,,cultura ,e ,,opulencia ,,do ,,brazil1 ,,por ,,suas ,,drogas ,e ,,minas4 ,,typ4 ,,imp4 ,e ,,const4 ,,de ,j4 ,vl,l,l,e,n,e,u,v,e ,e ,,comp41 ,,rua ,d',,ouvidor1 ,n4 #fe4 ,,cultura ,e ,,opulencia ,,do ,,brasil1 ,,por ,,suas ,,drogas ,e ,,minas1 ,,com ,,varias ,,noticias ,,curiosas ,,do ,,modo ,,de ,,fazer ,o ,,assucar2 ,,plantar ,e ,,beneficiar ,o ,,tabaco2 ,,tirar ,,ouro ,,das ,,minas1 ,e ,,descubrir ,,as ,,da ,,prata1 ,e ,,dos ,,grandes ,,emolumentos ,,que ,,esta ,,conquista ,,da ,,america ,,meridional ,d ,,ao ,,reino ,,de ,,portugal ,,com ,,estes1 ,e ,,outros ,,generos ,e ,,contratos ,,reaes2 ,obra de ,andr ,joo ,antonil1 ,,offerecida ,,aos ,,que ,,desej,o ,,ver ,,glorificado ,,nos ,,altares ,,ao ,,venerarel ,,padre ,,jos ,,anchieta1 ,sacerdote da ,companhia de ,jezus1 ,missionario ,apostolico1 e novo ,thaumaturgo do ,brazil4 ,,impresso ,,em ,,lisboa1 ,,na ,,officina ,,real ,,deslanderina ,,com ,,as ,,licen,,as ,,necessarias1 ,,no ,,anno ,,de #agaa1 ,,novamente ,,reimpresso ,,no ,,rio ,,de ,,janeiro4 ,,vende-,,se ,,em ,,casa ,,de ,,souza ,e ,,comp41 ,,rua ,,dos ,,latoeiros1 ,n4 #fj4 #ahcg4 ,o ,,editor ,,ao ,,publico4 ,o defunto ,conselheiro ,diogo de ,toledo ,lara e ,ordonhes possuia hum livro1 que estimava tanto1 que no o tinha entre os outros na sua estante1 mas sim na gaveta pequena de huma commoda4 ,pedio-se-lhe muitas vezes1 que o dsse bibliotheca1 hoje publica1 ao que nunca se pde resolver mesmo dando outros1 tanto era a estimao em que o tinha4 ,procurou-se o livro pois desde o comeo do anno de trinta1 algum tempo depois da morte do mesmo conselheiro1 e no se descobrindo no ,rio de ,janeiro recorreu-se a seu irmo1 e herdeiro1 o ,general ,arronches em ,s4 ,paulo1 o qual contestou que no lhe havia sido remettido4 ,ha tres annos pois que1 segundo ordens1 se fizro pesquizas em ,lisboa1 aonde em fins do anno passado se encontrou hum exemplar1 declarando o possuidor1 que o no venderia por cem mil cruzados1 tal he a estimao1 em que o tem6 mas como homem generozo permittio que se copiasse4 ,no mesmo tempo destas pesquizas em ,lisboa1 escreveu-se ao ,porto ao celebrado sabio antiquado portuguez ,joo ,pedro ,ribeiro1 o qual depois de varias contestaes asseverando o mo resultado das suas indagaes1 por fim escreveu1 e a sua carta chegou com o manuscripto1 declarando o nome de quatro pessoas1 que possuio exemplares1 e entre elles o nome de hum ,major1 ha pouco chegado alli do ,rio de ,janeiro2 quem sabe se no he o do defunto conselheiro6 acrescentando que por sete mil e duzentos ris talvez se obteria hum exemplar1 e que o livro fra prohibido no tempo de ,el-,rei ,d4 ,joo ,v pelo governo portuguez4 ,este livro he pois a cultura e riqueza do ,brazil1 etc4 etc4 etc41 no anno de #agaa4 ,do titulo inferir os leitores quanto elle he util a todos os estudiosos de economia politica1 e em geral a todos os ,brazileiros1 que alli achar a certeza de que o seu abenoado paiz j ento era a mais rica parte da ,america em quanto a productos ruraes4 ,he este rarissimo e interessante livro que se reimprime1 contentando-se o editor com a gloria1 que lhe toca1 de quasi ressuscitar huma joia to preciosa4 ,rio1 #a de ,agosto de #ahcg4 ,o ,,editor4 ,,indice4 ,pag4 ,aos ,senhores de engenho1 etc4 #a ,,primeira ,,parte4 ,proemio #c ,licenas #e ,,livro ,,primeiro4 ,,capitulo ,i4 ,do cabedal que hade ter o senhor de hum engenho real #g ,,capitulo ,,ii4 ,como se hade haver o senhor de engenho na compra1 e na conservao das terras1 e nos arrendamentos dellas #aa ,,capitulo ,,iii4 ,como se hade haver o senhor do engenho com os lavradores1 e outros visinhos1 e estes com o senhor #ad ,,capitulo ,,iv4 ,como se hade haver o senhor do engenho na eleio das pessoas1 e officiaes que admittir ao seu servio1 e primeiramente da eleio do capello #ag ,,capitulo ,v4 ,do feitor mr do engenho1 e dos outros feitores menores1 que assistem moenda1 fazendas1 e partidas da canna1 suas obrigaes1 e soldadas #ba ,,capitulo ,,vi4 ,do mestre do assucar1 e soto-mestre a quem chamo banqueiro1 e do seu ajudante1 a quem chamo ajuda-banqueiro #be ,,capitulo ,,vii4 ,do purgador do assucar #bh ,,capitulo ,,viii4 ,do caixeiro do engenho #bi ,,capitulo ,,ix4 ,como se hade haver o senhor de engenho com seus escravos #ca ,,capitulo ,x4 ,como se hade haver o senhor do engenho no governo de sua familia1 e nos gastos ordinarios da casa #ch ,,capitulo ,,xi4 ,como se hade haver o senhor do engenho no recebimento dos hospedes1 assim religiosos1 como seculares #dj ,,capitulo ,,xii4 ,como se hade haver o senhor do engenho com os mercadores1 e outros seus correspondentes na praa1 e de algum modo de vender e comprar o assucar1 conforme o estylo1 e uso do ,brazil #db ,,livro ,,segundo4 ,,capitulo ,i4 ,da escolha da terra para plantar cannas de assucar1 e para os mantimentos necessarios1 e provimentos do engenho #de ,,capitulo ,,ii4 ,da planta1 e limpar das cannas1 e a diversidade que ha nellas #dg ,,capitulo ,,iii4 ,dos inimigos da canna1 emquanto est no cannaveal4 #ej ,,capitulo ,,iv4 ,do crte da canna1 e sua conduco para o engenho4 #eb ,,capitulo ,v4 ,do engenho1 ou casa de moer a canna2 e como se move a moenda com agoa #ef ,,capitulo ,,vi4 ,do modo de moer as cannas1 e de quantas pessoas necessita a moenda #fc ,,capitulo ,,vii4 ,das madeiras de que se faz a moenda1 e todo o mais madeiramento do engenho1 canas e barcos2 e do que se costuma dar aos carpinteiros1 e outros semelhantes officiaes #ff ,,capitulo ,,viii4 ,da casa das fornalhas1 seus apparelhos1 e lenha que ha mister3 e da cinza1 e sua decoada #fi ,,capitulo ,,ix4 ,das caldeiras1 e cobres1 seu apparelho1 officiaes1 e gente que nellas ha mister2 e instrumentos de que uso #gc ,,capitulo ,x4 ,do modo de alimpar1 e purificar o caldo da canna nas caldeiras1 e no parol de coar1 at passar para as taxas #gg ,,capitulo ,,xi4 ,do modo de coser e bater o melado nas taxas #hj ,,capitulo ,,xii4 ,das tres temperas do melado1 e sua justa repartio pelas frmas #hb ,,livro ,,terceiro4 ,,capitulo ,i4 ,das frmas do assucar1 e sua passagem do tendal para a casa de purgar #he ,,capitulo ,,ii4 ,da casa de purgar o assucar nas frmas #hg ,,capitulo ,,iii4 ,das pessoas que se occupo em purgar1 mascavar1 secar e encaixar3 e dos instrumentos que para isso so necessarios #hi ,,capitulo ,,iv4 ,do barro que se bota nas frmas do assucar3 qual deve ser1 e como se hade amassar3 e se he bom ter no engenho olaria #ia ,,capitulo ,v4 ,do modo de purgar o assucar nas frmas3 e de todo o beneficio que se lhes faz na casa de purgar at se tirar #ic ,,capitulo ,,vi4 ,do modo de tirar1 mascavar e secar o assucar #ig ,,capitulo ,,vii4 ,do peso1 repartio1 e encaixamento do assucar #ajj ,,capitulo ,,viii4 ,de varias castas de assucar1 que separadamente se encaixo3 marcas das caixas1 e sua conduco ao trapiche #ajb ,,capitulo ,,ix4 ,dos preos antigos1 e modernos do assucar #ajf ,,capitulo ,x4 ,do numero das caixas de assucar1 que se fazem cada anno ordinariamente no ,brazil #ajh ,,capitulo ,,xi4 ,o que custa huma caixa de assucar de trinta1 a cincoenta arrobas1 posta na alfandega de ,lisboa1 e j despachada3 e do valor de todo o assucar que cada anno se faz no ,brazil #aaj ,,capitulo ,,xii4 ,do que padece o assucar1 desde o seu nascimento na canna at sahir do ,brazil #aad ,,segunda ,,parte4 ,,capitulo ,i4 ,como se comeou a tratar no ,brazil da planta do tabaco2 e a que estimao tem chegado #aag ,,capitulo ,,ii4 ,em que consiste a lavra do tabaco3 e de como se sema1 planta e alimpa2 em que tempo se hade plantar #aai ,,capitulo ,,iii4 ,como se tiro e curo as folhas do tabaco2 como dellas se fazem e beneficio as cordas #abb ,,capitulo ,,iv4 ,como se cura o tabaco depois de torrado em corda #abd ,,capitulo ,v4 ,como se enrola e encoura o tabaco3 e que pessoas se occupo em toda a fabrica delle1 desde a sua planta at se enrolar #abe ,,capitulo ,,vi4 ,da segunda e terceira folha do tabaco2 e de diversas qualidades delle1 para se mascar1 cachimbar e pisar #abh ,,capitulo ,,vii4 ,como se pisa o tabaco3 do granido1 e em p2 e como se lhe d o cheiro #abi ,,capitulo ,,viii4 ,do uso moderado do tabaco para a saude1 e da demasia nociva mesma saude1 de qualquer modo que se use delle #aca ,,capitulo ,,ix4 ,do modo com que se despacha o tabaco na alfandega da ,bahia #acd ,,capitulo ,x4 ,que custa hum rolo de tabaco de oito arrobas1 posto da ,bahia na alfandega de ,lisboa1 e j despachado1 e corrente para sahir della #acf ,,capitulo ,,xi4 ,da estimao do tabaco do ,brazil na ,europa1 e nas mais partes do mundo1 e dos grandes emolumentos que delle tira a fazenda real #acg ,,capitulo ,,xii4 ,das penas dos que levo tabaco no despachado nas alfandegas2 e das industrias de que se usa para se levar de contrabando #aci ,,terceira ,,parte4 ,,capitulo ,i4 ,das minas de ouro que se descobriro no ,brazil #ada ,,capitulo ,,ii4 ,das minas de ouro que chamo geraes1 e dos descobridores dellas #adc ,,capitulo ,,iii4 ,de outras minas de ouro no ,rio das ,velhas e no ,caet #ade ,,capitulo ,,iv4 ,do rendimento dos ribeiros2 e das diversas qualidades de ouro que delles se tira #adf ,,capitulo ,v4 ,das pessoas que ando nas minas e tiro ouro dos ribeiros #adi ,,capitulo ,,vi4 ,das datas ou reparties das minas #aea ,,capitulo ,,vii4 ,da abundancia de mantimentos1 e de todo o usual que hoje ha nas minas3 e do pouco caso que se faz dos preos extraordinariamente altos #aec ,,capitulo ,,viii4 ,de diversos preos de ouro vendido no ,brazil1 e do que importa o que cada anno ordinariamente se tira das minas #aeg ,,capitulo ,,ix4 ,da obrigao de pagar a ,el-,rei nosso senhor a quinta parte do ouro que se tira das minas do ,brazil #afj ,,capitulo ,x4 ,roteiro do caminho da villa de ,s4 ,paulo para as ,minas ,geraes e para o ,rio das ,velhas #agc ,,capitulo ,,xi4 ,roteiro do caminho velho da cidade do ,rio de ,janeiro para as ,minas ,geraes dos ,cataguas1 e do ,rio das ,velhas #agg ,,capitulo ,,xii4 ,roteiro do caminho novo da cidade do ,rio de ,janeiro para as minas #agh ,,capitulo ,,xiii4 ,roteiro do caminho da cidade da ,bahia para as minas do ,rio das ,velhas #aha ,,capitulo ,,xiv4 ,modo de tirar o ouro das minas do ,brazil e ribeiros delles1 observado de quem nellas assistio com o governador ,artur de ,s #ahc ,,capitulo ,,xv4 ,noticias para se conhecerem as minas de prata #ahh ,,capitulo ,,xvi4 ,modo de conhecer a prata1 e beneficiar os metaes #aia ,,capitulo ,,xvii4 ,dos damnos que tem causado ao ,brazil a cobia1 depois do descobrimento do ouro nas minas #aid ,,quarta ,,parte4 ,,capitulo ,i4 ,da grande extenso de terras para pastos cheios de gado1 que ha no ,brazil #aig ,,capitulo ,,ii4 ,das boiadas1 que ordinariamente se tiro cada anno dos curraes1 para as cidades1 villas1 e reconcavos do ,brazil1 assim para o aougue1 como para o fornecimento das fabricas #bja ,,capitulo ,,iii4 ,da conduco das boiadas do serto do ,brazil3 preo ordinario do gado que se mata1 e do que vai para as fabricas #bjc ,,capitulo ,,iv4 ,que custa hum couro em cabello1 e hum meio de sola beneficiado at se pr do ,brazil na alfandega de ,lisboa #bje ,,capitulo ,v4 ,resumo de tudo o que vai ordinariamente cada anno do ,brazil para ,portugal1 e do seu valor #bji ,,capitulo ,,ultimo4 ,quanto he justo que se favorea o ,brazil por ser de tanta utilidade ao reino de ,portugal #bjh ,,fim ,,do ,,indice4 ,,aos ,,senhores ,,de ,,engenhos1 ,e ,,lavradores ,,do ,,assucar1 ,e ,,do ,,tabaco1 ,e ,,aos ,,que ,,se ,,occup,o ,,em ,,tirar ,,ouro ,,das ,,minas ,,do ,,estado ,,do ,,brazil4 ,deve tanto o ,brazil ao ,veneravel ,padre ,jos de ,anchieta1 hum dos primeiros1 e mais fervorosos missionarios desta ,america ,meridional2 que a boca cheia o chama seu grande ,apostolo1 e novo ,thaumaturgo1 pela luz evangelica1 que communicou a tantos milhares de ,indios1 e pelos innumeraveis milagres1 que obrou em vida1 e obra continuamente invocado para beneficio de todos4 ,porm confessar estas obrigaes1 e no cooperar as glorias de to insigne bemfeitor1 no basta para hum verdadeiro agradecimento1 devido justamente1 e esperado4 ,para excitar pois este piedoso affecto nos animos de todos os que mais facilmente podem ajudar como agradecidos obra to santa1 como he a canonisao de hum ,varo to illustre1 procurei acompanhar esta justa petio com alguma dadiva1 que podesse agradar1 e ser de alguma utilidade aos que nos engenhos do assucar1 nos partidos1 e nas lavouras do tabaco1 e nas minas do ouro experimento favor do ,co com notavel augmento dos bens temporaes4 ,portanto com esta limitada offerta provoco aquella generosa liberalidade1 que no consente ser rogada1 por no parecer que dando quer vender beneficios4 ,e ao mesmo ,veneravel ,padre ,jos de ,anchieta peo encarecidamente1 que queira alcanar de ,deos centuplicada remunerao1 na terra e no ,co1 a quem se determinar a promover com alguma esmola as suas honras1 para que publicadas nos templos1 e celebradas nos altares1 accrescentem tambem maior gloria quelle senhor bemfazejo4 ,,primeira ,,parte4 ,,cultura1 ,e ,,opulencia ,,do ,,brazil ,,na ,,lavra ,,do ,,assucar ,,engenho ,,real1 ,,moente1 ,e ,,corrente4 ,,trata-,,se ,do senhor do engenho de assucar1 dos feitores1 e outros officiaes1 que nelle se occupo1 suas obrigaes1 e salarios4--,da moenda1 fabrica1 e officinas do engenho1 e do que em cada huma dellas se faz4--,da planta das cannas1 sua conduco1 e moagem3 e de como se faz1 purga1 e encaixa o assucar no reconcavo da ,bahia no ,brazil para o ,reino de ,portugal1 e seus emolumentos4 ,,proemio4 ,quem chamou as officinas1 em que se fabrica o assucar1 engenhos1 acertou verdadeiramente no nome4 ,porque quem quer que as v1 e considera com reflexo1 que merecem1 he obrigado a confessar1 que so huns dos principaes partos1 e invenes do engenho humano1 o qual como pequena poro do ,divino1 sempre se mostra no seu modo de obrar1 admiravel4 ,dos engenhos huns se chamo reaes1 outros inferiores vulgarmente engenhocas4 ,os reaes ganhro este appelido1 por terem todas as partes1 de que se compoem1 e todas as officinas perfeitas1 cheias de grande numero de escravos1 com muitos cannaveaes proprios1 e outros obrigados moenda3 e principalmente por terem a realeza de moerem com agoa1 differena de outros1 que mem com cavallos1 e bois1 e so menos providos1 e apparelhados3 ou pelo menos com menor perfeio1 e largueza1 das officinas necessarias1 e com pouco numero de escravos1 para fazerem como dizem1 o engenho moente1 e corrente4 ,e porque algum dia folguei de ver hum dos mais afamados1 que h no reconcavo beira-mar da ,bahia1 quem chamo o engenho de ,sergipe do ,conde2 movido de huma louvavel curiosidade1 procurei no espao de oito1 ou dez dias que ahi estive1 tomar noticia de tudo o que o fazia to celebrado1 e quasi rei dos engenhos reaes4 ,e valendo-me das informaes1 que me deu1 quem o administrou mais de trinta annos com conhecida intelligencia1 e com accrescentamento igual industria3 e da experiencia de hum famoso mestre de assucar1 que cincoenta annos se occupou neste officio com venturoso successo2 e dos mais officiaes de nome1 aos quaes miudamente perguntei o que a cada qual pertencia2 me resolvi a deixar neste borro tudo aquillo1 que na limitao do tempo sobredito apressadamente1 mas com atteno ajuntei1 e extendi com o mesmo estilo1 e modo de fallar claro1 e cho1 que se usa nos engenhos3 para que os que no sabem o que custa a doura do assucar a quem o lavra1 o conheo1 e sinto menos dar por elle o preo que vale3 e quem de novo entrar na administrao de algum engenho1 tenha estas noticias praticas1 dirigidas a obrar com acerto2 he o que em toda a occupao se deve desejar1 e intentar4 ,e para maior clareza1 e ordem1 reparti em varios capitulos tudo o que pertence a esta droga1 e a quem por ella1 e nella trabalha2 comeando1 depois de relatar as obrigaes de cada qual1 desde a primeira origem do assucar na canna1 at sua cabal perfeio nas caixas1 conforme o meu limitado cabedal2 que pelo menos servir1 para dar a outros de melhor capacidade1 e penna mais ligeira1 e bem aparada1 algum estimulo de aperfeioar este embrio4 ,e se alguem quizer saber o autor deste curioso1 e util trabalho2 elle he hum amigo do bem publico chamado3 ,o ,anonymo ,toscano4 ,,licen,,as4 ,,do ,,santo ,,officio4 ,ill4 ,sr4--,revi este livro intitulado ,,cultura1 ,e ,,opulencia ,,do ,,brazil1 mencionado na petio acima1 e sendo a obra de engenho1 pela boa disposio1 com que o seu autor o compz1 he muito merecedora da licena1 que pede3 porque por este meio saber os que se quizerem passar ao estado do ,brazil1 o muito que custo as culturas do assucar1 tabaco1 e ouro1 que so mais doces de possuir no ,reino1 que de cavar no ,brazil4 ,no contm este livro cousa1 que seja contra a nossa santa f1 ou bons costumes1 e por isso se pde estampar com letras de ouro4 ,este he o meu parecer1 que ponho aos ps de ,vossa ,illustrissima1 para mandar fazer o que fr servido4 ,s4 ,anna de ,lisboa1 em #h de ,novembro de #agaj4--;,fr4 ,paulo de ,s4 ,boaventura4 99 99 99 99 99 ,no contm este tratado cousa suspeitosa contra a nossa santa f1 e pureza dos bons costumes1 e assim sendo ,vossa ,illustrissima servido pde conceder a licena1 que pede o autor4 ,trindade1 #cj de ,novembro de #agaj4--;,fr4 ,manoel da ,conceio4 99 99 99 99 99 ,vistas as informaes1 pde-se imprimir o livro intitulado1 ,cultura1 e ,opulencia do ,brazil1 e impresso tornar para se conferir4 ,lisboa1 #e de ,dezembro de #agaj4--,moniz4--,hasse4--,monteiro4--,r ibeiro4--,fr4 ,encarnao4--,rocha4--,barreto4 ,,do ,,ordinario4 ,pde-se imprimir o livro intitulado1 ,cultura1 e ,opulencia do ,brazil1 e impresso torne para se conferir1 e dar licena que corra1 e sem ella no correr4 ,lisboa1 #ab de ,dezembro de #agaj4--;,b4 de ,tagaste4 ,,do ,,pa,o4 ,senhor1 vi o livro1 que ,vossa ,magestade foi servido remetter-me1 seu autor ,andr ,joo ,antonil2 e sobre no achar nelle cousa1 que encontre o real servio de ,vossa ,magestade1 me parece ser muito util para o commercio3 porque despertar as diligencias1 e incitar a que se procurem to faceis interesses4 ,julgo-o muito digno da licena que pede4 ,vossa ,magestade ordenar o que fr servido4 ,s4 ,domingos de ,lisboa1 #ae de ,janeiro de #agaa4--;,fr4 ,manoel ,guilherme4 99 99 99 99 99 ,que se possa imprimir1 vistas as licenas do ,santo ,officio1 e ,ordinario1 e depois de impresso tornar ,mesa para se conferir1 e taxar1 e sem isso no correr4 ,lisboa1 #ag de ,janeiro de #agaa4--,oliveira4--,lacerda4--,carneiro 4--,botelho4--,costa4 ,,livro ,,primeiro4 ,,capitulo ,,primeiro4 ,do cabedal que hade ter o senhor de hum engenho real4 ,o ser senhor de engenho1 he titulo1 a que muitos aspiro1 porque traz comsigo1 o ser servido1 obedecido1 e respeitado de muitos4 ,e se fr1 qual deve ser1 homem de cabedal1 e governo2 bem se pde estimar no ,brazil o ser senhor de engenho1 quanto proporcionadamente se estimo os titulos entre os fidalgos do ,reino4 ,porque engenhos h na ,bahia1 que do ao senhor quatro mil pes de assucar1 e outros pouco menos1 com canna obrigada moenda1 de cujo rendimento logra o engenho ao menos a metade1 como de qualquer outra1 que nelle livremente se me3 e em algumas partes ainda mais que a metade4 ,dos senhores dependem os lavradores1 que tem partidos arrendados em terras do mesmo engenho1 como os cidados dos fidalgos3 e quanto os senhores so mais possantes1 e bem apparelhados de todo o necessario1 affaveis1 e verdadeiros2 tanto mais so procurados1 ainda dos que no tem a canna captiva1 ou por antiga obrigao1 ou por preo que para isso recebro4 ,servem ao senhor de engenho em varios officios1 alm dos escravos de enchada1 e fouce1 que tem nas fazendas1 e na moenda1 e fra os mulatos e mulatas1 negros e negras de casa1 ou occupados em outras partes2 barqueiros1 canoeiros1 calafates1 carapinas1 carreiros1 oleiros1 vaqueiros1 pastores e pescadores4 ,tem mais cada senhor destes necessariamente hum mestre de assucar1 hum banqueiro1 e hum contra-banqueiro1 hum purgador1 hum caixeiro no engenho1 e outro na cidade1 feitores nos partidos1 e roas1 hum feitor mr do engenho3 e para o espiritual1 hum sacerdote seu capello2 e cada qual destes officiaes tem soldada4 ,toda a escravatura 7que nos maiores engenhos passa o numero de cento e cincoenta1 a duzentas peas1 contando as dos partidos71 quer mantimentos1 e fardas1 medicamentos1 enfermaria1 e enfermeiro2 e para isso so necessarias roas de muitas mil covas de mandioca4 ,querem os barcos1 velames1 cabos1 cordas1 e breo4 ,querem as fornalhas1 que por sete1 ou oito mezes ardem de dia1 e de noite1 muita lenha2 e para isso he mister dous barcos velejados1 para se buscar nos portos1 indo hum atraz do outro sem parar1 e muito dinheiro para a comprar2 ou grandes matos1 com muitos carros1 e muitas juntas de boi para se trazer4 ,querem os cannaveaes tambem suas barcas1 e carros com dobradas esquipaes de bois4 ,querem enchadas1 e fouces4 ,querem as serrarias machados1 e serras4 ,quer a moenda de toda a casta de pos de lei de sobrecelente1 e muitos quintaes de ao1 e de ferro4 ,quer a carpintaria madeiras selectas e fortes para esteios1 vigas1 aspas1 e rodas2 e pelo menos os instrumentos mais usuaes1 a saber2 serras1 trados1 verrumas1 compaos1 regoas1 escropros1 enchs1 goivas1 machados1 martelos1 cantins1 e junteiras1 pregos1 e plainas4 ,quer a fabrica do assucar phares1 e caldeiras1 tachas e bacias1 e outros muitos instrumentos menores1 todos de cobre2 cujo preo passa de oito mil cruzados1 ainda quando se vende1 no to caro1 como nos annos presentes4 ,so finalmente necessarias alm das sanzallas dos escravos1 e alm das moradas do capello1 feitores1 mestre1 purgador1 banqueiro1 e caixeiro1 huma capella decente com seus ornamentos1 todo o apparelho do altar1 e humas casas para o senhor do engenho com seu quarto separado para os hospedes1 que no ,brazil1 falto totalmente de estalagens1 so continuos2 e o edificio do engenho1 forte e espaoso1 com as mais officinas1 e casa de purgar1 caixaria1 alambique1 e outras cousas1 que por miudas aqui se escusa aponta-las1 e dellas se fallar4 ,o que tudo bem considerado1 assim como obriga a huns homens de bastante cabedal1 e de bom juizo1 a quererem antes serem lavradores possantes de canna com hum1 ou dous partidos de mil pes de assucar1 com trinta1 ou quarenta escravos de enchada1 e fouce2 do que senhores de engenhos por poucos annos com a lida1 e atteno que pede o governo de toda essa fabrica2 assim he para pasmar como hoje se atrevem tantos a levantar engenhocas1 tanto que chegro a ter algum numero de escravos1 e achro quem lhes emprestasse alguma quantidade de dinheiro para comear a tratar de huma obra1 de que no so capazes por falta de governo1 e diligencia2 e muito mais por ficarem logo na primeira safra to empenhados com dividas1 que na segunda1 ou terceira j se declaro perdidos3 sendo juntamente causa1 que os que firo delles1 dando-lhes fazenda e dinheiro1 tambem quebrem1 e que outros zombem da sua mal fundada presumpo1 que to depressa converteu em palha seca aquella primeira verdura de huma apparente1 mas enganosa esperana4 ,e ainda que nem todos os engenhos sejo reaes1 nem todos puxem por tantos gastos1 quantos at aqui temos apontado3 comtudo1 entenda cada qual1 que com as mortes1 e com as secas que de improvizo aperto1 emirro a canna1 e com os desastres1 que a cada passo succedem1 crescem os gastos mais do que se cuidava4 ,entenda tambem1 que os pedreiros1 e carapinas1 e outros officiaes desejosos de ganhar a custa alheia1 lhe facilitar tudo de tal sorte1 que lhe parecer o mesmo levantar hum engenho1 que huma sanzalla de negros2 e quando comear a ajuntar os aviamentos1 achar ter j despendido tudo quanto tinha antes de se pr pedra sobre pedra1 e no ter com que pagar as soldadas1 crescendo de improvizo os gastos1 como se fossem por causa das enxurradas dos rios4 ,tambem se no tiver capacidade1 modo1 e agencia que se requer na boa disposio e governo de tudo1 na eleio dos feitores1 e officiaes1 na boa correspondencia com os lavradores1 no trato da gente sujeita na conservao1 e lavoura das terras1 que possue1 e na verdade e pontualidade com os mercadores1 e outros seus correspondentes na praa1 achar confuso1 e ignorancia no titulo de senhor de engenho1 donde esperava acrescentamento de estimao1 e de credito4 ,por isso1 tendo j fallado do que pertenceu ao cabedal1 que ha de ter1 tratarei agora de como se ha de haver no governo2 e primeiramente da compra1 e conservao das terras1 e seus arrendamentos aos lavradores que tem2 e logo da eleio dos officiaes que hade admittir ao seu servio1 apontando as obrigaes1 e as soldadas de cada hum delles1 conforme o estilo dos engenhos reaes da ,bahia1 e ultimamente do governo domestico da sua familia1 filhos1 e escravos2 recebimento dos hospedes1 e pontualidade em dar satisfao a quem deve2 do que depende a conservao do seu credito1 que he o melhor cabedal dos que se preso de honrados4 ,,capitulo ,,ii4 ,como se hade haver o senhor de engenho na compra1 e na conservao das terras1 e nos arrendamentos dellas4 ,se o senhor de engenho no conhecer a qualidade das terras1 comprar sales por massaps1 e apics por sales4 ,por isso valha-se das informaes dos lavradores mais entendidos1 e attente no smente a barateza do preo1 mas tambem a todas as conveniencias1 que se ho de buscar para ter fazenda com cannaveaes1 pastos1 agoas1 roas e matos2 e em falta destes1 commodidade para ter a lenha mais perto que puder ser1 e para escusar outros inconvenientes1 que os velhos lhe podero apontar1 que so os mestres a quem ensinou o tempo1 e a experiencia1 o que os moos ignoro4 ,muitos vendem as terras que tem1 por canadas1 ou falta de lenha2 outros porque se no atrevem a ouvir tantos recados semelhantes aos que se davo a ,job1 do partido queimado1 dos bois atolados1 dos escravos mortos1 e do assucar perdido4 ,outros obrigados a vender contra vontade por causa dos acredores1 que os aperto1 bem pde ser que offereo terras novas1 e fortes2 porm o comprador corre ento outro risco de comprar demandas eternas pelas obrigaes1 e hypothecas1 a que esto por repetidas vezes sujeitas4 ,por tanto1 nesse caso falle o comprador com os letrados2 pergunte aos acredores1 que he o que pretendem1 e se fr necessario com autoridade do ,juiz1 cite a todos para saber o que na verdade se deve1 nem conclua a compra1 antes de ver com seus olhos1 que he o que compra1 que titulos de dominio tem o vendedor1 e se os ditos bens so vinculados1 ou livres2 e se tem parte nelles orfos1 mosteiros1 ou igrejas1 para que se no falte ao fazer da escriptura a alguma condio1 ou solemnidade necessaria4 ,veja tambem as demarcaes das terras1 se foro medidas por justia1 e se os marcos esto em ser1 ou se ha mister avivental-os2 que taes so os cohereos1 a saber se amigos de justia1 de verdade e de paz1 ou pelo contrario trapasseiros1 desenquietos1 e violentos1 porque no ha peior peste que hum mo visinho4 ,feita a compra no falte a seu tempo a palavra que deu1 pague e seja pontual nesta parte1 e se attende a conservao1 e melhoramento do que comprou1 e principalmente use de toda a diligencia para defender os marcos e as aguas de que necessita para moer o seu engenho2 e mostre aos filhos1 e aos feitores os ditos marcos para que saibo o que lhes pertence1 e posso evitar demandas1 e pleitos1 que so huma continua desenquietao d'alma1 e hum continuo sangrador de rios de dinheiro1 que vai a entrar nas casas dos ,advogados1 ,solicitadores1 e ,escrives1 com pouco proveito de quem promove o pleito1 ainda quando alcana1 depois de tantos gastos1 e desgostos1 em seu favor a sentena4 ,nem deixe os papeis1 e as escripturas que tem na caixa da mulher1 ou sobre huma mesa exposta ao p1 ao vento1 traa1 e ao cupim2 para que depois no seja necessario mandar dizer muitas missas a ,santo ,antonio1 para achar algum papel importante que desappareceu1 quando houver mister exhibi-lo4 ,porque lhe acontecer que a criada1 ou serva tire duas1 ou tres folhas da caixa da senhora1 para embrulhar com ellas o que mais lhe agradar3 e o filho mais pequeno tirar tambem algumas da mesa1 para pintar carretas1 ou para fazer barquinhos de papel1 em que naveguem moscas1 e grillos1 ou finalmente o vento far que vem fra da casa sem pennas4 ,para ter lavradores obrigados ao engenho1 he necessario passar-lhes arrendamento das terras1 em que ho de plantar4 ,estes costumo fazer-se por nove annos1 e hum de despejo1 com a obrigao de deixarem plantadas tantas tarefas de canna3 ou por desoito annos1 e mais1 com as obrigaes1 e numero de tarefas1 que assentarem1 conforme o costume da terra4 ,porm ha de se advertir1 que os que pedem arrendamento1 sejo fazendeiros1 e no destruidores da fazenda2 de sorte que sejo de proveito1 e no de damno4 ,e na escriptura do arrendamento se ho de pr as condies necessarias3 v4 g41 que no tirem pos reaes1 que no admitto outros em seu lugar nas terras1 que arrendo1 sem consentimento do senhor dellas1 e outras que se julgarem necessarias1 para que algum delles mais confiado de lavrador1 se no faa logo senhor4 ,e para isso seria boa preveno1 ter huma formula1 ou nota de arrendamento1 feita por algum ,letrado dos mais experimentados1 com declarao de como se havero1 despejando1 cerca das bemfeitorias2 porque o fim do tempo do arrendamento no seja principio de demandas eternas4 ,,capitulo ,,iii4 ,como se hade haver o senhor do engenho com os lavradores1 e outros visinhos1 e estes com o senhor4 ,o ter muita fazenda cria1 commummente1 nos homens ricos1 e poderosos desprezo da gente mais pobre1 e por isso ,deos facilmente lh'a tira1 para que se no sirvo della para crescer em soberba4 ,quem chegou a ter titulo de senhor1 parece que em todos quer dependencia de servos4 ,e isto principalmente se v em alguns senhores1 que tem lavradores em terras do engenho1 ou de canna1 obrigados a moer nelle1 tratando-os com altivez1 e arrogancia4 ,donde nasce o serem malquistos1 e murmurados dos que os no podem soffrer1 e que muitos se alegrem com as perdas1 e desastres que de repente padecem1 pedindo os miseraveis1 opprimidos a cada passo1 justia a ,deos1 por se verem to vexados1 e desejando ver os seus oppressores humilhados1 para que aprendo a no tratar mal os humildes2 assim como o medico deseja1 e procura tirar fra a malignidade1 e abundancia do umor peccante1 que faz o corpo indisposto1 e doente1 para lhe dar desta sorte no smente vida1 mas tambem perfeita saude4 ,nada pois tenha o senhor de engenho de altivo1 nada de arrogante1 e soberbo3 antes seja muito affavel com todos1 e olhe para os seus lavradores1 como para verdadeiros amigos2 pois taes so na verdade quando se desentrenho para trazerem os seus partidos bem plantados1 e limpos1 com grande emolumento do engenho1 e dei-lhes todo o adjuctorio que poder1 em seus apertos1 assim com a autoridade como com a fazenda4 ,nem ponha menor cuidado em ser muito justo1 e verdadeiro1 quando chegar o tempo de moer a canna1 e de fazer1 e encaixar os assucares1 porque no seria justia tomar para si nos dias de moer1 que deve dar aos lavradores por seu turno1 ou dar a hum mais dias que a outro1 ou misturar o assucar que se fez de hum lavrador1 com o da tarefa de outro1 ou escolher para si o melhor1 e dar ao lavrador o somenos4 ,e para evitar estas duvidas1 e qualquer outra suspeita semelhante1 avise ou mande avisar com tempo a quem por direito se segue1 para que possa cortar1 e carrear a canna1 e t-la na moenda ao seu dia1 e haja nas formas seu signal1 para que se destingo das outras4 ,nem estranhe que os lavradores queiro ver no tendal1 e casa de purgar1 no balco1 e casa de encaixar ao seu assucar2 pois tanto lhes custou chegal-o a pr nesse estado1 e tanta amargura precedeo a esta limitada doura4 ,tambem seria signal de ter ruim corao1 fazer m visinhana aos que moem a canna livre em outros engenhos1 s porque no moem no seu1 nem ter boa correspondencia com os senhores de outros engenhos1 s porque cada qual delles folga de moer tanto1 e como outro1 ou porque a algum delles lhe vai melhor1 e com menos gasto1 sem perdas4 ,e se a inveja entre os primeiros irmos1 que houve no mundo1 foi to arrojada1 que chegou a ensanguentar as mos de ,caim com sangue de ,abel1 porque ,abel levava a beno do ,co1 e ,caim no1 por sua culpa2 quem duvida que se poderia chegar a renovar semelhantes tragedias ainda hoje entre os parentes8 pois ha no ,brazil muitas paragens1 em que os senhores de engenho so entre si muito chegados por sangue1 e pouco unidos por caridade1 sendo o interesse a causa de toda a discordia1 e bastando talvez hum po que se tire1 ou hum boi que entre em hum cannaveal por descuido1 para declarar o odio escondido1 e para armar demandas e pendencias mortaes8 ,o unico remedio pois para atalhar pesados desgostos1 he haver-se com toda a urbanidade e primor1 pedindo licena para tudo1 cada vez que fr necessario valer-se do que tem os visinhos1 e persuadir-se que1 se nego o que pede1 ser porque a necessidade os obriga4 ,e quando ainda se conhecesse que o negar-se he por desprimor1 a verdadeira1 e mais nobre vingana ser1 dar logo a quem negou o que se pedio1 na primeira occasio1 dobrado do que pede1 para que desta sorte cahia por bom modo na cta de como devia proceder4 ,sobre todos porm os que se devem haver com maior respeito para com o senhor do engenho1 so os lavradores1 que tem partidos obrigados sua moenda1 e muito mais os que lavro em terras1 que os senhores lhes tem arrendado1 particularmente quando desta sorte comero sua vida1 e chegro por esta via a ter cabedal2 porque a ingratido1 e o faltar ao respeito e cortesia devida1 he nota digna de ser muito estranhada1 e hum agradecimento obsequioso cativa os animos de todos com correntes de ouro4 ,porm1 este respeito nunca ha de ser tal que incline obra contra justia1 principalmente quando forem induzidos a fazer cousa contraria lei de ,deos2 como seria1 a jurar em demandas crimes ou civeis contra a verdade1 e pr-se mal com os que com razo se defendem4 ,e o que tenho dito dos senhores do engenho1 digo tambem das senhoras1 as quaes1 posto que mereo maior respeito das outras1 no ho de presumir que devem ser tratadas como rainhas1 nem que as mulheres dos lavradores ho de ser suas criadas1 e apparecer entre ellas como a lua entre as estrellas menores4 ,,capitulo ,,iv4 ,como se hade haver o senhor do engenho na eleio das pessoas1 e officiaes que admittir ao seu servio1 e primeiramente da eleio do capello4 ,se em alguma cousa mais que em outra ha de mostrar o senhor do engenho a sua capacidade e prudencia1 esta sem duvida he a boa eleio das pessoas1 e officiaes que ha de admittir ao seu servio1 para o bom governo do engenho4 ,porque1 sendo a eleio filha da prudencia1 com razo se arguir de imprudente quem escolher pessoas1 ou de ruim vida1 ou ineptas para o que ho de fazer4 ,claro est que huns1 com a ruim vida1 desagradar a ,deos1 e aos homens1 e ser causa de muitos e bem pesados desgostos2 e outros1 com a ineptido1 causar damno no ordinario fazenda4 ,e isto lhe poder extranhar com razo1 no s os de casa1 por mais chegados a queimar-se1 ou a chammuscar-se com o seu trato1 mas tambem os de fra1 e principalmente os lavradores1 obrigados a experimentar sem culpa os prejuizos1 que se seguem ao seu mallogrado suor1 do no saberem os officiaes o que requer o seu officio4 ,o primeiro que se ha de escolher com circunspeco1 e informao secreta do seu procedimento e saber1 he o capello1 a quem se ha de encommendar o ensino de tudo o que pertence vida christ1 para1 desta sorte1 satisfazer maior das obrigaes que tem1 a qual he doutrinar1 ou mandar doutrinar a familia e escravos1 no j por hum crioulo1 ou por hum feitor1 que1 quando muito1 poder ensinar-lhes vocalmente as oraes1 e os mandamentos da lei de ,deos1 e da ,igreja1 mas por quem saiba explicar-lhes o que ho de crer1 o que ho de obrar1 e como ho de pedir a ,deos aquillo1 de que necessito4 ,e para isso1 se fr necessario dar ao capello alguma cousa mais do que se costuma1 entenda que este ser o melhor dinheiro que se dar em boa mo4 ,tem pois o capello obrigao de dizer missa na capella do engenho nos ,domingos1 e dias santos1 ficando-lhe livre a applicao das missas nos outros dias da semana por quem quizer1 salvo se se concertar de outra sorte com o senhor da capella1 recebendo estipendio proporcionado ao trabalho4 ,e nos mesmos ,domingos1 e dias santos1 ou pelo menos nos ,domingos1 se se admittir com esta obrigao1 explicar a doutrina christ2 a saber1 os principaes mysterios da ,f1 e o que ,deos1 e a ,santa ,igreja mando que se guarde4 ,quo grande mal he o peccado mortal2 que pena lhe tem ,deos aparelhado nesta1 e na outra vida1 aonde a alma vive1 e vivir immortalmente4 ,que remedio nos deu ,deos na encarnao1 e morte de ,jesus-,christo1 seu santissimo filho1 para que se nos perdoassem assim as culpas1 como as penas1 que pelas culpas se devem pagar4 ,de que modo havemos de confessar os peccados1 e pedir a ,deos perdo delles1 com verdadeiro arrependimento1 e proposito firme de no tornar a commett-los1 ajudados da graa divina4 ,em que consiste fazer penitencia de seus peccados4 ,quem est no ,santissimo ,sacramento do ,altar2 porque est ahi1 e se recebe2 com que disposio se ha de receber em vida1 e por viatico na doena mortal4 ,quanto importa ganhar as indulgencias1 para descontar o que se deve pagar no ,purgatorio4 ,como cada qual se ha de encommendar a ,deos1 para no cahir em peccado1 e offerecer-lhe pela manh todo o trabalho do dia4 ,quanto so dignos de abominao os feiticeiros1 e curadores de palavras1 e os que a elles recorrem1 deixando a ,deos1 de quem vem todo o remedio2 os que do peonha1 ou bebidas 7como dizem71 para abrandar1 e inclinar vontades2 os borrachos1 os amancebados1 os ladres1 os vingativos1 os murmuradores1 e os que juro falso1 ou por malignidade1 ou por interesse1 ou por respeitos humanos4 ,e finalmente1 que premio1 e que pena ha de dar ,deos eternamente a cada qual1 conforme obrou nesta vida4 ,procurar tambem a approvao para ouvir de confisso aos seus applicados1 e para que1 sendo sacerdote e ministro de ,deos1 lhes possa servir frequentemente de remedio2 no se contentando s com acudir no artigo da morte aos doentes4 ,mas advirta1 na administrao deste sacramento1 que no he senhor delle1 por muita autoridade que tenha2 porque1 se o penitente no fr disposto1 por causa de estar amancebado1 ou andar com odio do proximo1 ou por no tratar de restituir a fama1 ou a fazenda que deve1 ainda que fosse o mesmo senhor do engenho1 o no ha de absolver2 e nisto poderia haver1 por respeito humano1 grande encargo de consciencia1 e culpa bem grave4 ,corre tambem por sua conta pr a todos em paz1 atalhar discordias1 e procurar que na capella1 em que existe1 seja ,deos honrado1 e a ,virgem ,senhora ,nossa1 cantando-lhes nos ,sabbados as ,ladainhas1 e nos mezes em que o engenho no me1 o tero do ,rosario2 no consentindo risadas1 nem conversaes e praticas indecentes1 no s na capella1 mas nem ainda no copiar1 particularmente quando