,,serm,o ,,contra ,o ,,filosofismo ,,do ,,seculo ,,xix41 ,,pr,,gado ,,na ,,igreja ,,de ,s4 ,,juli,o ,,de ,,lisboa ,,na ,,quinta ,,dominga ,,de ,,quaresma ,,do ,,anno ,,de ,m4 ,,dccc4 ,,xi4 ,,por ,,jos ,,agostinho ,,de ,,macedo1 ,prgador do ,principe ,regente ,nosso ,senhor4 ,,lisboa1 ,,na ,,impress,o ,,regia4 #ahaa4 ,com licena4 99 99 99 99 99 ,vende-se na loja de ,desiderio ,marques ,leo1 ao ,calhariz1 ,n4 #ab4 ,,advertencia4 ,no he muito proprio de hum ,sermo hum ,prologo1 mas os ataques reiterados dos meus gratuitos inimigos me tem obrigado a prevenir o ,publico em qualquer composio minha1 ainda que seja de puro divertimento1 e he muito mais indispensavel huma preliminar advertencia em composio to sria como he este ,sermo1 no qual fao triunfar a ,religio dos ataques do moderno ,filosofismo4 ,e para compr este ,discurso1 seria licito ler alguma coiza6 ,parece que sim1 e que sem hum profundo conhecimento dos escritos dos ,apologistas da ,religio ,christ no poderia nem levantar a fiana do presente edificio4 ,certos estouvados se atrevro a lanar-me em rosto1 que roubava ,antonio ,vieira para compor meus ,sermes4 ,ora pois abatamos este importuno ,fantasma de ,vieira1 e rebatamos esta livre calumnia1 e dita por quem nem leo ,vieira1 e s ouvio dizer que ,raynal fallra de hum ,sermo deste ,jesuita pelo bom successo de nossas armas contra as de ,hollanda4 ,saibo pois que eu1 que componho hum ,sermo como o presente1 no necessito de ,vieira1 que no tem hum s discurso1 onde se ache huma instruco christ1 e que o desprezei com todo o meu corao depois que li o principio de hum ,sermo de ,mandato prgado na ,capella ,real no anno de #afee1 e neste principio estas escandalosas palavras,tomo #d4 pag4 #ceh4 #cgi4 col4 #b4 regra #d43 ,este cavallo branco he a sagrada ,humanidade de ,christo4,nunca mais o detestavel ,vieira4 ,ora como at nos doirados domicilios da crapula1 e ociosidade1 onde a libertinagem ousa levantar a voz contra a ,religio1 torpissimos ignorantes fallo de ,sermes1 e dos meus ,sermes1 saibo estes ,gazetaes eruditos1 que para compr este gravissimo ,discurso eu li1 e estudei4 #a4 ,s4 ,gregorio ,nazianzeno1 ,orat4 cont4 ,jul4 #b4 ,s4 ,fulgencio1 ,de ,fide ad ,pet4 #c4 ,s4 ,cyrillo1 ,cath4 cont4 ,juli4 #d4 ,o ,cardeal ,gerdil1 ,impug4 do ,emilio4 ,o mesmo1 ,introduco ao estudo da ,religio4 #e4 ,mazoti1 ,discursos contra a cred41 ,t4 #b4 #f4 ,vascelchi1 ,provas do ,christ4 #g4 ,roberti sobre a leitura dos ,liv4 de ,methafysica4 ,o mesmo1 ,impugnao do ,livro ,la ,predication4 ,no posso ser mais ingenuo3 estas so as fontes3 o ,discurso he meu1 as provas dos santissimos1 e doctissimos ,mestres do ,christianismo4 ,,serm,o ,,contra ,o ,,filosofismo ,,do ,,seculo ,,xix4 ,in malevolam animam non intraibit ,sapientia4 ,sap4 ,cap4 ,i4 ,no ha1 nem pde haver coiza mais aborrecivel1 e mais detestavel aos olhos da boa razo1 que a entonada soberba de hum malevolo ignorante4 ,o homem sisudo no pde olhar sem indignao para essa interminavel cohorte dos que neste seculo se dizem livres pensadores1 quando contempla o soberbo1 e ultrajante gesto1 ou amargo surrizo com que elles olho para o homem de bem1 que fiel a seus principios1 e consequente em sua crena1 e conducta1 respeita sua ,religio1 e a reconhece divina em sua fonte1 e sua origem4 ,deste rizo1 e deste soberbissimo signal de huma ultrajante compaixo1 quantas vezes tenho eu sido testemunha1 e tambem objecto no meio desta ,capital6 ,eu julgava que apenas aconteceria isto no meio das praas da nova1 e mais prostituida ,babylonia1 mas eu o vi realizado tambem em ,lisboa4 ,se o medo1 e o terror de hum justo castigo continha1 e exteriormente refreava estes estlidos motejadores no centro de hum ,governo ,catholico1 e vigilante1 elles deixro cahir de todo a mscara1 e mostrro sem pejo a impudentissima face em quanto sentimos o ferreo jugo do cos revolucionario1 que nos invadio1 e tyrannizou por nove continuos mezes4 ,ento1 ento esses malevolos academicos do segredo1 e das visagens1 imaginando1 vertiginosos e illusos1 que havio levantado1 e firmado o estandarte de sua nem realizada1 nem possivel liberdade1 insultro os verdadeiros fieis1 e os taxro de fraqueza1 e pusillanimidade1 e os titulos menos affrontosos que lhes davo1 ero os de fanticos1 crdulos1 e supersticiosos4 ,e quem serio estes miseraveis entusiastas8 ,por ventura alguns ,celsos1 ,jamblicos1 ou ,profirios doctos1 e profundos ,filosofos successores em ,athenas1 e ,alexandria daquelles famosissimos oraculos do ,epicurcismo1 e ,platonismo8 ,algum daquelles que apoiados com a incredulidade1 e poder de hum ,imperante como ,julianno pertendero com seus escriptos1 e doctrina solapar os alicerces do nascente ,christianismo8 ,seria honrar1 e desvanecer excessivamenre estes tomos de sabedoria1 se eu os comparasse a to formidaveis1 e terriveis talentos da antiguidade4 ,so verdadeiramente huns tomos1 e perdidos no espao immenso dos malvolos2 huns obscuros adeptos do ,illuminismo cobertos agora de hum ridiculo eterno com os contrarios effeitos daquellas a que elles chamavo profundas theorias de moral1 e de politica3 esmagados agora debaixo do pezo das vergonhosas derrotas do monstro em que confiavo1 e que por certo ignora sua existencia1 e do qual no podio1 como a experiencia lhes diz1 esperar mais que opprobrios1 ferros1 escravido1 e morte4 ,huns famintos1 mas vaidosos mendigos1 que esperavo entrar na diviso da preza dos sanguinarios ,tigres1 cuja avidade1 e cobia insaciavel at se rouba a si mesma para se saborear no roubo1 e no haver intervallo neste seu natural exercicio3 huns ociosos perennes1 que nesses asilos da embriaguez se asoalho a si mesmos por fortissimos espiritos1 e no deixo a bocas alheias a trombeta de sua fama1 e do renome de seus relevantes1 e sublimissimos engenhos1 homens finalmente1 que sem mais estudo1 sem mais ,universidade1 sem mais applicao1 sem mais livros que o ,monitor1 sem mais academias que as conferencias das trvas nos subterraneos da crpula1 e das enigmaticas1 e symbolicas ferramentas1 ouso clamar1 que ns os verdadeiros fieis1 acreditando1 e respeitando nossos santos1 e adoraveis dogmas1 no fazemos de nossa natural razo aquelle uso que podiamos1 e que deviamos fazer4 ,que dando-nos a ,natureza olhos para ver1 desgraada1 e voluntariamente nos fazemos cgos2 e que querendo ser humildes1 e obsequiosos crentes1 nos tornamos pessimos raciocinadores1 que a nossa crena faz resvalar a dignidade do ente pensador para a classe do bruto1 que deshonra a humanidade1 sepulta1 ou estraga o mais precioso talento que nos dra o ,creador1 que vergonhosamente nos classificamos abaixo dos animaes rudes1 acima de cuja esfra estavamos constituidos pelas faculdades intellectuaes4 ,eis-aqui o que eu mesmo escutei1 o que eu mesmo soffri2 e ouvindo discorrer tanto a estes livres pensadores1 nunca pude arrancar de suas eloquentissimas linguas a causa1 e o motivo desta to filosofica accusao4 ,mas estas idas ccas expostas em sesquipedais expresses1 que parecem destiladas pelo vagaroso1 e enfatico intervallo que ha entre huma1 e outra1 e apoiadas com os estrondosos nomes de ,raynal1 ,voltaire1 e ,helvecio1 e proferidas diante da juventude inconsiderada1 ociosa1 e irreflexiva1 obrigo a se formar de ns aquelle conceito1 que se forma de hum rebanho de animaes brutos1 e estupidos que se despenho1 e precipito cgos por aquelles combros por onde vm arrojar-se o primeiro1 ou por onde os chama o silvo de hum pastor1 ou a sombra de huma vara4 ,aquelles que assim nos trato1 e insulto so acclamados1 e tidos em conta de espiritos pensadores1 amigos do bom siso1 e defensores da verdade1 e at redemptores da oppressa razo1 que sabem magistralmente purgar-se a si1 e aos outros de preoccupaes defendendo-os dos ataques da ignorancia1 do fanatismo1 e infantil credulidade4 ,no sei1 ,senhores1 se