99,nota de editor399 ,devido existncia de erros tipogrficos neste texto1 foram tomadas vrias decises quanto verso final4 ,em caso de dvida1 a grafia foi mantida de acordo com o original4 ,no final deste livro encontrar a lista de erros corrigidos4 ,rita ,farinha 7,outubro #bjaa7 ,figura ,figura ,,wenceslau ,,de ,,moraes ,o ,,culto ,,do ,,ch 7,,illustra,,es ,,de ,,yoshiaki7 ,figura ,,kobe ,typographia do ,kobe ,herald ,gravuras de ,got ,seikd #aije ,a ,vicente ,almeida d',ea1 ,sebastio ,peres ,rodrigues1 ,bento ,carqueja1 isto 1 ,trindade benevolente1 que ainda ha pouco1 de to longe1 me enviou dentro das folhas de um livro--as ,cartas do ,japo1--o perfume ineffavel da sua amizade1 offereo este outro livro1 exotico pela forma1 exotico pelo texto1 mas no pelo sentimento de profunda gratido1 que inspirou esta primeira pagina4 ,kobe1 ,junho de #aije4 ,wenceslau de ,moraes4 ,figura ,o ,,culto ,,do ,,ch4 ,falla-se do ,japo2 nem1 francamente1 devera presumir-se que eu ia referir-me a um paiz qualquer occidental1 onde a nossa raa branca floresce4 no ,oriente1 e em especial no ,extremo-,oriente1 que as coisas communs da creao ou os usos e costumes triviaes da vida so susceptiveis de merecer um tal requinte de solemnidade sentimental e de praxes de rito1 que constituam um verdadeiro culto4 ,no espirito do europeu1 despoetizado pela chateza dos ideas da epoca1 atribulado pelas multiplices exigencias da vida1 pervertido pela febre do negocio1 no medram de ha muito os cultos4 ,especializando a observao ao ch1 havemos de convir que este artigo de commercio1 que de to longe nos vem1 propositadamente adulterado conforme o nosso gosto1 no fim de contas se resume n'uma detestavel infuso que entrou em moda no sport social1 simples pretexto para repastos pelintras1 para reunies banaes1 para palestras vs4 ,a ,asia outra coisa3 a muitos propositos immersa ainda em barbarismo1 se assim se quer dizer2 com mil defeitos e mil erros1 que a sabia ,europa aponta a dedo e algumas vezes corrige1 quando pode1 com a logica dos seus conhos de tiro rapido2 o que ella retem ainda1 indiscutivelmente1 esta ,asia1 o caracter ancestral1 nada vulgar1 nada rasteiro1 palpitante de orgulhos de raa1 aprazendo-se em sonhos e em chimeras1 acariciando a lenda1 divinizando as coisas1 prodigalizando os cultos2 o que 1 em todo o caso1 uma maneira amavel1 de ir comprehendendo a vida4 99 99 99 99 99 ,figura ,oh1 f dos velhos tempos6444 ,oh1 santos patriarchas de to varios paizes e to differentes seitas1 tenazes campees1 que fostes incutindo nos simples a crena1 a esperana1 o amor1--balsamos consoladores das duras miserias d'este mundo1--como eu vos amo1 a todos6444 ,meus piedosos pensamentos elevam-se n'este momento a ,darum4 ,segundo a tradio da gente japoneza1 ,darum1 o grande apostolo indiano do buddhismo1 veio ,china ahi pelo comeo do seculo ,,vi da nossa era christ1 e em terras chinezas prgou em honra da verdade1 illuminando o espirito dos povos4 ,figura ,consta que1 por voluntaria desistencia das ephemeras alegrias terreaes1 ,darum votou-se a passar a vida de joelhos sobre o solo pedregoso1 absorto em contemplaes mysticas1 sem mesmo permittir-se o simples regalo de dormir4 ,tantos annos permaneceu de tal maneira1 que as pernas se lhe gastaram1 claro est2 e assim1 sem pernas1 s com a cabea e com o tronco1 envolto n'um manto carmezim1 que ainda hoje figurado4 ,a imagem tronou-se querida e popular entre esta boa gente japoneza2 mesmo um brinquedo corriqueiro entre as mositas das creanas1--os santos e os meninos vivem sempre em boa companhia2--lembrando o tal brinquedo o nosso frade de sabugo1 pela teima em voltar1 por mais voltas que lhe dem1 sua postura habitual4 ,deve ainda saber-se que ,darum tem dado assumpto1 desde remotos tempos at hoje1 a pintores da mais alta valia2 ,hokusai foi um d'elles1 pintando um famoso ,darum sobre uma folha de papel de cerca de duzentos metros quadrados de grandeza1 empregando oitenta litros de tinta no desenho e servindo-se de cinco vassouras laia de pinceis2 estendida a tela sobre o campo1 no telhado de um templo a turba admirava a obra e applaudia o mestre4 ,mas voltmos ao que aqui mais nos interessa1 respeitante ao venerando vulto que invoquei1 ajoelhado sobre as pedras4 ,consta mais que1 em certa noite1 as palpebras se lhe cerraram de fadiga1 e o bom ,darum deixou-se adormecer1 para s acordar pela manh4 ,ento1 pedindo a alguem uma tesoira ou instrumento parecido1 cortou a si proprio as palpebras indignas e arremeou-as ao solo1 n'um gesto de despeito444 ,as palpebras1 por milagre1 erraizaram1 dando nascena o a um gracioso arbusto nunca visto1 que medrou mui de prompto e cujas folhas1 tratadas de infuso pela agua quente1 fram um remedio precioso contra o somno e contra o canao das vigilias4 ,estava conhecido o ch2 tem pois na ,china a sua origem1 e coisa santa1 como se acava de provar4 ,cr quem quer2 mas devo advertir que este livro foi escripto para os crentes4 ,figura 99 99 99 99 99 ,da ,china1 veio o ch para as terras de ,nippon1 mas no se sabe quando4 ,figura ,velhas chronicas mencionam 7no dizer dos