se celebra o sacrificio da missa4 ,advirta1 alm disto1 de no receber noivos1 nem baptizar1 fra de algum caso de necessidade1 nem desobrigar na ,quaresma pessoa alguma1 sem licena in scriptis do ,vigario1 a quem pertencer da-la2 nem fazer cousa que toque a jurisdico dos ,parochos1 para que no incorra nas penas e censuras que sobre isso so decretadas1 e debalde se queixe do seu descuido1 ou ignorancia4 ,finalmente faa muito por morar fra da casa do senhor do engenho porque assim convm a ambos2 pois he sacerdote1 e no criado1 familiar de ,deos1 e no de outro homem1 nem tenha em casa escrava para seu servio1 que no seja adiantada em idade1 nem se faa mercador ao ,divino1 ou ao humano1 porque tudo isto muito se oppe ao estado clerical1 que professa1 e se lhe prohibe por varios ,summos ,pontifices4 ,o que se costuma dar ao capello cada anno pelo trabalho quando tem as missas de semana livres1 so quarenta1 ou cincoenta mil ris1 e com o que lhe do os applicados1 vem a fazer huma poro competente1 bem ganhada1 se guardar tudo o que acima est dito4 ,e se houver de ensinar aos filhos do senhor do engenho1 se lhe accrescentar o que fr justo1 e correspondente ao trabalho4 ,no dia em que se bota a canna a moer1 se o senhor do engenho no convidar ao vigario1 o capello benzer o engenho1 e pedir a ,deos1 que d bom rendimento1 e livre aos que nelle trabalho de todo o desastre4 ,e quando no fim da safra o engenho pejar1 procurar que todos dem a ,deos as graas na capella4 ,,capitulo ,v4 ,do feitor mr do engenho1 e dos outros feitores menores1 que assistem moenda1 fazendas1 e partidos da canna1 suas obrigaes1 e soldadas4 ,os braos1 de que se vale o senhor do engenho para o bom governo da gente1 e da fazenda1 so os feitores4 ,porm1 se cada hum delles quizer ser cabea1 ser o governo monstruoso1 e hum verdadeiro retrato do co ,cerbero1 a quem os poetas fabulosamente do tres cabeas4 ,eu no digo que se no d autoridade aos feitores1 digo que esta autoridade ha de ser bem ordenada1 e dependente1 no absoluta1 de sorte que os menores se hajo com subordinao ao maior1 e todos ao senhor a quem servem4 ,convm que os escravos se persuado que o feitor mr tem muito poder para lhes mandar1 e para os reprehender1 e castigar quando fr necessario2 porm de tal sorte que tambem saibo1 que podem recorrer ao senhor1 e que ho de ser ouvidos como pede a justia4 ,nem os outros feitores por terem mando ho de crer que os seus poderes no so restringidos1 nem limitados1 principalmente no que he castigar1 e prender4 ,portanto1 o senhor ha de declarar muito bem a autoridade1 que d a cada hum delles1 e mais ao maior2 e se excederem1 ha de puxar pelas redeas com a reprehenso que os excessos merecem1 mas no diante dos escravos para que outra vez se no levantem contra o feitor1 e este leve a mal de ser reprehendido diante delles1 e se no atreva a governa-los4 ,s bastar que por terceira pessoa se faa entender ao escravo1 que padeceu1 e alguns outros dos mais antigos da fazenda1 que o senhor estranhou muito ao feitor o excesso que commetteu1 e que1 quando se no emende1 o ha de despedir directamente4 ,aos feitores de nenhuma maneira se deve consentir o dar couces1 principalmente nas barrigas das mulheres1 que ando pejadas1 nem dar com po nos escravos1 porque na colera se no medem os golpes1 e podem ferir mortalmente na cabea a hum escravo de prestimo1 que vale muito dinheiro1 e perd-lo4 ,reprehend-los1 e chegar-lhes com hum cip s costas com algumas varancadas1 he o que se lhes pde1 e deve permittir para ensino4 ,prender os fugitivos1 e os que brigro com feridas1 ou se embebedro1 para que o senhor os mande castigar como merecem1 he diligencia digna de louvor4 ,porm1 amarrar1 e castigar com cip at correr o sangue1 e metter em tronco ou em huma corrente por mezes1 7estando o senhor na cidade71 a escrava que no quiz consentir no peccado1 ou ao escravo que deu fielmente conta da infidelidade1 violencia1 e crueldade do feitor1 que para isso armar delictos fingidos1 isto de nenhum modo se ha de soffrer1 porque seria ter hum lobo carneceiro1 e no hum feitor moderado1 e christo4 ,obrigao do feitor mr do engenho he governar a gente1 e reparti-la a seu tempo1 como he bem para o servio4 ,a elle pertence saber do senhor1 a quem se ha de avisar1 para que corte a canna1 e mandar-lhe logo recado4 ,tratar de aviar logo os barcos1 e os carros para buscar a canna1 formas1 e lenha4 ,dar conta ao senhor de tudo o que he necessario para o apparelho do engenho1 antes de comear a moer1 e logo acabada a safra1 arrumar tudo em seu lugar4 ,vigiar que ninguem falte a sua obrigao1 e acudir de pressa a qualquer desastre1 que succeda1 para lhe dar quanto puder ser o remedio4 ,adoecendo qualquer escravo deve livra-lo do trabalho1 e pr outro em seu lugar1 e dar parte ao senhor para que trate de o mandar curar1 e ao capello para que o oua de confisso e o disponha1 crescendo a doena1 com os mais sacramentos para morrer4 ,advirta que se no metto no carro os bois1 que trabalhro muito no dia antecedente1 e que em todo o servio1 assim como se d algum descano aos bois1 e aos cavallos1 assim se d1 e com maior razo por suas esquipaes1 aos escravos4 ,o feitor da moenda chama a seu tempo as escravas1 recebe a canna1 e a manda vir1 e metter bem nos eixos1 e tirar o bagao1 attendendo que as negras no durmo1 pelo perigo que ha de ficarem presas1 e moidas1 se lhes no cortarem as mos1 quando isto succeda1 e mandando juntamente divertir a agoa da roda para que pare4 ,procura que de vinte e quatro1 a vinte e quatro horas se lave a moenda1 e que o caldo v limpo1 e se guinde para o parol4 ,pergunta quando o caldo ha mister nas caldeiras1 para que saiba com este aviso se ha de moer mais canna1 ou parar at que se d vaso para que se no azede o que est no parol4 ,os feitores1 que esto nos partidos1 e mais fazendas1 tem sua conta defender as terras1 e avisar logo ao senhor se h quem se metta dentro das roas1 cannaveaes1 e matos para tomar o que no he seu4 ,assistir aonde os escravos trabalho para que se faa o servio como he bem4 ,saber os tempos de plantar1 e cortar a canna1 e de fazer roas4 ,conhecer a diversidade das terras que h para servir-se dellas1 para o que forem capazes de dar4 ,tomar a cada escravo a tarefa1 e as mos que he obrigado entregar4 ,attentar para os caminhos dos carros1 que sejo taes1 que por elles se possa conduzir a canna1 e a lenha1 de sorte que no fiquem na lama1 e que tambem os carros se concertem quando fr necessario4 ,ver que cada escravo tenha fouce1 e enchada1 e o mais que he mister para o servio4 ,e esteja muito attento que se no pegue o fogo nos cannaveaes por descuido dos negros boaes1 que s vezes deixo ao vento o tio de fogo1 que levro comsigo para usarem do caximbo2 e em vendo qualquer lavareda acuda-lhe logo com toda a gente1 e corte com fouces o caminho chamma1 que vai crescendo com grande perigo de se perderem em meia hora muitas tarefas de canna4 ,ainda que se saiba a tarefa de canna1 que hum negro ha de plantar em hum dia1 e a que ha de cortar1 quantas covas de mandioca ha de fazer1 e arrancar1 e que medida de lenha ha de dar1 como se dir em seu lugar1 comtudo bom he attentar os feitores a idade1 e as foras de cada qual para diminuirem o trabalho aos que elles manifestamente vem1 que no podem com tanto1 como so as mulheres pejadas depois de seis mezes1 e as que ha pouco que parro1 e crio1 os velhos1 e as velhas1 e os que sahro ainda convalescentes de alguma grave doena4 ,ao feitor mr1 do nos engenhos reaes sessenta mil ris4 ,ao feitor da moenda1 onde se me por sete1 a oito mezes1 quarenta1 ou cincoenta mil ris1 particularmente se se lhe encommenda algum outro servio2 mas aonde h menos que fazer1 e no se occupa em outra cousa1 do trinta mil ris4 ,aos que assistem nos partidos e fazendas1 tambem hoje aonde a lida he grande1 do quarenta ou quarenta e cinco mil ris4 ,,capitulo ,,vi4 ,do mestre do assucar1 e soto-mestre a quem chamo banqueiro1 e do seu ajudante1 a quem chamo ajuda-banqueiro4 ,a quem faz o assucar com razo se d o nome de mestre1 porque o seu obrar pede intelligencia1 atteno1 e experiencia1 e esta no basta que seja qualquer1 mas he necessaria a experiencia local1 a saber2 do lugar1 e qualidade da canna aonde se planta1 e se me porque os cannaveaes de huma parte do canna muito forte1 e da outra muito fraca4 ,diverso umo tem as cannas das varzeas1 do que tem as dos outeiros1 as das varzeas vem muito agoacentas1 e o caldo dellas tem muito que purgar nas caldeiras1 e pede mais decoada2 a dos oiteiros1 vem bem assucarada1 e seu caldo pede menos tempo1 e menos decoada para se purificar1 e clarificar4 ,nas taxas h melado1 que quer maior cozimento1 e h outro de menor2 hum logo se condensa na batedeira1 outro mais devagar4 ,das tres temperas1 que se ho de fazer para encher as frmas1 depende purgar-se o assucar bem1 ou mal1 conforme ellas so4 ,se o mestre se fiar dos caldeireiros1 e dos taxeiros1 humas vezes canados1 outras sonorentes1 e outras alegres mais do que convm1 e com a cabea esquentada1 acontecer-lhe-ha ver perdida huma1 e outra meladura1 sem lhe poder dar remedio4 ,por isso vigie em cousa de tanta importancia3 e se o banqueiro1 e o ajuda-banqueiro no tiver a intelligencia1 e experiencia necessaria para supprirem em sua ausencia1 no descance sobre elles3 ensine-os1 avise-os1 e1 se fr necessario1 reprehenda-os1 pondo-lhes diante dos olhos o prejuizo do senhor do engenho1 e dos lavradores1 se se perder o melado das taxas1 ou se fr mal temperado para as frmas4 ,veja que o feitor da moenda modere de tal sorte o moer1 que lhe no venha ao parol mais caldo do que he mister1 para lhe poder dar vaso antes que se comece a azedar1 purgando-o1 cozendo-o e batendo-o quanto he necessario4 ,antes de se botar a decoada nas caldeiras do caldo1 experimente1 que tal ella he2 e depois veja1 como os caldeireiros a boto1 e quando ho de parar3 nem consinta1 que a meladura se ce antes de ver se o caldo tem boa purificao1 como ha de ser3 e o mesmo digo da passagem de huma para outra taxa1 quando se ha de cozer1 e bater3 sendo a alma de tudo o bom successo a diligente atteno4 ,a justia1 e a verdade o obrigo a no misturar o assucar de hum lavrador com o do outro3 e por isso nas frmas1 que manda pr no tendal1 faa1 que haja sinal com que se posso distinguir das outras1 que pertencem a outros donos1 para que o meu1 e o teu1 inimigos da paz1 no seja causa de bulhas4 ,e para que a sua obra seja perfeita1 tenha boa correspondencia com o feitor da moenda1 que lhe envia o caldo2 com o banqueiro1 e soto-banqueiro1 que lhe succedem de noite no officio2 e com o purgador do assucar2 para que vejo juntamente donde nasce o purgar bem1 ou mal1 em as frmas3 e sejo entre si como os olhos que igualmente vigio2 e como as mos que unidamente trabalho4 ,o que at agora est dito1 pertence em grande parte ao banqueiro tambem1 que he o soto-mestre1 e ao soto-banqueiro seu ajudante4 ,e alm disso pertence a estes dous officiaes ter cuidado do tendal das frmas1 do tapar-lhes os buracos1 cavar-lhes as covas de bagao com cavadores1 endireita-las1 e botar nellas o assucar feito com as tres temperas1 das quaes se fallar em seu lugar3 e depois de tres dias envia-las para a casa de purgar1 ou sobre paviolas1 ou s costas dos negros para que o purgador trate dellas4 ,devem tambem procurar1 que se faa a repartio justa dos claros entre os escravos1 conforme o senhor ordenar1 e que nesta casa haja toda a limpeza1 e claridade1 agoa1 decoada1 e todos os instrumentos1 dos quaes nella se usa4 ,e ao mestre pertence ver1 antes de comear o engenho a moer1 se os fundos das caldeiras e das taxas tem necessidade de se fazerem2 e se os assentos dellas pedem novo1 e mais firme concerto4 ,a soldada do mestre do assucar nos engenhos1 que fazem quatro ou cinco mil pes1 particularmente se elle visita tambem a casa de purgar1 he de cento e vinte mil ris3 em outros do-lhe s cem mil ris4 ,aos banqueiros nos maiores1 quarenta mil ris2 nos menores1 trinta mil ris4 ,ao soto-banqueiro1 7que commummente he algum mulato ou crioulo escravo da casa7 d-se tambem no fim da safra algum mimo1 se servio com satisfao no seu officio2 para que a esperana deste limitado premio o alente novamente para o trabalho4 ,,capitulo ,,vii4 ,do purgador do assucar4 ,ao purgador do assucar pertence ver o barro1 que vem para o giro a secar-se para o cimeiro1 se he qual deve ser1 como se dir em seu lugar3 olhar para o amassador1 se anda como deve1 com o rodo no cocho1 forrar os pes nas frmas1 e levanta-las4 ,conhecer quando o assucar est enchuto1 e quando he tempo de lhe botar o primeiro barro2 como este se ha de estender1 e quanto tempo se ha de deixar1 antes de se lhe botar o segundo3 como se lhe ho de dar as humidades1 ou lavagens1 e quantas se lhe ho de dar2 quaes so os sinaes de purgar1 ou no purgar bem o assucar1 conforme as diversas qualidades1 e temperas4 ,a elle tambem pertence ter cuidado dos meles1 ajunta-los1 corr-los1 e fazer delles batidos2 ou guarda-los1 para fazer agoardente4 ,deve juntamente usar de toda a diligencia para que se no sujem os tanques do mel2 e de alguma industria para afugentar aos morcegos1 que commummente so a praga quasi de todas as casas de purgar4 ,ao purgador de quatro mil pes de assucar1 d-se soldada de cincoenta mil ris4 ,aos que tem menos trabalho d-se tambem menos1 com a devida proporo4 ,,capitulo ,,viii4 ,do caixeiro do engenho4 ,o que aqui se dir no pertence ao caixeiro da cidade1 porque este trata s de receber o assucar1 j encaixado1 de o mandar ao ,trapiche1 de o vender ou embarcar1 conforme o senhor do engenho o ordenar1 e tem livro da razo de dar e haver1 ajusta as contas1 e serve de agente1 contador1 procurador1 e depositario de seu amo2 ao qual1 se a lida he grande1 da-se soldada de quarenta ou cincoenta mil ris4 ,fallo aqui do caixeiro que encaixa o assucar1 depois de purgado4 ,e sua obrigao he mandar tirar o assucar das formas1 estando j purgado1 e enxuto1 em dias claros e de sol2 assistir quando se mascava1 e que o reparte com fidelidade entre os lavradores e o senhor do engenho2 e tira o dizimo1 que se deve a ,deos1 e a vintena1 ou quinto que pago os que lavro em terras do engenho1 conforme o concerto feito nos arrendamentos1 e o estilo ordinario da terra1 o qual em varios lugares he diverso2 e tudo assenta1 para dar conta exactamente de tudo4 ,a elle tambem pertence levantar as caixas1 e manda-las barrear nos cantos1 encaixar e mandar pilar o assucar1 com a diviso do branco1 macho1 batido1 e mascavado2 fazer as caras e os fechos1 quando assim lh'o encommendarem os donos do assucar2 finalmente1 pregar e marcar as caixas1 e guardar o assucar que sobejou1 para seus donos1 em lugar seguro e no humido1 e os instrumentos de que usa4 ,entrega as caixas1 quando se ho de embarcar1 com ordem de quem as arrecada1 ou como dono dellas1 ou porque as alcanou por justia1 como muitas vezes acontece1 fazendo os credores penhora no assucar dos devedores1 antes que shia do engenho1 e de tudo pedir recibo e clareza1 para poder dar conta de si a quem lh'a pedir4 ,a soldada do caixeiro1 nos engenhos maiores1 he de quarenta mil ris1 e se feitoriza alguma cousa na parte do dia ou da noite1 do-se-lhe cincoenta mil ris3 nos engenhos menores1 do trinta mil ris4 ,,capitulo ,,ix4 ,como se hade haver o senhor de engenho com seus escravos4 ,os escravos so as mos1 e os ps do senhor do engenho2 porque sem elles no ,brazil no he possivel fazer1 conservar1 e augmentar fazenda1 nem ter engenho corrente4 ,e do modo1 com que se ha com elles1 depende t-los bons1 ou mos para o servio4 ,por isso he necessario comprar cada anno algumas peas1 e repart-las pelos partidos1 roas1 serrarias1 e barcas4 ,e porque commummente so de naes diversas1 e huns mais boaes que outros1 e de figuras muito differentes1 se hade fazer repartio com reparo1 e escolha1 e no s cegas4 ,os que vem para o ,brazil so ,ardas1 ,minas1 ,congos1 de ,s4 ,thom1 d',angola1 de ,cabo ,verde1 e alguns de ,moambique1 que vem nas nos da ,india4 ,os ,ardas1 e os ,minas so robustos4 ,os de ,cabo ,verde1 e ,s4 ,thom1 so mais fracos4 ,os d',angola criados em ,loanda so mais capazes de aprender officios mecanicos1 que os das outras partes j nomeados4 ,entre os ,congos ha tambem alguns bastantemente industriosos1 e bons no s para o servio da canna1 mas para as officinas1 e para o meneo de casa4 ,huns chego ao ,brazil muito rudes1 e muito fechados1 e assim continuo por toda a vida4 ,outros em poucos annos sahem ladinos1 e expertos1 assim para aprenderem a doutrina christ1 como para buscarem modo de passar a vida1 e para se lhes encommendar hum barco1 para levarem recados1 e fazerem qualquer diligencia das que costumo ordinariamente occorrer4 ,as mulheres uso de fouce1 e de enxada1 como os homens3 porm nos mattos1 s os escravos uso de machado4 ,dos ladinos se faz escolha para caldeireiros1 carapinas1 calafates1 taxeiros1 barqueiros1 e marinheiros1 porque estas occupaes querem maior advertencia4 ,os que desde novatos se mettro em alguma fazenda1 no he bem que se tirem della contra sua vontade1 porque facilmente se amofino1 e morrem4 ,os que nascro no ,brazil1 ou se criro desde pequenos em casa dos ,brancos1 affeioando-se a seus senhores1 do boa conta de si2 e levando bom cativeiro1 qualquer delles vale por quatro boaes4 ,melhores ainda so para qualquer officio os mulatos2 porm muitos delles1 usando mal dos favores dos senhores1 so soberbos1 e viciosos1 e prezo-se de valentes1 aparelhados para qualquer desaforo4 ,e comtudo elles1 e ellas da mesma cr1 ordinariamente levo no ,brazil a melhor sorte2 porque com aquella parte de sangue de ,brancos1 que tem nas veias1 e talvez dos seus mesmos senhores1 os enfeitio de tal maneira1 que alguns tudo lhes soffrem1 tudo lhes perdoo2 e parece1 que se no atrevem a reprehend-los1 antes todos os mimos so seus4 ,e no he facil decidir1 se nesta parte so mais remissos os senhores1 ou as senhoras2 pois no falta entre elles1 e ellas1 quem se deixe governar por mulatos1 que no so os melhores2 para que se verifique o proverbio1 que diz3--,que o ,brazil he ,inferno dos ,negros1 ,purgatorio dos ,brancos1 e ,paraizo dos ,mulatos1 e das ,mulatas--2 salvo quando por alguma desconfiana1 ou ciume1 o amor se muda em odio1 e sahe armado de todo o genero de crueldade1 e rigor4 ,bom he valer-se de suas habilidades1 quando quizerem usar bem dellas1 como assim o fazem alguns2 porm no se lhes hade dar tanto a mo1 que peguem no brao1 e de escravos se fao senhores4 ,forrar mulatas desinquietas he perdio manifesta2 porque o dinheiro1 que do para se livrarem1 raras vezes sahe de outras minas1 que dos seus mesmos corpos1 com repetidos peccados2 e depois de forras continuo a ser ruina de muitos4 ,oppoem-se alguns senhores aos casamentos dos escravos e escravas1 e no smente no fazem caso dos seus amancebamentos1 mas quasi claramente os consentem1 e lhes do principio1 dizendo3 ,tu ,fulano a seu tempo casars com ,fulana3 e d'ahi por diante os deixo conversar entre si1 como se j fossem recebidos por marido1 e mulher3 e dizem1 que os no caso1 porque temem que enfadando-se do casamento1 se matem logo com peonha1 ou com feitios2 no faltando entre elles mestres insignes nesta arte4 ,outros1 depois de estarem casados os escravos1 os aparto de tal sorte por annos1 que fico como se fossem solteiros3 o que no podem fazer em consciencia4 ,outros so to pouco cuidadosos do que pertence salvao dos seus escravos1 que os tem por muito tempo no cannaveal1 ou no engenho1 sem baptismo3 e dos baptisados muitos no sabem1 quem he o seu ,creador2 o que ho de crer2 que lei ho de guardar2 como se ho de encommendar a ,deos2 a que vo os ,christos igreja2 porque adoro a igreja1 que vo dizer ao ,padre1 quando ajoelho1 e lhe fallo aos ouvidos2 se tem alma2 e se ella morre1 e para onde vai1 quando se aparta do corpo4 ,e sabendo logo os mais boaes1 como se chama1 e quem he seu senhor2 quantas covas de mandioca ho de plantar cada dia2 quantas mos de canna ho de cortar2 quantas medidas de lenha ho de dar2 e outras cousas pertencentes ao servio ordinario de seu senhor3 e sabendo tambem pedir-lhe perdo1 quando errro2 e encommendar-se-lhe1 para que os no castigue1 com promettimento da emenda3 dizem os senhores1 que estes no so capazes de aprender a confessar-se1 nem pedir perdo a ,deos1 nem de rezar pelas contas1 nem de saber os dez mandamentos3 tudo por falta de ensino1 e por no considerarem a conta grande1 que de tudo isto ho de dar a ,deos2 pois 7como diz ,s4 ,paulo7 sendo ,christos1 e descuidando-se dos seus escravos1 se ho com elles peor do que se fossem ,infieis4 ,nem os obrigo os dias santos a ouvir missa2 antes talvez os occupo de sorte1 que no tem lugar para isso3 nem encommendo ao capello doutrina-los1 dando-lhe por este trabalho1 se fr necessario1 maior estipendio4 ,o que pertence ao sustento1 vestido1 e moderao do trabalho1 claro est que se lhes no deve negar2 porque a quem o serve deve o senhor de justia dar sufficiente alimento2 mezinhas na doena1 e modo1 com que decentemente se cubra1 e vista1 como pede o estado de servo1 e no apparecendo quasi n pelas ruas3 e deve tambem moderar o servio de sorte1 que no seja superior s foras dos que trabalho1 se quer que posso aturar4 ,no ,brazil costumo dizer1 que para o escravo so necessarios tres ,p4 ,p4 ,p4 a saber1 po1 po1 e panno4 ,e posto que comecem mal1 principiando pelo castigo1 que he o po2 comtudo provera ,deos1 que to abundante fosse o comer1 e o vestir1 como muitas vezes he o castigo1 dado por qualquer cousa pouco provada1 ou levantada2 e com instrumentos de muito rigor1 ainda quando os crimes so certos2 de que se no usa nem com os brutos animaes1 fazendo algum senhor mais caso de hum cavallo1 que de meia duzia de escravos3 pois o cavallo he servido1 e tem quem lhe busque capim1 tem panno para o suor2 e sela1 e freio dourado4 ,dos escravos novos se hade ter maior cuidado2 porque ainda no tem modo de viver1 como os que trato de plantar suas roas1 e os que as tem por sua industria1 no convm que sejo s reconhecidos por escravos1 na repartio do trabalho2 e esquecidos na doena1 e na farda4 ,os domingos e dias santos de ,deos1 elles os recebem3 e quando seu senhor lhos tira1 e os obriga a trabalhar1 como nos dias de servio1 se amofino1 e lhe rogo mil pragas4 ,costumo alguns senhores dar aos escravos hum dia em cada semana1 para plantarem para si1 mandando algumas vezes com elles o feitor para que se no descuidem3 e isto serve1 para que no padeo fome1 nem cerquem cada dia a casa de seu senhor1 pedindo-lhe a rao de farinha4 ,porm no lhes dar farinha1 nem dia para a plantarem2 e querer que sirvo de sol a sol no partido1 de dia1 e de noite com pouco descano no engenho1 como se admittir no tribunal de ,deos sem castigo8 ,se o negar a esmola quem com grave necessidade a pede1 he nega-la a ,christo senhor nosso1 como elle o diz no ,evangelho1 que ser negar o sustento e o vestido ao seu escravo8 ,e que razo dar de si1 quem d serafina e seda1 e outras galas1 s que so occasio de sua perdio2 e depois nega quatro ou cinco varas de algodo1 e outras poucas de panno da serra1 a quem se derrete em suor para o servir1 e apenas tem tempo para buscar huma raiz1 e hum carangueijo para comer8 ,e se em cima disto1 o castigo fr frequente1 e excessivo2 ou se ir embora1 fugindo para o mato2 ou se matar por si1 como costumo1 tomando a respirao1 ou enforcando-se1 ou procurar tirar a vida aos que lha do to m1 recorrendo 7se fr necessario7 a artes diabolicas1 ou clamar de tal sorte a ,deos1 que os ouvir1 e far aos senhores o que j fez aos egipcios1 quando avexavo com extraordinario trabalho aos ,hebreos2 mandando as pragas terriveis1 contra suas fazendas1 e filhos1 que se lem na ,sagrada ,escriptura3 ou permittir que assim como os ,hebreos foro levados1 cativos para ,babilonia em pena do duro cativeiro1 que davo aos seus escravos3 assim algum cruel inimigo leve estes senhores para suas terras1 para que nellas experimentem1 quo penoza he a vida1 que elles dro1 e do continuamente a seus escravos4 ,no castigar os excessos1 que elles commettem1 seria culpa no leve2 porm estes se ho de averiguar antes1 para no castigar innocentes3 e se ho de ouvir os dilatados2 e convencidos castigar-se-ho com aoutes moderados1 ou com o metter em huma corrente de ferro por algum tempo1 ou tronco4 ,castigar com impeto1 com animo vingativo1 por mo propria1 e com instrumentos terriveis1 e chegar talvez aos pobres com fogo1 ou lacre ardente1 ou marca-los na cara1 no seria para se soffrer entre barbaros1 muito menos entre christos catholicos4 ,o certo he que1 o senhor se houver com os escravos como pai1 dando-lhes o necessario para o sustento1 e vestido1 e algum descano no trabalho1 se poder tambem depois haver com o senhor3 e no estranhar1 sendo convencidos das culpas1 que commettro1 de receberem com misericordia o justo1 e merecido castigo4 ,e se depois de errarem como fracos1 vierem por si mesmos a pedir perdo ao senhor2 ou buscarem padrinhos1 que os acompanhem3 em tal caso he costume no ,brazil o perdoar-lhes4 ,e bem he1 que saibo1 que isto lhes hade valer3 porque de outra sorte1 fugir por huma vez para algum mocambo no mato1 e se forem apanhados poder ser1 que se matem a si mesmos1 antes que o senhor chegue a aouta-los1 ou que algum seu parente tome a sua conta a vingana ou com feitio1 ou com veneno4 ,negar-lhes totalmente os seus folguedos1 que so o unico alivio do seu cativeiro1 he quer-los desconsolados1 e melancolicos1 de pouca vida1 e saude4 ,portanto no lhes estranhe os senhores o criarem seus reis1 cantar1 e bailar por algumas horas honestamente em alguns dias do anno1 e o alegrarem-se honestamente tarde depois de terem feito pela manh suas festas de ,n4 ,s4 do ,rozario1 de ,s4 ,benedicto1 e do orago da capella do engenho1 sem gasto dos escravos1 acodindo o senhor com sua liberalidade aos juizes1 e dando-lhes algum premio do seu continuado trabalho4 ,porque se os juizes1 e juizas das festas houverem de gastar do seu1 ser causa de muitos inconvenientes1 e offensas de ,deos por serem poucos os que podem licitamente ajuntar4 ,o que se hade evitar nos engenhos he o embriagarem-se com garapa azeda1 ou agoardente2 bastando se lhes conceda a garapa doce1 que lhes no faz damno2 e com ella fazem seus resgates1 com os que a troco lhes do farinha1 feijes1 aipins1 e batatas4 ,ver que os senhores tem cuidado de dar alguma cousa dos sobejos da mesa aos seus filhos pequenos1 he causa de que os escravos os sirvo de boa vontade1 e que se alegrem de lhes multiplicarem servos1 e servas4 ,pelo contrario algumas escravas procuro de proposito aborto1 s para que no cheguem os filhos de suas entranhas a padecer o que ellas padecem4 ,,capitulo ,x4 ,como se hade haver o senhor do engenho no governo de sua familia1 e nos gastos ordinarios da casa4 ,pedindo a fabrica do engenho tantos1 e to grandes gastos1 quantos acima dissemos1 bem se v a paciencia1 que he necessaria nos particulares de casa4 ,cavallos de respeito mais dos que basto1 charameleiros1 trombeteiros1 tangedores1 e lacaios mimosos no servem para ajuntar fazenda1 para diminui-la em pouco tempo1 com obrigaes1 e empenhos4 ,e muito menos servem as recreaes amiudadas1 os convites superfluos1 as galas1 as serpentinas1 e o jogo4 ,e por este caminho alguns em poucos annos do estado de senhores ricos chegro ao de pobres1 e arrastados lavradores1 sem terem que dar de dotes s filhas1 nem modo para encaminhar honestamente aos filhos4 ,mo he ter o nome de avarento3 mas no he gloria digna de louvor o ser prodigo4 ,quem se resolve a lidar com engenho1 ou se hade retirar da cidade1 fugindo das occupaes da republica1 que obrigo a divertir-se3 ou hade ter actualmente duas casas abertas1 com notavel prejuizo aonde quer que falte a sua assistencia1 e com dobrada despeza4 ,ter os filhos sempre comsigo no engenho1 he crea-los tabarcos1 que nas conversaes no saber fallar de outra cousa mais do que do co1 do cavallo1 e do boi4 ,deixa-los ss na cidade1 he dar-lhes logo liberdade para se fazerem logo viciosos1 e encher-se de vergonhosas doenas1 que se no podem facilmente curar4 ,para evitar pois hum1 e outro extremo1 o melhor conselho ser p-los em casa de algum parente1 ou amigo grave1 e honrado1 onde no haja occasies de tropear1 o qual folgue de dar boa conta de si1 e com toda a fidelidade avise do bom1 ou mo procedimento1 e do proveito1 ou negligencia no estudo4 ,nem consinta1 que a mi lhe remetta dinheiro1 ou mande secretamente ordens para isso ao seu correspondente1 ou ao caixeiro3 nem cra1 que o que pedem para livros1 no possa ser tambem para jogos4 ,e por isso avise ao procurador1 e ao mercador1 de quem se valle1 que lhes no d cousa alguma sem sua ordem4 ,porque para pedirem ser muito especulativos1 e saber excogitar razes1 e pretextos verosimeis1 principalmente se forem dos que j ando no curso1 e tem vontade de levar tres annos de boa vida custa do pai1 ou do tio1 que no sabem o que passa na cidade1 estando nos seus cannaveaes1 e quando se jacto nas conversaes de ter hum ,aristoteles nos pateos1 pde ser que tenho na praa hum ,asinio1 ou hum ,apricio4 ,porm se se resolverem a ter os filhos em casa1 contentando-se com que saibo ler1 escrever1 e contar1 e ter alguma tal ou qual noticia dos successos1 e historias1 para fallarem entre gente1 no se descuidem em vigiar sobre elles1 quando a idade o pedir3 porque tambem o campo largo he lugar de muita liberdade1 e pde dar abrolhos1 e espinhos4 ,e se se faz cercado aos bois1 e aos cavallos1 para que no vo fra do pasto2 porque se no por tambem algum limite aos filhos1 assim dentro como fra de casa1 mostrando a experiencia ser assim necessario8 ,com tanto que a circunspeco seja prudente e a demasia1 no accrescente a malicia4 ,o melhor ensino1 porm1 he o exemplo do bom procedimento dos pais3 e o descano mais seguro1 he dar a seu tempo estado s filhas1 como aos filhos1 e se se contentarem com a igualdade1 no faltar casas1 aonde se posso fazer troca1 e receber recompensas4 ,,capitulo ,,xi4 ,como se hade haver o senhor do engenho no recebimento dos hospedes1 assim religiosos1 como seculares4 ,a hospitalidade he huma aco cortez1 e tambem virtude christ3 e no ,brazil muito exercitada1 e louvada3 porque faltando fra da cidade as estalagens1 vo necessariamente os passageiros dar comsigo nos engenhos1 e todos ordinariamente acho de graa o que em outras terras custa dinheiro3 assim os religiosos1 que busco suas esmolas1 que no so poucos1 e os missionarios1 que vo pelo reconcavo1 e pela terra dentro com grande proveito das almas1 a exercitar seus ministerios2 como os seculares1 que ou por necessidade1 ou por conhecimento particular1 ou por parentes busco de caminho agasalho4 ,ter casa separada para os hospedes1 he grande acerto2 porque melhor se recebem1 e com o menor estorvo da familia1 e sem prejuizo do recolhimento1 que ho de guardar as mulheres1 e as filhas1 e as moas do servio interior occupadas no apparelho do jantar1 e da ca4 ,o tratamento no hade exceder o estado das pessoas1 que se recebem2 porque no decurso do anno so muitas4 ,a criao miuda1 ou em alguns peixes do mar1 ou rio visinho1 com alguns mariscos dos mangues1 e o que d o mesmo engenho para doce2 basta para que ninguem se possa queixar com razo4 ,avanar-se mais 7salvo em hum caso particular por justos respeitos7 he passar os limites1 e impossibilitar-se poder continuar igualmente pelo tempo futuro4 ,dar esmolas1 he dar a juro ,deos1 que paga cento por hum2 mas em primeiro lugar est pagar o que se deve de justia2 e depois extender-se piamente s esmolas1 conforme o cabedal1 e o rendimento dos annos4 ,e nesta parte nunca se arrepender o senhor do engenho de ser esmoler3 e aprender os filhos imitar ao pai2 e deixando-os inclinados s obras de misericordia1 os deixar muito ricos1 e com riquezas seguras4 ,para os vadios1 tenha enxadas1 e fouces3 e se se quizerem deter no engenho1 mande-lhes dizer pelo feitor1 que trabalhando1 lhes pagar seu jornal4 ,e desta sorte ou seguir seu caminho1 ou de vadios se far jornaleiros4 ,tambem no convm que o mestre do assucar1 o caixeiro1 e os feitores tenho em suas casas por tempo notavel pessoas da cidade1 ou de outras partes1 que vm passar tempo ociosamente2 e muito mais se forem solteiros1 e moos2 porque estes no servem seno para estorvar aos mesmos officiaes1 que ho de attender ao que lhe pertence2 e para desinquietar as escravas do engenho1 que facilmente se deixo levar de seu pouco moderado apetite a obrar mal4 ,e isto se lhes deve intimar ao principio1 para que no acarretem atraz de si sobrinhos1 ou primos1 que com seus vicios lhes dem dobrados desgostos4 ,os missionarios que desinteressadamente vo fazer seus officios1 devem ser recebidos com toda a boa vontade2 porque vendo esquivao no venho a entender que o senhor do engenho1 por pouco affeioado s cousas de ,deos1 ou por mesquinho1 ou por outro qualquer respeito1 no folga com a misso1 em a qual se ajusto as consciencias com ,deos1 se d instruco aos ignorantes1 se ato inimizades1 e occasies escandalosas de annos1 e se procura que todos tratem da salvao de suas almas4 ,,capitulo ,,xii4 ,como se hade haver o senhor do engenho com os mercadores1 e outros seus correspondentes na praa1 e de alguns modos de vender1 e comprar o assucar conforme o estilo1 e uso do ,brazil4 ,o credito de hum senhor de engenho funda-se na sua verdade1 isto he na pontualidade1 e fidelidade em guardar as promessas4 ,e assim como o ho de experimentar fiel os lavradores nos dias1 que se lhes devem dar para moerem a sua canna1 e na repartio do assucar1 que lhes cabe2 os officiaes na paga das soldadas2 e os que do a lenha para as fornalhas1 madeira para a moenda1 tijolos1 e frmas para a casa de purgar1 taboas para encaixar1 bois1 e cavallos para a fabrica3 assim tambem se hade acreditar com os mercadores1 e correspondentes na praa que lhe dro dinheiro1 para comprar peas1 cobre1 ferro1 ao1 enxarcias1 breu1 vlas1 e outras fazendas fiadas4 ,porque se ao tempo da frota no pagarem o que devem2 no ter com que se apparelharem para a safra vindoura2 nem se achar quem queira dar o seu dinheiro1 ou fazenda nas mos de quem lha no hade pagar1 ou to tarde1 ou com tanta difficuldade1 que se arrisque a quebrar4 ,h annos em que pela muita mortandade de escravos1 cavallos1 egoas1 e bois1 ou pelo pouco rendimento da canna1 no podem os senhores do engenho chegar a dar satisfao inteira do que promettro4 ,porm no dando se quer alguma parte1 no merecem alcanar as esperas1 que pedem2 principalmente quando se sabe que tivro para desperdiar1 e para jogos1 o que devio guardar para pagar aos seus acredores4 ,nos outros annos de rendimento sufficiente1 e com perdas moderadas1 ou sem ellas1 no ha razo para faltar aos mercadores1 ou commissarios1 que negoco por seus amos1 aos quaes devem dar conta de si1 e por isso no he muito para se estranhar1 se experimentando faltar-se por tanto tempo palavra1 com lucro verdadeiramente cessante1 e damno emergente1 levanto com justa moderao o preo da fazenda1 que vendem fiada1 e que ,deos sabe quando poder arrecadar4 ,comprar anticipadamente o assucar por dous cruzados1 verbi grati1 que a seu tempo commummente vale doze tostes1 e mais1 tem sua difficuldade2 porque o comprador est seguro de ganhar3 e o vendedor he moralmente certo1 que hade perder1 principalmente quando o que d o dinheiro adiantado1 no o havia de empregar em outra cousa1 antes do tempo de o embarcar para o ,reino4 ,quem compra1 ou vende anticipadamente pelo preo1 que valer o assucar no tempo da frota1 faz contracto justo2 porque assim o comprador1 como o vendedor1 esto igualmente arriscados4 ,e isto se entende pelo maior preo geral1 que ento o assucar valer1 e no pelo preo particular1 em que algum se accommodar1 obrigado a vend-lo4 ,comprar a pagamentos1 he dar logo de contado alguma parte do preo1 e depois pagar por quarteis1 ou tanto por cada anno1 conforme o concerto1 at se inteirar de tudo4 ,e poder pr-se a pena1 de tantos cruzados mais1 se se faltar a algum pagamento3 mas no se poder pretender1 que se pague juro dos juros vencidos2 porque o juro s se paga do principal4 ,quem diz3 vendo o assucar cativo2 quer dizer3 vendo-o com a obrigao de o comprador pagar todas as custas2 tirando os tres tostes1 que se pago na ,bahia1 porque estes correm por conta de quem o carrega4 ,vender o assucar livre a dez tostes1 verbi grati1 por arroba1 quer dizer1 que o comprador hade dar ao vendedor dez tostes por cada arroba1 e hade fazer todos os gastos a sua custa4 ,quem comprou o assucar cativo1 e o despachou1 o vende depois livre1 e o comprador faz os gastos1 que se seguem4 ,comprar o assucar por cabeas1 quer dizer1 comprar as caixas d'assucar pelo numero das arrobas1 que tem na marca1 com meia arroba de menos na quebra4 ,quando se pesa huma caixa d'assucar1 para pagar os direitos3 se o pesador pesa favoravel1 diz1 verbi grati1 que a caixa de trinta arrobas tem vinte e oito4 ,e isto ,el-,rei o soffre1 e consente de favor4 ,porm esta caixa no se vende por este peso1 mas pelo que na verdade se achar1 quando vai a pesar-se na balana fra da ,alfandega1 que ahi est1 para se tirar toda a duvida4 ,vender as terras por menos do que valem1 com a obrigao de se moer a canna1 que nellas se plantar1 no engenho do vendedor2 he contracto licito1 e justo4 ,comprar hum senhor de engenho1 a hum lavrador1 que tem canna livre para moer aonde quizer1 a obrigao de a moer no seu engenho1 em quanto lhe no restituir o dinheiro que para isso lhe deu1 quando comprou a dita obrigao2 pratica-se no ,brazil muitas vezes3 e os letrados o defendem por contracto justo3 porque isto no he dar dinheiro emprestado com obrigao de moer2 mas he comprar a obrigao de moer no seu engenho1 para ganhar a metade do assucar1 ficando a porta aberta ao lavrador para se livrar desta obrigao1 todas as vezes que tornar a entregar ao comprador o dinheiro que recebeu4 ,,livro ,,segundo4 ,,capitulo ,,primeiro4 ,da escolha da terra para plantar cannas de assucar1 e para os mantimentos necessarios1 e provimentos do engenho4 ,as terras boas ou ms1 so o fundamento principal para ter hum engenho real bom1 ou mo rendimento4 ,as que chamo massaps1 terras negras1 e fortes1 so as mais excellentes para a planta da canna4 ,seguem-se atraz destas os sales1 terra vermelha1 capz de poucos crtes2 porque logo enfraquece4 ,as areiscas1 que so huma mixtura de ara1 e sales1 servem para mandioca1 e legumes2 mas no para cannas4 ,e o mesmo digo das terras brancas1 que chamo terras de ara1 como so as do ,camam1 e da ,saubra4 ,a terra que se escolhe para o pasto ao redor do engenho1 hade ter agua1 hade ser cercada1 ou com plantas vivas1 como so as de ,pinhes2 ou com estacas1 e varas do matto4 ,o melhor pasto he o que tem grama1 parte em outeiro1 e parte em varzea3 porque desta sorte em todo o tempo1 ou em huma1 ou em outra parte1 assim os bois1 como as bestas1 