podereis ter ouvido em paz1 e sem se vos desprender o fogo da ira1 e da indignao1 coizas to vis1 e to affrontosas2 mas socegai1 que talvez seja este o dia do triunfo mais illustre da nossa ,f contra o ,filosofismo do ,seculo ,,xix4 ,eu vos amo1 prezo1 e respeito tanto como a verdade1 e discorrerei de maneira que empenhe todas as foras da razo1 e da eloquencia1 e farei que to escandalosas vilanias se no digo mais1 ou se no digo impunemente aos verdadeiros fieis4 ,mas porque caminho dirigirei eu os passos do entendimento a esta baliza8 ,os apologistas da ,religio nada tem at agora omittido3 so conhecidos seus escriptos4 ,holland1 e ,valceschi respondro a ,mirabaud1 ,bergier a ,freret1 ,abbadie1 e ,hautevile a ,wolaston4 ,a ,celso respondeo ,origenes1 a ,juliano ,s4 ,cyrillo1 a ,profirio o maior de todos os ,oradores1 ,nazianzeno3 eu responderei a todos4 ,os modernos ,incredulos no so mais que serviz1 e miseraveis ccos destes antigos sofistas3 e crde que tem mais pezo1 e fora hum fragmento de ,profirio1 ou de ,celso1 que toda a supposta1 formidavel artilharia encyclopedista3 e hum ,occelo1 e hum ,timeo mais que o confusissimo systema da ,natureza4 ,estando pois todas as varedas batidas1 e todos os meios empregados1 eu no posso dizer-vos que seguirei hum caminho novo1 seguirei o mais plano1 obvio1 e descoberto1 e que possa ser pizado at pelos entendimentos menos agudos1 e penetrantes sem o afan de profundas especulaes4 ,eu confrontarei o uso ou emprego da razo natural1 que fazem os verdadeiros fieis com o uso1 e emprego1 que da mesma razo fazem os incredulos4 ,constituirei de huma parte estes estrondosissimos panegyristas1 e redemptores da razo1 que segundo elles dizem1 e assoalho1 lhes serve para ver1 e conhecer todas as coizas sem ter necessidade da ,f1 e que desprezo1 ou regeito magistralmente tudo o que ou no comprehendem1 ou no vm com a mesma razo4 ,d'outra parte constituirei os verdadeiros crentes os mais rendidos1 e sugeitos s suas decises1 e mais apartados do espirito de duvida3 e comparando1 ou confrontando hum com outro partido1 fazendo entrar em fechado campo os humildes1 e simplices crentes com os soberbissimos e eruditissimos ,sofistas como vra o vale de ,therebintho de huma parte hum ,gigante1 e d'outra parte num joven pastor1 farei ver1 e conhecer victoriosamente a qual dos dois convenha o brazo e o timbre de fazer uso1 e o melhor uso das faculdades intellectuaes1 qual dos dois honre1 ou qual avilte a razo1 e a humanidade1 e qual dos dois merea a compaixo como enganado1 e obtuso1 qual seja digno de louvor como atilado1 e consequente4 ,conheo1 ,senhores1 que a vantagem est da nossa parte1 e que se tornar evidentissima com o meu ,discurso1 e tambem conheo que assim como os mysteriosos das vizagens1 e dos signaes da esquadria se obstino em planos de profunda tactica e politica sublime para igualizar1 republicanizar1 domocratizar1 e fraternizar o ,mundo depois que elles mesmos1 e no outros1 o encadero aos ps do monstruoso despotismo de hum obscuro aventureiro1 sem que se envergonhem nem do mesmo ridiculo de que esto cobertos2 tambem para se vingarem da verdade que lhes dr nos olhos1 se obstinaro ainda mais na impostura1 e no engano4 ,se algum destes miseraveis existe no meio deste immenso auditorio1 e se tem trazido para aqui o compasso para medir o que no entende1 esperando escutar as frazes do neologismo de seus ridiculos periodicos1 eu lhe peo1 que se digne hum pouco de desfranzir as arqueadas filosoficas sobrancelhas1 e ouvir por hum instante hum ,christo desapaixonadamente1 e desenganar-se-ha1 que s no seio do ,christianismo1 e no regao da ,f se acha o ,orador sublime1 o ,filosofo profundo1 e o homem da razo1 e da verdade4 ,,discurso4 ,dizem pois os mysteriosos censores1 e no tem jmais deixado de o repetir o mais insignificante folheto da escola tenebrosa1 que ns os ,christos nem fazemos1 nem queremos fazer uso de nossa razo natural2 que quando se trata dos mysterios da ,religio1 accreditamos1 e emudecemos2 que no damos conta aos outros homens dos motivos da nossa f2 que conservamos como encadeadas as faculdades racionaes1 e intellectuaes sem entrarmos no conhecimento analytico destes mesmos motivos4 ,tal he a primeira calumnia1 que envolta em rebombantes periodos1 sahio do famoso ,club de ,holbac1 e havia de muitos annos antes apparecido no impio ,livro ,o ,militar ,filosofo2 tal he o primeiro improperio que vem na vanguarda dos impugnadores1 e refutadores analyticos da verdade da ,religio ,christ4 ,tal he o principio puerilmente rebatido at ao enjo1 em tantos livros de identica substancia1 de identica doctrina1 e at de titulos identicos1 e que j desafio a irriso do homem sisudo1 vendo que aquellas cgas1 e tenebrosas ,toupeiras no sabem mais que hum caminho subterraneo2 ,systema da ,natureza2 ,filosofia da ,natureza2 ,a ,natureza2 ,religio da ,natureza2 ,codigo da ,natureza2 ,moral da ,natureza4 ,tal he o grande achado com que se esmalto os noventa e nove volumes do palavrosissimo ,sofista de ,fresney4 ,a estes malevolos oraculos1 em que no cabe a sabedoria1 eu poderia j dizer as mesmas palavras que o ,martyr ,luciano disse em ,antiochia ao soberbo ,proconsul3 ,sabe1 que ns os ,christos no nos dirigimos1 e levamos como tu julgas por huma indisputada1 e paternal tradio como fazem os teus ,filosofos4 ,deos he o ,auctor da nossa crena1 e ,deos nos falla de ,deos4 7,euseb4 ,hist4 ,eccl4 ,liv4 #i4 c4 #f47 ,isto poderia fazer emudecer os monstros1 mas comecemos de mais longe4 ,sabei1 ou no o affecteis ignorar1 que os primeiros annunciadores do ,evangelho1 tivero frente dentro em ,jerusalem os mesmos ,hebreos incredulos1 e pertinacissimos1 e que a estes mesmos ,hebreos se disse1 e se provou1 que o alimento da nova crena em o ,christianismo era muito racionavel4 ,sabei1 ou no o affecteis ignorar1 que o mesmo ,apostolo1 que havia sido perseguidor1 fallara ao ,areopago de ,athenas1 e aos ,filosofos de ,roma1 e que dissera1 que o obsequio1 que nosso entendimenio fazia ,f1 era muito racionavel4 ,por ventura o ,areopago de ,athenas1 celebradissimo por sua sabedoria1 e prudencia1 e as ,academias da douta ,grecia1 e soberbissima ,roma ero ajuntamentos de gente escolhida1 ou capaz de se deixar embair de admirao pela doctrina de ,paulo1 e de abraar sem escrupuloso exame1 e sem huma muito filosofica discusso os elevadissimos mysterios1 que elle lhe propunha8 ,que injustia he esta dos fataes encyclopedistas1 e seus adeptos1 cujas ramificaes se estendem tanto pelos domicilios da crpula1 e politica desta ,capital6 ,porque alguns humildes idiotas1 e medrosos dos astutos1 e capciosos sofismas emudecem aos altisonantes nomes de ,pitaval1 e ,raynal1 ou dizem simplesmente que accredito1 fazer commum a todos1 e at a mim1 esta linguagem1 constituindo de seu plenissimo poder ao som de altas punhadas nas marmoreas bancas huma enorme distancia1 e huma irreconciliavel inimizade entre o discorrer1 e o accreditar6 ,e se eu vos fizer ver1 oh malevolos1 e incapazes da luz da verdadeira ,filosofia1 que nenhum dos ,filosofos antigos1 e modernos fez tanto uso da natural razo em seus principios1 e opinies1 quanto faz em sua ,religio hum verdadeiro crente8 ,e se pelo contrario eu vos mostrar com evidencia que no existe hum individuo1 que menos empregue a razo1 ou que a empregue mais despropositadamente que hum incredulo do estupido rebanho dos fortes pensadores8 ,eu j poderia cortar de hum golpe a grande questo1 constituindo-vos diante dos olhos a pueril differena dos innovadores em materias puramente ,filosoficas1 e perguntar-vos se he mais chegado razo o systema de ,taliamed1 ou o de ,delisle sobre a formaco do ,universo1 e produco das creaturas1 se a cosmogonia de ,moiss8 ,se he mais conforme aos dictames da razo natural o systema de ,buffon1 que pertende1 que huma pancada dada por