moderna1 e dos-estilos dos-outros pazes3 do-pouco conhecimento que tem1 de livros3 e finalmente de quererem ser mestres1 em uma materia1 em que ainda nam foram dicipulos4 ,sei1 que a maior parte dos-,omens1 vive mui satisfeita1 dos-estilos1 e singularidades do-seu paz3 mas nam sei1 se quem requinte este prejuizo com tanto exceso1 como os ,espanhoes1 e ,portuguezes4 ,observo1 que os ,francezes1 ,inglezes1 ,olandezes1 que nam sam dos-que tem pior opiniam1 e com razam1 de si2 aproveitam-se com todo o cuidado1 dos-excesos que lhe-levam1 as outras ,nasoens4 ,os ,francezes1 mandam muita gente a ,roma1 para se-aperfeisoarem na ,architetura1 ,escultura1 ,pintura2 e em tudo o que pertence1 s antiguidades ,romanas4 ,sabem que estas artes1 se-conservram sempre em ,roma1 com distinsam3 reconhecem1 que os ,romanos posuem o melhor1 que neste genero nos-deixou a ,antiguidade2 e pode fugir barbaridade1 dos-incendios de ,roma3 e asim mandam l os omens mosos e inteligentes1 para beberem o bom gosto1 da-,antiguidade4 ,muitos ,senhores ,inglezes1 ,olandezes1 ,francezes1 ,alemaens1 que correm o mundo1 para formarem os costumes2 demoram-se tempo bastante em ,roma1 e nas principais ,cidades de ,italia2 para observarem escrupulozamente1 todas as antiguidades ,romanas3 e verem com os seus olhos aquilo1 de que estam cheios os livros4 ,eu acompanhei alguns deles1 que faziam estas observasoens2 e os-achei sumamente instruidos1 nas antiguidades ,gregas1 e ,romanas3 e com dezejo exorbitante1 de verem com os seus olhos1 e aprenderem o que nam sabiam3 e faziam gloria de estudar1 o que ignoravam4 ,polo contrario vejo1 que os nosos ,italianos se-aproveitam bem1 das-belas edisoens de livros1 e outra erudisam exquizita1 que se-acha nos-livros1 destas nasoens ,ultramontanas3 e que ainda em materias de ,ciencias1 se-reglam polo metodo1 das-,universidades de ,sorbona c4 das-,academias ,regias de ,londres1 ,pariz1 ,s4 ,pietroburgo1 c4 por-conhecerem1 que ali se-exercitam melhor2 e dali saiem as melhores obras4 ,isto verdadeiramente conhecer1 o merecimento de cada coiza4 ,mas observo tambem1 que este metodo ignorado nas ,espanhas1 e mui principalmente em ,portugal3 onde vejo desprezar1 todos os estudos ,estrangeiros1 e com tal empenho2 como se fosem maos costumes1 ou coizas muito nocivas4 ,lembro-me a este intento1 da-istoria do-,espanhol de ,amsterdam4 ,nela viviam em uma estalagem1 um ,espanhol1 e um ,cavalheiro ,florentino4 ,retirando-se este um dia a caza1 proguntou ao ,espanhol1 que lhe-parecia ,amsterdam3 a belisima dispozisam da-,cidade no-material1 e formal3 a liberdade do-trato1 contida dentro dos-limites do-justo3 emfim ia-lhe repetindo uma por-uma1 todas as singularidades de ,amsterdam2 e sobre cada uma lhe-proguntava1 o que lhe-parecia4 ,mas o ,espanhol1 abanando a cabesa1 nam respondia palavra4 ,at que o ,florentino enfadado lhe-dise3 ,valha-me ,deus1 s vos a-de ser singular neste mundo1 nos-seus gostos2 e s a um ,espanhol nam -de agradar1 uma ,cidade como ,amsterdam1 em que todos tem tanto que admirar8 ,a isto respondeo o ,espanhol mui laconico3 ,vaya1 para pintada4 ,esta mesma resposta1 com pouca diferensa1 me-tem dado alguns1 em outras materias4 ,quando se-vem obrigados com exemplos a reconhecer1 que os ,estrangeiros lhe-levam1 consideravel exceso2 respondem rindo1 que asim 3 mas que somente 1 em coizas inutilisimas4 ,isto suposto acho1 que o melhor modo de dezinganar esta gente1 e mostrar-lhe os seus prejuizos2 1 por-lhe diante dos-olhos1 uma breve istoria1 da-materia que tratam3 e persuado-me1 que este o mais necesario prolegomeno1 em todas as ,ciencias4 ,creia ,v4 ,p4 que com esta noticia1 poupa-se muito trabalho1 e muito estudo3 adianta-se um omem muito1 na inteligencia da-materia3 e s asim fica capaz1 de ouvir o que deve1 e dezinganar-se por-simesmo4 ,asimque intendo1 que por-esta istoria se-deve comesar4 ,nam digo1 que o estudante deva saber1 as opinioens de todas as setas de ,filozofia2 mas ao menos quando comesram3 quais foram as mais famozas3 em que coiza comumente se-distinguiam3 e como se-continuram4 ,a ,filozofia o conhecimento das-coizas1 que neste mundo2 e das-nosas mesmas asoens1 e modo de as-regular1 para conseguir o seu fim4 ,em todos os ,povos do-mundo1 e em todos os tempos achamos omens1 que mais ou menos se-aplicram1 a estas coizas4 ,mas o noso estudante nam necesario1 que suba tam alto3 basta que conhesa1 os ,filozofos da-,grecia4 ,toda a ,filozofia ,grega se-dividio ao principio1 em duas setas2 de que nacram4 todas as outras3 estas duas sam a ,jonica1 e ,italica4 ,a ,jonica fundou ,thales ,milesio1 um dos-sete ,sabios da-,grecia2 o qual1 como diz ,diogenes ,laercio1 naceo #fdj4 anos antes de ,cristo4 ,foi grande ,astronomo1 ,geometra1 ,filozofo1 e escreveo muito de ,fizica4 ,teve varios dicipulos1 que se-ensinram sucesivamente3 ,anaximandro1 ,anaximenes1 ,anaxagoras1 ,archelao1 e ,socrates4 ,este ,socrates foi aquele grande omem1 que encheo de admirasam a ,antiguidade3 e alguns dos-nosos ,,ss4 ,,pp4 se-empregram1 na sua defeza4 ,socrates teve muitos dicipulos1 que fundram escolas separadas4 ,aristipo fundou a escola ,cirenaica1 ,phedo a ,eliaca1 ,euclides a ,megarica1 ,antistenes a ,cinica3 da-qual naceo a ,estoica1 que foi famoza3 porque ,menedemo ultimo profesor da-,cinica1 foi mestre de ,zenam1 que fundou a ,estoica4 ,damesma escola de ,socrates tendo saido ,platam1 fundou a ,academica4 ,cadauma destas escolas se-diversificava nas opinioens3 o que necesario1 que o estudante advirta4 ,platam foi o mais insigne discipulo1 de ,socrates3 naceo #dbh4 anos antes de ,cristo3 e foi o primeiro que compreendeo1 as trez partes da-,filozofia4 ,na ,fizica seguia os sentimentos1 de ,eraclito1 que se-reputava o melhor ,fizico3 na ,metafizica seguia em tudo1 a ,pitagoras3 e no-,moral1 e ,politico seguia a doutrina1 de ,socrates2 poisque somente ao ,moral1 este se-aplicra4 ,a escola de ,platam se-dividio em duas1 ,academica1 e ,peripatetica4 ,a primeira continuou os dogmas de ,platam3 donde vem1 que ,platonicos1 e ,academicos significam a mesma coiza4 ,nela sucedeo a ,platam1 seu sobrinho ,speusippo2 a este ,xenocrates1 ,polemon1 ,crantor1 e ,crates4 ,a ,crates sucedeo ,archesilao dicipulo de ,crantor1 e tambem de outro ,filozofo chamado ,pyrrho3 do-qual ,pyrrho aprendeo1 um novo metodo de filozofar2 com o qual fundou a ,academia ,media1 que durou at ,carneades4 ,este ultimo1 fazendo nela alguma reforma1 instituio a ,academia ,nova2 que durou at ,antioco3 que foi o ultimo dos-,academicos1 e foi mestre de ,marco ,tullio ,cicero4 ,a ,peripatetica fundou ,aristoteles1 dicipulo de ,platam4 ,diz ,cicero1 que somente se-diversificava da-,platonica1 nas vozes2 mas nam nos-sentimentos e opinioens4 ,dava ,aristoteles as suas lisoens1 no-,liceo3 e continuou a escola nos-seus sucesores1 at ,diodoro2 que se-conta por-ultimo ,peripatetico3 desorteque ja nos tempos de ,cicero1 esta escola se-achava mui descaida4 ,a outra seta de ,filozofia1 a que chamam ,italica1 foi fundada por-,pitagoras1 naquela parte de ,italia1 a que chamram ,magna ,grecia4 ,este ,pitagoras florecia #efd4 anos antes de ,cristo3 e despois de longuisimas perigrinasoens1 para aprender2 se-estableceo em ,crotona ,cidade de-,calabria3 e ensinou com grande aplauzo1 a ,filozofia4 ,esta seta foi famozisima1 pola frequencia dos-ouvintes1 e pola sua durasam4 ,dela nacram varias3 a ,eleatica1 que uns atribuem a ,xenocrates1 outros a ,democrito4 ,anaxarcho ultimo dos-,filozofos ,eleaticos1 foi mestre de ,pyrrho1 que fundou a seta ,pyrrhonica1 ou ,sceptica4 ,tambem da-,eleatica saio a ,epicureia1 uma das-mais celebres setas da-,antiguidade2 e talvez a que durou mais3 pois no-segundo seculo da-,igreja1 ainda estava em flor4 ,estes sam os diversos ramos1 da-seta ,italica4 ,tambem um seculo despois de ,cristo comesou outra1 a que chamram ,ecletica1 a qual teve bastantes dicipulos4 ,o seu principal instituto era1 nam jurar nos-dogmas de nenhuma seta3 mas tirar de todas1 o que parecia melhor4 ,de alguns destes ainda temos as obras3 o ultimo foi ,damascio4 ,esta seta agradou muito aos ,padres1 dos-primeiros seculos da-,igreja2 porque parecia a mais racionavel4 ,estas sam as diferentes setas1 da-antiga ,filozofia4 ,destas a ,academica1 ,estoica1 ,pyrrhonica1 ,epicureia1 e ,peripatetica1 durram na ,grecia com pouca diferensa1 at o tempo de ,augusto1 quero dizer1 at ,cristo4 ,nos-ultimos dois seculos da-,republica ,romana achamos1 que os ,romanos comesram a estudar1 a ,filozofia4 ,nam que eles fundasem setas1 como os ,gregos2 mas iam estudar ,grecia3 ou serviam-se em ,roma dos-,gregos1 que vinham ,italia3 e seguiam quem uma1 quem outra seta de ,filozofia ,grega4 ,pola maior parte eram ,academicos1 e ,estoicos3 alguns foram ,epicureos3 rarisimo ,peripatetico4 ,os livros de ,aristoteles1 que ele deixra a ,theophrasto seu discipulo1 este os-deixou a ,neleo3 os erdeiros do-qual1 para os-roubar curiozidade d',el-,rei de ,pergamo1 de quem eram suditos2 o qual procurava livros1 para a sua ,biblioteca2 os-enterrram3 d'onde foram cazualmente tirados1 polos seus decendentes2 que os-vendram a ,apellico ,ateniez1 quazi todos comidos da-umidade4 ,onde1 para se-copiarem1 foi necesario encher1 todos os vazios da-corrusam3 com o que sensivelmente se-alterram1 as opinioens4 ,despois da-morte de ,apellico1 ,silla ,ditador ,romano os-transportou de ,atenas1 para ,roma2 e se-entregram a ,tiraio1 para os-emendar1 e dispor em melhor ordem4 ,e tendo-se feito muitas copias1 sem as conferir com os originais2 foi pior o suceso em ,roma1 que nam tinha sido em ,atenas4 ,comesou entam a ser conhecido melhor1 este ,filozofo3 e os ,romanos comesram a fazer uzo1 principalmente das-suas doutrinas politicas4 ,entre os ,filozofos ,romanos singularizou-se ,cicero2 ouveram tambem alguns outros1 de que ainda temos as obras4 ,at que finalmente1 com a ruina do-,imperio no-,ocidente1 se-arruinou tambem1 a noticia das-,ciencias4 ,nos-principios do-,,viii4 seculo de ,cristo1 os ,principes ,arabes dicipulos de ,mahomet1 os quais uzurpram grande parte da-,africa1 ,azia1 ,grecia1 ,espanha1 e ,sizilia2 nas invazoens que fizeram1 nas ,cidades da-,grecia1 entre os roubos com que se-recolhram1 foram alguns dos-livros dos-seus autores4 ,e agradando-se destes estudos1 fizeram em modo1 que ,almanon ,califfo ou ,imperador ,saraceno1 no-ano #hbj4 mandou pedir ao ,imperador de ,constantinopoli1 aonde as ,ciencias ainda se-conservavam2 os melhores livros ,gregos2 os quais se-mandram traduzir em ,arabio4 ,nam sendo o genio dos-,arabes inclinado a ,poetas1 ,istoricos1 e ,oradores2 somente se-aplicram aos ,filozofos1 e ,matematicos3 e entre eles escolhram trez1 que foram1 ,aristoteles1 ,ipocrates1 e ,galeno4 ,aplicram-se a estas ,ciencias2 e principalmente ,chimica1 ,magia1 ,geometria1 ,algebra1 e ,fizica4 ,fundram ,universidades em ,tuniz1 ,tripoli1 ,fez1 ,marrocos1 e algumas partes da-,espanha3 d'onde saram alguns omens insignes1 para aquele tempo3 ,entre os quais se-singularizou ,averroes2 o qual na ,universidade de ,cordova1 fez o seu grande comento1 sobre ,aristoteles1 no-meio do-seculo duodecimo4 ,neste meio tempo a fama de ,aristoteles1 que estava tam bem establecida1 entre os ,arabes2 comesou a divulgar-se1 entre os ,cristaons4 ,a comunicasam que os ,napolitanos tinham1 com os ,sizilianos1 lhe-deu noticia dos-estudos1 establecidos entre os ,arabes da-,sizilia4 ,tambem a vizinhansa da-,fransa com a ,espanha1 abrio a comunicasam aos estudos3 e se-cre1 que por-este meio pasram a ,fransa1 os livros de ,aristoteles2 e intrram na ,universidade de ,pariz4 ,ja l sabiam1 que avia ,dialetica1 e a-estudavam3 mas da-,fizica ,aristotelica1 nada sabiam4 ,finalmente ou para poderem disputar com os ,judeos1 e ,maometanos1 como fundadamente suspeita ,monsieur de ,fleury2 ou por-outra razam que nam se-sabe2 os ,teologos recebram benignamente ,aristoteles1 e pouco a pouco o-introduzram1 na ,teologia4 ,os primeiros foram introduzindo as ,dialeticas1 como ,abellardo1 ,roberto ,pullo1 ,pedro ,poitiers1 e alguns outros no-duodecimo seculo4 ,daqui pasram a introduzir1 as doutrinas ,fizicas3 o que sucedeo1 no-seculo decimoterceiro4 ,os primeiros foram ,alberto ,magno1 ,alexandre de ,ales3 despois ,tomaz de ,aquino1 e alguns mais4 ,despois de ,s4 ,tomaz veio ,escoto1 que fundou escola separada3 e despois deste1 seu dicipulo ,okam tambem ,franciscano1 fundador da-seta dos-,nominais4 ,demodoque despois do-seculo ,,xiv4 a ,filozofia se-dividia em trez setas1 ,tomistas1 ,escotistas1 e ,okamistas3 as quais com alguns mudansas durram1 at o ,concilio de ,trento1 celebrado no-meio do-seculo ,,xvi4 ,nam falo no-metodo de ,raimundo ,lullo de ,maiorca1 