entendidos n'este caso melindroso71 que em #gbi da era ,christ1 durante uma festa religiosa de espavento1 o imperador ,shomu offerecia ch a bonzos de alta gerarchia2 mas fica-se ignorando se j antes seria conhecido444 ,parece que um bom abbade buddista1 ,dengyo ,daishi1 foi o primeiro que obteve a planta em solo japonez1 em #hje2 o ch era ento j uma beberagem favorita entre os bonzos chinezes1 que d'ella se serviam durante as vigilias prolongadas das suas praticas nocturnas4 ,mais recentemente1 ainda outro1 bonzo1 ,eisei1 tendo ido ,china1 de l voltou1 trazendo as sementes preciosas1 e no monte ,sefuri1 em ,chikuzen1 cuidou da sua sementeira4 ,pouco depois1 ainda mais outro bonzo 7sempre os bonzos67 de nome ,mioy1 colhendo de ,eisei os varios segredos de cultura1 novas sementes adquiriu1 e em ,toga-no-o em ,uji1 logares visinhos de ,kyoto1 attentamente se entreve em cultivar o ch2 em ,uji1 de preferencia1 fram os resultados excellentes4 ,dois seculos depois1 cerca de #adjj1 o shogun 7generalissimo7 ,ashikawa ,yoshimitsu imprimiu vigoroso impulso s plantaces de ,uji1 as quaes tanto fram prosperando1 merc da riqueza do torro1 que de ento at hoje o ch d'aquelle sitio tem sido celebrado como o melhor de todo o imperio2 d'elle exclusivamente se serve o ,imperador4 99 99 99 99 99 ,o ,japo a terra das camelias3 camelia japonica1 l diz o latinorio dos botanicos4 ,figura ,quando1 por fins de novembro1 comeam os frios e as geadas e pouco tarda que as neves alvejem nos dorsos das montanhas1 quando cessam as ultimas florescencias dos jardins1 ento que comecam ostentando-se as bellas flores d'esta esplendida familia das camelias4 ,vem primeiro as sazankas1 umas brancas1 cutras roseas1 de mimosissimas petalas frisadas2 seguem-se as camelias simples1 sanguineas1 surdindo da rama espessa de arvores gigantes1 espalhadas pelos campos2 e aps vem as flores cuidadas1 de luxo1 variando em innumeras formas1 variando em innumeros tons1 desde o branco de leite ate ao roseo quasi negro4 ,ento igualmente desabrocha a pequenina flr do ch1 que tambem uma camelia1 subtilmente perfumada1 composta de cinco petalasinhas alvas contornando e protegendo o feixe aureo dos estames4 99 99 99 99 99 ,figura ,passando1 em horas de ocio1 junto dos campos de ch1 dos quaes sinto prazer em acercar-me1 palestro com os aldees e aprendo noes varias1 respeitantes delicada planta4 ,no pode ser transplantada1 nem se multiplica por estaca ou por enxerto1 s por sementeira se propaga4 ,os paizes quentes1 como os paizes frios1 so-lhe nocivos2 prospera nos climas temperados1 nos sitios lavados de ar e luz1 visinhos dos cursos de agua1 convindo um ligeiro declive ao solo de cultura4 ,os arbustos so dispostos em renques parallelos1 de norte a sul1 para que o sol lhes bata em cheio desde pela manh at noite2 as plantas mais cuidadas reclamam na primavera grandes toldos de palha1 que abriguem das geadas as tenras folhas dos rebentos4 ,durante o primeiro anno1 dispensam adubos1 que depois se applicam em periodos frequentes4 ,a guerra aos vermes1 aos insectos1 exige zelos incessantes4 ,no fim de quatro annos1 j o arbusto se presta primeira colheita2 mas so as velhas plantas1 de cem annos1 de duzentos annos1 as que melhor produzem4 ,figura 99 99 99 99 99 ,quem quizer tomar conhecimento com a planta de ch1 nas melhores condios de prosperidade e em mais bellas galas de aspecto pittoresco1 tem de ir at ,uji1 distante quinze milhas de ,kyoto2 escolhendo de preferencia um dos primeiros das de maio1 quando os rebentos novos comeam vicejando1 o que marca o inicio da faina da colheita4 ,faina e festa3 a povoao inteira acorda da sua modorra provinciana2 desperta em esperanas1 em jubilos1 em actividades incanaveis1 para votar-se aos cuidados da preciosa folha2 dever presumir-se1 em bom criterio1 que a quadra remoante da primavera em flores1 com aromas nas brisas e quenturas creadoras1 constitue tambem um forte estimulo para a alegria repentina que se pinta nos rostos de toda aquella gente4 ,o quadro deveras aprazivel4 ,aps uma banal estao de linha ferrea1 estende-se a cidadesinha garrida1 com as suas viella muito limpas e a fila de lojinhas abarrotadas de varia mercancia4 ,depois segue-se o rio1 de aguas limpidas e frescas1 rico de tradies de gloria2 galga-se a ponte em arco1 entra-se no bairro das chayas1 dos hoteis1 em tal quadra povoados de freguezes galhofeiros e de gentis mulheres1 as gueishas1 que cantam ou dedilham no inseparavel shamicen2 e vem depois os campos1 vastos campos de ch a succederem-se pelo horisonte fra1 cuidados como jardins1 em longos alinhamentos de arbustos1 copados1 arredondados1 lembrando enormes mangericos1 de delicada rama de um verde esculro bronzeado2 no azul distante1 alguns famosos templos confusamente se recortam4 ,figura ,as moas de ,uji estream kimonos novos para o caso1 arregaando as mangas com fitas escarlates2 amarram em turbante em volta dos cabellos toalhas de cr azul e branca2 e assim1 esbeltas1 graciosissimas1 em ranchos de dez1 de doze companheiras1 dirigem-se ao trabalho4 ento um encanto para os olhos ir a gente surprehendel-as