hum ,cometa no corpo do ,sol1 das lascas que saltro se fizero todos os globos que em torno delle giro com to compassados1 e ,regulares movimentos1 se a creao do mesmo ,sol1 e dos astros pela voz de hum ,deos ,omnipotente como nos declara ,moyss8 ,mas deixemos por agora esta confrontao de objectos particulares para procedermos com methodo em materia de tanto momento1 e consequencia2 e conheceremos quaes sejo os cgos1 e os inconsequentes4 ,eu me persuado que estes zelosissimos ,apostolos da razo no so to encarniados inimigos da crena ,christ1 que em odio da mesma crena queiro abolir1 e exterminar de todo a mesma f humana2 nem se poderia entrar em argumento com estes filosofantes1 se negassem este primeiro1 e evidente principio3 e tambem me persuado1 que se no pde imaginar num homem nem mais irracionavel1 nem mais infeliz do que aquelle1 que vivesse com o firme presuposto de no dar jmais credito a outro homem1 que falle1 ou escreva1 salvo se sua escritura1 e suas palavras no forem immediatamente apoiadas com o actual1 e perenne testemunho dos sentidos4 ,e se he bom uso1 segundo lhes oio dizer1 aquelle que se faz da razo humana accreditando os homens que fallo1 ou escrevem1 julgo1 que no diro1 que he mao uso aquelle1 que se faz da razo accreditando a ,deos4 ,eu creio1 que este ser chamado por elles mesmos o uso mais perfeito1 mais excellente que se possa fazer da faculdade racional1 pois vm1 que assim discorrro1 e praticro no os idiotas1 e simplices crentes1 mas hum ,newton1 hum ,locke1 e hum ,pascal4 ,sim1 dizem os mysteriosos1 ou ridiculos iniciados1 se esse ,deos existe1 e1 se acaso existindo1 esse ,deos fallou444 ,no se dm tanta pressa1 ,senhores1 eu sei que at esses limites chega toda a sua subterranea1 tenebrosa1 e escondida illuminao4 ,trataremos ainda destes dois grandes objectos1 por agora bastar ver1 que se os pensadores fortes acredito mais os homens que ,deos1 e se ns acreditamos mais ,deos1 que os homens1 temos da nossa parte huma incomparavel vantagem1 e igual quella que tem hum homem de bom siso sobre hum varrido mentecapto4 ,creio1 que esta duvida dos mysterioros umbriferos sobre a demonstrada existencia de ,deos1 he huma especie de espantalho1 que me tem querido pr1 pois o mais superlativo ,veneravel1 e o do mais empinado cabeo do ,libano1 sabe muito bem1 que hum verdadeiro ,atheismo depois de se haver sofisticado tanto1 ao menos para o estabelecer como provavel1 em os dois confusos volumes do inintelligivel ,systema da ,natureza1 segundo a confisso at do mesmo ,vanini1 e ,spinosa1 he hum verdadeiro delirio4 ,he justo1 que os ,senhores politicos tenebrosos procedo1 e argumentem de boa f1 e que no sio de suas trincheiras1 que so as do ,deismo1 e no as do ,atheismo1 e presuposta a verdade que elles absolutamente se no atrevem a negar1 que existe hum ,deos1 cujas provas a priori at agora no tentadas1 eu produzirei bem depressa em hum ,tratado particular1 para consolao da razo humana2 eu me no devo obrigar agora a outra demonstrao mais1 que demonstrao de ter fallado aos homens4 ,e quantas vezes1 e de quantas maneiras tem elle fallado destes dogmas1 que ns accreditamos1 e desta ,religio1 que ss professamos8 ,por que meios to maravilhosos1 to estupendos no tem elle annunciado aos mortaes seus profundos mysterios1 as ,leis1 e os ,decretos de sua immortal vontade8 ,fallou primeiro muitos seculos antes pela lingua1 e pela penna de alguns homens1 que to exactamente annunciro1 e descrevro os futuros acontecimentos desta ,religio1 e do seu ,auctor1 bem como os mais imparciaes1 e fieis ,historiografos descrevem os factos presentes1 ou pouco acontecidos debaixo de seus mesmos olhos3 e estes futuros acontecimentos pontualmente verificados1 alm de seres contingentes1 ero destituidos1 7conforme a capacidade do entendimento humano7 de toda a apparencia1 e probabilidade de se verificarem3 oppostos a todos os raciocinios1 a todas as conjecturas humanas1 a todo o systema dos tempos em que se escrevro2 e alm disto repugnantes entre si1 como so repugnantes1 e apparecem contradictorios em huma mesma personagem1 em hum mesmo culto2 pobreza1 e grandeza2 exaltao1 e ignominia2 throno1 e patibulo2 desterros1 e conquistas2 estragos1 e multiplicao2 perseguies1 e victorias4 ,fallou em segundo lugar1 pela boca de seu mesmo ,filho1 pondo por elle fim evidentissimamente primeira alliana1 e juntamente ao ,altar1 ao ,sacerdocio1 e ao ,principado de huma lei figurativa1 e s permanente antes da realidade3 e dando principio nelle1 e por elle nova alliana1 conductora de verdadeiras benos a todas as ,naes1 conforme os clarissimos vaticinios de todos os ,profetas4 ,fallou com voz de huma grande parte do ,mundo1 que passou rapidissimamente do culto idlatra1 que era a ,religio dominante1 e quasi universal crena ,christ2 dos encantadores deleites temperana ,evangelica2 das soberbas riquezas desprezivel pobreza2 do ambicioso commando humilde sugeio1 bastando doze homens simplices1 e ignorados para fazerem esta moral revoluo por toda a parte do immenso ,imperio ,romano4 ,fallou com a voz de huma grande multido de homens literatos do ,gentilismo1 que conhecendo1 sentindo1 e admirando a santidade desta ,religio1 e a sublimidade destas doctrinas1 julgro huma rematada loucura sua antiga sapiencia1 e se tornro como hum ,justino1 de ,filosofos ,pagos em ,theologos1 e ,mestres do ,christianismo4 ,fallou finalmente com o sangue de hum numero portentoso de ,martyres1 cuja constancia acompanhada sempre de hum silencioso1 e pacifico soffrimento excede todas as foras da humana natureza1 nem cabe nos confins da humana ,filosofia4 ,agora eu vos pergunto1 espiritos incredulos1 mysteriosos pensadores1 grandes columnas dos ,liceos centraes1 e dos ,printaneos universaes1 eruditos profundos em ,monitor1 e mais nada2 estupidos sequazes do ,filosofismo ,wandalico1 e revolucionario1 quem vos tem fallado1 quem vos tem feito pensar1 e crr cousas contrarias aos principios1 e dictames desta minha f1 na qual se observa1 e se escuta manifestamente a palavra de hum ,deos1 que fallou aos homens8 ,ns somos iguaes nisto s3 ,eu creio1 vs accreditais4 ,porm ns somos differentes nos motivos1 nos auctores1 nos testemunhos1 eu1 da minha crena1 vs da vossa incredulidade1 e futilissimas duvidas4 ,dizei-me pois1 quem sejo aquelles que vos tem fallado de viva voz1 ou por escripura8 ,ah6 vs vos correis1 e envergonhais de os nomear6 ,tambem eu me envergonho1 e corro de proferir seu nome1 para que no julgue1 ou se no persuada algum idiota dos doirados crapulosos domicilios de ,lisboa1 que eu me digne de instituir huma confrontao entre os vossos mestres de ,f1 e os meus4 ,seria fazer o mais injurioso parallelo nomear ,freret1 ,boulanger1 ,diderot1 e d',alembert1 e depois os mais sublimes ,profetas1 e os ,santos1 e doutissimos ,mestres do ,christianismo1 ainda no seu bero1 como hum ,origenes1 hum ,athanazio1 hum ,tertuliano1 e hum sublimissimo ,nazianzeno4 ,direi smente em geral1 que estes ,corifos1 ,enciclopedistas1 e ,oraculos do ,filosofismo so crentes de propria inveno1 e mestres de proprio moto1 trepados em pestilenciaes cadeiras1 mestres sempre fluctuantes1 sempre incertos1 sempre discordantes entre si1 sempre contradictorios comsigo mesmo como hum ,jaques1 que em huma pagina exalta o ,evangelho como huma produco divina1 e logo n'outra pagina o deprime como num parto da simplicidade1 e do ,fanatismo3 mestres1 que se da sua crena ou de seus sofismaticos escritos dependesse o mais pequeno1 e o mais insignificante negocio domestico de seus discipulos1 ou alguma de suas terrenas vantagens1 ou fico que a todos os de sua escola pareceria summa imprudencia fazer-se incredulos sobre a sua honrada1 e scientifica palavra4 ,mas no he este o lugar para esta discusso1 he tempo sim de confrontar uso de razo com uso de razo1 o uso que eu fao