porque pola sua oscuridade1 nam teve sequazes3 excetuando alguns ,maiorquinos1 mais loucos que ele4 ,no-ano #aefe4 ,bernardo ,telesio de ,cosenza em ,italia1 publicou a sua ,filozofia1 que teve alguns sequazes4 ,pouco despois ,jordano ,bruno ,dominicano1 publicou muitos livros1 em que1 entre algumas coizas boas1 dise muita estravagancia2 sobre o ,universo infinito1 e diversos mundos4 ,despois deste1 ,tomaz ,campanela1 tambem ,dominicano ,calabrez1 publicou algumas obras de ,filozofia1 quazi segundo os principios do-,telesio4 ,neste mesmo seculo ,,xvi4 do-meio para diante1 quero dizer1 polos tempos do-,concilio de ,trento1 comesou a establecer-se o sistema ,fizico-celeste1 de ,nicolao ,copernico3 que resucitando a opiniam de ,filolao1 e ,eraclides ,pontico1 sobre o movimento da-terra arredor do-,sol2 teve muitos sequazes1 que asentram1 ser um sistema preferivel aos outros4 ,no-fim do-seculo ,,xvi4 saio luz o sistema de ,tico ,brahe1 que tambem teve sequazes4 ,mas ninguem mais deo tanta luz ,fizica1 quanta ,francisco ,bacon de ,verulamio ,chanceler mr de ,inglaterra3 o qual no-fim do-mesmo seculo1 e principio do-seguinte1 apontou o verdadeiro metodo de adiantar a ,fizica1 em belisimas obras que a este intento nos-deixou2 principalmente de ,augmentis ,scientiarum1 e de ,novo ,organo4 ,eu considero as especulasoens deste grande omem1 como a mais famoza epoca1 da-verdadeira ,filozofia3 porque observo de entam para diante1 uma total mudansa1 e adiantamento sempre para o melhor4 morreo polos anos #afcf4 de anos #ff4 ,no-mesmo tempo de ,bacon1 no fim do-,,xvi4 e principios do-,,xvii4 floreceo o insigne ,galileo ,galilei ,florentino2 que seguindo os ditames de ,bacon1 uzou da-,matematica1 para explicar a ,fizica3 e aumentou sensivelmente a ,mecanica3 a qual desde ,archimedes at o seu tempo1 quazi nada se-tinha adiantado4 ,ele descobrio muitas leis1 do-movimento dos-corpos1 tanto solidos1 como fluidos2 e tambem da-,gravidade1 e da-,luz1 e do-,som c4 desorteque pode-se dizer1 que ele foi o que comesou a servir-se1 da-boa ,fizica4 morreo em #afdb4 de anos #gh4 ,comesado o seculo ,,xvii4 florecram ,descartes1 e ,gazendo3 que dando um paso mais adiante1 descobriram mais terra1 e comesram a abrir os olhos ao mundo4 ,ja se-sabe as disputas1 que os ,peripateticos tiveram1 com estes novos ,filozofos2 e as injurias1 que contra eles vomitram4 ,desde o fim do-,concilio de ,trento1 em que os melhores ,teologos tinham aberto os olhos1 sobre a ,teologia2 e comesado a intender1 que nam se-devia misturar com ela1 a ,peripatetica2 tinha esta descaido muito3 mas nam tanto1 que muitos ,regulares nam intendesem1 que devia ser a mimoza entre as mais4 ,de que nacia1 que com todo o empenho a-defendiam3 porque1 a falar verdade1 nam intendiam mais1 nem tinham outras noticias4 ,mas despois que se-viram atacados1 por-estes modernos ,filozofos2 os quais nos-principios deste seculo conspirram todos1 para abrir os olhos1 ao mundo ,literario2 nam querendo os velhos1 perder as suas conquistas1 fizeram um espalhafato orrendo3 e o menos que diseram foi1 que se-tinha levantado uma nova perseguisam1 na ,igreja ,catolica2 com a publicasam destas ,filozofias4 ,mas como isto eram balas de lan1 e palavras sem fundamento1 nem verosimilidade2 nam faziam brecha4 ,polo contrario os ,modernos despediam1 constantes experiencias1 que eram balas eficazes4 ,em modo tal que a dita ,filozofia foi-se continuando1 e com forsa3 e s os ,regulares1 e nem todos1 seguiam a ,peripatetica4 ,a introdusam das-,academias ,experimentais1 deu novo esforso1 a esta ,filozofia4 ,despois da-morte de ,cartezio no-ano #afdj41 e a de ,gazendo no-de #afee42 tinham comesado as ditas ,filozofias1 a aquistar credito3 mas ainda com algum medo2 pois nam tinham toda a necesaria protesm1 que tiveram pouco despois4 ,nam foi senam despois que se-abrio1 a ,academia de ,londres no-ano #affb4 ou #fc4 e a de ,pariz no-#afff41 que as ,ciencias naturais se-continuram1 com empenho3 asistindo-lhe os ,reis1 com o dinheiro e protesm4 ,dilatou-se aindamais este costume1 porque o ,imperador ,leopoldo no-ano #afgj4 movido do-bom suceso das-duas ,academias2 fundou tambem1 ou1 melhor direi1 protegeo uma ,academia ja comesada1 com o nome de ,academia dos-,curiozos da-,natureza4 ,el-,rei de ,prusia em #agjj4 fundou tambem a sua ,academia experimental4 ,os nosos ,italianos fizeram o mesmo4 ,o ,conde de ,marsilli em #agab4 instituio uma em ,bolonha1 que tambem famoza3 em ,padua e outras partes abrram-se outras4 ,em #agbe4 a ,imperatriz ,catarina abrio em ,s4,petroburgo em ,moscovia1 outra famoza3 deixando por-agora outras muitas1 que se-abriram em diferentes partes da-,europa4 ,esta dilatasam de estudos naturais chamou a si1 todos os melhores ,filozofos1 principalmente os ,seculares4 ,tambem alguns ,regulares1 nos-fins do-pasado seculo1 comesram a deixar1 as sutilezas de ,aristoteles4 ,porem neste ,,xviii4 seculo infinitos se-tem declarado1 contra o antigo estilo2 e ensinam publicamente1 a ,filozofia moderna4 ,em ,italia1 e ainda em ,roma1 por-toda a ,fransa1 ,alemanha c4 se-tem divulgado este metodo3 e os mesmos ,regulares1 que ao principio o-tinham proibido1 nam tem oje dificuldade alguma1 em defendlo4 ,verdade 1 que algumas ,religioens anda o-nam-aprovram3 mas tambem certo1 que muitos leitores delas sam declaradamente1 ,filozofos modernos4 ,os doutisimos ,dominicanos1 e ,jezuitas1 que pareciam os mais empenhados1 polo antigo metodo2 comesram a admetir1 a nova ,filozofia3 nam s em ,fransa1 mas ainda em ,italia4 ,e eu sei de certo1 que em algumas partes de ,italia os ,jezuitas1 vendo que nas suas escolas e colegios1 faltavam consideravelmente os estudantes1 que concorriam a outros estudos publicos2 se-vram obrigados1 a reformar o antigo metodo1 e introduzir os estudos novos4 ,tam persuadidos estam todos oje1 que o antigo metodo nam serve1 para coiza alguma4 ,esta1 em poucas palavras1 a serie da-,filozofia3 na qual se-compreende mui bem1 com quam pouca razam estes mestres de ,portugal1 condenem uma coiza2 que est tam bem introduzida3 e nam entre ,erejes1 como eles dizem1 mas entre ,catolicos mui pios1 e doutos4 ,e tambem se-conhece1 com quam pouca razam queiram persuadir-nos1 que os ,,ss4 ,,pp4 aprovram1 a doutrina de ,aristoteles3 pois nam sendo ela1 ou polo menos esta que pasa1 com o nome de ,aristoteles2 conhecida antes do-seculo ,,xiii4 bem claro1 que os ,,pp4 nam podiam aprovar uma coiza1 que nam conheciam1 nem intendiam1 que naceria no-mundo4 ,seguro a ,v4 ,p4 que se estes mestres1 que oje exaltam tanto ,aristoteles1 conhecesem os ,,pp4 nam polo sobrescrito1 mas por-dentro2 e tivesem bem examinado as suas obras2 ficariam envergonhados1 da-sua grande ignorancia1 e talvez temeridade3 pois veriam nos-escritos dos-,padres1 que nada mais encomendam1 que deitar fra das-escolas ,aristoteles3 evitar todos os sofismas da-,dialetica3 e propor as suas razoens1 com a maior clareza posivel4 ,aprovavam na verdade1 a boa ,dialetica2 mas despida totalmente de arengas4 ,e nesta paz se-continuou1 at o undecimo seculo3 no qual1 como asima digo1 introduzram nas escolas1 estas embrulhadas4 ,desorteque a examinar bem o negocio1 ,aristoteles mui moderno1 nas escolas ,catolicas3 e ainda nesas nam durou1 senam at o ,concilio de ,trento3 pois de entam para c pouco a pouco se-abrram os olhos ao mundo3 e oje todos os-tem mui bem abertos4 ,intendido isto muito bem1 com o que se-poupam mil respostas1 e embarasos a cada momento2 deve o estudante pasar1 para a ,filozofia4 ,mas necesario1 que primeiro intenda1 que coiza ela 2 para nam se-embrulhar1 com as costumadas confuzoens da-,escola4 ,eu suponho que a ,filozofia 1 ,conhecer as coisas polas suas cauzas3 ou conhecer1 a verdadeira cauza das-coizas4 ,esta definisam recebem os mesmos ,peripateticos1 aindaque eles a-explicam1 com palavras mais oscuras3 mas chamem-lhe como quizerem1 vem a significar o mesmo4 v4 g4 ,saber qual a verdadeira cauza1 que faz subir a agua na siringa1 ,filozofia3 conhecer a verdadeira cauza1 porque a polvora aceza em uma mina1 despedasa um grande penhasco1 ,filozofia3 outras coizas a esta semelhantes1 em que pode intrar1 a verdadeira noticia das-cauzas das-coizas1 sam ,filozofia4 ,mas como no-conhecer as cauzas das-coizas1 principalmente naturais1 pode aver ingano2 e muitas vezes nos-inganemos1 tomando uma coiza por-outra3 alem diso como nos-mesmos discursos1 com que nos-querem persuadir alguma coiza1 suceda frequentemente ingano1 cuberto com aparencia de verosimilidade2 ao que chamam ,sofisma1 ou ,paralogismo3 daqui vem1 que cuidram os omens1 em fugir estes inganos1 e descobrir o vicio do-discurso1 paraque nam caisemos nele4 ,isto primeiro comesou1 sem arte alguma3 mas cazualmente um omem descobrio um erro1 outro descobrio outro1 e asim os mais4 ,alguns dos-quais1 fazendo uma colesam destas observasoens1 fizeram tratados1 em que se-pudese aprender1 o modo de nam se-inganar4 ,a isto chamram ,logica ou ,dialectica3 que muito mais antiga que ,aristoteles3 mas ele foi o que a-compilou com melhor metodo1 a respeito do-seu tempo3 aindaque muito imperfeita1 se olhamos para o noso4 ,quem fose o autor desta colesam1 notar o estudante1 quando ler a istoria da-,filozofia4 ,os ,antigos dizem1 que foi ,zenam ,eleates1 que a-ensinou a ,socrates3 este a ,platam3 do-qual a recebeo ,aristoteles4 ,mas esta ,logica ,socratica1 era por-outro estilo1 e convencia com proguntas4 ,platam era um pouco mais dogmatico4 ,comumente se-cre1 que ,speusippo1 e ,aristoteles1 ambos dicipulos de ,platam1 guiados polos discursos dele1 fizesem no-mesmo tempo1 e cada um parasi1 esta nova colesam1 e acrecentasem muita coiza sua3 os ,estoicos com o tempo1 acrecentram muitas mais4 ,seja como for1 o cazo 1 que os ,antigos reconhecram1 que para conhecer1 e discorrer sem ingano1 sobre as cauzas de todas as-coizas2 necesario observar algumas regras1 a que quizeram chamar1 ,logica4 ,desorteque esta chamada ,logica1 nenhuma outra coiza mais1 que um metodo e regra1 que nos-ensina a julgar bem1 e discorrer acertadamente4 ,asimque establecido este importante ponto1 fica claro1 que se-deve abrasar aquela ,logica1 que conduz a este fim3 e fugir qualquer outra1 que nos-desvia dele4 ,tendo percebido este ponto1 nam pode aver duvida1 sobre o cazo que devemos fazer1 desta chamada ,logica dos-,escolasticos3 basta examinar1 se o que se-ensina com este nome1 util1 ou prejudicial1 para julgar1 e discorrer bem4 ,porque se achamos1 que nam conduz2 saie por-legitima consequencia1 que se-deve deixar1 e estudar outra coiza mais util4 ,ora eu creio1 que sem grande trabalho se-conhece1 que esta ,logica vulgar1 nam d nenhuma utilidade1 antes cauza suma confuzam4 ,os ,proemiais sam a coiza mais inutil do-mundo4 ,com a simplez explicasam1 do-que ,logica2 sabe um estudante quanto basta1 para intrar nela1 e ser um grande ,logico3 toda a outra noticia util se-pode aprender1 em uma advertencia1 a que chamam notando4 ,que a ,logica tenha por-objeto1 os atos do-intendimento1 ou as coizas1 ou os modos de saber2 nada serve para discorrer bem3 o que importa 1 ter boas regras1 e sablas uzar bem4 ,aqueles ,universais1 e ,sinais sam coizas indignas de se-lerem3 o menos que neles acho1 a inutilidade3 o pior o metodo3 parecem a mesma confuzam3 e de talsorte embrulham a mente1 de um pobre principiante1 que nam facil ao despois1 intender bem coiza alguma4 ,em lugar de facilitarem a um rapaz1 a inteligencia das-coizas2 o-confundem com uma quantidade de sofismas1 e sutilezas1 tam fra de propozito2 que eu nam sei1 como os mestres nam fazem escrupulo1 de perderem tam inutilmente o tempo4 ,acrecento a isto1 a inutilidade3 pois para nenhuma parte das-,ciencias serve aquilo4 ,o mais que se-tira dos-,sinais saber1 que as vozes servem1 para declarar as ideias da-mente1 e os afetos da-alma3 e que mediante as vozes comunicamos aos outros1 o que intendemos1 e queremos4 ,que as vozes nam excitam nos-que ouvem1 as ideias de quem as-profere1 por-virtude alguma natural1 que tenham para iso3 mas porque asim o-determinram1 os omens de uma ,nasam4 ,sendo certo que as vozes1 que em ,portugal significam uma coiza1 em outro ,reino significam coiza diferente1 ou nada significam4 ,esta toda a noticia util1 que se-tira dos-,sinais3 e isto coiza que se-aprende1 em um quarto de ora3 tudo o mais que dizem dos-,sinais1 sam arengas ridiculas1 que espremidas na mam1 nam deitam uma gota de doutrina4 ,v4,p4 que perdeo bastante tempo1 com estas arengas2 fasa-me a merce de me-mostrar1 alguma questam util1 entre tantas que no-tal tratado se-incluem3 estou certo que1 uzando da-sua costumada ingenuidade1 me-dir1 que nam acha alguma4 ,de que fica bem claro1 que