achar que comer4 ,o pasto se hade conservar limpo de outras hervas1 que mato a grama1 e no tempo do inverno se ho de botar fra delle os porcos1 porque o destrem foando4 ,nelle hade haver hum ou dous curraes1 aonde se metto os bois para comerem os olhos da canna1 e para estarem perto do servio dos carros4 ,e tambem as bestas se recolhem no seu curral1 para as no haver de buscar espalhadas4 ,ando no pasto1 alm das egoas e bois1 ovelhas1 e cabras3 e ao redor do engenho a criao miuda1 como so pers1 galinhas1 e patos1 que so o remedio mais prompto para agasalhar os hospedes1 que vem de improviso4 ,mas porque as ovelhas e cavallos chego muito com o dente raiz da grama1 so de prejuizo ao pasto dos bois3 e por isso se o destes fosse diverso1 seria melhor4 ,os mattos do as madeiras1 e a lenha para as fornalhas4 ,os mangues do caibros1 e marisco4 ,e os ,apics 7que so as coroas1 que faz o mar entre si e a terra firme1 e as cobre a mar7 do o barro1 para purgar o assucar nas formas1 e para a olaria1 que na opinio de alguns se no escusa nos engenhos reaes4 ,de todas estas castas de terras tem necessidade hum engenho real2 porque humas servem para cannas1 outras para mantimento da gente1 e outras para o apparelho1 e provimento do engenho1 alm do que se procura do ,reino4 ,porm nem todos os engenhos podem ter esta dita3 antes nenhum se achar1 a quem no falte alguma destas cousas4 ,porque aos que esto a beira-mar commummente falto as roas1 e a lenha3 e aos que esto pela terra dentro1 falto outras muitas conveniencias1 que tem os que esto a beira-mar no ,reconcavo4 ,comtudo1 de ter1 ou no ter o senhor do engenho1 cabedal1 e gente1 feitores fieis1 e de experiencia1 bois1 e bestas1 barcos1 e carros1 depende o menear1 e governar bem1 ou mal o seu engenho4 ,e se no tiver gente para trabalhar1 e beneficiar as terras a seu tempo2 ser o mesmo1 que ter matto bravo com pouco1 ou nenhum rendimento3 assim como no basta para a vida politica1 ter bom natural2 se no houver mestre1 que com o ensino trate de o aperfeioar ajudando-o4 ,,capitulo ,,ii4 ,da planta1 e limpas das cannas1 e a diversidade que ha nellas4 ,feita a escolha da melhor terra para a canna1 roa-se1 queima-se1 e alimpa-se tirando-lhe tudo o que poderia servir-lhe de embarao2 e logo abre-se em regos1 altos palmo e meio1 e largos dous com seu camalho no meio1 para que nascendo a canna no se abafe3 e nestes regos ou se planto os olhos em p1 ou se deito as cannas em pedaos1 tres ou quatro palmos compridos3 e se fr canna pequena deita-se tambem inteira1 huma junto outra1 ponta com p2 cobrem-se com terra moderadamente4 ,e depois de poucos dias brotando pelos olhos comeo pouco a pouco a mostrar sua verdura flr da terra1 pegando facilmente1 e crescendo mais1 ou menos conforme a qualidade da terra1 e o favor1 ou contrariedade dos tempos4 ,mas se forem muito juntas1 ou se na limpa lhes chegarem muito a terra1 no poder filhar como he bem1 e o que se deve evitar4 ,a planta da canna nos lugares altos da ,bahia comea desde as primeiras agoas no fim de ,fevereiro1 e nos principios de ,maro1 e se continua at o fim de ,maio1 e nas baixas1 e varzeas 7que so mais frescas1 e humidas7 planta-se tambem nos mezes de ,julho1 e ,agosto1 e por alguns dias de ,setembro4 ,toda a canna1 que no fr seca1 ou viciada1 nem de canudos muito pequenos1 serve para plantar4 ,de ser a terra nova1 e forte1 segue-se o crescer nella a canna muito viosa2 e esta chamo canna brava3 a qual a primeira1 e segunda vez1 que se corta1 no costuma fazer bom assucar1 por ser muito agoacenta4 ,porm dahi por diante depois de esbravejar a terra ainda que cresa extraordinariamente1 he to boa no rendimento como formoza na apparencia1 e destas se acho algumas vezes algumas com sete1 oito1 e nove palmos1 e tambem postas no cannaveal1 como os capites nos exercitos4 ,a melhor canna he a de canudo comprido1 e limpo2 e as que tem canudos pequenos1 e barbados1 so as peiores4 ,nascem o terem canudos pequenos1 ou da seca1 ou do frio1 porque huma e outra cousa as aperto3 e o terem barbas procede de lhes faltar com alguma limpa a seu tempo4 ,comea-se alimpar a canna1 tanto que tiver monda1 ou herva de tirar4 ,no inverno a herva1 que se tira1 torna logo a nascer2 e as limpas mais necessarias so aquellas primeiras1 que se fazem1 para que a canna possa crescer1 e o capim a no afogue3 porque depois de crescida1 vence melhor as hervas menores4 ,e assim vmos1 que os primeiros vicios so os que boto a perder hum bom natural4 ,as cannas que se planto nos outeiros1 so ordinariamente mais limpas1 que as que se planto nas varzeas3 porque assim como correr a agoa do outeiro1 he causa que se no criem nelle to facilmente outras hervas1 assim o ajuntar-se ella na varzea he causa de ser esta sempre muito humida1 e conseguintemente muito disposta para criar o capim4 ,por isso em humas terras s vezes no basto tres limpas1 e em outras com duas o lavrador descana conforme os tempos1 mais ou menos chuvosos4 ,assim como ha filhos to doceis1 que com a primeira admoestao se emendo1 para outros no basto repetidos castigos4 ,as socas tambem 7que so as raizes das cannas cortadas a seu tempo1 ou queimadas por velhas1 ou por cahidas de sorte que se no posso cortar1 ou por desastre7 servem para plantar2 porque se no morrerem pelo muito frio1 ou pela muita sca1 chegando-lhes a terra1 torno a brotar1 e podem desta sorte renovar o cannaveal por cinco ou seis annos1 e mais4 ,tanto vale a industria1 para tirar proveito1 ainda do que parecia inutil1 e se deixaria por perdido4 ,verdade he1 que canando a terra1 perde tambem a soca o vigor1 e depois de seis1 ou sete annos1 a canna se acanha1 e facilmente se murcha1 at ficar seca1 e arougada4 ,e por isso no se hade pretender da terra1 nem da soca mais do que puder dar1 particularmente se no fr ajudada com algum beneficio1 e a advertencia do bom lavrador consiste em plantar de tal sorte successivamente a canna1 que cortando-se a velha para a moenda1 fique a nova em p para a safra vindoura1 e desta sorte alimente com a sua verdura a esperana do rendimento1 que se prepara1 que he o premio de seu continuado trabalho4 ,plantar huma tarefa de cannas1 he o mesmo que plantar no espao de trinta braas de terra em quadra4 ,finalmente porque a diversidade das terras1 e dos climas pede diversa cultura2 he necessario informar-se1 e seguir o conselho dos velhos1 aos quaes ensinou muito o tempo1 e a experiencia1 perguntando em tudo o que se duvidar1 para obrar com acerto4 ,,capitulo ,,iii4 ,dos inimigos da canna1 em quanto est no cannaveal4 ,as inclemencias do co so o principal inimigo1 que tem as cannas1 assim como os outros frutos1 e novidades da terra1 querendo ,deos com muita razo1 que se armem contra ns os elementos por castigo das nossas culpas1 ou para exercicio da paciencia1 ou para que nos lembremos que elle he o autor1 e o conservador de todas as cousas1 e a elle recorramos em semelhantes apertos4 ,os cannaveaes nos outeiros resistem mais s chuvas1 quando so demasiadas2 porm so os primeiros a queixarem-se da sca4 ,pelo contrario as varzeas no sentem to depressa a fora do excessivo calor2 mas na abundancia das aguas choro primeiro suas perdas4 ,a canna da ,bahia quer agua nos mezes de ,outubro1 ,novembro1 e ,dezembro1 e para a planta nova em ,fevereiro1 e quer tambem successivamente sol1 o qual commummente no falta1 assim no faltassem nos sobreditos mezes as chuvas4 ,porm o inimigo mais molesto1 e mais continuo1 e domestico da canna1 he o capim2 pois mis1 ou menos1 at o fim a persegue4 ,e por isso tendo o plantar1 e cortar seus mezes certos2 o limpar obriga os escravos dos lavradores1 a irem sempre com a enxada na mo1 e acabada qualquer outra occupao fra do cannaveal1 nunca se mando debalde limpar4 ,exercicio1 que deveria tambem ser continuo nos que trato da boa criao dos filhos1 e da cultura do animo4 ,e ainda que s este inimigo baste por muitos1 no falto outros de no menor enfado1 e molestia4 ,as cabras1 tanto que a canna comea a apparecer fra da terra1 logo a vo investir3 os bois1 e os cavallos ao principio lhe comem os olhos1 e depois a derrubo1 e a piso3 os ratos1 e os porcos a roem3 os ladres a furto a feixes2 nem passa rapaz1 ou caminhante1 que se no queira fartar1 e desenfadar custa de quem a plantou4 ,e posto que os lavradores se accommodem de qualquer modo a soffrer os furtos pequenos dos frutos de seu suor1 vem-se s vezes obrigados de huma justa dr a matar porcos1 cabras1 e bois1 que outros no trato de divertir1 e guardar nos pastos cercados1 ou em parte mais remota1 ainda depois de rogados1 e avisados que ponho cobro neste damno3 donde se seguem queixas1 inimizades1 e odios1 que se arremato com mortes1 ou com sanguinolentas1 e affrontosas vinganas4 ,por isso cada qual trate de defender os seus cannaveaes1 e de evitar occasies de outros se queixarem justamente do seu muito descuido1 medindo os damnos alheos1 com o sentimento dos proprios4 ,,capitulo ,,iv4 ,do crte da canna1 e sua conduo para o engenho4 ,comeando o engenho a moer 7o que no reconcavo da ,bahia costuma ter seu principio em ,agosto7 comea tambem o tempo de metter a fouce na canna1 que disso he capaz2 e para bem1 antes de se cortar1 hade estar dezesete1 ou dezoito mezes na terra3 e dahi por diante1 se a muita seca a no apertar1 pde seguramente estar na mesma terra outros sete1 ou oito mezes4 ,tanto pois que estiver de vez1 se mandar pr nella a fouce1 tendo j certo o dia1 em que se hade moer1 para que no fique depois de cortada a murchar-se no engenho1 ou se no seque exposta ao sol no porto1 se este fr distante da moenda3 preferindo o lavrador1 que avisado trouxe primeiro a canna para o engenho1 at se acabar inteiramente a sua tarefa1 e perdendo o vagarozo o lugar que lhe cabia1 se por seu descuido deixou passar o dia assignalado4 ,e o senhor do engenho he que reparte os dias1 assim para moer a sua canna1 como a dos lavradores1 conforme cabe a cada qual por seu turno1 e manda o aviso pelo feitor a seu tempo competente4 ,quando se corta canna1 se mettem doze at dezoito fouces no cannaveal1 conforme fr a canna grande1 ou pequena4 ,e a que se manda a moer de huma vez chama-se huma tarefa1 que vem a ser vinte1 e quatro carros1 tendo cada carro justa medida de oito palmos de alto1 e sete de largo1 capaz de mais ou menos feixes de canna1 conforme ella fr grande ou pequena3 porque menos feixes de canna grande basto para fazer a tarefa2 e mais ho de ser necessarios se fr canna pequena1 pois a pequena occupa menor lugar assim no barco1 como no carro2 e a grande occupa1 em huma e outra parte maior espao1 pelo que tem de maior comprimento1 e grossura4 ,raro porm ser o carro1 que traga mais de cento1 e cincoenta feixes de canna3 e os senhores dos partidos1 pelos crtes antecedentes sabem muito bem1 quantas tarefas tem nos seus cannaveaes4 ,a primeira canna1 que se hade cortar he a velha1 que no pde esperar3 costume que no guarda a morte1 cuja fouce corta indifferentemente moos1 e velhos4 ,e esta crte a tempo1 que se no faa prejuizo soca1 conforme as terras1 mais ou menos frias1 e os dias de maior ou menor calor1 e sem chuva4 ,e disto procede no se poder cortar a canna em humas terras depois do fim de ,fevereiro2 e em outras corta-se ainda em ,maro1 e ,abril4 ,quanto ao crte da canna nova3 se o lavrador fr muito ambicioso1 e desejoso de fazer muito assucar1 cortar tudo em huma safra1 e achar-se-ha com pouco1 ou nada na outra4 ,por isso o crte da nova hade ter sua conta3 e se hade attentar ao futuro1 conforme o que se tem plantado1 usando de huma repartio considerada1 e segura1 que he o que dicta em qualquer outra obra1 ou negocio a boa economia1 e prudencia4 ,assim os escravos1 como as escravas se occupo no crte da canna2 porm commummente os escravos corto1 e as escravas amarro os feixes4 ,consta o feixe de doze cannas3 e tem por obrigao cada escravo cortar em hum dia1 sete mos de dez feixes por cada dedo1 que so trezentos1 e cincoenta feixes2 e a escrava hade amarrar outros tantos com os olhos da mesma canna3 e se lhes sobejar tempo1 ser para o gastarem livremente no que quizerem4 ,o que se no concede na limpa da canna3 cujo trabalho comea desde o sol nascido1 at ao sol posto3 como tambem em qualquer outra occasio1 que seno d por tarefa4 ,e o contar a tarefa do crte1 como est dito1 por mos1 e dedos1 he para se accommodar rudeza dos escravos boaes1 que de outra sorte no entendem1 nem sabem contar4 ,o modo de cortar he o seguinte3 pega-se com a mo esquerda em tantas cannas1 quantas pde abarcar1 e com a direita armada de fouce se lhe tira a palha1 a qual depois se queima1 ou pela madrugada1 ou j de noite quando acalmando o vento der para isso lugar2 e serve para fazer a terra mais fertil3 logo levantando mais acima a mo esquerda1 boto-se fra com a fouce os olhos da canna1 e estes do-se aos bois a comer3 e ultimamente tornando com a esquerda mais abaixo1 corta-se rente ao p1 e quanto a fouce fr mais rasteira terra1 melhor4 ,quem segue ao que corta 7que commummente he huma escrava7 ajunta as cannas limpas1 como est dito1 em feixes a doze por feixe1 e com os olhos dellas os vai atando1 e assim atados vo nos carros ao porto2 ou se o engenho fr pela terra dentro1 chega o carro a moenda4 ,a conduo da canna1 por terra faz-se nos carros1 e para bem cada fazenda hade ter dous2 e se fr grande1 ainda mais4 ,por mar vem nas barcas sem vla1 com quatro varas1 que servem em lugar de remos nas mos de outros tantos marinheiros1 e o arraes1 que vai ao leme3 e para isso ha mister duas barcas capazes1 como as que chamo rodeiras4 ,o lavrador tem obrigao de cortar a canna2 e de a conduzir sua custa at ao porto1 onde o barco do senhor a recebe1 e leva de graa at a moenda por mar3 pondo-a no dito barco os escravos do lavrador1 e arrumando-a no barco os marinheiros4 ,mas se fr engenho pela terra dentro1 toda a conduo por terra at a moenda corre por conta do dono da canna1 quer seja livremente dada1 quer obrigada ao engenho4 ,conduzir a canna por terra em tempos de chuvas1 e lamas1 he querer matar muitos bois1 particularmente se viero de outra parte magros1 e fracos1 extranhando o pasto novo1 e o trabalho4 ,o que muito mais se hade advertir na conduo das caixas1 como se dir em seu lugar4 ,por isso os bois que vem do ,serto canados1 e maltratados no caminho1 para bem no se ho de pr no carro1 seno depois de estarem pelo menos anno1 e meio no pasto novo1 e de se acostumarem pouco a pouco ao pasto novo1 e de se acostumarem pouco a pouco ao trabalho mais leve1 comeando pelo tempo do vero1 e no do inverno1 de outra sorte succeder ver1 o que se vio em hum destes annos passados em que morrro s em hum engenho duzentos1 e onze bois1 parte nas lamas1 parte na moenda1 e parte no pasto4 ,e se moendo com agoa1 usando de barcos para a conduo da canna1 he necessario ter no engenho quatro1 ou cinco carros1 com doze1 ou quatorze juntas de bois muito fortes2 quantos haver mister quem me com bestas1 e bois1 e tem canna propria para se conduzir de longe moenda8 ,advirta-se muito nisto1 para se comprarem a tempo os bois1 e taes quaes so necessarios2 dando antes oito mil ris por hum s boi manso1 e redondo1 do que outro tanto por dous pequenos1 e magros1 que no tem fora para aturarem no trabalho4 ,,capitulo ,v4 ,do engenho1 ou casa de moer a canna2 e como se move a moenda com agua4 ,ainda que o nome de engenho comprehenda todo o edificio1 com as officinas1 e casas necessarias para moer a canna1 cozer1 e purgar o assucar2 comtudo1 tomado mais em particular1 o mesmo he dizer casa do engenho1 que casa de moer a canna com o artificio1 que engenhosamente inventro4 ,e tendo ns j chegado a esta casa com a canna conduzida para a moenda1 daremos alguma noticia do que ella he1 e do que nella se obra1 para espremer o assucar da canna2 valendo-me do que vi no engenho real de ,sergipe do ,conde1 que entre todos os da ,bahia he o mais afamado4 ,levanta-se a borda do ,rio sobre dezesete grandes pilares de tijolo1 largos quatro palmos1 altos vinte e dous1 e distantes hum do outro quinze1 huma alta1 e espaosa casa1 cujo tecto coberto de telha assenta sobre tirantes1 frechaes1 e vigas de pos1 que chamo de lei1 que so dos mais fortes1 que h no ,brazil1 a quem nenhuma outra terra leva nesta parte vantagem2 com duas varandas ao redor3 huma para receber canna1 e lenha1 e outra para guardar madeiras sobrecellentes4 ,e a esta chamo casa de moenda1 capaz de receber commodamente quatro tarefas de canna1 sem perturbao1 e embarao dos que necessariamente ho de lidar na dita casa1 e dos que por ella passo1 sendo caminho aberto para qualquer outra officina1 e particularmente para as casas immediatamente contiguas das fornalhas1 e das caldeiras2 contando de comprimento todo este edificio1 cento e noventa e tres palmos1 e oitenta1 e seis de largo4 ,me-se nesta casa a canna com tal artificio de eixos1 e rodas1 que bem merece particular reflexo1 e mais distincta noticia4 ,tomo para mover a moenda do rio acima1 aonde faz a sua queda natural1 a que chamo levada1 que vem a ser huma poro bastante de agua do aude1 ou tanque1 que para isso tem1 divertida com prezas de pedra1 e tijolo1 do seu curso1 e levada com declinao moderada por rego capaz1 e forte nas margens1 para que a agua v unida1 e melhor se conserve2 cobrando na declinao cada vez maior impeto1 e fora3 com seu sangrador1 para a divertir1 se fr necessario1 quando por razo das chuvas1 ou cheias viesse mais do que se pretende2 e com outra abertura para duas bicas1 huma que leva a agua para a casa das caldeiras1 e outra que vai a refrescar o aguilho da roda grande dentro da moenda2 servindo-se para a communicar a outro aguilho1 de huma taboa2 e assim vai a entrar no cano de po1 que chamo caliz1 sustentado de pilares de tijolo1 e na parte superior descoberto1 cujo extremo inclinado sobre os cabos da roda se chama feridor2 porque por elle vai a agua a ferir os ditos cubos1 donde se origina1 e continua o seu moto4 ,assento os aguilhes do eixo desta roda1 hum pela parte de fra1 e outro pela parte de dentro da casa da moenda1 sobre seus chumaceiros de po1 com chapa de bronze2 e a estes sustento duas virgens1 ou esteios de fra1 e duas de dentro1 com seu brinquete1 que he a travessa1 em que os aguilhes se encosto4 ,e sobre estes1 como dissemos1 vai sempre cahindo huma pequena poro de agua1 para os refrescar1 de sorte que pelo continuo moto no ardo1 temperando-se com agua sufficientemente o calor4 ,as aspas da roda larga1 e grande sustento aos arcos1 ou circulos della1 e dentro apparecem os cubos1 ou covas feitas no meio da roda1 e unidos hum a outro1 com o fundo fechado do forro interior da mesma roda entre os dous arcos della assegurados com muitas cavilhas de ferro1 e com suas arruellas1 e chavetas mettidas1 e atravessadas1 para enchavetar as pontas das cavilhas2 causas de no bolirem os arcos1 nem os cubos ao cahir da agua1 e de ir a roda suas voltas seguras4 ,perto da roda pela banda de fra esto dous esteios altos1 e grossos1 com tres travessas1 asseguradas tambem de outra parte1 huma das quaes sustenta a extremidade do caliz1 duas ao feridor1 e outra ao pejador do engenho4 ,he o pejador huma taboa1 pois mais larga que a roda1 de dez ou doze palmos de comprimento1 com suas bordas1 semelhante hum grande taboleiro1 debaixo do feridor1 com huma cavilha chavetada1 de sorte que se possa jogar1 e bolir com ella sem resistencia2 e por isso se faz o buraco da cavilha bastantemente largo1 e na parte inferior tem no lado1 que se vai a encostar parede da moenda1 hum espigo de ferro1 preso tambem com huma argola de ferro1 que entrando por huma abertura pela dita parede1 sua mo1 ou cabo1 em o qual se encavilha sobre hum esteio1 que chamo moiro maneira de engonos1 fica disposio de quem est na moenda o manda-la parar1 ou andar como quizer1 empurrando1 ou puxando pelo pejador2 o qual pondo-se sobre os cubos1 impede ao feridor o dar-lhe o moto com a queda da agua2 e tornando a descobrir os cubos1 torna-se a mover a roda1 e com a roda a moenda4 ,e isto he muito necessario em qualquer desastre1 que pde acontecer1 para lhe acodir de pressa1 e atalhar os perigos4 ,e chamo a esta taboa pejador2 porque tambem ao parar do engenho chamo pejar3 por ventura1 por se pejar hum engenho real de ser retardado1 ou impedido1 ainda por hum instante2 e de no ser sempre1 como he de razo1 moente1 e corrente4 ,e isto quanto parte exterior da moenda1 donde principia o seu movimento4 ,entrando pois na casa interior2 o modo com que se communica o moto por suas partes moenda1 he o seguinte4 ,o eixo da roda grande1 que como temos dito1 pela parte de fra se mette dentro da casa do engenho1 tem no seu remate interior1 chegado aonde assenta o aguilho sobre o brinquete1 e esteios1 hum rodete fixo1 e armado de dentes1 que o cerca3 e este virado ao redor pelo caminho do dito eixo1 apanha successivamente na volta1 que d com seus dentes1 outros de outra roda superior1 tambem grande1 que chamo volandeira1 porque o seu modo de andar circularmente no ar sobre a moenda1 se parece com o voar de hum passaro1 quando d no ar seus rodeios4 ,os dentes do rodete1 que eu vi1 ero trinta1 e dous2 e os da volandeira1 cento1 e doze4 ,e porque as aspas da volandeira passo pelo pescoo do eixo grande da moenda2 por ellas se lhe communica o impulso3 e este recebido do dito eixo grande1 cercado de entrozas1 e dentes1 se communica tambem a dous outros eixos menores1 que tem de ambas as ilhargas1 dentados1 e abertos igualmente1 com suas entrozas do mesmo modo1 que temos dito do grande3 e com estes dentes1 e entrozas se causa o moto com que uniformemente o acompanho4 ,as aspas da volandeira so oito1 quatro superiores1 e quatro inferiores1 e as inferiores tem suas contra-aspas para maior segurana4 ,os tres eixos da moenda so tres pos redondos de corpo espherico1 alto nos menores sinaes cinco palmos e meio2 e no maior1 que he o do meio1 alto seis palmos1 e tambem de esphera maior que os outros1 que nas ilhargas continuamente o aperto1 gasta-se mais que os outros3 e por isso por boa regra os menores tem nove dentes1 e o maior onze1 e s este 7por fallarmos com a lingoa dos officiaes7 tem seu pescoo1 e cabea alta1 conforme a altura do engenho1 e commummente ao todo vm a ter o dito eixo doze palmos de alto3 cuja cabea de dous palmos e meio1 mais delgada que o pescoo1 entra por hum po furado1 que chamo porca1 sustentado de duas vigas1 de quarenta e dous palmos1 as quaes assento sobre quatro esteios altos de dezesete palmos1 e grossos quatro1 com suas travessas proporcionadamente distantes4 ,e ainda que os outros dous eixos menores no tem pescoo1 comtudo pela parte de cima entro quanto basta1 com sua ponta1 ou aguilho1 por huns pos furados1 que chamo mesas1 ou gatos1 com que fico direitos1 e seguros em p4 ,os corpos dos tres eixos da metade para baixo so vestidos igualmente de chapas de ferro unidas1 e pregadas com pregos feitos para este fim com cabea quadrada1 e bem entrante1 para se igualarem com as chapas3 debaixo das quaes os corpos dos eixos so torneados com tornos de po de lei1 para que fique a madeira mais dura1 e mais capaz de resistir ao continuo aperto1 que hade padecer no moer4 ,sobre as chapas apparece1 hum circulo1 ou faixa de po1 que he contra a parte do corpo dos mesmos eixos1 despida de ferro3 e logo immediatamente se segue o circulo dos dentes de po de lei1 encaixados no eixo com suas entrozas 7que so humas cavaduras1 ou vos repartidos entre dente1 e dente7 para entrarem1 e sahirem dellas os dentes dos outros eixos collateraes2 que para isso so em tudo iguaes os dentes1 e as entrozas1 a saber3 os dentes na grossura1 e na altura1 e as entrozas na largura1 e profundeza do encaixamento1 ou vasio1 que commummente sahem do corpo do eixo1 comprimento de cinco1 ou seis dedos1 de largura de huma mo1 e de quatro1 ou cinco dedos de costa1 de frma quasi chata1 e nos extremos redonda4 ,e ainda que entre dente1 e dente dos eixos menores1 haja espao medido por compasso de igual medida1 que he hum palmo grande2 os do eixo maior tem de mais a mais tanto espao1 alm do palmo1 quanto occuparia a grossura de huma moeda de dous cruzados3 e isto se faz1 para que estejo em sua conta1 e no entrem no mesmo tempo os dentes dos eixos collateraes2 mas hum se siga atraz do outro1 e desta sorte se continue em todos os tres o moto1 que se pretende4 ,e por isso tambem os dentes1 e as entrozas de hum eixo se ho de desencontrar dos dentes1 e entrozas do outro1 a saber3 ao dente do eixo grande hade corresponder a entroza do pequeno2 e ao dente do pequeno a entroza do grande4 ,so os dentes 7como dizia7 na parte que sahe fra do eixo algum tanto chatos1 e no fim quasi redondos1 largos quatro ou cinco palmos1 e outro tanto grossos3 e ento quasi outros quatro dedos pela sua raiz do eixo1 aonde se asseguro1 alm da parte1 com que fazem parede s entrozas1 que so na mesma conta quatro ou cinco dedos profundas4 ,sobre os dentes dos eixos menores fica a terceira parte do po descoberta1 e se remata a modo de degros em dous circulos menores1 vestidos de duas argolas de ferro de grossura de hum dedo1 e meio1 largura de tres dedos2 e na ponta do po se vara de tal sorte1 que entre nelle huma buxa quadrada de dous ou tres palmos1 de sapupira merim3 a qual buxa tambem em parte se vaza1 e nella se encaixa o aguilho de ferro1 comprimento de tres palmos1 grossura de hum caibro1 fora de pancadas com hum vaivem de ferro4 ,e para melhor segurana do aguilho1 e da buxa1 se abre na cabea dos quatro lados da buxa1 com huma palmeta de ferro1 fora de pancadas de vaivem2 e se lhes mettem humas palmetas1 menores de po de lei1 para no abrir4 ,e pelo mesmo estilo de degros1 e argolas1 buxa1 e aguilho com que temos dito se remata a parte superior dos dous eixos menores1 se remato tambem as partes inferiores de todos tres1 ajuntando de mais a cada aguilho seu pio de ferro1 calado de ao da grossura de huma ma1 que tambem se encaixa pela parte superior at dous dedos dentro do aguilho2 e pela parte inferior pe a ponta sobre outro ferro chato1 que chamo manchal1 de comprimento de hum palmo1 tambem calado de ao1 para que seno fure com o continuo virar1 que sobre elle faz o pio4 ,e todos estes tres eixos1 ou corpos de moenda1 aonde chega o pio ao manchal1 assento sobre hum po1 que chamo ponte1 de comprimento de quinze1 ou dezeseis palmos3 e para sustentar toda a moenda forte1 e segura1 servem quatro virgens1 que so quatro esteios1 altos da terra nove palmos1 e grossos sete1 semelhantes no seu officio de suster aos que sustento as virgens grandes1 e a porca1 ou po furado1 por onde passa a ponta do eixo grande1 que sobre os outros collateraes se levanta at a dita altura1 como parte principal da moenda4 ,sobre estas virgens de ponta1 a ponta vo huns pos1 que chamo mesas1 quasi hum palmo de grossura1 e vinte de comprimento1 sobre as quaes descano as travessas1 que chamo gatos2 em que se movem os eixos pela parte superior2 e sobre estas vai outro andar ao comprimento1 de taboas que chamo agulhas1 as quaes servem para segurar as unhas1 com que se aperta a moenda4 ,o lugar aonde se poem os feixes de canna1 que immediatamente hade passar para se espremer entre os eixos1 so dous taboleiros1 hum de huma parte1 e outro da outra1 que tem seus encaixos1 ou meios circulos ao redor dos eixos da moenda1 afastados delles tanto1 quanto basta para no lhes impedir suas voltas4 ,e o estarem os taboleiros chegados aos eixos he para que no caia a canna1 ou o bagao della perto dos aguilhes1 e retarde de algum modo aos pies2 e para que se no suje o caldo1 que sahe da canna moida4 ,,capitulo ,,vi4 ,do modo de moer as cannas1 e de quantas pessoas necessita a moenda4 ,moem-se as cannas1 mettendo-se algumas dellas limpas da palha1 e da lama 7que para isso1 se fr necessario1 se lavo7 entre dous eixos1 aonde apertadas fortemente se expremem1 mettendo-se na volta1 que do os eixos1 os dentes da moenda e nas entrozas para mais as apertar e espremer entre os corpos dos eixos chapeados1 que vm unir-se nas voltas1 e depois dellas passadas1 torna-se de outra parte a passar o bagao1 para que se exprema mais1 e de todo o umo1 ou licor1 que conserva4 ,e este umo 7ao qual depois chamo caldo7 cahe da moenda em huma cocha de po1 que est deitada debaixo da ponte dos aguilhes1 e dahi corre por huma bica a hum parol mettido na terra que chamo parol do caldo1 donde se guinda com dous caldeires1 ou cubos para cima com roda1 eixo1 e correntes1 e vai para outro parol1 que est em hum sobradinho alto1 a quem chamo guinda2 e para dahi passar para a casa das caldeiras1 aonde se hade alimpar4 ,no espao de vinte e quatro horas moe-se huma tarefa redonda de vinte e cinco at trinta carros de canna2 e em huma semana das que chamo solteiras 7que vem a ser1 sem dia santo7 chego a moer sete tarefas1 e o rendimento competente he huma frma1 ou po de assucar por fouce1 a saber2 quanto corta hum negro em hum dia4 ,nem o fazer mais assucar depende de moer mais canna1 mas de ser a canna de bom rendimento1 a saber2 bem assucarada1 no aguacenta1 nem velha4 ,se metterem mais canna1 ou bagao1 do que se convm1 haver risco de quebrar o rodete1 e a moenda dar de si1 e ranger da parte de cima1 e poder ser1 que se quebre algum aguilho4 ,se a agua1 que move a roda1 fr muita1 moer tanta canna1 que se lhe no poder dar vaso na casa das caldeiras1 e o caldo azedar no parol de coar1 por seno poder cozer em tanta quantidade1 nem to de pressa nas tachas4 ,e por isso o feitor da moenda1 e o mestre do assucar ho de ver o que convm1 para que se no perca a tarefa4 ,o lugar de maior perigo1 que ha no engenho1 he o da moenda3 porque se por desgraa a escrava1 que mette a canna entre os eixos1 ou por fora do somno1 ou por canada1 ou por qualquer outro descuido1 metteu desattentadamente a mo mais adiante do que devia2 arrisca-se a passar moida entre os eixos1 se lhe no cortarem logo a mo1 ou o brao apanhado1 tendo para isso junto da moenda hum faco1 ou no forem to ligeiros em fazer parar a moenda1 divertindo com o pejador a agua1 que fere os cubos da roda1 de sorte1 que dem de pressa a quem padece de algum modo o remedio4 ,e este perigo he ainda maior no tempo da noite1 em que me igualmente como de dia2 posto que se revezem as que mettem a canna por suas esquipaes3 particularmente1 se as que ando nesta occupao forem boaes1 ou acostumadas a se embriagarem4 ,as escravas1 de que necessita a moenda1 ao menos so sete ou oito1 a saber2 tres para trazer a canna1 huma para a metter1 outra para passar o bagao1 outra para concertar1 e acender as candeias1 que na moenda so cinco1 e para alimpar o cocho do caldo 7a quem chamo cocheira1 ou catumb71 e os aguilhes da moenda1 e refresca-los com agua para que no ardo1 servindo-se para isso do parol da agua1 que tem debaixo da rodete1 tomada da que cahe no aguilho1 como tambem para lavar a canna enlodada1 e outra finalmente para botar fra o bagao1 ou no rio1 ou na bagaceira1 para se queimar a seu tempo4 ,e se fr necessario bota-lo em parte mais distante1 no bastar huma s escrava mas haver mister outra que a ajude2 porque de outra sorte no se daria vazo a tempo1 e ficaria embaraada a moenda4 ,sobre o parol do caldo1 que como temos dito1 est mettido na terra1 ha huma guindadeira1 que continuamente guinda1 para cima com dous cubos o caldo3 e todas as sobreditas escravas1 tem necessidade de outras tantas1 que as revezem1 depois de encherem o seu tempo1 que vem a ser a ametade do dia1 e a ametade da noite3 e todas juntas lavo1 de vinte e quatro1 em vinte e quatro horas com agua1 e vasculhos de piassaba toda a moenda4 ,a tarefa das guindadeiras he guindar cada huma tres paroes de caldo1 quando fr tempo1 para encher as caldeiras1 e logo outros tres1 succedendo desta sorte huma outra1 para que posso aturar no trabalho4 ,e para o bom governo da moenda1 alm do feitor1 que attende tudo1 neste lugar mais que em outros1 parte de dia1 e parte de noite1 ha hum guarda1 ou vigiador da moenda3 cujo officio he1 attentar em lugar do feitor1 que a canna se metta1 e se passe bem entre os eixos1 que se despeje1 e tire o bagao1 que se refresquem1 e alimpem os aguilhes1 e a ponte2 succedendo algum desastre na moenda1 elle he o que logo acode1 e manda parar4 ,,capitulo ,,vii4 ,das madeiras1 de que se faz a moenda1 e todo o mais madeiramento do engenho1 canas1 e barcos2 e do que se costuma dar aos carpinteiros1 e outros semelhantes officiaes4 ,antes de passar da moenda para as fornalhas1 e casa das caldeiras3 parece-me necessario dar noticia dos pos1 e madeiras1 de que se faz a moenda1 e todo o mais madeiramento do engenho1 que no ,brazil se pde fazer com escolha1 por no haver outra parte do mundo to rica de pos selectos1 e fortes3 no se admittindo nesta fabrica po1 que no seja de lei2 porque a experiencia tem mostrado ser assim necessario4 ,chamo pos de lei aos mais solidos1 de maior dura1 e mais aptos para serem lavrados1 e taes so os de sapucaia1 e de sapupira1 de sapupira-capi1 de sapupira-merim1 de sapupira-acis1 de vinhatico1 de arco1 de jetay amarello1 de jetay preto1 de messetaba1 de massarandba1 po brazil1 jacarand1 po de oleo1 e picahi1 e outros semelhantes a estes4 ,o madeiramento da casa do engenho1 casa das fornalhas1 e casa das caldeiras1 e a de purgar1 para bem hade ser de massarandba2 porque he de muita dura1 e serve para tudo1 a saber3 para tirantes1 frechaes1 sobrefrechaes1 tesouras1 ou pernas de asna1 espiges1 e teras3 e desta casta de po h em todo o reconcavo da ,bahia1 em toda a costa do ,brazil4 ,os tirantes1 e frechaes grandes1 valem tres1 e quatro mil ris1 e s vezes mais1 conforme o seu comprimento1 e grossura1 assim toscos como vm do mato1 s com a primeira lavradura4 ,os eixos da moenda se fazem de sapucaia1 ou sapupira-cari3 a ponta ou cabo do eixo grande1 de po de arco1 ou de sapupira1 os dentes dos tres eixos da moenda1 do rodete1 e da volandeira so de messataba4 ,as rodas de agua1 de po de arco1 ou de sapupira1 ou de vinhatico4 ,os arcos do rodete1 e volandeira1 e as aspas1 e contra-aspas1 de sapupira2 as virgens1 e mais esteios1 e vigas de qualquer po de lei4 ,os carros de sapupira-merim1 ou de jetay1 ou de sapucaia4 ,o caliz1 de vinhatico4 ,as canas de vinhatico1 joairana1 jequitiba1 utunica1 e angali4 ,as cavernas1 e braos dos barcos de sapupira1 ou de ladim carvalho1 ou de sapupira-merim1 a quilha de sapupira1 ou de paroba3 os forros1 e custados de utim1 paroba1 buragem1 e unhuiba2 os mastros de inhuibatan3 as vergas de camassari2 o leme de averno1 ou angeli1 as curvas1 e rodas da pra1 e ppa de sapupira1 com seus coraes mettidos2 as varas de mangue branco1 e os remos1 de lindirana1 ou de genipapo4 ,as caixas em que se mette o assucar de jequitiba1 e camassari1 e no havendo destas duas castas de po1 quanto basta1 se poder valer de burissica para fundos1 e tampos4 ,e estas taboas para as caixas vm da serraria j serradas1 e no engenho s se levanto1 endireito1 e aparo3 e ho de ter nos lados1 para bem1 dous palmos e meio de largo1 e sete e meio1 ou oito de comprido4 ,valia huma caixa nos annos passados1 dez1 ou doze tostes1 agora subro a maior preo4 ,hum eixo da moenda tosco no mato1 e torado s nas pontas1 ou ainda oitavado1 vale quarenta1 cincoenta1 e sessenta mil ris1 e mais conforme a qualidade do po1 e a necessidade1 que h delle4 ,os que vm de ,porto ,seguro1 e ,palippe1 so somenos por serem creados em varzeas3 os melhores so os que vm de ,pitanga1 e da ,terra ,nova1 acima de ,santo ,amaro4 ,toda a moenda importa em mais de mil cruzados2 alm da roda grande de agua1 que por ser cheia de cavilhas1 e cubos vale mais de duzentos mil ris4 ,ao carapina da moenda1 se do cinco tostes cada dia a secco3 e se lhe derem de comer1 d-se-lhe hum cruzado1 e ainda mais nestes annos em que todos os preos subro4 ,quasi o mesmo se d aos carapinas de obra branca4 ,aos carapinas de barcos1 e aos calafates se do a seco sete tostes e meio3 e seis tostes1 ou duas patacas1 se lhes der de comer4 ,hum barco velejado para carregar lenha1 e caixas1 custa quinhentos mil ris3 hum barco para conduzir canna1 trezentos mil ris3 e huma rodeira1 quatrocentos mil ris4 ,as canas vendem-se conforme a sua grandeza1 e qualidade do po4 ,por isso sendo as de que commummente se usa nos engenhos1 humas pequenas1 e outras maiores2 maior1 ou menor tambem ser o preo dellas1 a saber2 de vinte1 trinta1 quarenta1 e cincoenta mil ris4 ,corto-se os pos no mato com machados no decurso de todo o anno1 guardando as conjunces da lua1 a saber2 tres dias antes da lua nova1 ou tres dias depois della cheia3 e tiro-se do mato diversamente1 porque nas varzeas huns os vo rolando sobre estivas1 outros os arrasto a poder de escravos1 que puxo3 e nos outeiros1 de alto a baixo se decem com socairo2 e para cima dos mesmos outeiros1 tambem se arrasto puxando4 ,isto se entende aonde no h lugar de usar dos bois1 por ser a paragem ou muito apique1 ou muito funda1 e aberta em coves4 ,mas aonde podem puxar os bois1 se tiro do mato com tiradeiras1 amarrando com cordas1 ou com cips1 ou couros a tiradeira segurada bem com chavelhas3 e na lama em tempo de chuva1 dizem que se arrasto melhor1 que em tempo de seca2 porque com a chuva mais facilmente escorrego4 ,,capitulo ,,viii4 ,da casa das fornalhas1 seus apparelhos1 e lenha1 que h mister3 e da cinza1 e sua decoada4 ,junto casa da moenda1 que chamo casa do engenho1 segue-se a casa das fornalhas1 bocas verdadeiramente tragadoras de matos1 carcere de fogo1 e fumo perpetuo1 e viva imagem dos vulces1 vesuvios1 etnas1 e quasi disse do purgatorio1 ou do inferno4 ,nem falto perto destas fornalhas seus condemnados1 que so os escravos bobentos1 e os que tem corrimentos3 obrigados a esta penosa assistencia para purgar com suor violento os humores gallicos2 de que tem cheios seus corpos4 ,tem-se ahi tambem outros escravos facinorosos1 que presos em compridas1 e grossas cadeias de ferro1 pago neste trabalhoso exercicio os repetidos excessos da sua extraordinaria maldade com pouca1 ou nenhuma esperana da emenda para o futuro4 ,nos engenhos reaes costuma haver seis fornalhas1 e nellas outros tantos escravos assistentes1 que chamo mettedores de lenha4 ,as bocas das fornalhas so cercadas com arcos de ferro no s para que sustentem melhor os tijolos2 mas para que os mettedores no metter da lenha no padeo algum desastre4 ,tem cada fornalha sobre a boca dous boeiros1 que so como duas ventas1 por onde o fogo resfolega4 ,os pilares1 que se levanto entre huma1 e outra1 ho de ser muito fortes1 de tijolo1 e cal3 mas o corpo das fornalhas faz-se de tijolo e barro para resistir melhor vehemente actividade do fogo1 ao qual no resistiria nem a cal nem a pedra mais dura3 e as que servem para as caldeiras1 so alguma cousa maiores1 que as que servem para as taxas4 ,o alimento do fogo he a lenha1 e s o ,brazil com a immensidade dos matos1 que tem1 podia fartar1 como fartou por tantos annos1 e fartar nos tempos vindouros1 a tantas fornalhas1 