,,mysterio ,,do ,,natal ,,do ,,mesmo ,,auctor ,esphynge1 #a vol4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 #fjj ,serto1 #a vol4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 #fjj ,agua de ,juventa1 #a vol4 4 4 4 4 4 #gjj ,a bico de penna1 #a vol4 4 4 4 4 4 #gjj ,romanceiro1 #a vol4 4 4 4 4 4 4 4 4 #ejj ,jardim das ,oliveiras1 #a vol4 4 4 4 #ejj ,fabulario1 #a vol4 4 4 4 4 4 4 4 4 #ejj ,miragem1 romance1 #a vol4 4 4 4 4 4 #fjj ,theatro1 vol4 #a4 4 4 4 4 4 4 no prlo ,theatro1 vol4 #b44 4 4 4 4 4 4 4 4 #djj ,ouebranto 7,theatro71 vol4 #d44 4 4 #ejj ,apologos1 #a vol4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 #ejj ,no prlo1 a seguir em novas edies3 ,inverno em flor4 4 4 4 4 4 4 4 4 #a vol4 ,o ,rei phantasma4 4 4 4 4 4 4 4 4 #a vol4 ,capital federal4 4 4 4 4 4 4 4 4 #a vol4 ,o morto4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 #a vol4 ,o paraiso4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 #a vol4 ,o ,rajah de ,pendejab4 4 4 4 4 4 4 #b vol4 ,a ,conquista4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 #a vol4 ,a ,tormenta4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 #a vol4 ,o ,turbilho4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 #a vol4 ,coelho ,netto ,,coelho ,,netto ,,mysterio ,,do ,,natal ,,porto ,,livraria ,,chardron ,de ,,lello ,,irm,o1 editores ,,rua ,,das ,,carmelitas1 #add ---- #aiaa ,o ,accordo assignado no ,rio de ,janeiro em #i de ,setembro de #ahhi1 entre o ,brasil e ,portugal1 assegurou o direito de propriedade litteraria e artistica em ambos os paizes4 ,a presente edio est devidamente registada nas ,bibliothecas nacionaes1 de ,lisboa e ,rio de ,janeiro4 ,,porto--,,imprensa ,,moderna 99 99 99 99 99 ,a partida ,era a hora silenciosa e triste do crepusculo4 ,abrumados de ouro os montes1 em duros perfis1 esmaltavam de negro o horizonte abrazado4 ,abriam-se as primeiras estrellas4 ,subiam da terra1 como o fumo das aras1 pannos alvos de nevoa4 ,pelos caminhos esbarrondados1 em aspero acclive1 beirando grotas espontadas de cardos1 cantaro ao hombro1 as tunicas arrepanhadas cinta1 desfilavam donzellas conversando e rindo4 ,juntas1 em passo miudo1 trepidando nas pedras1 com um cheiro de suarda e de silvas1 passavam nas trilhas ovelhas em rebanhos4 ,um rude e mazorro pastor seguia-as cabisbaixo4 ,esbatiam-se as nuvens de ouro quando ,jos e ,maria appareceram no limiar da casa promptos para a longa jornada1 por valles e montanhas1 em direco terra farta de ,bethleem onde iam cumprir a lei de ,augusto4 ,fechada a porta ainda demoraram um instante sob a vinha1 contidos pela saudade4 ,o homem1 por fim1 decidiu-se1 tomou a frente1 vagaroso1 pensativo e logo1 limpando os olhos que as lagrimas nublavam1 a donzella seguiu4 ,elle grisalho1 alto1 robusto1 ainda que um tanto curvado pelo pendor constante em que vivia1 sempre inclinado sobre o lenho do officio1 falquejando-o1 acepilhando-o1 dando-lhe frma e lustro4 ,ella1 mean de altura1 fina e fragil4 ,suavemente morena1 os olhos grandes e tristes eram dum limpido verde d'agua1 e como dois lagos purissimos num areal1 ao sol2 e os cabellos1 escapando-se do cairel do manto1 punham-lhe na fronte uma frisa de ouro4 ,mal se lhe adivinhava o collo abotoado4 ,os ps1 alvos e pequeninos1 assentavam em sandalias e toda a sua riqueza consistia em um par de braceletes de marfim que lhe cingiam graciosamente os pulsos finos4 ,trilhando a estrada que ia ter fonte e seguia direita aos campos1 paravam para falar s moas1 companheiras e amigas de ,maria1 para corresponder saudao dos homens1 para attender s crianas que deixavam os seixos tomando-lhes o passo1 pedindo que lhes trouxessem das terras de alm conchas1 como as de ,ascalon1 que conservam no bojo o soluo das ondas4 ,e ,maria1 commovida1 chorava sobre o sorriso4 ,os campos toldavam-se de bruma e as oliveiras de pallida folhagem faziam no recosto das collinas como estendaes de nevoa4 ,ainda havia quem trabalhasse a leira na ancia do fruto4 ,chiava um carro de lavoura1 o guieiro afalava aos bois animando-os no lance abrupto de uma rampa4 ,chegando ao planalto esteril1 que dominava os horizontes e onde o vento zunia1 os viajantes fizeram uma parada olhando em redor o redente dos montes4 ,l ficava ,nazareth no valle feliz1 com o seu casario1 em cubos brancos1 como um pacifico rebanho adormecido4 ,ao longe tudo era carregado e lugubre4 ,a noite chegava primeiro s alturas4 ,isolado1 com a lua pairando acima do seu viso1 o ,thabor era como um peito de gigante de onde houvesse espirrado aquella gotta de leite4 ,maria ignorava o mundo4 ,nunca houvera passado alm da fronteira da terra natal4 ,alongando os olhos pela vastido que a vista alcanava1 montes1 varzeas1 esplanados desertos tristes1 sentia-se mesquinha e com medo4 ,voltou-se1 ainda uma vez1 para olhar o tranquillo recanto em que sempre vivera em pobreza e virtude4 ,mas a noite baixra2 raros lumes picavam a trva4 ,ouvia-se vago murmurio1 como escacho d'aguas1 subindo do fundo obscuro onde jazia a cidade4 ,sahiu-lhe do corao um suspiro maguado3 --,onde fica ,bethleem8 ,jos levantou o brao e estendia o cajado na direco da terra de ,david1 quando uma estrella fulgurou1 illuminando radiosamente o ceu profundo4 --,ali6 disse o patriarcha1 numa voz que tremia1 comprehendendo1 maravilhado1 que aquelle astro surgira dentro da noite como uma resposta de ,deus moa predestinada4 99 99 99 99 99 ,o anjo ,a noite1 profundamente escura e fria1 atravessada de vento1 atroava o fragor de ramagens estortegadas e d'aguas precipitosas que se despenhavam1 aos jorros1 pelos algares4 ,nas chans ainda o transito era facil1 sem o varejo da ventania que repulsava os caminhantes1 como a impedir-lhes a marcha2 mas nas gargantas1 entre alcantis1 as lufadas1 abocando entrada1 esfusiavam desabridas1 uivando com a furia de alcatas famintas em ronda cva1 a fariscar redis4 ,todas as estrellas haviam-se apagado1 apenas rutilava1 enorme1 como lumareu de vigilia em torre1 a que surgira e brilhava sobre ,bethleem4 ,os passos estrepitavam nos seixos1 estalavam nas folhas e no ramalho secco4 ,um ramo que bolisse1 o lento defluir de um fio d'agua por entre pedras levantavam ruidos temerosos4 s vezes ,jos detinha-se1 hesitante na bifurcao de duas trilhas1 mas pouco durava a duvida porque uma das veredas ennegrecia ainda mais1 ao passo que a outra rutilava fulgida1 como calada a diamantes1 offerecendo-se1 clara e segura1 aos peregrinos4 ,como entrassem em sinuosa e esgalgada passagem1 murada de rochas anfractuosas1 eriada de agaves e echoando como o ambito de uma caverna1 ouviram leve1 frouxo ruido como de esfrolar d'azas4 ,uma aguia1 talvez1 que acordara em algum teso e de p1 attenta1 alargando as azas1 ficra em attitude hostil prompta a arremetter em defeza do ninho4 ,o patriarcha1 acolhendo a esposa meiga1 cujas faces pareciam de neve1 apertou com fora o cajado e levantou os olhos4 ,maria1 sentindo o perigo1 tartamudeou1 timida e tremula1 uma orao ao ,senhor4 ,o receio de um ataque em sitio to desolado1 longe de toda habitao1 onde nem choa de pegureiro havia1 deteve o homem4 ,os coraes batiam4 ,nella era o pavor do desconhecido1 o grande medo tragico das sombras do ,schel1 que erram1 noite1 pelos descampados2 nelle era temor por ella4 ,no falavam1 de olhos muito abertos1 quietos1 immoveis como os rochedos que os emparedavam4 ,de repente um claro fulgurou4 ,a passagem illuminou-se1 as pedras scintillaram e as palmouras dos cardos ficaram como de prata4 ,e elles viram uma grande luz flor da terra e clareando as rochas4 ,aves despertando galreavam festivamente o canto da madrugada4 ,levantando o olhar viram os dois a fonte do esplendor4 ,era um anjo que os precedia1 ora trilhando os caminhos1 ora voando acima das rochas1 pousando nos alcandores quando o lento e fatigado andar de ,maria retardava a marcha4 ,a virgem sorria de enlevo e ,jos1 tolhido de commoo1 no se atrevia a encarar o guia resplandecente1 cujo reflexo abria na terra um claro de luar4 ,e as azas aflavam docemente no silencio4 ,a virgem reconheceu no anjo o mancebo que a saudra com as palavras mysteriosas1 cuja promessa cumpria-se e ,jos reviu o divino emissario que lhe apparecera em sonho1 sob a figueira do horto1 defendendo a innocencia de ,maria1 em cujo seio1 cemo em corolla de flor1 a ,graa perpassava em genese immareavel1 fecundando-o como o sol fecunda a leiva1 eternamente pura4 99 99 99 99 99 ,lyrios ,clareava4 ,manhan opca1 envolta em bruma que algodoava a terra1 fluctuando com um lento ondular1 fluindo em frouxeis alvissimos como pennugem1 esgarando-se1 diluindo-se em fumo tenue que se esvaa no ar silencioso4 ,a espaos frondes boiavam1 ramarias exciduas irrompiam4 ,ouvia-se o lentejo lacrimoso das folhas orvalhadas4 ,a terra dava-se avaramente1 a trechos curtos1 medida que os viajantes avanavam e o caminho percorrido1 como os dias da vida1 eram logo fechados em branco pelos nevoeiros4 ,branco era tambem o ceu e triste1 pesando sobre a terra1 to baixo que as nuvens1 por vezes1 envolviam os peregrinos4 ,passaros piavam nas taliscas1 occultos2 vozes de gado1 longinquas1 evocativas1 annunciavam casaes4 ,maria tiritava4 ,a tunica pesava-lhe nos hombros1 humida1 e as faces1 rorejadas1 tingiam-se em duas rosas como se as flores1 transidas1 houvessem procurado abrigo ao calor carinhoso daquella mocidade pura4 ,jos distrahia a companheira falando-lhe dos lugares que iam atravessando4 ,todos aquelles atalhos tortuosos1 aquelles carreiros invios haviam sido1 em tempos remotos1 trilhados por patriarchas4 ,ali haviam-se travado batalhas sanguentas2 ali alvejara a tenda1 crescera1 em louro estendal1 o trigo1 retorcera-se a vinha1 pastara o armento1 correra o azeite1 fundira-se o ferro1 britara-se a pedra1 cosera-se o barro sob as vistas de ,iaveh omnipotente4 ,por ali andara ,elias trovejando oraculos4 ,judith afira o gladio libertador nas arestas daquellas penhas4 ,em poeira de ouro foi-se mudando a nevoa3 era o sol4 ,j apparecia uma nesga de azul2 arvores1 moutas destacavam-se3 a mortalha rasgava-se para a resurreio4 ,alegremente as aves1 em claras vozes1 cantaram a victoria da ,luz4 ,e ,maria1 contente1 d'olhos em extase1 esperava o astro annunciado pela fulgurao das nuvens4 ,num recanto1 entre mirradas arvores de troncos retorcidos1 uma agua escura e quieta reluzia4 ,pedras negras1 cobertas de limo1 escondiam-se sob ramos acenosos4 ,maria1 sentindo a dobrez da fadiga1 os olhos pesados de somno1 sentou-se to perto d'agua que toda ella reflectiu-se na superficie espelhenta4 ,viu-se sem vaidade1 com a mesma innocencia com que se rev o passaro e1 num momento1 infantilmente1 mergulhou1 at o punho1 as mos ambas no paul4 ,quiz ,jos reprehendel-a1 vendo-a1 porm1 sorrir1 sorriu tambem4 ,gottejando sahiram as pequeninas mos da agua que tremia4 ,olhavam os dois os circulos que se abriam quando viram duas flores subirem tona1 brancas1 abertas em cinco petalas1 erectas em finas hastes1 como se o reflexo das mos da ,immaculada se houvesse materialisado em memoria da abluo ligeira4 ,eram lirios e trescalavam4 ,virtude1 brilho das almas1 que importa que desas vasa8 s impermeavel como a luz1 purificadora como o raio de sol4 ,no perdes a limpida pureza e1 se entras no ,vicio1 fazes desabrochar a ,graa2 se afundas no ,crime1 tiras o arrependimento4 ,o pantano era lobrego1 coberto de folhas mortas e as mos de ,maria1 s com o aflorarem1 tanto o purificaram que