o tal tratado1 somente divertimento de omens ociozos4 ,nem me-faz forsa que o ,p4 99 99 99 me-disse um dia1 que os ,sinais eram o ,apex ,philosophi3 e o seu ,p4 ,colegial 99 99 99 me-disse mui sezudamente1 que os ,sinais tinham seu uzo na ,teologia3 poisque na ,trindade se-falava1 em priori signo c4 nem um1 nem outro sabia o que dizia1 como as suas respostas mostram3 e1 aindaque fosem leitores de ,filozofia1 tinham necesidade1 de a-estudar outra vez4 ,quanto aos ,universais da-,escola1 comque se-gasta tanto tempo1 nam sam melhores que os ,sinais3 todos sam talhados1 pola mesma medida4 ,pase ,v4,p4 ligeiramente com os olhos1 por-aqueles tratados2 e me-dir1 o que acha em tantos cadernos4 ,ali disputa-se mui largamente1 se se-d ,universal a parte rei1 como eles lhe-chamam3 se a ,unidade de precizam1 e ,aptidam sejam da-esencia do-,universal3 e outras coizas destas1 que quando eu as-considero1 fico persuadido2 que os que falam nisto1 nam intendem iso mesmo que proferem4 ,que bulha nam se-faz1 sobre a divizam em cinco especies6 que arengas1 sobre cada especie em particular6 que confuzoens1 sobre as precizoens6 ,ora eu tomra que me-disesem1 o que se-tira de todo aquele negocio2 e que noticia util para discorrer se-colhe1 de todas aquelas confuzoens8 ,achei muitos1 que1 despois de alguns anos de ,filozofia1 e despois de terem defendido concluzoens publicas1 e com grande aceitasam2 nam sabiam1 por-qual razam se-introduzram os ,universais1 na ,logica4 ,o que digo dos-,universais1 deve-se aplicar aos ,predicamentos2 que uns introduzem na ,logica1 outros na ,metafizica3 e sobre os quais se-disputa1 com igual fervor4 ,os omens mais advertidos entre os ,peripateticos1 reconhecem a verdade do-que digo1 e sinceramente confesam1 que se-deviam cortar1 estas longuisimas disputas1 que para nada servem4 ,peripatetico1 e bem ,peripatetico1 era o ,suares ,granatense1 o ,barreto ,portuguez c4 contudo sam do-meu parecer3 e o tal ,barreto acrecenta#hb1 que o aumento que se-deo aos ,sinais1 vicio dos-,portuguezes4 ,mas tornando aos ,universais1 de que falavamos1 a unica razam que eles alegam1 para introduzirem esta longa arenga de ,universais1 e ,predicamentos2 1 porque as propozisoens de que se-fazem os silogismos1 constam de predicados universais4 ,digo pois1 se aquilo nam tem mais serventia1 que mostrar1 que um nome pode ser universal1 ou particular c4 de que serve aquela arenga sempiterna1 que nam conduz para iso8 ,certamente que1 seguindo os seus mesmos principios1 tudo aquilo se podia reduzir1 a meia folha de papel4 ,nem cuide ,v4 ,p4 que eu reprovo1 toda a sorte de exame1 das-propozisoens universais1 e particulares3 conheso1 que iso pode ter seu uzo1 e tem utilidade3 mas tambem conheso1 que se-deve tratar de outra maneira1 como em seu lugar direi4 ,somente condeno muito1 o que dizem os ,peripateticos2 porque nem serve para o intento1 que eles propoem2 nem para outro algum3 confunde as especies1 e intendimento dos-rapazes3 e o mesmo a que nos chamamos1 perder tempo sem interese algum1 e sem saber por-qual razam4 ,mas prosigamos o curso1 da-,logica ,peripatetica4 ,aos ,predicamentos1 e ,sinais1 segue-se o enfadonho tratado de ,enunciatione1 ou ,propozisam4 ,aqui fazem eles infinitas disputas1 tam fra de propozito2 que eu fico pasmado4 ,confundem a propozisam vocal com a mental1 ou ato do-intendimento3 ora disputam de uma1 ora de outra3 desorteque nam se-pode saber1 o que eles querem explicar4 ,sendo aquele um tratado1 que se-deve explicar mui claramente1 para intender os seguintes2 eles o-fazem com tal negligencia1 e confuzam1 como quem nam cuidse neste fim4 ,o melhor que eu acho 1 que em vez de proporem as coizas1 em que todos convem2 disputam tudo o que propoem3 e a cada propozisam acrecentam1 uma longa cadeia de argumentos2 e s vezes tam embrulhados1 que um omem adiantado teria trabalho1 em lhe-responder4 ,e como -de o principiante1 formar conceito das-coizas1 e executar os ditames que le2 se ele nada acha1 em que todos convenham3 mas em cada propozisam acha1 quem o-contradiga8 ,isto o mesmo1 que se um carpinteiro tomse um aprendiz1 e em lugar de lhe-ensinar1 como se--de servir dos-instrumentos2 fizese longuisimos discursos1 sobre a diversidade de instrumentos de ,carpinteiro3 contando-lhe miudamente1 que a alguns nam agradam1 aqueles instrumentos3 que outros escrevem1 que se-deviam fabricar de outra maneira3 e todo o tempo passe com isto4 ,este o grande defeito que eu acho1 nestas ,logicas3 nam buscarem aquelas coizas1 em que todos convem1 para as-explicar aos estudantes4 nam acharem um metodo de ensinar ,logica1 comesando por-documentos claros1 que todos intendam3 fugindo todo o genero de disputas1 que nam servem para principiantes4 ,pois este devia ser1 todo o seu cuidado3 e quem nam pratica este metodo1 nam quer ensinar ,logica4 ,isto conhecer ,v4 ,p4 melhor1 olhando para as longas disputas1 que eles aqui introduzem1 sobre os atos verdadeiros e falsos4 ,nam crivel1 a confuzam com que aquilo se-trata4 nam menos admiravel1 a quantidade de coizas falsas1 que ali se-supoem1 como se fosem demonstrasoens matematicas4 ,disputa-se com fervor1 se o mesmo ato do-intendimento1 posa pasar de verdadeiro1 para falso3 e outras coizas destas4 ,isto supoem manifestamente1 que o dito ato dura algum tempo1 na alma2 porque se nam durse1 a questam sera de nada4 ,mas isto que eles supoem1 manifestamente falso4 ,basta olhar1 para as muitas distrasoens involuntarias1 que um omem tem2 para conhecer1 que a nosa alma est em continuo movimento de conhecimentos3 e que devemos dizer1 que ela nam pra em algum juizo1 ou ato4 ,ainda quando nos-parece1 que sempre cuidamos na mesma coiza1 creio eu que nam perziste1 o mesmo ato3 mas que a alma muitas1 e muitas vezes considera1 a mesma coiza3 que o mesmo que dizer1 com atos diferentes4 ,a razam disto nam me-parece oscura3 pois vejo a violencia1 que necesario fazer ao intendimento1 para o-fixar no-mesmo objeto3 pois um minuto que nos-descuidamos1 ja estamos em outro objeto4 ,e ainda quando nos-parece1 que consideramos um s1 v4 g4 um painel2 certo que fazemos muitos atos3 pois nam vemos s um ponto1 mas diferentes pontos1 e partes do-mesmo todo3 o que se-faz1 com diversos atos4 ,nam crivel1 com quanta velocidade a alma conhece1 e pasa de um objeto para outro4 ,fazemos todos os instantes mil asoens1 que nam advertimos3 e contudo certo1 que a alma as-conhece todas3 mas falas com tal velocidade1 que parece as-nam-conhece4 ,deste genero o continuo movimento de pestanas1 que ns fazemos2 e a alma1 por-obediencia da-qual se-faz1 o-conhece3 e contudo nenhum de ns adverte tal coiza4 ,o que mostra bem1 quam veloz a nosa alma1 em pasar de um conhecimento para outro4 ,e sendo isto tam claro1 os-,peripateticos1 sem fazerem cazo disto1 introduzem as suas longas disertasoens1 fundadas sobre um suposto falso4 ,demos-lhe1 que seja materia duvidoza2 sempre coiza ridicula1 propor como coiza certa um fundamento1 que tem tantas aparencias de falsidade3 e ocupar o tempo com isto1 devendo ensinar outras coizas4 ,mas1 para abreviar este exame1 pase ,v4 ,p4 comigo1 ao tratado de ,priori resolutione4 ,na primeira parte se-disputa eternamente1 sobre os termos1 e diversos modos1 com que significam as coizas4 ,isto explicado bem com clareza1 e brevidade1 podia servir ao estudante de alguma coiza3 mas iso o que eles nam fazem3 e todo o tempo pasam em disputar1 se o verbo ,est pode ser termo2 e outras galantarias destas4 ,o que dizem das-,propozisoens1 da-sua ,conversam1 das-,modais1 tam embrulhado1 e tam inutil2 que nam sei1 que pior coiza se-posa dizer4 ,seguro a ,v4 ,p4 que ja achei ,peripateticos1 que ingenuamente me-confesram1 que a maior parte daquelas coizas eram inutis4 ,mas sem grande trabalho1 cuido que mostrarei a ,v4 ,p4 que tudo aquilo1 que nestas escolas se-disputa1 se-deve totalmente pr de parte4 apontarei uma unica razam1 que compreende o ,priori1 e ,posteriori1 da-,logica vulgar4 ,examine ,v4 ,p4 com toda a atensam1 quanto se-disputa naquelas duas partes da-,logica1 e fasa-me a merce de notar mui distintamente1 algumas coizas4 #a4;a ,se o que ali se-disputa1 materia inteligivel4 ,cuido1 que a resposta ser clara1 se olhar-mos para o que sucede nos-estudantes3 pois certo1 que despois de muitas1 e muitas explicasoens1 comumente nam intendem1 o que ali se-diz4 ,apelo1 para o que cadaum experimenta em si1 e para o que os mestres experimentam1 nos-dicipulos4 ,sei polo contrario1 que os meninos intendem muito bem as coizas1 se lhas-explicam bem3 e sabem dar razam do-seu dito4 v4g4 se diserem a um rapaz3 ,aquele ramo que ves naquela porta1 sinal que ali se-vende vinho3 porque em todas as partes em que se-vende vinho1 se-costuma pr aquele sinal2 porque asim determinram1 os nosos antigos3 estou certo1 que -de intender facilmente1 o que lhe-dizem4 ,ora fale-lhe ,v4 ,p4 por-estas palavras3 ,aquele ramo sinal ex instituto do-vinho3 que se-constitue na razam de sinal1 por-um respeito de dependencia do-ato da-vontade1 que o-deputou para significar vinho3 polo que se-distingue do-sinal natural1 que se-constitue1 por-um respeito de independencia3 ,despois de toda esta arenga filozofia1 o tal rapaz intender muito menos1 o que lhe-dizem1 doque se lhe-falasem em ,caldeo4 ,de que vem1 que ainda as coizas que se-deviam dizer1 se-dizem de um modo tal1 que nam se-intendem4 ,isto quanto ao modo de se-explicar3 pasemos materia4 ,a #b4;a coiza que ,v4 ,p4 deve notar 1 a serventia que tem aquelas regras1 para discorrer sem ingano1 em toda a materia4 ,traga ,v4 ,p4 memoria1 tudo o que tem estudado de ,priori1 e ,posteriori1 e tenha o sofrimento de considerar2 se lhe-servem1 ou nam1 para intender1 e discorrer bem em qualquer materia3 ou para provar alguma coiza1 que lhe-seja necesaria2 nam s nos-atos publicos quando argumenta1 ou defende2 mas ainda no-seu bofete1 quando compoem em alguma materia3 ou ainda no-discurso familiar4 ,tenho tantas provas1 da-sua candura de animo1 que nam tenho receio que diga1 ter experimentado utilidade4 ,mas eu nam quero por-agora1 um juiz tam alumiado como ,v4,p4 contento-me que me-respondam os mesmos1 que perdem os anos com estas arengas4 ,eu os-faso juizes nesta disputa3 e lhe-deixo considerar1 se1 quando eles provam o que lhe-negam1 ou discorrem familiarmente2 o-fazem porque se-lembram das-regras2 ou se o-fazem1 porque asim se-costuma discorrer no-mundo3 e a lisam que tem tido1 lhe-suministra os argumentos e meios termos3 e a natural penetrasam que cadaum tem1 lhe-mostra1 com a maior promtidam1 a conexam das-partes8 ,o que eu poso dizer neste particular 1 que muitos ,escolasticos1 como ja apontei1 me-diseram1 que era inutil toda aquela machina de regras3 e li alguns1 damesma opiniam4 ,o ,p4 ,arriaga no-prologo da-sua ,filozofia diz claramente1 que nam ditou muitas questoens da-frma ,silogistica1 porque lhe-parecram escuzadas3 e que avendo vinte anos que era mestre2 nunca vra1 que pesoa alguma se-servise da-ponte dos-,asnos1 para argumentar1 ou responder4 ,e quanto a esta parte da-,ponte dos-asnos1 achar ,v4 ,p4 muitos1 que dizem ser inutil4 ,mas eu paso adiante com o discurso1 e creio1 que nem menos me-mostrarm omem1 que se-sirva das-,figuras1 ou de alguma das-outras regras2 quando quer provar alguma coiza seria4 ,conheso1 que os que argumentam nesta materia1 para mostrarem que a-tem estudado2 ou os que nam querem argumentar com razoens1 mas com palavrinhas1 maneira dos-sofistas2 poderm fazer algum uzo delas3 o que digo 1 que quando um omem quer provar1 o que lhe-negam1 nunca se-serve1 de tais arengas4 ,se ele tem ingenho1 e doutrina1 mais de presa se-lhe-oferece o meio termo1 e modo de o-dizer2 doque a regra1 que o-ensina4 ,se nam tem ingenho1 estou certo que nem regras1 nem figuras1 nem modos1 nem coiza alguma lhe-ocorrer2 com que posa discorrer fundadamente4 ,nunca me-sucedeo que1 discorrendo comigo1 me-viese imaginasam1 servir-me do-silogismo4 nunca vi tratar negocio algum grave1 com o meio da-,dialetica3 ainda sendo as partes1 pesoas de toda a penetrasam2 e tendo perdido muito tempo1 com a ,dialetica4 ,isto da-,logica o mesmo1 que a ,retorica3 os ignorantes das-regras1 se tem ingenho e alguma lisam1 oram e provam melhor o que dizem1 doque os ,logicos e ,oradores da-,escola4 ,o omem ignorante das-regras1 nam perde tempo com palavrinhas1 mas vai direito razam1 e busca aquelas que conduzem1 ao seu intento4 ,ora sem duvida1 que as razoens1 e nam as palavras1 sam as que persuadem1 e provam o que se-quer4 ,poderm as palavras1 e modo com que se-diz1 dar mais luz s razoens3 mas palavras sem razoens nada provam4 ,e esta a razam1 porque os ,logicos finos discorrem pior1 que os que nam sam ,logicos4 ,e esta mesma razam me-d fundamento para dizer1 que melhor que nam se-fale1 em tais regras4 ,acho ainda outra razam1 e cuido ser mais forte1 para nam seguir este metodo do-silogismo2 vem aser1 que o silogismo nam serve em modo algum1 de ajudar a razam1 para que aumente os seus conhecimentos1 e neles discorra bem4 ,quando se--de persuadir1 e discorrer bem1 o primeiro e principal ponto est1 em descobrir as provas3 o segundo1 em dispolas com tal ordem1 que se-conhesa clara e facilmente1 a conexam e forsa delas3 o terceiro1 em conhecer claramente1 a conexam de cada parte da-dedusam3 o quarto1 em tirar uma boa concluzam do-todo4 ,estes diferentes graos se-conhecem muito bem1 em qualquer demonstrasam matematica4 ,uma coiza 1 perceber a conexam de cada parte1 ao mesmo tempo que um mestre vai explicando a demonstrasam3 outra coiza diferente1 conhecer a dependencia1 que a concluzam tem1 de todas as partes da-demonstrasam3 terceira coiza muito diferente1 conhecer por-simesmo clara e distintamente1 uma demonstrasam3 e finalmente uma quarta coiza1 totalmente diferente das-trez1 ter achado as provas1 de que se-compoem a demonstrasam4 ,o que suposto1 o silogismo nam faz mais1 que mostrar a conexam das-partes1 sem ensinar a buscar as provas3 onde fica claro1 que nam de grande socorro razam4 ,muito mais1 porque a alma pode conhecer1 e conhece1 muito mais facilmente por-simesmo1 a conexam das-partes2 doque por-nenhum silogismo4 ,quantos omens nam vemos todos os dias1 que intendem mui bem1 toda a forsa de uma razam2 a falacia1 e eficacia de um discurso comprido2 e discorrem mui acertadamente2 sem terem ouvido falar em silogismos8 ,e nam digo somente1 entre os omens de boa educasam2 mas quem quizer considerar1 a maior parte da ,africa1 e ,america2 achar omens que discorrem tam sutilmente1 como os nosos ,europeos2 sem saberem reduzir um argumento frma4 ,achei negros vindos de la1 tam maliciozos1 e fingidos2 que nam se-pode dizer mais4 ,ja eu dise a ,v4 ,p4 em outra parte1 que me-tem feito muitas vezes mais forsa1 as razoens de muitos rusticos1 doque de alguns ,logicos1 e ,oradores de profisam4 ,ainda daqueles mesmos que estudam ,logica1 rarisimos sam que cheguem a conhecer1 por-que razam trez propozisoens1 combinadas de um certo modo1 produzam uma conduzam justa3 e que saibam com toda a individuasam1 por-que razam de mais de #fj4 combinasoens diferentes1 s umas #ad4 sejam boas4 ,a maior parte destes estudantes contentam-se1 com uma ,dialetica tradicional3 e nada mais fazem doque crer1 o que lhe-dise seu mestre1 que certos ,modos reduzidos a certas ,figuras1 sam bons2 outros1 sam maos3 sem chegarem a certificar-se1 que na verdade asim 4 ,ora daqui saie por-legitima consequencia1 que1 se verdade o que eles dizem1 que o silogismo o verdadeiro e unico instrumento da-razam1 com o qual que se-pode chegar1 ao conhecimento das-coizas2 antes de ,aristoteles1 ninguem raciocinou bem1 nem teve conhecimento certo2 e despois dele1 entre vintemil omens nam se-achar um1 que goze esa fortuna4 ,mas eu creio que sera louco1 quem tirse tal consequencia3 observando-se claramente1 que os ,omens intendem as coizas bem1 sem o dito socorro4 ,tomra que me-disesem1 com que outra ,dialetica conheceo ,aristoteles1 que muitos daqueles ,modos eram certos1 e outros falazes2 senam com a penetrasam da-sua mente1 que reconheceo a conveniencia que se-dava1 entre umas ideias1 e disconveniencia entre outras8 ,a nosa mente tem de sua natureza a facilidade1 de conhecer a conexam destas ideias1 a polas em boa ordem1 e tirar delas concluzoens justas2 sem que para isto a-preparem1 com artificio algum4 ,dizei a uma molher rustica1 convalecente de uma grande infermidade1 que asopra um nordeste agudo1 e que o ,ceo ameasa grande chuva3 ela facilmente perceber1 que nam tempo para sair de caza4 ,o seu juizo une com toda a facilidade1 estas diferentes ideias2 ,nordeste1 ,nuvens1 ,chuva1 ,umidade1 ,frio1 ,recaida1 ,perigo de morte3 e isto em um abrir de olhos2 sem ter necesidade daquela frma artificial1 e embarasada de quinze ou vinte silogismos4 ,ora certo1 que o silogismo nam suministra esta faculdade de perceber1 e ordenar as ideias2 nem suministra as ideias para iso3 e como destas duas coizas dependa tudo2 fica bem claro1 que nam serve para discorrer bem4 ,se ,v4 ,p4 observa o que dizem os doidos1 achar1 que eles nam se-inganam nas consequencias1 mas nos-principios3 e por-iso discorrem mal4 ,unram-se por-alguma cauza1 no-intendimento de um doido1 duas ideias2 v4 g4 a que tem de si1 e a que tem de um ,rei3 postas as quais1 discorre o omem mui bem3 quer ,magestade3 quer gentilomens1 e treno de soberano c4 ,estas consequencias decem mui bem1 daquele principio3 todo o mal est1 nas ideias que ele abrasou1 e unio mal4 ,damesma sorte os que nam sam doidos3 nam consiste o ingano nas consequencias1 porque a alma com toda a facilidade as-infere1 e percebe a conexam delas com os meios3 todo o ponto est1 nos-principios1 e pr as ideias em boa ordem4 ,isto nam suministra a ,silogistica1 e asim nam me-parece que pode servir1 para o que se-pertende4 ,a nosa mente naturalmente inclina1 para admetir uma propozisam por-verdadeira1 em virtude de outra admetida por-tal2 ao que chamam inferir3 e acha com facilidade1 uma terceira ideia1 que tenha conexam1 com ambas as duas4 ,progunto agora3 ou a mente buscando a ideia terceira1 se-certificou da-conexam dela1 com as primeiras1 ou nam8 ,se a-procurou asim1 fez um conhecimento certo3 se a nam-procurou1 fez um erro3 mas em ambos os cazos fez tudo1 sem silogismo4 ,se o omem nam tivese conhecido1 a conveniencia da-terceira ideia1 com as duas extremas2 nunca pudera afirmar1 a consequencia4 ,ora certo1 que o silogismo em nada contribue a mostrar1 e fortificar1 a conexam do-meio com os extremos3 ele mostra somente1 a uniam dos-extremos entre si1 em virtude da-conexam com o meio1 que ja est conhecida4 ,em uma palavra1 aindaque eu conhesa1 a quantidade1 e qualidade de duas propozisoens1 nam sei se sam verdadeiras3 e a ,silogistica somente ensina1 a inferir2 nam a conhecer as premisas3 se uma delas for falsa1 ser falsa a concluzam4 ,asimque nam o silogismo o que ensina1 a discorrer bem3 antes tudo o contrario2 conhece mais facilmente o juizo1 a conexam de muitas ideias1 todas as vezes que estam postas em ordem natural2 doque reduzindo-se s embrulhadas do-silogismo3 como a experiencia todos os dias ensina4 ,acrecento a isto1 que sem a boa ordem das-ideias1 nam se-pode dar boa ordem1 aos silogismos4 ,ponha ,v4 ,p4 um juizo embrulhado1 com mil ideias incoerentes1 e ver se pode fazer algum silogismo4 ,polo contrario1 ponha em boa ordem1 as ideias de um silogismo2 e ver com que facilidade se-intendem sem silogismo1 que sempre mais embarasado4 ,mais facilmente se-intende a conexam de omem1 e vivente1 pondo as ideias nesta ordem1 natural2 omem1 animal1 vivente3 doque nesta2 animal1 vivente1 omem1 animal3 que a forma do-silogismo4 ,quanto aos que dizem1 que o silogismo serve1 para descobrir os inganos dos-sofismas1 e discursos retoricos2 certo que se-inganam muito4 ,o motivo por-que nos-inganamos nos-tais discursos 1 porque ocupados da-beleza daquela metafora1 ou pensamento delicado1 nam examinamos a conexam das-ideias1 de que se-compoem4 ,explique ,v4 ,p4 o que diz o sofista1 separe umas ideias das-outras2 e ver que se-acaba o sofisma1 sem necesidade de silogismo3 porque postas elas na sua ordem natural1 intendem-se maravilhozamente1 se sam1 ou nam coerentes4 ,e que outra coiza fazem os ,dialeticos vulgares1 quando respondem a algum sofisma8 ,v4 ,p4 opor um sofisma2 e respondem-lhe logo3 ,distinguo minorem1 v4g4 materialiter1 concedo3 formaliter1 nego4 pede ,v4 ,p4 a explicasam dos-tais termos2 e eles lha-dam com um discurso longo1 ou curto1 mas sem genero algum de silogismo4 ,onde parece-me que sem injuria podemos dizer1 que os que defendem a necesidade do-silogismo1 como de uma famoza arma contra os sofismas2 ou zombam1 ou nam intendem o que dizem4 ,desorteque examinando bem o silogismo1 ele nam d ideias2 que sam os principios dos-nosos conhecimentos3 nam d a boa ordem das-ideias1 e da-percesm1 porque iso faz a alma por-si s4 ,serve fomente de pr em certa ordem1 as poucas ideias que ns temos3 e o maior uzo que tem 1 nas disputas dos-,escolasticos2 aonde s vezes d a vitoria4 ,o mais informado nesta arte1 confunde com eles1 e convence o que nam tanto3 e ainda em tal cazo nam o-reduz ao seu partido3 porque nunca se-vio1 que os silogismos produzisem ese bom efeito2 que aquele que fica convencido1 passe para a opiniam do-contrario4 ,conhecer que nam sabe responder3 mas nam receber tanta luz1 que aja pasar para a parte do-seu adversario4 ,esta a natureza do-silogismo4 ,mas aindaque esta razam seja mui forte1 cuido que dos-mesmos principios dos-,escolasticos1 se-tira nova razam1 para se-excluirem1 e vem aser2 que as tais regras do-silogismo s servem1 para estes silogismos simplezes1 feitos de propozisoens que constam de dois termos1 e ,verbo3 v4 g4 ,todo o omem animal ,pedro omem ,logo ,pedro animal4 ,quando porem intramos nos-silogismos1 compostos de varias propozisoens1 e com mil termos obliquos2 loucura persuadir-se1 que neles valham tais regras1 tomadas no-rigor da-,logica4 ,incontram-se mil discursos de evidencia tal1 que nenhum omem de juizo1 pode duvidar da-sua verdade3 vemos cada momento discursos1 a que os ,logicos chamam ,sorites1 compostos de dez1 e doze propozisoens2 tam claros e manifestos2 que todos os-devem admetir1 ainda aqueles que nunca lram ,logica3 que a maior prova da-verdade1 e evidencia3 e contudo nam pertencem1 a ,figura alguma das-ditas4 ,sei1 que alguns destes ,logicos antigos se-amofinam1 para lhe-descobrir a ,figura1 e ,modo2 mas superfluamente3 pois aindaque dizem muitas coizas1 e apontam outras propozisoens1 que expoem as ditas2 e nas quais exponentes querem mostrar de alguma maneira1 as regras2 nam provam o que dizem1 nem respondem ao que se-lhe-progunta3 ficando sempre em p a dificuldade1 que o dito silogismo1 do-modo que se-propoem1 nam pertence a ,figura alguma3 e contudo verdadeiro1 e todos o-intendem com facilidade4 ,e como nos-discursos familiares1 nos-discursos oratorios1 e quando se-impugnam propozisoens ou concluzoens2 somente se-uze destes discursos compostos2 fica claro1 que em nenhuma destas partes podem ter lugar1 as tais ,figuras3 e que nam s sam inutis1 mas imposiveis4 ,seguro a ,v4 ,p4 que tendo lido muito1 visto1 e ouvido muito1 e asistido a disputas de toda a considerasam2 nam vi ninguem1 que se-servise da-dita ,frma4 ,nunca vi converter ,ereje algum com frma ,silogistica1 nem ,ebreo1 ou ,ateista4 ,e contudo tenho-me achado em algumas partes1 com estas trez sortes de pesoas1 e conversado com eles larguisimamente4 ,eles me-respondram sempre com razoens ou boas1 ou ms2 mas nunca com frma ,silogistica3 e quando alguma vez sucedia1 que o discurso caa em questam de nome2 logo me-advertiam1 que deixase a ,dialetica1 e argumentse com razoens4 ,nem menos falei com algum1 que me-disese1 ter-lhe sucedido o contrario3 nem acho dogma algum1 que necesite da-frma ,silogistica1 para se-poder intender1 ou explicar4 ,nam leio que ,cristo1 ou os ,apostolos se-servisem do-silogismo1 para persuadir as verdades1 que defendiam2 e propunham3 nem acho que a ,igreja ,romana1 ou os ,concilios uzasem desta frma1 para declarar alguma materia controversa3 antes tudo o contrario4 ,vejo que os ,,ss4 ,,pp4 encomendam muito1 que os ,dogmas se-prvem com razoens solidas1 fugindo de todas as sutilezas da-,dialetica3 e que eses mesmos ,padres praticam muito bem1 o que encomendam4 ,o que mostra bem1 a nenhuma necesidade1 ou utilidade destes termos da-,escola1 na ,teologia4 ,alem disto acho outra nova razam1 para desprezar totalmente estas doutrinas3 vem aser1 o enfadonho metodo que introduzem1 em todo o genero de discursos4 ,nam coiza mais dezagradavel e confuza1 que um longo discurso ,dialetico3 e nam discurso1 que1 reduzido ao metodo da-,escola1 nam seja longuisimo4 ,um paragrafo de discurso familiar mui breve e claro1 reduzido a silogismos1 enche boa meia folha de papel4 ,ouvem-se cem vezes os mesmos termos3 porque cada silogismo deve repetir1 uma das-propozisoens do-antecedente4 ,e tudo aquilo se-pode dizer1 em breves palavras1 e com muita clareza1 sem nem menos introduzir um silogismo4 ,polo contrario1 quando entra o silogismo1 necesario recorrer1 a propozisoens gerais1 que nam toam bem1 nem provam muito3 e tem mais aparencia de declamasam1 que de prova filozofica1 e discurso sensato4 ,esta simplez propozisam3 ,quero-vos bem1 pois vos-tenho obedecido1 e nam podeis duvidar1 da-sinceridade comque vos-sirvo3 porque tendes experiencia