quantas so as que se conto nos engenhos da ,bahia1 ,pernambuco1 e ,rio de ,janeiro1 que commummente moem de dia1 e de noite2 seis1 sete1 oito1 e nove mezes no anno4 ,e para que se veja quo abundantes so estes matos1 s os de ,jaguaripe basto para dar lenha quantos engenhos h beira-mar no reconcavo da ,bahia3 e de facto quasi todos desta parte s se provem4 ,comea o cortar da lenha em ,jaguaripe nos principios de ,julho2 porque os engenhos comeo a moer em ,agosto4 ,tem obrigao cada escravo de cortar1 e arrumar cada dia huma medida de lenha1 alta sete palmos1 e larga oito1 e esta he tambem a medida de hum carro2 e de oito carros consta a tarefa4 ,o cortar1 carregar1 arrumar1 e botar a lenha no barco pertence a quem a vende3 o arruma-la no barco1 corre por conta dos marinheiros4 ,h barcos capazes de cinco tarefas1 h de quatro1 ha de tres2 e custa cada tarefa dous mil e quinhentos ris1 quando o senhor do engenho a manda buscar com seu barco3 e se vier no barco do vendedor1 ajuntar-se-ha de mais o frete conforme a maior1 ou menor distancia do porto4 ,hum engenho real1 que me oito1 ou nove mezes1 gasta hum anno por outro dous mil cruzados na lenha3 e houve anno1 em que o engenho de ,sergipe do ,conde gastou mais de tres mil cruzados1 por moer mais tempo1 e por custar a lenha mais cara4 ,vem a lenha em barcos a vla1 com quatro marinheiros1 e o arraes3 e para bem o senhor do engenho hade ter dous barcos1 para que1 em chegando hum1 volte o outro4 ,o melhor sortimento da lenha he aquelle1 cuja metade consta de pos grandes1 e travessos1 que so menores2 e outra de lenha miuda3 porque a grossa serve para armar as fornalhas1 e para cozer o assucar nas taxas1 onde he necessario maior fogo para se coalhar3 a mediana serve para fazer liga com a grossa2 e a miuda serve para alimpar o caldo da canna nas caldeiras2 porque para se levantar bem a escuma1 demando continuamente lavaredas de chammas4 ,e por isso a grossa se chama lenha de taxas1 e a miuda lenha de caldeiras4 ,chegada a lenha ao porto do engenho1 arruma-se na sua bagaceira3 e sempre he bem1 que diante1 ou perto das fornalhas estejo arrumadas cinco1 ou seis tarefas de lenha4 ,gasto dous barcos de canna1 ordinariamente hum de lenha1 se fr lenha sortida3 porque se fr miuda1 no basta4 ,o primeiro apparelho da lenha1 para se botar fogo fornalha chama-se armar3 e isto vm a ser1 empurrar rolos1 e estend-los no lastro 7o que se faz com varas grandes que chamo trasfogueiros71 e sobre elles cruzar travessos1 e lenha miuda1 para que levantada chegue mais facilmente com a chamma aos fundos das caldeiras1 e taxas4 ,e o mettedor hade estar attento ao que lhe mando os caldeireiros1 botando precisamente a lenha1 que os de cima conhecem1 e aviso ser necessaria3 assim para que no transborde o caldo1 ou melado dos cobres1 como para que no falte o ferver2 porque seno ferver em sua conta1 no se poder alimpar bem da immundice1 que hade vir acima1 para se tirar1 e escumar das caldeiras4 ,porm1 para as taxas quanto mais fogo melhor4 ,a cinza das fornalhas serve para fazer decoada3 e esta para alimpar o caldo da canna nas caldeiras1 e para que saia o assucar mais forte4 ,para isso arrasta-se com rodo de ferro at a boca das fornalhas pouco a pouco a cinza1 e borralho1 e dahi com huma p de ferro se tira1 e se leva sobre a mesma para o cinzeiro1 que he hum tanque de tijolo1 sobre pilares de pedra1 e cal1 de figura quadrada1 com suas paredes ao redor3 e quasi se conserva quente1 e assim quente se pe nas tinas que para isso esto levantadas da terra sobre huns esteios de tres palmos4 ,ahi depois de bem caldeada1 e arrumada1 se lhe bota agua tirada de hum taxo grande1 que est fervendo sobre a sua proporcionada fornalha perto do cinzeiro4 ,e para isso serve a agua1 que passa pela bica1 que vai a casa das caldeiras3 e coando esta agua pela cinza1 at passar pelos buracos que tem as tinas nos fundos1 cobra o nome de decoada1 e vai cahir nas frmas1 ou vasilhas enterradas at a metade1 e dahi se tira com hum cco1 e se passa em hum taxo para a casa das caldeiras1 aonde se reparte pelas frmas1 que esto postas entre as caldeiras1 e serve para os caldeireiros ajudarem com ella ao caldo1 como se dir em seu lugar4 ,hade-se porm de advertir1 que nem toda a lenha he boa1 para se fazer decoada3 porque nem os pos fortes1 nem a lenha seca servem para isso4 ,e a razo he2 porque os pos fortes fazem mais carvo1 do que cinza3 e a lenha miuda d pouca cinza1 e sem fora4 ,a melhor he a dos mangues brancos1 e de pos molles1 a saber2 a de cajueiros1 aroeiras1 e gamelleiras4 ,e para se conhecer1 se a decoada he perfeita1 hade se provar1 tocando a lingua com huma pingadella sobre a ponta do dedo3 e se arder1 ser boa2 se no arder1 ser fraca4 ,tambem se sobejar cinza de hum anno para outro nas caixas1 aonde a costumo guardar1 antes de se pr nas tinas1 deve-se aquentar no cinzeiro1 ou misturar-se com a primeira que se tirar das fornalhas com burralho3 porque1 se antes enfraqueceu1 com este beneficio torna a dobrar seu vigor4 ,,capitulo ,,ix4 ,das caldeiras1 e cobres1 seu apparelho1 officiaes1 e gente1 que nellas ha mister3 e instrumentos de que uso4 ,a terceira parte deste edificio superior s fornalhas1 he a casa dos cobres3 porque ainda que a esta se chame commummente casa das caldeiras1 no so ellas s1 que tem lugar nesta parte3 mas outros grandes vasos de cobre1 como so paroes1 bacias1 e taxas2 e destes vasos tem os engenhos reaes dous ternos sempre em obra1 porque de outra sorte no poderio dar vaso ao caldo1 que vm da moenda4 ,esto estes cobres postos sobre a abobeda das fornalhas em assentos1 ou encostadores de tijolo1 e cal ao redor1 abertos de tal sorte1 que com o fundo1 que mettem dentro da mesma fornalha1 tapa cada qual a abertura em que se recebe1 e entra por ella proporcionadamente ao corpo1 que tem1 a saber2 menos as taxas1 e muito mais as caldeiras1 e assim como tem sua parede que divide huma da outra2 e outra parede1 que divide esta casa da outra contigua do engenho1 assim tem diante de si hum1 ou dous degros1 por onde se sobe a obrar nelles com os instrumentos necessarios nas mos1 e com bastante espao1 para dominar sobre elles com ajustada altura1 e distancia1 com caminho desafogado no meio1 est o tendal das frmas1 em que se bota o assucar j cozido a coalhar1 e he capaz de oitenta1 e mais frmas4 ,consta hum terno1 ou ordem de cobres1 alm do parol do caldo1 e do parol da guinda1 que fico na casa da moenda1 de duas caldeiras1 a saber2 da do meio1 e da outra de melar3 de hum parol da escuma3 de hum parol grande1 que chamo parol do melado1 e de outro menor que se chama parol de coar3 de hum terno de taxas1 que so quatro1 a saber2 a de receber1 a da porta1 a de cozer1 e a de bater3 e finalmente de huma bacia1 que serve para repartir o assucar nas frmas4 ,e de outros tantos cobres de igual1 ou pouco menor grandeza1 consta outro andar semelhante4 ,leva o parol do caldo de hum engenho real vinte arrobas de cobre3 o parol da guinda1 outras vinte arrobas3 as duas caldeiras1 sessenta arrobas3 o parol da escuma1 doze arrobas3 o parol do melado1 quinze arrobas3 o parol de coar1 oito arrobas3 o terno das quatro taxas1 a nove arrobas cada huma1 trinta1 e seis arrobas3 a bacia1 quatro arrobas3 que em tudo so cento1 e sessenta1 e cinco arrobas de cobre1 o qual vendendo-se lavrado1 quando he barato1 a quatrocentos ris a libra1 importa em dous contos1 duzentos1 e quarenta mil ris1 que so cinco mil1 e seiscentos cruzados4 ,e se accrescentar outro terno de cobres menores1 ou iguaes1 crescer proporcionadamente seu valor4 ,a parte1 em que as caldeiras1 e as taxas mais padecem1 he o fundo3 e se este fr de ruim cobre1 e no tiver grossura necessaria1 no se poder alimpar o caldo1 como he bem1 nas caldeiras3 e o fogo queimar nas taxas ao assucar1 antes de o cozer e bater4 ,por isso nos engenhos reaes1 que mem sete1 e oito mezes do anno1 se torno a refazer todos os fundos das caldeiras1 e taxas4 ,as pessoas1 que assistem nesta casa1 so o mestre do assucar1 o qual preside a toda a obra3 e corre por sua conta julgar se o caldo est j limpo1 e o assucar cozido1 e batido1 quanto pede1 para estar em sua conta3 assiste s temperas1 e ao repartimento dellas nas frmas2 alm do que lhe cabe fazer na casa de purgar1 de que fallaremos no seu proprio lugar4 ,a sua assistencia principal he de dia2 e ao chegar de noite entra a fazer o mesmo o banqueiro1 que he como o contramestre desta casa3 e da intelligencia1 experiencia1 e vigilancia de hum1 e outro depende em grande parte o fazer-se bom1 ou mo assucar4 ,porque ainda que a canna no seja1 qual deve ser1 muito pde ajudar a arte1 no que faltou a natureza4 ,e pelo contrario pouco importa que a canna seja boa1 se o fructo della1 e trabalho de tanto custo se botar a perder por descuido1 com no pequeno encargo de consciencia para quem recebe avantajado estipendio4 ,tem mais por obrigao o banqueiro repartir de noite o assucar pelas frmas1 assenta-las no tendal1 e concerta-las com cip4 ,e para lhe diminuir o trabalho nestas ultimas obrigaes1 tem hum ajudante de dia1 quem chamo ajuda-banqueiro1 o qual tambem reparte o assucar pelas frmas1 assenta-as1 e concerta-as1 como est dito4 ,revezo-se nas caldeiras oito caldeireiros1 divididos em duas esquipaes1 hum em cada huma1 de assistencia continua1 at entrega-la a seu successor1 escumando o caldo que ferve1 com cubos1 e taxos4 ,obrigao de cada caldeireiro1 he escumar tres caldeiras de caldo1 que chamo tres meladuras2 lhe hade dar a guindadeira meladuras2 e a ultima se chama de entrega2 porque a deve dar meia limpa ao caldeireiro1 que o vm render4 ,e para estas tres meladuras1 lhe hade dar a guindadeira o caldo1 que ha mister a seu tempo1 a saber2 acabada de escumar1 e alimpar huma meladura1 dar-lhe outra4 ,nas taxas trabalho quatro taceiros por esquipaes de assistencia1 hum em cada terno de taxas3 e tem por obrigao cada hum delles1 cozer1 e bater tanto assucar1 quanto he necessario para se encher huma venda de frmas1 que vm a ser quatro1 ou cinco frmas4 ,serve finalmente para varrer a casa1 e para concertar1 e acender as candeias 7que so seis1 e ardem com azeite de peixe71 e para tirar as segundas1 e terceiras escumas do seu proprio parol1 e torna-las a botar na caldeira1 huma escrava1 a quem chamo por alcunha a calcanha4 ,he tambem esta casa lugar de penitentes2 porque commummente1 se vem nellas huns mulatos1 e huns negros crioulos exercitar o officio de taxeiros1 e caldeireiros amarrados com grandes correntes de ferro a hum cepo1 ou por fugitivos1 ou por insignes em algum genero de maldades2 para que desta sorte1 o ferro1 e o trabalho os amansem4 ,mas entre elles h as vezes alguns menos culpados1 e ainda innocentes2 por ser o senhor ou demasiadamente facil a querer o que lhe dizem1 ou muito vingativo e cruel4 ,os instrumentos de que se usa na casa das caldeiras so escumadeiras1 pombas1 reminhes1 cubos1 passadeiras1 repartideiras1 taxos1 vasculhos1 batedeiras1 bicas1 cavadoures1 espatulas1 e picadeiras4 ,das escumadeiras1 e pombas grandes uso os caldeireiros2 servem as escumadeiras para alimpar3 as pombas para botar o caldo de huma caldeira para outra1 ou da caldeira para o parol1 e por isso os cabos1 assim de humas1 como de outras tem quatorze1 ou quinze palmos de comprido para se poderem menear bem4 ,os reminhes servem para botar agua1 e decoada nas caldeiras2 e para ajudar aos taxeiros a botar o assucar na repartideira1 para ir s frmas4 ,das escumadeiras mais pequenas1 batedeiras1 e passadeiras1 picadeiras1 e vasculhos uso os taxeiros1 da repartideira1 cavador1 e espatulas1 o banqueiro1 e o ajuda-banqueiro2 e dos taxos1 cubos1 e bicas usa a calcanha1 para tirar a escuma do seu primeiro parol1 e para torna-la a pr na caldeira4 ,serve o vasculho para tirar alguma immundice ao redor das taxas1 a picadeira para tirar o assucar1 que est como grudado nas mesmas taxas e o cavador1 para fazer no bagao do tendal as covas aonde se poem as frmas4 ,,capitulo ,x4 ,do modo de alimpar1 e purificar o caldo da canna nas caldeiras1 e no parol de coar1 at passar para as taxas4 ,guindando-se o umo da canna 7que chamo caldo7 para o parol da guinda1 dahi vai por huma bica a entrar na casa dos cobres3 e o primeiro lugar1 em que cahe1 he a caldeira que chamo do meio1 para nella ferver1 e comear a botar fra a immundicia1 com que vm da moenda4 ,o fogo faz neste tempo o seu officio2 e o caldo bota fra a primeira escuma1 a que chamo cachaa3 e esta por ser immundicia vai pelas bordas das caldeiras bem ladrilhadas fra da casa1 por hum cano bem enterrado1 que a recebe por huma bica de po1 mettida dentro do ladrilho1 que est ao redor da caldeira1 e vai cahindo pelo dito cano1 em hum grande cocho de po1 e serve para as bestas1 cabras1 ovelhas1 e porcos2 e em algumas partes tambem os bois a lambem2 porque tudo he doce1 e ainda que immundo1 deleita4 ,e para que o fogo no levante a escuma mais do que he justo1 e d lugar de se alimpar o caldo1 como he bem3 boto-lhe os caldeireiros de quando em quando agua com hum reminhol1 e desta sorte se reprime a demasiada fora da fervura1 e o caldo ainda immundo se alimpa4 ,sahida a primeira escuma per si mesma1 comeo os caldeireiros com grandes escumadeiras de ferro a escumar o caldo1 e ajuda-lo3 e chamo ajudar o caldo1 ou botar-lhe de quando em quando j hum maminhol de decoada1 j outro de agua1 que ahi tem perto3 a agua nas tinas1 e a decoada nas frmas4 ,serve a agua1 para lavar o caldo1 e a decoada para que toda a immundicia1 que resta na caldeira1 venha mais de pressa arriba1 e no assente no fundo4 ,serve tambem para condenar o assucar2 e faz-lo mais forte2 encorporando-se com o caldo1 de modo que se encorpora o sal com a agua4 ,esta segunda escuma se guarda1 e cahe para outra bica da mesma borda do ladrilho1 para o parol mais baixo1 e afastado do fogo1 que se chama parol da escuma3 e dahi com cubo1 e taxo torna a bota-lo a negra calcanha1 que tem isto por officio1 na mesma caldeira1 para se purificar1 que chamo repassar3 e vai por huma bica de po1 encavilhada sobre hum esteio de igual altura das caldeiras 7a que chamo viola1 por imitar no feitio a este instrumento71 larga no corpo1 ou parte1 em que recebe a escuma2 e estreita no cano1 por onde cahe na caldeira4 ,e tanto que o caldo apparece bem limpo 7o que se conhece pela escuma1 e pelos olhos1 e em polas1 que levanta1 cada vez menores1 e mais claros71 com huma pomba grande1 7que he hum vaso concavo de cobre com seu cabo de po comprido doze1 ou quinze palmos71 o boto na segunda caldeira1 que chamo de melar1 e aqui se acaba de purificar1 com o mesmo beneficio de agua1 e decoada1 at ficar totalmente limpo4 ,deixa-se alimpar o caldo na caldeira do meio commummente pelo espao de meia hora3 e j meio purgado passa a cahir na caldeira de melar por huma hora1 ou cinco quartos1 at acabar de se escumar3 e nunca se tira todo o caldo das caldeiras1 por razo dos cobres que padecerio detrimento do fogo1 mas se lhes deixa dous ou tres palmos de caldo1 e sobre este se bota o novo4 ,a escuma tambem desta segunda caldeira vai ao parol da escuma1 e dahi torna para a primeira1 ou segunda caldeira at ao fim da tarefa2 e desta escuma tomo os negros1 para fazerem sua garapa1 que he a bebida1 de que mais gosto1 e com que resgato de outros seus parceiros1 farinha1 bananas1 aipins1 e feijes2 guardando-a em potes at perder a doura1 e azedar-se2 porque ento dizem que est em seu ponto para se beber3 oxal com medida1 e no at se embriagarem4 ,a derradeira escuma da ultima meladura1 que he a ultima purificao do caldo1 chamo claros1 e estes misturados com agua fria1 so huma regalada bebida para refrescar1 e tirar a sede nas horas1 em que faz maior calma4 ,finalmente1 tanto que o mestre do assucar julgar que a meladura est limpa1 o caldeireiro com huma pomba bota o caldo1 a que j chamo mel1 no parol grande1 que chamo parol do melado1 e est fra do fogo1 mas junto mesma caldeira2 donde o coo para outro parol mais pequeno1 que chamo parol de coar1 com panos coadores estendidos sobre huma grade4 ,e para que no caia alguma parte delle na passagem de hum parol para outro1 e se perca1 boto-lhe huma telha de frma de purgar1 que com o seu arco1 e volta a barca aos beios de ambos os paroes1 por onde corre o caldo1 que cahe no passar da pomba1 e vai dar em hum1 ou em outro parol3 e desta sorte nem huma s pinga se perde daquelle doce licr3 que bastante suor1 sangue1 e lagrimas custa para se ajuntar4 ,,capitulo ,,xi4 ,do modo de cozer1 e bater o melado nas taxas4 ,estando j o caldo purificado1 e coado passa a cozer-se nas taxas1 ajudadas de maior fogo1 e chamma da que ho mister as caldeiras1 com tanto que os fundos tenho a grossura bastante1 para resistir maior novidade1 que neste lugar se requer4 ,e se o melado se levantar de sorte1 que ameace transbordar2 botando-lhe hum pouco de sebo1 logo amaina1 e se calla4 ,o que talvez tambem faria huma boa razo1 se houvesse quem a suggerisse no tempo1 em que a indagao quer sahir fra dos seus limites4 ,dizem que se se botasse qualquer licr azedo nas caldeiras1 ou nas taxas1 como verbi grati1 umo de limo1 ou outro semilhante2 o melado nunca se poderia coalhar1 nem condensar1 como se pretende3 e allego casos seguidos4 ,porm isto no parece ser certo1 fallando de qualquer casta de licr azedo1 seno do de limo3 porque j houve quem botou no caldo caxaa azeda em quantidade bastante1 ou por fazer pea1 ou por enfado1 e impaciencia2 e comtudo coalhou muito bem a seu tempo4 ,s de alguns animos se verifica1 que por hum leve desgosto boto a perder hum grande cumulo1 e no de quaesquer beneficios4 ,o certo he1 que em passando o melado1 ou mel para as taxas1 pede maior vigilancia1 e atteno dos taxeiros1 banqueiros1 e soto-banqueiro1 e mestre3 porque este propriamente he o lugar em que obra como mestre intelligente1 e aonde he necessario todo o cuidado1 e artificio4 ,passando pois o melado do parol de coar para o terno das taxas1 corre por cada huma dellas ordenadamente2 e para em cada huma1 quanto fr necessario1 e no mais1 para o fim1 que em cada qual se pretende4 ,na primeira taxa1 que se chama a de receber1 ferve1 e comea a cozer-se1 e se lhe tiro as escumas mais finas1 que chamo netas1 e se boto com huma pequena escumadeira em huma frma1 que ahi est posta1 e se as quizerem aproveitar1 como he bem1 far della no fim da sismaria hum po de assucar somenos3 porque esta escuma no torna taxa1 como torna a do caldo s caldeiras4 ,da taxa de receber1 aonde est pouco tempo1 passa-se o melado com huma passadeira de cobre 7que he do feitio de huma pomba pequena7 para a segunda taxa1 que chamo da porta3 e aqui continuando a ferver1 e engrossar1 se lanar de si para a borda alguma immundice1 tira-se1 e alimpa-se ao redor com hum vasculho1 que he como hum pincel1 ou escova de embira1 amarrado na ponta de huma vara1 e nesta taxa se deixa estar mais tempo at ficar j meio cozido4 ,daqui com a mesma passadeira1 se bota na terceira taxa1 que chamo de cozer3 porque ainda que nas outras tambem se coza3 comtudo aqui acaba-se de cozer1 e de se condensar perfeitamente1 at estar em seu ponto1 para se bater3 e isto o hade julgar o mestre1 ou em seu lugar o banqueiro1 pelo corpo1 e grossura1 que tem4 ,e estando desta sorte1 chama-se mel em ponto1 grosso sufficientemente1 e compacto1 e j disposto para passar quarta taxa1 que chamo taxa de bater1 aonde se mexe com huma batedeira1 que he semelhante escumadeira1 mas com beio1 e sem furos1 e bate-se1 para se no queimar3 e quando o tem bem batido1 e com bastante cozimento1 o levanto com a mesma batedeira sobre o taxo ao alto1 que pde ser3 e a isso chamo desafogar1 no que os taxeiros mostro destreza singular3 e continuo assim1 mais ou menos1 conforme pedem as tres temperas1 que se ho de fazer do assucar1 que hade ir para as frmas4 ,das quaes temperas1 por serem to necessarias1 e differentes1 ser bom fallar no capitulo seguinte4 ,,capitulo ,,xii4 ,das tres temperas do melado1 e sua justa repartio pelas frmas4 ,antes de passar o melado para as frmas1 estando ainda na taxa de bater1 se hade ajustar o cozimento s temperas1 que pede a lei de bem repartir4 ,e tres so ellas1 e entre si differentes1 e cada huma leva cozimento diverso4 ,assim por diversos modos1 e com repetidas razes1 procuramos temperar os animos alterados de qualquer paixo vehemente4 ,chama-se a primeira tempera de principiar1 ou tempera de bacia3 a qual consta de mel solto1 porque tem menos cozimento2 e he o primeiro que se tira da taxa de bater logo no principio1 e se bota em huma bacia fra do fogo a par das taxas com a batedeira1 aonde se meche com espatula1 ou com reminhol virado com a boca para baixo4 ,e tendo j o banqueiro1 ou o ajuda-banqueiro apparelhado quatro1 ou cinco frmas no tendal1 dentro de humas covas de bagao1 com seu buraco fechado1 e igualmente altas1 s quaes chamo venda2 se passa esta tempera com reminhol dentro de huma repartideira1 e a reparte pelas ditas quatro1 ou cinco frmas1 o banqueiro1 ou o ajuda-banqueiro1 ou algum taxeiro1 porm com ordem do mestre2 botando igualmente em cada huma dellas a sua poro de sorte que fique lugar1 para receber as outras duas temperas1 que logo se ho de seguir4 ,a segunda chama-se tempera de igualar3 e tem maior cozimento2 porque o mel1 que traz1 esteve mais tempo na taxa de bater1 e ahi mexido1 e engrossado foi mais batido4 ,e esta tambem tirada da taxa1 e posta1 e mexida com reminhol na bacia1 para as ditas quatro frmas na repartideira1 e com igual poro se reparte por ellas1 aonde com espatulas se mexe mais que a primeira4 ,segue-se por ultimo a terceira1 que chamo tempera de encher2 a qual tem j todo o cozimento1 e grossura necessaria3 e com ella passada para a bacia1 e mexida ainda mais com reminhol1 e levada na repartideira para o tendal1 se enchem as frmas1 continuando com a espatula a mexer nellas todas as tres temperas1 de sorte que perfeitamente se encorporem1 e de tres se faa hum s corpo4 ,este beneficio he to necessario2 que sem elle o assucar posto nas ditas frmas1 no se poderia depois branquear1 e purgar4 ,porque se se botasse nas frmas s a tempera1 que tem cozimento perfeito2 coalharia1 e se condensaria de tal sorte1 que no poderia passar por elle a agua1 que o hade lavar1 depois de ser barreado4 ,e se a tempera fosse totalmente solta1 escorreria todo o assucar das frmas na casa de purgar1 e se desfaria todo em mel4 ,e assim com a mistura das tres temperas se coalha de tal sorte1 que fica lugar a agua de passar pouco a pouco1 conservando-se o assucar denso1 e forte2 e recebe o beneficio de branquear1 sem o prejuizo de se derreter1 seno quanto basta para perfeitamente se purgar4 ,e achar este meio1 com acertar bem nas temperas1 he a melhor industria1 e artificio do mestre3 assim como esta he a maior difficuldade no exercicio das virtudes1 que esto no meio de dous extremos viciosos4 ,o melado1 que se d em pratos1 e vasilhas para comer1 he o da primeira1 e segunda tempera4 ,do da terceira bem batido na repartideira se fazem as rapaduras to desejadas dos meninos3 e vem a ser melado coalhado sobre hum quarto de papel1 com todas as quatro partes levantadas1 como se fazem paredes1 dentro das quaes endurece esfriando-se1 de comprimento e largura da palma da mo4 ,e bem aventurado o rapaz1 que chega a ter hum par dellas1 fazendo-se de mais boa vontade lambedor destes dous papeis1 do que escrivo no que lhes do para trasladar alphabetos4 ,com isto se entender donde nasce o ter esta doce droga tantos nomes diversos1 antes de lograr o mais nobre1 e o mais perfeito do assucar2 porque conforme o seu principio1 melhoria1 e perfeio1 e conforme os estados diversos1 pelos quaes passa1 vai tambem mudando de nomes4 ,e assim na moenda chama-se umo de canna3 nos paroes do engenho at entrar na caldeira do meio1 caldo3 nesta1 caldo fervido3 na caldeira de melar1 clarificado3 na bacia1 coado3 nas taxas1 melado3 ultimamente tempera3 e nas frmas assucar3 de cujas diversas qualidades fallaremos quando chegarmos a v-lo posto nas caixas4 ,os claros1 ou ultima escuma das meladuras1 que como temos dito1 servem para a garapa dos negros1 se lhes reparte alternadamente por esta ordem4 ,no fim de huma tarefa se do aos que assistem nas casas das caldeiras1 e nas fornalhas3 no fim de outra tarefa se do s escravas1 que trabalho na casa da moenda3 e depois desta se do aos que busco caranguejos1 e mariscos1 para se repartirem3 e aos barqueiros que trazem a canna1 e a lenha ao engenho4 ,e se sempre se repete a distribuio com a mesma ordem1 para que todos os que sentem o peso do trabalho1 cheguem tambem a ter o seu pote1 que he a medida1 com que se reparte este seu desejado nectar1 e ambrosia4 ,quando se manda parar1 ou pejar o engenho aos domingos1 e dias santos1 tira-se dos fundos das taxas1 com huma picadeira de ferro1 o melado1 que ficou nelles grudado2 porque com este no poderio esfriar-se1 e alm disto se lhes bota agua1 para que se no queimem os cobres2 e serve juntamente para os lavar2 e assim se deixo as ditas taxas1 at entrar nellas o mel1 que se hade cozer4 ,,livro ,,terceiro4 ,,capitulo ,,primeiro4 ,das frmas do assucar1 e sua passagem do tendal para a casa de purgar4 ,so as frmas do assucar huns vasos de barro queimado na fornalha das telhas1 e tem alguma semelhana com os sinos1 altas tres palmos e meio1 e proporcionadamente largas1 com a maior circumferencia na boca1 e mais apertadas no fim1 aonde so furadas para se lavarem1 e purgar o assucar por este buraco4 ,vendio-se por quatro vintens1 salvo se a falta dellas1 e o descuido de as procurar a seu tempo lhes accrescentasse o valor4 ,o serem de ruim barro1 e mal queimadas1 he defeito notavel1 como tambem o serem pequenas4 ,as boas so capazes de dar pes de tres arrobas e meia4 ,tem na casa das caldeiras seu tendal cheio de bagao de canna1 que vem da bagaceira1 o qual cavado com hum cavador de ferro1 ou de po1 serve de cama1 ou cova1 para nelle se assentarem as fornalhas direitas em duas fileiras iguaes2 e como temos dito acima1 de cada quatro1 ou cinco frmas consta huma venda4 ,antes de botar nellas o assucar1 se lhes tapa o buraco1 que tem no fundo1 com seus tacos de folha de banana1 e se asseguro com arcos de cip1 e canna brava1 para que com a demasiada quantidade do assucar no arrebentem4 ,logo se lhes bota o assucar por temperas1 como j temos dito2 o qual no espao de tres dias endurece diversamente1 hum mais1 outro menos3 e ao que mais se endurece1 e difficultosamente se quebra1 chamo assucar de cara fechada1 e ao que facilmente com qualquer pancada se quebra1 chamo assucar de cara quebrada4 ,metaphoras1 que tambem exprimem as diversas naturezas1 e condies dos homens3 huns to vidrentos2 outros to tolerantes4 ,e de ser bom1 ou mo o assucar1 depende o fazer as vendas de mais1 ou menos frmas4 ,porque para o bom1 que coalha de pressa1 basta tomar quatro frmas3 e para o que coalha mais de vagar basta seis1 sete1 ou oito frmas1 para que crie com o maior tempo1 que he necessrio para as encher todas mais gro4 ,dahi passa s costas dos negros1 ou sobre paviolas para a casa de purgar da qual logo fallaremos4 ,faz hum engenho real de dous ternos de taxas1 se a canna render bem1 cada semana solteira perto1 e passante de duzentos pes de assucar3 mas se no render1 apenas d cento1 e vinte4 ,e o render pouco1 nasce de ser a canna muito velha1 ou de ser muito aguacenta1 prova bem clara de serem os extremos1 quaesquer que sejo1 viciosos4 ,,capitulo ,,ii4 ,da casa de purgar o assucar nas frmas4 ,a casa de purgar he commummente separada do edificio do engenho3 e a melhor de quantas ha no reconcavo da ,bahia1 he sem duvida a do engenho de ,sergipe do ,conde1 fabricada de pedra1 e cal1 emmadeirada com pos de massarandba1 e coberta com todo o aceio de telhas1 de comprimento de quatrocentos1 e quarenta1 e seis palmos1 e oitenta1 e seis de largura1 dividida em tres carreiras de andainas1 com vinte1 e seis pilares de tijolo no meio1 altos quinze palmos1 e meio1 e largos quatro1 para sustentarem o tecto1 que assenta ao redor sobre paredes largas1 e fortes4 ,recebe esta casa a luz1 e ar necessario por cincoenta1 e duas janellas1 altas oito palmos1 e largas seis1 vinte e tres de cada banda1 tres na fachada com sua porta1 e tres na testada4 ,repartem-se as andainas por quarteis de taboas abertas em redondo sobre pilares de tijolo1 altos da terra sete palmos2 e leva cada taboa dez destas aberturas1 para receber outras tantas frmas2 de sorte1 que por todas so capazes de purgar commodamente no mesmo tempo at a dous mil pes4 ,debaixo das ditas taboas1 assim abertas1 ha outras tantas taboas do mesmo comprimento1 cavadas maneira de regos1 e inclinadas na parte dianteira1 que servem de bicas1 ou correntes1 por onde corre o mel1 que dos buracos das frmas1 em que se purga o assucar1 aos tanques enterrados1 e ha no fim huma fornalha1 para o cozer1 e tornar a fazer delle assucar1 com seu tendal1 capaz de quarenta frmas4 ,ha tambem na entrada mo esquerda da porta huma casinha de madeira1 para nella guardar o assucar1 que sobejou ao encaixar2 e quantos instrumentos so necessarios para barrear1 mascavar1 secar1 e encaixar3 e o primeiro espao da casa de purgar1 capaz de trezentas caixas1 antes de chegar s andainas das frmas1 serve de caixaria mais resguardada1 e segura1 com a porta ao poente1 para que gozando toda a tarde do sol1 defenda com o seu calor ao assucar do maior inimigo1 que tem depois de feito1 e encaixado1 que he a humidade6 ,diante da porta da casa de purgar1 levanta-se sobre seis pilares1 hum alpendre de oitenta1 e dous palmos de comprimento1 e vinte e quatro de largo1 debaixo do qual est o balco de mascavar2 e da outra parte est o cocho1 para amassar o barro1 que se bota nas frmas1 para purgar o assucar3 e mais adiante o balco para o secar1 comprido oitenta palmos1 e largo cincoenta e seis1 sustentado de vinte e cinco pilares de tijolo1 mais alto no meio1 e com bastante inclinao nos lados para excorrer a agua1 que cahir do ,co1 e ser de mais dura4 ,e para isso serve tambem ser feito tambem de po de lei1 a saber2 de massarandba1 de vinhatico1 capaz de setenta toldos1 e de secar no mesmo tempo outros tantos pes de assucar4 ,,capitulo ,,iii4 ,das pessoas1 que se occupo em purgar1 mascavar1 secar1 e encaixar3 e dos instrumentos que para isso so necessarios4 ,aonde no h purgador 7que sempre seria bom t-lo71 preside tambem na casa de purgar o mestre de assucar1 a quem pertence julgar1 como se hade botar o primeiro1 e o segundo barro nas frmas2 quando se hade humedecer1 e borrifar mais ou menos1 conforme a qualidade do assucar2 e quando se hade tirar o barro1 e o assucar das frmas4 ,mas1 ainda que haja purgador distincto com sua soldada2 sempre ser bem1 que este se aconselhe com o mestre1 para obrar com maior acerto1 e que tenho ambos entre si toda a boa correspondencia1 para que fiquem melhor servidos assim o senhor do engenho1 como os lavradores1 e elles mais acreditados em seus officios4 ,preside ao balco de mascavar1 e de secar1 e ao peso1 e ao encaixar do assucar o caixeiro3 e corre por sua conta1 repartir1 e assentar com toda a verdade1 e fidelidade o que cabe a cada qual de sua parte3 pregar1 e marcar as caixas1 e entrega-las a seus donos4 ,trabalho na casa de purgar quatro escravas1 e so as que entaipo1 e boto barro nas frmas do assucar1 e lhe do suas lavagens4 ,no balco de mascavar1 assistem duas negras das mais experimentadas1 que chamo mis de balco2 e com outras o mascavo1 e aparto o inferior do melhor huns negros1 que trazem1 e avento as frmas1 e tiro dellas os pes de assucar1 e o amassador do barro de purgar1 que he tambem outro negro4 ,no balco de secar trabalho as mesmas duas mis com as suas companheiras1 que so at dez1 estendendo os toldos1 e cobrando com toletes as lascas1 e os torres grandes em outros menores a traz dos quebradores dos pes2 e na caixaria ajudo ao caixeiro no peso1 e encaixamento do assucar as negras1 e negros1 que so necessarios2 como tambem no pilar1 igualar1 pregar1 e marcar4 ,os instrumentos1 de que se usa na casa de purgar so furadores de ferro1 para furar os pes em direitura do buraco das frmas3 cavadores tambem de ferro1 para cavar o po no meio da primeira cara1 antes de lhe botar o primeiro1 e o segundo barro2 e macetes1 para o intaipar4 ,no balco de mascavar uso de couros1 para aventar sobre elles as frmas2 de faces1 e machadinhos1 para mascavar2 e de toletes1 para quebrar o assucar mascavado4 ,no balco de secar so necessarios faces1 toletes1 e rodos1 e o po quebrador de quatro lados de costa para quebrar os pes de assucar4 ,no peso1 balanas1 pesos de duas arrobas1 e outros menores1 com o da tara2 pas1 e passacs4 ,na caixaria1 piles1 rodo1 po de assentar1 ao qual huns chamo moleque de assentar1 e outros juiz2 enxo1 verrumas1 martelos1 e pregos2 p de cabra1 para tirar pregos das caixas2 e o gastalho1 que serve para unir as taboas raxadas1 ou abertas1 mettendo suas cunhas entre os lados das taboas1 e os dentes ou buracos do gastalho1 que a abraa por cima1 e desce pelas ilhargas2 e as marcas de ferro1 com que se marca1 e declara a quantidade do assucar1 o numero das arrobas1 e o signal do engenho1 em que se fez1 e encaixou4 ,e desta sorte1 qualquer arte se vale de seus instrumentos1 para facilitar o trabalho1 e sahir com suas obras perfeitas1 o que sem elles no poderia alcanar1 nem esperar4 ,,capitulo ,,iv4 ,do barro1 que se bota nas frmas do assucar3 qual deve ser1 e como se hade amassar3 e se he bom ter no engenho olaria4 ,o barro1 com que se purga o assucar1 tira-se dos apics1 que como temos dito1 so as coras1 que faz o mar entre si1 e a terra firme1 e as cobre a mar4 ,vem este em barcos1 canas1 ou balas1 que so duas canas juntas com pos atravessados1 e sobre elles taboas1 nas quaes se amontoa o barro4 ,chegado ao engenho1 pe-se em lugar separado1 e dahi passa a secar-se dentro das fornalhas1 sobre hum andar de pos segurado com esteios1 que chamo giro1 sobre o cinzeiro1 quando tem seu borralho1 que he a cinza misturada com brazas4 ,e ainda que se seque em quinze dias2 com tudo ahi se deixa1 tomando a seu tempo a quantidade1 que fr necessaria1 para barrear as frmas j cheias1 como se dir em seu lugar4 ,seco se desfaz com macetes1 que so pos para pisar2 e dahi se bota em huma cana velha1 ou cocho grande de po1 e se vai desfazendo com agua1 movendo-o1 e amassando com seu rodo o negro amassador1 que se occupa neste triste trabalho2 pois os outros escravos1 que corto e trazem canna1 e os que na moenda1 nas caldeiras1 nas taxas1 na casa de purgar1 e nos balces1 sempre tem em que petiscar3 e s este miseravel1 e os que mettem lenha nas fornalhas1 passo em seco4 ,e ainda que depois todos tenho sua parte na repartio da garapa2 comtudo sentem muito o trabalho sem este limitado alivio entre dia4 ,mas no falto parceiros1 que se compadeo de sua sorte1 dando-lhes j huma canna1 j hum pouco de mel1 ou de assucar3 e quando faltasse nos outros a compaixo3 no faltaria a elles a industria para buscarem seu remedio1 tirando donde quer quanto podem4 ,o signal de estar bem amassado o barro1 he no ter j godilhes1 que so huns torrosinhos ainda no desfeitos3 e ento est em seu ponto1 quando botando-lhe hum pedao de telha1 ou hum caco de frma1 se sustem na superficie1 sem ir ao fundo4 ,do cocho se tira com huma cuia1 e se bota em taxos de cobre1 e nelles o levo para a casa de purgar3 aonde com hum reminhol de cobre se tira dos taxos1 e se reparte pelas frmas1 quando fr tempo1 do modo que se dir mais abaixo4 ,ter olaria no engenho1 huns dizem1 que escusa maiores gastos1 porque sempre no engenho1 h necessidade de frmas1 tijolo1 e telha4 ,porm outros entendem o contrario3 porque a fornalha da olaria gasta muita lenha de armar-se1 e muita de caldear3 a de caldear hade ser de mangues3 os quaes tirados1 so a destruio do marisco1 que he o remedio dos negros4 ,e alm disto a olaria quer servio de seis1 ou sete peas1 que melhor se emprego no cannaveal1 ou no engenho3 quer oleiro com soldada1 roda1 e apparelho3 e quer apics1 ou barreiro1 donde se tire bom barro3 e tudo isto pede muito gasto1 e com muito menos se compro as frmas1 e as telhas1 que so necessarias4 ,o melhor conselho he metter hum crioulo em alguma olaria3 porque este ganha a metade do que faz2 e em hum anno chega a fazer tres mil frmas1 das quaes o senhor se pde valer com pouco dispendio4 ,tendo porm o senhor do engenho muita gente1 lenha1 e mangues para mariscar de sobejo2 poder tambem ter olaria1 e servir esta officina para grandeza1 utilidade1 e commodidade do engenho4 ,,capitulo ,v4 ,do modo de purgar o assucar nas frmas3 e de todo o beneficio1 que se lhes faz na casa de purgar at se tirar4 ,entrando as frmas na casa de purgar1 se deito sobre as andainas1 e se lhes tira o taco1 que lhes mettro no tendal3 e logo com hum furador agudo de ferro1 de comprimento de dous palmos e meio1 se furo os pes fora de pancadas1 usando para isso do macete3 e furados se levanto1 e endireito as frmas sobre as taboas1 que chamo de furos1 e entrando por elles quanto basta para se susterem seguras3 e assim se deixo por quinze dias sem barro1 comeando logo a purgar1 e pingando pelo buraco que tem1 o primeiro mel3 o qual recebido debaixo nas bicas1 corre at dar no seu tanque4 ,este mel he inferior1 e d-se no tempo do inverno aos escravos do engenho1 repartindo a cada qual cada semana hum taxo1 e dous a cada casal1 que he o melhor mimo1 e o melhor remedio1 que tem4 ,outros porm o torno a cozer1 ou o vendem para isso aos que fazem delle o assucar branco batido1 ou estillo aguardente4 ,passados os quinze dias1 dahi por diante se pde barrear seguramente3 o que se faz deste modo4 ,cavo primeiro as quatro escravas purgadeiras com cavadores de ferro no meio da cara da frma 7que he a parte superior7 o assucar j seco2 e logo o torno a igualar1 e entaipar muito bem com macetes3 boto-lhe ento o primeiro barro1 tirando-o com hum reminhol dos taxos1 que viro cheios delle do seu cocho1 estando j amassado em sua conta2 e com a palma da mo o extendem sobre toda a cara da frma1 alto dous dedos4 ,ao segundo1 ou terceiro dia1 boto em riba do mesmo barro meio reminhol1 ou huma cuia1 e meia de agua3 e para que no caia no barro de pancada1 e cahindo faa covas no assucar2 recebem sobre a mo esquerda1 chegada ao barro1 a agua1 que boto com a direita igualmente sobre toda a superficie2 e logo com a palma da mo direita mechem levemente ao barro1 de sorte que com os dedos no cheguem a bolir na cara do assucar4 ,e a este beneficio chamo humedecer1 borrifar1 e dar lavagens1 ou tambem dar humidades3 e destas o primeiro barro no leva mais que huma2 e est na frma seis dias1 donde se tira j seco1 e cava-se outra vez o assucar no meio1 como se fez ao principio1 e entaipa-se2 e com a mesma diligencia se lhe bota o segundo barro1 o qual est na frma quinze dias1 e leva1 seis1 sete1 e mais humidades1 conforme a qualidade do assucar3 porque o que he forte1 