com o uso que vs fazeis1 ou vos considerei como discipulos1 ou vos assoalheis como irmos terriveis1 e veneraveis3 e se esta disputa terminar em desvantagem vossa1 sereis obrigados a confessar racionavel a minha f1 depois que tantas vezes a tendes escarnecido1 e me tendes provocado1 e at reprehendido como rebelde ao bom sizo1 como desprovido de razo1 e at ingrato humanidade4 ,e porque8 ,oio este porque os ,povos mais selvagens1 e incultos da terra1 e digo seno he nova at entre elles tanta extravagancia1 e tanta brutalidade6 ,porque a despeito de hum arbitrario fabricador de systemas1 de hum arguto1 e sagaz filosofante1 de hum fantastico pensador1 tenho dado credito1 e o dou ao ,supremo ,ser1 ,suprema1 e primeira verdade1 que fallou em todos os ,seculos1 que fallou em todas as lingoas1 que fallou em sua propria pessoa1 ensinando-nos por si mesmo dogmas unidos1 e ligados entre si com hum lao maravilhoso1 e1 se nem todos so accessiveis ao entendimento humano1 so todos conformes aos dictames da recta1 e natural razo4 ,o que acabo de dizer1 que a minha f1 e a minha crena tem alguns artigos que parecem inacessiveis ao entendimento1 humano desabafa alguma cousa meus implacaveis accusadores da consternao1 e aperto em que os lanou a primeira parte da indicada confrontao3 porque1 se he verdade1 dizem elles1 como eu confesso1 que a ,religio tem alguns dogmas no perceptiveis ao entendimento humano1 eis-aqui porque eu ,christo1 a respeito dos mysterios da ,f1 sou obrigado a renunciar o lume da razo natural3 em quanto ns444 ,em quanto vs1 oh6 ,pitavais1 oh6 ,rainais6 sois obrigados a renunciar o lume da razo natural a respeito dos mysterios da ,natureza4 ,esta minha resposta assim vibrada1 talvez seja pouco sucosa1 e muito restricta1 he preciso que eu a exponha com mais perspicuidade1 e extenso4 ,assim como he hum indispensavel dever do homem pensar segundo a razo natural1 tambem he hum dever indispensavel do mesmo homem conhecer os confins1 ou as balizas que a ,natureza constituio a esta razo2 e ainda que exacta1 e precisamente se no posso determinar quaes sejo estas balizas1 conhece-se com tudo que existem muito quem das cousas invesiveis1 e imateriaes4 ,e que conta se d a si mesma esta to orgulhosa razo das cousas corporeas hum pouco superiores1 ou distantes dos nossos sentidos8 ,que conta se d daquellas mesmas cousas que temos entre as mos1 e que com o olho armado de lentes subtilissimas examinamos todos os dias8 ,que razo ns damos do movimento de hum insecto1 da sobida de huma lavareda1 da tendencia de huma pedra para o centro da gravidade1 da respirao de hum animal1 do fenomeno regular do fluxo1 e do refluxo1 da causa immediata do magnetismo1 dos espantosos effeitos da electricidade1 das fases da lua1 da marcha excentrica1 e irregular de hum ,cometa1 do movimento de hum ,planeta1 da sua accelerao na razo inversa do quadrado da distancia ao centro da revoluo8 ,e quem seria to desasisado que em lugar de confessar limitada a sua razo1 negasse pertinazmente a existencia destes objectos porque os no comprehende8 ,que conceito formariamos daquelle profundo pensador1 que porque os no entendia os julgasse1 e reputasse a todos outras tantas imaginaes sem fundamento1 ou outras tantas illuses da fantazia1 e dos sentidos8 ,no se dir de hum menino1 que tocasse apenas o septimo anno de sua idade1 que no usa da sua razo1 e que injuria a ,natureza que lha communicou1 porque seno levanta com o entendimento a especular os mysterios1 e a resolver os problemas da mais recondita ,filosofia8 ,dir-se-ha com verdade1 que considerando a molleza de suas fibras1 e a immaturidade de seus orgos1 estes pensamentos altos1 e estas profundas especulaes no so ainda para elle1 e que muito faz1 attendida a sua idade1 se se adianta hum pouco em o material conhecimento das letras1 e em huma superficial combinao das syllabas4 ,e se este menino por no poder penetrar1 e conceber sciencias maiores que estes seus primeiros rudimentos da leitura1 negasse que existio mais sciencias1 e mais reconditos conhecimentos das causas1 e dos effeitos1 todos se ririo1 e lhe no dario o nome de louco em atteno sua muito tenra1 e delicada idade4 ,direis que eu discorro com clareza1 mas he porque se trata de huma razo tenra1 e novia1 mas que o argumento no tem fora onde se trata de huma razo perfeita1 e chegada sua devida maturidade4 ,seja embora a razo madura1 e perfeita1 dizei-me pde ella acaso transgredir seus naturaes limites8 ,pde acaso deixar de ser razo anuviada do sentido material1 e cga para todos os objectos que no forem corporeos8 ,e no so prvas desta verdade alguns incredulos escarnecido por vs mesmos1 por terem a affirmado como ,mirabaud1 que nada mais existe em o ,universo1 que corpo1 e materia3 ou por haverem affirmado que esta materia he ,deos1 que esta materia he a ,providencia1 que esta materia he aquella immaterial substancia1 ,arbitro supremo1 e separado da ,natureza1 que eu1 simples1 temo1 e adoro como hum ser infinito1 de ordem superior1 e todo espiritual8 ,lembrai-vos1 que he identico o vosso caso1 e o do tenro menino1 que porque no tem entendimento capaz de formar idas mais sublimes1 cuida que toda a sciencia humana consista em saber contar hum pouco melhor1 e em combinar com mais facilidade algumas syllabas materiaes4 ,torno outra vez ao campo com as empunhadas armas do parallelo1 e vos peo1 que me digais se acaso seja honrar a humanidade1 ou pizalla1 e desprezalla furiosamente depois de ter com mil provas conhecido a limitada capacidade da razo1 at no conhecimento1 e analyse das cousas sensiveis1 que so de sua immediata jurisdico1 atrribuir-lhe tanto dominio1 e dar-lhe huma vista to aguda1 e penetrante1 que nem das cousas invesiveis1 nem da ,natureza ,divina1 nem das ,divinas operaes1 se no deva acreditar1 nem mais1 nem menos1 seno aquillo que a mesma razo pde comprehender1 e isto com tanta segurana ensinado pelos ,veneraveis aos adeptos dos primeiros gros1 ou dos primeiros momos1 ou visagens1 que quem pensar d'outra maneira se deva logo constituir carga cerrada na classe dos brutos animaes1 desprovidos de razo1 e de conhecimento4 ,e he isto conhecer1 como he de obrigaco de todo o mortal raciocinante1 os limites do entendimento humano1 e do humano discurso8 ,em que direis vs que estes ,veneraveis1 ridiculamente mitrados1 annunciando enfaticos o ramo d',acacia1 e que a carne deixa os ossos1 se distinguem de hum insensato1 que com azas postias presuma levantar o vo1 e girar em torno das orbitas dos ,planetas8 ,porm os crentes no fecho voluntariamente os olhos da razo8 ,no se immergem voluntariamente nas trvas da ,f8 ,vs aqui dissimulais com vossa costumada perfidia1 e malicia ter visto a clara luz que eu vos mostrei na manifesta palavra de ,deos1 a cujo claro inextinguivel ns caminhmos1 e confundis com hum de vossos ordinarios sofismas as trvas do entendimento com as trvas da razo3 mas eu vos farei bem depressa conhecer quaes sejo1 e a quem perteno as primeiras1 quaes sejo1 e a quem perteno as segundas4 ,trvas de entendimento so aquellas de que se v rodeado nosso espirito1 quando1 por mais que investigue1 e procure descortinar certos arcanos da ,religio1 no chega a conhecer1 nem o seu modo1 nem o seu fim1 nem a sua causa3 eis aqui aquelle abysmo insondavel vista do qual bradava o ,apostolo--oh altitudo6 ,mas isto so trvas necessarias a que podemos chamar sagradas sombras1 em quanto se derivo1 e se derramo da incomprehensivel ,natureza do ,ser ,divino1 e das ,divinas operaes1 e por isto so trvas universaes para todos os entendimentos creados1 so trvas para mim1 e para os profundos pensadores2 so sombras minhas1 e sombras vossas por mais que vos chameis illuminados1 nem so mais dos ,egypcios1 que dos ,hebreos1 nem mais dos ,gregos1 que dos ,romanos1 nem mais dos incredulos1 que dos infieis1 ou dos