constante1 deque a nenhum outro o-faso3 pode dar de si bastantes silogismos1 se ouver quem a-dilate4 v4 g4 ,quem faz a outro1 tudo o que lhe-pede2 d sinal certo1 de lhe-querer bem4 ,eu tenho-vos feito1 quanto me-tendes pedido3 logo tenho-vos dado um sinal certo1 deque vos-quero bem4 ,o sinal certo do-querer bem1 nam pode separar-se1 do-mesmo querer bem3 logo se eu vos-dou um sinal certo1 deque vos-quero bem1 obedecendo ao que me-ordenais2 certo1 que vos-quero bem4 ,provo a maior4 ,quem faz a outro1 tudo o que lhe-pede1 e o outro nam pode duvidar1 da-sinceridade com que lhe-obedece2 d-lhe um sinal certo1 de lhe-querer bem4 ,eu tenho-vos feito quanto me-pedistes1 e alem diso vs nam podeis duvidar1 da-sinceridade do-afeto1 com que vos-sirvo3 logo fazendo-vos o que me-pedis1 dou-vos um sinal certo1 de vos-querer bem4 ,provo esta maior4 ,quem tendo uma experiencia constante1 deque um sugeito que conhece1 a ninguem costuma servir2 nam obstante iso tem outra experiencia constante1 deque este mesmo sugeito o-serve a ele2 recebe um sinal certo1 da-sinceridade com que lhe-obedece4 ,vs tendo constante experiencia1 deque eu nam sirvo a ninguem2 nam obstante iso tendes outra experiencia constante1 que eu sempre vos-sirvo1 e obedeso3 ,logo tendo vs estas duas experiencias1 recebeis um sinal certo1 da-sinceridade com que vos-obedeso4 ,nam quero continuar mais1 os silogismos da-maior3 e nem menos quero continuar1 as provas da-primeira menor subsumpta3 o que dise basta para provar1 que qualquer pequena propozisam composta1 pode produzir mil silogismos4 ,ora certo1 que a primeira propozisam clara1 e todos a-intendem3 e aquela longa enfiada de silogismos oscura1 e s a-intendem1 os que sabem a frma ,silogistica3 e contudo iso nam diz mais1 doque dizia a primeira propozisam4 ,do-que se-conclue1 que o dito metodo se-deve desprezar1 quando nam fose por-outra razam mais1 que por-ser enfadonho1 e cauzar molestia sem utilidade4 ,dirme ,v4 ,p4 que este meu discurso tem por-fim1 condenar todo o silogismo3 e desterrar do-mundo todos os livros1 que se-explicam por-silogismos3 e mostrar1 que nam s sam inutis1 mas prejudiciais3 como ja me-respondeo um ,dialetico4 ,mas a isto respondo1 que nam esa a minha intensam4 ,confeso1 que todos os nosos discursos1 se-podem reduzir em silogismos3 um sermam1 um discurso familiar1 uma escritura que persuade1 um inteiro livro1 pode-se chamar1 silogismo composto de infinitos termos obliquos3 nas mesmas demonstrasoens matematicas1 se-podem descobrir silogismos4 ,ainda digo mais1 nam discurso que persuada1 que nam seja em vigor de um silogismo1 ou claro1 ou oculto4 ,contudo iso defendo1 que de pouca ou nenhuma utilidade o silogismo1 para quem -de discorrer bem4 ,nam o mesmo intervir o silogismo em tudo1 que ser a unica arma1 com que se-discorre bem2 desorteque quem nam tem esa noticia1 seja obrigado a discorrer mal4 ,quando ,aristoteles escreveo1 as suas reflexoens sobre o silogismo2 nam nos-quiz ensinar1 a fazer silogismos2 porque iso fazemos ns sem reflexam1 nem estudo algum3 quiz somente mostrar-nos1 em que se-fundava1 a verdade dos-nosos conhecimentos discursivos3 e como procedia o intendimento1 quando consentia em algum objeto4 ,porem nam devemos daqui inferir1 que sem praticar advertidamente1 tudo o que ele propoem1 nam posamos discorrer bem3 nam senhor3 a dita noticia mais especulativa1 que pratica4 ,abrse ,v4 ,p4 bons principios1 e evidentes2 e ver que perfeitos raciocinios frma1 sem noticia alguma da-,silogistica3 explicarmeei com um exemplo4 ,para comer alguma coiza1 e com iso sustentar-se um omem1 necesario mover uma grande quantidade de musculos1 que se-movem matematicamente4 ,quer-se uma particular dispozisam da-lingua1 para empurrar o comer para os-dentes1 e despois para a goela3 quer-se a saliva1 para ajudar a triturasam1 e o fermento no-estomago3 e finalmente mil outras coizas1 que agora me-nam-ocorrem4 ,tudo isto tam necesario1 e estas coizas estam tam unidas1 que faltando uma1 nam sucederia o cazo4 ,seria porem louco quem1 ouvindo isto1 nam quizese comer1 sem saber primeiro tudo1 quanto tem dito os ,matematicos1 sobre as leis do-movimento1 e sobre a ,mecanica3 como tambem tudo o que tem dito os ,anatomicos2 sobre os ditos musculos1 umores1 fermentasoens c4 ,este omem morreria de fome1 no-mesmo tempo que outro1 rindo-se da-sua loucura1 comeria mui descansado1 e com muito gosto4 ,a razam disto 3 porque sem tanta erudisam1 a machina do-noso corpo est disposta em modo1 que metendo o comer na boca1 e querendo mastigar1 7fra dos-impedimentos7 tudo aquilo se-faz1 sem estudo ou reflexam alguma4 ,damesma sorte a machina espiritual da-nosa alma1 7se me- licito1 servir-me desta expresam7 recebeo tal faculdade de ,deus1 que conhece todas as coizas evidentes1 e especialmente a conexam de umas ideias com outras1 sem estudo ou artificio algum3 aindaque nese mesmo ato de conhecer1 pratique aquilo1 que superfluamente aprenderia de outro4 ,daqui fica claro1 que servindo-nos do-silogismo para persuadir1 nem por-iso somos obrigados1 a saber estas coizas4 ,contudo aprovo que se aprenda1 alguma noticia mais geral3 o que se-pode fazer em duas palavras4 ,pode alem diso o silogismo ter seu uzo entre aqueles1 que desde rapazes estam acostumados a ele4 ,quizera porem que a gente reconhecse1 que o silogismo vale dez1 e nam cem1 nem mil3 e que nam nos-quebrasem a cabesa com o silogismo1 como uma invensam singular1 para conhecer a verdade1 e aumentar os conhecimentos1 nas ,ciencias4 ,explico isto com outro exemplo1 de que ja se-servio um grande omem1 do-seculo pasado4 ,vemos omens de vista tam curta1 que nam podem ver distintamente os objetos1 em alguma distancia1 sem uns oculos sumamente concavos de uma1 ou de ambas as partes4 ,mas porque eles nam vem sem eles1 nem por-iso devem julgar o mesmo1 dos-outros3 porque muitos1 que vem maravilhozamente1 sem tal socorro4 ,damesma sorte a alma dos-,escolasticos1 nam ve sem os oculos do-silogismo3 que lhe-fasa muito bom proveito1 e se-sirvam deles quanto quizerem3 a alma porem dos-outros omens1 exercitando-se em discorrer com advertencia1 pode ver a conexam das-ideias1 sem aquele socorro4 ,sirva-se cadaum do-que quizer1 e mais lhe-convier3 o que importa 1 que os ,peripateticos nam julguem todos1 pola mesma medida3 e da-falta de oculos nos-outros1 nam infiram1 que todo o mais mundo anda s cegas4 ,conheso1 que algumas vezes se-pode uzar do-dito metodo1 com utilidade2 quando se-quer introduzir um dialogo1 para evitar os discursos compridos1 e oratorios4 ,mas em tal cazo sam necesarias varias cautelas1 para ser util o dito metodo3 porque se deixamos provar a cadaum o que quer2 caimos no-defeito1 que queria-mos evitar4 ,deve pois evitar-se toda a superfluidade1 e tocar unicamente o ponto da-questam4 ,mas neste cazo1 nam tanto estimado o tal metodo1 por-ser ,escolastico1 mas por-ser metodo de dialogo3 no-qual se-propoem a dificuldade1 por-uma parte1 e da-outra se-lhe-d a resposta4 ,temos um belo exemplo1 no-,concilio geral ,florentino1 congregado por-,eugenio ,,iv4 ,como nele se-avia tratar1 da-uniam da-,igreja ,grega1 com a ,latina2 sobre alguns pontos em que diversificavam2 escolhram-se seis omens de cada parte1 para examinarem a questam1 e dizerem o que se-avia propor1 por-uma e outra parte3 e lhe-ordenram1 que1 deixados os discursos compridos1 seguisem um metodo breve1 e dialetico4 ,mas quem examina nos atos do-tal ,concilio1 que coiza era este metodo dialetico1 acha1 que nada mais era1 senam um dialogo sem rodeios1 nem prolixidades3 no-qual de uma parte1 um punha a dificuldade3 e da-outra1 o seu opozitor respondia sim1 ou nam3 ou brevemente dava a razam1 porque duvidava c4 ,esta foi toda a ,dialetica1 que se-praticou na dita disputa3 o que bem mostra1 que muitas vezes se-chamou dialetico1 o estilo de falar concizo e breve2 sem aquelas ,figuras que constituem1 o estilo retorico3 e isto o mesmo que eu digo1 ser muito util4 ,mas nam achar ,v4,p4 que se-fizese cazo1 das-ridicularias da-,logica vulgar3 ou que1 fazendo-se1 rezultse da utilidade alguma3 que era o que eu asima dizia4 ,nem cuido que ,v4 ,p4 me-mostrar1 que s ,ciencias rezultase utilidade alguma1 do-uzo do-silogismo4 ,a falar verdade1 nenhum omem douto cuidou nunca nestas ridicularias3 os sofistas sim4 ,os seculos do-silogismo foram os mais barbaros1 e ignorantes4 ,ele comesou c no-,ocidente no-,,ix4 seculo3 aumentou-se com muito mais exceso no-,,xi4 e durou at o meio do-,,xvi4 ,e que coiza boa acha ,v4,p4 neses tempos8 ,polo contrario1 desde o principio do-,,xvii4 em que o silogismo se-comesou a deixar1 e se-procurou outro metodo2 o aumento tam sensivel1 que sera loucura mostrlo3 muito mais neste ultimo seculo1 em que os olhos estam mais abertos4 ,asimque1 com estes exemplos vista1 nam parecer maravilha que eu diga1 que o silogismo vale pouco1 e tem servido de muito pouco3 e que avendo outra ideia melhor1 loucura1 demorar-se com ele4 ,de tudo isto concluo1 que a ,logica que pode servir no-mundo1 mui diversa1 desta chamada ,logica das-escolas3 a qual por-muitos principios nem menos se-deve ler4 ,creio que ,v4,p4 me-perdoar esta digresam1 com que interrompi1 o que lhe-queria dizer da-,logica2 se-quizer refletir1 que nam alheia do-meu argumento3 antes justifica o que abaixo lhe-direi1 e me-poupa algumas repetisoens4 ,torno ideia1 que lhe-queria dar da-,logica4 ,digo pois1 que o metodo de filozofar nam se-deve seguir1 porque o diz este1 ou aquele autor3 mas porque a razam e experiencia mostram1 que se-deve abrasar4 ,isto o que eu nam poso meter em cabesa1 a muita gente3 porque a maior parte do-mundo1 nam examina os principios das-coizas2 mas vam uns detraz dos-outros como carneiros2 sem mais eleisam1 que o costume3 e antes querem errar1 por-cabesa alheia1 que acertar pola propria4 ,persuadem-se1 que os velhos nam podem ensinar1 coiza alguma m3 e recebem os tais ditames1 com a posivel venerasam4 ,nenhum toma o trabalho de examinar1 se a opiniam boa1 ou m3 uma vez que a-diseram os antigos mestres1 o que basta4 ,de que nace1 que omens de ingenho mui perspicaz1 seguem doutrinas contrarias a toda a boa razam2 e que eles mesmos dezaprovam1 quando lhas-explicam bem4 ,entre tantos ,peripateticos1 que ,v4,p4 conhece1 nam achar algum que duvidse uma s vez1 se ,aristoteles na sua ,logica dise bem1 ou mal3 como conste que o-dise ,aristoteles1 o que basta3 nam faltar modo de explicar1 a dita doutrina1 ou texto4 ,e deste principio nacem1 aqueles grandes comentarios1 com que amofinam a paciencia ao mundo2 e fazem perder o tempo1 nas escolas4 ,bem claro que um omem1 que escrupulozamente comenta um autor1 supoem ser verdade1 quanto ele diz3 pois de outra sorte1 devia fazer um rigorozo exame1 na materia que comenta4 ,e eisaqui tem ,v4,p4 que estes tais1 querendo ensinar aos outros a discorrer bem1 eles sam os primeiros1 que discorrem muito mal4 ,falava eu em certa ocaziam1 com um mestre ,peripatetico1 e caindo o discurso sobre uma destas materias1 me-produzio ele um texto do-,filozofo1 em uma questam bem controversa4 ,respondi eu1 que nam me importava1 o que dizia o ,filozofo1 mas o que ele na dita conversasam me-provava4 ,aqui admirado o omem clama logo1 ,v4,p4 nam pode negar o texto3 deve expliclo4 ao que eu pontualmente respondi3 ,quem lhe-dise a ,v4,p4 que eu nam poso negar o texto8 dise-lho algum concilio ,ecumenico1 ou algum texto da-,escritura8 ,se ,v4,p4 me-citse1 alguma propozisam de ,euclides2 em tal cazo lha-admetiria2 nam porque ,euclides o-dise1 mas porque a evidencia mostra1 que dise bem2 e todos reconhecem a verdade1 das-ditas propozisoens3 fra daqui nam admito senam aquilo1 que me-provam com clareza1 e verdade4 ,onde necesario que ,v4,p4 primeiro que tudo1 me-prove trez coizas4 #a4 ,que ,aristoteles nam podia dizer uma parvoice1 advertidamente4 #b4 que nam podia inganar-se4 #c4 que o que ns oje achamos nos-seus escritos1 seja verdadeiramente o que ele dise3 postas estas circunstancias considerarei entam1 o que ei-de responder ao texto4 ,at aqui o discurso1 que eu tive com o dito ,padre4 ,agora acrecento1 que o dito mestre1 ouvindo estas minhas razoens1 nam se-aquietou3 mas continuou de admirar-se damesma sorte1 que se nam lhe-tivesem respondido coiza alguma4 ,concluo pois1 que necesario seja bem louco1 quem nam conhece1 quam grande impedimento seja1 para discorrer bem1 seguir as pizadas de um autor s1 ou seja ,aristoteles1 ou algum moderno4 ,a ,verdade1 e a ,razam uma s4 ,todos podemos discorrer1 e intender o que nos-dizem3 e quem fala em maneira que melhor o-intendam1 e prova melhor o que diz1 ese que se-deve seguir1 com preferencia aos outros4 ,se acazo nam prova o que diz1 antes o que diz nam