quer mais humidades1 resistindo agua1 que hade correr por elle purgando-o1 s vezes at nove1 e dez humidades4 ,e se fr fraco1 logo a recebe1 e fica em menos tempo lavado3 mas disto no se alegra o dono do assucar3 porque antes o quizra mais forte1 do que to de pressa purgado4 ,tambem no vero he necessario repetir as lavagens mais vezes1 a saber2 de dous em dous1 ou de tres em tres dias1 conforme o calor do tempo3 advertindo de lhe dar estas lavagens1 antes que o barro chegue a abrir-se em gretas por seco4 ,no tempo do inverno tambem se deixa o primeiro barro seis dias3 e alguns no lhe do outra humidade mais que a que traz comsigo2 principalmente se forem dias de chuva4 ,porm tirado o primeiro1 e posto o segundo1 do-lhe seis1 sete1 e oito humidades1 de tres em tres dias1 conforme a qualidade do assucar1 e conforme obedecer s ditas lavagens4 ,como o assucar vai purgando1 assim se vai branqueando por seus gros1 a saber2 mais na parte superior1 menos na do meio1 pouco na ultima1 e quasi nada nos ps das frmas1 aos quaes chamo cabuchos1 e este menos purgado he o que se chama mascavado4 ,tambem como vai purgando1 vai descendo o barro pouco a pouco dentro da frma3 e se purgar bem de vagar1 descendo s meia mo1 que chamo medida de chave1 e vem a ser desde a raiz do dedo polegar1 at a ponta do dedo mostrador1 a purgao ser boa1 e de rendimento de mais assucar1 e forte1 mas se purgar apressadamente render pouco4 ,o purgar-se mais de pressa1 ou mais de vagar o assucar nas frmas1 nasce1 parte da qualidade da canna boa1 ou m2 e parte do cozimento feito1 e temperado em seu ponto4 ,porque se o cozimento fr mais do que he justo1 ficar o assucar empanturrado1 e nunca se poder purgar bem1 resistindo s lavagens no por forte1 mas por demasiadamente cozido1 e isto se conhecer de no purgar1 e de no descer o barro nas frmas4 ,pelo contrario1 se o assucar levar pouco cozimento e a tempera fr muito solta1 ir pela maior parte desfeito em mel para as correntes4 ,o fazerem os pes de assucar olhos1 isto he1 terem entre o assucar branco vas de mascavado2 huns dizem1 que procede de botar mal as humidades no barro das frmas1 e outros das temperas mais ou menos quentes1 ou desigualmente botadas4 ,o mel1 que cahe das frmas depois de lhes botar barro torna a cozer-se1 e abater-se nas taxas1 que para isso esto destinadas1 com sua bacia1 e se faz delle assucar1 que chamo branco batido2 e d tambem seu mascavado1 que chamo mascavado batido4 ,ou se estilla delle aguardente1 que nunca eu aconselharia ao senhor de engenho2 para no ter huma continua desinquietao na sanzala dos negros3 e para que os seus escravos1 e escravas no sejo com a aguardente mais burrachos do que os faz a cachaa4 ,o primeiro barro1 que se pz na frma alto dous dedos1 quando se tira j seco1 tem s altura de hum dedo1 que he depois de seis dias3 quando se tira o segundo 7que se botou com a mesma altura de dous dedos7 depois de quinze dias1 tem s meio dedo de altura4 ,acabando o assucar de purgar1 paro tambem as lavagens1 e tres1 ou quatro dias depois da ultima1 tira-se o segundo barro j seco2 e depois do barro fra1 do-lhe mais oito dias1 para acabar de enxugar1 e escorrer3 e ento se pde tirar4 ,nem carece de admirao1 o ser o barro1 que de sua natureza he immundo1 instrumento de purgar o assucar com suas lavagens3 assim como com a lembrana do nosso barro1 as almas se purifico1 e branqueo as almas1 que antes ero immundas4 ,,capitulo ,,vi4 ,do modo de tirar1 mascavar1 e secar o assucar4 ,chegado o tempo de tirar o assucar das frmas1 se passar em hum dia muito claro tantas1 quantas pde receber o balco de secar3 e passo s costas dos negros1 ou em paviolas1 da casa de purgar para o balco de mascavar4 ,e quanto ao ser o dia muito claro1 he ponto de grande advertencia3 porque se o assucar se humedecer1 ainda que o tornem a pr ao sol1 nunca mais tornar a ser perfeito1 como era3 assim como o que ficou de hum anno para o outro1 perde de tal sorte o vigor1 e alvura1 que nunca mais a torna a cobrar3 propriedade tambem da pureza1 que huma vez offendida1 nunca torna a ser o que foi4 ,preside a todo este beneficio o caixeiro2 e corre por sua conta1 o que agora direi4 ,ao p do balco1 que chamo de mascavar1 se avento as frmas sobre hum couro2 que vem a ser1 bolir nellas de vagar1 com as bocas viradas para o dito couro1 para que saio bem os pes3 os quaes postos successivamente por hum negro sobre hum toldo1 que est estendido sobre hum balco por mo de huma negra 7a qual chamo mi do balco71 se lhes tira com hum faco todo aquelle assucar mal purgado1 e de cr parda1 que tem na parte inferior1 e isto se diz mascavar1 e ao tal assucar chamo depois mascavado4 ,e entretanto outra sua companheira1 que he das mais praticas1 tira com huma machadinha do mesmo mascavado1 o mais humido1 que chamo p da frma1 ou cabucho1 e este torna para a casa de purgar em outras frmas1 at se acabar de enxugar1 e logo outras negras quebro com toletes os torres do mascavado sobre hum toldo1 que tambem hade ir ao balco de secar4 ,a perfeio dos pes consistem em ter pouco mascavado1 e darem duas arrobas e meia de assucar branco2 que conforme a medida das frmas da ,bahia1 he muito bom rendimento4 ,se quizerem fazer caras de assucar para mimos1 o caixeiro cortar aqui mesmo com hum faco a primeira parte do po1 de sorte que endireitada1 e aplainada tenha huma arroba de peso3 e estas depois de estarem ao sol1 empalho-se ou encouro-se1 e vo para o reino4 ,tambem se quizer fazer lascas1 cortar ao po 7depois de se lhe tirar o mascavado7 em seis1 ou oito partes1 e as endireitar todas de quatro cantos em quadra2 para irem to vistosas1 como doces4 ,e querendo fazer fechos1 ou caixas de encommenda1 escolher da parte do assucar1 que couber a quem as manda fazer1 o mais fino1 que he o das caras das frmas1 at doze arrobas por fecho1 e trinta1 at trinta e cinco por caixa4 ,e do que temos dito at agora se entender bem o que querem dizer estes nomes1 que significo varias reparties do assucar1 a saber3 caixa1 fecho1 po1 cara1 lasca1 torro1 e migalhas2 guardando para outro capitulo o dar noticia de varias qualidades1 e differenas de assucar4 ,passando pois do balco de mascavar1 para o balco de secar1 levo-se em primeiro lugar para elle tantos toldos1 quantos so necessarios para o assucar1 que naquelle dia se hade secar4 ,e se fr de diversos donos1 se conhecer a repartio1 que cabe a cada qual1 pelos toldos continuados na mesma fileira1 se pertencerem ao mesmo2 ou descontinuados1 se forem de diversos senhores3 e o que se diz do assucar branco1 se hade dizer tambem do mascavado1 repartido pelo mesmo estilo nas suas proprias fileiras4 ,isto feito1 levo os pes para os toldos1 e com hum po grande1 e redondo no cabo1 em que se pega1 e no remate do feitio chato1 como huma lana sem ponta 7ao qual chamo quebrador1 ou molete de quebrar7 quebro em quatro partes aos pes1 e cada huma destas em outras quatro3 e logo outros com faces dividem as mesmas em torres2 e estes successivamente se torno a partir com toletes1 em outros torres menores3 e finalmente depois de estarem j por algum tempo ao sol1 acabo-se de quebrar em torrozinhos pequenos4 ,e guarda-se de proposito esta ordem em quebrar o assucar1 para que tendo dentro alguma humidade1 quebrado1 pouco a pouco se interne1 e no se faa logo em migalhas1 ou em p4 ,estando assim extendido1 pego nas pontas dos toldos1 e levantando-as fazem em cada toldo hum monto1 e entretanto aquento-se as taboas1 e os toldos1 e logo torno a abrir aquelles montes com rodos2 e desta sorte as partes1 que ero interiores1 fico expostas ao sol1 e as outras extendidas sobre as pontas dos toldos1 sentem o calor1 que elles1 e as taboas ganhro4 ,espalhado torna-se a mexer com rodos de camboa1 como elles dizem1 a saber2 hum de huma banda1 e outro de outra1 empurrando cada hum de sua parte o assucar1 e puchando por elle por modo opposto1 ao que faz no mesmo toldo o negro fronteiro1 at acabar de secar4 ,e se de repente apparecer alguma nuvem1 que ameace dar chuva1 logo acode toda a gente1 ainda 7se fr necessario7 a que trabalha na moenda2 pejando o engenho1 at se recolher nos mesmos toldos o assucar dentro da casa de encaixar1 ou em outra parte coberta1 e daqui torna outra vez para o balco em outro dia claro1 estando as taboas enxutas4 ,que se o tempo der lugar de enxugar perfeitamente o assucar no mesmo dia no balco1 passar logo 7do modo que agora direi7 ao peso1 e se encaixar com sua regra4 ,,capitulo ,,vii4 ,do peso1 repartio1 e encaixamento do assucar4 ,do balco de secar vai o assucar em toldos ao peso1 estando presente o caixeiro1 que tudo assenta com fidelidade e verdade1 para que se d justamente a cada hum o que he seu4 ,e para isso ha balanas grandes1 de pesos de duas arrobas1 e outros menores de libras1 com o peso tambem da tara do ,passac1 em que vai o assucar ao peso3 usando de p pequena1 para tirar o que sobeja1 ou ajuntar o que falta4 ,e assim como as duas mis do balco ajudo ao peso1 para dar lugar ao caixeiro1 que est assentando o que pesa1 assim dous negros levo o assucar pesado para as caixas enxutas1 e bem apparelhadas1 a saber2 barreadas por dentro nas juntas com barro1 e folhas secas de bananeira sobre o barro2 pondo igualmente tanto assucar na caixa do senhor do engenho1 quanto na caixa do lavrador1 cuja canna se moeu no mesmo engenho1 sendo lavrador de suas proprias terras1 e no das do engenho3 porque1 se as terras forem do engenho1 paga tambem o lavrador vintena ou quinto1 que vem a ser alm da ametade1 de cada cinco pes hum1 ou hum de cada vinte1 conforme o uso das terras3 porque em ,pernambuco paga quinto1 e na ,bahia vintena1 ou quindena1 que vem a ser de quinze hum1 conforme o que se ajustou nos arrendamentos1 por serem as terras j de rendimento1 ou por necessitarem de menos limpas4 ,e assim como se pesa1 e reparte igualmente o branco1 assim se pesa1 e reparte do mesmo modo o mascavado entre o senhor do engenho1 e o lavrador1 que me1 como temos dito1 de meias1 e s fico os meles por em cheio ao senhor do engenho1 por razo dos muitos gastos que faz4 ,tira-se tambem o dizimo1 que se deve a ,deos1 que vem a ser de dez hum3 e este fica no engenho1 e pe-se nas caixas1 que anticipadamente manda o contratador dos dizimos ao caixeiro vazias1 e delle as torna a cobrar cheias4 ,o assucar1 que se bota nas caixas1 ao principio smente se iguala com rodo1 e piles1 e no se pila1 para que se no quebrem as caixas4 ,porm depois de se botar nellas dous1 ou tres pesos1 que vem a ser quatro1 ou seis arrobas1 ento se pila com oito1 ou dez piles1 quatro ou cinco de cada banda1 para que assente unido igualmente4 ,e ainda que a derradeira poro do assucar1 que se chama cara da caixa1 he bem que seja do mais escolhido1 comtudo seria grande descredito do engenho1 engano1 e manifesta injustia1 se no meio se botassem batidos1 e na cara assucar mais fino1 para encobrir com o bom o ruim1 e fazer tambem ao assucar hypocrita4 ,acabada de encher a caixa1 iguala-se com rodo1 e com hum po chato1 e grosso1 que huns chamo-lhe moleque de assentar1 outros juiz3 e logo se prega usando de verruma1 pregos1 e martelo1 e do gastalho1 ou gato para apertar alguma taboa rachada1 do modo que acima est dito4 ,leva huma caixa oitenta e seis pregos1 e ultimamente se marca do modo que diremos conforme a differena do assucar1 que agora se hade explicar4 ,,capitulo ,,viii4 ,de varias castas de assucar1 que separadamente se encaixo3 marcas das caixas1 e sua conduco ao trapiche4 ,antes de marcar as caixas1 he necessario fallar de varias castas de assucar1 que separadamente se encaixo2 porque tambem nesta droga ha sua nobreza1 ha casta vil1 ha mistura4 ,ha primeiramente assucar branco1 e mascavado2 o branco toma este nome da cr que tem1 e muito se louva1 e estima no assucar1 mais admiravel1 por quanto se lhe communica do barro4 ,o mascavado de cr parda he o que se tira do fundo das frmas1 a que chamo ps1 ou cabuchos4 ,do branco ha fino1 ha redondo1 e ha baixo1 e todos so assucares machos4 ,o fino he mais alvo1 mais fechado1 e de maior peso1 e tal he ordinariamente a primeira parte1 que chamo cara da frma4 ,o redondo he algum tanto menos alvo1 e menos fechado1 e tal he commummente o da segunda parte da frma3 e digo commummente2 porque no he esta regra infallivel1 podendo acontecer1 que a cara de algumas frmas seja menos alva1 e menos fechada1 que a segunda parte da outra frma4 ,o baixo he ainda menos alvo1 e quasi trigueiro na cr3 e ainda que seja bem fechado e forte1 comtudo por ter menos alvura1 chama-se baixo1 ou inferior4 ,alm destas tres castas de branco1 ha outro1 que chamo branco batido feito do mel1 que escorreu das frmas do macho na casa de purgar1 cozido1 e batido outra vez2 e sahe s vezes to alvo e forte1 como o macho4 ,e assim como ha mascavado macho1 que he o p das frmas do branco batido4 ,o que pinga das frmas do macho1 quando se purga1 chama-se mel1 e o que escorre do batido branco1 chama-se remel4 ,do mel huns fazem aguardente estillando-o3 outros o torno a cozer1 para fazerem batidos1 e outros o vendem a panellas aos que o estillo1 ou cozem3 e o mesmo digo do remel4 ,vista a diversidade dos assucares1 segue-se fallar das marcas1 que se ho de pr com a mesma distinco nas caixas4 ,marco-se as caixas com ferro ardente1 ou com tinta3 e tres so as marcas que hade levar cada caixa1 a saber2 a das arrobas1 a do engenho1 e a do senhor1 ou mercador1 por cuja conta se embarca4 ,a marca de fogo do numero das arrobas se pe em cima na cabea da caixa1 junto ao tampo1 comeando do canto da banda direita1 de tal sorte que abarque juntamente a cabea da caixa1 e o tampo4 ,e isto se faz para que1 se depois abrirem a caixa1 se conhea mais facilmente pelas partes da marca1 que esto na cabea1 e no correspondem s outras partes1 que esto na borda do tampo4 ,a marca do engenho1 tambem de fogo1 se pe na mesma testa da caixa1 junto ao fundo1 no canto da banda direita2 para que se posso averiguar as faltas1 que poderio haver no encaixamento do assucar4 ,porque assim como s vezes nas pipas de breu1 que vem de ,portugal1 se acho pedras breadas1 e nas peas de pano de linho fino por fra1 no meio se acha pano de estopa1 ou menor numero de varas1 que as que aponto na face da pea3 assim se poderio marcar nas caixas menos arrobas das que se aponto na marca2 e1 no meio da caixa1 assucar mascavado por branco1 como tem j acontecido por culpa de algum caixeiro infiel4 ,a marca do senhor do assucar1 ou do mercador1 por cuja conta se embarca1 se fr de fogo1 se pe no meio da dita testa da caixa1 e1 se no fr de fogo1 pe-se no mesmo lugar com tinta o seu nome2 o qual se poder tirar com huma enx1 quando se vender a caixa a outro mercador1 pondo na dita parte o nome de quem a comprou4 ,leva a marca do branco macho hum s ,b41 o branco batido dous ,b4 ,b41 o mascavado macho hum ,m41 o mascavado batido hum ,m41 e hum ,b4 ,a marca verbi grati do engenho de ,sergipe do ,conde leva hum ,s41 da ,pitanga hum ,p4 ,e41 a marca verbi grati do ,collegio da ,companhia de ,jezus leva huma cruz dentro de hum circulo desta figura 9999imagem 4 ,nos engenhos beira-mar1 levo-se as caixas ao porto desta sorte4 ,com rodos e espeques1 passo huma a traz de outra da casa da caixaria para huma carreta1 feita para isso mesmo mais baixa2 e sobre esta se leva cada caixa at ao porto1 puxando pelas cordas os negros de quem a manda embarcar por sua conta4 ,dos engenhos pela terra dentro1 vem cada caixa sobre hum carro com tres1 ou quatro juntas de bois1 conforme as lamas1 que ho de vencer3 e nisto custa caro o descuido2 porque por no as trazerem no tempo do vero1 depois no inverno estafo-se1 e mato-se os bois4 ,do porto passa sobre taboas grossas a pique para o barco2 e1 ao entrar1 ho de ter mo nella com socairo1 para que no caia de pancada1 e padea algum detrimento4 ,no barco se ho de arrumar as caixas muito bem1 para que vo seguras1 nem se metto mais1 antes menos1 das que o barco pde receber1 e levar3 e seja forte1 e bem velejado1 e com arrais pratico das coras1 e pedras1 e com marinheiros no aturdisados de aguardente1 sahindo com bom tempo e mar4 ,do engenho at o trapiche1 ou at a no em que se embarca1 paga cada caixa1 que vem por mar1 huma pataca de frete4 ,ao entrar1 e sahir do trapiche1 meia pataca4 ,no primeiro mez1 quer comeado s1 quer acabado1 ainda que no fossem mais do que dous dias1 paga dous vintens3 nos outros mezes seguintes1 hum vintem cada mez4 ,e se o trapicheiro1 ou o caixeiro do trapiche vender por commisso do dono algum assucar1 ganha huma pataca por cada caixa4 ,e com isto temos levado o assucar do cannaveal1 aonde nasce1 at aos portos do ,brazil1 donde navega para ,portugal1 para se repartir por muitas cidades da ,europa4 ,falta agora dizer alguma cousa dos preos antigos1 e modernos delle1 e das causas1 porque so hoje to excessivos4 ,,capitulo ,,ix4 ,dos preos antigos1 e modernos do assucar4 ,de vinte annos a esta parte mudro-se muito os preos assim do assucar branco1 como do mascavado1 e batido4 ,porque o branco macho1 que se vendia por oito1 nove1 e dez tostes a arroba1 subio depois a doze1 quinze1 e dezaseis1 e ultimamente a dezoito1 vinte1 e vinte dous1 e vinte e quatro tostes1 e depois tornou a dezaseis4 ,os brancos batidos1 que se largavo por sete1 e oito tostes1 subiro a doze1 e a quatorze4 ,o mascavado macho1 que valia cinco tostes1 vendeu-se por dez1 e onze1 e ainda mais4 ,e o mascavado batido1 cujo preo era hum cruzado1 chegou a seis tostes4 ,a necessidade obriga a vender barato1 e a queimar 7como dizem7 o assucar fino1 que tanto custa aos servos1 aos senhores do engenho1 e aos lavradores da canna1 trabalhando e gastando dinheiro4 ,tambem a falta de navios he causa de se no dar por elle o que vale4 ,mas o ter crescido tanto nestes annos o preo do cobre1 ferro1 e pano1 e do mais que necessito os engenhos2 e particularmente o valor dos escravos1 que os no querem largar por menos de cem mil ris1 valendo antes quarenta1 e cincoenta mil ris os melhores2 he a principal causa de haver subido tanto o assucar1 depois de haver moeda provincial1 e nacional1 e depois de descobertas as minas de ouro1 que servro para enriquecer a poucos1 e para destruir a muitos3 sendo as melhores minas do ,brazil os cannaveaes1 e as malhadas em que se planta o tabaco4 ,se se attentar para o valor intrinseco1 que o assucar merece ter pela sua mesma bondade1 no h outra droga1 que o iguale4 ,e se tanto sabe a todos a sua doura1 quando1 o comem1 no h razo1 para que se lhe no d tal valor extrinseco1 quando se compra1 e vende1 assim pelos senhores do engenho1 e pelos mercadores1 como pelo magistrado a quem pertence ajusta-lo2 que possa dar por tanta despeza algum ganho digno de ser estimado4 ,portanto1 se se reduzirem os preos das cousas que vem do ,reino1 e dos escravos que vem da ,angola e costa de ,guin1 a huma moderao competente2 poder tambem tornar os assucares ao preo moderado de dez1 ou doze tostes3 parecendo todos impossivel o poderem continuar de huma e outra parte to demasiados excessos1 sem se perder o ,brazil4 ,,capitulo ,x4 ,do numero das caixas de assucar1 que se fazem cada anno ordinariamente no ,brazil4 ,conto-se no territorio da ,bahia ao presente cento e quarenta e seis engenhos de assucar1 moentes e correntes3 alm dos que se vo fabricando1 huns no reconcavo beira-mar1 e outros pela terra dentro1 que hoje so de maior rendimento4 ,os de ,pernambuco1 posto que menores1 chego a duzentos e quarenta e seis1 e os do ,rio de ,janeiro a cento e trinta e seis4 ,fazem-se hum anno por outro nos engenhos da ,bahia quatorze mil e quinhentas caixas de assucar4 ,destas vo para o ,reino quatorze mil1 a saber1 oito mil de branco macho1 tres mil de mascavado macho1 mil e oitocentas de branco batido1 mil e duzentas de mascavado batido3 e quinhentas de varias castas se gasto na terra4 ,as que se fazem nos engenhos de ,pernambuco1 hum anno por outro1 so doze mil e trezentas4 ,vo doze mil e cem para o ,reino1 a saber2 sete mil de branco macho1 duas mil e seiscentas de mascavado macho1 mil e quatrocentas de branco batido1 mil e cem de mascavado batido3 e gasto-se na terra duzentas de varias castas4 ,no ,rio de ,janeiro fazem-se hum anno por outro dez mil e duzentas e vinte4 ,as dez mil e cem vo para o ,reino1 a saber2 cinco mil e seiscentas de branco macho1 duas mil e quinhentas de mascavado macho1 mil e duzentas de branco batido1 oitocentas de mascavado batido1 e fico na terra cento e vinte de varias castas1 para o gasto della4 ,e juntas todas estas caixas de assucar1 que se fazem hum anno por outro no ,brazil1 vem a ser trinta e sete mil e vinte caixas4 ,,capitulo ,,xi4 ,que custa huma caixa de assucar de trinta1 a cincoenta arrobas1 posta na alfandega de ,lisboa1 e j despachada3 e do valor de todo o assucar que cada anno se faz no ,brazil4 ,do rol1 que se segue1 constar primeiramente com exacta distinco o custo1 que faz huma caixa de assucar branco macho de trinta e cinco arrobas1 desde que se levanta em qualquer engenho da ,bahia1 at se pr na alfandega de ,lisboa1 e pela porta della fra1 e logo o que custa huma de mascavado macho1 huma de branco batido1 e huma de mascavado batido4 ,em segundo lugar o resumo do valor de todo o assucar1 que cada anno se faz nas safras da ,bahia1 ,pernambuco1 e ,rio de ,janeiro4 ,custos de huma caixa de assucar branco macho de trinta e cinco arrobas4 ,pelo caixo no engenho ao menos #abjj ,por se levantar o dito caixo #ej ,por #hf pregos para o dito caixo #cb ,por #ce arrobas de assucar a #afjj ris #efjjj ,por carreto beira-mar #bjjj ,por carreto do porto do ,marat ao trapiche #cbj ,por guindaste no trapiche #hj ,por entrada no mesmo trapiche #hj ,por aluguer do mez no dito trapiche #bj ,por se botar fra do trapiche #afj ,por direitos do subsidio da terra #cjj ,por direito para o forte do mar #hj ,por frete do navio #aaebj ,por descarga em ,lisboa para alfandega #bjj ,por guindaste na ponte da alfandega #dj ,por se recolher da ponte para o armazem #fj ,por se guardar na alfandega #ej ,por cascavel de arquear por cada arco #hj ,por obras1 taras1 e marcas #fj ,por avaliao1 e direitos grandes a #hjj ris1 e a #bj por cento #efjj ,por consulado a #c por cento #hdj ,por comboy a #adj ris por arroba #dijj ,por maioria #fjj ------ ,o que tudo importa em ,rs4 #hdefj ,custos de huma caixa de assucar mascavado macho de trinta e cinco arrobas4 ,por #ce arrobas do dito assucar a #ajjj ris #cejjj ,por avaliao1 e direitos a #dej ris1 e #bj por cento #caej ,por consulado a #c por cento #dgb ,por todos os mais gastos #bbabj ------ ,o que tudo importa em ,rs4 #fjgdb ,custos de huma caixa de assucar branco batido de trinta e cinco arrobas4 ,por #ce arrobas do mesmo assucar a #abjj ris #dbjjj ,por avaliao1 e direitos a #fjj ris1 e a #bj por cento #dgbj ,por consulado a #c por cento #fdh ,por todos os mais gastos #bbabj ------ ,o que tudo importa em ,rs4 #fidhh ,custos de huma caixa de assucar mascavado batido de trinta e cinco arrobas4 ,por #ce arrobas do dito assucar a #fdj ris #bbdjj ,por avaliao1 e direitos a #cjj ris1 e #bj por cento4 #bajj ,por consulado a #c por cento #cae ,por todos os mais gastos #bbabj ------ ,o que tudo importa em ,rs4 #dfice ,caixas de assucar1 que ordinariamente se tiro cada anno da ,bahia3 e o que importa o valor dellas a #ce arrobas4 ,por #h1jjj caixas de branco macho a #hdefj ris #fgf3dhjjjj ,por #c1jjj caixas de mascavado branco a #fjgdb ris #ahb3bbfjjj ,por #a1hjj caixas de branco batido a #fidhh ris #abe3jghdjj ,por #a1bjj caixas de mascavado batido a #dfice ris #ef3cbbjjj ,por #ejj caixas que se gasto na terra a #fjbjj ris #cj3ajjjjj ------------- ,so #ad1ejj caixas que importo em ,rs4 #a1jgj3bjfdjj ,caixas de assucar1 que ordinariamente se tiro cada anno de ,pernambuco1 e o que importa o valor dellas a #ce arrobas4 ,por #g1jjj caixas de branco macho a #ghdbj ris #edh3idjjjj ,por #b1fjj caixas de assucar mascavado macho a #edejj ris #ada3gjjjjj ,por #a1djj caixas de branco batido a #fcbjj ris #hh3dhjjjj ,por #a1ajj caixas de mascavado batido a #cihjj ris #dc3ghjjjj ,por #bjj caixas que se gasto na terra a #efbjj ris #aa3bdjjjj ----------- ,so #ab1cjj caixas1 e importo em ,rs4 #hcd3adjjjj ,caixas de assucar que ordinariamente se tiro cada anno do ,rio de ,janeiro1 e o que importa o valor dellas a #ce arrobas4 ,por #e1fjj caixas de branco macho a #gbcdj ris #dje3ajdjjj ,por #b1ejj caixas de mascavo macho a #dhbbj ris #abj3eejjjj ,por #a1bjj caixas de branco batido a #eifdj ris #ga3efhjjj ,por #hjj caixas de mascavo batido a #cdabj ris #bg3bifjjj ,por #abj caixas para o gasto da terra a #ebcbj ris #f3bghdjj ----------- ,so #aj1bbj caixas1 e importo em ,rs4 #fcj3gifdjj ,resumo do que importa todo o assucar4 ,o da ,bahia #a1jgj3bjfdjj ,o de ,pernambuco #hcd3adjjjj ,o do ,rio de ,janeiro #fcj3gifdjj ------------- ,somma tudo em ,rs4 #b1ece3adbhjj ,,capitulo ,,xii4 ,do que padece o assucar desde o seu nascimento na canna at sahir do ,brazil4 ,he reparo singular dos que contemplo as cousas naturaes1 ver que as que so de maior proveito ao genero humano1 no se reduzem sua perfeio sem passarem primeiro por notaveis apertos3 e isto se v bem na ,europa no pano de linho1 no po1 no azeite e no vinho1 fructos da terra to necessarios1 enterrados1 arrastados1 pizados1 expremidos1 e moidos antes de chegarem a ser perfeitamente o que so4 ,e ns muito mais o vmos na fabrica do assucar1 o qual desde o primeiro instante de se plantar1 at chegar s mesas1 e passar entre os dentes a sepultar-se no estomago dos que o comem1 leva huma vida cheia de taes e tantos martyrios1 que os que inventro os tyrannos1 lhes no ganho vantagem4 ,porque se a terra1 obedecendo ao ,imperio do ,creador1 deu liberalmente canna1 para regalar com a sua doura aos paladares dos homens2 estes1 desejozos de multiplicar em si deleites e gostos1 inventro contra a mesma canna1 com seus artificios1 mais de cem instrumentos1 para lhe multiplicarem tormentos e penas4 ,por isso primeiramente fazem em pedaos as que planto1 e as sepulto assim cortadas na terra4 ,mas ellas tornando logo quasi milagrosamente a resuscitar1 que no padecem dos que as vem sahir com novo alento1 e vigor8 ,j abocanhadas de varios animaes2 j pizadas das bestas1 j derrubadas do vento2 e em fim descabeadas e cortadas com fouces4 ,sahem do cannaveal amarradas3 e oh quantas vezes antes de sahirem dahi1 so vendidas6 ,levo-se assim presas1 ou nos carros1 ou nos barcos vista das outras1 filhas da mesma terra1 como os ros que vo algemados para a cadeia1 ou para o lugar do supplicio padecendo em si confuso1 e dando muitos terror4 ,chegadas moenda1 com que fora e aperto1 postas entre os eixos1 so obrigadas a dar quanto tem de sustancia8 ,com que desprezo se lano seus corpos esmagados1 e despedaados ao mar8 ,com que impiedade se queimo sem compaixo no bagao8 ,arrasta-se pelas bicas quanto humor sahio de suas vas1 e quanta substancia tinho nos ossos3 tratea-se1 e suspende-se na guinda3 vai a ferver nas caldeiras1 borrifado 7para maior pena7 dos negros com decoada3 feito quasi lama no cocho1 para fartar s bestas e aos porcos2 sahe do parol escumando1 e se lhe imputa a bebedice dos burrachos4 ,quantas vezes o vo virando1 e agitando com escumadeiras medonhas8 ,quantas1 depois de passado por assadores1 o batem com batedeiras1 experimentando elle de taxa em taxa o fogo mais vehemente2 s vezes quasi queimado2 e s vezes desafogueado algum tanto1 s para que chegue a padecer mais tormentos8 ,crescem as bateduras nas temperas3 multiplica-se a agitao com as espatulas3 deixa-se esfriar como morto nas frmas3 leva-se para a casa de purgar sem terem contra elle hum minimo indicio de crime2 e nella chora furado1 e ferido a sua to malograda doura4 ,aqui do-lhe com barro na cara3 e para maior ludibrio1 at as escravas lhe boto sobre o barro sujo as lavagens4 ,correm suas lagrimas1 por tantos rios1 quantas so as bicas1 que as recebem2 e tantas so ellas1 que basto para encher tanques profundos4 ,oh crueldade nunca vista8 ,as mesmas lagrimas do innocente se poem a ferver1 e a bater de novo nas taxas3 as mesmas lagrimas se estallo fora do fogo em lambique3 e quando mais chora sua sorte1 ento torno a dar-lhe na cara com barro1 e torno as escravas a lanar-lhe em rosto as lavagens4 ,sahe desta sorte de purgatorio1 e do carcere1 to alvo1 como innocente2 e sobre hum baixo balco se entrega a outras mulheres1 para que lhes cortem os ps com faces3 e estas no contentes do lhos cortarem1 em companhia de outras escravas1 armadas de toletes1 folgo de lhes fazer os mesmos ps em migalhas4 ,dahi passa ao ultimo theatro de seus tormentos1 que he outro balco maior1 e mais alto2 aonde exposto a quem o queira maltratar1 experimenta o furor de toda a gente sentida1 e enfadada do muito que trabalhou andando a traz delle3 e por isso partido com quebradores1 cortado com faces1 despedaado com toletes1 arrastado com rodos1 pisado dos ps dos negros sem compaixo1 farta a crueldade de tantos algozes1 quantos so os que querem subir ao balco4 ,examina-se por remate na balana do maior rigor o que pesa1 depois de feito em migalhas3 mas os seus tormentos gravissimos1 assim como no tem conta1 assim no ha quem possa bastantemente pondera-los1 ou descrev-los4 ,cuidava eu1 que depois de reduzido elle a este estado to lastimoso1 o deixassem3 mas vejo1 que sepultado em huma caixa1 no se farto de o pisarem com piles1 nem de lhe darem na cara1 j feita com hum po4 ,prego-no finalmente1 e marco com fogo ao sepulcro1 em que jaz3 e assim pregado1 e sepultado1 torna por muitas vezes a ser vendido1 e revendido1 preso1 confiscado1 e arrastado3 se se livra das prises do porto1 no se livra das tormentas do mar1 nem do degredo1 com imposies1 e tributos1 to seguro de ser comprado1 e vendido entre christos1 como arriscado a ser levado para ,argel entre ,mouros4 ,e ainda assim1 sempre doce1 e vencedor de amarguras1 vai a dar gosto ao paladar dos seus inimigos nos banquetes1 saude nas mezinhas aos enfermos1 e grandes lucros ao senhor de engenho1 e aos lavradores1 que o perseguro1 e aos mercadores que o comprro1 e o levro degradado1 nos portos2 e muito maiores emolumentos fazenda real nas alfandegas4 ,,segunda ,,parte4 ,,cultura1 ,e ,,opulencia ,,do ,,brazil ,,na ,,lavra ,,do ,,tabaco4 ,,capitulo ,,primeiro4 ,como se comeou a tratar no ,brazil da planta do tabaco3 e a que estimao tem chegado4 ,se o assucar do ,brazil o tem dado a conhecer1 a todos os reinos1 e provincias da ,europa2 o tabaco o tem feito muito mais afamado em todas as quatro partes do mundo3 em as quaes hoje tanto se deseja1 e com tantas diligencias1 e por qualquer via se procura4 ,ha pouco mais de cem annos1 que esta folha se comeou a plantar1 e beneficiar na ,bahia3 e vendo o primeiro1 que a plantou1 o lucro1 posto que moderado1 que ento lhe dro humas poucas arrobas1 mandadas com pequena esperana de algum retorno a ,lisboa1 animou-se a plantar mais1 no tanto por cobia de negociante1 quanto por se lhe pedir dos seus correspondentes1 e amigos1 que a repartio por preo accommodado1 porm jamais levantado4 ,at que imitado dos visinhos1 que com ambio a plantro1 e enviro em maior quantidade3 e depois de grande parte dos moradores dos campos1 que chamo da ,cachoeira1 e de outros do serto da ,bahia3 passou pouco a pouco a ser hum dos generos de maior estimao1 que hoje sahe desta ,america ,meridional para o reino de ,portugal1 e para os outros reinos1 e republicas de naes extranhas4 ,e desta sorte huma folha de antes desprezada1 e quasi desconhecida1 tem dado1 e d actualmente grandes cabedaes aos moradores do ,brazil1 e incriveis emolumentos aos erarios dos principes4 ,desta pois fallaremos agora1 mostrando primeiramente como se semea1 e planta3 como se alimpa1 e colhe2 como se beneficia1 e cura3 como se enrola1 e despacha na alfandega4 ,segundo3 como se pisa1 e se lhe d o cheiro3 qual he melhor para se mascar2 qual para o caximbo1 e qual para se pizar3 e se em granido1 ou em p4 ,terceiro3 do uso moderado delle para a saude1 e do immoderado1 e vicioso na quantidade1 no lugar1 e no tempo4 ,quarto3 dos rolos1 que cada anno ordinariamente se embarco do ,brazil para ,portugal3 do valor na ,bahia1 e no ,reino3 das penas para se no mandar1 ou introduzir sem despacho3 e dos artificios para se passar de contrabando1 no obstante as vigilancias dos guardas1 assim dentro1 como fra de ,portugal4 ,e finalmente do rendimento deste contracto1 e da repartio do tabaco por todas as quatro partes do mundo4 ,tudo conforme as noticias certas que procurei1 e me dro os mais intelligentes1 e mais versados nesta lavra2 aos quaes1 no que direi1 me reporto4 ,,capitulo ,,ii4 ,em que consiste a lavra do tabaco3 e de como se semea1 planta1 e alimpa2 em que tempo se hade plantar4 ,toda a lavra e cultura do tabaco consiste por sua ordem em se semear1 plantar1 alimpar1 capar1 desolhar1 colher1 espinicar1 torcer1 virar1 ajuntar1 enrolar1 encourar1 e pizar3 e de tudo iremos fallando nos capitulos seguintes4 ,e comeando neste pela planta3 semea-se esta em canteiros bem estercados2 ou em queimadas feitas nos matos1 aonde ha terra conveniente para isso1 e apparelhadas no mesmo anno1 em que se hade semear4 ,o tempo1 em que commummente se semea so os mezes de ,maio1 ,junho1 e ,julho3 e depois de nascida a semente1 nasce tambem com ella algum capim vicioso planta innocente o qual se tira com tento1 que se no arranque por descuido com o capim vicioso a planta innocente4 ,tendo a planta j palmo1 ou pouco menos de altura1 se passa dos canteiros aonde nasceu1 para os cercados1 ou curraes1 aonde se hade criar3 cuja terra1 quanto mais estercada1 he melhor4 ,mas se nos ditos curraes morou por muito tempo o gado2 hade se tirar antes alguma parte do esterco1 para que a fora delle ainda no cortido do tempo1 no queime a planta1 em vez de ajudar4 ,distribue-se a dita terra em regos com riscador1 para que a planta fique vistosa4 ,a distancia de hum rego de outro he de cinco palmos3 e das plantas entre si he de dous palmos e meio1 para que se posso extender1 e crescer folgadamente1 sem huma ser de embarao outra4 ,planta-se em covas de hum palmo1 quanto cava a enxada mettida1 e estas se enchem de terra bem estercada3 e1 com vigilancia1 e cuidado1 se corre a dita planta todos os dias1 para ver se tem lagarta2 e esta logo se mata para a no comer sendo tenra4 ,os inimigos da planta so ordinariamente alm da lagarta1 a formiga1 o pulgo1 e o grillo4 ,a lagarta em pequena corta-lhe o p1 ou raiz debaixo da terra3 e em crescendo corta-lhe as folhas4 ,o mesmo faz tambem a formiga3 e por isso se poem nos regos1 aonde esta apparece1 outras folhas de mandioca1 ou de aroeira2 para que dellas como as formigas1 e no cheguem a cortar1 e comer as do tabaco1 que sendo cortadas desta sorte no servem4 ,o pulgo que he hum mosquito preto1 pouco maior que huma pulga1 faz buracos nas folhas2 e estas assim furadas1 no presto para se fazer dellas torcida4 ,o grillo1 em quanto a planta he pequena1 a corta rente da terra2 e sendo j crescida1 tambem se atreve a cortar-lhe as folhas4 ,sendo j a folha bastantemente crescida1 se lhe chega ao p aquella terra1 que se tirou das covas em que foi plantada1 daquella parte1 que ficou arrumada mais alta2 porm1 em tempo de inverno1 no se aperta muito1 porque toda est humida2 no vero1 aparta-se mais para que a terra a defenda1 e a humidade1 posto que menor1 lhe d o primeiro alimento4 ,e isto faz quem a planta4 ,estando a planta em sua conta1 com oito1 ou nove folhas1 conforme a fora com que vem crescendo1 se lhe tira o olho de cima1 ou grelo1 antes de espigar3 o que por outra phraze chamo capar4 ,e porque faltando-lhe este olho1 nasce em cada p das folhas outro olho2 todos estes olhos se ho de botar fra2 7e a isto chamo desolhar7 para que no tirem a sustancia s folhas4 ,e esta diligencia se faz pelo menos de oito em oito dias3 e mais frequentemente se visito1 e correm os regos1 para tirar o capim1 at estarem as folhas sazonadas3 o que se conhece por apparecer nellas humas nodoas amarellas1 ou por estar j preto por dentro o p da folha1 o que commummente succede ao quarto mez depois de postas em suas covas as plantas4 ,,capitulo ,,iii4 ,como se tiro1 e curo as folhas do tabaco2 como dellas se fazem1 e beneficio as cordas4 ,quebro-se as folhas da hastea como talo1 e juntas em casa se deixo estar assim por vinte e quatro horas1 pouco mais ou menos3 e logo1 antes de se esquentarem e secarem1 se dependuro duas a duas pelo p1 mettidas entre a palha 7de que consto as casas1 em que se beneficio7 e as varas1 ou em outra parte1 aonde lhes d o vento1 mas lhes no chegue o sol3 porque se este lhes chegasse1 logo se secario1 e perderio a sustancia4 ,e tanto que estiverem enxutas em sua conta1 que pouco mais ou menos ser depois de estarem assim dependuradas dous dias2 se boto no cho1 e se lhes tira a maior parte do talo pela parte inferior1 com o devido cuidado1 para que se no rasguem com o desvio do talo3 e a isto chamo espinicar4 ,e ento se dobro pelo meio as melhores1 que ho de servir de capa para a corda1 que se hade fazer de todas as mais folhas4 ,e advirta-se que as folhas1 que se tirro em hum dia1 no se ho de misturar se no com as que se tirarem no dia seguinte2 para que sejo igualmente sazonadas3 e1 se no forem assim1 humas prejudicar ao bom concerto das contas4 ,curadas as folhas1 e tirado j o talo como est dito2 dellas se faz huma corda da grossura quasi de tres dedos4 ,e para isso haver roda1 e hum torcedor entendido1 para que a corda fique unida1 igual1 e forte1 e a traz delle estar outro colhendo a torcida sobre hum po1 ou sobre o apparelho1 como qualquer outra corda simples1 e no como as que se fazem de cordes1 e junto do torcedor so os rapazes1 que do as folhas para se torcerem em corda4 ,,capitulo ,,iv4 ,como se cura o tabaco depois de torcido em corda4 ,feita a corda do comprimento1 que quizerem1 e enrodilhada em hum po1 se desenrola cada dia1 a saber1 pela manh1 e a noite1 e passa-se a outro po1 para que no arda3 e na passagem se vai torcendo1 e apertando brandamente1 para que fique bem ligada1 e dura4 ,e tanto que ficar preta1 vira-se s huma vez cada dia3 e como se vai aperfeioando1 se diminuem as viraduras1 at ficar em estado1 que se possa recolher sem temor de que apodrea4 ,e commummente este beneficio costuma durar quinze1 ou vinte dias1 conforme vai o tempo1 mais ou menos humido1 ou seco4 ,segue-se a traz disto o que chamo ajuntar1 que vem a ser1 pr tres bollas de corda de tabaco em hum po1 aonde fica1 at que chegue o tempo de enrolar4 ,e entre tanto guardo-se estas bollas no tendal1 que he como hum andaime alto1 com seus regos embaixo1 para receberem a calda1 que boto de si as bollas2 e esta se ajunta1 e guarda1 para depois usar della1 quando fr tempo de enrolar4 ,o ultimo beneficio1 que se lhe faz1 he o seguinte3 tempera-se a calda do mesmo tabaco com seus cheiros de herva doce1 alfavaca1 e manteiga de porco1 e quem faz manojos de