no afan do seu mister1 dispersas pelas campinas fra1 como borboletas2 indo de um ramo a outro ramo1 de um arbusto a outro arbusto1 por vezes occultando-se entre o verde mais denso da folhagem4 ,os dedos roseos1 miudinhos1 a escorrerem de orvalho e multiplicando-se em gestos delicados1 vo colhendo os rebentos tenros do ch e atirando-os a grandes ceiras dispostas pelo cho2 as boccas vo sorrindo1 patenteando as enfiadas alvas dos dentinhos2 os olhos esbrazeam em juvenis amores inconfessados2 as vozes unem-se s vozes1 em rythmos commoventes de velhas canes locaes3 ,figura ,quando nasce o sol radioso ,por cima d'aquelle oiteiro1 ,todas as aguas do rio ,parecem memo um brazeiro6444 ,n'estas aguas do rio d',uji --,ta milagrosas que so6-- ,lavam-se todos os males ,de que soffre o corao444 ,figura ,no campo1 as raparigas4 ,nas casas1 os homens1 as velhas1 as creanas4 ,ser rara a familia que no tenha interesses na labuta2 as grandes fabricas constituem excepo1 como em todas as primitivas industrias japonezas2 em cada albergue se improvisa uma manufactura1 modesta1 familial1 onde todos trabalham1 risonhos1 palestrando4 ,o ch escolhido1 escaldado1 posto a seccar1 grelhado em fornos1 enroladas as folhas ou reduzido p1 depois empacotado1 guardado em latas1 em caixas1 em boies2 um melindroso amanho que requer mos incanaveis1 dedos prestimosos1 cuidados inauditos1 segredos de processo1 meticulosidades devotas que espantam os profanos1 nas quaes collabora a gente toda valida d'aquelles arredores4 ,figura 99 99 99 99 99 ,tal a industria graciosa e tal o ch que os japonezes bebem4 ,vde agora como a civilizao occidental contrasta com os usos d'estes asiaticos4 ,tem os japonezes1 para l do ,pacifico1 um grande consumidor do seu producto3 o ,yankee4 ,tanto mimo e tanto esmero na apanha da folha e preparoes que se succedem no bastariam para o ch que os americanos vo beber4 ,vem de ,uji e de outros pontos1 tal como os japonezes o preparam1 para as firmas estrangeiras de ,kobe e de ,yokohama2 ento submetido a novas operaes1 ao sabor do fino paladar de ,nova-,york e de ,chicago4 ,no so agora as camponezas1 esbeltas e trajando roupas novas1 que acodem ao mister2 trabalham machinas a vopor1 fumegam chamins e guincham engrenagens2 e occupa-se no preparo um mundo feminino inqualificavel1 escoria das cidades1 esfarrapado1 piolhoso1 horripilante1 que a gente v sahir das fabricas tarde como uma leva de mendigas1 cheias de p1 de pustulas1 de miseria4 ,o fabrico do ch ao gosto americano consiste n'um segundo aquecimento em grandes fornos e na addio de varios productos1 como o p de uma certa pedra1 soopstone1 e o azul da ,prussia4 ,assim expedido4 99 99 99 99 99 ,figura ,a introduco e vulgarisao do ch na terra japoneza deveu grande incremanto uma industria desde remotos tempos exercida1 mas toscamente praticada1--a ceramica1--que havia de alcanar com o correr dos tempos um supremo grau de perfeio como arte nacional4 ,a conservao da preciosa folha1 exigindo escrupulos inauditos para reter o seu perfume1 marcou o ponto de partida4 ,foi ,toshiro1 um oleiro da aldeia de ,seto1 na provincia de ,owari1 quem fabricou os primeiros boies para guardar o ch1 empregando processos que aprendera na ,china1 respeitantes perfeio da pasta e dos esmaltes4 ,passava-se isto ha sete seculos2 e curioso registar que seto-mono 7objecto de ,seto7 ainda hoje o nome consagrado para indicar qualquer artigo de ceramica4 ,dos boies1 passou-se gradualmente s chavenas1 aos bules1 gentil e complicada baixella que a infuso foi reclamando e o luxo pondo em moda2 e ora aqui est como a ceramica no ,japo1--faiana ou porcellana1--que attingiu requintes de arte primorissima1 deveu ao ch e agua morna os seus melhores progressos4 99 99 99 99 99 ,quando comecram a tomar ch os japonezes1 era este reduzido a um impalpavel p e com elle se fazia a beberagem2 depois veio o uso de empregar as folhas1 apenas escolhidas e passadas pelos fornos2 e esta1 ainda hoje1 a maneira mais commum de preparal-o4 ,figura ,no ,japo1 toda a gente toma ch1--ricos e pobres1 nobres e plebeus3--bebe-se na occasio das refeies e a toda a hora1 a pequeninos golos4 ,no lar1 quando entra o visitante1 offerecese-lhe1 aps as reverencias1 uma almofada de regalo e uma chavena de ch4 ,o mercador1 quando quer se amavel com o freguez1 serve-lhe antes de tudo uma chavena de ch1 palestra1 falla da chuva e do bom tempo2 s mais tarde se trata do negocio4 ,nos templos famosos1 em ,kyoto por exemplo1 o bonzo offerece ch ao peregrino antes de lhe mostrar as reliquias e os museus4 ,pelos caminhos mais agrestes1 que vo serpeando pelas collinas arriba1 ha rusticos poisos espaados aqui e acol1 onde o caminheiro descana alguns minutos1 bebe uma chavena de ch1 troca um sorriso1 deixando em retorno um cobre sobre a esteira4 ,um restaurante1 na pittoresca linguagem japoneza1 diz-se uma chaya1--que quer dizer--casa de ch4--,de sorte que a chavena de ch1 que acompanha os bons-dias dados a quem chega1 no constitue simplesmente uma norma rutineira1 um habito banal1 tornou-se como que o symbolo da doce hospitalidade