parece bem1 ou razoens para se-intender1 que mao2 nam se-deve fazer cazo1 de tais discursos4 ,esta a pedra de toque1 nam s da-,logica1 mas de qualquer outra ,faculdade3 tomar por-principios coizas tais1 que as-intendam todos1 os que dam alguma atensam s ditas regras3 mas principalmente necesario1 na ,logica4 ,certamente que a ,logica nam foi feita1 para ,clerigos1 ou ,frades1 ou pesoas de uma exquizita erudisam3 deve servir a todos os que falam1 e raciocinam3 e nam s em discursos estudados2 mas em qualquer sorte de discurso1 publico ou particular2 serio ou agradavel4 ,se ela serve1 para ensinar a discorrer bem1 deve dar ditames1 que posam servir em toda a parte1 em que se-discorre1 e se-deve discorrer bem4 ,importa pouco1 o que dise este ou aquele1 da-,logica3 o que importa 1 facilitar os meios1 para nam se-inganar3 e buscar para isto um metodo1 que a boa razam persuade ser util1 e os omens que tem voto na materia1 reconhecem com razam1 e experiencia1 ser o unico meio1 para conseguir aquele fim4 ,alem diso propolo de um modo1 que qualquer pesoa de juizo1 se-capacite da-dita verdade4 ,isto suposto1 farei a ,v4,p4 algumas reflexoens1 sobre o metodo de dirigir o juizo4 ,mas devo supor1 que falo com um omem1 sem nenhuma preocupasam3 e que nam tenha lido ,logica alguma3 ou1 se a-tem lido1 que procure esquecer-se de tudo3 mas no-mesmo tempo que tenha juizo claro1 para conhecer as coizas4 a este omem farei1 as seguintes reflexoens4 ,,ideia ,,da ,,logica ,ns temos uma alma capaz de conhecer1 todas as coizas deste mundo4 ,recebemos do-,criador esta alma1 dotada de maior perspicacia1 doque oje nam temos4 ,o pecado de noso primeiro pai1 nos-trouxe por-castigo1 sermos sugeitos ao ingano3 e por-pena do-mesmo pecado se-nos-limitou1 a esfera da-nosa perspicacia3 nam conhecemos tam bem como ele1 e somos mais sugeitos1 a conhecer mal4 ,contudo a alma a mesma1 que era ao principio3 foi criada para conhecer a ,verdade1 e ficou-lhe sempre a propensam para ela3 em modo que1 quando a alma ve uma verdade clara1 nam pode deixar de conhecla1 e abrasla4 ,nenhum omem de juizo duvda1 se omem3 nenhum duvda1 se fala1 ou est calado2 se est em p1 ou asentado3 por-forsa -de admetir uma destas coizas1 porque sam mui claras2 e uma delas -de ser verdade4 ,por-iso ns pecamos1 e pecando nos-desviamos da-verdade da-lei divina1 que tam conforme boa razam2 porque nam damos atensam1 dita verdade3 que se a-desemos1 sem duvida ficariamos persuadidos1 que se-devia praticar1 o que ela diz4 ,mas a rebeldia que experimentamos1 no-noso corpo1 que com dificuldade se-sugeita1 aos ditames d'alma2 a cauza deste mal4 ,ele nos-inclina sempre1 para a parte contraria1 com a isca de coizas agradaveis3 e a alma1 divertida com outras considerasoens1 dificultozamente volta os olhos para a verdade3 e por-iso a-nam-recebe3 e por-iso peca4 ,esta a origem1 de todos os nosos inganos1 e de todos os nosos danos4 ,se a alma nam fose arrastada1 polos tumultos da-fantezia1 que comumente a-ingana2 conheceria mui bem toda a verdade3 nam s aquelas que conduzem1 para posuir um bem eterno2 mas tambem1 estas verdades indiferentes das-coizas naturais3 e discorreria sem ingano1 em toda a materia3 mas as cauzas dos-inganos sam tam frequentes1 nesta vida mortal2 que nam maravilha1 se os omens ajuizam tam mal3 e ajuizando asim1 obrem em tudo mal4 ,isto suposto1 a unica medicina que se-tem achado1 para ajuizar bem1 desviar as cauzas1 que nos-conduzem ao ingano4 ,ponho de parte1 o ajuizar bem para conseguir1 a bemaventuransa sobrenatural3 7aindaque daqui posa receber muita luz2 contudo como necesita de outras coizas1 e nam ese o meu argumento2 por-iso o-deixo7 e falo somente do-discorrer bem1 em todas as outras materias4 ,digo pois1 que o verdadeiro segredo de ajuizar bem1 desviar as cauzas que nos-inganam1 e fazem julgar mal4 ,para fazer isto1 necesario examinar os modos1 com que a alma conhece2 e meios de que se-serve1 para se-explicar4 ,ns nam trazemos da-barriga da-maen1 conhecimento algum3 todos os-adquerimos despois de nacidos4 ,basta olhar1 para o que faz um menino2 para ver a sua ignorancia1 e que nace despido de todo o conhecimento4 ,ele aprende a sua lingua1 como ns aprendemos uma lingua estrangeira3 quero dizer1 asimcomo ns1 aprendendo uma lingua estrangeira1 s formamos ideia dos-nomes que vamos aprendendo1 e nam daqueles que ainda nam ouvimos3 asim tambem um menino1 s tem ideia das-palavras que ouve1 e nenhuma das-outras1 que nunca ouvio4 ,mas alem diso nem menos tem ideia das-coizas1 que significam os tais nomes1 senam das-que ve1 ou ouve4 ,um menino nam profere1 senam as palavras que ouve3 s intende e fala daquilo1 que lhe-tem dito1 ou visto4 o que mostra claramente1 que nam tem outros conhecimentos1 senam os que entram polos sentidos4 ,os que defendem ideias inatas1 que mostrem alguma1 que nam entre polos sentidos2 ou nam se-deduza das-ideias1 que intrram por-eles3 estou certo1 que nam aparecer alguma1 a que nam posamos descobrir1 esta origem4 ,sam pois os sentidos1 as principais portas1 polas quais entram as ideias1 na alma4 ,umas destas ideias entram1 por-um s sentido3 v4 g4 a ,solididade dos-,corpos1 que entra polo tato3 outras entram por-dois sentidos3 v4 g4 a figura1 que pode intrar polo tato1 e juntamente polos olhos4 ,algumas ideias originam-se em ns1 com a meditasam1 ou reflexam3 deste genero a vontade1 percesam c4 ,outras entram umas vezes por-sensasam2 outras1 pola reflexam3 v4g4 o gosto1 dor1 existencia1 unidade1 potencia1 sucesam4 ,finalmente muitas ideias simplezes1 se-originam em ns1 por-meio das-cauzas privativas2 tais sam as ideias que ns temos1 das-qualidades dos-corpos3 v4g4 a ideia de negrura c4 ,o exame dilatado deste negocio1 pertence a outro lugar3 basta por-agora que o ,logico conhesa1 que por-todas estas vias podemos receber1 ideias simplezes4 ,admiravel a virtude que a alma tem1 para unir1 e combinar estas diferentes ideias simplezes1 que por-este modo recebe4 ,verdade 1 que alma nace despida1 de todo o conhecimento atual3 mas fica mui bem recompensada1 com a virtude de-que ,deus a-dotou1 de poder conseguir muitas1 e novas ideias1 com diferentes combinasoens4 ,unindo as ideias1 que intrram polos sentidos1 frma a alma muitas outras ideias3 outras vezes examinando as proprias ideias1 nacem diferentes ideias na alma4 ,desta diferente combinasam de ideias1 nacem todas as ideias compostas1 que nesta vida experimentamos4 ,mas aindaque sejam infinitas as ideias compostas1 que a alma frma1 podem-se reduzir1 a trez sortes de ideias3 que sam as ideias dos-,modos1 das-,sustancias1 e das-,relasoens4 ,as ideias dos modos sam aquelas ideias que ns formamos1 de diversas coizas que nam existem por-si1 mas sam dependencias de outras coizas4 v4g4 a ideia que eu tenho de um triangulo1 de uma coluna1 de um circulo c4 ,estas ainda sam de duas maneiras3 ou sam ideias de modos simplezes1 ou de modos mixtos4 ,chamo modos simplezes1 s ideias dos-modos1 que sam compostas1 de duas ideias damesma especie3 v4g4 a ideia que eu tenho de doze1 de cem c4 que composta das-ideias1 de muitas unidades juntas3 a ideia de imensidade1 que composta1 da-repetisam de diferentes ideias de distancia1 repetidas sem fim3 e como cada distancia se-supoem ser1 uma modificasam de espacio2 a dita ideia uma ideia composta4 ,chamo modo mixto1 uma ideia composta1 de modos de diferente especie3 v4 g4 a ideia de beleza1 que um composto de diferentes cores1 e proporsoens1 que d gosto vendo-se4 tambem a idea de amizade1 mentira1 obrigasam c4 ,estas ideias une o intendimento1 sem examinar se existem1 ou nam3 e a estas d o nome1 que lhe-parece4 ,os omens porem comumente1 recebem estas ideias dos-outros1 que lhe-explicam o significado1 de muitos termos4 ,desorteque ou por-aplicasam1 ou por-experiencia recebemos as ideias1 dos-modos mixtos4 ,a segunda especie de ideias1 sam as das-,sustancias4 ,nam podendo ns intender1 como as ideias simplezes existam por-si s1 nos-acostumamos a supor alguma coiza1 que as-sustenta3 ao que damos o nome1 de ,sustancia4 ,digam o que quizerem1 os que falam de ,sustancia1 como de uma coiza1 que eles intendem bem o que 2 certo 1 que nam tem os omens1 mais clara ideia de sustancia4 ,onde ideia de sustancia1 ideia de uma certa coiza incognita2 a qual1 quando ns queremos explicar1 nam sabemos dizer o que 3 mas somente dizemos2 que uma coiza1 que ns supomos ser a baze1 daquelas ideias que vemos4 ,e esta ignorancia aplicavel1 a qualquer sorte de ideia de sustancia4 ,quanto s ideias das-particulares sustancias1 esas formamos ns1 unindo quantas ideias podemos ter de uma coiza4 v4g4 unindo a ideia de cristalino1 durisimo c4 formamos ideia1 do-diamante4 ,mas alem destas1 devemos unir-lhe1 a ideia confuza que ns temos1 de uma coiza que as-sustenta3 e daquelas ideias1 e desta1 rezulta a ideia composta1 que ns temos neste mundo1 da-sustancia do-diamante4 ,do-que se-segue1 que tam clara ideia temos ns1 da-sustancia do-,corpo1 como do-,espirito3 pois nenhuma outra ideia temos mais1 que dos-modos ou efeitos1 que se-observam2 unidos dita ideia de uma coiza1 que supomos sustantla3 cujos efeitos tam claramente se-conhecem do-,espirito1 como do-,corpo4 ,alem destas ideias de sustancia1 formamos outra ideia composta1 ou complexa de sustancia1 unindo diferentes ideias de sustancias4 v4 g4 unindo diferentes ideias de naos1 pesas de artilharia1 marinheiros1 almirante c4 fazemos a ideia complexa de armada3 e damesma sorte de exercito1 mundo c4 ,a estas damos um s nome1 porque na verdade uma s ideia4 ,a terceira sorte de ideias1 sam as ,relasoens4 ,estas frma a alma1 comparando uma coiza com outra3 de que nacem mil denominasoens1 que tem proprios nomes1 e nos-conduzem a conhecer1 outra coiza3 e sem os tais nomes1 nam conhecemos muitas relasoens4 ,estes nomes s se-podem dar1 quando se-poem o fundamento deles4 v4 g4 ,pedro omem3 mas se ele se-caza1 este contrato serve para lhe-dar o nome1 de marido4 ,estas ideias de relasoens1 sam muitas vezes mais claras1 que as ideias das-coizas1 que estam sugeitas s ditas relasoens2 ou das-sustancias4 ,a ideia de pai1 e irmam mais clara1 que a ideia de omem3 e com muita mais facilidade eu intendo1 que coiza um irmam2 doque intendo1 que coiza um omem4 ,conhece-se mais claramente1 que coiza um amigo1 doque que coiza ,deus4 ,porque o conhecimento de uma asm1 ou de uma simplez ideia1 basta muitas vezes1 para me-dar o conhecimento1 de uma relasam4 ,polo contrario1 para conhecer um ser sustancial1 necesario um exato conhecimento1 de uma colesam de ideias4 ,devemos porem advertir1 que todas estas relasoens se-terminam1 em ideias simplezes3 aindaque nos-paresa1 tudo o contrario3 e os nomes que conduzem a mente1 para conhecer outra coiza1 alem do-sugeito da-denominasam2 sempre sam relativos4 ,que todas as relasoens sejam compostas1 de ideias simplezes1 coiza para mim certa3 mas para o-provar1 sera necesario1 fazer um longo discurso1 sobre todas as especies de relasoens3 para mostrar1 donde vem a ideia de ,cauza1 ,efeito1 ,lugar1 ,extensam1 ,identidade1 ,diversidade c4 como tambem as relasoens morais3 v4 g4 ,bem1 ,mal1 ,crime1 ,inocencia c4 ,mas rezervo-me para explicar iso a ,v4 ,p4 em outra ocaziam3 e agora continuo as minhas reflexoens4 ,esta em breve a origem1 de todas as nosas ideias4 ,daqui fica claro1 que das-nosas ideias umas sam simplezes1 outras compostas3 umas adventicias1 que entram polos sentidos1 e outras que a mente faz1 a que chamam faticias4 ,destas umas sam claras1 outras confuzas2 umas adequadas1 e outras inadequadas4 ,finalmente reais1 e chimericas2 singulares1 particulares1 e universais4 ,de todas as ideias1 as que mais frequentemente faz a alma1 sam as universais4 ,estas frma a alma1 considerando uma coiza1 que tem outras semelhantes3 onde considerando todas em uma masa1 sem considerar diferensa alguma particular1 formamos ideia universal4 v4 g4 ,temos trez sortes de triangulos3 um se-chama ,equilatero1 outro ,isosceles1 e o terceiro ,escaleno3 cada um dos-quais tem suas particulares propriedades4 ,mas considerando os ditos triangulos somente1 como uma figura de trez angulos1 sem determinar as propriedades de cadaum1 formamos uma ideia universal1 que se-pode aplicar1 a cada triangulo de per-si4 ,este modo de considerar1 se-chama nas escolas precizam3 palavra tirada do-verbo ,prscindo1 ou ,prcido1 que o mesmo que cortar1 separar3 porque separamos os triangulos1 das-suas propriedades4 ,estas ideias universais tem entre os ,logicos1 diversos nomes4 ,chamam a uma1 ,genero3 a outra1 ,especie1 ,diferensa1 ,proprio1 ,acidente4 ,basta intender brevemente1 o significado destas vozes1 para poder servir-se na ocaziam2 e intender o que os ,logicos1 