encommenda1 bota-lhe almiscar1 ou ambar1 se o tem3 e por esta calda misturada com mel de assucar 7quanto mais grosso1 melhor7 se passa a mesma corda de tabaco huma vez1 e logo se fazem os rolos do modo seguinte3 ,,capitulo ,v4 ,como se enrola1 e encoura o tabaco3 e que pessoas se occupo em toda a fabrica delle desde a sua planta at se enrolar4 ,para enrolar o tabaco dobro a corda j curada1 e melada1 de comprimento de tres palmos1 sobre huma estaca1 no muito grossa1 e leve1 que nas extremidades tem quatro taboazinhas3 sobre as quaes dobrada1 e segurada1 de huma outra parte a dita corda1 se vai enrolando at ao fim3 puxando sempre bem1 e unindo huma dobra com outra1 de sorte que no fique vo algum entre as dobras4 ,e para que as cabeas fiquem sempre direitas2 alm das cruzetas1 que levo1 lhes vo mettendo folhas de uricur nos vos1 para que fiquem bem unidas com as dobras de dentro4 ,acabado o rolo1 se cobre primeiramente com folhas de caravat secas1 amarradas com embira1 e depois se lhe faz huma capa de couro da medida do rolo3 a qual cozida1 e apertada muito bem1 marca-se com a marca de seu dono4 ,e desta sorte vo os rolos por terra em carros1 e por mar em barcos1 a serem despachados na alfandega1 antes de se metterem nas nos4 ,e cada rolo pesa commummente oito arrobas4 ,vindo agora a fallar das pessoas1 que se occupo na fabrica1 e cultura do tabaco2 ella he tal1 que a todos d que fazer3 porque nella trabalho grandes1 e pequenos1 homens1 e mulheres1 feitores1 e servos4 ,mas nem todos servem para qualquer ministerio dos que acima fico referidos4 ,para semear1 e plantar a folha1 he necessario1 que seja pessoa que entenda disso1 para que se guarde bem o modo1 a direitura1 a distancia assim dos regos1 como das covas4 ,o cavar as covas pertence aos que ando no servio com enxada3 os rapazes boto os ps da planta1 a saber2 hum em cada huma das covas1 que fico feitas4 ,e o que planta1 aperta-lhe a terra ao p1 mais ou menos conforme a humidade della4 ,toda a gente se occupa em catar a lagarta duas vezes no dia1 a saber2 pela madrugada1 e depois de estar o sol posto3 porque de dia est debaixo da terra1 e o sinal de estar ahi he o achar-se alguma folha cortada de noite4 ,chegar-lhe a terra com enxada1 he trabalho dos grandes4 ,capar a planta j crescida1 isto he1 tirar-lhe o olho1 ou grelo na ponta da hastea1 he officio de negros mestres4 ,desolhar1 que vem a ser1 tirar os outros olhos1 que nascem entre cada folha1 e a hastea1 fazem pequenos1 e grandes4 ,apanhar1 ou colher as folhas1 he de quem sabe conhecer quando he tempo1 pelo sinal1 que tem as folhas1 aonde se pega com a hastea1 que he o ser ahi de cr preta4 ,toda a gente de servio se occupa em dependurar as folhas nos altos3 e isto se faz commummente de noite4 ,pinicar1 ou espinicar1 que tudo he o mesmo1 e vem a ser tirar o talo s folhas do tabaco2 he trabalho leve de pequenos1 e grandes4 ,torcer as folhas fazendo dellas a corda1 encommenda-se a algum negro mestre3 e o que anda com a roda ou engenho de torcer1 hade ser negro robusto3 e tambem botar a capa corda1 para que fique bem redonda1 he obra de negro experimentado4 ,os rapazes do ao torcedor as folhas1 e tambem as capas ao que vai cobrindo com as melhores a corda3 e o mesmo que bota as capas1 he o que enrola4 ,o passar as cordas de hum po para outro po1 corre por conta de dous negros3 dos quaes hum est no virador1 e outro vai desandando a corda enrolada no po4 ,os que viro1 ou mudo a corda de hum po para outro po1 so negros mestres2 e a cada virador so necessarios tres3 hum que largue a corda1 outro que a colha1 e outro que ande no virador4 ,ajuntar1 que he pr a corda de tres bolas em hum po1 he obra dos negros mais dextros3 e so tres1 e s vezes quatro2 porque no basta hum s no virador1 mas ha mister dous1 para que apertem bem a corda4 ,enrolar finalmente he occupao de bons officiaes1 para que fique a obra segura4 ,,capitulo ,,vi4 ,da segunda1 e terceira folha do tabaco2 e de diversas qualidades delle1 para se mascar1 cachimbar1 e pisar4 ,tudo o que est dito at aqui do tabaco1 que chamo da primeira folha1 e vale o mesmo1 que o da primeira colheita1 se ha de entender tambem do da segunda1 e terceira folha2 se a terra ajudar para tanto1 e fr para isso ajudada com o beneficio do tempo1 e do esterco4 ,por tanto tiradas todas as meias folhas1 corta-se a haste menos de hum palmo sobre a terra1 para que brote s segundas3 e crescendo ellas1 se lhes tiro 7como est dito acima7 os olhos do tronco1 e o capim dos regos3 e o mesmo beneficio1 que se fez s primeiras folhas1 se faz s de segunda colheita4 ,e se a terra fr forte1 faz-se terceira1 e multiplico-se os rolos4 ,o tabaco da primeira folha he o melhor1 o mais forte1 e o que mais dura3 e este serve para o cachimbo1 e para se mascar1 e pisar4 ,o fraco1 para se mascar no serve1 e s presta para se beber no cachimbo4 ,os que o quizerem pisar ho de ajuntar ao melhor aquelles talos1 que se tiro das folhas1 depois de estarem bem seccos3 porque estes pisados com as folhas fazem ao tabaco forte1 e de boa cr4 ,e para o tabaco em p1 o das alagas de ,pernambuco1 e dos campos da ,cachoeira he o melhor4 ,,capitulo ,,vii4 ,como se pisa o tabaco3 do granido1 e em p2 e como se lhe d o cheiro4 ,para se pisar o tabaco1 ha de ser bem seco1 ou ao sol1 ou em bacias1 ou fornos de cobre1 com atteno para que se no queime2 e por isso se ha de mexer continuamente3 e os piles1 em que se pisa1 ho de ser de pedra marmore1 com as mos de pisar de po4 ,pisado1 peneira-se3 e o que estiver capaz1 se tira parte1 e o mais grosso se torna a pisar1 at reduzir em p4 ,e este he o que commummente mais se procura1 e se estima4 ,do granido se usa muito em ,italia3 e faz-se desta sorte4 ,toma-se o tabaco j feito em p1 e pe-se em hum alguidar vidrado3 e bota-se-lhe em quantidade moderada algum mel1 ou calda de tabaco2 e se esta fr muito grossa1 se far liquida com hum pouco de vinho4 ,depois1 para que se v encorporando1 se mexe muito bem1 e mechido se levanta1 e menea-se entre as mos como quem faz bolinhos3 e1 estando assim humido1 se passa por huma eropma fina3 e nesta passagem pelos boraquinhos da eropma se formo os granitos1 como os da polvora fina1 e fica o tabaco granido4 ,e o que no passa pela eropma1 por ser ainda grosso1 torna-se a menear1 como est dito1 entre as mos1 at ser capaz de passar4 ,passado1 se secca ao sol sem se mecher1 para que no torne a amassar-se1 e perca o ser de granido4 ,depois do tabaco granido estar seco1 se lhe quizerem dar algum cheiro1 borrifa-se com agua cheirosa3 ou pe-se no mesmo vaso1 em que se recolheu1 huma vasilha inteira1 ou alguma quantidade de ambar1 ou de algatia1 ou de almiscar4 ,porm o tabaco em p no he capaz de ser borrifado com agua cheirosa2 porque com ella se amassaria1 e no ficaria1 como se pretendeu1 solto em p4 ,o tabaco que se pisa no ,brazil1 vai sem mistura1 singelo1 e legitimo em tudo2 e por isso tanto se estima4 ,mas o que se pisa em algumas partes da ,europa1 vende-se to viciado1 que apenas merece o nome de tabaco1 pois com elle at as cascas de laranjas se piso4 ,,capitulo ,,viii4 ,do uso moderado do tabaco para a saude1 e da demasia nociva mesma saude1 de qualquer modo que se use delle4 ,os que so demasiadamente affeioados ao tabaco1 o chamo herva santa3 nem ha epitheto de valor que lhe no dem1 para defender o excesso digno de reprehenso1 e de nota4 ,homens ha1 que parece no podem viver sem este quinto elemento2 cachimbando a qualquer hora em casa1 e nos cachimbos2 mascando as suas folhas1 usando de torcidas1 e enchendo os narizes deste p4 ,e esta demasia no smente vive nos maritimos1 e nos trabalhadores de qualquer casta1 forros1 e escravos1 os quaes esto persuadidos1 que s com o tabaco ho de ter alento1 e vigor2 mas tambem em muitas pessoas nobres1 e ociosas2 nos soldados dentro do corpo da guarda2 e em no poucos ecclesiasticos1 clerigos1 e religiosos3 na opinio das quaes toda a demasia se defende1 ainda quando se v manifestamente1 que se no usa por mesinha1 mas por dar gosto a hum excessivo1 e mal habituado prurito4 ,eu1 que de nenhum modo uso delle1 ouvi dizer1 que o fumo do cachimbo1 bebido pela manh em jejum moderadamente1 desseca as humidades do estomago2 ajuda para a digesto1 e no menos para a evacuao ordinaria2 alivia ao peito1 que padece fluxo asmatica1 e diminue a dr insuportavel dos dentes4 ,o masca-lo no he to sadio3 porm assim como fumado pela manh em jejum moderadamente1 serve para dessecar a abundancia dos humores do estomago1 assim o uso immoderado o relaxa3 e pela continuao obra menos1 altera o gosto2 faz grave o bafo1 negros os dentes1 e deixa os beios immundos4 ,uso alguns de torcidas dentro dos narizes1 para purgar por esta via a cabea1 e para divertir o estillicidio1 que vai a cahir nas gengivas1 e causa dor de dentes3 e postas pela manh1 e noite1 no deixo de ser de proveito4 ,s se encommenda aos que uso dellas1 o evitarem a indecencia1 que causa o apparecer com ellas fora dos narizes1 e com huma gota de estillicidio sempre manente1 que suja a barba1 e causa nojo a quem com elles conversa4 ,sendo o tabaco em p o mais usado1 he certamente o menos sadio3 assim pela demasia1 com que se toma1 que passa de mesinha a ser vicio2 como por impedir o mesmo costume excessivo os bons effeitos1 que se pretendem1 que talvez causaria1 se o uso fosse mais moderado4 ,deixando pois de reparar esta viciosa superfluidade1 s lembro quanto dous summos ,pontifices1 ,urbano ,,viii1 e ,innocencio ,x1 extranhro usar delle nas igrejas1 pela grande indecencia1 que reparro1 e julgro ter este intoleravel abuso1 digno de se notar1 e estranhar nos seculares e mais nos ecclesiasticos pouco acautelados1 ainda quando assistem no cro aos officios divinos2 e muito mais nos religiosos1 que devem dar exemplo a todos 7e maiormente nos lugares sagrados7 de gravidade1 e modestia4 ,e por isso ambos os sobreditos pontifices chegro a prohibi-lo com excommunho maior3 o primeiro1 com hum breve de #cj de janeiro do anno de #afdb1 o prohibio na igreja de ,s4 ,pedro em ,roma1 e no adro1 e alpendre do dito templo3 o segundo com outro breve1 debaixo da mesma pena1 aos #h de janeiro de #afej1 nas igrejas de todo hum arcebispado1 em que se ia introduzindo esta demasia com escandalo4 ,e em algumas religies mais observantes se prohibio o uso publico do tabaco nas igrejas1 com privao de voz activa e passiva1 isto he1 sob pena de no poderem ser eleitos os transgressores1 nem poderem escolher a outros para superiores1 e para outros officios da ordem4 ,,capitulo ,,ix4 ,do modo com que se despacha o tabaco na alfandega da ,bahia4 ,beneficiado1 e enrolado o tabaco1 e pago o seu dizimo a ,deos1 que he de vinte arrobas huma 7e rende este dizimo hum anno por outro dezoito mil cruzados1 como consta do arrendamento do dizimo1 que se tira da cachoeira da ,bahia1 e suas freguezias annexas1 fra o que se lavra pelas mais partes do serto della em ,sergipe d',el-,rei1 ,continguiba1 rio ,real1 ,inhambupe1 ,montegordo1 e ,torre1 que apartado do rendimento do dizimo do assucar1 e mais miunas1 rende dez at doze mil cruzados71 vem pagando nos carretos e fretes para a cidade da ,bahia1 at se meter em huma sua propria alfandega1 aonde se despacho para ,lisboa1 hum anno por outro1 de vinte e cinco mil rolos para cima1 os quaes pago1 por hum contracto da camara1 a setenta e seis ris por cada rolo2 e destes tem ,el-,rei a terceira parte3 e as duas so para o presidio da mesma cidade1 que importo cinco mil cruzados4 ,pago mais a huma balana1 a tres ris por arroba1 que a camara arrenda na mesma forma j dita1 e importa mil e duzentos cruzados4 ,deste tabaco se permitte a extrao de treze mil arrobas para a navegao da costa de ,mina1 que se arrumo em cinco mil rolos pequenos de tres arrobas2 os quaes tambem pago setenta ris por cada rolo para o sobredito contracto da camara1 e importa mil cruzados4 ,destas tres mil arrobas se pago por dizimo a ,el-,rei quatro vintens por arroba1 e pago-se na casa dos contos3 o que importa tres mil cruzados4 ,vo para o ,rio de ,janeiro todos os annos1 tres mil arrobas3 as quaes nada pago na ,bahia1 mas vo a pagar no dito ,rio de ,janeiro1 vinte cinco mil cruzados cada anno por contracto d',el-,rei1 o qual pouco mais ou menos por tanto se arrenda4 ,e tudo o que neste capitulo do despacho do tabaco est dito1 importa em sessenta e cinco mil e duzentos cruzados4 ,,capitulo ,x4 ,que custa hum rolo de tabaco de oito arrobas posto da ,bahia na alfandega de ,lisboa1 e j despachado1 e corrente para sahir della4 ,o rolo de tabaco #hjjj ,o couro1 e o enrolo nelle #acjj ,o frete para o porto da ,cachoeira #eej ,o aluguer do armazem na ,cachoeira #dj ,o frete para a cidade da ,bahia #hj ,a descarga no armazem da cidade #bj ,o aluguer do armazem na cidade #dj ,o chegar balana do peso #aj ,o pesar a #aj rs4 por rolo1 e deitar fra #aj ,o peso da balana1 a #c rs4 por arroba #bd ,direito e fretes1 e mais gastos em ,lisboa #bjej ------ ,o que tudo importa em ,rs4 #ababd ,do ordinariamente cada anno da ,bahia vinte e cinco mil rolos de tabaco3 e a #ababd rs4 #cjc3ajjjjj ,do ordinariamente cada anno das ,alagas de ,pernambuco dous mil e quinhentos rolos3 e a #affbj rs4 por ser melhor o tabaco #da3eejjjj ----------- ,importa todo este tabaco em ,rs4 #cdd3fejjjj ,e reduzidos a cruzados1 so #hfa1fbe cruzados4 ,,capitulo ,,xi4 ,da estimao do tabaco do ,brazil na ,europa1 e nas mais partes do mundo1 e dos grandes emolumentos1 que delle tira a fazenda real4 ,do que at agora se tem dito1 facilmente se pde entender a estimao1 e valor a que tem chegado o tabaco1 e mais particularmente o do ,brazil4 ,pois 7como disse ao principio7 havendo pouco mais de cem annos1 que se comeou a plantar1 e beneficiar na ,bahia1 foro as primeiras arrobas1 que se mandro a ,lisboa1 como huma sementeira de desejos1 para que cada anno se pedissem logo1 se mandassem mais e mais arrobas4 ,e passando de mimo a ser mercancia3 hoje apenas os tantos milhares de rolos1 que levo as frotas1 so bastantes para satisfazer ao apetite de todas as naes1 no s da ,europa1 mas tambem das outras partes do mundo1 donde encarecidamente se procuro4 ,vale huma libra de tabaco pizado em ,lisboa1 de vinte at vinte e quatro tostes1 conforme he mais ou menos fino3 e o que ,el-,rei tira deste contracto cada anno1 so dous milhes1 e duzentos mil cruzados4 ,nem hoje tem os ,principes da ,europa contracto de maior rendimento1 pela muita quantidade de tabaco1 que se gasta em todas as cidades1 e villas4 ,sirva de prova o que conta ,engelgrave no primeiro tomo da ,luz ,evangelica1 na dominga quinta depois de ,pentecostes1 ao paragrapho primeiro1 allegando por testemunho do que diz ao historiador ,bernab de ,ryc-,ke1 como certamente informado4 ,diz pois este autor que1 na cidade de ,londres1 cabea da ,gram-,bretanha1 povoada de mais de oitocentas mil almas1 passo as vendas de tabaco o numero de sete mil3 e dando1 que cada huma destas no venda mais cada dia1 que hum florim e meio de tabaco2 importar o que se vende cada dia1 dez mil e quinhentos florins3 os quaes reduzidos moeda portugueza1 em que cada florim so dous tostes1 importo cinco mil e duzentos1 e cincoenta cruzados4 ,e consequentemente o que se vende s em ,londres em hum anno1 que consta de trezentos e sessenta e cinco dias1 importa hum milho1 nove centos1 e dezasseis mil1 duzentos e cincoenta cruzados4 ,e a que somma chegar o que se vende cada anno em toda a ,gram-,bretanha1 em ,flandres1 em ,frana1 em toda a ,hespanha1 e em ,italia8 ,para no fallar de outras partes1 e do que vai para fra da ,europa1 particularmente s ,indias ,oriental1 e o ,occidental3 procurando-se o do ,brazil1 por mais perfeito1 melhor curado1 em maior quantidade da que se lhe pde mandar1 por no faltarem os comissarios aos mercadores1 que trato de prover as partes mais proximas4 ,,capitulo ,,xii4 ,das penas dos que levo tabaco no despachado nas alfandegas3 e das industrias de que se usa para se levar de contrabando4 ,qualquer descaminho do tabaco1 por qualquer destas partes do ,brazil1 fra do registo1 e guias1 debaixo do que tudo vai despachado1 tem por pena a perda do tabaco1 e da embarcao1 em que se achar1 e mais cinco annos de degredo para ,angola ao autor desta culpa4 ,porm muito maiores so as penas1 que tem os transgressores do bando em ,portugal4 ,e em outros reinos so tantos1 e to graves1 que a cada passo so causa da ruina de muitas familias4 ,e quanto mais rigorosas so estas penas1 tanto maior prova so do muito a que subio o contracto1 e do grande lucro1 que tem delle todos os ,principes4 ,mas ainda maior prova do grande valor e lucro1 que d o tabaco1 he o perderem muitos1 por ambio1 o temor destas penas2 arriscando-se a ellas com desprezo do perigo de se verem comprehendidos nas mesmas miserias1 a que outros se reduziro1 por serem to confiados4 ,e para isso parece1 que no ha industria1 de que se no use1 para o embarcar1 e tirar das embarcaes s escondidas1 vista dos mesmos ministros1 que1 como ,argos de cem olhos1 vigio1 quando no so juntamente ,briaros de cem mos para receber1 e mais mudos1 que os peixes1 para calar4 ,para apontar algumas destas industrias1 direi por relao dos casos1 em que se apanhro no poucos2 que huns mandro o tabaco dentro das peas de artilheria2 outros dentro das caixas1 e fechos do assucar2 outros arremedando as caras tambem do assucar muito bem encouradas4 ,serviro-se outros dos barris de farinha da terra1 dos de breu1 e dos de mellado1 cobrindo com a superficie mentirosa o que hia dentro em folhas de ,flandres1 outros valero-se das caixas de roupa1 fabricadas a dous sobrados1 para dar lugar a escondrijos3 e de frasqueiras que esto vista1 pondo entre os frascos de vinho outros tambem de tabaco4 ,quanto foi1 e vai cada anno nas obras mortas1 e nos forros das camaras1 e nas varandas das nos8 ,quanto nas curvas1 que para isso nas partes mais escuras se forro8 e no faltou quem lhe dsse lugar at dentro de humas imagens occas de santos2 assim como huns carpinteiros de navios o escondro em pos occos1 misturados entre os outros de que costumavo valer-se4 ,deixo o que entra e sahe em algibeiras grandes de couro dos que vo1 e vem das nos para os portos1 com repetidas idas1 e voltas1 debaixo de lobas1 e tunicas3 e o que se arrasta debaixo dos bateis1 e das pipas de aguada pelas ondas do mr4 ,nunca acabariamos se quizessemos relatar as invenes1 que suggerio a cautela ambiciosa3 porm sempre arriscada1 e muitas vezes descoberta1 com sucesso infeliz4 ,o que claramente prova a estimao1 o apetite1 e a esperana do lucro1 que ainda entre riscos acompanha o tabaco4 ,,terceira ,,parte4 ,,cultura1 ,e ,,opulencia ,,do ,,brazil ,,pelas ,,minas ,,de ,,ouro4 ,,capitulo ,,primeiro4 ,das minas de ouro que se descobriro no ,brazil4 ,foi sempre fama constante1 que no ,brazil havia minas de ferro1 ouro1 e prata4 ,mas tambem houve sempre bastante descuido de as descobrir1 e de aproveitar-se dellas3 ou porque1 contentando-se os moradores com os frutos1 que d a terra abundantemente na sua superficie1 e com os peixes1 que se pesco nos rios grandes e apraziveis1 no tratro de divertir o curso natural destes1 para lhes examinarem o fundo1 nem de abrir aquellas entranhas1 como persuadio a ambio insaciavel a outras muitas naes2 ou porque o genio de buscar ,indios nos matos os desviou desta diligencia1 menos escrupulosa1 e mais util4 ,na villa de ,s4 ,paulo ha muita pedra usual1 para fazer paredes e cercas2 a qual1 com a cr1 com o pezo1 e com as veias que tem em si1 mostra manifestamente1 que no desmerece o nome1 que lhe dero de pedra ferro2 e que donde ella se tira1 o ha4 ,o que tambem confirma a tradio1 de que j se tirou quantidade delle1 e se achou ser muito bom para as obras ordinarias1 que se encommendo aos ferreiros4 ,e ultimamente na serra ,ibirasojaba1 distante oito dias da villa de ,sorocaba1 e doze da villa de ,s4 ,paulo1 a jornadas moderadas1 o capito ,luiz ,lopes de ,carvalho1 indo l por mandado do governador ,artur de ,s1 com hum fundidor estrangeiro1 tirou ferro e trouxe barras1 das quaes se fizero obras excellentes4 ,que haja tambem minas de prata1 no se duvida3 porque na serra das columnas1 quarenta legoas alm da villa d',out1 que he huma das de ,s4 ,paulo ao leste direito1 ha certamente muita prata1 e fina4 ,na serra de ,seborabo tambem a ha4 ,da serra de ,guarume defronte do ,cear tirro os ,hollandezes quantidade della no tempo1 em que estavo de posse de ,pernambuco4 ,e na serra de ,itabajana1 ha tradio que achou prata o av do capito ,belchior da ,fonseca ,doria4 ,e em busca d'outra foi alm do rio de ,s4 ,francisco ,lopo de ,albuquerque1 que faleceu nesta sua malograda empreza4 ,mas deixando as minas de ferro e de prata1 como inferiores1 passemos s do ouro1 tantas em numero1 e to rendosas aos que dellas o tiro4 ,e primeiramente he certo1 que de hum outeiro alto1 distante tres leguas da villa de ,s4 ,paulo1 a quem chamo ,jaragu1 se tirou quantidade de ouro1 que passou de oitavas a libras4 ,em ,parnahiba1 tambem junto da mesma villa no serro ,ibituruna1 se achou ouro1 e tirou-se por oitavas4 ,muito mais1 e por muitos annos se continuou a tirar em ,parnagu1 e ,coritiba1 primeiro por oitavas1 depois por libras1 que chegro a alguma arroba1 posto que com muito trabalho para ajuntar1 sendo o rendimento no catar limitado2 at que se largro1 depois de serem descobertas pelos ,paulistas as minas geraes dos ,cataguas1 e as que chamo do ,caet3 e as mais modernas no rio das ,velhas1 e em outras partes1 que descobrro outros ,paulistas3 e de todas estas iremos agora distinctamente fallando4 ,,capitulo ,,ii4 ,das minas do ouro que chamo geraes1 e dos descobridores dellas4 ,ha poucos annos que se comero a descobrir as minas geraes dos ,cataguas1 governando o ,rio de ,janeiro ,artur de ,s3 e o primeiro descobridor dizem1 que foi hum mulato1 que tinha estado nas minas de ,parnagu1 e ,coritiba4 ,este indo ao serto com huns ,paulistas a buscar indios1 e chegando ao serro ,tripui1 desceu a baixo com huma gamella1 para tirar agua do ribeiro1 que hoje chamo do ,ouro ,preto3 e metendo a gamella na ribanceira para tomar agua1 e roando-a pela margem do rio1 vio depois que nella havia granitos da cr do ao1 sem saber o que ero3 nem os companheiros1 aos quaes mostrou os ditos granitos1 soubero conhecer1 e estimar o que se tinha achado to facilmente3 e s cuidro1 que ahi haveria algum metal1 no bem formado1 e por isso no conhecido4 ,chegando porm a ,taubat1 no deixro de perguntar1 que casta de metal seria aquelle4 ,e sem mais exame1 vendro a ,miguel de ,souza alguns destes granitos1 por meia pataca a oitava1 sem saberem elles o que vendio1 nem o comprador que cousa comprava1 at que se resolvro mandar alguns dos granitos ao governador do ,rio de ,janeiro1 ,artur de ,s1 e fazendo-se exame delles1 se achou que era ouro finissimo4 ,em distancia de meia legua do ,ouro ,preto1 achou-se outra mina1 que se chama a do ,ribeiro de ,antonio ,dias3 e1 dahi a outra meia legua1 a do ribeiro do ,padre ,joo de ,faria3 e1 junto desta1 pouco mais de huma legua1 a do ribeiro de ,bueno1 e a de ,bento ,rodrigues4 ,e1 dahi tres dias de caminho moderado at o jantar1 a do ribeiro de ,n4 ,s4 do ,carmo1 descoberta por ,joo ,lopes de ,lima2 alm de outra1 que chamo a do ribeiro ,ibupiranga4 ,e todas estas tomro o nome de seus descobridores1 que todos foro ,paulistas4 ,tambem ha huma paragem no caminho para as ditas minas geraes1 onze1 ou doze dias distante das primeiras1 andando bem at s tres horas da tarde3 a qual paragem chamo a do rio das ,mortes1 por morrerem nellas huns homens que o passavo nadando1 e outros1 que se matro s pelouradas1 brigando entre si sobre a repartio dos indios gentios que trazio do serto4 ,e neste rio1 e nos ribeiros1 que delle procedem1 e em outros1 que vem a dar nelle1 se acha ouro3 e serve esta paragem como de estalagem aos que vo s ,minas ,geraes1 ahi se provem do necessario1 por terem hoje os que ahi assistem1 roas e criao de vender4 ,no fallo da mina da serra de ,itatiaya 7a saber1 do ouro branco1 que he ouro ainda no bem formado71 distante do ribeiro do ,ouro ,preto oito dias de caminho moderado at ao jantar3 porque desta no fazem caso os ,paulistas1 por terem as outras de ouro formado1 e de muito melhor rendimento4 ,e estas geraes1 dizem que fico na altura das capitanias do ,espirito ,santo4 ,,capitulo ,,iii4 ,de outras minas de ouro no rio das ,velhas1 e no ,caet4 ,alm das minas geraes dos ,cataguas1 descobriro-se outras por outros ,paulistas no rio que chamo das ,velhas3 e fico como dizem1 na altura do ,porto ,seguro1 e de ,santa ,cruz4 ,e estas so1 a do ribeiro do ,campo descoberta pelo sargento mr ,domingos ,rodrigues da ,fonseca3 e a do ribeiro da ,roa dos ,penteados3 a de ,n4 ,s4 do ,cabo1 da qual foi descobridor o mesmo sargento mr ,domingos ,rodrigues da ,fonseca3 a de ,n4 ,s4 de ,monserrate2 a do ribeiro do ,ajudante3 e a principal do rio das ,velhas he a do serro de ,seborabu1 descoberta pelo tenente ,manoel ,borba ,gato1 ,paulista1 que foi o primeiro1 que se apoderou della e do seu territorio4 ,ha mais outras minas novas1 que chamo do ,caet1 entre as minas geraes1 e as do rio das ,velhas1 cujos descobridores foro varios3 e entre ellas ha a do ribeiro1 que descobrio o capito ,luiz do ,couto1 que da ,bahia foi para essa paragem com tres irmos1 grandes mineiros2 alm d'outras1 que secretamente se acho1 e se no publico1 para se aproveitarem os descobridores dellas totalmente1 e no as sujeitarem repartio3 e as que ultimamente descobrio o capito ,garcia ,rodrigues ,paez1 quando foi abrir o caminho novo detraz da cordilheira da serra dos ,orgos1 no districto do ,rio de ,janeiro por onde corta o rio ,parahyba do ,sul4 ,,capitulo ,,iv4 ,do rendimento dos ribeiros3 e das diversas qualidades de ouro1 que delles se tira4 ,das minas geraes dos ,cataguas as milhores1 e de maior rendimento foro at agora a do ribeiro d',ouro ,preto2 a do ribeiro de ,n4 ,s4 do ,carmo3 e a do ribeiro de ,bento ,rodrigues1 do qual em pouco mais de cinco braas de terra se tirro cinco arrobas de ouro4 ,tambem o rio das ,velhas he muito abundante de ouro1 assim pelas margens1 como pelas ilhas1 que tem1 e pela madre1 ou veio d'agua2 e delle se tem tirado1 e tira ainda em quantidade abundante4 ,chamo os ,paulistas ribeiro de bom rendimento1 o que d em cada bateada duas oitavas de ouro4 ,porm assim como ha bateadas de meia oitava1 e de meia pataca2 assim ha tambem bateadas de tres e quatro1 cinco1 oito1 dez1 quinze1 vinte1 e trinta oitavas1 e mais3 e isto no poucas vezes succedeu na do ribeiro1 na do ,ouro ,preto1 na de ,bento ,rodrigues1 e na do rio das ,velhas4 ,os gros de maior peso1 que se tirro1 foro hum de noventa e cinco oitavas2 outro de tres libras1 que repartiro entre si tres pessoas com hum machado1 outro que passou de cento e cincoenta oitavas1 em forma de huma lingua de boi1 que se mandou ao governador da nova colonia3 e outro maior de seis libras4 ,quanto s qualidades diversas de ouro3 sabe-se1 que o ouro1 a quem chamo preto1 por ter na superficie huma cr semelhante do ao1 antes de ir ao fogo1 provando-se com o dente logo apparece amarello vivo1 gemmado1 e he o mais fino1 porque chega quasi a vinte e tres quilates1 e quando se lhe pe o cunho na fundio1 faz greta na barreta1 como se arrebentasse de todas as partes2 e por dentro d taes reflexos1 que parecem raios do sol4 ,o do ribeiro he mais miudo1 e mais polme1 e compete na bondade como ouro preto1 por chegar a vinte e dous quilates4 ,o ouro do ribeiro de ,bento ,rodrigues1 posto que seja mais grosso1 e palpavel1 e bem amarello1 comtudo no tem a perfeio do ouro preto1 e do ouro do ribeiro1 mas quando muito1 chega a vinte quilates4 ,o ouro do ribeiro do ,campo1 e o do ribeiro de ,n4 ,s4 do ,monserrate he grosso1 e muito amarello1 e tem vinte e hum quilates e meio4 ,o ouro do rio das ,velhas he finissimo1 e chega a vinte e dous quilates4 ,o ouro finalmente do ribeiro de ,itatiaja1 he de cr branca1 como a prata1 por no estar ainda bem formado1 como dissemos acima1 e deste se faz pouco caso1 posto que alguns digo1 que indo ao fogo s vezes por mais formado1 foi mostrando a cr amarella4 ,houve anno1 em que de todas estas minas1 ou ribeiros se tirro mais de cem arrobas de ouro2 fra o que se tirava1 e tira escondidamente d'outros ribeiros1 que os descobridores no manifestro1 para os no sujeitarem logo repartio4 ,e se os quintos d',el-,rei chegro a dezesete1 e a vinte arrobas1 sonegando-se tanto ouro no quintado2 bem se deixa ver1 que o ouro1 que cada anno se tira1 sem encarecimento algum1 passa de cem arrobas3 e que nestes dez annos passados se tem tirado mais de mil arrobas4 ,e se nos primeiros annos no chegro a cem arrobas1 nos outros certamente passro4 ,e continuando ao presente o rendimento com igual1 e com maior abundancia1 por razo do maior numero dos que se emprego em catar2 s os quintos devidos a ,sua ,magestade se foro notavelmente diminuindo1 ou por se divertir por outras partes o ouro em p1 ou por no ir casa dos quintos1 ou por usarem alguns de cunhos falsos1 com engano mais detestavel4 ,mas ainda assim no deixou ,sua ,magestade de ter grande lucro na casa da moeda do ,rio de ,janeiro3 porque comprando o ouro a doze tostes a oitava1 e batendo-se em dous annos tres milhes de moeda nacional1 e provincial de ouro3 foi lucrando seiscentos mil cruzados de avano4 ,,capitulo ,v4 ,das pessoas que ando nas minas1 e tiro ouro dos ribeiros4 ,a sde insaciavel do ouro estimulou a tantos a deixarem suas terras1 e a meterem-se por caminhos to asperos1 como so os das minas1 que difficultosamente se poder dar conta do numero das pessoas1 que actualmente l esto4 ,comtudo os que assistiro nellas nestes ultimos annos por largo tempo1 e as corrro todas1 dizem1 que mais de trinta mil almas se occupo1 humas em catar1 outras em mandar catar nos ribeiros do ouro2 e outras em negociar1 vendendo1 e comprando o que se ha mister no s para a vida1 mas para o regalo1 mais que nos portos do mar4 ,cada anno vem nas frotas quantidade de ,portuguezes1 e de estrangeiros1 para passarem s minas4 ,das cidades1 villas1 reconcavos1 e sertes do ,brazil vo brancos1 pardos1 e pretos1 e muitos ,indios de que os ,paulistas se servem4 ,a mistura he de toda a condio de pessoas3 homens1 e mulheres2 moos e velhos2 pobres e ricos3 nobres e plebeos1 seculares1 clerigos1 e religiosos de diversos institutos1 muitos dos quaes no tem no ,brazil convento nem casa4 ,sobre esta gente quanto ao temporal no houve at ao presente coaco1 ou governo algum bem ordenado3 e apenas se guardo algumas leis1 que pertencem s datas1 e reparties dos ribeiros4 ,no mais no ha ministros1 nem justias1 que tratem1 ou posso tratar do castigo dos crimes1 que no so poucos1 principalmente dos homicidios1 e furtos4 ,quanto ao espiritual1 havendo at agora duvidas entre os prelados cerca da jurisdico1 os mandados de huma1 e outra parte1 ou como curas1 ou como visitadores1 se achro bastantemente embaraados3 e no pouco embararo a outros1 que no acabo de saber a que pastor pertencem aquelles novos rebanhos4 ,e quando se averigue o direito de provimento dos parochos1 pouco ho de ser timidos e respeitados naquellas freguezias moveis de hum lugar para outro como os filhos de ,israel no deserto4 ,teve ,el-,rei nas minas por superintendente dellas ao ,desembargador ,jos ,vaz ,pinto1 o qual1 depois de dous outros annos1 tornou a recolher-se para o ,rio de ,janeiro com bastante cabedal3 e delle supponho ficaria plenamente informado do que por l vai3 e que apontaria desordens1 e o remedio dellas1 se fosse possivel a execuo4 ,assiste tambem nas minas hum procurador da cora1 e hum guarda mr com seu estipendio4 ,houve at agora casa de quintar em ,taubat1 na villa de ,s4 ,paulo1 em ,paraty1 e no ,rio de ,janeiro3 e em cada huma destas casas ha hum provedor1 hum escrivo1 e hum fundidor1 que fundindo o ouro em barretas1 lhe pe o cunho real1 signal do quinto que se pagou a ,el-,rei desse ouro4 ,havendo casas de moeda1 e dos quintos na ,bahia1 e no ,rio de ,janeiro 7por serem estes os dous polos1 aonde vai parar todo o ouro71 teria ,sua ,magestade muito maior lucro1 do que at agora teve3 e muito mais se nas casas de moeda1 bem fornecidas dos apparelhos necessarios1 houvesse sempre dinheiro prompto para comprar o ouro1 que os mineiros trazem1 e folgo de vender sem detena4 ,agora soubemos que ,sua ,magestade manda governador1 ministros de justia1 e levantar hum tero de soldados nas minas1 para que tudo tome melhor frma1 e governo4 ,,capitulo ,,vi4 ,das datas1 ou reparties das minas4 ,para evitar a confuso1 e tumulto1 e as mortes1 que haveria no descobrimento dos ribeiros do ouro1 se assentou o que pertence s reparties desta sorte4 ,tem o descobridor a primeira data1 como descobridor1 outra como mineiro3 segue-se a que cabe a ,el-,rei2 e atraz desta a do guarda mr3 as outras se distribuem por sortes4 ,as que chamo datas inteiras1 so de trinta braas em quadra1 e taes so d',el-,rei1 do descobridor1 e guarda mr4 ,as outras que se do por sortes1 tem a extenso proporcionada ao numero dos escravos1 que trazem para catar2 dando duas braas em quadra por cada escravo1 ou ,indio1 de que se servem nas catas3 e assim a quem tem quinze escravos1 se d huma data inteira de trinta braas em quadra4 ,para ser admittido repartio por sortes1 he necessario fazer petio ao superintendente das ditas reparties1 ao qual se d pelo despacho da petio huma oitava de ouro1 e outra a seu escrivo3 e s vezes acontece offerecer-se quinhentas peties1 e levarem o partidor1 e o escrivo mil oitavas1 e no tirarem todos os mineiros juntos outro tanto de taes datas1 por falharem no seu rendimento1 e por isso procuro outras datas1 havendo descobrimento de novos ribeiros4 ,a data d',el-,rei logo se vende a quem mais offerece3 e pde tambem qualquer vender1 ou trocar a sua data1 e nisto se vro1 e vem a cada passo varios1 e differentes successos1 tirando hum mineiro de poucas braas muito ouro1 e outros de muitas pouco3 e j houve quem por mais de mil oitavas vendeu a data1 da qual o comprador tirou sete arrobas de ouro4 ,pelo que se tem por jogo de bem1 ou mal afortunado o tirar1 ou no tirar ouro das datas4 ,,capitulo ,,vii4 ,da abundancia de mantimentos1 e de todo o usual1 que hoje ha nas minas3 e do pouco caso que se faz dos preos extraordinariamente altos4 ,sendo a terra que d ouro esterilissima de tudo que se ha mister para a vida humana1 e no menos esteril a maior parte dos caminhos das minas1 no se pde crer o que padecro ao principio os mineiros por falta de mantimentos1 achando-se no poucos mortos com huma espiga de milho na mo1 sem terem outro sustento4 ,porm tanto que se vio a abundancia do ouro1 que se tirava1 e a largueza1 com que se pagava tudo o que l hia2 logo se fizero estalagens1 e logo comero os mercadores a mandar s minas o melhor que chega nos navios do reino1 e de outras partes1 assim de mantimentos1 como de regalo1 e de pomposo para se vestirem1 alm de mil bugiarias de ,frana1 que l tambem foro dar4 ,e a este respeito1 de todas as partes do ,brazil se comeou a inviar tudo o que d a terra1 com lucro no smente grande mas excessivo4 ,e no havendo nas minas outra moeda mais que ouro em p2 o menos que se podia1 e dava por qualquer cousa1 ero oitavas4 ,daqui se seguio mandarem-se s ,minas ,geraes as boiadas de ,paranagu1 e as do ,rio das ,velhas1 as boiadas dos campos da ,bahia1 e tudo mais que os moradores imaginavo poderia apetecer-se1 de qualquer genero de cousas naturaes1 e industriaes1 adventicias1 e proprias4 ,e ainda que hoje os preos sejo mais moderados1 comtudo porei aqui hum rol1 feito sinceramente por quem assistio nas ,geraes tres annos1 dos preos das cousas1 que por commum assento l se vendio no anno de #agjc1 repartindo-o em tres ordens1 a saber3 os preos que pertencem s cousas comestiveis2 os do vistuario e armas2 e os dos escravos e cavalgaduras1 que so os seguintes4 ,preos das cousas comestiveis4 ,por huma rez1 oitenta oitavas4 ,por hum boi1 cem oitavas4 ,por huma mo de sessenta espigas de milho1 trinta oitavas4 ,por hum alqueire de farinha de mandioca1 quarenta oitavas4 ,por seis bolos de farinha de milho1 tres oitavas4 ,por hum paio1 tres oitavas4 ,por hum presunto de oito libras1 dezeseis oitavas4 ,por hum pastel pequeno1 huma oitava4 ,por huma libra de manteiga de vacca1 duas oitavas4 ,por huma galinha1 tres ou quatro oitavas4 ,por seis libras de carne de vacca1 huma oitava4 ,por hum queijo da terra1 tres ou quatro oitavas1 conforme o peso4 ,por hum queijo flamengo1 dezeseis oitavas4 ,por hum queijo do ,alemtejo1 tres ou quatro oitavas4 ,por huma boceta de marmelada1 tres oitavas4 ,por hum frasco de confeitos de quatro libras1 dezeseis oitavas4 ,por huma cara de assucar de huma arroba1 trinta e duas oitavas4 ,por huma libra de cidro1 tres oitavas4 ,por hum barrilote de aguardente1 carga de hum escravo1 cem oitavas4 ,por hum barrilote de vinho1 carga de hum escravo1 duzentas oitavas4 ,por hum barrilote de azeite1 duas libras4 ,por quatro oitavas de tabaco em p com cheiro1 huma oitava4 ,por seis oitavas de tabaco sem cheiro em p1 huma oitava4 ,por huma vara de tabaco em corda1 tres oitavas4 ,preos das cousas que pertencem ao vestuario e armas4 ,por huma casaca de baeta ordinaria1 doze oitavas4 ,por huma casaca de pano fino1 vinte oitavas4 ,por huma veste de seda1 dezeseis oitavas4 ,por huns cales de pano fino1 nove oitavas4 ,por huns cales de seda1 doze oitavas4 ,por huma camisa de linho1 tres oitavas4 ,por hum par de meias de seda1 oito oitavas4 ,por hum par de apatos de cordovo1 cinco oitavas4 ,por hum chapo de castor fino1 doze oitavas4 ,por hum chapo ordinario1 seis oitavas4 ,por huma carapua de seda1 quatro ou cinco oitavas4 ,por huma carapua de pano forrada de seda1 cinco oitavas4 ,por huma boceta de tartaruga para tabaco1 seis oitavas4 ,por huma boceta de prata de relevo para tabaco1 se tem oito oitavas de prata1 so dez1 ou doze de ouro conforme o feitio della4 ,por huma espingarda sem prata1 dezeseis oitavas4 ,por huma espingarda bem feita1 e prateada1 cento e vinte oitavas4 ,por huma pistola ordinaria1 dez oitavas4 ,por huma pistola prateada1 quarenta oitavas4 ,por huma faca de ponta com cabo curioso1 seis oitavas4 ,por hum canivete1 duas oitavas4 ,por huma tesoura1 duas oitavas4 ,e toda a bugiaria1 que vem de ,frana1 e de outras partes1 vende-se conforme o desejo1 que mostro ter della os compradores4 ,preos dos escravos1 e das cavalgaduras4 ,por hum negro bem feito1 valente1 e ladino1 trezentas oitavas4 ,por hum moleco1 duzentas e cincoenta oitavas4 ,por hum moleque1 cento e vinte oitavas4 ,por hum crioulo bom official1 quinhentas oitavas4 ,por hum mulato de partes1 ou official1 quinhentas oitavas4 ,por hum bom trombeteiro1 quinhentas oitavas4 ,por huma mulata de partes1 seiscentas ou mais oitavas4 ,por huma negra ladina cozinheira1 trezentas e cincoenta oitavas4 ,por hum cavallo sendeiro1 cem oitavas4 ,por