japoneza1 um rito da bonhomia d'esta gente1 exercido religiosamente entre amigos1 entre estranhos tambem1 porque ao estranho1 que larga porta as sandalias1 vem ao nosso lar e nos sada1 deve-se ja um sorriso e a sua parte de conforto4 ,figura 99 99 99 99 99 ,figura ,na casa1 nua de moveis1 porem mimosa de aceios requintados1 figura sempre o brazeiro sobre a esteira1 enas brazas vae fervilhando a chaleira de ferro cheia de agua2 o bon 7uma bandeja7 est cerca1 contendo o bule1 as cinco chavenas 7cinco1 porque8 talvez por serem cinco os dedos em cada mosinha japoneza71 os cinco pires de madeira ou de metal1 o cofre de estanho contendo o ch em folhas e ainda o pequenino recipiente em porcellana chamado yuzamashi1 cuja ordinaria serventia vae muito em breve conhecer-se4 ,o sentimento artistico japonez deprava-se naturalmente na industria de hoje1 em grande parte com destino exportao para a ,europa e para a ,america2 nos utensilios communs de uso indigena1 onde no intervem o modernismo1 que ainda reside o gosto esthetico1 puro e inconfundivel1 da gente japoneza1 revelando por si o complicado conjuncto de esmeros1 de elegancias1 de chimeras1 em que a alma d'este povo se deleita4 ,no que respeita o servio de ch1 innarravel a gentileza de todo este arsenal de bagatelas1 minusculas1 dando a impresso de serem destinadas a um banquete de bonecas6444 ,figura ,a agua passa da chaleira para o yuzamashi1 onde arrefece1 pois preceito fazer-se o ch com agua que ferveu1 mas ja no ferve2 prepara-se depois no bule a infuso1 que offerecida aos hospedes nas pequeninas taas de fina porcellana4 ,eis a singela practica e eis a modesta offerta1 actos da vida intima no poucas vizes repetidos durante cada dia1 desde pela manh at noite4 ,poderiam julgar-se sem meritos que valessem do estranho um instante de atteno e um commentario2 mas no succede assim4 ,para a alegria dos olhos1 a simples preparao do ch imprime um relevo delicioso graciosidade innata na musum1 na attitude que lhe mais habitual1 de joelhos sobre a esteira1 junto do seu brazeiro4 ,a mimica impressiva1 unica2 privilegio d'aquella figurinha meiga e ondulante e d'aquella buliosa mo1 de finissimos contornos1 da japoneza1 que 1 em summa1 a ,eva mais gentilmente pueril1 mais captivantemente chimerica1 mais feminina emfim1 de todas as ,evas d'este mundo4 ,parece certo que jamais o japonez1 que ignora o beijo1 haja poisado a bocca n'aquella mo que exhibe esplendores de graa para servir-lhe o ch2 o forasteiro1 em intimidade serena1 pode ensaiar o galenteio se a phantasia o tenta2 e ento ver talvez1 que a mosita da musum1 reconhecida ao afago1 se conchega de encontro aos labios1 se demora1 como uma rola docil gulosa de carinhos4 ,figura 99 99 99 99 99 ,figura ,o ch japonez1 servido invariamente sem leite e sem assucar1 que lhe prejudicariam o aroma1 a bebida mais suavemente agradavel que possa offerecer-se ao nosso paladar 7no de todos porem1 ams um paladar sentimental1 um tanto sonhador444 que n'isto dos nossos orgos de sentir ha temperamentos1 aptides affectivas caracteristicas44474 ,o guyokur1 por exemplo1 que o mais celebrado ch de ,uji e de todo o ,japo1 instilla taes subtilezas balsamicas de sabor1 que mais parece um perfume2 poderia dizer-se que uma maravilhosa alchimia conseguiu liquifazer os aromas de flores--flores dos jardins1 flores silvestres1--transferido do olphato ao paladar a impresso do goso4 ,assim o guyokur2 claro est que as palavras no podem traduzir seno por comparao as emoes sentidas2 e esta1 a do agradoce deliciosissimo que nos fica nos labios1 persistindo1 como na memoria persiste uma reminiscencia1 uma saudade1 imcomparavel444 ,o ch joponez tem a virtude de mitigar a sde4 ,assi se explica o habito dos japonezes no beberem agua2 mesmo na fora dos calores1 em pleno agosto1 a chavena de ch1 saboreada a goles1 lhes d pleno consolo4 ,aponta-se-lhe mais outros condes3 excita ligeiramente o organismo1 combate o canao das vigilias1 predispe ao bem estar1 infiltra no cerebro no sei que subtil embriaguez1 lucida todavia1 que nos torna mais affectivos s sensaes de agrado e mais aptos s elaboraes do pensamento 99 99 99 99 99 ,figura ,a maneira de preparar a infuso do ch em p e a arte de servil-o constituem a to famosa cerimonia chamada do ch-no-yu4 ,foi assim que o uso do ch se introduzio no ,japo1 como uma pratica liturgica dos frades buddhistas da seita de ,daisu1 exercida no proposito de prolongares as mysticas vigilhas preceituadas2 servia ao mesmo tempo de pretexto para reunies intimas1 que eram1 imagina-se1 um aprazivel desenfado proverbial monotonia do convento2 sendo um meio efficaz de estreitar laos de estima1 pelas confidencias segredadas1 pelos sorrisos beatificos que se cruzavam1 em quanto que a unica taa ia passando1 de mo em mo1 de bocca em bocca1 fraternalmente1 at a esvaziar4 ,figura ,mais tarde adoptou-se entre o povo o uso das folhas2 mas o ch-no-yu persistiu nas bonzarias1 propagando-se tambem nos costumes profanos1 ento com um exuberante luxo de apparato1 que muito apaixonou a alta nobreza4 ,pelos dias que correm1 ainda est em moda1 sem