querem dizer com elas3 nam considero outra utilidade1 nestes cinco ,predicaveis4 ,polo contrario1 tudo quanto deles dizem os ,logicos1 comumente falso3 pois supoem claramente1 que ns temos perfeito conhecimento1 das-,esencias3 o que manifesta falsidade4 ,sendo pois1 que as nosas ideias1 s se-podem comunicar aos outros1 por-meio daqueles sinais1 a que chamamos vozes2 devemos fazer alguma reflexam1 sobre esas mesmas vozes1 ou palavras3 o que pode conter1 alguma coiza util4 ,as palavras nam significam os pensamentos1 por-virtude natural2 mas porque asim o-determinram os ,omens4 ,a maior parte das-palavras sam gerais1 quero dizer1 significam ideias gerais3 porque sera imposivel1 e inutil1 que cada coiza particular1 tivese um nome distinto3 o comercio umano farseia insuportavel1 e os ,omens nam aumentariam os seus conhecimentos4 ,acostumando-se os ,omens1 a fazerem ideias abstratas1 deram-lhe nomes1 a que chamam gerais1 ou universais4 nomes para as ideias simplezes1 para os-modos1 e relasoens c4 e todos estes necesario saber1 como se-formam1 e que coizas particulares tem4 ,sucede s vezes1 que se-introduzam imperfeisoens nas palavras1 por-cauza que as ideias que significam1 sam mui complexas1 e sam cauza que os nomes fiquem duvidozos4 ,sucede tambem1 que os ,omens abuzem das-palavras1 servindo-se de umas1 a que nam dam significado certo1 ou lho-dam mui oscuro c4 ,devem-se remediar estes defeitos3 tendo prezente a origem deles1 e o modo com que se-remedeiam3 o que se-observa nos-autores1 que explicam isto4 ,isto o que pertence1 ,percesam4 ,alem da-faculdade que a mente tem1 de formar ideias1 a cuja damos o nome de ,percesam2 tem mais outra faculdade1 de comparar uma ideia com outra1 e reconhecer a conveniencia1 e disconveniencia delas3 ao que chamamos ,consentimento1 ou ,juizo4 ,asimque o julgar nada mais 1 que certificar-se a mente1 que uma coiza convem a outra1 ou nam convem3 e comparando ela uma ideia com outra2 reconhece1 e se-certifica da-conveniencia1 ou disconveniencia4 ,se o juizo se-explica1 com as vozes2 chama-se ,propozisam1 ou ,enunciasam3 e em tal cazo1 tanto aquilo a que convem uma coiza1 como as vozes porque se-explica2 chama-se sugeito da-propozisam3 e o que convem1 chama-se predicado4 ,decendo pois diversidade de juizos1 digo1 que se a mente se-certifica1 da-conveniencia entre duas propozisoens1 chama-se juizo afirmativo2 se da-disconveniencia1 chama-se negativo4 ,nam digo1 que aja juizos negativos1 no-sentido em que o-tomam os ,logicos vulgares3 mas chama-se afirmativo1 ou negativo1 segundo a coiza que afirma4 ,esta diversidade de propozisoens1 ou juizos1 alcansa-se do-sentido1 nam das-palavras3 as quais sendo negativas1 podem ter sentido afirmativo4 ,o que muitos nam advertindo1 fazem mil disputas1 e arengas sobre coizas bem claras4 ,qualquer dos-nosos juizos1 7o mesmo digo das-propozisoens1 que sempre correspondem aos juizos7 afirmativo1 ou negativo1 ou explica o nome2 ou explica as nosas ideias2 ou explica alguma outra coiza que existe3 ao primeiro chamamos1 juizo ,nominal3 ao segundo1 ,ideial3 ao terceiro1 ,real4 v4g4 ,quando eu digo3 ,o oiro nam pedra3 este juizo real4 quando digo3 ,a ideia que eu tenho de pedra1 diferente da-ideia1 que tenho de oiro3 este juizo ideial4 quando digo3 ,este nome ,amor significa1 um afeto da-alma1 ou um juizo que formo1 da-excelencia de uma pesoa em algum genero1 e utilidade que me-pode rezultar dela3 este juizo chama-se nominal4 ,do-conhecimento destas trez sortes de juizos1 depende o bom ou mao uzo1 que fazem os ,omens1 das-suas faculdades1 em qualquer materia que se-lhe-propoem4 ,a maior parte das-disputas nace1 de que nam intendemos bem1 as definisoens dos-nomes3 e cadaum as-toma1 no-seu sentido4 ,o mesmo digo das-definisoens1 que explicam as ideias dos-outros1 principalmente dos-mortos4 ,atribuimos aos autores que lemos1 mil coizas que eles nunca diseram4 ,servimo-nos dos-,dicionarios1 como de oraculos3 sem advertir1 que aqueles que os-compuzeram1 podiam sofrer o mesmo ingano1 procurando a verdadeira inteligencia deste nome4 ,o mesmo sucede nas definisoens reais1 tanto nas da-esencia1 como de algum acidente ou modo4 ,persuadimo-nos1 que sempre sam verdadeiras3 e deste modo abrasando-as sem exame1 establecemos um principio1 que por-forsa nos--de conduzir ao ingano4 ,sobre isto das-definisoens1 bem vulgar o erro dos-,logicos comuns1 que dizem1 que a definisam se-pode fazer por-uma ideia1 ou simplez percesam1 a que eles chamam1 ,apreensam4 ,isto falso por-muitos principios3 nem se-pode fazer definisam alguma1 que nam seja1 reconhecendo a conveniencia dela1 com o seu objeto4 ,quando dizemos1 ,animal racional3 7suponho agora1 que esta seja a verdadeira definisam do-,omem3 de que duvido muito1 e com razam7 ou a mente conhece a conveniencia daquela ideia1 com a ideia de ,omem2 ou nam4 ,se a-conhece1 define3 mas em tal cazo produz um conhecimento1 ou consentimento1 a que chamamos ,juizo3 porque o expremir1 ou nam expremir1 com a boca o ,est1 nam faz ao cazo4 ,se a-nam-conhece1 nam define2 mas profere duas ideias separadas4 necesario intender1 e advertir tudo isto muito bem1 para nam se-inganar1 com o que eles dizem4 ,alem destes juizos1 frma a mente infinitos outros1 damesma sorte1 que disemos das-ideias4 ,temos juizos simplezes1 compostos1 singulares1 e universais4 ,a estas se-reduzem todas as sortes de juizos1 ou propozisoens vocais4 ,conhece-se a especie a que pertence1 pola qualidade do-sugeito4 ,faz tambem a mente juizos verdadeiros1 e falsos4 ,e aqui necesario o criterio1 para nam se-inganar4 ,consiste o criterio da-verdade1 na evidencia com que se-propoem uma coiza1 desorteque nam deixe duvidar1 de ser asim4 ,nisto se-inganavam manifestamente os ,pirronicos2 que chegram1 ou fingram de duvidar daquilo mesmo1 que viam com toda a evidencia4 ,sobre isto da-evidencia1 diversos graos3 se a propozisam evidente sem prova1 chama-se axioma3 se em vigor das-provas se-faz evidente1 chama-se ilasam1 ou concluzam evidente4 ,tambem estas concluzoens evidentes1 segundo as materias recebem diversos nomes3 umas vezes dizemos1 que tem evidencia metafizica2 outras fizica2 e outras moral2 as quais sem muito trabalho se-intendem4 ,finalmente acham-se juizos duvidozos1 verosimeis1 e inverosimeis3 cuja natureza se-intende1 com a simplez explicasam1 e um breve exemplo4 ,estas sam as duas operasoens diferentes da-mente1 ,percesam1 e ,juizo4 nem alguma outra de diferente especie4 ,tudo o que a mente faz 1 variar estas duas em diferentes maneiras3 fazendo de muitas ideias1 uma composta3 e reconhecendo a conveniencia ou disconveniencia1 de uma com outra3 e pondo-as em ordem proporcionada1 para se-conhecerem4 ,quando os ,dialeticos dizem1 que nestas trez afirmasoens4 ,todo o omem animal4 ,pedro omem4 ,logo ,pedro animal4 a ultima propozisam de diferente especie1 das-primeiras2 dizem uma coiza1 que nam poderm nunca provar4 ,o que eu acho 1 que tanto a ultima1 como as primeiras1 sam juizos1 com que o intendimento reconhece1 a conveniencia de duas ideias4 ,se o estar em ultimo lugar1 ou reconhecer esta1 porque ja tenho reconhecido as outras1 faz mudar de especie2 sera necesario admetir1 outras muitas operasoens do-intendimento4 ,isto suposto1 a principal operasam livre da-mente1 o ,raciocinio1 ou ,discurso4 ,consiste ele em que1 dadas duas1 ou trez1 ou dez1 ou vinte ideias1 se a primeira convem segunda2 e esta terceira2 e esta quarta c4 a primeira -de convir ultima4 ,desta sorte o intendimento corre da-primeira1 para a segunda3 desta1 para a terceira c4 ,e ao juizo com que reconhece1 a conveniencia da-primeira com a ultima2 se-d o nome1 de raciocinasam1 inferencia1 concluzam1 discurso1 e alguns outros nomes3 o que nam faz mudar a especie3 pois na verdade um juizo1 com que eu afirmo esta coiza1 porque tenho afirmado1 as antecedentes4 ,onde pode a consequencia ser boa1 e ser falsa1 se uma das-premisas falsa3 e somente ser verdadeira1 se as premisas o-forem tambem4 ,o que importa pois 1 julgar primeiro bem1 e nam se-inganar nas premisas3 porque s asim 1 que nam se-inganar na concluzam4 ,para fazer isto1 necesario notar1 com infinita diligencia1 as cauzas e ocazioens dos-nosos erros1 para os-poder evitar4 ,a primeira ocaziam de ingano1 sam as nosas mesmas ideias4 ,ns percebemos mal1 e contudo queremos discorrer com seguransa3 os nosos sentidos sam falazes1 e suministram-nos frequentes ocazioens de ingano1 em materia fizica4 ,o notar estes erros1 pedia uma longa disertasam4 ,basta notar1 que nos-inganamos nas ideias de gravidade1 levidade1 aspereza1 gosto1 cheiro1 e som c4 ,cuidamos que estas coizas existem nos-objetos1 quando na verdade nada mais sam1 que modificasoens do-noso corpo1 e espirito4 ,as ideias que recebemos polos olhos1 tem mais outra razam1 para serem falsas3 pois segundo a diversa figura dos-olhos1 de diferentes pesoas1 devem reprezentar os objetos ou majores1 ou menores doque sam4 ,e asim nam nos-devemos fiar sempre delas1 para julgar4 ,a segunda cauza1 sam as ideias que formamos3 em virtude das-quais mil vezes nos-inganamos4 ,chamo aqui ideias1 quelas supozisoens que fazemos1 para explicar os efeitos da-natureza4 ,uma vez que nos-ocorre1 uma supozisam ou sistema1 que nos-parece racionavel1 sem demora alguma o-abrasamos como verdadeiro2 sem advertir1 que muitos sistemas diferentes1 podem explicar provavelmente1 a mesma coiza4 ,outra especie de ideias que fazemos1 sam as abstrasoens3 seguindo as quais1 muitos julgam imprudentemente4 ,atribuimos a diversos efeitos1 diversas cauzas3 sem advertir1 que a mesma cauza pode produzir diferentes1 e s vezes incontrados efeitos4 ,daqui nacem1 mil inganos na ,fizica1 v4g4 as virtudes que atribuimos1 a muitos medicamentos1 que nunca sonhram telas4 ,a terceira cauza de ingano1 sam as palavras1 de que nos-servimos4 ,intendemos1 que muitos termos significam o mesmo1 quando na verdade nam sam sinonimos4 ,as vozes servem1 para explicar os pensamentos3 e como nem todos intendem o mesmo1 nem todos vem a explicar o mesmo4 ,das-sustancias inviziveis1 nem todos sentram o mesmo3 temos o exemplo nestas vozes1 ,deus1 ,animus1 ,spiritus1 ,angelus c4 s quais alguns antigos unram certas ideias1 e outros unram diferentes4 ,o que intende um ,deus1 de figura umana3 o que supoem1 um ,deus igneo3 o que o-julga1 de um corpo sutilisimo3 o que o-cre espiritual3 todos se-servem do-mesmo nome3 o mesmo digo de outros nomes4 ,tambem os ,omens se-diversificam1 na ideia das-sustancias corporeas3 uma ideia frma o ignorante1 do-,corpo3 e outra mui diferente1 o ,filozofo4 ,tambem nas definisoens de ,vicio1 ,virtude1 ,piedade1 ,santidade1 ,justisa1 ,obrigasam c4 se-diversificam muito os omens3 de que a ,istoria suministra1 famozos exemplos4 ,os mesmos ,dicionarios apontam vozes1 a que ns oje damos um sentido2 e antigamente tinham outro3 v4 g4 ,navis1 ,triremis c4 ,onde quem nam distingue com cuidado isto1 frequentemente se ingana1 e discorre mal4 ,a quarta cauza dos-nosos inganos1 sam os afetos do-animo2 que produzem infinitos erros4 ,eles impedem-nos muitas vezes1 examinar bem as materias1 e por-consequencia1 julgar bem4 ,e muitas vezes fazem-nos amar1 ou dezejar o duvidozo por-certo4 ,os que abrasram de todo o seu corasam1 uma doutrina2 nam s nam se-cansam em examinar1 as razoens contrarias2 mas nem o-podem fazer1 porque as-nam-vem4 ,acrecento a isto1 que nem menos as-querem ver1 aindaque lhas-oferesam3 nem ainda outras obras indiferentes1 que saiem damesma pena1 in odium auctoris4 ,este justamente o cazo que sucedeo neste ,reino1 a um ,teologo meu conhecido1 que tinha abrasado a ,ciencia media4 ,introu em uma livraria1 onde cazualmente abrio um livro1 que tratava dos-prolegomenos da-,escritura3 lidos alguns paragrafos1 louvou muito a materia1 e o metodo2 e proguntou quem era o autor3 e quando ouvio dizer1 que era um ,dominicano1 fechou logo o livro1 e nam dise mais palavra4 ,comque1 ser necesario despir-se1 de todos os prejuizos2 para intender as coizas bem1 e poder discorrer com acerto4 ,conhecidos os erros1 necesario evitalos1 procurando a verdade4 ,para o-fazer1 precizo observar algum metodo4 pois o metodo aquela operasam do-intendimento1 tam necesaria em todo o genero de ,ciencias3 e sem a qual nam se-pode discorrer bem4 ,o discurso aquele progreso1 que o intendimento faz1 de um conhecimento para outro3 o metodo o que prepara a materia1 ao discurso4 ,desorteque a mente com o metodo dispoem as ideias1 em boa ordem3 e com o discurso reconhece a conveniencia delas4 ,de duas sortes o metodo4 ,dispomos as vezes os nosos conhecimentos1 de uma tal maneira1 que dividimos a coiza que queremos conhecer1 nas suas partes3 paraque asim as-posamos conhecer