hum cavallo andador1 duas libras de ouro4 ,e estes preos to altos1 e to correntes nas minas1 foro causa de subirem tanto os preos de todas as cousas1 como se experimenta nos portos das cidades e villas do ,brazil1 e de ficarem desfornecidos muitos engenhos de assucar das peas necessarias2 e de padecerem os moradores grande carestia de mantimentos1 por se levarem quasi todos1 aonde vendidos ho de dar maior lucro4 ,,capitulo ,,viii4 ,de diversos preos do ouro vendido no ,brazil1 e do que importa o que cada anno ordinariamente se tira das minas4 ,varios foro os preos do ouro no decurso destes annos3 no s por razo da perfeio de hum1 maior que a do outro1 por serem de mais subidos quilates2 mas tambem a respeito dos lugares1 aonde se vendia3 porque mais barato se vende nas minas1 do que na villa de ,s4 ,paulo1 e de ,santos3 e muito mais vale nas cidades do ,rio de ,janeiro1 e da ,bahia1 do que nas villas referidas4 ,tambem muito mais vale quintado1 do que em p3 porque o que se vende em p1 sahe do fogo com bastantes quebras3 alm do que vai por differena por razo do que se pagou1 ou no se pagou de quintos4 ,huma arroba de ouro em p pelo preo da ,bahia a quatorze tostes a oitava1 importa em quatorze mil trezentos e trinta1 e seis cruzados4 ,quintado1 pelo preo da ,bahia1 a dezeseis tostes a oitava1 importa em dezeseis mil trezentos1 e oitenta1 e quatro cruzados4 ,huma arroba de ouro em p pelo preo do ,rio de ,janeiro1 a treze tostes a oitava1 importa em treze mil trezentos1 e doze cruzados4 ,quintado1 a quinze tostes a oitava1 importa em quinze mil trezentos1 e sessenta cruzados4 ,donde se segue1 que tirando-se cada anno mais de cem arrobas de ouro1 a quinze tostes a oitava1 preo corrente na ,bahia1 e no ,rio de ,janeiro1 sendo quintado1 vem a importar cada anno em hum milho quinhentos1 e trinta e seis cruzados4 ,das quaes cem arrobas1 se se quintarem1 como he justo1 cabem a ,sua ,magestade vinte arrobas1 que importo em trezentos e sete mil1 e duzentos cruzados1 mas he certo1 que cada anno retiro mais de trezentas arrobas4 ,e com isto no parecer incrivel1 o que por fama constante se conta haverem ajuntado em diversos tempos assim huns descobridores dos ,ribeiros nomeados1 como huns mais bem afortunados nas datas3 e tambem os que mettendo gado1 e negros para os venderem por maior preo1 e outros generos mais procurados1 ou plantando1 ou comprando roas de milho nas minas1 se foro aproveitando do que outros tirro4 ,no fallando pois do grande cabedal1 que tirou o governador ,artr de ,s1 que duas vezes foi a ellas do ,rio de ,janeiro1 nem dos que ajuntro huma1 duas1 e tres arrobas1 que no foro poucos4 ,tem-se por certo1 que ,balthazar de ,godoy1 de roas1 e catas1 ajuntou vinte arrobas de ouro4 ,de varios ,ribeiros1 e da negociao com roas1 negros1 e mantimentos1 fez ,francisco do ,amaral mais de cincoenta arrobas4 ,pouco menos ,manoel ,nunes ,vianna1 e ,manoel ,borba ,gato3 e com bastante cabedal se recolheu para ,s4 ,paulo ,jos ,goes de ,almeida2 e para o caminho novo ,garcia ,rodrigues ,paes1 e ,joo ,lopes de ,lima tirro do seu ribeiro cinco arrobas3 os ,penteados de sua lavra1 e industria1 sete arrobas3 ,domingos da ,silva ,moreira1 de negocio1 e lavra1 cinco arrobas3 ,amador ,bueno da ,veiga1 do rio do ,ouro-,preto1 do ribeiro1 e de outras partes1 oito arrobas4 ,e finalmente deixando outros muito bem aproveitados3 ,thomaz ,ferreira abarcando muitas boiadas de gado1 que hia dos campos da ,bahia para as minas1 e comprando muitas roas1 e occupando muitos escravos nas catas de varios ribeiros1 chegou a ter mais de quarenta arrobas de ouro1 parte em ser1 parte para se cobrar4 ,mas tratando de cobrar o ouro1 que se lhe devia1 houve entretanto quem lhe deu por desgostos humas poucas de balas de chumbo1 que he o que succede no poucas vezes nas minas4 ,tambem com vender cousas comestiveis1 aguardente1 e garapas1 muitos em breve tempo accumulro quantidade consideravel de ouro4 ,porque como os negros1 e os ,indios escondem bastantes oitavas1 quando cato nos ribeiros1 e nos dias santos1 e nas ultimas horas do dia tiro ouro para si2 a maior parte deste ouro se gasta em comer1 e beber3 e insensivelmente d aos vendedores grande lucro1 como costuma dar a chuva miuda aos campos1 a qual continuando a rega-los sem estrondo1 os faz muito ferteis4 ,e por isso at os homens de maior cabedal no deixro de se aproveitar por este caminho dessa mina a flr da terra1 tendo negras cozinheiras1 e mulatas doceiras1 e crioulos taverneiros1 occupados nesta rendozissima lavra1 e mandando vir dos portos do mar tudo o que a gula costuma appetecer1 e buscar4 ,,capitulo ,,ix4 ,da obrigao de pagar a ,el-,rei ,nosso ,senhor a quinta parte do ouro1 que se tira das minas do ,brazil4 ,de dous modos se pde tratar este ponto1 a saber3 ou pelo que pertence ao foro externo pelas leis1 e ordenaes do reino2 ou pelo que pertence ao foro interno1 attentando obrigao em consciencia4 ,quanto primeira parte1 consta pela ordenao de ,portugal1 livro #b1 titulo #bf1 #af1 que entre os direitos reaes1 se conto os vieiros1 e minas de ouro1 e prata1 e qualquer outro metal4 ,e no titulo vinte e oito do mesmo livro segundo1 expressamente se declara3 que nas datas1 ou doaes feitas1 nunca se entendro comprehendidos os vieiros1 e minas4 ,por quanto 7diz a ordenao7 em muitas doaes feitas por ns1 e pelos reis nossos antecessores1 so postas algumas clausulas muito geraes1 exuberantes2 declaramos1 que por taes doaes1 e clausulas nellas conteudas1 nunca se entende serem dados os vieiros1 e minas1 de qualquer sorte que sejo2 salvo se expressamente frem nomeadas1 e dadas na dita doao4 ,e para a prescripo das ditas cousas1 no se poder allegar posse alguma1 posto que seja immemorial4 ,podendo pois ,el-,rei tirar sua custa das minas1 que reserva para si1 os metaes1 que so o fruto dellas2 attendendo aos gastos1 que para isso so necessarios1 e querendo animar aos seus vassallos ao descobrimento das ditas minas1 e a participarem do lucro dellas3 assentou1 como se diz no titulo #cd do dito livro #b das ordenaes1 que de todos os metaes1 que se tirarem1 depois de fundido e apurado1 paguem o quinto1 em salvo de todos os custos4 ,e para segurar que se lhe pagasse o dito quinto1 mandou que os ditos metaes se marcassem1 e que se no podessem vender antes de serem quintados1 nem fra do ,reino1 sob pena de perder a fazenda1 e de degredo por dez annos para o ,brazil2 como consta do dito titulo #cd1 #e1 e o que vender os ditos metaes antes de serem marcados1 ou em madre antes de fundidos1 perder a fazenda1 e ser degradado por dez annos para o ,brazil4 ,at aqui a ordenao4 ,e os doutores1 que fallro nesta materia1 assim portuguezes1 como de outras naes1 affirmo concordemente serem de tal sorte as minas de direito real1 por razo dos gastos1 que ,el-,rei faz em prol da ,republica2 que por esta causa no os pde alienar4 ,veja-se entre outros portuguezes ,pedro ,barboza ad ,l4 divortio 4 ,si vir ff4 soluto matrimonio a n4 #ag1 usque ad1 #ba4 ,e ,cabedo1 parte #b1 dias #ee1 de venis metallor4 ,pegas1 ad ,ord4 ,regni ,port4 lib4 #b1 tit4 #bh1 n4 #bd1 com os autores de outros reinos1 que allego particularmente a ,lucas da ,penna ,l4 ,quicumque desertum col4 #b1 post principium ,cod4 de omni agro deserto1 e ,rebuffo tom4 #b1 ad ,leges ,galli tit4 ut beneficia ante vacationem art4 #a1 glossa ult4 post medium pag4 #cbf4 ,e alm destes veja-se ,solorzano de ,indiar4 ,gubern4 tom4 #b1 lib4 #a1 cap4 #ac1 n4 #ee1 et lib4 #e1 cap4 #a1 n4 #ai1 com outros muitos1 que traz3 o qual diz1 ser este o costume de todas as gentes4 ,qu de caus 7diz dicto n4 #ee71 metallorum fodiendorum jus ipsi ,romani1 et post modum ali gentes inter ,regalia computarunt1 et propri ad locorum supremos ,principes pertinere sanxerunt4 ,e porque nesta materia bem he ouvir tambem aos ,theologos1 seja o primeiro o ,p4 ,molina de ,justit4 et ,jure disp4 #ed1 to versado no direito1 como na ,theologia1 e muito particularmente no direito de ,portugal4 ,regulariter 7diz elle7 de jure civili1 vel communi1 vel particularium ,regnorum1 ubicumque ven metallorum fuerint repert1 merito solent esse deputat ,principi1 aut ,reipublic1 ad sumptus publicos oneraque ,reipublic sustinenda3 unde #af1 tit4 #bf1 lib4 #b1 ,ord4 ,lusitani ,regni sic habet3 item direito real he os vieiros1 e minas de ouro1 e prata1 ou qualquer outro metal4 ,ut tamen lucri spe homines alliciantur ad eas in bonum publicum querendas1 et aperiendas1 statui solent vari leges pro temporum et locorum varietate1 quibus vel pars aliqua eorum1 qu inde fuerint extracta1 vel prmia aliis inventoribus constituuntur4 ,e in terminis pela ordenao de ,portugal diz3 concessum1 et statutum est1 ut deductis expensis1 quinta metallorum pars1 qu inde extracta fuerint1 regi persolvatur4 ,o ,padre ,vasques in ,opusculis moralibus de restitutione1 cap4 #e1 #d1 dub4 #b1 fallando do ,reino de ,castella diz3 in nostro regno applicata sunt patrimonio regio qucumque ,mineralia1 ubi metalla fiunt argenti vivi per #a4f1 recop4 tit4 #ac1 #a4d4 ,sed quo jure 7diz elle7 ,rex potuerit sibi applicare ,mineralia omnia1 in fundis etiam privatis procreata1 nullus auctorum dixit1 quos citavi4 ,mihi videtur ad hc dicendum quod1 quamvis ,mineralia jure naturali sint domini ipsius agri1 potuit hoc jus ,mineralium ab antiquo esse1 potuerunt hujus regni terr et prdia distribui1 ut tamen ,mineralia regibus reservata manerent suo patrimonio annumerata4 ,e a mesma razo d ,molina1 de ,just4 et ,jure disp4 #ef1 ult41 por estas palavras3 ,licet enim stando in solo gentium jure ea inventa1 qu domino carent1 sint primo occupanti2 nihilominus1 quemadmodum jus civile statuere potuit1 ut qui casu thesaurum in agro alieno inveniret1 in interiori et exteriori foro teneretur tribuere illius dimidium domino agri2 qui vero illum de industria inveniret1 teneretur tribuere eidem totum3 cur etiam non poterit simili modo statuere1 ut1 ad sustinenda ,reipublic onera1 thesauri1 qui deinceps invenientur1 pertineant integri ad regem1 aut ut in illis certam aliquam habeat partem8 ,neque enim id est statuere aliquid contra jus gentium2 sed rationabili ex caus impedire1 ne dominium thesauri inventi sit alicujus1 cujus esset1 stando in solo naturali ac gentium jure3 efficereque ut sit alterius3 id quod potest optim ,respublica facere2 non secus ac efficere potest1 ut venatio aliqua illicita sit1 qu1 stando in solo jure naturali ac gentium1 esset licita1 ut disp4 #dc1 ostensum est4 ,e pela mesma razo se hade de dizer o mesmo das minas1 ainda que forem achadas em terras de particulares4 ,e quando no bastasse esta razo1 que certamente he foroza2 o ,cardeal de ,lugo in tractatu de ,justiti et ,jure tom4 #a1 disp4 #f1 sect4 #aj1 n4 #ajh1 mostra1 que ,el-,rei pde reservar para si as minas 7ainda que se achem em terra de particulares71 por modo de tributo1 e tributo muito bem posto1 mandando que se lhe pague alguma parte do que se tirar dellas1 para os gastos da ,republica4 ,et de facto 7diz7 jure humano solent husjus modi ,mineralia1 quod aliquam saltem partem1 maiorem vel minorem1 ,principi applicari2 quoad aliam vero inventori3 quod quidem fieri potuit1 vel quia ab initio agri e lege singulis in e provinci distributi fuerunt1 ut ,mineralia ,principis dispositioni reservarentur1 ut vult ,vasques de restitutione cap4 #e1 #d1 dub4 #b1 n4 #ag1 vel cert per modum tributi2 sicut potest ,princeps ad subsidium et sumptus publicos alia tributa exigere4 ,aliunde ver justificatur non parum ille modus tributi ex eo1 qud1 cm aurum et argentum sint potissim ,reipublic vires1 non expedit1 qud in iis ,princeps ipse et tota ,respublica dependeant a duobus1 vel tribus privatis1 qui soli ea metalla in suis prdiis colligant1 ac collecta reservent1 et ad nutum distribuant4 ,ou se considerem pois as minas como parte do patrimonio real1 ou como justo tributo para os gastos em prol da ,republica1 he certo que se deve a ,el-,rei o que para si reservou1 que he a quinta parte do ouro1 que dellas se tirar1 puro1 e livre de todos os gastos3 e que o que se manda nas ordenaes1 acima referido1 est justamente ordenado3 e que1 prescindindo de qualquer pena1 o quinto1 ex natur rei1 se lhe deve1 no menos1 que outro qualquer justo tributo1 ordenado para bem da ,republica2 ou como cobra a penso1 que impe sobre qualquer outra parte do seu patrimonio1 como he a que se lhe deve1 e se lhe paga dos feudos4 ,e se alguem disser que de outra sorte se hade julgar das minas do ,brazil1 que das do ,reino de ,portugal1 por ser mais certo o direito do dominio1 e posse que compete a ,el-,rei do ,reino de ,portugal1 que o das conquistas do ,brazil2 se se examinar a sua origem1 merecer como temerario a mesma resposta1 que1 fallando das conquistas das ,indias ,occidentaes1 dadas aos ,reis de ,castella pelo ,summo ,pontifice ,alexandre ,,vi1 dro1 depois de tratarem esta materia com singular doutrina e atteno1 vares doutissimos em seus tratados1 trazendo as bullas1 e ponderando e examinando a autoridade do ,summo ,pontifice para semelhantes doaes1 e os justos motivos de as fazerem2 dizendo ultimamente1 que j se no devia permittir o pr-se isto em duvida1 por ser sentena do vigario de ,christo na terra1 dada1 e publicada legitimamente1 depois de maduro conselho1 e grande atteno1 como pedia a materia1 e defendida1 por justa1 valida e licita1 de tantos e to insignes doutores4 ,ita ,solorzano1 de ,indiarum gubernatione tom4 #a1 lib4 #b1 cap4 #bd1 n4 #da4 ,avendanho1 in thesauro ,indico t4 #a1 tit4 #a1 cap4 #a1 per totum1 et prcipue1 #d1 n4 #ag1 aonde tambem diz1 que ,mascardo1 in tractatu de ,judis et infidelibus1 part4 #a1 cap4 #ad1 no duvida affirmar1 que o poder do ,papa para tal doao he to certo1 que dizer o contrario parece que tem sabor de ,heresia3 o que o mesmo ,avendanho explica em que sentido se deve entender4 ,e que merea a mesma resposta quem disser o mesmo da conquista do ,brazil1 ninguem o poder negar com razo3 possuindo os ,reis de ,portugal pelos mesmos titulos o ,brazil e as outras conquistas1 pelos quaes todos esses autores1 ,solorzano1 e ,avendanho1 e outros doutissima e solidissimamente provo o legitimo dominio e posse1 que compete aos ,reis de ,castella1 das ,indias ,occidentaes1 como consta pelas bullas dos ,summos ,pontifices1 ,calisto ,,iii1 ,nicolo ,v1 e ,alexandre ,,vi1 que se acho no mesmo cap4 #bd de ,solorzano1 desde a pag4 #cdd at a pag4 #cee1 em todo o lib4 #b1 do dito primeiro tomo de ,indiar4 ,gubern4 que consta de #be cap41 e no terceiro1 que consta de #h1 aonde com singular erudio prova unicamente a justia1 com que se adquirio e se conserva o dominio1 e posse destas conquistas4 ,e fallando o mesmo ,solorzano1 no segundo tomo1 lib4 #e1 cap4 #a1 em particular das minas1 e dos metaes1 que dellas se tiro1 n4 #ai1 diz que1 assim nas ,indias1 como em qualquer outra parte1 pertencem ao direito de ,el-,rei1 como seu patrimonio1 e parte do seu supremo dominio1 quer se achem em lugar publico1 quer em terras ou fazendas dos particulares3 de sorte que nunca se entendem comprehendidas nas datas1 e doaes1 ainda que geralmente feitas1 se se no fizer especial meno dellas4 ,e para confirmar o que diz1 traz vinte e quatro autores1 que tratro de regalibus1 de metallis1 et de ,jure ,fisci2 ou interpretro o cap #a4 ,qu sint regalia1 ou a lei #b1 cod4 de ,metallor4 ,diz tambem n4 #bj1 que por razo dos gastos1 que so necessarios para tirar os metaes das minas destas conquistas1 contento-se os ,reis com que se lhes pague a quinta parte do metal1 que se tirar2 prohibindo usar delle at no ser marcado com o cunho real1 para que conste1 que se pagou a quinta parte4 ,e porque podia haver duvida1 se esta quinta parte de metal se havia de entender como vem da terra no limpo1 e se se havio de comprehender nella os gastos1 ou se se havio de dar livre delles2 traz no n4 #af1 a ordem d',el-,rei de #afjd1 que decidio ambas as duvidas por estas palavras4 ,el quinto neto1 y sin descuento de custas1 puesto en poder del maestro tesorero1 receptor1 que he o que tambem diz a ordenao de ,portugal tit4 #cd1 do liv4 #b4 ,depois de fundido e apurado1 paguem o quinto em salvo de todos os custos4 ,nota mais ,solorzano n4 #bg do dito cap4 #a1 do liv4 #e1 que quando se falla de fructos da terra1 se entendem tambem os metaes3 allegando para isso a ,joo ,garcia de expensis cap4 #bb1 n4 #dg4 ,lazarte de ,gabelliis cap4 #ai1 n4 #ei2 ,barboza1 indicto 4 ,si vir1 ,l4 ,divortio ff4 soluto matrimonio2 ,marquech1 de divisione bonorum lib4 #b1 cap4 #aa1 n4 #bc1 et seq2 ,cabedo1 decis4 #ha1 n4 #b1 part4 #b2 ,gilken1 de expensis metallorum in ,l4 ,certum cod4 de rei vindicat1 cap4 #e1 pag4 #gbb2 ,farinac1 quest4 #ajd1 n4 #fb e #fc2 ,tash1 verbo min4 concl4 #bcg1 et verbo prventio1 aonde trata de como as minas1 de quem quer que se occupem1 sempre passo com sua obrigao4 ,nvius1 in system4 ad ,l4 #b1 cod4 de ,metallor2 ,pancirolus1 in thesaur4 lib4 #c1 cap4 #ca1 pag4 #bad1 #cbg e #cgb2 ,marsil1 singul4 #eca1 e ,menoch1 cons4 #gic1 a n4 #af4 ,e que consequentemente1 como os outros fructos da terra esto sujeitos ao dizimo1 que os ,papas concedro aos ,reis de ,portugal e aos de ,castella3 ut ex ,l4 cuncti ,cod4 de ,metallor4 ,butrius1 et alii in cap4 ,pervenit de decimis1 ,rebuffus1 quaest #aj1 n4 #bd1 et #be1 et ,solorzano de ,indiar4 ,gubern4 tom4 #b1 lib4 #c4 cap4 #ba1 n4 #aj1 posto que os ,reis 7como diz o mesmo ,solorzano7 no tratem de cobrar estes dizimos dos mineiros1 contentando-se por razo dos gastos com que lhe paguem a quinta parte do ouro1 e prata1 que tiro de suas minas1 que so parte do seu patrimonio1 e parte sempre reservada1 como est dito4 ,passando agora ao outro ponto1 em que se pergunta1 se esta lei de pagar a ,el-,rei a quinta parte do ouro que se tira das minas1 obriga em consciencia3 digo1 que a resoluo desta duvida depende de tirar huma falsa imaginao de alguns menos attentos1 e accelerados em resolver3 os quaes1 por verem que esta lei he acompanhada da comminao da pena da perda da fazenda1 e do degredo por dez annos1 e de outras pelo novo regimento cerca das minas do ,brazil1 cuido que he lei meramente penal1 e que como tal no obriga em consciencia1 nem antes da sentena do juiz1 aos transgressores della1 conforme o commum sentir dos theologos1 e moralistas1 que trato das leis1 e em particular das penaes4 ,porm o ,p4 ,francisco ,soares1 examinando mais profundamente 7como costuma7 este ponto no ,l4 #e de legibus4 cap4 #ac a n4 #b1 resolve1 que as imposies e penses1 que se pago aos ,reis e ,principes por cousas suas immoveis1 e fructos dellas1 so tributos reaes1 e naturaes1 fundados em justia2 porque se cobro de cousas proprias dos ditos ,principes1 aos quaes se dro para a sua sustentao2 e elles as dro aos seus vassallos com obrigao de lhes pagarem estas penses2 e que por isso as leis que mando pagar estas penses1 ou tributos1 ainda que se lhes acrescente alguma pena1 sem duvida no se podem chamar1 nem so puramente penaes1 mas dispositivas1 e moraes3 assim como so as convencionaes entre partes1 que para maior firmeza admittem pena entre os contrahentes1 para que se guardem os contractos1 e as promessas de fazer1 ou pagar qualquer divida1 que aliunde de justia se deva4 ,e que consequentemente estas leis obrigo em consciencia a pagar taes penses1 e tributos inteiramente1 espontaneamente1 e sem diminuio alguma1 ou engano1 ainda que se no peo2 porque se devem de justia commutativa1 que traz comsigo esta intrinseca obrigao1 se no houver pacto em contrario4 ,at aqui o ,p4 ,soares n4 #d1 he o citato4 ,e deste fundamento certissimo se infere tambem certamente1 que os quintos do ouro1 que se tira das minas do ,brazil1 se devem a ,el-,rei em consciencia3 e que a lei feita para segurar a cobrana delles1 no he meramente penal1 ainda que traga annexa a comminao da pena contra os transgressores2 mas he lei dispositiva1 e moral1 e que obriga antes da sentena do juiz em consciencia4 ,porque sendo ,el-,rei 7como est provado na primeira parte desta questo7 senhor legitimo das minas por doao1 que lhes fez dellas com a conquista do ,brazil o ,summo ,pontifice1 e por todos os outros titulos1 que traz ,solorzano em todo o ,l4 #b1 do t4 #a1 de ,indiar4 ,gubern4 commum aos ,reis de ,portugal como aos ,reis de ,castella3 e sendo as ditas minas do direito real1 e parte do seu patrimonio1 como quaesquer outros bens1 que se lhes dro para sua sustentao1 e gastos que faz em prol da ,republica1 e para conservao1 e augmento da f3 e reservando-as para si em todas as datas1 nem dando licena de tirar ouro dellas1 se no com condio1 que quem o tirar pague a quinta parte do que tirar1 puro e deseccado1 e livre de todos os gastos3 e podendo pretender isto 7prescindindo dos outros titulos7 por justo e bem ordenado1 como est provado com as razes1 e autoridade de tantos doutores acima allegados3 claro est1 que esta obrigao est fundada em justia commutativa1 como a de quaesquer outros pactos1 e promessas de qualquer outro justo contracto1 que costumo admittir os contrahentes em suas convenes3 e que1 ainda que a lei no acrescentasse pena aos transgressores1 sempre devio pagar estes quintos1 por ser obrigao intrinseca3 e que o pr-lhe a pena1 he para facilitar mais a cobrana do que se lhe deve1 e no para fazer huma lei meramente penal4 ,nam adjectio pn 7diz ,soares n4 #aj7 non tollit obligationem1 quam eadem lex1 prcise lata sine poen1 induceret in conscienci3 ergo licet illi addatur pna1 obligata per se ad tributum1 persolvendum1 vel restituendum1 7si contra justitiam non sit solutum7 absque ull condemnatione1 vel sententi1 etiamsi tunc nemo obliget ad pn solutionem ante sententiam1 juxta generalem doctrinam datam de lege pnali4 ,e declarando isto1 diz mais1 que esta lei he mixta1 ou quasi composta de tributo1 e de pena2 e que se ordeno a diversos fins a imposio da penso1 ou tributo1 e a pena1 que se lhes acrescenta3 porque o tributo se ordena sustentao d',el-,rei1 ou a satisfazer a obrigao natural1 que tem os vassallos de dar justo estipendio a ,el-,rei1 que trabalha em prol da ,republica3 e a pena se ordena a que se cumpra esta obrigao1 e se castigue quem a no cumprir como deve3 logo ainda que o tributo1 ou penso seja justa1 e adequada ao seu fim1 e a obrigao fique inteira1 justamente se lhe acrescenta a comminao da pena1 e justamente se executa1 se houver culpa1 alm da inteira cobrana do tributo4 ,assim como nas penas1 que de commum consentimento se poem pelos contrahentes em algum justo contracto1 se pde justamente obrigar o violador da promessa feita no contracto a que pague a dita pena1 alm do interesse e damno1 que da transgresso se seguio4 ,e diz que o mesmo succede no nosso caso3 porque se faz como hum contracto entre ,el-,rei1 e seus vassallos1 para que ,el-,rei os governe1 e os subditos os sustentem com penses1 e tributos4 ,e para segurar que se paguem1 pde acrescentar-se-lhe a pena2 a qual no diminue a fora1 e obrigao do contracto2 mas sirva de huma nova conveno para que os subditos paguem o que por justia lhe devem4 ,at aqui o ,p4 ,soares no dito cap4 #ac1 n4 #aj4 ,e isto parece que bastra para mostrar1 que os quintos do ouro1 que se tiro das minas do ,brazil1 se devem em consciencia1 e antes da condemnao1 ou sentena1 a ,el-,rei ,nosso ,senhor de justia1 e no por huma lei meramente penal como alguns erradamente imagino4 ,acrescentarei porm outros motivos para estabelecer mais esta resoluo4 ,e seja o primeiro1 que esta lei dos quintos 7como advertio ,avendanho in ,thesauro ,indit4 #a1 tit4 #e1 cap4 #h1 n4 #dc71 he muito racional pela razo que traz ,molina disp4 #ef de ,just4 e ,jure1 ult4 e vem a ser3 porque est posto em razo1 que o principe tenha alguma parte mais que os outros particulares em cousas de preos singulares1 como tem em outros bens2 ainda quando pareceria ser melhor d-las ao publico4 ,e assim1 faltando os parentes at certo gro1 os bens dos que morrem ab intestato vo ao fisco real3 e em pena de alguns crimes1 logra ,el-,rei os bens confiscados1 que se alguem por parente1 ainda que muito chegado do ro1 os tirasse ao fisco1 peccaria contra a justia1 com obrigao de os restituir4 ,logo quanto mais se hade dizer do mesmo1 quando reservar os quintos do ouro se ordena no smente sustentao d',el-,rei1 mas tambem os gastos em proveito da ,republica1 e para a conservao1 e augmento da f1 ficando aos mineiros o mais do ouro1 de que retiro os quintos8 ,segundo1 porque ,filippe ,,ii1 ,rei de ,castella1 depois de ter ouvido o parecer dos theologos1 e conselheiros da ,india1 escreveu resolutamente ao ,vice-,rei do ,per o ,conde de ,villar1 no anno de #aehd1 desta sorte3 ,i pudiera-yo cobrar enteramente el quinto de todo ello3 7a saber7 do ouro1 e pratas lavradas1 y las personnas1 que le deben1 estan obligadas en consciencia a me lo pagar4 ,o que no diria de sua cabea1 contra o parecer dos ditos theologos1 e conselheiros1 se assim o no tivessem entendido1 como refere ,avendanho no dito cap4 #h1 n4 #dd1 e traz logo em confirmao disto a lei de ,portugal pela qual 7como diz o ,p4 ,rebello7 se devem os quintos a ,el-,rei antes da condemnao ou sentena4 ,diz mais ,avendanho em prova de que se devem os quintos em consciencia1 que assim o tem mais de vinte autores que allega3 entre os quaes so ,vasques1 ,molina1 ,lugo1 ,rebello1 ,azor1 ,lessio1 ,castilho1 ,fragozo1 e outros quinze1 todos da mesma opinio4 ,e de algum quero citar as palavras1 para que melhor conste da verdade1 e da autoridade das pessoas1 que assim sentem4 ,vasques in tract4 de restitutione cap4 #e1 n4 #cj ast43 arbitror1 quod prdict leges non fundentur in prsumptione1 nec pnales sint3 et ita null expectat sententi sunt observand4 ,et n4 #bi1 citat ,covarruviam1 ,caietanum1 et ,navarrum1 ita sentientes4 ,lugo t4 #a1 de ,justitia1 et ,jure disp4 #f1 sect4 #aa1 n4 #aca1 diz3 ,ali autem ,leges1 qu penales non sunt1 potuerunt quidem transferre dominium in fiscum3 et ideo videntur in conscienti obligare ante omnem sententiam judicis4 ,molina dicta disp4 #ef de ,justitia1 et ,jure ult4 ibi3 ,in interiori1 et exteriori foro4 ,terceiro1 porque do ouro1 e da prata se deve pagar o dizimo1 do mesmo modo que dos outros fructos da terra1 como est provado acima com os autores que traz ,solorzano tom4 #b1 lib4 #c1 cap4 #ba1 n4 #aj1 e o prova tambem o ,p4 ,soares t4 #a1 de religione lib4 #a1 de divino cultu1 cap4 #cd1 n4 #c e #f1 e o ,p4 ,tancredi tract4 #a1 de religione lib4 #b1 disp4 #aa1 n4 #g1 ex omnium mente3 et se inferre ex generali dispositione in cap4 ,non est1 de decimis1 ubi illa habentur verba3 de omnibus bonis decim sunt ecclesi tribuend3 et ex cap4 transmissa1 et ex cap4 tua nobis4 ,tendo pois os ,summos ,pontifices dado os dizimos do ,brazil1 e de outras conquistas aos ,reis de ,portugal1 pelas despezas que fazio1 e fazem nas mesmas conquistas1 e pelos outros motivos1 que allego em suas bullas 7o que podio fazer e de facto o fizero aos outros ,reis e ,principes1 pelas razes1 e autoridades1 que traz eruditamente ,solorzano1 com as mesmas bullas1 t4 #b1 de ,indiar4 ,gubern4 lib4 #c1 cap4 #a71 segue-se1 que tambem lhe dro1 e se lhes ho de pagar os dizimos do ouro1 e prata1 que das minas do ,brazil se tirarem3 e que assim estes1 como os dizimos dos outros fructos da terra1 se lhes devem em consciencia4 ,e que1 sendo as minas dos ,reis1 attentando aos gastos1 que se fazem em tirarem os metaes1 no tratem de cobrar o dizimo1 e se contentem com a opinio1 ou tributo do quinto2 no se podem dizer rigorozos2 mas antes benignos1 como notou ,avendanho no lugar citado a n4 #de1 com ,fragozo tom #a1 pag4 #bfe1 alii addunt4 ,de tudo isto se segue1 que o dizer que os quintos do ouro se devem a ,el-,rei em consciencia1 he a opinio verdadeira1 mais provavel1 e mais segura1 assim pelos motivos intrinsecos dos seus fundamentos1 particularmente pelos que traz o ,p4 ,soares acima referidos2 como pelos extrinsecos da autoridade dos doutores allegados1 que so theologos de grande doutrina1 e religio2 deixando a opinio contraria muito duvidosa1 muito fraca2 e nada segura4 ,e que os officiaes deputados por ,el-,rei cobrana dos quintos1 e a cunhar o ouro1 tem a obrigao grave em consciencia1 de fazer bem1 e fielmente o seu officio3 e que no podem dissimular os gravissimos prejuizos1 que se fazem ao patrimonio real1 defraudado por culpa delles1 de muito lucro2 recebendo estipendio do mesmo ,rei1 que tem a sua teno bem fundada1 para que com fidelidade fao seu officio4 ,ita ,avendanho n4 #dh4 ,o qual porm n4 #ef1 he de opinio1 que a prohibio de negociar com ouro em p1 no obriga em consciencia1 como obriga a lei de pagar os quintos3 mas que o dito ouro em p passa com a mesma obrigao de ser quintado a quem quer que vai1 at se satisfazer a esta intrinseca obrigao4 ,e com isto mais se confirma o que est dito da lei dos quintos1 por ser dispositiva1 e penal3 porque em quanto he dispositiva do que se deve de justia a ,el-,rei1 que so os quintos1 obriga em consciencia3 e em quanto he penal1 faz que a pena dos transgressores no se deva em consciencia1 seno depois da sentena4 ,em huma palavra3 o quinto sempre se deve de justia2 e a perda da fazenda1 e o degredo1 s post sententiam4 ,,capitulo ,x4 ,roteiro do caminho da villa de ,s4 ,paulo para as ,minas ,geraes1 e para o ,rio das ,velhas4 ,gasto commummente os paulistas desde a villa de ,s4 ,paulo at as ,minas ,geraes dos ,catagus pelo menos1 dous mezes2 porque no marcho de sol a sol1 mas at o meio dia2 e quando muito at huma1 ou duas horas da tarde3 assim para se arrancharem1 como para terem tempo de descanar1 e de buscar alguma caa1 ou peixe1 aonde o ha1 mel de po1 e outro qualquer mantimento4 ,e desta sorte aturo com to grande trabalho4 ,o roteiro do seu caminho desde a villa de ,s4 ,paulo1 at a ,serra de ,itatiaya1 aonde se divide em dous2 hum para as minas do ,cait1 ou ribeiro de ,nossa ,senhora do ,carmo1 e do ,ouro ,preto2 e outro para as minas do ,rio das ,velhas2 he o seguinte1 em que se aponto os pousos1 e paragens do dito caminho1 com as distancias que tem1 e os dias que pouco mais ou menos se gasto de huma estalagem para outra1 em que os ministros pouso1 e se he necessario descano1 e se refazem do que ho mister1 e hoje se acha em taes paragens4 ,no primeiro dia sahindo da villa de ,s4 ,paulo vo ordinariamente pousar em ,nossa ,senhora da ,penha1 por ser 7como elles dizem7 o primeiro arranco de casa3 e no so mais que duas legoas4 ,dahi vo alda de ,tacuaquisetuba1 caminho de hum dia4 ,gasto da dita alda at a villa de ,mogi1 dous dias4 ,de ,mogi vo as ,larangeiras1 caminhando1 quatro ou cinco dias at o jantar4 ,das ,larangeiras at a villa de ,jacarey1 hum dia at as tres horas4 ,de ,jacarey at a villa de ,taubat dous dias at ao jantar4 ,de ,taubat a ,pindamonhangaba1 freguezia de ,nossa ,senhora da ,conceio1 dia e meio4 ,de ,pindamonhangaba at a villa de ,guiratinguet1 cinco ou seis dias at o jantar4 ,de ,guiratinguet at o porto de ,guaipacare1 aonde fico as roas de ,bento ,rodrigues1 dous dias at ao jantar4 ,destas roas at ao p da serra afamada de ,amantiquira1 pelas cinco serras muito altas1 que parecem os primeiros morros1 que o ouro tem no caminho1 para que no cheguem l os mineiros1 gasto-se tres dias at ao jantar4 ,daqui comeo a passar o ribeiro1 que chamo passa vinte1 porque vinte vezes se passa2 e se sbe as serras sobreditas3 para passar as quaes1 se descarrego as cavalgaduras1 pelos grandes riscos dos despinhadeiros que se encontro3 e assim gasto dous dias em passar com grande difficuldade estas serras2 e dahi se descobrem muitas1 e aprasiveis arvores de pinhes1 que a seu tempo do abundancia delles para o sustento dos mineiros1 como tambem porcos montezes1 araras1 e papagaios4 ,logo passando outro ribeiro1 que chamo passa trinta1 porque trinta e mais vezes se passa1 se vai aos pinheiros3 lugar assim chamado1 por ser o principio delles3 e aqui ha roas de milho1 aboboras1 e feijo1 que so as lavouras feitas pelos descobridores das minas1 e por outros1 que por ahi querem voltar4 ,e s disto consto aquellas1 e outras roas nos caminhos1 e paragens das minas3 e quando muito1 tem de mais algumas batatas4 ,porm em algumas dellas hoje1 acho-se1 criao de porcos domesticos1 galinhas1 e franges1 que vendem por alto preo aos passageiros1 levantando-o tanto mais1 quanto he maior a necessidade dos que passo4 ,e dahi vem o dizerem1 que todo o que passou a serra de ,amantiquira1 ahi deixou dependurada1 ou sepultada a consciencia4 ,dos ,pinheiros se vai estalagem do ,rio ,verde1 em oito dias1 pouco mais1 ou menos1 at o jantar1 e esta estalagem tem muitas roas1 e vendas de cousas comestiveis1 sem lhe faltar o regalo de doces4 ,dahi caminhando tres1 ou quatro dias pouco mais1 ou menos1 at ao jantar1 se d na afamada ,boa ,vista2 a quem bem se deu este nome1 pelo que se descobre daquelle monte1 que parece hum mundo novo1 muito alegre3 tudo campo bem estendido1 e todo regado de ribeires1 huns maiores que outros1 e todos com seu mato1 que vai fazendo sombra1 com muito palmito1 que se come1 e mel de po1 medicinal1 e gostoso4 ,tem este campo seus altos e baixos2 porm moderados3 e por elle se caminha com alegria2 porque tem os olhos que ver e contemplar na perspectiva do ,monte ,caxamb1 que se levanta as nuvens com admiravel altura4 ,da ,boa ,vista se vai estalagem chamada ,ubay1 aonde tambem ha roas1 e ser oito dias de caminho moderado at ao jantar4 ,do ,ubay1 em tres ou quatro dias vo ao ,ingay4 ,do ,ingay1 em quatro ou cinco dias se vai ao ,rio ,grande2 o qual quando est cheio1 causa medo pela violencia com que corre1 mas tem muito peixe1 e porto com canas1 e quem quer passar1 paga tres vintens1 e tem perto suas roas4 ,do ,rio ,grande se vai em cinco dias1 ao ,rio das ,mortes1 assim chamado pelas que nelle se fizro3 e esta he a principal estalagem aonde os passageiros se refazem1 por chegarem j muito faltos de mantimentos4 ,e neste rio1 e nos ribeiros1 e corregos1 que nelle do1 ha muito ouro1 e muito se tem tirado e tira3 e o lugar he muito alegre1 e capaz de se fazer nelle morada estavel1 se no fosse to longe do mar4 ,desta estalagem vo em seis1 ou oito dias s plantaes de ,garcia ,rodrigues4 ,e daqui1 em dous dias chego ,serra de ,itatiaja4 ,desta serra seguem-se dous caminhos3 hum que vai a dar nas ,minas ,geraes do ,ribeiro de ,nossa ,senhora do ,carmo1 e do ,ouro ,preto2 e outro1 que vai a dar nas minas do ,rio das ,velhas3 cada hum delles de seis dias de viagem4 ,e desta serra tambem comeo as roarias de milho e feijo a perder-se de vista1 donde se provm os que assistem1 e lavro nas minas4 ,,capitulo ,,xi4 ,roteiro do caminho velho da cidade do ,rio de ,janeiro para as ,minas ,geraes dos ,cataguas1 e do ,rio das ,velhas4 ,em menos de trinta dias1 marchando de sol a sol1 podem chegar os que partem da cidade do ,rio de ,janeiro s ,minas ,geraes2 porm raras vezes succede poderem seguir esta marcha1 por ser o caminho mais aspero que o dos paulistas4 ,e por relao de quem andou por elle em companhia do ,governador ,artr de ,s1 he o seguinte4 ,partindo aos #bc de ,agosto da cidade do ,rio de ,janeiro foro a ,paraty1 de ,paraty a ,taubat1 de ,taubat a ,pindamonhangaba1 de ,pindamonhangaba a ,guaratinguet1 de ,guaratinguet s roas de ,garcia ,rodrigues1 destas roas ao ribeiro4 ,e do ribeiro com oito dias mais de sol a sol chegro ao ,rio das ,velhas aos #bi de ,novembro3 havendo parado no caminho oito dias em ,paraty1 dezoito em ,taubat1 dous em ,guaratinguet1 dous nas roas de ,garcia ,rodrigues1 e vinte e seis no ribeiro4 ,que por todos so cincoenta e seis dias4 ,e tirando estes de noventa e nove1 que se conto desde #bc de ,agosto at #bi de ,novembro1 viro a gastar neste caminho no mais que quarenta e tres dias4 ,,capitulo ,,xii4 ,roteiro do caminho novo da cidade do ,rio de ,janeiro para as ,minas4 ,partindo da cidade do ,rio de ,janeiro por terra com gente carregada1 e marchando ,paulista1 a primeira jornada se vai a ,iraj2 a segunda ao engenho do ,alcaide ,mr1 ,thom ,corra2 a terceira ao porto do ,nobrega no ,rio ,iguass1 aonde ha passagem de canas1 e saveiros2 a quarta ao sitio1 que chamo de ,manoel do ,couto4 ,e quem vai por mar e embarcao ligeira1 em hum dia se pe no porto da ,freguezia de ,nossa ,senhora do ,pilar3 e em outro1 em cana1 subindo pelo ,rio de ,morobai acima1 ou hindo por terra1 chega pelo meio dia ao referido sitio do ,couto4 ,deste se vai a cachoeira do p da serra1 e se pousa em ranchos4 ,e daqui se sbe serra1 que so duas boas legoas3 e descendo o cume1 se arrancha nos pousos1 que chamo ,frios4 ,no dito cume faz hum taboleiro direito em que se pde formar hum grande batalho3 e em dia claro1 he sitio bem formozo1 e se descobre delle o ,rio de ,janeiro1 e inteiramente todo o seu reconcavo4 ,dos pousos frios se vai primeira roa do ,capito ,marcos da ,costa3 e della em duas jornadas segunda roa que chamo do ,alferes4 ,da roa do ,alferes1 em huma jornada se vai ao ,po ,grande1 roa que agora principia1 e dahi se vai pousar no mato ao p de hum morro1 que chamo ,cabar4 ,deste morro se vai ao famozo ,rio ,parahyba1 cuja passagem he em canas4 ,da parte d'quem est huma venda de ,garcia ,rodrigues1 e ha bastantes ranchos para os passageiros3 e da parte d'alm est a casa do dito ,garcia ,rodrigues1 com larguissimas roarias4 ,daqui se passa ao ,rio ,parahibuna em duas jornadas3 a primeira no mato1 e a segunda no porto1 onde ha roaria1 e venda importante1 e ranchos para os passageiros de huma e outra parte4 ,he este rio pouco menos caudaloso que o ,parahiba3 passa-se em cana4 ,do ,rio ,parahibuna fazem duas jornadas ,roa do contraste ,simo ,pereira1 e o pouso da primeira he no mato4 ,da roa do dito ,simo ,pereira se vai de ,mathias ,barboza3 e dahi roa de ,antonio de ,araujo3 e desta roa do ,capito ,jos de ,souza3 donde se passa roa do ,alcaide ,mr ,thom ,corra3 e desta de ,manoel de ,araujo4 ,e em todas estas jornadas se vai sempre pela visinhana do ,parahibuna4 ,da roa do dito ,manoel de ,araujo1 se vai a outra rocinha do mesmo4 ,desta rocinha se passa primeira roa do ,sr4 ,bispo3 e dahi segunda do dito4 ,da segunda roa do ,sr4 ,bispo fazem huma jornada pequena1 borda do campo1 roa do ,coronel ,domingos ,rodrigues da ,fonseca4 ,quem vai para o ,rio das ,mortes1 passa desta roa de ,alberto ,dias3 dahi de ,manoel de ,araujo1 que chamo da ,resaca1 e desta ponta do morro1 que he arraial bastante1 com muitas lavras1 donde se tem tirado grande copia de ouro3 e ahi est hum fortim1 com trinheiras1 e fosso1 que fizro os ,emboabas1 no primeiro levantamento4 ,deste lugar se vai jantar ao arraial do ,rio das ,mortes4 ,e quem segue a estrada das ,minas ,geraes1 da roa sobredita de ,manoel de ,araujo da ,resaca do ,campo vai roa1 que chamo de ,joo ,baptista3 dahi de ,joo da ,silva ,costa1 e desta roa das ,congonhas1 junto ao ,rodejo da ,itatiaja3 da qual se passa ao campo do ,ouro ,preto1 aonde ha varias roas1 e de qualquer dellas he huma jornada pequena ao arraial do ,ouro ,preto1 que fica mato dentro1 onde