distinco de classes2 um habito gentil que ficou dos velhos tempos e a que todos podem entregar-se1 tido em valia pela delicadeza esthetica do scenario e ainda no despido do prestigio ortodoxo que lhe vem da remota tradio4 ,o ch-do-yu1 se pode definir-se1 a arte de preparar a infuso do ch em p1 com esses escrupulos de limpeza1 com esses requintes de elegancia de que s capaz o japonez2 sendo a bebida offerecida a alguns amigos de eleio1 a drede reunidos n'um recinto disposto para a paz do pensamento e para o agrado dos sentidos4 ,bom dizer agora que os codigos referenets a materia to grave so innumeros1 diversas as escolas2 e os grandes profissionaes1 chjin 7homens do ch71 de celebridade immoredoira1 centenas de volumes escreveram sobre o assumpto4 ,figura ,tudo foi regulamentado e comporta um preceito1 que no licito esquecer4 ,non tempos aureos do ch-no-yu o pavilho que recebia os hospedes era construido n'um jardin e obedecia a uma architectura inconfundivel4 ,no seu arranjo interno1 para a cr das paredes1 para a disposio de luz1 para o numero das esteiras1 para a jarra com flores ou com um ramo de arvore1 havia praxes a seguir2 o kakemono 7quadro suspenso da parede7 devia representar uma paizagem que fsse impressionar a pupilla com carinho2 ou antes uma simples sentena escripta por um pincel de mestre calligraphico1 pois nada commove tanto a aguda sensibilidate d'esta gente como os seus caractres de estranha construco1 cada um equivalendo j a uma synthese de ideas e predispondo1 pela sentida contemplao--ora por uma desenvoltura de trao1 ora por uma ondulao de curva1--ao vago discorrer da alma sonhadora444 ,o plano do jardin submettia-se a regras determinadas1 pelas quaes o engenho indigena se revelava em graas prodigiosas1 aqui pelos contornos do lago e pelas pontesinhas que o cruzavam1 alem pela escolha dos arbustos e das pedras1 na inteno ingenua e amorosa de impr vista a illuso de uma paizagem rustica1 reduzida a propores minusculas4 ,mais do que isto3 a alma das coisas1 o que de inexplicavel e de subtil parece emanar de um conjuncto qualquer onde os olhos se poisem1--tranquillidade das sombras1 arrogancia de um tronco1 ternura das relvas444--devia resaltar suggestivamente do jardinsinho japonez1 imprimir-lhe um caracter1 uma philosophia1 acordando na mentalidade dos visitantes um sentimento de paz1 de triumpho1 de saudade444 ,claro est que as flores de luxo1 como as rosas1 como as camelias1 como as peonias1 eram excluidas1 por improprias da inteno de quadro agreste dada scena4 ,figura ra de estylo a monumental lanterna1 tal como se encontra nos templos1 de pedra1 tanto mais valiora quanto mais esverdeada e roida de vetustos musgos1 e espalhando pela noite vagas claridades coadas pelas suas frestasinhas cobertas de papel2 os japonezes deleitam-se em contemplar1 aps uma nevada1 as amplas cupulas em unbella d'estas lanternas de templos e de jardins1 receptaculos onde a neve poisa e se demora1 em fofos vello de formas extravagantes1 de deslumbrante alvura4 ,um outro accessorio se encontrava1 cerca do pavilho3 o pedao de rocha bruta com uma pequena cavidade cheia de agua1 onde os hospedes iam lavar as mos antes de entrarem1 como em purificao liturgica4 ,at a linguagem empregada entre os convivas obedecia a regras de pragmatica3 os assumptos de religio ou de politica eram banidos2 a phrase devia modelar-se n'um agradavel discorrer1 sem ferir melindres de ninguem4 ,a cortezia impunha-se3 preceituava-se que o hospede proferisse palavras de louvor pelo que via1--alfaias de servio1 arranjo do aposento1 horisontes em volta1--mas sem insistencia em demasia1 que poderia parecer pouco sincera ou pelo menos importuna4 ,figura ,variadissimos objectos devem encontrar-se no aposento1 como o brazeiro1 o carvo de reserva contido n'um cestinho1 a chaleira1 o abano de pennas1 o cachimbo1 o tabaco1 o pincel1 o papel e a escrevaninha4 ,os artigos destinados particularmente ao ch1 muitas vezes contidos n'um estojo especial1 so os seguintes3 a boceta com perfumes1 que antes de tudo se lanam sobre as brazas e embalsamam o ambiente2 a jarra com agua fria e a competente colher feita de um pedao de bambu2 o ch em p n'am cofresinho de charo e a colherinha adjunta2 duas taas1 de barro ou de porcellana1 uma usada no vero1 de cr clara1 e outra escura1 usada no inverno2 um curioso utensilio feito de finas lascas de bambu reunidas em feixe1 com que se agita na chavena a mistura do ch em p com a agua morna2 finalmente a tigela onde se lavam e o pedao de seda de finissimo tecido1 com que se enxugam1 as peas empregadas4 o dono da casa quem deve preparar o ch1 solemnemente1 prescindindo do mais ligeiro auxilio dos criados2 elle que o offerece aos convidados4 ,a mo executa setenta e cinco movimentos1 n'um ch-no-yu havido por singelo444 e trezentos1 quandorequeridas todas as formalidade ortodoxas4 ,figura 99 99 99 99 99 ,no tempo do generalismo do ,imperio1 chamado ,toyotomi ,hideyoshi1 mais conhecido na historia pelo grande ,taiko-sama1 quasi todos os genesaes eram chajin1 isto 1 ferventes apaixonados da ceremonia do ch-no-yu4 ,em #aehe1 o proprio ,taiko-sama organisou um ch-no-yu colossal nas visinhanas de ,kyoto1 ainda hoje memorado como festa de inigualavel esplendor3 uma extenso de quinze kilometros quadrados era occupada por innumeros kiosques1 aonde os generaes preparavam o ch2 todos1 nobreza e plebe1 os ricos e os mendigos1--um enxame humano6--tinham entrada2 ,hideyoshi visitou todos os poisos e por suas proprias mos proparou ch1 que offereceo aos chefes favoritos4 ,figura ,relembrando o passado1 justamente n'um periodo de effervescencias guerreiras culminantes no ,japo1 talvez parea estranho1 talvez parea comico1 que esses rudes heris de to grandes faanhas1 os indomaveis veteranos das guerras na ,china e na ,cora1 despissem armaduras1 tirassem os dois sabres da cintura1 para virem votar horas chimericas a aquecer a agua sobre brazas e a preparar o ch444 ,mas o contraste1 por si1 explica o facto3 era precisamente essa dura existencia de batalhas e de lances sangrentos1 de inclemencias de vida nomada1 de longo cogitar em extratagemas e em argucias1 que impunha aos homens dirigentes a doce tregua do ch-no-yu4 ,o convivio com os partidarios e os amigos1 o desfilas do povo alegre a reverente1 a verde paizagem de repoiso1 a solemnidade hypnotica dos gestos1 tudo contribuia para offerecer um curto aprazimento quella gente1 que assim ia apagando da memoria os amorgores soffridos1 estretando sympathias1 retemperando foras para as proximas luctas4 99 99 99 99 99 ,figura ,o ch-no-yu attingiu depois1 durante a longa paz da dynastia shogunal dos ,tokugawa1 uma epocha de exaggeros faustuosos1 de dissipaes paradoxaes4 ,escolhiam-se as baixellas de entre objectos muitos antigos e firmados por um nome de fabricante prestigioso1 e por isso rarissimos1 preciosissimos2 e estava ento em moda offerecel-os1 no momento das ruidosas despedidas1 s bellas companheiras do festim1 que haviam com as suas guitarras1 com as suas canes1 com as suas graas profissionaes1 enfeitiando os hospedes444 ,sorveram-se fortunas n'este abysmo4 de ento que se conta que um amador empregou n'um ch-no-yu utensilios no valor de trinta e oito mil yens1 o que passa de quatro mil libras esterlinas2 um outro adquiria por trinta mil yens um s boio de ch6444 ,figura ,ha cerca de tres ou quatro annos1 em um leilo de ,tokyo1 um japonez comprou por tres mil yens uma chavena de ch-no-yu2 prova isto que ainda ha devotos chajin presentemente4 ,com effeito1 se o luxo sem limites que caracterizou o ch-no-yu dos bons tempos feudaes desappareceu para sempre com a mudana de regimen e com a mudana de costumes1 continuou todovia esta elegante pratica merecendo uma alta estima4 ,hoje1 os dois sexos a ella se dedicam1 e pode affirmar-se que faz parte da boa educao de uma menina1 exigindo uns seis ou sete annos a sua aprendizagem4 ,as gueishas tambem se instruem em tal culto2 as celebres danas primaveraes da cidade de ,kyoto1 conhecidas pela denominao de ,miyako-odori1 so sempre precedidas do ch-no-yu1 em que officiante uma das mais gentil gueishas do logar2 e a multido acode1 com devota deligencia1 a saborear o perfumado ch4 99 99 99 99 99 ,figura ,no me peam agora1 a mim1 profano na materia e viageiro fatigado de to multiplices impresses que tenho vindo colhendo por este mundo fra1 uma opinio pessoal sobre o ch-no-yu4 ,estive uma vez1 certo1 com dois ou tres amigos1 em uma das chayas de mais fama da cidade de ,kobe2 e ,tama-,guiku 7o ,malmequer-,precioso7 era a esplendida sacerdotiza da cerimonia4 ,a impresso que d'aquella noite guardo indefinida1 fugidia1 como de um vago sonho que tivesse4 ,ficaram-me reminiscencias indecisas do luxo sombrio e harmonioso e do aceio extremo das coisas impregnadas de exotismo onde poisou o meu olhar4 ,na meia luz do placido aposento1 amplo e silencioso como um templo1 contornava-se1 distante1 um vulto de mulher1 de joelhos1 envolta em sedas magnificas4 ,as attences fixavam-se especialmente1 como que por attraco hypnotica1 nas suas mos finissimas1 alvejando no espao como se fossem de marfim1 tomando de estranhos utensilios1 preparando no sei que filtro de magia1 poisando em mimicas hieraticas1 quaes mos de mystica officiante de uma religio desconhecida4 ,por fim1 convidado a partilhar no sacrificio1 acceitava uma taa com ch que me era offerecida e levava-a aos labios commovido1 com no sei que subitos escrupulos de apostata mal firme444 ,tama-,guiku concluira4 ,ergueu-se1 deslumbrante de graas1 de atavios1 de magestade4 ,o seu rostinho meigo illuminava-se ento da exaltao beatifica que lhe electrizava o espirito2 dirigiu sobre ns a ardencia negra dos seus olhos1 saudou-nos reverente444 reverente1 no porque uma imfima cortezia sequer lhe merecessemos1--pobres occidentais ignaros6--mas em estricta abediencia aos preceitos rituaes2 e desappareceu da scena4 99 99 99 99 99 ,a proposito d'estas divagaes respeitantes ao ch e ao seu culto1 vem-me agora ao pensamento e ainda me compunge um dramatico episodio da existencia intima japoneza1 que contado me foi ha cerca de tres annos4 ,vou tentar descrevel-o4 ra no fim de maio4 ,eu achava-me em ,kobe4 ,um