delle nasceu o lirio sem macula1 symbolo formoso e candido da innocencia4 99 99 99 99 99 ,a refeio ,suave som de frauta pastoril deu a ,maria o encanto de uma egloga4 ,voltou a cabea dourada e viu o rebanho que se aproximava em vagaroso passo4 ,trazia-o um menino1 guiando-o por entre as hervas de aroma4 ,um lindo menino1 to alvo que no despedia sombra1 como as neves que os raios do sol atravessam2 to louro que a sua cabea alumiava4 ,vinha a frauta soando em suaves accentos e attrahidas1 enlevadas na musica1 abelhas voavam em volta do pastorinho1 que assim apascentava dois rebanhos3 um pela terra verde1 outro pelos ares claros4 ,ergueu-se ,maria e1 sem dizer palavra1 olhando os ubres apojados das ovelhas1 deu a sentir o seu desejo4 ,como devia saber aquelle leite que era a metamorphose das flores dos silvados6 ,como devia rescender na boca e aquecer e fartar6 ,calou-se a frauta e o menino1 fitando os olhos meigos no casal errante1 como se de muito o conhecesse e amasse1 deteve-se1 e os animaes pararam4 ,ficou o rebanho unido1 to junto que no fazia mais que um vello e as abelhas1 zumbindo1 puzeram-se a esvoaar em torno dos lirios alvos4 ,jos adiantou-se e1 offerecendo um obulo ao menino1 pediu-lhe um pouco de leite4 ,sorrindo1 o pastorinho tomou o tarro que trazia ao flanco4 ,logo1 entre as ovelhas1 houve um movimento ancioso4 ,balavam todas offerecendo as tetas refertas1 atropelavam-se1 saltavam querendo1 cada qual1 ser a escolhida e o pastorinho brandamente as afastava4 ,foi primeira1 ordenhou-a4 ,o leite esguichou em fio2 outra chegou1 depois outra e a todas elle attendia para que nenhuma ficasse preterida4 ,j a espuma fervia crescendo em flor1 transbordando do vaso e as ovelhas festejavam-se contentes4 ,sorrindo1 aceitou ,maria a offerta do zagal2 bebeu a lentos goles1 saboreando4 ,e foi a vez de ,jos4 ,refeito1 o patriarcha insistiu na ddiva da moeda1 mas o menino negou-se a recebel-a3 ,que era um pouco de leite8 ,qualquer pastor faria o mesmo4 ,saudou-os1 e1 pondo-se frente das ovelhas1 levou a frauta aos labios4 ,os sons vibraram4 ,lento e manso o rebanho proseguiu4 ,foi ento que ,maria viu que as abelhas1 tantas que occultavam os lirios1 deixavam as flores voando musica da frauta4 --,lindo pastor6 ,lindo rebanho6 disse1 enlevada1 a ,virgem4 ,mas logo1 referindo-se s abelhas que fugiam1 perguntou a ,jos3 ,que tero ellas buscado nas flores d'agua8 --,o arma e o nctar1 explicou o patriarcha4 ,chegaram-se os dois s flores e viram1 maravilhados1 que estavam cheias de mel crystallino e louro como o ambar precioso e to perfumado como se contivesse toda a essencia das flores4 ,tomou ,jos um dos lirios e deu-o a ,maria2 a ,virgem offereceu-lhe o outro4 ,depois1 deliciados1 contemplaram-se felizes4 --,a frauta j no sa1 vai muito longe o pastor1 disse ,maria4 --,vai muito longe6 repetiu ,jos contricto1 levantando os olhos para o ceu1 como se procurasse nas nuvens o pastorinho louro e as ovelhinhas brancas4 99 99 99 99 99 ,a nuvem ,sob a irradiao do sol a terra secca abrazava1 exhalando um bafio de rescaldo4 ,triste1 flagellada ,samria pagan6 ,os deuses do ,garizin1 depois da destruio do templo1 pareciam haver desertado o monte onde os homens subiam a retemperar a f1 de onde manava a seiva que se infiltrava nos campos e mantinha vivas todas as fontes1 entre rochas humidas4 ,ermo o sagrado monte1 esquecido o santuario antigo1 as lavouras mirraram e um sol mais rdego crestou as hervas1 sorveu as aguas outr'ora copiosas4 ,nem as torrentes ligeiras conseguiram1 fugindo1 escapar inclemencia e os leitos dos corregos1 em lodo secco1 estalavam1 fendiam-se em gretas fundas4 ,um fio d'agua rastejava nos lugares que1 antigamente1 rios largos alagavam4 ,das fontes restavam apenas as pedras calvas sobre areias torridas onde viboras esfusiavam1 entaliscando-se ao rumor de passos4 ,de ponto em ponto uma cisterna funda offerecia ao caminhante a sua agua salobra4 s vezes o terebintho forte sombreava-a ou figueiras e mimosas formavam-lhe em torno um bosque ameno4 ,mas os trilhos1 arenosos e pedrentos1 eram apenas habitados pelo cardo que esgalhava os ramos espinhosos1 abertos em feridas1 feios1 disformes como aleijes4 ,no se ouvia cantar um passaro--s o gypaeto atravessava o espao fulgurante ou grandes aguias hostis1 pousadas no cabeo das penhas1 devassavam os arredores buscando o que prear4 ,maria offegava seguindo o esposo4 ,a areia escaldava-lhe os ps mimosos1 o sol abrazava-lhe a cabea4 ,caminhavam como atravez de chammas1 sem que os olhos avistassem um colmado1 a grata ramagem duma arvore4 terras frteis da ,galila6 valles alfombrados e frescos de tanta belleza por onde correm numerosos ribeiros claros4 ,galila6 ,tudo era desolao na tristonha ,samria e o sol do outono queimava como nos incendidos dias estivaes4 ,seria melhor esperarem a tarde1 proseguirem com a brandura do crepusculo2 mas a pressa que levavam no lhes permittia demora4 ,jos1 mais robusto e affeito a rigores1 resistia2 a ,virgem1 porm1 comeava a sentir-se atordoada3 faltava-lhe o ar1 os olhos ardiam-lhe4 --,chega-te sombra do meu corpo1 disse-lhe o patriarcha4 ,ella obedeceu4 ,mas o sol zombava da misericordia do amor e ,maria continha as lagrimas1 calava as dores dos delicados ps abertos em feridas1 no querendo que o esposo soffresse com o seu soffrimento4 ,o sol subia1 augmentava o calor e o animo da ,virgem desfallecia quando uma nuvem cresceu acima do monte ,ebal4 ,era escura como os nimbus e apressava-se como impellida por um grande vento4 ,barulho surdo annunciava-a1 igual ao ronco soturno que precede as saraivadas de vero4 ,a terra entenebrecia passagem obumbrada da nuvem1 que vinha direita ao caminho trilhado pelo casal4 ,o ruido augmentava tornando-se como o escacho das catadupas4 ,detiveram-se os dois1 pallidos1 tolhidos de espanto4 ,subito ,maria sorriu3 --,so pombas1 disse4 ,eram1 effectivamente1 milhares de pombas azues que1 muito juntas1 formavam a nuvem escura4 ,pairaram1 ficaram adejando sobre elles1 com rumoroso arrulho1 e o sol quebrava-se-lhes nas azas estendidas4 ,jos baixou os olhos1 dobraram-se-lhe os joelhos e a ,virgem1 olhando as aves1 no deu pelo gesto piedoso nem ouviu as palavras devotas com que elle1 em extase1 adorava-a4 ,ento proseguiram sombra do immenso pallio azul e fra da nuvem viva a terra1 quente e rutila1 ardia e faiscava ao sol4 99 99 99 99 99 ,ao pr do sol ,no ceu desbotavam1 esbatiam-se as cres vivas1 o ouro e a purpura fundiam-se em violete e1 docemente1 a melancolia vesperal envolvia a natureza e penetrava as almas4 ,e ,maria perguntou3 --,porque mais triste do que a noite o breve instante do pr do sol8 --,porque uma agonia1 respondeu ,jos4 ,no a morte que impressiona1 o morrer4 ,a luz que vasqueja como o corpo que estrebucha4 ,a noite serena1 tem a immobilidade do cadaver4 ,quantas sombras havia na terra8 tantas quantas so os seres e as coisas que existem4 ,o sol1 porque a vida1 discrimina1 d a cada um a sua autonomia para o bem ou para o mal4 ,o homem tem a sua sombra1 como a formiga2 a cordilheira escurece uma regio e o gro de areia destaca a sua mancha4 ,a noite condensa na mesma sombra todo o universo4 ,no instante da agonia a alma1 como o saltador que reca para ganhar impulso na corrida e formar o pulo1 regressa na reminescencia recordando a vida1 desde os dias primvos at hora suprema4 ,o crepusculo1 que lembra o amanhecer1 sem a alegria1 um reco madrugada para o salto dentro da noite4 --,aquelle claro que alveja nos montes o luar4 ,a lua como uma lampada que o sol deixa accesa quando parte4 ,como a noite linda6 --,e purificadora4 ,o somno um mergulho na ,eternidade4 --,quando eu era pequenina1 mal anoitecia1 punha-me a tremer de medo e s depois de rezar conseguia adormecer4 --,porque a ,f uma claridade que desfaz as sombras interiores4 ,o que no cr como o cgo que anda tacteando1 sempre arriscado a perigos1 bastando resvalar num talude para precipitar-se no abysmo4 ,a ,f como a lampada dos templos3 sempre accesa e fulgurando4 ,o homem de f anda mais seguro na escurido do que o incrdulo ao sol4 ,o horizonte do crente ,deus4 --,porque bate com mais vigor o corao noite8 --,as aguas murmuram mais alto no silencio8 no1 a voz a mesma1 a calma que isola fazendo-a parecer mais forte4 ,quando trabalhas sombra da vinha ouves balar o rebanho8 no1 entanto1 noite1 soergues-te no leito voz lamentosa duma ovelha perdida4 ,o corao parece pulsar com mais impeto nas horas de recolhimento4 ,nas cavernas profundas as vozes reboam1 o estellicidio de uma gotta faz ruido4 essa uma das vantagens da noite--estabelecer o silencio1 a quietude nalma para que a consciencia faa o seu acto de contrico4 --,e as estrellas8 quem as accende no ceu8 --,aquelle mesmo que abre as flores na terra4 --,ninguem o v4 --,e o ,pensamento1 quem o v8 ,enunciado um relampago1 realisado um esplendor2 a sua essencia o genio1 que gera a ,ordem4 ,o mundo a realisao do ,pensamento de ,deus2 as obras ephemeras do mundo so a consubstanciao do pensamento humano4 ,o homem constre1 o artista2 ,deus cra1 o ,verbo4 --,e eu8 --,tu s ,maria1 disse o patriarcha1 afagando-a paternalmente4 ,iterativas1 afinadas vozes murmuraram nos ares concluindo o dizer do ancio3 444 cheia de ,graa1 o ,senhor comtigo4 ,bemdita s tu entre as mulheres4 ,ella deteve-se assustada e interrogou o esposo1 tremulo3 --,que dizeis1 meu senhor8 ,jos1 que nada ouvira1 respondeu3 --,digo que s uma creatura de ,deus1 como a flor1 como a estrella4 ,os chacaes latiam no deserto ao doce claro da lua4 99 99 99 99 99 ,a tentao ,numerosa estropeada de innumeros corceis atroou o silencio2 tubas clangoraram e1 repentinamente1 como passassem entre duas alcantiladas penhas1 que o luar vestia d'alvo1 viram altos pylonos de basalto1 sarapintados de hyerogliphos1 ante os quaes esphynges monstruosas1 deitadas sobre stelas negras1 laivadas de sanguineo1 com os bicos dos rijos peitos incrustados de rubis1 cravavam no ceu os olhos mysteriosos4 ,mal chegaram entrada portentosa logo uma luzente guarda de cataphractos1 com petrinas de prata1 montando ginetes brancos de crinas rastejantes1 hasteando lanas que alumiavam1 formaram duas extensas alas ao longo do caminho areado de ouro1 sobre o qual frescamente rociava uma serena pulverisao de aromas4 ,os olhos perdiam-se na viso de uma vasta cidade mirifica1 toda em marmores e prphydos1 com enormes templos1 palacios que eram cidadellas1 jardins de redolentes leas1 rios beirados de arvores1 com as rampas em alcatifa de flores1 rolando alisadas aguas sobre as quaes rebrilhava1 em tremulina1 o luar4 ,barcos de pras curvas1 transbordando brocados1 cruzavam-se com musicos sob doceis de seda4 ,nos bosques que os cysnes percorriam1 alvos como vivos marmores1 mulheres1 veladas de gaze1 coroadas de rosas1 repousavam na fina relva ou balouavam-se em redouas4 ,os zimborios dourados1 os frontes dos templos tauxiados de ouro1 as escadarias largas1 de zebrados degraus de cypolino1 subindo a pateos de mosaico1 esplendiam4 ,surdo rumor agitava a cidade onde a multido1 em festa1 tumultuava numa variedade de trajos multicores4 ,passavam palanques sob flabellos empunhados por grandes negros vestidos de saios rubros1 com franjas de prata1 adagas cinta1 emplumados turbantes cabea4 ,plaustros rodavam com crepitaes levantando uma nevoa loura4 ,photinas de harpas respondiam-se de um eirado a outro e1 num obelisco de onix canellado1 molle serpente de escamas