idolatras4 ,porm quando1 ou por hum estranho orgulho no se queiro nem conhecer1 nem confessar estas trvas1 ou conhecendo-as1 e confessando-as se fecho os olhos luz da divina palavra1 que torna firme a nossa f no meio destas mesmas sombras1 ento as trvas que ero s do entendimento passo para a razo1 e se torno trevas voluntarias1 e por isso trevas culpaveis1 trevas deshonrosas1 trevas de homem1 que por ser pertinacissimo1 renuncia os dictames da recta razo1 e desce1 e se faz semelhante aos mesmos brutos4 ,eu me mago1 e penalizo1 oh espiritos incredulos1 devendo dizer-vos que esta to tenebrosa1 e aviltada razo1 he pontualmente a vossa1 a tanto mais me penalizo quando mais conheo que vs quereis ser homens pensadores fra do uso commum1 e da vulgar esfera4 ,mas talvez que vos lembre alguma resposta1 que vos livre ao menos em parte desta vergonhosa infamia4 ,pensai1 estudai1 meditai1 consultai os vossos mais meditabundos ,veneraveis1 l-de1 e rel-de vossos amados livros1 o vosso ,tindal1 o vosso ,collins1 o vosso ,bolimbrocke1 o vosso prezadissimo ,oraculo de ,fresney1 v-de se nesse erario de paralogismos podeis achar algum argumento1 alguma palavra que vos possa destruir o vergonhoso labo de serdes em materias de ,f homens desprovidos de razo4 ,eu mesmo1 no posso encontrar1 por mais que subtilize1 huma s vereda por onde vos possaes escapar4 ,vs me concedesteis j1 no o podeis negar1 que existe ,deos1 vs tambem me deveis conceder que elle haja revelado aos homens o culto com que quiz ser adorado pelos mesmos homens1 que o revelou1 e manifestou de huma maneira descoberra1 e sensivel1 milagrosa em cada huma de suas circumstancias que este culto1 para ser digno delle1 devia conter verdades superiores esfera do humano entendimento1 e que de outro lado este humano entendimento he to pouco penetrante1 que no pde presumir sem loucura que conhece1 e entende todas as verdades fysicas1 e naturaes4 ,e porque estes ,dogmas da ,f se envolvem em magestosas sombras1 e sagrada obscuridade1 vs recusaes acredita-los sem que se vos torne evidente sua possibilidade1 ordem1 e economia2 e ns os fieis que os acreditmos sem to filosoficas delicadezas somos tratados por vs1 profundissimos pensadores1 e accreditadores das verdades1 do ,monitor1 de estupidos inimigos do bom siso1 e de pessimos raciocinantes4 ,ns1 continuo os ,veneraveis a clamar1 no dizemos que vs sois pessimos racionantes1 dizemos smente que conservaes em estupido ocio a razo1 e o discurso4 ,isto he huma retirada que eu no podia esperar1 mas esta mesma retirada no os salva de serem seguidos1 e feridos com as armas da razo4 ,dizem pois1 que eu por ser crente1 sou constrangido a conservar em ocio vituperoso o discurso humano1 sepultando o maior talento1 ou dom da ,natureza1 que he o lume da razo4 ,grande ,deos6 ,e era de esperar isto de homens que tem olhos para ver1 e razo para discorrer6 ,e era de esperar huma semelhante impostura8 ,entrai oh incredulos1 em alguma daquellas respeitavel ,bibliothecas conservadoras1 e depositarias da sapiencia ,christ1 e alongai a vista para o assombroso1 e surprendente nmero daquelles volumes cheios de amplissimas provas da verdade da ,religio ,evangelica1 e para que no digaes que constituo ante vossos olhos alguma ,legenda crdula1 algum ,mistico a que chamais ,visionario1 l-de unicamente ,grocio1 e ,locke ambos defensores1 ambos demonstradores da verdade do ,christianismo1 e de seus augustos ,dogmas4 ,aqui achareis demonstraes luminosissimas1 e levadas at a evidencia2 os quaes os mais pertinazes das vossas nocturnas1 e tenebrosas escolas no se atrevro ainda a responder1 e os mais atrevidos no tivero ainda outra resposta que dar mais do que vilipendios1 e motejos plebeos3 e quando tem querido dar resposta1 como serios argumentantes1 no tem feito mais que oppr s provas daquelles dois profundos ,filosofos1 fabulosas relaes1 ,padres suppostos1 ,escrituras falsificadas1 ,authores suspeitos1 e desacreditados1 e se vs chamais s provas do ,christianismo fructos do ocio ,christo1 que chamarei eu a taes objeces1 fructos da vossa pensadora incredulidade8 ,a respeito pois da ,essencia ,divina1 da sua immensidade1 da sua immutabilidade1 da sua eternidade1 que tem imaginado de grande1 e que descobrimento tem feito os vossos profundos pensadores1 e os maiores oraculos do maior ,oriente1 para que se no creia em nossos pensadores ,christos8 ,tudo quanto dissero sobre a ,natureza ,divina os ,socrates1 os ,plates1 os ,democritos1 os ,zenos1 e outros ,mestres pelo muito uso que fizero da razo natural dignos de fama1 e de memoria1 he apenas hum balbuciamento de tenros meninos a respeito do que ensina o menos profundo dos ,theologos ,christos1 e o mais superficial1 e insignificante dos nossos livros4 ,a causa de to grande differena entre uso de razo1 e uso de razo1 se vos dignaes escutalla o mesmo ,evangelho a est declarando4 ,de differente maneira edifica aquelle que escolhe para o edificio hum terreno compacto1 e pedregoso1 do que edifica aquelle1 que escolhe hum terreno movedio1 e solto2 o primeiro no tem medo de levantar alto da terra o edificio que constroe1 em quanto o segundo1 attendida a natureza do terreno1 se v obrigado a conservar muito baixo o edificio1 nem pe huma pedra sobre outra pedra sem receio de que crescendo o pezo cahia tudo confuso1 e despedaado sobre o infiel terreno4 ,de similhante maneira acontece a hum entendimento1 que tem fundamentado suas decises sobre o firmissimo alicerce da sua ,f4 ,sobre estas bases se pde levantar com a razo1 at ao solio do ,immortal1 para investigar a ,essencia ,divina1 e as ,divinas perfeies sem erro1 e conhecer sem perigo cousas remotas1 e distantes do entendimento humano4 ,pelo contrario os incredulos1 e os ,veneraveis que tanto me tem taxado de embecilidade1 sem o fundamento da ,f1 por pouco que se queiro levantar com a razo1 devem sempre temer huma confusa ruina de caprichosos fantasmas1 e vergonhosas contradices4 ,ainda com o impeto1 e fora desta evidencia no emudecem os pertinacissimos impugnadores1 ou refutadores analyticos3 que ha que dizer 7erguem elles animosamente a voz7 que ha que dizer a estas nossas livres fantazias1 s quaes se d o odioso nome de caprichosas6 ,por ventura1 no so elas hum amplo patrimonio1 hum direito innato do espirito humano8 ,custa-vos acaso1 que ns os pensadores recusando crr1 nos conservemos na posse daquella liberdade de pensar que a ,natureza nos deo1 e que tanto tem dilatado os nossos ,veneraveis1 e da qual to injustamente nos despoja a ,f8 ,ah6 ,illusos fraternizadores1 e niveladores6 ,e porque no dizeis1 que tambem a ,filosofia despoja o entendimento humano da liberdade de pensar8 ,quantos vos de engenho he preciso refrear1 quantos systemas he preciso regeitar1 quantas invenes he preciso sacrificar1 s leis daquella1 que segundo o vario gosto dos ,seculos se chama boa1 e razoavel ,fysica8 ,vos que accusaes a ,f de ligar o entendimento1 e de o condemnar a huma individa servido1 porque no accusaes tambem as ,sciencias1 que todas tem seus principios1 suas regras1 seus confins1 que da mesma sorte que pratica a ,f1 pem hum freio1 e prescrevem leis ao licencioso entendimento8 ,com effeito1 ou se considerem as sciencias1 ou se considere a ,f1 ou isto em vs he huma grosseira impostura1 ou huma equivocao pueril1 porque esta liberdade de pensar de que dizeis vos despoja a ,f1 vs por certo a julgais1 e a entendeis huma liberdade sabia1 digna de hum homem racional1 e no huma liberdade de fernetico1 ou de hum sonhador febricitante4 ,ora dizei-me em que vos violenta1 ou vos constrange esta ,f1 cuja prepotencia vs tanto exageraes8 ,ella vos obriga a dizer que existe ,deos1 e esta existencia j est demonstrada pela razo natural4 ,ella vos obriga a confessar que este ,deos existente fallra aos homens1 e he evidente que elle fallou pelo