esto as lavras do ouro4 ,todas as referidas marchas far distancia de oitenta legoas a respeito dos rodeios1 que se fazem em razo dos muitos1 e grandes morros1 e por rumo de ,norte a ,sul1 no so mais que dous gros de distancia ao ,rio de ,janeiro3 porque o ,ouro ,preto est em vinte e hum gros1 e o ,rio das ,velhas estar em vinte1 pouco mais ou menos4 ,e todo o dito caminho se pde andar em dez at doze dias1 indo escoteiro quem fr por elle4 ,do campo do ,ouro ,preto ao ,rio das ,velhas1 so cinco jornadas1 pousando sempre em roas4 ,,capitulo ,,xiii4 ,roteiro do caminho da cidade da ,bahia para as minas do ,rio das ,velhas4 ,partindo da cidade da ,bahia1 a primeira pousada he na ,cachoeira2 da ,cachoeira vo ,alda de ,santo ,antonio de ,joo ,amaro3 e dahi ,tranqueira4 ,aqui divide-se o caminho3 e1 tomando-o mo direita1 vo aos curraes do ,filgueira logo nascena do ,rio das ,rs4 ,dahi passo ao curral do ,coronel ,antonio ,vieira ,lima1 e deste curral vo ao arraial de ,mathias ,cardozo4 ,mas se quizerem seguir o caminho mo esquerda1 chegando ,tranqueira1 mettem-se logo no caminho novo e mais breve que fez ,joo ,gonalves do ,prado1 e vo adiante at nascena do ,rio ,verde4 ,da dita nascena vo ao ,campo da ,gara3 e dahi subindo pelo rio acima vo ao arraial do ,borba1 donde brevemente chego s ,minas ,geraes do ,rio das ,velhas4 ,os que seguro o caminho da ,tranqueira1 mo direita1 chegando ao arraial de ,mathias ,cardozo1 vo longo do ,rio de ,s4 ,francisco acima1 at darem na barra do ,rio das ,velhas3 e dahi como est dito1 logo chego s minas do mesmo rio4 ,mas porque nesta jornada da ,bahia huns caminho at ao meio dia1 outros at s tres da tarde1 e outros de sol a sol3 prei a distancia certa por legoas destes dous caminhos da ,bahia para as minas do ,rio das ,velhas1 que he o seguinte3 ,da cidade da ,bahia at ,cachoeira1 doze legoas4 ,da ,cachoeira at ,alda de ,joo ,amaro1 vinte e cinco legoas4 ,da ,alda de ,joo ,amaro at ,tranqueira1 quarenta e tres legoas4 ,da ,tranqueira caminhando mo direita at ao arraial de ,mathias ,cardozo1 cincoenta e duas legoas4 ,do ,arraial de ,mathias ,cardozo at ,barra do ,rio das ,velhas1 cincoenta e quatro legoas4 ,da ,barra do ,rio das ,velhas at ao ,arraial do ,borba1 aonde esto as minas1 cincoenta e huma legoas4 ,e so por todas1 duzentas e trinta e sete legoas4 ,tomando o caminho da ,tranqueira1 mo esquerda1 que da ,bahia at ahi consta de oitenta legoas3 so da ,tranqueira at nascena do ,rio ,guararutiba1 trinta e tres legoas4 ,da dita nascena at ao ultimo curral do ,rio das ,velhas1 quarenta e seis legoas4 ,deste curral at o ,borba1 vinte e sete legoas4 ,e so por todas1 cento e oitenta e seis legoas4 ,este caminho da ,bahia para as minas he muito melhor1 que o do ,rio de ,janeiro1 e da villa de ,s4 ,paulo3 porque1 posto que mais comprido1 he menos difficultoso1 por ser mais aberto para as boiadas1 mais abundante para o sustento1 e mais accommodado para as cavalgaduras e para as cargas4 ,,capitulo ,,xiv4 ,modo de tirar o ouro das minas do ,brazil1 e ribeiros dellas1 observado de quem nellas assistio com o ,governador ,artur de ,s4 ,prei aqui a relao1 que o mesmo autor me mandou1 e he a seguinte4 ,conforme as disposies1 que vi pessoalmente nas minas do ouro de ,s4 ,paulo1 assim nas lavras de agoa dos ribeiros1 como nas da terra contigna a elles3 direi brevemente o que pde bastar1 para que os curiosos indagadores da natureza mais facilmente conheo em suas experiencias1 que terra1 e que ribeiros posso ter1 ou no ter ouro4 ,primeiramente1 em todas as minas1 que vi1 e em que assisti1 notei que as terras so montuosas1 com serros e montes1 que se vo s nuvens2 por cujos centros correndo ribeiros de bastante agoa1 ou corregos mais pequenos1 cercados todos de arvoredo grande1 e pequeno1 em todos estes ribeiros pinta ouro com mais ou menos abundancia4 ,os sinaes1 por onde se conhecer se o tem1 so1 no terem areas brancas borda da agoa1 se no huns seixos miudos1 e pedraria da mesma casta na margem de algumas pontas dos ribeiros3 e esta mesma formao de pedras leva por debaixo da terra4 ,e comeando pela lavra desta1 se o ribeiro depois de examinado com socavo faiscou ouro1 he sinal infallivel1 que o tem tambem a terra3 na qual dando ou abrindo catas1 cavando-a primeiro em altura de dez1 vinte1 ou trinta palmos1 em se acabando de tirar esta terra1 que de ordinario he vermelha1 acha-se logo hum pedregulho1 a que chamo desmonte1 e vem a ser seixos miudos com ara1 unidos de tal sorte com a terra1 que mais parece obra artificial1 do que obra da natureza3 ainda que tambem se acha algum desmonte deste solto1 e no unido1 e com mais ou menos altura4 ,este desmonte rompe-se com alabancas3 e se acaso tem ouro1 logo nelle comea a pintar1 ou 7como dizem7 a faiscar algumas faiscas de ouro na bata1 lavando o dito desmonte4 ,mas ordinariamente1 se pintar bem o desmonte1 he sinal1 que a piarra ter pouco1 ou nenhum ouro2 e digo ordinariamente1 porque no ha regra sem excepo4 ,tirado fra o desmonte1 que s vezes tem altura mais de braa1 segue-se o cascalho3 e vem a ser huns seixos maiores1 e alguns de bom tamanho1 que mal se podem virar2 e to queimados1 que parecem de chamin4 ,e tirado este cascalho1 apparece a piarra1 ou piarro1 que he duro1 e d pouco1 e este hum barro amarello1 ou quasi branco1 muito macio2 e o branco he o melhor3 e algum deste se acha1 que parece talco1 ou maracacheta2 a qual serve de cama aonde est o ouro4 ,e tomando com almocafres nas batas esta piarra1 e tambem a terra1 que est entre o cascalho1 se vai lavar ao rio3 e botando fra a terra com a mesma bata1 andando com ella roda dentro d'agua pouco a pouco2 o ouro 7se o tem7 vai ficando no fundo da bata3 at que1 lavada toda a bata da terra1 pelo ouro1 que fica1 se v de que pinta he a terra4 ,alguma terra ha1 que toda pinta2 outra s em partes3 e a cada passo se est vendo que as catas em huma parte pinto bem1 e em outras pouco1 ou nada4 ,j se a terra tem vieiros1 que he hum caminho estreito1 e seguido1 por onde vai correndo o ouro2 certamente no pinta pelas mais partes da cata1 e se vai ento seguindo o vieiro atraz do ouro1 e estas de ordinario so as melhores lavras1 quando o ouro pega em vieiros1 onde se encontro com grandeza2 e he sinal1 que toda a data da terra1 para onde arremete o vieiro1 tem ouro4 ,as catas ordinarias1 que se do em terra1 so de quinze1 vinte1 e mais palmos em quadra2 e podem ser maiores1 ou menores1 conforme d largura a terra4 ,e se junto dos ribeiros a terra faz algum taboleiro pequeno 7porque ordinariamente os grandes no provo bem71 esta he a melhor paragem para se lavrar4 ,posto que o commum do ouro he estar ao nivel da agua1 vi muitas lavras 7e no das peiores71 que no guardo esta regra1 seno que do ribeiro io subindo pelos outeiros acima com todas as disposies que temos dito1 de cascalho1 etc41 mas no he isto ordinario4 ,at aqui o que toca s lavras da terra junto da agua2 porm as dos ribeiros1 se elles so capazes de se lhes poder desviar a agua1 divertindo esta por huma banda do mesmo ribeiro1 com cerco feito de pos mui direitos1 deitados huns sobre outros com estacas bem amarradas1 feito em forma de cano por huma e outra parte1 para que se possa entupir de terra por dentro1 do modo que aqui se v4 ,illustration3 ,margens4 ---------------------------------------- ---------- _/ _/ _/ _/ ,,cata4 _/ _/ ,,cata4 _/ _/ _/ _/ _/,,cerco4 ------ _/ ----- _/ ,,cerco4 _/ _/ -------- ------- ------- ,,ribeiro4 _/ ,,cerco4 _/ ----- _/ _/ _/ _/ ,,cata4 _/ _/ ---------------------------------------- --------------- ,margens4 ,isto se entende1 quando se no pde desviar todo o ribeiro para outra parte3 para o que raras vezes do lugar os serros4 ,divertida e esgotada a agua com as batas1 ou cuias1 se tira o cascalho1 ou seixos grandes e pequenos1 que na agua no he mui alto1 e se d com a piarra3 v-se se o ouro demanda para a terra depois de lavada a cata1 e se busca a terra1 entrando por ella1 e se vai seguindo1 e abrindo catas1 huma sobre outras4 ,e ordinariamente se deve provar sempre em primeiro lugar o ribeiro dentro da madre antes de lavrar na terra1 para ver se tem ouro3 porque se o tem1 quasi sempre o ha de haver em terra com mais1 ou menos abundancia4 ,e muitas vezes acontece 7como se vio nas mais das lavras de ,carabu71 que pintando mui pouco1 na agua ou madre1 em muitas lavras fra da agua se deu com muito ouro4 ,por tanto1 para se examinar se hum ribeiro tem ouro1 vendo-lhe as disposies que temos dito1 entre a agua e a terra1 se dar hum socavo de sete1 ou oito palmos em quadra1 at chegar ao cascalho e piarra1 e se faiscar1 he sinal que em terra1 e na agua ha ouro3 e pelas pintas destes socaves se conhecer1 se so de rendimento4 ,nem nestas minas se repartem ribeiros1 sem serem primeiro examinados com estes socaves junto d'agua4 ,nos ribeiros1 onde ha ara pelo meio1 e a no ha nas barranceiras1 tambem se acha ouro1 havendo cascalho3 assim tambem nos ribeiros1 onde ha ara por entre pedras1 se acha4 ,o esmeril acha-se com ara preta entre o ouro2 e em qualquer parte que se acha esmeril1 tendo o ribeiro cascalho1 ha ouro4 ,quando o ouro corre em vieiro1 de ordinario corre direito do ribeiro para a terra dentro3 e no mesmo ribeiro se succeder acharem-se muitos vieiros1 sero distantes huns dos outros3 e supposto que perto do vieiro se ache formao3 comtudo s nos vieiros se acha mais ouro4 ,tambem se acho muitos seixos com granitos de ouro4 ,estas so algumas das cousas1 que se podem dizer destas minas1 para que se possa por aqui fazer exame em alguns ribeiros1 aonde se suspeita1 que haver ouro4 ,no deixarei comtudo de referir aqui tambem o que vi no famoso rio das ,velhas2 porque parece fra de toda a regra do mineral4 ,em huma ,peninsula1 que da terra entra no rio1 quasi at o meio em que com as cheias fica toda cuberta de agua1 vi lavrar dous corregos pequenos1 junto d'agua3 os quaes abrindo-se com alavancas1 ero todos de hum piarro duro1 e claro3 e por entre elles sem se ir lavar no rio1 foi tal a grandeza do ouro1 de que estavo cheios1 que se estavo vendo em pedaos e granitos nas mesmas batas4 ,e bateada houve1 em que se tiravo de cada vez quarenta1 cincoenta1 e mais oitavas2 sendo as ordinarias em quanto se lavro de oito e mais oitavas4 ,ainda que lavrando-se depois pela terra dentro na mesma ,peninsula1 foi diminuindo cada vez mais a pinta2 e foro logo apparecendo as disposies todas1 que temos dito de terra1 desmonte1 cascalho1 e piarra2 que no ha regra como j disse1 sem excepo3 e muitas vezes no d com ouro quem mais cava1 seno quem tem mais fortuna4 ,tambem se acha muitas vezes huma disposio de desmonte1 que se chama ,tapanhuacanga1 que vale o mesmo que cabea de negro1 pelo teume das pedras1 to duro1 que s a poder de ferro se desmancha3 e no he mo sinal2 porque muitas vezes o cascalho que fica em baixo d ouro4 ,de algumas particularidades mais destas minas1 por serem menos essenciaes1 no fallo1 e porque so mais para se verem1 do que para se escreverem2 e estas so as que basto para o intento dos que1 ou por curiozidade1 ou para acertar na lavra as procuro4 ,,capitulo ,,xv4 ,noticias para se conhecerem as minas de prata4 ,primeiramente1 pela maior parte se acho as minas de prata em terras vermelhas e brancas1 limpas de arvores1 e de poucas hervas3 e sempre se ho de buscar no cume dos outeiros1 ou serros1 que he aonde arrebento as betas a modo de paredes velhas1 que correm sempre direitas2 ou a modo de alicerces1 que esto debaixo da terra2 ou como hum maracho de muitas pedras unidas em roda3 e se se acho muito juntas1 busque-se sempre a mais larga1 ou a que est mais no meio do outeiro4 ,em havendo cavado huma vara1 ou braa seguindo sempre a beta1 se pde fazer experiencia dos generos de metal1 que tiver2 porque ha betas1 que tem cinco ou seis generos de pedras1 a que chamo os ,castelhanos metaes4 ,as ditas betas costumo ter de largo huma braa1 ou quatro palmos1 ou tres1 ou dois1 ou hum4 ,pela maior parte entre a beta se acha terra de varias cres2 e s vezes tudo he pedra macia2 e ento costuma ser negra1 e branca a dita pedra a modo de seixos3 e1 quando ha terra entre a pedra1 pedra e terra1 tudo tem prata4 ,esta beta ordinariamente est metida entre penhasco agreste2 e desde a superficie da terra at ao fundo1 sempre vai encaixonada4 ,a pedra he de varias cres1 differente das outras1 e muito alegre3 branca1 negra a modo de maracaxeta que se lana nas cartas1 cr de ouro amarella1 azul1 esverdeada1 parda1 de cr de figado1 laranjada1 leonada2 e ordinariamente tem oucos onde se costuma crear prata como em cubellos4 ,outras pedras so todas prateadas2 e outras com veias de prata3 e s estas se conhecem logo que tem prata4 ,porm as acima nomeadas s quem tem muita experiencia1 ou quem a souber fazer1 vir em conhecimento que a tem4 ,tambem as vezes se acha huma maracaxeta negra1 a qual toda tem prata3 e de ordinario huma libra desta maracaxeta rende duas onas de prata4 ,pela maior parte na beta de prata1 que junto a ella se no acha maracaxeta branca1 ou amarella2 ou em pedras agrestes1 ou em terra4 ,a todas estas pedras chamo os castelhanos1 metaes3 e a algumas do estes nomes4 ,metal cobriso3 e he huma pedra que tira a verde1 mui pesada1 salgada ao gosto1 estica1 e frange os beios pelo acre do antimonio1 e vitriolo1 que tem misturado4 ,metal polvorilho2 e he huma pedra hum tanto amarella1 e de mais lei1 que o acima1 e as vezes para o fundo costuma dar em prata massia4 ,metal negrilho da primeira qualidade1 he pedra negra com resplandores de limaduras grossas de ferro3 he de pouca lei2 porm1 porque sahe misturado com o metal negro da segunda qualidade1 que he com resplandores de ara miuda1 e com o da terceira qualidade1 que he aquelle que feito p1 a sua ara no tem resplandor algum2 he o melhor1 e deve-se fazer caso delle4 ,metal rocicler he huma pedra negra1 como metal negrilho1 melhor d'ara1 como p escuro sem resplandor3 e se conhece ser rocicler1 em que lanando agua sobre a pedra1 se lhe d com huma faca1 ou chave1 como quem a me1 e faz hum modo de barro1 como ensanguentado2 e quanto mais corado o barro1 tanto melhor he o rocicler3 e he metal de muita riqueza e facil de se tirar3 e dando em parte que haja desague ao serro1 no ha mais que pedir3 d em caixa de barro como lama1 e pedrinhas de todas as cres4 ,metal paco he tambem como o rocicler1 o qual he huma pedra quasi parda1 como o panno pardo1 ou defumado1 e mui pesada4 ,seria extender-se muito1 se se houvesse de pr seus generos de caixa1 de qualidade1 e beneficios2 porque he1 e se faz de muitos modos segundo os generos dos paizes4 ,porm1 sendo a pedra sem gosto algum ao mastigar-se pizada1 ser de boa lei para a fundio3 e este genero de metal e o negrilho so os mais abundantes nas minas1 sem se perderem1 nem mudarem2 e1 quando muito1 mudo de pacos a negrilhos1 e de negrilhos a pacos4 ,metal plomo ronco1 he huma de pedra cr de chumbo1 porm mais escura1 mui dura e pesada4 ,he riqueza de fundio3 e desta pedra affirmo alguns1 que fazem bolas de bolear as indias charruas1 que vizinho1 ou vizinhavo com os portuguezes da nova ,colonia do ,sacramento4 ,,capitulo ,,xvi4 ,modo de conhecer a prata1 e de beneficiar os metaes4 ,se houver lenha 7e melhor he bosta de gado1 por ser mais activo o fogo delle7 far-se-ha huma fogueira2 e no meio della se lancem as pedras do genero1 que tiver a mina3 e as deixar queimar1 at que se ponho vermelhas1 como se pe o ferro4 ,e estando vermelhas1 se lancem em agua fria1 cada huma em diversa parte1 para se conhecer qual das cores tem mais prata2 que logo se mostrar na agua3 porque1 se tem prata1 broto por toda a pedra como cabeas de alfinetes1 ou como gros de munio4 ,tambem se podem reconhecer com chumbo1 nesta frma4 ,quando os metaes so negros1 com poucas vas brancas 7que1 se so muitas1 faz-se com azougue71 sendo mui pesados1 se moer1 de sorte que o gro maior fique como o de trigo3 e em huma furna1 como as que se fazem para derreter metaes de sinos1 se botar chumbo1 e se lhe dar fogo com folle1 at que aquelle chumbo se derreta1 e ponha corado2 e ento se lhe botar a pedra moida1 a saber3 em meia arroba de chumbo se poder beneficiar seis libras de pedra nesta frma4 ,estando derretido1 e corado o chumbo1 se lhe lanar duas libras de pedra1 extendendo-o por cima do chumbo3 e estando tudo encorporado com o chumbo1 a modo de agoa2 se vai lanando a mais terra1 at que se acabem as seis libras4 ,e em se acabando a pedra1 ou metal1 se continue com dar fogo ao chumbo1 at que o fogo o consuma1 ou converta em hum farello1 que vai criando por cima2 o qual se ir tirando com a escumadeira1 e apartando aos lados do vaso1 at que a prata por ultimo se dispa de huma teagem1 que tem por cima3 e antes que de todo o faa1 faz primeiro tres ou quatro acontecimentos1 como quem abre1 e serra os olhos1 a modo de ondas2 at que de todo se abre1 e fica a prata liquida1 sem fazer movimentos4 ,e ento se pra com o fogo2 e1 estando hum pouco dura1 se mette a escumadeira por hum lado e outro1 para a desapegar do vaso1 e se tira fra4 ,se quizerem fazer ensaio por azougue1 far-se-ha dos metaes1 que no forem negros3 ou se forem negros1 queimar-se-ho primeiro em frno de reverberao1 at que se lhes tire a maldade de cousas acres1 que tem os metaes1 ou pedras negras4 ,e esta queima se faz1 depois de moidos3 e se algum dos outros metaes tiver acridades1 se deve primeiro queimar tambem4 ,o que posto3 digo1 que todos os metaes1 ou pedras se devem moer1 e peneirar1 de sorte que fiquem como farinha de trigo3 a peneira hade ser de pano1 e pesar-se-ho os metaes4 ,se forem seis libras1 se lhes botar hum punhado de sal2 e tudo junto se molhar com agoa como quem mistura a cal com ara4 ,depois de bem unido1 se faz hum montinho1 de sorte que esteja brando com a agoa1 para que se encorpore com elle o sal3 e nesta frma se deixar estar sobre huma taboa quatro ou cinco dias ao sol4 ,e passados estes dias1 se desfar o montinho1 e se pisar mui bem aquella terra3 e em hum pano fino de linho se botar duas onas de azougue vivo1 e com o mesmo pano se espremer por cima da dita terra1 que estar espalhada1 e bem fina3 e junta se amassar com a mo1 por tempo de huma hora2 e se estiver mui seco1 se molhar com agoa1 at que fique como barro de fazer telha4 ,depois disto se tornar a fazer monte1 e a p-lo ao sol outros dias2 no cabo dos quaes1 se tem prata alguma mostrar nesta frma3 e vem a ser que o azougue e a prata se converter em hum farello branco4 ,e estando assim1 se lhe lanar mais azougue1 e se tornar a amassar1 como est dito1 e a p-lo ao sol outros tantos dias2 e depois se torne a molhar1 e a amassar4 ,isto feito1 se bote em huma cuia envernizada hum pedacinho daquella terra1 do tamanho de huma noz1 e com agoa limpa se ir lavando1 at que fique limpa a ara na cuia1 para conhecer se o azougue ha colhido toda a prata3 e se estiver ainda com farello1 se lance mais azougue1 como acima4 ,havendo colhido o azougue toda a prata1 j no far farello na cuia2 e estar toda incorporada4 ,ento se lave todo o monte com muito cuidado1 e se lance em hum pano de linho novo1 e se esprema3 e aquella bolla1 que ficar1 se queimar1 at que se queime todo o azougue2 e ficar liquida a prata3 e se conhecer1 se so os metaes de rendimento ou no4 ,se o azougue estiver frio 7o que se conhecer1 estando mettido dentro em hum saquinho negro1 que de si mesmo forma71 se lhe botar mais sal ou magistral3 e se estiver quente 7o que se conhecer de estar mui negro o farello da prata71 se lhe botar cinza molhada1 e se misturar tudo1 como fica dito acima4 ,alguns dizem que a sobredita massa se hade revolver1 e amassar todos os dias duas vezes1 por espao de quarenta dias2 e que a cada quintal de pedra se lana hum almude de sal de compaz1 e dez libras de azougue na frma acima4 ,ultimamente do estas regras geraes4 ,as minas de ,norte ao ,sul fixo so permanentes4 ,as minas de ouro cabeceo de ,oriente a ,poente2 e do em seixo branco1 ou negro1 ou em barro vermelho1 se so boas4 ,no havendo sal de pedras junto das serras de minas de prata1 he sinal que no so minas de permanencia3 e a este chamo os ,castelhanos sal de compaz4 ,s vista de quem tem experiencia se podem dar a conhecer fixamente os metaes2 porque ha outros generos de pedras como elles1 que no so de prata4 ,,capitulo ,,xvii4 ,dos damnos1 que tem causado ao ,brazil a cobia depois do descobrimento do ouro nas minas4 ,no ha cousa to boa1 que no possa ser occasio de muitos males1 por culpa de quem no usa bem della4 ,e at nas sagradas se commettem os maiores sacrilegios4 ,que maravilha pois1 que1 sendo o ouro to formoso e to precioso metal1 to util para o commercio humano1 e to digno de se empregar nos vasos e ornamentos dos ,templos para o ,culto ,divino1 seja1 pela insaciavel cobia dos homens1 continuo instrumento e causa de muitos damnos8 ,convidou a fama das minas to abundantes no ,brazil homens de toda a casta1 e de todas as partes3 huns de cabedal1 e outros vadios4 ,aos de cabedal1 que tirro muita quantidade delle nas catas1 foi causa de se haverem com altivez e arrogancia1 de andarem sempre acompanhados de tropas de espingardeiros1 de animo prompto para executarem qualquer violencia1 e de tomarem1 sem temor algum de justia1 grandes e estrondozas vinganas4 ,convidou-os o ouro a jogar largamente1 e a gastar em superfluidades quantias extraordinarias sem reparo1 comprando 7por exemplo7 hum negro trombeteiro por mil cruzados2 e huma mulata de mo trato por dobrado preo1 para multiplicar com ella continuos e escandalozos peccados4 ,os vadios1 que vo s minas para tirar ouro1 no dos ribeiros mas dos canudos1 em que o ajunto1 e guardo os que trabalho nas catas1 usro de traies lamentaveis1 e de mortes mais que crueis3 ficando estes crimes sem castigo2 porque nas minas justia humana no teve ainda tribunal1 nem o respeito1 de que em outras partes goza1 aonde ha ministros de supposio1 assistidos de numeroso e seguro presidio2 e s agora poder esperar-se algum remedio1 indo l o governador e ministros4 ,e at os ,bispos1 e ,prelados de algumas religies1 sentem summamente o no se fazer conta alguma das censuras1 para reduzir aos seus bispados e conventos no poucos clerigos1 e religiosos1 que escandalosamente por l ando ou apostatas1 ou fugitivos4 ,o irem tambem s minas os melhores generos de tudo o que se pde desejar foi causa que crescessem de tal sorte os preos de tudo o que se vende1 que os senhores de engenhos e os lavradores se achem grandemente empenhados1 e que por falta de negros no posso tratar do assucar1 nem do tabaco1 como fazio folgadamente nos tempos passados1 que ero as verdadeiras minas do ,brazil e de ,portugal4 ,e o peior he que a maior parte do ouro1 que se tira das minas1 passa em p e em moedas para os reinos estranhos3 e a menor he a que fica em ,portugal e nas cidades do ,brazil3 salvo o que se gasta em cordes1 arcadas1 e outros brincos1 dos quaes se vem hoje carregadas as mulatas de mo viver e as negras1 muito mais que as senhoras4 ,nem ha pessoa prudente que no confesse haver ,deos permittido que se descubra nas minas tanto ouro1 para castigar com elle ao ,brazil1 assim como est castigando no mesmo tempo to abundante de guerras aos europeos com o ferro4 ,,quarta ,,parte4 ,,capitulo ,,primeiro4 ,da grande exteno de terras para pastos cheios de gado1 que ha no ,brazil4 ,estende-se o serto da ,bahia at barra do ,rio de ,s4 ,francisco1 oitenta legoas por costa2 e indo para o rio acima at barra que chamo de agoa grande1 fica distante a bahia da dita barra1 cento e quinze legoas3 de ,santunse1 cento e trinta legoas3 de ,rodellas por dentro1 oitenta legoas3 das ,jacoabinas1 noventa legoas3 e do ,tucano1 cincoenta legoas4 ,e porque as fazendas1 e os curraes de gado se situo aonde ha largueza de campo1 e agoa sempre manente de rios1 ou lagas3 por isso os curraes da parte da ,bahia esto postos na borda do ,rio de ,s4 ,francisco1 na do ,rio das ,velhas1 na do ,rio das ,rs1 na do ,rio ,verde1 na do ,rio ,peramerim1 na do ,rio ,jacuipe1 na do rio ,itapicur1 na do ,rio ,real1 na do ,rio ,vaza-,barris1 na do ,rio de ,sergipe2 e de outros rios1 em os quaes1 por informao tomada de varios1 que corrro este serto1 esto actualmente mais de quinhentos curraes3 e s na borda d'quem do ,rio de ,s4 ,francisco1 cento e seis legoas4 ,e na outra borda da parte de ,pernambuco1 he certo que so muito mais4 ,e no smente de todas estas partes e rios j nomeados vem boiadas para a cidade e reconcavo da ,bahia1 e para as fabricas dos engenhos2 mas tambem do ,rio ,iguass1 do ,rio ,carainhaem1 do ,rio ,corrente1 do ,rio ,guaraira1 e do ,rio ,piagui-grande1 por ficarem mais perto1 vindo caminho direito1 ,bahia1 do que indo por voltas ,pernambuco4 ,e posto que sejo muitos os curraes da parte da ,bahia1 chego a muito maior numero os de ,pernambuco2 cujo serto se estende pela costa desde a ,cidade ,olinda at o rio de ,s4 ,francisco1 oitenta legoas3 e continuando da barra do rio de ,s4 ,francisco at barra do ,rio ,iguass1 conto-se duzentas legoas4 ,de ,olinda para ,oeste at o ,piagui1 ,freguezia de ,nossa ,senhora da ,victoria1 cento e sessenta legoas1 e pela parte do ,norte estende-se de ,olinda at ao ,cear ,merim1 oitenta legoas1 e dahi at o ,a1 trinta e cinco legoas1 e at ao ,cear ,grande1 oitenta legoas3 e por todas vem a estender-se desde ,olinda at esta parte1 quasi duzentas legoas4 ,os rios de ,pernambuco que1 por terem junto de si pastos competentes1 esto povoados com gado 7fra o ,rio ,preto1 o ,rio ,guaraira1 o ,rio ,iguass1 o ,rio ,corrente1 o ,rio ,guarignae1 a ,laga ,alegre1 e o ,rio de ,s4 ,francisco1 da banda do ,norte7 so o ,rio de ,cabaos1 o ,rio de ,s4 ,miguel1 as duas ,alagas com o ,rio do ,porto do ,calvo1 o da ,parahiba1 o dos ,kariris1 o do ,a1 o do ,podi1 o de ,jaguaribe1 o das ,piranhas1 o ,pajau1 o ,jacar1 o ,kaninde1 o de ,parnahiba1 o das ,pedras1 o dos ,camares1 e o ,piagui4 ,os curraes desta parte ho de passar de oitocentas legoas3 e de todos estes vo boiadas para o ,recife1 e ,olinda1 e suas villas1 e para o fornecimento das fabricas dos engenhos desde o ,rio de ,s4 ,francisco at ao ,rio ,grande3 tirando os que acima esto nomeados desde o ,piagui at barra de ,iguass1 e de ,pernagna1 o ,rio ,preto2 porque as boiadas destes rios vo quasi todas para a ,bahia1 por lhes ficar melhor caminho pelas ,jacoabinas1 por onde passo1 e descano4 ,assim como ahi tambem pro1 e descano as que s vezes vem de mais longe4 ,mas quando nos caminhos1 se acho pastos1 porque no faltro as chuvas1 em menos de tres mezes chego as boiadas ,bahia1 que vem dos curraes mais distantes4 ,porm se por causa da seca frem obrigados a parar com o gado nas ,jacoabinas3 ahi o vendem os que o levo1 e ahi descana seis1 sete1 e oito mezes1 at poder ir cidade4 ,s no rio de ,iguass esto hoje mais de trinta mil cabeas de gado4 ,as da parte da ,bahia se tem por certo1 que passo de meio milho1 e mais de oitocentas mil ho de ser as da parte de ,pernambuco2 ainda que destas se aproveito mais os da ,bahia1 para onde vo muitas boiadas1 que os ,pernambucanos4 ,a parte do ,brazil1 que tem menos gado1 he o ,rio de ,janeiro1 porque tem curraes smente nos campos de ,santa ,cruz1 distante quatorze legoas da cidade2 nos campos novos do ,rio de ,s4 ,joo1 distantes trinta1 e nos ,goitacazes1 distantes oitenta legoas3 e em todos estes campos no passo de sessenta mil as cabeas de gado1 que nelles pasto4 ,a ,capitania do ,espirito ,santo se prov limitadamente da ,moribeca1 e de alguns curraes quem do ,rio ,parahiba do ,sul4 ,na villa de ,s4 ,paulo mato as rezes1 que tem em suas fazendas1 que no so muito grandes3 e s nos campos de ,coritiba vai crescendo1 e multiplicando cada vez mais o gado4 ,sendo o serto da ,bahia to dilatado1 como temos referido1 quasi todo pertence a duas das principaes familias da mesma cidade1 que so a da ,torre1 e a do defunto ,mestre de ,campo ,antonio ,guedes de ,brito4 ,porque a casa da ,torre tem duzentas e sessenta legoas pelo ,rio de ,s4 ,francisco acima1 mo direita1 indo para o ,sul2 e indo do dito rio para o norte1 chega a oitenta legoas4 ,e os herdeiros do ,mestre de ,campo ,antonio ,guedes possuem1 desde o morro dos ,chapos at nascena do ,rio das ,velhas1 cento e sessenta legoas4 ,e nestas terras1 parte dos donos dellas tem curraes proprios2 e parte so dos que arrendro sitios dellas1 pagando por cada sitio1 que ordinariamente he de huma legoa1 cada anno dez mil ris de fro4 ,e assim como ha curraes no territorio da ,bahia1 e de ,pernambuco1 e de outras capitanias1 de duzentas1 trezentas1 quatrocentas1 quinhentas1 oitocentas e mil cabeas3 assim ha fazendas1 a quem pertencem tantos curraes1 que chego a ter seis mil1 oito mil1 dez mil1 quinze mil1 e mais de vinte mil cabeas de gado2 donde se tiro cada anno muitas boiadas1 conforme os tempos so mais ou menos favoraveis pario1 e multiplicao do mesmo gado1 e aos pastos1 assim nos sitios como tambem nos caminhos4 ,,capitulo ,,ii4 ,das boiadas1 que ordinariamente se tiro cada anno dos curraes1 para as cidades1 villas1 e reconcavos do ,brazil1 assim para o aougue1 como para o fornecimento das fabricas4 ,para que se faa justo conceito das boiadas1 que se tiro cada anno dos curraes do ,brazil1 basta advertir que todos os rolos de tabaco que se embarco para qualquer parte1 vo encourados4 ,e sendo cada hum de oito arrobas1 e os da ,bahia1 como vimos em seu lugar1 ordinariamente cada anno pelo menos1 vinte e cinco mil arrobas1 e os das ,alagas de ,pernambuco1 dous mil e quinhentos arrobas2 bem se v quantas rezes so necessarias para encourar vinte e sete mil e quinhentos rolos4 ,alm disto1 vo cada anno da ,bahia para o ,reino at cincoenta mil meios de sola2 de ,pernambuco quarenta mil2 e do ,rio de ,janeiro 7no sei se computando os que vinho da nova ,colonia1 ou s os do mesmo rio1 e outras capitanias do ,sul7 at vinte mil meios de sola3 que vem a ser por todas1 cento e dez mil meios de sola4 ,outro he1 que no smente a cidade1 mas a maior parte dos moradores do reconcavo mais abundantes se sustento nos dias no prohibidos da carne do aougue1 e da que se vende nas freguezias e villas3 e que commummente os negros1 que so hum numero muito grande nas cidades vivem de fressuras1 bofes1 e tripas1 sangue1 e mais fato das rezes3 e que1 no serto mais alto1 a carne e o leite he o ordinario mantimento de todos4 ,sendo tambem tantos os engenhos no ,brazil1 que cada anno se fornecem de bois para os carros1 e os de que necessito os lavradores de canna1 tabaco1 mandioca1 serrarias1 e lenhas2 daqui se poder facilmente inferir1 quantos haver mister de anno em anno1 para se conservar este trabalhoso meneio4 ,portanto deixar isto considerao de quem ler este capitulo1 julgo1 que ser melhor acerto1 do que affirmar precisamente o numero das boiadas3 porque nem os mesmos marchantes1 que so tantos1 e to divididos por todas as partes povoadas do ,brazil1 o podem dizer com certeza1 e dizendo-o temo que no parecer crivel1 e que se julgue encarecimento fantastico4 ,,capitulo ,,iii4 ,da conduco das boiadas do ,serto do ,brazil3 preo ordinario do gado que se mata1 e do que vai para as fabricas4 ,consto as boiadas1 que ordinariamente vem para a ,bahia1 de cem1 cento e sessenta1 duzentas1 e trezentas cabeas de gado2 e destas quasi cada semana chego algumas a ,capoame1 lugar distante da cidade oito legoas1 aonde tem pasto1 e aonde os marchantes as compro3 e em alguns tempos do anno ha semanas1 em que cada dia chego boiadas4 ,os que as trazem so brancos1 mulatos1 e pretos1 e tambem ,indios1 que com este trabalho procuro ter algum lucro4 ,guio-se1 indo huns adiante cantando1 para serem desta sorte seguidos do gado2 e outros vem atraz das rezes tangendo-as1 e tendo cuidado1 que no sahio do caminho e se amontoem4 ,as jornadas so de quatro1 cinco1 e seis legoas1 conforme a commodidade dos pastos1 aonde ho de parar4 ,porm1 aonde ha falta d'agua1 seguem o caminho de quinze1 e vinte legoas1 marchando de dia e de noite1 com pouco descano1 at que achem paragem1 aonde posso parar4 ,nas passagens d'alguns rios1 hum dos que guio a boiada1 pondo huma armao de boi na cabea1 e nadando1 mostra s rezes o vo1 por onde ho de passar4 ,quem quer que entrega a sua boiada ao passador1 para que a leve das ,jacoabinas v4 g4 at a ,capoame1 que he jornada de quinze1 ou dezaseis at dezasete dias1 lhe d por paga do seu trabalho hum cruzado por cada cabea da dita boiada3 e este corre com os gastos dos tangedores e guias2 e tira da mesma boiada a matalotagem da jornada4 ,de sorte que1 se a boiada constar de duzentas cabeas de gado1 do-se-lhe outros tantos cruzados1 se com todas chegar ao lugar destinado4 ,porm se no caminho algumas fugirem1 tantos cruzados se diminuem1 quantas so as rezes que falto4 ,aos ,indios1 que das ,jacoabinas vem para ,capoame1 se do quatro at cinco mil ris3 e ao homem que com seu cavallo guia a boiada1 oito mil ris4 ,sendo as distancias maiores1 cresce proporcionadamente a paga de todos4 ,e por isso1 do ,rio de ,s4 ,francisco acima vindo para ,capoame1 alguns dos que tomo sua conta trazer boiadas alhas querem seis ou sete tostes por cada cabea1 e mais se fr maior a distancia4 ,huma rez ordinariamente se vende na ,bahia por quatro ou cinco mil ris3 os bois mansos1 por sete para oito mil ris4 ,nas ,jacoabinas vende-se huma rez por dous mil e quinhentos at tres mil ris4 ,porm nos curraes do ,rio de ,s4 ,francisco1 os que tem maior conveniencia de venderem o gado para as ,minas1 o vendem na porteira do curral pelo mesmo preo1 que se vende na cidade4 ,e o que temos dito at aqui das boiadas da ,bahia1 se deve tambem entender com pouca differena das boiadas de ,pernambuco e do ,rio de ,janeiro4 ,,capitulo ,,iv4 ,que custa hum couro em cabello1 e hum meio de sola beneficiado at se pr do ,brazil na alfandega de ,lisboa4 ,vale cada couro em cabello #bajj ,de o salgar e seccar #bjj ,de o carregar ao cortume #dj ,de o cortir #fjj ----- ,importa tudo ,rs4 #bidj ,hum meio de sola vale #aejj ,de o carregar praia #aj ,de frete do navio #abj ,de descarga para a alfandega #aj ,por todos os direitos #cdj ----- ,importa tudo ,rs4 #aihj ,os meios de sola1 que ordinariamente vo cada anno do ,brazil para o ,reino1 importo no seguinte3 ,da ,bahia1 cincoenta mil meios de sola a #aih ris #ii3jjjjjj ,de ,pernambuco1 quarenta mil meios de sola a #agej ris #gj3jjjjjj ,do ,rio de ,janeiro e outras ,capitanias do ,sul1 vinte mil meios de sola a #afdj ris #cb3hjjjjj ----------- ,o que tudo importa em ,rs4 #bja3hjjjjj ,,capitulo ,v4 ,resumo de tudo o que vai ordinariamente cada anno do ,brazil para ,portugal3 e do seu valor4 ,por ultima demonstrao da ,opulencia do ,brazil em proveito do ,reino de ,portugal1 prei aqui agora o resumo do que nestas quatro partes tenho apontado2 que por junto no deixar de causar maior admirao1 do que pde ter causado por partes4 ,importa pois todo o assucar em ris #b1ece3adbhjj ,importa o tabaco em ris #edd3fejjjj ,importo cem arrobas de ouro em ris #fad3djjjjj ,importo os meios de sola em ris #bja3hjjjjj ,importa o po brazil de ,pernambuco em ris #dh3jjjjjj ------------- ,o que tudo somma em ,rs4 #c1gdc3iibhjj ,aos quaes se se acrescentar o que rende o contracto das baleas1 que por seis annos se arrematou ultimamente na ,bahia1 por cento e dez mil cruzados1 e no ,rio de ,janeiro por tres annos1 por quarenta e cinco mil cruzados2 o contracto annual dos dizimos reaes1 que1 na ,bahia1 nestes ultimos annos1 fra as propinas1 chegou a perto de duzentos mil cruzados3 no ,rio de ,janeiro1 por tres annos1 por cento e noventa mil cruzados3 em ,pernambuco1 por outros tres annos1 por noventa e sete mil cruzados3 em ,s4 ,paulo por sessenta mil cruzados3 fra os das outras capitanias menores1 que em todas notavelmente crescro2 o contracto dos vinhos1 que na ,bahia se arrematou por seis annos em cento e noventa e cinco mil cruzados3 em ,pernambuco1 por tres annos1 em quarenta e seis mil cruzados2 e no ,rio de ,janeiro1 por quatro annos1 por mais de cincoenta mil cruzados2 o contracto do sal na ,bahia1 arrematado por doze annos1 a vinte oito mil cruzados cada anno2 o contracto das agoas-ardentes da terra1 e de fra1 avaliado por junto em trinta mil cruzados2 o rendimento da casa da moeda do ,rio de ,janeiro1 que fazendo em dous annos tres milhes de moedas de ouro1 deu de lucro a ,el-,rei1 que o compra a doze tostes a oitava1 mais de seiscentos mil cruzados2 alm das arrobas dos quintos1 que cada anno lhe vo2 os direitos que se pago nas alfandegas dos negros1 que vem cada anno de ,angola1 ,s4 ,thom1 e ,minas em to grande numero aos portos da ,bahia1 ,recife1 e ,rio de ,janeiro1 a tres mil e quinhentos ris por cabea2 e os dez por cento das fazendas no ,rio de ,janeiro1 que importo hum anno por outro oitenta mil cruzados2 bem se v a utilidade1 que resulta continuamente do estado do ,brazil fazenda real1 aos portos1 e reino de ,portugal2 e tambem s naes estrangeiras1 que com toda a industria procuro aproveitar-se de tudo o que vai deste estado4 ,,capitulo ,,ultimo4 ,quanto he justo que se favorea o ,brazil por ser de tanta utilidade ao ,reino de ,portugal4 ,pelo que temos dito at agora1 no haver quem possa duvidar de ser hoje o ,brazil a melhor e a mais util conquista1 assim para a fazenda real1 como para o bem publico1 de quantas outras conta o ,reino de ,portugal1 attendendo ao muito que cada anno sahe destes portos1 que so minas certas1 e abundantemente rendozas4 ,e se assim he1 quem duvida tambem que este to grande e continuo emolumento merece justamente lograr o favor de ,sua ,magestade e de todos os seus ministros no despacho das peties que offerecem1 e na aceitao dos meios que1 para allivio e conveniencia dos moradores1 as camaras deste estado humildemente propoem8 ,se os senhores de engenhos1 e os lavradores do assucar e do tabaco1 so os que mais promovem hum lucro to estimavel1 parece que merecem mais que os outros ser preferidos no favor1 e achar1 em todos os tribunaes1 aquella prompta expedio que atalha as dilaes dos requerimentos1 e o enfado1 e os gastos de prolongadas demandas4 ,se cresce to copioso o numero dos moradores1 naturaes de ,portugal1 que cada vez mais povoo as partes1 que antes ero desertas1 ficando muito distantes das igrejas1 he justo que estas se multipliquem1 para que todos tenho mais perto o necessario remedio de suas almas4 ,pagando-se to pontualmente soldadesca1 que assiste nas praas1 e nas fortalezas maritimas1 no poderio deixar de sentir os que para isso concorrerem1 se com servios iguaes no frem adiantados nos postos4 ,se pelo seu trabalho tanto crescro os dizimos1 que se offerecem a ,deos1 pede a razo que os seus filhos idoneos sejo propostos nos concursos1 e provimentos das igrejas vacantes do estado4 ,e sendo commummente to esmoleres com os pobres1 e to liberaes para o ,culto ,divino1 merecem ter a ,deos propicio na terra1 e remunerador eterno no ,co4 ,,finis ,,laus ,,deo4 ,rio de ,janeiro4 ,typ4 ,imp4 e ,const4 de ,j4 ,villeneuve e ,c4--#ahcg4