de ouro1 vibrando a lingua bifida1 enroscava-se1 em lentas espiras1 ficando1 s vezes1 pendente1 a oscillar como uma grossa liana4 ,jos olhava pasmado e ,maria encolhia-se timida1 contemplando1 deslumbrada1 a cidade fulgente4 ,no era a triste ,sichem nem a sombria ,jerich4 ,que cidade seria aquella to rica1 de tanta vida1 isolada na tristonha e maninha regio da ,samria8 ,subitamente1 com improvisa fulgurao1 abriram-se de par em par as portas do templo maior e um grave cortejo appareceu no peristylo e vagaroso1 solemne1 poz-se a descer a fulgida escaleira4 ,vozes1 ao rythmo de instrumentos lyturgicos1 entoaram um cantico glorioso4 ,o povo prostrou-se na areia micante das alamedas bradando um nome forte4 ,ceruleo claro refulgiu celestialmente4 ,coalharam-se os ares de aves1 armas lampejaram em meneio heroico e toda a turba templaria formou no atrium1 ergueu um sonoro louvor e rojou-se de bruos1 com um tinir argentino de armillas e braceletes4 ,e um homem alto1 alado1 com dois cornos de luz purpurea ardendo-lhe entre os cabellos crespos1 surgiu no limiar de ouro estendendo amorosamente os braos a ,maria extatica4 ,a voz com que a chamou reproduziu-se em echo no silencio mystico2 o seu olhar ardia e1 em torno do seu corpo atorreado1 relumbrava um halo como se o emmoldurassem chammas4 --,vem6 ,o meu amor esperava-te ancioso4 s a eleita de minh'alma4 ,chegaste no tempo em que as rosas florescem4 ,as vinhas crespas do fruto1 as abelhas fazem o seu mel1 o trigo redoura os campos1 os lagos so aucenaes extensos4 ,eu puz em ordem a natureza para as nossas nupcias sagradas4 ,vem6 ,a terra em que pisas nunca recolheu cadaveres4 ,entraste no reino da ventura eterna4 ,vem6 ,e estendeu os longos braos que alumiavam como caudas d'astros4 ,houve um clamor ovante feito com o nome suave de ,maria e outro que ribombava e os cataphractos1 levantando-se1 a prumo1 nos estribos1 cruzaram as lanas formando uma abobada de scintillaes4 ,jos olhava1 mudo e receioso1 acolhendo ao peito a timida donzella4 ,um gallo cantou em alguma herdade proxima4 ,instantaneamente1 com uma surda exploso1 toda a cidade maravilhosa e os seres que a animavam subverteram-se4 ,os ares ficaram nublados de fumo1 estryges chirriaram4 ,de novo reappareceram os campos rasos1 ermos1 estereis1 calados1 ao luar livido4 ,maria1 com o corao sobresaltado1 murmurou3 --,que lindo sonho1 meu senhor4 --,no foi sonho1 ,maria1 tornou sombriamente o patriarcha4 ,vamos6 ,os lirios trescalam1 os gallos cantam2 a madrugada que vem4 ,puzeram-se a caminho4 ,e1 pelos ares1 contorcendo-se em furor1 uma sombra alada fugia1 enorme1 monstruosa1 com dois cornos que coruscavam4 99 99 99 99 99 ,o milagre das lagrimas ,a estrada1 a duas horas de ,sichem1 pelos montes1 larga e suave1 com acceitosas sombras de sycomoros e de amendoeiras1 era toda orlada de anemonas vermelhas e de margaridas brancas e amarellas4 ,os khans succediam-se sempre abrigados em hortos frondosos1 com a cisterna ao lado ou perto de alguma fonte1 com a alpendrada reverdecida pela vinha1 debaixo da qual os mercadores1 que desciam de ,tyro ou do ,libano ou subiam de ,jopp1 comiam uma febra de anho regando-a com o vinho fresco de ,engaddi1 emquanto os dromedarios soltos iam e vinham vagarosamente ou deitados1 ruminando1 cerravam os olhos nostalgicos vivida fulgurao do sol4 ,casas miserrimas1 de muros de lodo1 cobertas de palha1 confundiam-se com a ramagem dos eloendros1 perdiam-se nos olivaes4 ,caravanas desfilavam--os homens a cavallo1 com as lanas altas1 o albornoz ao vento2 as mulheres em jumentos ou em carros1 entre fardos e alcofas1 agasalhando crianas sob as pontas dos mantos4 ,por vezes um canto suave rompia da turba1 rufavam tamboris1 kinnareths vibravam1 frautas desferiam e os cavalleiros alegres faziam caracolar os ginetes1 as mulheres punham-se de p nos carros olhando as muralhas que se aprumavam ao longe1 fechando cidades1 cujas casas1 em cubos brancos1 semelhavam tumulos4 ,jos evitava os pousos1 fugia aos rumorosos aduares1 mettendo por atalhos para evitar a chacota da gente nomade4 ,justamente atravessavam uma trilha deserta quando ouviram um choro triste e deram de rosto com uma moa morena que trazia nos braos uma criana inerte4 ,ps ella uma pequenita1 j com abundancia de flores1 ainda varejava os mattos procurando anemonas4 ,vendo-os1 a misera susteve o pranto e1 fitando em ,jos os olhos rasos d'agua1 perguntou3 ,se ainda distava muito ,endor1 onde vivia ,baruc1 o nazir1 que conhecia a virtude das hervas e realisava curas maravilhosas4 ,vendera as suas ovelhas e levava oito cyclos de prata e um collar de ouro comprado em ,jerusalem e1 se tanto no bastasse1 dar-se-ia como escrava pela saude do filho4 ,jos estendeu o brao na direco do ,levante3 --,era alm1 muito longe1 atravez da montanha1 num valle sombrio1 a horas do ,jordo4 ,maria1 commovida1 quiz vr o infante4 ,a mi descobriu-lhe o rosto4 ,era lindo6 ,os cabellos rolavam-lhe em cachos louros1 os olhos jaziam como dois mortos sob as cupulas tumbaes das palpebras1 com os longos cilios repontando como a herva que via no abandono4 ,a boca1 de labios cerrados1 livida1 era como o leito secco de uma torrente que o sol exhauriu e estalou4 ,no se movia e1 to rigido1 to frio estava que s a illuso do amor podia ainda emprestar-lhe vida4 ,a pequenita continuava a rebuscar anemonas cantando4 --,ides debalde a ,endor com o vosso filho1 disse commiserado o patriarcha1 accrescentando3 ,baruc pde sarar enfermos1 mas s ,elias resuscitava os mortos4 --,quereis dizer que elle est morto68 exclamou a mulher tremendo4 ,se1 ainda hontem1 embalei-o nos braos444 ,se ainda estou com os peitos cheios de leite1 manando copiosamente como as ribeiras das collinas4 ,ai6 de mim444 ,bem que eu no queria cantar a cantiga tristonha6 ,foi o canto triste que o fez fugir dos meus braos4 ,ai de mim6 ,adormeci-o para sempre4 ,e agora8 quem ter piedade da minha solido8 ,era elle s444 ,nasceu em noite de luar1 finou-se em manhan de nevoa4 ,e hei-de o deixar na terra justamente agora quando o inverno chega6 ,ai6 de mim444 ,a saudade mudar o leite dos meus peitos em lagrimas para os meus olhos4 ,pobre de mim6 ,coitada de mim6 ,e a moa deixou-se cahir beira do caminho apertando nos braos o corpo do filho morto4 ,a pequenita continuava a rebuscar anemonas4 ,maria inclinou-se compadecida sobre o cadaver e duas lagrimas da sua piedade rolaram na fronte gelida do defunto4 ,logo abriram-se os olhos da criana4 ,eram azues1 cr do ceu2 renasceram-lhe as rosas das faces1 os bracinhos inertes estenderam-se e1 lindo1 com o esplendor da vida1 o pequeno sorria afogando a cabea no collo materno4 ,o espanto emmudecera1 immobilisara a moa4 ,subito1 ergueu-se com um grito d'alma1 poz-se a rasgar a tunica na pressa sofrega de amamentar o filho4 ,os peitos saltaram tumidos4 ,o pequeno abocou avidamente e a mi1 sentindo-o sugar1 contente e com lagrimas1 ajoelhou-se e1 d'olhos no ceu1 ficou como petrificada4 ,maria chorava por vl-a chorar venturosa e1 como as suas lagrimas cahissem na terra1 a pequenita no teve mos para colher as flores que nasciam1 brotando como acima d'agua borbulham1 s mil1 as bolhas de ar4 99 99 99 99 99 ,caminhando ,maria caminhava em silencio1 pensando naquella mi que1 repentinamente1 passra da maior desventura maior felicidade pelo prestigio das lagrimas misericordiosas4 --,o pequenito dormia e a pobre mi tinha-o por morto4 ,foi bastante que eu lhe tocasse para que logo abrisse os olhos4 -- que o despertaste1 disse o patriarcha sem alludir ao prodigio que testemunhara4 ,elle ia notando1 com discreta reserva1 todas as maravilhas que se realisavam passagem da ,virgem3 ribeiros que sustavam o curso offerecendo o leito enxuto para a travessia2 arvores que se cobriam de flores1 carregavam-se de frutos vergando generosamente os galhos2 vozes que murmuravam2 veios limpidos que rebentavam das pedras e1 durante os curtos somnos da donzella1 no lhe passavam despercebidos anjos que rondavam em torno dos bosques pisando1 de leve1 os caminhos avelludados4 ,a mais e mais se lhe firmava nalma a certeza de que as palavras que ouvira em sonho haviam sido pronunciadas por um mensageiro do ceu4 ,aquella era1 em verdade1 a eleita da ,divina ,graa1 a ,virgem pura de ,jud1 da qual devia nascer o ,messias das gentes4 ,elle acompanhava-a1 no como esposo e sim como servo1 adorando-a de joelhos quando a via adormecida4 ,ella ignorava tudo4 ,sabia apenas que era mi porque sentia no seio os movimentos do ,sr ,perfeito1 no qual concentrava todo o seu amor4 ,j lhe crescia o collo1 pesando1 arredondado e turgido4 ,o amor preparava o alimento para ,aquelle que se nutria de mysterio4 --,as mis soffrem tanto pelos filhos6444 ,o amor das mis como a rosa que cresce entre espinhos4 ,praza aos cus que meu filho no soffra emquanto fr pequenino4 ,as crianas no falam1 no atinam a indicar onde lhes punge a dr1 de sorte que a gente no sabe como as ha de alliviar quando soffrem4 --,as mis adivinham4 --,so to fracas as criancinhas que tudo perigo em torno dellas4 ,tremo quando penso no meu pequenino filho que vai nascer1 to franzino e to pobre4 ,onde o agasalharemos ns8 --,entre os nossos braos1 como os passaros resguardam o ninho entre os ramos4 --,e o frio8 --,temos o nosso calor4 --,e a fome8 --,os peitos maternos so dois celleiros sempre cheios4 --,haveis de amal-o1 senhor1 e ajudar-me emquanto elle carecer de ns8 --,por ti1 por ,elle1 por todos1 disse ,jos enlevado4 ,chegavam a um bosque de tamareiras1 onde havia uma cisterna cercada de musgo4 ,um velho cgo repousava sombra1 ouvindo cantar uma criana que brincava sentada nas folhas seccas4 99 99 99 99 99 ,o cgo ,o velho era de ,jerich4 ,esperava naquelle retiro a passagem das caravanas que se encaminhavam a ,jerusalem e sempre recolhia uma azinhavrada moeda1 um punhado de tmaras ou um esgarado albornoz em que se enrolava1 bemdizendo1 com palavras humildes e agradecidas1 a generosidade dos homens1 recommendando-os ao deus de ,abraho1 de ,isaac e de ,jacob e indicando-lhes os melhores e mais seguros caminhos pelos montes4 ,jos ajuntou as folhas espalhadas e fez uma alfombra onde ,maria adormeceu revendo1 em sonho1 a sua alegre ,nazareth1 as moas beira da fonte1 os pastores nos cerros1 hora macia da tarde1 quando as cotovias baixam e desapparecem nas searas e as aguas das levadas cantam4 ,conversaram os dois velhos--,jos falou da sua viagem1 o cgo falou da sua cegueira4 --,estava assim desde moo1 um raio cegara-o no campo1 sob um sycomoro4 ,j se habituara treva como um prisioneiro que se houvesse acostumado ao carcere4 ,um magico de ,suza offerecera-se para cural-o4 ,pedira cem drachmas1 baixara a cincoenta2 faria por vinte se elle lh'as offerecesse4 ,tinha ainda a sua cabana e ovelhas1 vendendo-as reuniria a somma1 mas1 pensando1 resolvera deixar-se ficar na cegueira4 ,e suspirou3 --,illude-se quem julga que1 ao voltar aos antigos lugares1 encontrar as coisas como deixou3 as proprias pedras modificam-se e no so varias como as almas4 ,quando me annunciaram a morte de meu filho1 pedi que me puzessem junto do cadaver1 apalpei-o1 beijei-o2 ouvi os passos dos que o levaram a enterrar1 mas no vi o enterro4 ,ouvi o estrondo da queda do cedro que cobria de sombra a minha eira e1 ainda hoje1 vou sentar-me no sitio em que elle avultava e sinto-me agasalhado pela ramagem que no existe e ouo a alegre voz dos passarinhos de outr'ora4 ,as coisas foram