exactissimo complemento dos vatecinios4 ,ella vos obriga a confessar1 que as palavras deste ,deos so infaliveis1 e he inegavel que no podem deixar de ser infalliveis pois so de hum ,deos que encerra em si todas as perfeies4 ,fra disto eu no posso1 nem he possivel descobrir cousa em que se constranja1 ou tyrannize1 como vs dizeis1 a vossa liberdade2 salvo se vos queixaes de perder aquella liberdade que quereis ter de ajuntar contradices1 de engrazar impossiveis1 e de dar ao ,mundo 7como tendes feito em tantos ,livros ineptos quantos ha desde o ,militar ,filosofo1 at s prvas do ,mahometismo1 ultima produco de ,holbac17 quimericas imaginaes por verdades demonstradas4 ,se quereis permanecer neste estado como vos prescreve o ,codigo de ,weishaupt1 o de loucos varridos ainda he mais vantajoso4 ,e1 vista disto1 que estrepito se no tem feito1 e se no continua ainda a fazer pelos subterraneos1 que tremem da ,policia vigilante1 que os faz ir republicanizar1 e igualizar em masmorras1 sobre a miseravel escravido do humano entendimento1 e sobre o tyrannico imperio1 que a ,f1 segundo elles clamo1 tem usurpado sobre a razo natural8 ,que queixas eu no tenho ouvido fazer sobre os pequenos progressos que tem feito no ,mundo1 depois da entrada do ,christianismo a profana ,litteratura8 ,que compaixo no fingem ter dos engenhos catholicos1 que tendo azas com que poderio sobir acima das nuvens1 se curvo1 e encolhem ao jugo da crena1 abatendo os vos1 e andando quasi de rojo pela terra8 ,mas se se quizer examinar1 ou vr smente que cousa seja este remontar-se sobre as nuvens1 achar-se-ha que no he outra cousa mais que arrancar do entendimento 7 fora de pensar livremente7 o innato conceito da honestidade1 o innato horror do vicio1 fazer das aces justas1 e das aces injustas huma inveno do interesse1 ou apenas huma das ceremonias da vida civl1 e da conducta politica2 collocar1 e estabelecer na fora maior hum justo direito de roubar1 e de matar seus similhantes2 tirar das mos aos ,principes1 e aos ,dominantes a espada punidora de suas escandalosas maldades2 e fundar toda obrigao que tem os homens de honrar1 e obedecer a ,deos1 no em seu infinito merecimento1 e em seu supremo dominio1 mas unicamente em seu irresistivel poder4 ,eis-aqui1 dizem elles1 hum pensar livre1 nobre1 generoso1 honrado1 sublime1 e no pensar com humildade1 e sugeio de escravos1 como fazem os ,christos4 ,eis-aqui o que se chama despregar soltamente as azas do entendimento1 desferir com magestade os vos como nos ensina o nosso ,mestre ,veissauph1 e todos os nossos ,cavalheiros do ,libano1 eis-aqui o que escutamos aos nossos ,veneraveis1 quando descalo as formidaveis1 e tremendas luvas para nos fazerem vr a luz em o ultimo dos nossos gros1 que vem a ser1 ensinar-nos em ,methafysica o ,pantheismo1 e em ,moral1 a ,igualdade acephala1 e anarquica4 ,eis-aqui o que se chama entranhar-se no conhecimento da verdade1 e no querer a vida1 se no para a empregar na indagao da verdade1 sem levar sempre ao lado o cgo1 e molestissimo pedagogo da crena sobrenatural4 ,eis-aqui o que nos inculcou1 e o que ns estudamos nos mais que sobrehumanos escritos do nosso ,cidado ,genebrino4 vista disto1 ,senhores1 eu creio1 que ainda quando a ,f vo-lo no vedasse1 vs no quererieis huma similhante liberdade de pensar1 s para manter o decro da vossa razo1 e para no mostrar ao ,mundo que constituis na extravagancia1 e na loucura a gloria d'espirito forte1 e pensador profundo4 ,resta pois que os valentes pensadores bato outro caminho que lhes possa lembrar1 porque as veredas at agora tentadas os no tem conduzido1 nem podem conduzir sua to vmente preconizada victoria4 ,mas elles so de fecundo engenho1 e fertil de estratagemas na guerra anti-christ2 acolhem-se sua ultima trincheira1 conforme a tactica do guerreiro1 ou campio de ,genebra1 que he a dos milagres que ns acreditamos como simplices1 fundando nelles hum dos motivos da credibilidade da ,f4 ,milagres1 que elles como sabios1 e profundos pensadores desprezo1 ou orgulhosamente desconhecem4 ,mas he preciso antes que venhamos s mos1 que os meus inimigos mostrem boa f em o seu ataque1 e que se no tornem como costumo pessimos pensadores1 escrevendo1 e divulgando1 no sem motejos1 e improperios1 que ns os fieis somos crdulos em tudo aquillo que se nos offerece prodigioso com tanto1 que encerre em si alguma cousa de devoto1 e de mistico4 ,mas eu os considero to amestrados na ,ecclesiastica ,historia1 que no ignoro oue os tempos de huma to abusiva1 e facil credulidade1 ou no existro na ,igreja1 ou se existiro em algum ,seculo de decadencia1 e dominao ,gotica comprehendro em si hum pequeno numero de pessoas idiotas1 e vulgares1 fraces infinitezimas em o todo dos illustrados ,christos3 elles no ignoro que a derramada luz da severa critica1 da sagrada ,hermeneutica1 e das profundas indagaes litterarias tem at destruido1 e acabado a sua memoria4 ,alm de que1 esta crena dos milagres1 exceptuando aquelles que esto registrados nas ,santas ,escrituras1 no he entre ns crena divina1 nem absoluta1 nem sempre igual2 he sim huma crena medida sempre pelo maior1 ou menor valor da authoridade em que se firma4 ,e vista disto1 quem pde taixar de aviltamento da razo o uso que ns fazemos do bom siso1 a respeito dos acontecimentos milagrosos8 ,tem por ventura a ,natureza ensinado aos homens outra regra de dar credito1 ou de o negar s mais estranhas1 e inexperadas aventuras1 mais que a qualidade1 e o numero daquelles1 que nos referem1 e testemunho extraordinarios acontecimentos8 ,diro por acaso que usa rectamente de sua razo aquelle1 que porque hum facto he milagroso1 conta em nada a authoridade1 a multido1 o caracter1 as luzes das suas testemunhas oculares6 ,usa bem da razo1 quem reputa ignorantes os homens mais doutos1 os mais agudos1 e penetrantes por insensatos1 os mais prudentes por superficiaes1 e os mais santos1 e virtuosos por impostores8444 ,mas se os milagres so impossiveis1 como he possivel que se acreditem8 ,tambem a vossa razo vos diz que os milagres so impossiveis8 ,oh entendimentos felizes6 ,e podesteis desde as vossas tenebrosas1 e nocturnas cavernas do mysterio1 e das vizagens1 sobir aos ceos1 e tomar huma exacta medida das foras da ,divindade1 e1 considerando1 ou a subita vista de hum cgo1 ou a ressurreio de hum morto dicidir magistralmente1 que no chega a tanto o infinito poder do absoluto ,arbitro da ,natureza8 ,eu na verdade1 no tenho medido palmo a palmo como vs fizesteis esta ,divina ,omnipotencia3 todavia1 parece cousa fra de razo1 que quem impz as leis ,natureza1 se haja elle mesmo feito escravo destas leis1 com manifesta injuria de sua essencial1 absoluta1 e dispotica dominao4 ,mas se he preciso1 oh grandes1 oh profundos pensadores1 tirar a ,deos o poder absoluto de operar milagres1 e considerar1 e ter quantos se conto1 ou de ,moyss1 ou dos ,profetas1 ou os de ,j4 ,c4 por outras tantas fabulosas invenes1 ento he preciso tambem negar todas as historias profanas1 nenhuma das quaes tem por si a centesima parte daquellas prvas1 que tornam autentica1 e indubitavel a ,historia ,divina4 ,eu j comeo1 de sentir algum tedio1 em rebater huma calumnia que talvez fosse ferir em reverberao com nula ignominia1 que fructo1 os escarnecedores1 e motejadores da crena ,christ4 ,e agora que penso socegadamente me doe de no ter nesta contestao usado antes da doura1 que do rigor1 para attrahir os incredulos3 mas eu lhes supplico que se persuado que este calor1 e esta aspereza1 que tem respirado o meu ,discurso1 no he culpa minha1 mas se he licito dizello assim1 he culpa da verdade4 ,esta verdade he branda de sua natureza1 suave1 e tranquilla1 mas quando se v impugnada1 e atacada com audacia1 e com injustia1 accende-se1 inflamma-se em nobre ira1 muda o sereno aspecto em carregado1 e severo1 veste-se de todas as armas1 e toma