todas1 e consequentemente o todo4 ,este metodo chama-se rezolutivo1 ou analitico1 que vale o mesmo4 ,emprega-se comumente1 para reconhecer a verdade de muitas questoens1 e para descobrir1 e adquerir conhecimentos4 ,a outra sorte de metodo 1 quando devendo ensinar uma doutrina aos outros1 detal-sorte dispomos1 os nosos conhecimentos2 que intendendo cada um deles1 venha o dicipulo a conhecer1 todo o corpo da-,ciencia1 que se-compoem1 daquelas particulares doutrinas4 ,este metodo chama-se compozitivo1 ou sintetico1 que sam sinonimos3 ou tambem metodo de doutrina1 ou didatico1 ou didascalico3 que vale o mesmo4 ,e deste uzam comumente os bons mestres1 quando ensinam alguma materia4 ,para nam nos-inganarmos no-metodo1 necesario ter diante dos-olhos1 que ns ignoramos a esencia1 de todas as coizas4 ,onde ignoramos1 a esencia da-,materia1 do-,corpo1 das-,frmas1 do-,espirito1 e das-nosas mesmas ideias3 necesario antes de tudo1 pr esta advertencia4 ,isto suposto1 fazem-se questoens indisoluveis1 a que nam podemos responder3 que sam as que dependem1 do-conhecimento da-esencia das-coizas3 e destas nam falamos4 ,temos alem diso questoens soluveis1 que se-dividem em trez especies3 ,i4 posto um atributo1 progunta-se qual o sugeito que lhe-compete4 ,,ii4 posto o sugeito1 progunta-se qual atributo determinado lhe-compete4 ,,iii4 dado o atributo e sugeito1 progunta-se se um compete a outro4 ,trez sam as fontes donde se-tiram1 as solusoens de todas as questoens3 ,razam1 ,experiencia1 e o ,testemunho dos-autores4 ,as leis do-metodo ,analitico sam estas4 ,intender os vocabulos3 determinar as questoens3 separar as partes delas3 fugir de todo o genero de equivocos3 fugir das-oscuridades3 establecer termos comuns1 e claros3 intender os testemunhos e autoridades1 em que se-funda4 ,alem diso1 saber os requizitos que sam necesarios1 para intrar em uma questam3 v4g4 para a ,istoria1 as ,antiguidades1 ,cronologia1 ,geografia c4 para a ,fizica1 a noticia das-melhores experiencias c4 ,ler o contexto1 e ver as mais coizas que apontam os outros1 para nam errar no-criterio4 ,ter prezentes os canones1 que comumente se-asinam1 para distinguir as obras supostas1 das-verdadeiras4 ,o metodo ,sintetico1 ou metodo de mostrar a verdade1 tem estas leis4 ,nam admetir voz sem a-explicar3 nam mudar o significado das-vozes3 nam concluir sem evidencia3 nam inferir senam de principios provados4 ,quem observa estas regras1 pode ter a consolasam1 que tem boa ,logica4 ,tendo visto o modo1 com que o estudante se-deve regular1 no-metodo das-,ciencias2 fica claro1 como se-deve conter nas disputas publicas1 tanto argumentando1 como respondendo4 ,deve pois argumentar com razoens1 e nam com palavras3 fugindo de sofismas1 como indignos de um ,filozofo1 que sinceramente ama a verdade4 ,se quizer servir-se do-silogismo para argumentar1 pode fazlo4 ,digo porem1 que muitas vezes sem silogismo1 expor melhor as suas razoens3 servindo-se de um metodo de dialogo curto1 e claro4 ,no-que toca a responder1 se o arguente se-servir de silogismos1 com boas razoens1 pode seguir o mesmo metodo3 se pois ele comesar com o sofisma1 melhor reduzilo fra da-,frma1 para lhe-ensinar a argumentar4 ,em todo o cazo nam se-deve deixar pasar propozisam oscura1 que nam se-explique4 ,se ,v4,p4 obriga a explicar-se um sofista1 e pr em pratos limpos1 o que quer dizer nesta1 ou naquela propozisam2 acabou-se o sofisma4 ,esta nam ideia nova1 de que se-devam admirar os ,dialeticos3 eles o-praticam todos os dias argumentando1 e respondendo4 ,se o que distingue uma propozisam1 uza de termos incognitos2 ou se o que argumenta1 se-serve de semelhantes propozisoens2 ver ,v4 ,p4 que os mais advertidos ,peripateticos1 sam os primeiros a dizer-lhe1 que explique a propozisam1 ou distinsam4 ,julgo pois1 que o mesmo deve fazer qualquer defendente1 que tem a infelicidade1 de ter um ,dialetico por-arguente4 ,ponha-se o estudante neste primeiro principio1 de nam deixar pasar palavras confuzas1 como fazem os ,geometras2 e ver que se-acabam1 todas as disputas3 as quais comumente versam1 sobre a diversa inteligencia dos-termos2 e nam tem mais forsa1 que aquela que lhe-d1 a dispozisam artificial do-silogismo4 ,desorteque reduzido a proza corrente1 o que estava armado em silogismo1 nam tem forsa alguma4 ,tenho dado em breve a ,v4,p4 uma ideia da-,logica1 que pode ser util neste mundo1 para todos os empregos4 ,isto necesitava ser provado1 com mais extensam2 mas iso excede o metodo de uma carta4 ,do-que aponto1 compreende ,v4 ,p4 muito bem1 como se-deve dispor a ,logica1 para servir em todo o genero1 de bom discurso4 ,digno de admirasam1 que aja quem intenda1 que a ,logica somente deve servir1 para a ,teologia3 e que por-iso a-encham1 de todos aqueles termos1 que se-acham na ,escolastica comua3 e fasam uma ,logica1 que nam serve para coiza alguma4 ,como se os omens somente na ,fizica1 ou ,teologia devesem discorrer bem2 e nas outras coizas mal6 ,persuado-me1 que importa igualmente discorrer bem1 em todas as materias da-vida civil1 que naquelas duas4 ,a maior parte dos-,omens1 nam seguem aquela profisam1 mas outras diferentes1 e nam menos utis ,republica2 tanto nos-empregos altos1 como baixos2 e asim necesario1 que tenham regras1 para se-regular em todos os seus empregos2 quero dizer na politica publica1 e privada1 a que chamam vulgarmente ,economia4 ,cuido1 que a ,logica que apontei a ,v4 ,p4 suministra meios proprios1 para nam se-inganar em ideia alguma1 quanto posivel ao ,omem evitar os inganos1 nesta vida mortal3 e que por-este principio se-deve preferir1 a todas as outras4 ,toda a dificuldade oje consiste em determinar1 qual destas modernas1 7porque das-,peripateticas nenhuma se-deve ler7 posa suministrar1 as ideias que procuramos4 ,nisto direi a ,v4 ,p4 o meu parecer1 no-qual tenho alguns companheiros3 vem aser1 que ainda at aqui nam tem aparecido alguma1 que satisfasa inteiramente1 ao que dezejamos4 ,tenho lido quazi todas as modernas impresas1 algumas bem raras1 e tambem algumas manuscritas3 e achei que muitos copiram-se fielmente4 ,dos-outros que podemos chamar autores1 todos tem coizas boas1 e deles se-pode tirar muito2 mas nem tudo neles bom3 alem diso algum deles s para omens consumados1 e nam para rapazes3 e sam mui difuzos4 ,onde para os principiantes1 asento1 que ainda nam apareceo1 a ,logica dezejada4 ,e asim ser necesario1 servirse de alguma das-melhores1 emendando-lhe os defeitos4 ,chegando eu aqui1 veio vizitar-me o ,senhor 99 99 99 e proguntando-lhe com confiansa de amigo1 se sabia de alguma boa ,logica2 me respondeo1 que o 99 99 compoz ultimamente toda a ,filozofia1 por-um modo excelente1 que ele tinha visto4 ,proguntei-lhe que me-explicse1 o metodo da-,logica3 e despois de o-ouvir1 e considerar1 asento que se-uniforma muito1 minha opiniam3 e pode ser que seja ainda mais claro1 e mais util para os principiantes1 que este que asima apontei4 ,comque tem ,v4 ,p4 a ,logica que dezejava3 sabe ,v4 ,p4 mui bem1 de que pezo o juizo deste amigo4 ,dise-me que vencidas certas dificuldades 9999 faz conta impremila4 ,deus o-permita4 ,isto o que me-ocorre por-agora dizer a ,v4 ,p4 pedindo ao ,senhor1 o-conserve por-muitos anos4 ,,fim ,,do ,,primeiro ,,tomo4 ,,notas ,,de ,,rodap3 #hb ,in ,logica1 de ,signis disp4 ,i4 in ,prooemio4 ,,erros ,tendo achado que estes erros sam mais frequentes nesta edisam2 por iso dou uma regra geral1 para se-emendarem3 os outros notam-se abaixo4 ,achando-se ,leia-se engano1 dezengano1 enganar1 ingano1 dezingano1 inganar1 dezenganar4 dezinganar4 comprimir1 imprimir1 oprimir1 compremir1 impremir1 opremir admitir1 permitir1 e outras c4 vozes1 que se-formam destes ,infinitos3 tirando algumas1 que o autor excetua4 diminuir c4 deminuir c4 entrar1 encontrar1 emportar1 intrar1 incontrar1 importar1 enformar1 engenhar1 engenho2 e informar1 ingenhar1 ingenho c4 outras vozes e nomes que destes nacem4 parese1 conhese c4 parece1 conhece c4 ,o acento que se-acha nos monosilabos1 j1 l1 c1 v1 l2 tambem erro do corretor3 porque o autor s o-poem em d1 d1 ds1 ms1 pr verbo c4 para os-distinguir das particulas1 e vozes semelhantes4 ,como tambem em p1 ps1 s1 e outra rarisima4 ,,erros4 ,,emendem-,,se4 ,pagina #b4 regra #c4 tal-vez talvez p4 #c4 r4 #aa4 superfla superflua p4 #d4 r4 #e4 necessario necesario p4 #e4 r4 #f4 lisensa licensa p4 #f4 r4 ult4 necessario necesario p4 #g4 r4 #f4 pola pola pola p4 #i4 r4 #d4 defa lingua desa lingua r4 #bd4 maniera maneira p4 #aj4 r4 #a4 necessario necesario r4 #bh4 enfina ensina p4 #aa4 r4 #bb4 divido devido p4 #ab4 r4 #d4 propoziam prepozisam r4 #cc4 caracter carater p4 #ac4 r4 #aa4 mam mam r4 #ah4 memoria memoria p4 #ad4 r4 ult4 ,nasam ,nasam p4 #ae4 r4 #aj4 discipulos dicipulos p4 #ag4 r4 #bf4 mais mais mais r4 #ca4 necessario necesario p4 #bj4 r4 #aa4 partencentes pertencentes p4 #bd4 r4 #bh4 indo ,gerundio1 ou ou alguma p4 #bh4 r4 #ad4 ,menaha ,menha r4 #cb4 naqual na qual p4 #bi4 r4 #af4 necessario necesario r4 ult4 afim asim p4 #cj4 r4 #ab4 che que r4 #bb4 pronuneiar pronunciar p4 #ca4 r4 #e4 esposta resposta r4 #aa4 ,ley ,hey ,ley1 ,hey r4 #ag4 sufficiente suficiente r4 #ah4 ditongo1 ditongo4 p4 #cd4 r4 #ac4 discipulos discipulos p4 #ce4 r4 #bd4 nestes nestas p4 #ch4 r4 #i4 estas estar p4 #dj4 r4 #aa4 os seu os seus p4 #da4 r4 penul4 diver-se dizer-se p4 #dc4 r4 #c4 como e como n p4 #df4 r4 #d4 ouro oiro p4 #dg4 r4 #bi4 feguidas seguidas p4 #dh4 r4 #ca4 algua alguma p4 #ej4 r4 #bg4 efcrevem escrevem p4 #ea4 r4 #bg4 odiscurso o discurso p4 #eb4 r4 #bg4 final sinal p4 #ec4 r4 #i4 repouzo repoizo r4 #cd4 prepozisoens prepozisam propozisoens propozisam p4 #ee4 r4 #bh4 mais-linguas mais linguas p4 #ef4 r4 #ac4 grosa obra voluminoza obra r4 ult4 ergastual ergastula p4 #eg4 r4 #bh4 plebejas plebeias r4 #bi4 ,furetier ,furetiere p4 #ei4 r4 #bd4 de-donde donde p4 #fj4 r4 #bf4 escrevo escreveo p4 #fc4 r4 #g4 esperar-fe esperar-se p4 #fd4 r4 ult4 tres trez p4 #fh4 r4 #cg4 ,coemediam ,comoediam p4 #gj4 r4 #bj4 explicaam ,explicasam p4 #gd4 r4 #d4 ,latinidade ,latinidade p4 #gf4 r4 #bg4 omesmo o mesmo p4 #gi4 r4 #ca4 ,univerfidade ,universidade p4 #hc4 r4 #be4 determinado-lhe determinando-lhe p4 #hh4 r4 #ca4 ,geograsia ,geografia p4 #ie4 r4 #d4 melhores melhores r4 #bj4 distingia distinguia ,nota ,democrici ,democriti p4 #if4 r4 #cg4 nam das nam dar p4 #ih4 r4 #ce4 se-costumam se-acostumam p4 #ii4 r4 #a4 ,valeio ,velleio p4 #ajj4 r4 #ad4 a istoria3 a istoria1 p4 #ajc4 r4 #a4 da-fua da-sua r4 #d4 enfinar ensinar p4 #ajd4 r4 #ch4 de livos de livros p4 #aae4 r4 #ai4 os quer os que p4 #aai4 r4 #ag4 utilissimo utilisimo r4 #ca4 o senhor o ,senhor r4 #cb4 tratradinho tratadinho p4 #abf4 r4 #e4 sensisiveis sensiveis r4 #g4 ,advogago ,advogado p4 #abg4 r4 #af4 tosta toda p4 #abh4 r4 #ag4 asam asm p4 #acj4 r4 #f4 comuna comua p4 #acc4 r4 #cj4 misericorda mizericordia p4 #acd4 r4 #af4 ,lbano ,libano r4 #bd4 divedido dividido r4 #be4 oque o que p4 #acg4 r4 #bj4 ,panigirista ,panegirista p4 #aci4 r4 #aj4 come como p4 #adj4 r4 #g4 primeiio primeiro p4 #ada4 r4 #ah4 ,agostino ,agostinho p4 #adb4 r4 #c4 major maior p4 #add4 r4 #cc4 arhitratus arbitratus p4 #ade4 r4 #bc4 na-gloria na gloria r4 #cb4 ,encarnasam ,incarnasam p4 #adf4 r4 #ce4 divedidos divididos p4 #adh4 r4 #c4 temou tomou r4 #ad4 as-que as que r4 #cf4 menham menhan p4 #adi4 r4 #bi4 divedir dividir p4 #aej4 r4 #bh4 divedir dividir p4 #aeb4 r4 #bb4 pederia pediria p4 #aei4 r4 #ae4 miseravel mizeravel p4 #afh4 r4 #be4 de genere degenere p4 #agj4 nota ,philosopborum ,philosophorum p4 #agd4 r4 #ca4 consuza confuza p4 #age4 r4 #b4 ,manol ,manoel p4 #ahj4 r4 #cb4 ,trojananas ,troianas p4 #ahd4 r4 #ah4 famozifima famozisima r4 #bc4 frequentemeete frequentemente p4 #ahe4 r4 #e4 bastaa bastava p4 #ahi4 r4 #cj4 deferir defirir p4 #aij4 r4 pen4 ,quantos ,quanto p4 #aia4 r4 #ce4 cohecimento conhecimento p4 #aib4 r4 #b4 pouquifimos pouquisimos r4 #bg4 reprensoens repreensoens r4 #bi4 dizerm dizem p4 #aig4 r4 #b4 triunfo triumfo p4 #aii4 r4 #bd4 salava falava p4 #bjj4 r4 ult4 pen pena p4 #bjb4 r4 #af4 lhechamar lhe-chamar p4 #bjd4 r4 #d4 infigne insigne p4 #bje4 r4 #cc4 a provar aprovar p4 #bjh4 r4 #b4 comunemente comumente p4 #baa4 r4 #d4 e tratamento o tratamento p4 #bad4 r4 #a4 justicar justificar p4 #bag4 r4 #bi4 ofizeram o-fizeram p4 #bah4 r4 ult4 semelhanza semelhansa p4 #bai4 r4 #bc4 bem bom p4 #bbc4 r4 #ba4 todos todas p4 #bbf4 r4 #ce4 o-brigam o-obrigam p4 #bcb4 r4 #b4 otantezimo oitentezimo p4 #bcg4 r4 #g4 em em em p4 #bci4 r4 #i4 ,epigramma ,epigrama p4 #beb4 r4 #cf4 algnm algum p4 #bhb4 r4 #bh4 mostra-lhe mostrar-lhe p4 #bhe4 r4 ult4 vizinhanza vizinhansa p4 #bhf4 r4 #bc4 de de de r4 #ce4 fistema sistema ,,fim