desapparecendo uma a uma1 eu mesmo envelhecia1 mas a cegueira conserva a viso do passado4 ,o sol parou para mim na mocidade como parou sobre os muros de ,jerich voz do batalhador4 ,vejo dentro de mim tudo quanto deixei3 as gentes1 os animaes1 as arvores1 os lugares com as suas cabanas e os seus campos floridos4 ,sou como a ave aprisionada1 de pequenina1 em uma gaiola1 que no olha seno a limitada paizagem que fica em torno da sua vivenda triste4 ,soltai-a1 esvoaar atordoada e1 se no regressar priso1 morrer de fome perdida nas florestas frondosas1 se no cahir nas garras dos abutres4 ,o homem de ,suza queria dar-me a liberdade4 ,para que8 para eu morrer de saudosa tristeza sentindo o deserto em volta de mim8 ,no6 ,vivo no passado1 o meu tempo j foi4 ,no caminho para a morte1 espero-a1 sentado no limiar da mocidade1 ouvindo o rumor do tempo devastador1 sem vr os desastres1 sem vr as lagrimas1 sem vr os enterros4 ,perdi-me dos meus1 dei em uma furna e nella vivo4 ,j agora estou habituado sombra4 ,para que hei de sahir se1 l fra1 s me esperam ossadas8 ,se o proprio ,deus me offerecesse a luz eu lhe pediria a morte4 ,voltar atraz4446 ,a herva cresce1 o vento revolve a areia desmanchando as nossas pegadas4 ,o campo1 que conhecemos florido1 mudou-se em carrascal2 a gente envelheceu ou morreu4 ,s ha um meio de no caminhar chorando-- seguir sempre em frente e se eu recobrasse a vista teria de retroceder e cegaria de novo com os olhos afogados em lagrimas4 ,aonde vos dirigis8 --,a ,bethleem4 --,casa do po4 ali que deve nascer o ,annunciado4 ,casa da abundancia1 celleiro do ,senhor1 ,bethleem da fertilidade6 ,de l que nos ha de vir o ,messias4 ,o campo de ,booz dar o trigo que ha de fartar as almas4 -- para l que vamos4 --,que as estrellas vos sejam propicias1 como fram a ,ruth1 a moa de ,moab4 99 99 99 99 99 ,dentro da noite ,maria abriu os olhos quando as estrellas nasciam4 ,o cgo j havia partido levado pelo menino4 ,as cigarras cantavam vesperas4 ,jos empunhou o cajado3 ,maria deixou o leito agreste1 e seguiram4 ,as ultimas chammas do sol apagavam-se no occaso e a nevoa polvilhava os ares como uma cinza4 ,monstruosos penhascos1 talhados a pique beira de precipicios1 avultavam temerosamente na sombra4 ,palmeiras debruavam-se sobre as rampas4 ,toda a vegetao contorcida1 com as raizes flor da terra1 agarrando-se nervosamente s arestas dos penhascos1 parecia receiar aquelles despenhadeiros de onde subia atroadoramente um escacho soturno d'aguas constrangidas4 ,escurecia4 ,os montes ridos da ,juda apresentavam-se hostis aos peregrinos4 ,os caminhos1 aos torcicollos1 confundiam-se augustos1 escavados em brocas1 eriados d'aspas calcareas1 orlados de intonsos espinheiros que1 s vezes1 como garras1 detinham os viajantes pelas tunicas4 ,estryges voavam1 pousavam nos ramos1 nos penedos com gritos lugubres4 ,jos caminhava a passo cauteloso1 sondando o piso com o cajado1 detendo ,maria1 buscando tranquillisal-a com palavras carinhosas4 ,mas a treva adensava-se a mais e mais1 os roados confundiam-se com a sombra4 ,julgando seguir a trilha direita1 o patriarcha estendia a mo e sentia a aspereza das penhas4 -- imprudencia insistirmos em proseguir em tal escurido1 disse ,maria com medo4 ,deus que nos retm4 ,jos deteve-se4 ,parecera-lhe ter ouvido vozes1 rumor de passos1 estalos de ramos seccos1 como se viessem outros caminheiros4 ,escutou attentamente4 ,era o vento que agitava o folhedo e eram as aguas profundas que referviam nos algares4 ,mas um claro suave accendeu-se no fundo espesso do arvoredo4 ,quem seria8 ,encolheram-se os dois1 olhos fitos na claridade1 que se adiantava como a luz de um facho4 ,uma centelha passou na escurido1 outra gyrou nos ares1 as folhas1 os ramos das arvores ficaram incrustados de brazas4 ,surgiram da terra1 saltaram das rochas1 subiram dos desfiladeiros1 a espessido estrellou-se e todas as fagulhas1 unindo-se1 formaram uma rutila umbella pairando sobre ,maria e ,jos como a nuvem seguiu ,israel guiando-o luminosamente pelo negror das noites no deserto4 ,eram pyrilampos que voavam em ordenada phalange alumiando os caminhos obscuros4 ,e os dois1 sob o relume dos insectos1 continuaram a viagem dentro dum reverbero que s ao clarear d'alva desappareceu nos ares4 99 99 99 99 99 ,presagio ,o ceu1 d'um azul transparente1 ia-se1 aos poucos1 illuminando4 ,os montes1 em recortes rigidos1 calvos1 com a pedra exposta1 a reluzir de humidade1 ou eriados de hispidos mattos1 resaltavam em aspero1 mordente relevo1 com os cimos resplandecendo sob uma nevoa de ouro4 ,docemente baliam placidos rebanhos4 ,as casas abriam-se2 homens1 ainda estremunhados1 vinham s portas1 bocejavam lanando por entre as barbas um halito brumoso4 ,sentia-se a visinhana de ,jerusalem pelo maior numero de casas1 pela abundancia de gado nos valles verdes1 recortados de veios d'aguas4 ,burricos trotavam com alcofas e ceires de frutas4 ,risos crystallinos annunciavam crianas2 ouvia-se um estrepitante chapinhar e1 volta de um caminho1 no claro remanso de uma ribeira1 sob a acenosa ramagem do salgueiral1 meninos ns saltavam1 atiravam-se de mergulho1 aos gritos alegres1 flagellando a agua com ramos ou pendurando-se1 a rir1 dos galhos inclinados4 ,nos campos1 a espaos1 alvejavam sepulchros2 ovelhas pastavam em torno1 pombos cercavam-nos em revoada arrulhante4 ,por entre a palha das choas esfiava-se o fumo azul4 ,j os moinhos trabalhavam e junto aos immensos lagares1 onde se pisava a azeitona1 reluziam1 em fumeiro1 montes de bagao oleoso4 ,maria1 que caminhara contente at aquellas paragens1 medida que avanava1 sentia apertar-se-lhe o corao em presagio funesto4 ,olhava anciosa os longes dos horizontes4 ,tudo era calmo4 ,a paizagem estendia-se acceitosa1 cortada de muros de hortos1 toda verde1 bem differente dos desolados ermos que ella deixra4 ,todavia a tristeza empannava-lhe os olhos1 enchia-lhe o corao e j transbordava em lagrimas4 ,vendo-a chorar1 ,jos perguntou com meiguice3 --,sentes-te fatigada8 --,no1 meu senhor3 voltaria a ,nazareth sem parar1 se pudesse4 --,e porque choras8 --,no sei4 ,o corao aperta-se-me1 um grande medo invade-me1 constrange-me4 ,tremo e sinto-me gelar4 ,as proprias flores causam-me horror4 ,as anemonas parecem-me chagas que sangram4 ,tenho medo1 um grande medo1 como se fosse caminhando para a morte4 ,que tumulo aquelle que apparece alm1 to alto1 to negro1 sob o vo dos corvos8 ,jos seguiu com o olhar a direco do gesto de ,maria4 --,o que vs so as muralhas de ,jerusalem1 onde chegaremos antes do pr do sol4 --,alm das muralhas1 aquelle tumulo negro1 to triste1 onde agora o sol brilha4 ,uma velha1 trazendo um jumento pela arreata1 sahiu ao caminho vagarosa4 ,jos saudou-a1 a velha sorriu ,maria abenoando-a e a ,virgem1 escondendo a tristeza num sorriso1 perguntou-lhe3 --,que tumulo aquelle1 alm6 to alto1 dentro dos muros da cidade8 ,os corvos rondam-no1 deve haver mortos ali4 -- um monte1 disse a mulher4 --,um monte6 repetiu ,maria surprehendida4 --,o ,golgotha4 ,o outro o ,goreb4 --,o ,golgotha6 suspirou a ,virgem e1 depois de um silencio dolorido1 deixando-se cahir sobre as hervas1 desatou a chorar convulsamente4 ,a velha animou-a1 teve palavras inuteis de consolo e alento4 ,jos assentou-se-lhe ao lado e1 tomando-lhe as mos frias1 alisando-lhe os cabellos humidos de orvalho1 perguntou-lhe3 --,que tens8 ,ella no poude responder4 ,levantou-se e1 resignadamente1 de olhos baixos1 contendo os soluos1 poz-se1 de novo1 a caminho1 em direco cidade branca e atorreada1 ao sol4 99 99 99 99 99 ,piedade ,com um rebanho que recolhia levado por um pastor coberto de pelles1 as pernas enroladas at os joelhos em vello srdido1 entraram em ,jerusalem pela porta do mercado1 hora em que as buzinas romanas troavam nas torres4 ,jos procurava distrahir ,maria mostrando-lhe as grandes bellezas1 a magnificencia da cidade2 nomeava os edificios1 alguns longinquos1 esfumados nas primeiras sombras da noite4 ,a ,virgem1 porm1 seguia calada1 sem animo de levantar os olhos1 o corao cerrado em tristeza invencivel4 ,gentes diversas cruzavam-se nas ruas3 homens abaanados do deserto1 com o albornoz ao vento1 o punho esmaltado das adagas reluzindo cinta2 phenicios cobertos de jias1 com enormes collares de contas de ouro e braceletes de marfim2 gregos geis passando ligeiros entre a multido1 com a tunica colhida ao brao1 as pernas enlaadas em tiras de couro4 ,mulheres mostravam-se s portas das casas1 encostadas languidamente aos umbraes1 olhando em extase1 com um sorriso nos labios cr de purpura4 ,a algumas viam-se-lhes os peitos pela abertura das tunicas2 outras1 reclinadas em leitos marchetados1 cerravam mollemente as palpebras gosando o frescor dos flabellos que escravas agitavam4 ,errava no ar denso um cheiro forte de aromatas4 ,estranhas musicas soavam e1 como os albergues estavam cheios1 era um babariso alegre sob as frescas latadas1 por entre as quaes1 em corridinha airosa1 moas iam e vinham com amphoras e crateres4 ,o pastor falara-lhes em uma modesta estalagem em ,bezetha1 para o lado do forte1 onde podiam encontrar agasalho seguro4 ,a casa era dirigida por um velho de ,siloeh e tinha1 fama pelo seu anho tenro e pelo seu vinho puro4 ,l achariam pousada e1 como ficava longe e no recebia mulheres1 no seriam incommodados pelos legionarios que1 menor agitao1 invadiam as casas brutalmente levando tudo a conto de lana4 ,era um rancho pauperrimo1 entre sebes de espinhos1 onde aboletavam-se mesteiraes e homens dos montes que traziam ao mercado favos de mel1 resinas1 balsamos e raizes4 ,o velho acolheu-os de boa sombra1 serviu-lhes a refeio na sala lobrega que uma candeia alumiava4 ,rusticos bebiam1 jogavam e fra1 junto a um monte de pedras1 um velho resmungava raspando1 com voracidade1 o fundo de uma escudella4 ,era um leproso nojentamente abostellado de ulceras4 s chufas dos homens1 que lhe atiravam cascas1 bagaos de frutas1 respondia aos regougos1 bramindo maldies e1 como prorompesse aos berros1 apanhando pedras para defender-se1 os homens revoltaram-se4 ,o hospede tranquillisou-os e1 sahindo ao terreiro1 poz-se a assobiar4 ,enorme co saltou da sombra rosnando1 o taverneiro aulou-o contra o leproso que se encolhera estarrecido4 ,vendo o co investir1 ,maria cahiu de joelhos1 juntou as mos frias e1 tremula1 d'olhos no ceu1 implorou pelo infeliz4 ,o animal raivava1 aos saltos2 os homens vociferavam incitando-o4 ,alguns riam no ante-gosto da scena cruel1 mas como o leproso1 tentando correr1 tropeasse rolando na terra e ferindo o rosto no pedregulho1 o co1 que o alcanara1 poz-se a ganir e1 sacudindo a cauda1 ficou de rastos1 lambendo mansamente o sangue que escorria da cicatriz do mendigo4 ,e ,maria1 extactica1 no via a doce misericordia que immobilisara em espanto os hospedes do albergue4 99 99 99 99 99 ,cantico messianico ,ao romper d'alva quando1 do lado do templo1 as cegonhas partiam em direco ao deserto e as pombas baixavam em nuvens sobre o mercado catando o gro que transbordava das ceiras1 o patriarcha despertou ,maria e1 ligeiros como foragidos1 deixaram a estalagem com os votos de boa jornada do hospedeiro4 ,as buzinas romanas resoavam na serenidade4 ,legionarios recolhiam canadamente a ,makros4 ,pobres1 que haviam pernoitado ao relento1 estremunhavam sobre farrapos4 ,num pateo1 entre muros de maceria1 espontado de hervas sylvestres1 mugiam bois e homens bradavam4 ,corvos rondavam os ares attrahidos pelo cheiro do