huma lingoagem1 ou tom1 que faz sentir1 a quem a ultraja1 todo o seu incontrastavel valor4 ,com toda esta indignao pois1 que he mais indignao da verdade1 que indignao minha1 creio que o meu corao os no pde escusar1 ainda que deseje encontrar motivos de se ,compadecer4 ,infelizes6 ,vivem em hum ,mundo1 e frequento sociedades onde os serios1 e verdadeiros pensadores1 no so mui aplaudidos3 de outro lado elles querem sobresahir ao vulgo1 e parecer homens1 ainda entre os doutos1 d'hum pensar profundo4 ,as materias de ,religio lisongeo1 ainda mais que as outras1 seus menos regulados costumes1 o pouco trabalho de huma superficial1 e desatenta leitura os surte de breves sentenas1 ou triviaes apothegmas1 capazes de nutrirem a sua intereada incredulidade1 e de excitar a admirao dos idiotas4 ,entre estes apothegmas1 eis-aqui o principal4 ,que a faculdade racional1 he superflua nos ,christos1 os quaes devem crer1 e no discorrer1 porque se discorressem1 talvez no acreditassem4 ,mas o paralello1 que fiz do nosso discorrer1 com o discorrer dos incredulos1 no ter dissipado todo o seu engano8 ,pzem os principios de que fazemos partir1 ns a nossa crena1 elles a sua incredulidade1 e tenho1 no digo vergonha de si1 e de sua scientifica soberba1 mas tenho d da sua alma1 que ,deos pelos caminhos da razo tinha conduzido ao regao da ,f4 ,confessem que se obstino a pensar brutalmente1 por huma soberbissima nauzea de pensar ,christmente4 ,que lhes fez ,j4 ,c4 para o no quererem acreditar como ,mestre de huma doutrina celestial8 ,para que martyriso perpetuamente seu espirito1 e sua consciencia1 contrastando a evidente santidade de seus ,dogmas1 a evidencia das ,profecias que o annuncio1 a evidencia dos factos que o comprovo1 a evidencia dos milagres que o demonstro8 ,basta4 ,juliano ,apostata tinha sempre na boca a inraciocinabilidade que os incredulos nos oppem1 e dizia que em ns ,christos1 tudo era crer4 ,porm o immortal ,orador ,nazianzeno lhe disse1 e o confundio desta maneira 7,orat4 #a4 ,cont4 ,julianum7 ,podes tu1 que tanto admiras1 e amas tanto as ,seitas ,gentilicas1 reprehender-nos a ns que fazemos esta honra1 ou mais depressa esta justia ao nosso ,divino ,mestre1 e sublimidade excellentissima1 e inimitavel de seus dictames8 ,os teus amados ,pytagoricos no tem por huma lei fundamental da sua escola1 dever-se eximir das mais difficultosas questes que se lhes proponho com aquelle seu decantado--,ipse dixit6--,e ns porque no damos outra razo de nossos mysterios1 mais que os ditos de hum ,legislador conhecido com mil prvas por ,divino1 e infalivel1 somos chamados por ti automatos insensatos1 ou animaes sem entendimento8 ,esta he huma parte do to gabado discurso dos incredulos desta idade1 declarar-nos ros de aviltada1 e desprezada razo1 porque nos apoiamos em huma manifesta authoridade suprema3 porm elles no tem na boca a toda a ora1 mais que certos nomes1 que1 ou a audacia tem feito famosos1 ou tornou clebres3 a habilidade de vestir moderna1 e com estilo moderno as blasfemias antigas2 como por exemplo--no he de crer que hum ,deos1 que he todo bondade1 e misericordia haja de condemnar hum to grande numero de creaturas1 que vivem fra da sua ,igreja--7,e porque as no ha de poder condemnar1 achando que a sua infidelidade he culpavel67 ,mas no se busquem tantos porques4 ,disse-o hum ,sofista de ,pars1 ou de ,genebra4 ,ipse dixit4 ,este ,sofista he hum homem que tem em linha igual a momentanea lascivia1 e a continencia ,evangelica4 ,he hum homem cujos incendiarios escritos foro lanados nas chamas pelos ,decretos dos ,tribunaes seculares1 e vive em toda a terra infamado1 e infame pela sua manifesta impiedade4 ,ipse dixit4 ,he hum ,tolland que diz que no ha lei que obrigue os homens a seguir a ,religio revelada2 e que seria ,deos injusto se houvesse promulgado tal lei4 ,e este ,tolland arrastra-se em ,londres de huma prizo para outra prizo1 e morre foragido em o frio1 e nebuloso inferno de ,holanda2 ,ipse dixit4 ,este he o mestre alegado1 acreditado1 e seguido4 ,seja embora condemnado1 e proscripto pelos ,magistrados civs1 he mestre ,ipse dixit4 ,pde haver maior incoherencia2 maior injustia1 que lanar-nos em rosto a ns o ipse dixit de huma ,authoridade ,soberana1 sustentada com tanta evidencia1 e conservar para si1 e querer que valha o ipse dixit vacilante1 e humano1 e pronunciado por homens sem costumes1 sem leis1 sem patria1 sem outra authoridade mais que a dos atavios ridiculos da ,confraria das trvas1 e dos subterraneos8 ,destruamos finalmente o ultimo sofisma destas almas malevolas1 ou dissolvamos o ultimo lao de huma fraudolenta equivocao com que pertendem tapar os olhos aos simplices4 ,ns acreditamos os ,mysterios1 he verdade3 a respeito dos ,mysterios acreditados1 tudo nos ,christos he crer1 mas a respeito dos motivos de acreditar1 tudo em os ,christos he vr4 ,tudo he crer1 a respeito dos ,mysterios1 porque estes sendo remotos dos sentidos1 e superiores razo humana1 s podem ser objectos da crena3 mas tudo he vr a respeito dos motivos da crena1 porque as provas da revelao destes ,mysterios so tantas1 e to irresistiveis1 que o espirito mais pertinaz no pde exigir outras maiores1 e renovando outra vez a confrontao entre ns1 e os incredulos1 digo1 que em ns1 tudo he crer com summa razo aquillo que devemos crer1 e nelles tudo he negar1 sem razo alguma de negar1 e com todas as razes de crer4 ,se destes principios innegaveis1 sobre materias de ,religio1 eu deso a analysar o uso da razo que os mysteriosos1 e tenebrosos fazem sobre materias de moral1 e de politica1 eu os descubro igualmente monstruosos1 e inconsequentes4 ,assim como a incredulidade os conduz voluntariamente sua eterna perdio1 a mesma incredulidade os conduz sua desgraa temporal4 ,todos os homens desejo efficacissimamente a sua ventura moral1 e a sua ventura politica1 como individuos unidos em sociedade1 e diz-se que hum homem faz bom uso de sua natural razo1 quando escolhe1 e emprega os meios mais aptos1 e porporcionados para aquelle fim4 ,e ser fazer bom uso da razo para ser feliz na ordem moral1 no conhecer differena alguma entre o justo1 e o injusto6 ,no se embaraar com a qualidade dos meios1 com tanto que se consiga o fim8 ,julgar licito1 matar1 roubar1 calumniar1 ou denegrir o seu similhante1 para se avanar pelos caminhos da ambio6 ,julgar licito o furto com tanto que se empregue a maior fora1 e affirmar1 como eu ouvi a hum1 que a passagem violenta do dominio de quaisquer cousa de humas mos para outras mos no he delicto1 porque a objecto arrancado no muda de essencia na sua passagem1 e no ha mais que a differena de seu possuidor1 e que nunca pde neste caso haver perturbaco na sociedade1 porque o direito da propriedade1 he quimerico1 e se existe1 he s fundado na maior fora1 e que por isto 7continuava elle7 ero licitas1 e justas as conquistas1 e usurpaes de hum monstro8 ,ser fazer hum bom uso da razo natural1 no julgar o adulterio hum crime1 mas hum simples galanteio1 e s estranhado pelo ,gotico1 brusco1 anti-social1 e preocupado8 ,e com que descaramento1 e impudencia nos diz hum monstro to desmoralizado como este1 que emprega a sua vida na indagao da verdade1 e que no tem outro intento mais que reformar1 e regenerar o ,mundo6 ,e no vemos ns espalhados estes atrocissimos principios pelos escritos da escola encyclopedista1 e no malvado ,livro que se chama--,os ,costumes8--,e a marcha da ,revoluo1 no foi coherente a estes principios8 ,as aces de que somos testemunhas no so ,corolarios destes infernaes theoremas de ,helvecio6 ,ora ainda antes que falle no uso da razo que fazem os crentes1 pelo que pertence moral1 no se envergonharo1 e no se confundiro estes malevolos espiritos1 em quem no cabe a sabedoria1 se eu lhes disser que os mesmos ,filosofos ,pagos1 que inquirro1 e anciosamente buscro o caminho da felicidade