meu amigo japonez1 chajin apaixonado1 partira para ,uji1 onde devia assistir a umas costumadas reunies votadas ao ch-no-yu1 em casa de um parente1 cuja filha1 a gentilissima ,o-,hana1 era eximia na arte2 entre ns ficra combinado que eu iria encontral-o1 passadas tres semanas1 em ,nara1 a cujos velhos monumentos queriamos votar horas de estudo4 ,haviam decorrido apenas uns tres dias1 quando do tal sujeito recebi um bilhete1 pouco mais ou menos n'estes termos3--,pode seguir para ,nara1 onde me encontrar4 ,falhou o ch-no-yu4 ,o-,hana suicidou-se4 ,pesava sobre ella uma desdita igual pobre ,hichi da lenda444-- ,ora1 eu conhecia ,o-,hana2 e a lenda1 que por signal constitue o thema de uma notavel pea de theatro1 no me era de todo estranha4 99 99 99 99 99 ,vamos por partes4 ,a lenda como segue4 ,no sei ha quantos seculos e nem sei em que logar1--nem importa sabel-o1--havia em certa rua dois estabelecimentos de negocio1 dos que se chamam ,yaoya em lingua do paiz1 onde se vemdem variadas provises1--fructos1 legumes1 hortalias1 ovos1 peixe e muitas coisas mais4--,defrontavam um com o outro4 ,n'um1 habitava certo casal com uma filha unica1 ,o-,hichi2 n'outro1 um outro casal com um s filho1 ,kichisa4 ,quiz a mofina sorte que se enamorassem um do outro4 ,mofina sorte8 ,sim1 embora1 primeira vista1 no seja o caso concebivel1 quando se saiba que ambos eram jovens1 gentis e animados de doces enternecimentos amorosos4 ,eu me explico todavia4 ,os velhos codigos nipponicos1 ainda hoje respeitados1 impem aos filhos o preceito de herdarem o appellido de seus paes2 o filho mais velho herda a mais o encargo de chefe de familia1 com a administrao dos bens e a superintendencia no culto piedoso devido aos parentes fallecidos4 por este processo que as genealogias no offerecem mysterios e as familias se eternizam1 conservando religiosamente o mesmo appellido durante seculos sem conto2 cessando apenas no caso excepcional de todos os descendentes acabarem1 consanguineos ou no1 pois de uso corrente chamar ao lar1 por adopo1 filhos alheios4 ,o filho unico pode certamente casar1 e a esposa recebe o appellido do marido4 ,a filha unica pode igualmente casar e ento o esposo recebe o appellido da mulher4 ,est-se agora percebendo como para ,o-,hichi e ,kichisa o problema se complicava em demazia1 por serem ambos filhos unicos4 ,um meio s se apresentava1 o de uma das familias adoptar um filho estranho1 sobre quem recahissem os encargos de uma supposta primogenitude4 ,mas o alvitre era quasi impraticavel1 por aquelles tempos feudaes que iam correndo1 dependendo da sanco suprema do daimy1 que a negaria1 por ser o caso novo2 sem j contar com o orgulho revoltado dos paes da noiva1 ou dos paes do noivo1 da familia emfim que1 para evitar de ser extincta1 tivesse de investir um filho alheio nos deveres que competem ao legitimo4 ,figura certo que as duas familias se oppozeram com toda a vehemencia a taes amores1 e a casa se transformou para ,o-,hichi em duro encerro e a estima dos seus em aggresses continuas4 ,foi ento que a pobre musum1 captiva n'uma alcova1 desesperada1 louca de amores1 meditou em pr fogo ao seu lar de tormentos1 na crena de que as chammas lhe trariam a liberdade e o ensejo de reunir-se quelle a quem votara todo o seu affecto4 ,errou porem nos calculos1 como succede tantas vezes quando se tem quinze annos e o pensamento voja no mundo das chimeras3 descoberto o seu crime apenas posto em pratica1 foi trazida justia da cidade e condemnada morte4 ,figura ,vem agora a proposito narrar um pormenor curioso1 que de toda a tragedia o que mais me enternece4 ,a misera seguia1 conforme o estylo1 pelas ruas populosas1 amarrada ao dorso de uma besta1 para ignominia propria e para lico do povo2 mais tarde seria executada4 ,a meio da jornada expiatoria1 os seus longos cabellos soltos1 como at ento eram usados1 cahiam-lhe em desalinho sobre a fronte1 cheios da poeira dos caminhos1 escorrendo de suor1 fustigando-lhe as faces4 ,ento1 ou porque quizesse poupar-se a um tormento a mais1 ou--quem sabe8--por um resto de garridice deminia1 viram-n'a rasgar com os bellos dedos tremulos um pedao da seda carmezim do forro do vestido1 com quem amarrou junto nuca1 erguendo os braos1 esses pobres cabellos444 ,a idea pareceu graciosa s raparigas1 que se iam juntando em grupos curiosos para observarem o cortejo2 e desde ento as japonezas comearam de usar aquelle enfeite1 que persiste at hoje e a que chamam kikidashi--litteralmente3 farrapo--em memoria de ,o-,hichi1 a triste namorada de ,kichisa444 ,figura 99 99 99 99 99 ,mas vamos depressa ao fim da historia4 ,quando em ,nara deparei com o meu amigo japonez1 o triste fim de ,o-,hana esclareceu-se em breve4 ,havia em ,uji duas familias abastadas1 ,fukumoto e ,yamaguchi1 possuindo as mais bellas culturas de ch d'aquelles campos4 ,os ,fukumoto juravam que o seu ch ra o melhor de todo o ,imperio1 e os ,yamaguchi diziam do seu ch a mesma coisa2 eram no fim de contas uns caturras1 professando um supino orgulho do seu nome e um culto pelo mister a que se davam2 alem d'isto1 ou por isto1 pouco affeioados entre