sangue4 ,quando passaram as muralhas1 sahindo no campo do oleiro1 o sol brilhava nas pastagens humidas e passarinhos cruzavam o vo cantando na alegria do sol4 ,maria caminhava d'olhos altos1 como enlevada4 ,ineffavel sorriso illuminava-lhe o rosto lindo1 arrepios nervosos sacudiam-na de instante a instante4 --,l est ,bethleem6 disse ,jos estendendo o cajado na direco dos montes ainda enfaixados em nevoa4 ,maria empallideceu e1 d'olhos fitos nos outeiros graciosos da terra de ,david1 rompeu1 de repente1 a cantar1 sobre uma antiga melodia hebraica1 repetindo inspiradamente as palavras que lhe sahiam d'alma3 ,espirito ,perfeito1 ancia das almas miseras1 se s ,tu que em mim assistes1 bemdita seja a carne fragil em que te encerraste e de onde deves romper1 germen da ,redempo1 em ,flor de ,misericordia4 ,espirito ,perfeito1 lume que de mim fizeste a ,tua lampada1 que o ,teu claro espalhe-se pela terra fazendo brotar a sementeira nos campos e o ,amor no corao dos homens4 ,espirito ,perfeito1 fonte de copiosas aguas bemfazejas1 se do meu seio que vais jorrar1 bemdita seja a ,dr que me lanou na vida1 bemditas sejam as lagrimas que j por ,ti hei vertido4 ,espirito ,perfeito1 esperana dos desanimados1 se eu sou o ramo verde que ,te hei de dar1 bemdita seja a afflico de minh'alma na hora atormentada em que1 innocente1 me julguei culpada e1 pura1 vi a suspeita manchar a minha virgindade4 ,espirito ,perfeito1 se s a ,redempo annunciada1 bemdigo a ,tua vinda1 sem orgulho1 por me haveres tomado por ,teu trmite e prostro-me ante a ,tua ,graa e exalto a ,tua ,beneficencia4 ,espirito ,perfeito1 ,sr dos sres1 no nado ainda1 gloria a ,ti e ,tua origem celestial4 ,virgem1 dar-te-ei ao mundo4 ,eu sou como o olhar que se no macula por transmittir ao corpo a viso4 ,por mim entras no mundo como o sol1 e tudo que elle alumia1 entra1 pelo olhar1 no cerebro4 ,eu sou a pupilla que communica ao ,universo a ,claridade ,magnifica4 ,espirito ,perfeito1 louvado sejas sempre pela ,tua ,virtude e pela ,tua ,excellencia4 ,sahes da carne mortal sem trazeres peccados3 passas por ella como uma imagem que se reflecte nagua4 ,espirito ,perfeito1 ,graa de ,israel1 ,esperana das ,gentes1 ,messias444 ,meu corao alegra-se sentindo-,te e o meu corao o captivo que almeja a liberdade4 ,eu sou a ,fraqueza humilde chamada ,mulher4 ,sou a escrava que gera o seu ,libertador1 a ,sombra de onde sahe a ,luz1 o ,peccado que floresce em ,perdo444 ,jos ouvia-a com os olhos rasos d'agua4 ,as cotovias cantavam na altura luminosa4 ,longe1 sob a fulgurao do sol1 resplandeciam os muros de ,bethleem1 entre outeiros4 99 99 99 99 99 ,o campo de ,booz hora clida1 abafada em que as folhas dormem e as ribeiras murmuram de leve1 vagarosas1 remansando-se sob as quietas sombras1 e toda aza encolhe-se entre os ramos mais densos1 e todo reptil encova-se na terra mais humida1 deram os dois num campo de farta seara onde alumiavam foices e moas juntavam gavellas1 cantando1 emquanto os homens ceifavam assustando as cotovias que tinham os seus ninhos rentes do cho1 na raiz do trigal4 ,maria1 com o manto sobre a cabea1 enlevada naquella messe de ouro e na alegria ruidosa do trabalho1 ouvia as vozes que se cruzavam subindo dos trigos altos1 onde os seareiros desappareciam1 como se fsse o proprio campo que cantasse o louvor do sol4 ,ia to entretida que no viu ,jos adiantar-se1 direito a uma palhoa onde um velho jazia1 sentado ante um monte de vergas1 tecendo um alcofe e cantando4 ,aligeirou os passos e alcanou o esposo justamente quando elle saudava o ancio4 --,dizei-me a quem pertence este campo to rico e cheio de tanta alegria8 --,a ,obed1 segundo deste nome1 descendente de ,booz1 o semeador4 --,foi1 ento1 nesta terra que a moabita achou agasalho junto do homem bom1 que a amou8 --,sim1 foi aqui4 ,esta a leira de ,ephracta1 a mais fertil entre as mais abundantes e generosas4 ,este campo foi o leito nupcial onde se gerou a raa robusta dos reis de ,israel4 ,aqui nasceu ,david1 tronco forte1 estirpe augusta de que ha de sahir a ,immarcessivel ,flor annunciada1 cujo perfume encher as almas de ineffavel ventura4 ,este o celleiro de ,iaveh4 ,e vs1 vindes de longe8 --,de ,nazareth1 na ,galila4 --,e ides8 --,a ,bethleem4 ,urge que l cheguemos antes do pr do sol4 --,tendes tempo4 ,sentai-vos um momento1 a hora da refeio4 ,o que tenho d para repartir comvosco4 ,a vossa companheira1 esposa ou filha1 vem fatigada2 que descance um instante sombra1 gosando a sesta4 ,entrareis na cidade com a fresca da tarde4 ,aceitaram os peregrinos o convite hospitaleiro3 sentaram-se e comeram do po molhado em mel e beberam pelo mesmo tarro o leite cheiroso4 ,ficaram os dois velhos conversando e ,maria1 encostando-se aos feixes de trigo1 cobriu o rosto com o manto e adormeceu4 ,as moas cantavam na eira levantando medas de ouro e1 sob o sol escaldante1 no alto ceu azul1 as cotovias voavam e os seus gritos abrandavam-se na distancia1 esmoreciam perdidamente4 99 99 99 99 99 ,na estrada de ,bethleem ,frio e pallido1 esfumado em brumas1 o crepusculo baixava na tristeza da tarde silenciosa4 ,no remonte dos cerros pedregosos1 hirtas palmeiras immoveis pareciam gravadas1 em negro1 no fundo dourado do occaso4 ,aves esvoaavam caladas4 ,docemente1 com um tremulo murmurio1 fluiam pelos canaes de rega as aguas levadias1 e as vozes soturnas dos bois soltos1 errando1 de vagar1 no campo restolhado1 soavam como gemidos4 ,os peregrinos seguiam uma vereda suave1 entre debruns de anemonas4 ,maria parava de instante a instante1 arfando4 ,amollecida1 alquebrada1 olhava com desanimo os outeiros ainda longinquos e suspirava1 sem atrever-se a dizer ao esposo o seu canao4 ,jos1 porm1 notou-lhe a lentido dos passos e1 amparando-a1 animou-a carinhoso3 --,estamos a chegar4 ,l apparecem as casas de ,bethleem2 as luzes brilham por entre as arvores4 ,mais um momento e teremos repouso em alguma estalagem4 ,ella parou1 ficou a olhar o ceu nublado como a implorar alento para chegar ao termo da viagem4 -- um peso que me curva1 murmurou em voz sumida4 ,sinto-me to fraca que no sei se poderei acompanhar-vos at as collinas de alm4 ,toda eu esmoreo4 ,o meu desejo deixar-me ficar no caminho1 deitada nas hervas1 e dormir um somno grande4 ,nunca me pesou tanto o corpo1 o proprio espirito pesa-me1 to carregado est de medo e de cuidados sombrios4 ,que ser de mim e d',elle ao nascer em to desabrigados lugares1 longe de tudo1 friagem da noite1 com este vento que retalha as carnes como um ferro mortal8 ,o chiar de um carro levou-lhes a atteno para o caminho deserto4 ,uma voz cantava na tristeza da tarde moribunda3 ,hervas do campo florido1 ,que aroma6 ,que trescalar6 ,bem se v que o seu vestido ,andou por vs a roar4 ,outeiro em flor1 o teu vello1 ,verde e fino1 ao meu ciume ,confessa que o seu cabello ,deixou nelle o seu perfume4 ,o carro appareceu acogulado de trigo1 rinchando1 ao passo moroso dos bois que traziam os cornos floridos de acacias4 ,jos dirigiu-se ao carreiro1 robusto moo1 e pediu-lhe passagem para ,maria1 mostrando-a1 prostrada e languida1 entre o rosmaninho cheiroso4 ,o moo accedeu e os dois ajudaram a ,virgem a subir1 fizeram-lhe lugar macio sobre as paveias louras e os bois arrancaram4 ,e caminhando1 ,jos ia enlevado na esposa e o carreiro1 d'aguilhada ao hombro1 olhos fitos no ceu1 insistia na egloga3 ,hervas do campo florido1 ,que aroma6 ,que trescalar ,bem se v que o seu vestido ,andou por vs a roar4 99 99 99 99 99 ,na caverna ,diante de uma trilha que se perdia no arvoredo deteve-se o carreiro e disse3 --,aqui me despeo1 este o meu rumo4 ,a estrada em que estais1 direita e facil1 guia-vos a ,bethleem4 ,seja o ,senhor comvosco4 ,sem esforo ,jos tomou a ,virgem nos braos1 pousou-a na terra1 agradecendo ao moo a gentileza de a haver recebido no seu carro4 ,e elle1 galantemente1 respondeu3 --,trouxe a flor viva no trigal ceifado1 e1 com to geitosa resposta1 despediu-se e foi-se1 aguilhada ao hombro1 de vagar1 frente dos bois1 cantando1 em voz apaixonada1 os louvores do seu amor mimoso4 ,os dois caminharam alguns passos1 ,maria amparada ao esposo1 lenta1 tolhida de soffrimento2 mas no poude ir alm da caverna e deteve-se4 ,o aspero interior do antro tingia-se de laivos rubros1 ao tremulo flammejar d'uma fogueira junto qual um velho pastor1 as mos estendidas ao lume1 cantarolava baixinho4 ,ovelhas ondulavam na sombra4 ,logo entrada1 na anfractuosidade da rocha1 havia uma mangedoura4 ,um jumento dormitava e1 junto delle1 ruminando1 jazia deitada uma vacca com o seu novilho4 ,disse ,jos a ,maria3 --,firma-te a mim e vamos devagarinho4 ,havemos de achar aposento em alguma estalagem4 ,ella sorriu docemente1 resignada1 mas os seus olhos meigos foram para a caverna4 ,o patriarcha1 apiedado1 adiantou-se e falou ao pastor4 --,seja o ,senhor comvosco6 --,seja bemvindo quem chega e assim annuncia-se ao humilde4 --,hospede na terra venho de longe e commigo1 em estado que no consente esforo1 trago a minha esposa1 que aqui vedes4 ,se permittirdes que ella fique um momento comvosco emquanto procuro hospedagem1 sempre o meu corao vos ha de louvar4 ,o velho pastor1 idoso1 de fartas barbas amarellecidas1 longos cabellos espalhados pelos hombros1 que um melte cobria1 soergueu-se e falou3 --,a caverna no tem porta1 ainda mais franca que os templos4 ,entrai e abeirai-vos do lume1 que a noite comea a esfriar4 --,ella fica1 eu sigo pela pousada4 ,maria1 timida1 entrou4 ,logo o pastor acamou as palhas1 alargando um leito fofo e1 vendo-a recostar-se1 voltou ao seu lume e ao canto com que se entretinha4 ,e o patriarcha partiu4 ,ainda que no conhecesse a cidade1 tanta era a gente que se movia nas ruas1 que no lhe foi difficil1 perguntando1 encaminhar-se a uma estalagem4 ,logo entrada1 sob o vasto alpendre1 viu altas pilhas de fardos e1 em torno1 estendidos em pelles1 mercadores e recoveiros4 ,o hospede1 mostrando-lhe o transbordo da casa1 disse3 --,so homens que se aboletam ao relento1 por falta de commodos4 ,difficilmente encontrareis quem vos receba1 porque as festas attrahiram grande m de estrangeiros e as feiras trazem das cercanias todos os lavradores4 ,guie-vos o ,senhor4 ,e ,jos proseguiu4 ,nas viellas e alfurjas havia turbas cantando e bailando em volta de fogueiras4 ,debalde o ancio entrava nas estalagens2 as proprias choupanas recebiam hospedes e1 pelas collinas1 entre fogos1 clareavam tendas4 ,errou at tarde sem exito4 ,j o silencio annunciava hora alta quando1 quebrado de fadiga1 retrocedeu pelas betesgas desertas1 ao latido dos ces errantes1 em rumo caverna4 ,avistou-a de longe1 alumiada por um claro de luar1 e1 como levantasse os olhos demandando o astro1 deu com um anjo deslumbrante que1 abrindo azas largas1 diaphanas1 feitas como de nevoa e luz1 ia e vinha no espao1 rondando a noite4 ,entrou4 ,o velho pastor velava diante das brazas vividas e1 entre ovelhas1 sobre a palha loura1 a ,virgem dormia serena4 99 99 99 99 99 ,natal ,o esplendor mais impenetravel que a treva e foi uma muralha fulgurante que encobriu ,maria quando se realisou a prophecia do ,bem4 ,na hora em que os gallos cantaram a primeira vez subito claro resplandeceu no fundo da caverna4 ,a luz foi tanta1 to intensa que atravessou o somno em que jaziam o patriarcha e o pastor4 ,jos soergueu-se d'impeto1 firmando-se nas mos1 offuscado pela claridade vivida que irradiava em stalactites de um brilho augusto1 mudando em rutilos diamantes todas as pedras