moral1 fizeram melhor uso da sua razo constituindo a suprema ventura na pratica da virtude1 e chamando virtude s quillo que era conforme ao puro dictame da ,natureza8 ,leio1 e envergonhem-se1 os principios de ,socrates1 quando se introduz em algum dos ,dialogos de ,plato1 e os axiomas1 e sentenas d'outros ,filosofos que religiosamente nos guardro ,plutarcho1 e ,diogenes ,laercio4 ,leio1 se a tanto se atrevem1 os escritos immortaes1 e admiraveis de hum ,marco ,tulio1 e fixem-se ao menos no sonho de ,scipio1 no ,tratado das ,obrigaes ,civs1 e nas eloquentissimas dissertaes sobre os verdadeiros bens1 e os verdadeiros males4 ,leio as engenhosas1 e eloquentes paginas de ,seneca3 os profundos pensamentos de ,epiteto1 e os ,tratados sublimes do ,filosofo ,imperante ,marco ,aurelio4 ,oh desgraa digna de lagrimas de sangue6 ,que ho de lr estes detestaveis monstros1 cuja liberdade de pensar1 de que to cgamente se ufano1 voluntariamente se encadeia1 e no tem outro uso livre1 mais que a diversa modificao que lhe d o discurso do ,veneravel1 que elles escuto com a face cosida com a terra1 e com as encruzadas mos acobertadas de sanguinarias luvas4 ,lancem-se os olhos para os actuaes resultados da ,revoluo1 veremos quem faz melhor uso da razo na ordem moral1 para a felicidade4 ,e se eu contemplar os verdadeiros ,christos nesta mesma ordem moral8 ,bastar abrir o ,evangelho1 bastar demorar hum pouco a vista sobre a conducta dos primeiros fieis1 sobre os escritos adoraveis dos primeiros ,mestres do ,christianismo4 ,dizei-me1 he fazer mo uso da razo natural1 assustar-se1 no s com o crime1 mas at com a ida1 e pensamento do mesmo crime8 ,ser fazer mo uso da razo natural buscar a ventura1 e tranquillidade da vida moral s pelo emprego1 e pelo exercicio da virtude8 ,ser superior inquieta1 e turbulenta ambiao1 desasocegada1 e desconfiada avareza1 ao srdido1 e vil interesse1 deslumbrada soberba1 ao srdido1 e vil interesse da gloria popular1 e finalmente1 vergonhosa incontinencia8 ,ser fazer mo uso da razo natural1 abraar os dictames da temperana1 fugir da glotonaria1 ser moderado1 paciente1 humano1 compasivo1 sensivel1 generoso8 ,ser fazer mo uso da razo natural1 chegar com isso1 que tanto assoalhais1 e no tendes1 e a que chamais filantropia1 a hum to subido gro de heroismo1 que se amem1 no s os homens em geral1 como similhantes mas at os mesmos inimigos1 porque so homens8 ,ser fazer mo uso da razo natural vencer os movimentos tumultuosos da ira1 e soffocar os internos brados de todas as paixes1 apenas se fazem escutar nos corao do homem8 ,confrontesse a conducta aos verdadeiros ,christos1 que no bero da ,religio revelada apparecro no meio do ,imperio da corrupo1 e dos vicios com a conducta destes illuminados1 que rejeito1 e desconhecem o foro interno da consciencia1 e que no admittem para regra das aces humanas1 mais do que o temor dos castigos temporaes1 ou a esperana das recompensas terrenas1 e ento se conhecer quem haja feito melhor uso da razo natural4 ,elles no querem conhecer seno delictos externos1 e publicos1 ns conhecemos alm destes mesmos delictos1 peccados1 e reconhecemos at crime aquillo mesmo que no foi mais que lembrado1 ou imaginado4 ,moral verdadeiramente pura1 cuja sublime evidencia arrancou da boca do ,sofista de ,genebra aquelle admiravel elogio que elle faz ao ,evangelho4 ,tanto pde a ,verdade6 ,a malicia1 e a impiedade1 nunca podero contrastar sua victoriosa fora6 ,e poder ainda dizer a impudencia1 que ns os fieis no fazemos bom uso da nossa razo1 quando buscamos a felicidade em a ordem moral8 ,se eu quero dilatar1 e espraiar o pensamento pela ordem politica1 e social em que os homens existem1 ainda se torna mais patente a desgraada condio da incredulidade1 que ousa taxar-nos de irracionaes1 e at mentecaptos4 ,veja o ,mundo espantado1 vejo os homens todos assombrados com o medonho quadro que lhe offerece a consternada ,europa depois que rebentou o ,volco revolucionario1 se he fazer bom uso da razo natural1 ter preparado com sofisticas idas de igualdade1 e de liberdade o caos em que se afundro todas as ,jerarquias1 todas as ,classes1 todas as ,instituies1 todas as ,leis1 que o pezo dos ,seculos1 e a vontade unanime1 e universal dos homens havio sanccionado8 ,he fazer bom uso da razo perturbar de tal maneira a sociedade1 a titulo de lhe buscar em hum novo estado1 e em huma nova ordem de cousas huma prometida1 mas fantastica felicidade8 ,que procedimento to chegado razo1 soltarem-se sanguinarios ,tigres1 e levados do instincto1 ou da fora de nunca vista ferocidade1 derramarem rios de sangue1 no s pela terra que os vio nascer1 mas quasi por todo o globo atonito novidade de scenas to barbaras1 e to atrozes1 vendo que ellas foro preparadas1 conduzias1 e executadas por aquelle mesmo ,filosofismo orgulhoso1 que se dizia regenerador do ,mundo1 e salvador da razo aviltada1 e abatida aos ps do ,fanatismo1 e da ,suprestio6 ,he fazer bom uso da razo natural1 preparar a assinte sobre as ruinas de ,thronos1 e sobre reliquias de ,naes esmagadas1 o ,throno1 ou as bases para se levantar o ,colosso do mais atroz1 e escandaloso ,despotismo que vio o ,mundo em os annaes da ,tyrania6 ,o que os nossos mesmos olhos esto vendo1 e o que ns to desgraadamente temos sentido no exige mais prvas1 e demonstraes2 as lagrimas que temos derramado1 o sangue que temos vertido1 os males pezadissimos que temos suportado1 mostro bem a que ponto de melhoramento chegra o ,mundo politico pelos esforos dos livres pensadores que tanto exalto1 e apregoo o bom uso da sua razo1 e tanto taxo o nosso procedimento de hum rematado desvario4 ,e podereis dizer1 malevolos1 e publicos perturbadores da paz1 e do socego das ,naes1 que o verdadeiro fiel faz mo uso da sua razo1 em quanto permanece tranquillo naquella situao em que o constutuio a ,providencia1 sugeito como lhe manda a ,religio s ,potestades dominantes1 sem murmurar1 sem innovar1 sem rebelar1 reconhecendo na suprema ,jerarquia a authoridade emanada de ,deos4 ,quando se vro1 oh ,ceos6 ,com que pejo o digo6 ,quando se vro em ,portugal tantos prfidos1 tantos traidores votados j execrao1 e indignao publica1 pelas decises de rectissimas ,sentenas8 ,no ,seculo do illuminismo1 em que se diz se levantra o bom uso da razo sobre o abatido fantasma de velhas preoccupaes4 ,e he fazer bom uso da razo natural1 conjurar contra a propria ,patria1 contra a propria ,nao1 querer lanar-lhe ao colo os ferros de hum ,tyranno1 despoja-la de sua gloria1 soberania1 independencia1 representao1 e grandeza8 ,ser fazer bom uso da razo natural attrahir sobre a propria cabea os males que preparavo aos outros8 ,ser fazer bom uso da razo natural sacrificar a hum monstro que permanece em huma absoluta ignorancia da sua existencia1 a reputao1 a liberdade1 o estabelecimento1 e a ternissima posse daquella ,patria1 e daquelle ,reino que lhes deo o bero8 ,confronte-se o uso da razo que fazem estes profundos pensadores1 com o uso da razo que faz o honesto ,cidado1 ainda que seja o mais ignorante1 e idiota1 e conhecer-se-ha com evidencia de que parte esteja a vantagem4 ,mas he to grande1 e to profunda a cegueira1 ou a pertinacia destes monstros1 que nenhuma razo os convence1 porque huma alma malevola no d entrada verdadeira sabedoria4 ,fieis1 fechai os ouvidos aos enganadores discursos dos impios1 debaixo de sua lingoa existe o veneno dos spides1 elles erro1 e erraro sempre1 erraverunt ab utero1 locuti sunt falsa4 ,fugi do precipicio a que vos conduz sua revoltosa doutrina4 ,sabei que no querem ,throno1 no querem ,altar1 no querem ,leis4 ,segui as maximas celestiaes da ,religio1 cujas luminosas provas longe de aviltarem a razo1 a enobrecem1 a purifico1 a exalto1 e fazendo o verdadeiro homem de bem na terra1 em quanto o torno virtuoso1 nos asseguro1 e affiano huma eterna ,bemaventurana4 ,disse4