si1 confirmando a justia d'aquelle ditado portuguez1 com curso em todas as longitudes do planeta444 dos officiaes do mesmo officio4 ,o casal ,fukumoto tinha um filha unica1 ,o-,hana2 o casal ,yamaguchi tinha um unico filho1 ,naotar4 ,este era um perfeito rapazola1 amavel1 intelligente1 segundo affirma quem o viu4 ,o-,hana era uma musum em plena flr da vida1 educada em todos as gentis prendas do seu sexo4 ,ninguem como ella desprendia suavissimos sons do koto1 a harpa nacional2 nenhumas mos se mostravam to habeis de pinheiro ou de lirios floridos trazidos do jardim2 no ch-no-yu era incomparavel4 ,figura ,figura ,eu vi ,o-,hana uma s vez1 nos parques de ,kyoto1 quando em peregrinao primaveral se vae contemplar1 luz da lua1 a celebre cerejeira de ,guion1 toda vestida de pequeninas petalas4 ,o-,hana ra uma d'essas japonezinhas embebidas de enlevo e de exotismo1 taes como vs as conheceis dos leques1 dos biombos4 ,isto basta1 falta de melhor1 para definir-lhe o vulto em miniatura1 esguio e ondulante1 coberto de sedas preciosas2 e para imaginar-lhe o rosto pallido em forma de pevide de melo1 os olhinhos cerrados1 os finos traos das sobrancelhas em viez1 a boquinha sorridente1 rubra1 lembrando uma cereja1 e o penteado444 o penteado colossal como uma enorme borboleta de azeviche1 que lhe houvesse pousado1 de azas abertas1 sobre a nuca4 ,ria1 curvava-se em mesuras1 em meneios1 agitando no ar as descommunaes mangas do kimono2 e l ia seguindo o seu caminho entre um bando de amigas1 antes ziquezagueando1 a passos miudinhos1 indcisos1 sem intuito4 ,e eu ia pensando que alli estava1 em carne e osso1 a companheira deliciosissima1 anjo de graas e fada de sorrisos1 para quem podesse offerecer-lhe--japonez claramente1--uma casinha de papel em extremos de limpeza1 com duas esteiras sobre o cho1 um bule com ch1 um prato com confeitos1 uma jarra com ramos vicejantes2 e frente o jadinsinho1--bambus tufados1 azaleas em flor1 pedras musgosas1 o pequinono lago1 onde peixes vermelhos nadassem pachorrentos e rs coaxassem em noites estivaes444-- ,figura ,o-,hana e ,naotar amaram-se44 ,no se sabe porque4 ,porque eram ambos jovens1 visinhos1 conhecidos2 e em circunstancias semelhantes a juventude attrahe a juventude444 ,quando esta inclinao foi conhecida1 as duas familias irromperam em no dissimulados azedumes4 ,o casamento era impossivel4 ,se a adopo de um filho alheio podia resolver em theoria o problema1 quem vinha sujeitar-se ao sacrificio8 ,os ,yamaguchi8 ,os ,fukumoto8 ,mas nem uns nem outros1 com os diabos6444 ,os nomes das duas familias1 procedentes de uma linhagem to remota que em vo se tentaria investigar-lhes a origem1 gosavam em todo o ,imperio de um prestigo inconfundivel1 conquistado durante annos sem conto pela pobidade mercantil dos seus negocios1 pela excellencia do ch da sua lavra1 pela nobre chientela nos castelos2 podendo apenas pr-se em duvida1 se o ch dos ,yamaguchi preferival ao ch dos ,fukumoto4 ,ora1--merc de um capricho de estouvados1--investir1 por uma adopo do acaso1 um estranho na posse de tal nome1 e ungil-o dos nobres encargos que competem a um futuro chefe de familia--,fukumoto ou ,yamaguchi1--nem por brincadeira se propunha6444 ,que ,o-,hana e ,naotar se casassem1 intendia-se2 era esse mesmo o seu dever1 de perpetuar pela prole os nomes dos avs2 mas confiassem no bom tacto dos paes1 que saberiam escolher-lhes noivos do seu agrado e em condies de no virem parturbar a paz das familias e ferir o amor das tradies4 ,figura ,muito bem4 ,quando os dois namorados se convenceram da impossibilidade de viverem um para outro1 tiveram certa noite uma furtiva entrevista beira do ,ujigawa1 a pittoresca ribeira1 que ento serpeava em grande cheia de aguas1 resultado das ultimas chuvas copiosas4 ,deram-se as mos1 parece2 sorriam-se um para o outro2 no se sabe o que segredaram entre si1 porque ninguem esta alli para os ouvir444 ,quando1 ao romper do dia1 as moas de ,uji seguiam para a apanha do ch1 em ranchos galhofeiros1 quedaram-se de repente junto ao rio1 cheias do espanto1 de pavor1 vendo a boiar dois corpos detidos na maranha dos juncos1 rigidos1 lividos1 mortos1 porem sorrindo ainda e dando-se ainda as mos444 99 99 99 99 99 4444444444444444444444444444444444444444 44444444444444444444444444444 ,n'estas aguas do rio d',uji1 --,to milagrosas que so6-- ,lavam-se todos os males ,de que soffre o corao444 ,figura ,figura ,lista de erros corrigidos ,aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos3 ---------------------------------------- -------------------- ,original ,correco ---------------------------------------- -------------------- pg4 #ai do outros de outros pg4 #bc ama norma uma norma pg4 #bd ua industria na industria pg4 #bd a modernismo o modernismo pg4 #bf da flores de flores pg4 #cc exteuso extenso pg4 #cc homeus homens pg4 #cg desappaeceu desappareceu pg4 #ch appelldo appellido pg4 #ci dos familias das familias pg4 #ci umo supposta uma supposta pg4 #de pela excellencias pela excellencia pg4 #de nobre encargos nobres encargos ---------------------------------------- --------------------