brutas e fazendo do aspero slo1 eriado em pedrouos1 uma rea esplendida como se fosse embutida de gemmas lapidadas4 ,o pastor1 attonito1 deslumbrado1 arrastava-se tacteando e a caverna1 a mais e mais aclarada1 parecia toda uma chamma alva como se um luar maravilhoso a enchesse magnificamente4 ,os dois homens1 atordoados1 no falavam--estendiam as mos e os seus dedos chammejavam como raios d'astros e da luminosidade desprendia-se um perfume1 novo na terra1 aroma celestial que enlevava como um encantamento4 ,alm da caverna a noite negrejava calada e erma de estrellas4 ,poude o pastor arrastar-se at o limiar e o seu corpo1 esgueirando-se1 refulgia como o de uma salamandra4 ,tremulo1 chegou entrada1 respirando1 a largos sorvos1 o ar frio que vinha dos outeiros4 ,levantou o olhar e recuou espavorido4 ,escada altissima1 de scintillantes degraus1 ligava o cimo do outeiro ao ceu aberto em radiante prtico e anjos desciam1 tantos que pareciam uma catadupa que se despenhava espumejando iriada de sol1 com scintillaes de pedrarias4 ,no poude olhar e1 rojando-se1 com a face na terra1 ouvia o murmurio das azas4 ,no disse palavra1 immovel1 tolhido de assombro1 sentindo a transfigurao da noite4 ,jos conseguiu levantar-se e caminhou lentamente atravez do esplendor4 ,maria appareceu-lhe entre as mansas ovelhas que1 reunidas1 bafejavam as palhas onde um pequenino infante1 as mosinhas na boca1 os olhos candidos abertos1 parecia contemplar a ,virgem que sobre ,elle inclinava-se4 ,olhou-a1 fitou no tenro corpo os olhos e viu que o cercavam tres figuras de incomparavel belleza4 ,uma1 as mos diaphanas cruzadas sobre o peito1 os olhos baixos1 concentrada1 rezava4 ,outra1 d'olhos enlevados1 com uma palma verde na mo debil1 sorria4 ,a terceira1 de joelhos1 aquecia com o halito1 envolvendo-o nos seus longos cabellos louros1 o corpo recem-nado4 ,por onde teriam entrado os tres seres8 ,que anjos seriam8 ,no os poude reconhecer o patriarcha1 mas chegando-se ,virgem tomou-lhe a mo e beijou-a4 ,ella mostrou-lhe o ,filho com uma ternura to meiga que o sorriso no poude por si s exprimil-a e lagrimas correram4 ,assim deram os olhos1 d'uma s vez1 todos os seus thesouros3 o brilho do olhar e os diamantes da meiguice1 essa humildade do amor4 ,pouco a pouco foi-se a luz extinguindo1 a sombra retomou a caverna4 ,as ,virgens desappareceram e ,maria1 acolhendo o pequenino nos braos1 chegou-o ao collo1 aqueceu-o1 afagou-o4 ,foi mi antes de ser serva4 ,s depois de o beijar estremecidamente ouviu as vozes que atroavam a noite3 ,gloria a ,deus nas ,alturas1 ,paz aos homens na terra de ba vontade4 ,occorreram-lhe as palavras do anjo4 ,lembrou-se1 ento1 que o ,sr nascido do seu seio era o ,deus da ,promessa4 ,deitou-o delicadamente nas palhas e ajoelhou-se adorando-o4 ,jos1 afastado do grupo1 prestava culto ,virgem e ao ,infante e o ceu1 pela voz dos ,espiritos eleitos1 saudava o ,natal messianico1 apregoando a vinda do ,filho do ,homem1 portador da ,piedade4 ,ergueu-se o pastor1 olhou o ceu e1 ouvindo os anjos1 sahiu a correr bradando inspiradamente a ,ba ,nova4 ,e os gallos puzeram-se a cantar annunciando a maior e a mais bella madrugada do mundo4 99 99 99 99 99 ,as tres virgens ,quando o ,menino adormeceu ,jos1 aproximando-se de ,maria1 perguntou-lhe baixinho3 ,se vira as tres virgens que cercavam o ,infante ungindo-o de luz8 ,a ,immaculada respondeu no mesmo tom discreto3 --,logo que sahiu do somno1 ainda antes de vr meu filho1 dei com ellas1 immoveis1 aclarando toda a caverna1 de joelhos em torno do ,recem-nascido4 ,no falavam4 ,no sei quem so4 ,desappareceram de repente como as estrellas desapparecem4 --,seriam anjos8 ,uma serena voz1 sahindo das pedras1 falou no silencio3 --,a primeira toda a ,crena do ,homem3 a ,virtude que leva a ,alma presena do ,altissimo4 ,antes da vinda do ,messias era a nevoa indecisa que resplandecia e obumbrava-se2 agora a ,luz pura e perenne1 a luz viva que guia ao ,paraiso atravez de todos os abrolhos1 por meio dos mais rduos soffrimentos1 vencendo as mais perversas tentaes1 sempre direita1 inflexivel e segura4 a ,f4 ,o seu olhar no se desvia1 a sua linguagem a prece1 a sua confiana ,deus4 a mais forte das tres4 ,a segunda uma consoladora4 ,parece um reflexo da primeira3 a ,esperana4 ,veste-se de illuses1 recama-se de sonhos para distrahir a ,alma1 livrando-a do desespero4 como o ramo verde que se inclina borda dos abysmos4 a divina miragem que1 atravez das agruras da vida1 reanima o corao combalido1 creando perspectivas venturosas4 ,s1 uma encantadora que vive a inventar maravilhas1 ligada ,f a precursora que desbrava o caminho para a travessia da alma4 ,sem ella a miseria seria um flagello1 a dr seria intoleravel4 uma fora feita de sonho4 ,isolada a fantasia4 ,a terceira o ,amor1 a lagrima que se converte em misericordia1 a bondade omnipotente1 a meiguice que salva1 a resignao que remitte1 a paciencia que conforta1 a lan que agasalha1 o linho que estanca o sangue1 o lume que aquece4 o conjuncto amoroso de todas as beneficencias--a ,caridade4 ,so as tres irmans que acompanham o ,messias4 ,elle tomou-as ao paganismo e converteu-as transmittindo-lhes a sua essencia4 ,eram as ,karites1 so as ,virtudes4 ,fram as ,graas1 so as beneficiadoras4 ,com ellas ,jesus far a redempo do ,homem4 ,para combater o mal1 podendo trazer as legies adamantinas1 trouxe as humildades4 ,calou-se a voz e os dois olharam-se maravilhados4 --,no ouviste falar8 --,sim1 meu senhor1 falaram4 ,as ovelhas estavam de p e olhavam1 como se tambem procurassem o mysterioso1 interlocutor4 ,mas o ,menino agitou-se no leito palhio1 estendeu os bracinhos e chorou4 ,presto1 ,maria tomou-o ao collo1 aconchegou-o cobrindo-o com o manto4 --,deve ser frio1 disse ,jos4 --,fome1 talvez1 disse ,maria1 anciosa por dar o peito farto ao pequenino ,filho4 99 99 99 99 99 ,o primeiro leite primeira suco da boca da criana ,maria estremeceu1 sentindo uma dr aguda1 como se um punhal lhe houvesse atravessado o seio4 ,longe1 porm1 de fugir com o peito dolorido1 inclinou o busto1 dando-se toda ao sublime martyrio1 com a alma a brilhar nos olhos que a dr orvalhara de lagrimas4 vido1 o infante sugava1 cavando as bochechas e o leite1 afluindo1 rasgava passagens como a torrente que se despenha da altura vincando a terra e arrastando o que se lhe antolha levada4 ,o ,divino alimentava-se do soffrimento humano e naquellas opalinas gottas de leite--sangue e agua fundidos em candura--o ceu commungava na terra4 ,a ,carne mortal nutria o ,espirito ,perenne1 o ephemero transfundia-se no ,eterno3 as duas collinas alvas tocavam o ,infinito1 que era a boca de ,jesus1 de onde deviam jorrar1 em caudaes1 as leis santas1 os sabios julgamentos1 a beno e o perdo4 ,a ,virgem sorria e o seu collo turgido ondulava de ventura1 em quanto o patriarcha1 ajoelhado1 contemplava o grupo1 aureolado pelo claro da fogueira1 cuja chamma resurgira ao sopro da brisa nocturna4 ,fra resoavam canticos2 vozes1 sons de harpas enchiam o espao4 ,por vezes um claro relampejava diante da gruta esplendida passagem rapida de um anjo4 ,maria1 inclinada sobre o ,filho1 s a elle sentia1 ouvindo apenas o lento gorgulhar do leite que elle sugava soffrego4 ,todo o mundo ali estava nos seus braos3 a terra com os seus vergeis floridos1 o ceu com as suas estrellas fulgidas4 ,que lhe importava a aurora se na pennugem loura que seus dedos afagavam na cabecinha do filho1 ella via o esplendor maior que podem contemplar olhos de mi6 ,que lhe importavam os anjos se1 no fundo luminoso das pupillas da criana1 via dois pequeninos seraphins alegres8 ,que lhe importava a immensa alegria universal1 se o seu corao transbordava de felicidade com aquelle amor6 ,levantou-se um alarido fra1 na estrada obscura4 ,jos sahiu ao limiar4 ,um bando de homens corria em tropel em direco ao abrigo agreste4 frente delles1 voando e alumiando-lhes o caminho com o esplendor das azas1 um anjo estendia o brao mostrando a caverna4 ,outros cruzavam longe1 em enxames claros4 ,no cimo dos cerros grupos resplandeciam4 ,subito uma grita atroou o silencio3 ,hosannah6 ,hosannah6 ,o pequeno adormeceu docemente com a boca collada ao peito materno4 ,maria beijou-o e1 inclinada1 quedou em enlevo4 ,hosannah6 ,hosannah6 bradavam fora4 ,ella sobresaltou-se e1 chamando o esposo1 perguntou3 --,quem clama assim1 meu senhor8 --,pastores4 ,guia-os um anjo4 ,vm adorar o ,infante4 ,e ella1 cuidadosa3 --,comtanto que o no despertem444 ,e aconchegou-o ao collo agasalhando-o junto do corao4 99 99 99 99 99 ,adorao dos pastores ,tumultuosamente os pastores chegaram caverna e o velho1 dono do rebanho1 que acolhera o casal no seu tugurio1 adiantou-se ao grupo e falou ao patriarcha3 --,deixai-nos vr e adorar o ,deus vivo4 ,j o tinha por tal e quando sahi para a noite1 com os olhos offuscados1 fui bradando no silencio a ,ba ,nova4 ,os homens que dormiam nas choas1 as ovelhas que se apertavam nos apriscos1 as mesmas arvores sem folhas1 as mesmas pedras sem vida estremeceram minha voz pregoeira4 ,eu levava na boca uma palavra que estrondava4 ,o que eu dizia aos que me ficavam perto retumbava como o som da buzina que vai de quebrada em quebrada ou como o trovo tempestuoso que se ouve em todos os pontos3 na planicie e no valle1 na montanha e na furna4 ,de mim sahia a annunciao e1 certo1 a minha palavra ainda vai pelos ares viva1 levando s pvoas mais remotas a venturosa noticia4 ,o que eu dizia na terra anjos repetiam nos ares4 ,os espiritos celestiaes fizeram-se meus echos e ainda clamam batendo as azas1 tangendo lyras que sam docemente4 ,no havia uma estrella e todas agora reluzem2 astros nunca vistos brilham no fundo ceu4 ,no havia folha em ramo e as arvores esto todas cobertas e cantam festivamente passarinhos nas montas4 ,o outono vestiu-se com as galas da ,primavera4 ,s um ,deus faria prodigios taes4 ,deixai-nos vr e adorar o ,deus vivo4 ,os pastores brandiram os cajados bradando1 de novo3 ,hosannah6 ,hosannah6 ,e1 como ,jos se afastasse dando-lhes passagem1 precipitaram-se tumultuosamente e1 ajoelhando-se1 adoraram o ,divino ,infante4 ,todos levavam ddivas campestres3 este um anho1 de vello fino1 a boca rescendendo a leite2 outro um casal de rolas2 esse1 um favo de mel1 aquelle uma lan sedosa e1 cada qual1 offertando o seu presente1 pedia1 em orao intima1 a graa do ,menino ,deus4 ,maria olhava receiosa aquelles homens rudes que cercavam seu ,filho4 ,como eram muitos os mais velhos levantavam nos braos os pequenos para que vissem o ,recem-nado e diziam-lhes3 ,pede6 ,as crianas1 sorrindo1 pediam pelo gado e pelas fontes3 que ovelha alguma morresse1 que nunca as aguas seccassem4 ,um pequenito1 sentado no hombro de um agigantado pegureiro1 olhava pensativo e calado4 ,pede6 disse-lhe o homem4 --,se ,elle fosse ,deus444 murmurou a criana1 e uma lagrima rolou dos lindos olhos infantis4 ,os outros adoravam e1 no silencio1 ouvia-se apenas1 de quando em quando1 um timido balido4 ,repentina1 triumphante1 uma voz bradou entrada da caverna3 --,gloria a ,deus ,salvador6 ,o pastorinho estremeceu no hombro do pegureiro1 voltou a cabea e viu uma andrajosa mulher livida1 macilenta1 que estendia os braos magros procurando abrir passagem na multido reverente4 ,reconheceu-a e1 desprendendo-se dos braos que o mantinham1 correu ao seu encontro e1 lanando-lhe os braos cinta1 disse commovido3 --,fui eu1 mi1 que ,lhe pedi4 ,deus6 ,entra e adora-o4 ,dorme nas palhas4 ,os pastores1 reconhecendo a entrevada que vivia a gemer1 encolhida num estrame1 recuaram pasmados e ella1 tremendo como se estivesse de p sobre uma lapide de neve1 perguntou ao filho que a contemplava3 --,e tu1 to pobresinho6 que lhe deste1 meu filho8 --,uma lagrima1 minha mi444 e foi tudo que lhe pude dar4 99 99 99 99 99 ,dr ,tomando a urna1 ao clarear d'alva1 quando o velho pastor sahia com o rebanho1 ,jos acompanhou-o para que elle o guiasse fonte4 ,logo que os dois homens desappareceram as hervas que ourelavam a caverna cresceram prodigiosamente1 emmaranhando-se em tapigo que encobriu a entrada4 ,a ,virgem1 de instante a instante1 abria os olhos e1 soerguendo-se1 ficava em extase contemplando o ,filho1 cujo halito dbil cheirava docemente a leite4 ,posto que apenas tivesse horas j ella lhe havia descoberto todos os encantos e se lh'o arrebatassem dos braos1 confundindo-o com mil crianas1 reconhecel-o-ia sem trabalho1 tanto o tinha nos olhos e no corao gravado4 ,olhava-o quando o sentiu mover-se1 contorcendo-se4 ,num tremor de sobresalto enrijou os bracinhos1 bateu as palhas com os ps rosados e rompeu num choro forte que repercutia no interior como se as pedras chorassem com elle1 commovidas4 ,tomou-o ,maria ao collo1 acalentando-o ao calor do seio4 ,falava-lhe com ternura1 interrogava-o1 chamava-o e1 sem poder allivial-o1 poz-se a chorar afflicta e1 sobre a divina face as suas lagrimas cahiam gotta a gotta como o orvalho cahe das folhas sacudidas pelo vento4 ,ai6 d'ella1 como se julgava culpada e infeliz vendo soffrer o pequenino amor1 to novo1 to innocente1 to sem culpa e j supportando as torturas herdadas da carne4 ,comeava a ,divindade a visitar o soffrimento3 a peregrinao de ,deus atravez da ,agonia annunciava-se pelo primeiro choro4 ,elle havia de conhecer todas as ,dres1 todas as ,angustias para poder julgal-as alliviando o ,homem1 cuja redempo trazia4 ,tenro1 mal pousado na vida1 j estrebuchava doridamente4 ,e comeava apenas--era a iniciao4 ,outros maiores tormentos formavam a phalange suppliciante1 a alameda tragica da existencia1 onde a alegria como o nimbo solar que passa difficilmente por entre as frondes compactas4 ,que fazer8 ,deu-lhe o peito4 ,poz-se o ,infante a mamar vagindo1 estremecendo e ella1 relanceando em torno os olhos humidos e afflictos1 implorava o mysterio4 ,tudo era silencio em volta1 ninguem que a soccorresse4 ,e os anjos8 ,j haviam regressado ao ceu4 ,o ,infante ficara entregue ao seu piedoso voto4 ,deus entrava desacompanhado no mundo1 ser como os demais seres1 homem como os outros homens1 integrando-se na ,humanidade4 ,s lhe valeram os carinhos de ,maria3 o calor do collo1 o enlace amoroso dos braos1 os beijos repetidos foram1 pouco a pouco1 alliviando-o e1 de novo1 adormeceu tranquillo1 no mais sobre a palha loura1 mas aconchegado ao seio1 ninado pelas palpitaes do corao materno4 99 99 99 99 99 ,receio ,fino raio de sol insinuando-se na caverna pousou na palha abrindo um aro de ouro em torno da cabea do ,infante adormecido4 ,todas as aves chilreavam1 garrulas moas passavam na estrada2 s vezes eram rcuas de dromedarios desfilando em ruidoso atropello4 ,maria prestava atteno ao rumor1 receiando pelo ,filho4 ,tomou-o muito ao seio e1 quasi de rastos1 aprofundou-se na sombra escondendo o seu thesouro com amorosa avareza4 ,to lindo6 quem o no desejaria6 ,e se um d'aquelles homens1 descobrindo-o1 investisse para arrebatal-o1 quem o defenderia8 ,na treva ficava a coberto de todos os olhares4 ,no fundo da caverna lentejava tristemente uma mina e a cada gotta do estellicidio respondia um som lacrimoso4 ,o ar era frio e humido1 as paredes luziam lutulentas e1 fra1 o sol brilhava1 alegre e tepido1 em fitas1 em nimbos de ouro1 lampejando nas arestas agudas da abobada escabrosa4 ,quando ,jos reappareceu--a herva da entrada subitamente esmarriu--vendo deserta a palha1 estacou1 olhando espantado1 com apprehenses de desgraa4 ,que seria feito delles8 ,caminhou alguns passos4 ,o corao batia-lhe1 tremia-lhe a urna ao hombro4 ,maria1 reconhecendo-o1 falou do seu esconderijo3 --,aqui1 meu senhor4 ,o patriarcha adiantou-se e1 sentindo a friagem do sitio1 ouvindo o triste gottejar na lage1 perguntou3 --,porque buscaste to obscura jazida onde o ar regela e a luz no chega8 ,l fra ha um calor macio e sente-se o aroma das hervas vivas1 ouvem-se as vozes alegres4 ,aqui ha o silencio e a melancolica espessido dos tumulos4 --,eu estava s1 meu senhor e o corao1 dantes to animoso1 agora to timido que eu viveria1 de boa mente1 num subterraneo s para que olhos maus no fitassem meu filho nem o invejassem adoentando-o4 ,no sei que voz me fala dentro do corao pedindo-me que o defenda4 ,ouo-a a todo instante4 ,dizem-me os anjos que ,elle ,deus444 ,no me passaram despercebidos os prodigios da noite3 tudo vi1 tudo ouvi1 mas minh'alma ordena-me que o resguarde1 que o no perca de vista1 que sempre o traga acautelado1 talvez porque pequenino e fraco4 ,no sei se pecco com a presumpo de defender quem omnipotente1 mas como hei de lutar contra mim8 --,mas se o ceu nos diz e prova que ,elle o ,filho de ,deus porque has de receiar os homens8 -- o corao que receia4 --,e entre o que diz o corao e o que affirmam os anjos hesitas1 ,maria8 --,senhor1 os anjos falam pelo ,ceu1 o corao fala pelo meu amor4 ,se ,deus acha-me rebelde1 curvo-me ao seu castigo4 ,e1 humildemente1 ajoelhou-se ante o bero4 ,jesus1 abrindo os olhos claros1 profundos1 fitou-os nella e1 como se lhe quizesse responder1 sorriu4 99 99 99 99 99 ,o somno ,maria mal humedeceu os labios borda do tarro de leite de ovelha que o pastor ordenhara antes de partir4 ,cuidados traziam-na apprehensiva4 ,se o filho estremecia sobresaltava-se-lhe o corao1 se o via immovel1 dormindo1 temia que houvesse morrido e logo1 anciosamente1 afagando-o1 chamando-o1 despertava-o4 --,deixa-o dormir1 disse-lhe o patriarcha1 o somno necessario vida1 a sombra em que a alma repousa4 ,o espirito das crianas refugia-se no somno como o dos velhinhos--o primeiro porque d'elle sahiu e ainda o tem por ninho2 o segundo porque o procura como abrigo4 ,no o despertes1 deixa-o dormir4 -- que me parece estar morto4 ,no faz o mais leve movimento e1 quando elle assim fica1 meu corao pra retransido4 -- a serenidade4 ,s o somno dos maus transmitte ao corpo a convulso do pesadello4 ,o somno uma visita morte3 os innocentes fazem-na sorrindo1 os peccadores fazem-na espavoridos4 ,no receies que ,elle passe to cedo ,eternidade de onde veiu4 ,ainda que no trouxesse a misso que o fez baixar ao mundo1 fosse ,elle to da terra como o filho da zagala dos montes1 no o deverias tirar do repouso4 ,no desenterras a semente por no a veres flor do solo1 deixas que ella venha a flux e rebente1 abra o renovo e cresa4 ,o somno uma incubao4 ,porque no sonha8 porque no tem impresses4 ,o sonho como um reflexo em que ha echo1 a reproduco confusa da vida com a repercuo indistincta das vozes e dos ruidos4 ,ha quem veja presagios no sonho como o nmade v realidades na miragem4 ,com que ha de sonhar quem no tem consciencia da vida8 ,deixa-o dormir4 noite que a floresta cresce e a criana como a arvore4 ,o luar manso1 uma luz silenciosa de vigilia1 uma tunica diaphana sobre a treva--no desperta4 ,as estrellas so meigas porque a noite deve ser tranquilla para que a ,natureza descance4 ,peixa-o dormir4 ,conserva-te immovel e calada1 no perturbes a vida mysteriosa4 ,demais1 ,elle o ,eterno4 ,a ,morte passa por ,elle como a lamina de uma espada por um raio de sol4 ,deixa-o dormir4 ,bem sei que o egoismo das mis chega a insurgir-se contra as leis de ,deus2 no te insurjas tu1 que ,o geraste4 ,elle precisa rever a ,humanidade entrando na ,vida e gozando1 sahindo1 talvez1 pela ,morte com soffrimento4 --,meu senhor6 exclamou a ,virgem estendendo as mos1 commovida4 --,so palavras1 ,maria4 ,ai6 de mim1 quem sou eu para pronunciar oraculos sobre ,aquelle que tem o destino da ,vida na sua mo direita6 ,so palavras que digo4 ,deixa-o dormir4 99 99 99 99 99 ,palavras de ,maria ,como eu agora comprehendo que se viva escravisada a um sorriso6 ,quando tenho meu filho ao collo1 nutrindo-se do meu sangue1 que deixa a cr da purpura e veste-se de branco para no macular os labios innocentes1 toda a minha vida nelle se concentra4 ,a ,felicidade e a ,desgraa sentam-se junto de mim1 sinto-as no contentamento que me alvoroa e nos presagios estranhos que me occorrem4 preciso ser mi1 ter gerado para conhecer o verdadeiro amor4 ,a alma sahe-me do corpo e fica junto do ,infante4 ,se me arredo um momento sinto-me logo attrahida como por uma pesada corrente que se me prende ao corao4 ,e tanto o contemplo1 tanto6 que fico com elle dentro dos olhos como quem fita um objecto ao sol e depois o v em toda parte1 ainda na treva mais densa4 ,dantes1 quando as mis falavam-me de seus filhos1 sempre eu as achava exaggeradas nos louvores4 ,que diriam de mim as que agora me ouvissem6 ,o meu desejo era no ter na boca outras palavras seno estas3 ,meu filho6 ,so as que o corao inspira-me1 so as que me agradam ouvir4 ,ellas fazem um gyro alegre como um casal de passarinhos brincando4 ,sahem-me dos labios1 entram-me pelos ouvidos cantando1 circulam o meu corao e tornam boca4 ,meu filho6 ,e no ha todo um mundo de amor dentro d'ellas8 ,que mais preciso para a ventura8 ,quando as suas palpebras descerram-se inclino-me e busco vr nas suas pupillas--que so agora os meus espelhos--o que ellas contm4 ,fico to perto que ellas s a mim reproduzem4 ,do mais tenho ciume1 nem quero que seus olhos tenham outros habitantes4 ,quando ,elle estremece1 tremo4 ,quando ,elle sorri to grande a minha alegria que fico num atordoamento desvairado1 sem saber que faa1 e choro e rio4 ,ai6 de mim quando ,elle chora4 ,no tendes notado que sou agora como uma faminta perdida que no se sacia de alimento8 ,no que tenha fome1 no2 mas penso n',elle e1 como preciso que ,elle encontre sempre farto o peito em que se nutre1 transformo-me em celleiro4 ,dormir1 nem sei se durmo1 porque ao mais leve movimento que ,elle faa surprehendo-me a mim mesma achando-me a seu lado1 agasalhando-o1 afagando-o1 procurando readormecel-o ou acalentando-o1 se chora4 ,eu no era assim amorosa1 meu senhor4 ,agora que o tenho no parece que vivo no mundo1 s d',elle me lembro4 ,onde ,elle est ahi que me apraz viver4 ,o seu bero um oasis em immenso deserto4 ,dizeis1 s vezes1 que me distraio porque no vos respondo de prompto4 ,no distraco1 que a alma est junto d',elle--o corpo fica vasio como uma casa fechada cujo dono trabalha na seara4 ,dissestes uma vez3 ,as mis adivinham4 ,como conheceis o corao materno6 ,e ha mis que ficam no mundo quando lhes morre o filho4 ,como se podem guiar na vida8 ,como podem caminhar sem arrimo8 ,como podem vr sem luz8 ,como no sossobram no pranto8 ,eu444 --,porque choras1 ,maria8 --,porque sou feliz1 meu senhor444 99 99 99 99 99 ,as duas mis ,junto a uma velha figueira1 que ficava a dois passos da caverna1 onde a estrada1 bifurcando-se1 dava uma sinuosa trilha para os montes e um caminho direito para os campos1 sentara-se ,maria com ,jesus ao collo1 gozando o frescor da manhan serena e vendo os pombos revoarem1 com rumoroso ruflo d'azas1 passando1 repassando em torno4 ,jos descera fonte4 ,zagalejos passavam soprando frautas e o sol1 accendendo as camarinhas do orvalho1 fazia da paizagem uma extensa scintillao4 ,a ,virgem entretinha-se1 enlevada no pequenito que acompanhava a ronda aligera das aves1 quando uma pallida mulher1 andrajosa e descala1 os cabellos desgrenhados1 os olhos fundos1 a caveira estalando a pelle secca1 appareceu no caminho1 to lenta e com to alto e angustioso arquejo que foi por elle que ,maria sentiu a aproximao da infeliz4 ,era ainda moa1 conservava na miseria um resto de emmurchecida belleza4 ,os olhos negros ardiam febris como dois carves em que faiscassem fagulhas2 as rosas das faces haviam amarellecido1 os labios1 reseccados e lividos1 estalavam em fendas como golpes4 ,trazia nos braos1 envolta em grosseiras faixas1 uma criana que vagia4 ,diante da ,virgem deteve-se4 ,arrasaram-se-lhe os olhos d'agua e1 parada1 tremendo1 estendeu a mo magra1 a pedir4 ,maria encarou-a compadecida e1 como no possuisse moeda1 no respondeu infeliz1 alanceada de pena4 ,e a mulher soluou3 --,no por mim que peo1 por elle4 ,tenho-o1 desde hontem1 ao seio1 bebendo sangue--no um peito que lhe dou1 mas uma ferida4 ,a boca do pobresinho est da cr da anemona4 ,no lamentaria a dr com que a sua fome me apunhala se o visse saciado1 mas o sangue no farta e1 ainda que eu lhe no recuse o que me resta de vida1 sinto-o enfraquecer a mais e mais4 ,j no chra1 nem abre os olhos1 comea a agonisar1 como a planta que o sol mirra na terra adusta4 ,dai-me o bastante para que elle viva um dia1 s emquanto eu viva4 ,que elle morra depois de mim para que eu o receba na morte4 ,maria fez lugar junto figueira para a enferma e1 entregando-lhe ,jesus1 tomou o pequenino moribundo4 ,poz-lhe na boca o peito turgido e logo o sentiu sugar avidamente4 ,a misera mulher embalava o divino ,infante1 apertava-,o ao collo com medo de que chorasse e interrompesse a esmola que seu filho recebia4 ,to enlevada estava vendo o seu penhor mamar que nem sentiu que os seus peitos1 junto aos quaes ,jesus agasalhava-se1 enchiam-se1 apojavam-se4 ,e toda ella refazia-se3 a carne renovava-se-lhe robusta1 voltava-lhe a cr ao rosto4 ,satisfeita1 a criana adormeceu ao collo de ,maria e da boquinha entreaberta escorreu1 rolou na terra uma gotta de leite1 cahindo1 como uma prola1 na raiz da figueira4 ,as duas mis olharam-se caladas por que as crianas dormiam4 ,trocaram-nas tomando1 cada qual1 a que lhe pertencia e a miseravel1 agradecendo a esmola1 foi-se por entre as margaridas do caminho4 ,perdeu-se no meio das arvores1 reappareceu no lanante do cerro4 ,de repente1 j no cimo1 envolta em luz1 estacou derreando a cabea como para olhar o ceu em pleno e subito1 lanando os braos1 tombou sobre os joelhos4 ,dera1 sem duvida1 pelos peitos cheios4 ,maria1 para seguil-a com o olhar1 levantou-se e1 como se apoiasse figueira1 uma folha cahiu4 ,sentindo os dedos humidos mirou-os--estavam molhados de leite4 ,d'onde proviria8 da fina haste da figueira de onde se destacara a folha4 ,a arvore sorvera a gotta de leite que rolara da boca do pobresinho e sempre a verte mostrando-a aos incredulos1 mal se lhe arranca uma folha ou se lhe golpeia um galho1 como uma prova da misericordia suave4 99 99 99 99 99 ,a estrella ,ao declinar do sol1 quando cessava toda a alegria rural e1 quietos1 em magotes brancos1 os rebanhos desciam das pasturas e o canto das aves morria em estrebilhos tristes1 ,jos1 entrada da caverna1 as mos cruzadas sobre o cajado1 contemplava o ceu macio1 barrado de ouro no occidente1 onde os outeiros pareciam arder como altas pyras sobre as quaes flammejasse um lume votivo4 ,um molle1 languido quebranto prostrava a natureza4 ,as arvores espreguiavam-se em movimentos morosos2 raros passaros aligeiravam o vo atravessando a luz vesperal4 ,nas quebradas sombrias crescia a voz das aguas borbulhantes1 saltando1 escachoando de pedra em pedra at fluirem mansas sob as pendidas ramas que pareciam tremer de frio4 ,longe1 na cidade1 resoava o tumulto humano4 ,grossos rolos de fumo negro subiam aos ares1 fundiam-se1 dissipavam-se e1 medida que a noite conquistava a paizagem1 apontavam pequeninas estrellas esmaltando o ceu4 ,a voz de ,maria no fundo da caverna entoava suavemente4 ,era o encantamento maternal1 a mimosa cantilena com que ,jesus adormecia4 ,o patriarcha1 recolhido em pensamento1 olhava1 e1 como se voltasse para o lado do oriente obscuro1 viu um como fulgido alfange chammejando na treva4 ,tremeu e1 fitando o olhar na estranha appario1 notou que avanava no ceu vagarosamente4 ,era uma estrella enorme1 de brilho coruscante1 que parecia haver atravessasado a teia da ,via ,lactea1 tendo della trazido um rutilo farrapo que a seguia atravez do espao4 ,o astro subia em marcha grave e as demais estrellas esmoreciam sua passagem como se se retrahissem timidas4 ,pelos caminhos1 pelos outeiros homens1 mulheres paravam attonitos olhando o prodigio4 ,alguns1 atemorisados1 invocavam deuses1 rojando-se por terra2 outros fugiam aterrados2 crianas choravam espavoridas4 ,e quando a noite negrejou fechada1 o astro1 com a flammejante cauda aberta1 pairou no ceu1 sobre a caverna1 como uma palma de luz que assignalasse o bero do ,messias4 99 99 99 99 99 ,epiphania ,pastores1 que faziam a vigilia no campo1 contemplavam embevecidamente a estrella maravilhosa1 quando ouviram cantares e rumorosa estropeada como se festiva e densa turba viesse pela encosta do cerro mais alto4 ,ergueram-se estranhando a caravana e viram romper1 luz de archotes1 cujo claro tingia sanguineamente a noite1 um cortejo brilhante e desusado4 ,os animaes pareciam ajaezados de ouro1 com recamos de pedrarias1 tamanho era o fulgor que irradiavam nos cabeios ardegos em que vinham4 ,onagros1 tangidos por negros1 trotavam sacolejando fardos e tres dromedarios enxairelados caminhavam entre lanas garbosamente empunhadas por cavalleiros robustos4 ,tamborinos e anafis soavam em concerto1 regulando o rythmo da marcha2 vozes bradavam e a turba descia assustando as ovelhas e os grandes bois que trasmalhavam mettendo-se pelos mattos4 ,os ces de guarda1 attentos1 d'orelhas fitas1 conservavam-se silenciosos como se reconhecessem os chegadios4 ,por vezes as lanas chocavam-se1 tinindo1 e cerrada1 na claridade fulva dos archotes1 a caravana aproximava-se4 ,na planicie1 ao rouco estrugir de uma buzina1 estacou em ordem4 ,ligeiramente1 destros e aodados negros desfizeram grandes rolos1 fincaram cepos e1 em pouco1 tendas retesaram-se4 ,os animaes1 alliviados da carga1 deitavam-se na herva fresca1 espojavam-se contentes e1 em volta das tendas1 como uma sebe de guerra1 os cavalleiros cravaram as lanas pelos cantos ficando os ferros luzindo como estrellas4 ,os pastores1 esgueirando-se na sombra1 procuravam chegar ao acampamento para vr de perto os chefes da hoste que com tanta grandeza se movia4 ,um d'elles1 mais ousado1 foi descoberto por um grande negro que trazia s costas1 suspenso d'uma corrente1 um dardo de ferro4 ,sem tempo de fugir cahiu em poder do vigia que logo o conduziu tenda mais sumptuosa1 toda alfaiada de seda e purpura e nublada de aromatas4 ,lampadarios de ouro illuminavam-na4 ,a herva desapparecia sob tapetes altos1 escudos lampejavam e1 como o negro o impellisse1 viu-se o pastor na presena de tres homens ricamente paramentados1 com fotas na cabea rutilantes de gemmas4 ,eram magos das terras remotas4 ,um alvo1 a barba negra e farta espalhada no peito scintillante de pedrarias2 outro da cr amarellada dos filhos das extremas da ,asia2 o terceiro negro1 com immensas camandulas de ouro em volta do pescoo1 braceletes nos punhos1 argolas nas orelhas e na fronte alta1 preso por um nastro1 um diamante que coruscava4 ,o pastor ajoelhou-se e1 medroso1 esperava ouvir palavras severas1 quando um dos homens tranquillisadoramente perguntou3 --,se sabia em que pao1 por ali perto1 nascera o rei dos judeus4 ,o rustico1 sem entender a pergunta1 ficou arvoado1 imaginando-se victima de uma zombaria4 ,lembrando-se1 porm1 dos anjos e de todos os prodigios da noite messianica1 respondeu vagamente3 --,perto d'aqui nasceu--e os ceus festejaram o seu natal--um menino1 filho de pobres1 vindos de terras longinquas4 ,ainda l est no mesmo tugurio1 ao collo da mi1 que uma linda moa1 sob a guarda de um ancio veneravel4 bem perto d'aqui1 na caverna do outeiro sobre o qual paira e brilha a estrella alada que appareceu no ceu4 ,levantaram-se os tres homens--o pastor sahiu da tenda e1 estendendo o brao na direco do outeiro1 disse3 -- ali1 sob a estrella4 --,deve ser1 disse o negro4 ,e os dois outros concordaram4 ,e1 despedindo o pastor com uma bolsa de moedas de ouro1 ficaram de p1 em silencio1 contemplando adorativamente a estrella que resplandecia4 99 99 99 99 99 ,adorao dos magos ,ao dealbar tronaram as buzinas e a caravana moveu-se em direco caverna4 ,a grande estrella ainda luzia no ceu4 ,os magos seguiam frente nos dromedarios e1 em torno delles1 nitriam1 caracolavam os ginetes dos cavalleiros com os seus telizes dourados1 os seus caparaes de purpura4 ,quando a turba defrontou com a caverna todos os homens apearam e1 respeitosamente1 com humildade de servos1 deixando no limiar os papuzes marchetados1 os magos penetraram zumbridos1 como se fossem de rastos1 levando nas mos1 devotamente1 as pareas significativas4 ,recebeu-os o patriarcha e1 como a ,virgem se levantasse1 com ,jesus ao collo1 os tres homens prostraram-se de joelhos1 descobrindo-se1 depondo os turbantes1 e1 inclinando a cabea1 ficaram um momento em venerao silenciosa4 ,o primeiro falou offerecendo a myrrha4 --,homem1 ,filho de ,deus1 a arvore do deserto deu do seu tronco a resina que te offereo4 ,o seu perfume uma fora que se oppe destruio da carne3 eternisa o corpo como a ,virtude eternisa o espirito4 ,o segundo inclinou-se com um escrinio cheio de ouro3 --,rei1 as minas1 onde rebrilham os veios rutilantes1 deram a poeira que te offereo3 ouro1 symbolo do poder1 chamma fria da terra4 ,tudo elle vence3 a miseria e a propria ,virtude4 ,desopprime e escravisa1 redime e perverte1 o bem e o mal4 ,nas mos munificas luz que aclara e salva2 nas mos crueis chamma que consome4 ,o negro falou por ultimo com uma patena de incenso3 --,a arvore instilla a lagrima que rescende1 lagrima que1 ao lume1 converte-se em fumo e evola1 demandando o ceu1 como homenagem da terra4 ,como lagrima1 uma concentrao2 como aroma1 uma oblata4 o incenso com que se glorificam os deuses4 a offerenda das terras negras ao ,deus que redime4 ,gente1 que afluira caverna1 pastores e seareiros1 mesteiraes1 velhos1 mulheres e crianas das arribanas proximas entraram e1 diante da palha humilde1 toda a grandeza e toda a humildade confraternisaram e tambem o sol1 como enviado do ceu1 adorando o ,infante da ,misericordia que baixara para cumprir as prophecias trazendo aos homens a religio do ,amor4 ,e ,maria1 deslumbrada1 sem ouvir as vozes glorificadoras1 olhava1 contemplava1 adorava o pequenino ,filho4 ,o sol cercou-os de esplendor e a ,virgem1 de p no meio da turba1 com ,jesus ao collo1 era o purissimo altar sobre o qual se mostrara s gentes o ,divino ,perdo4 ,,indice ,pag4 ,a partida #e ,o anjo #ac ,lyrios #ai ,a refeio #be ,a nuvem #ca ,ao pr do sol #ci ,a tentao #de ,o milagre das lagrimas #ee ,caminhando #fe ,o cgo #ga ,dentro da noite #gg ,presagio #hc ,piedade #ia ,cantico messianico #ig ,o campo de ,booz #aje ,na estrada de ,bethleem #aji ,na caverna #aac ,natal #aba ,as tres virgens #abi ,o primeiro leite #ace ,adorao dos pastores #ada ,dr #adg ,receio #aea ,o somno #aeg ,palavras de ,maria #afa ,as duas mis #afg ,a estrella #age ,epiphania #agi ,adorao dos magos #ahe