,,alberto ,,pimentel ,,entre ,o ,,caff ,e ,o ,,cognac ,,porto ,,imprensa ,,portugueza ,rua do ,bomjardim1 #aea #ahgc 99 99 99 99 99 ,,entre ,o ,,caff ,e ,o ,,cognac 99 99 99 99 99 ,,alberto ,,pimentel ,,entre ,o ,,caff ,e ,o ,,cognac ,,porto ,,imprensa ,,portugueza ,rua do ,bomjardim1 #aea #ahgc 99 99 99 99 99 ,ao seu presado amigo ,manuel ,lopes ,martins ,offerece ,o author4 99 99 99 99 99 ,obrigado a dar folhetim original aos domingos no ,primeiro de ,janeiro1 era s sextas feiras1 entre o caff e o cognac1 que eu1 reclinado no espaldar da poltrona1 procurava assumpto4 ,este livro1 em que se grupa a maior parte dos folhetins de sete mezes1 foi pois meditado entre o caff e o cognac4 ,fica explicado o titulo4 99 99 99 99 99 ,o ,,gabinete ,,de ,,camillo ,eu j citei algures estas palavras de ,alexandre ,dumas pae3 ,ha sempre nos moveis que vos cercam alguma cousa de vs mesmos4#a ,to profunda verdade1 se carecesse de demonstrao1 encontral-a-ia no gabinete de ,camillo ,castello ,branco4 aquelle um templo consagrado unicamente ,arte4 ,alli tem altar a pintura1 a archeologia1 a historia natural1 e a litteratura4 ,presente-se que se est no gabinete d'um grande romancista porque se adivinha a historia de cada quadro1 a novella de cada movel1 a epopa do tinteiro de metal amarello d'onde ha pouco mais de vinte annos tem nascido para gloria das letras portuguezas cerca de cem livros4 ,tudo alli falla4 ,ha idillios de saudade suavissima a murmurar ao de cima dos silenciosos companheiros da mocidade2 ha marcos milliarios que rememoram successivas phases da vida do escriptor4 ,os verdadeiros amigos de ,camillo so aquelles4 ,s elles guardam o segredo de intimas commoes1 que parecem vibrar ainda em novellas escriptas ha doze annos1 e que primeiro lhe arrancaram lagrimas a elle do que a ns4 ,o talento de ,camillo nosso3 estamos ha longo tempo familiarisados com elle2 tanto o estimamos1 que o vamos procurar mal que se annuncia um livro novo4 ,ns lemos o livro j enroupado em galas de estremada linguagem2 mas o seu gabinete l o esboo da novella tal como lhe sahiu do corao4 ,ns vemos a estatua2 o seu gabinete v ,pigmalio4 ,quando as lagrimas nos chegam a ns j as sentimos dulcificadas pela amenidade da phrase4 ,no as vemos2 conhecemos-lhes apenas os vestigios4 ,mas o seu gabinete viu-as4 ,o mesmo pelo que respeita a personagens4 ,ns conhecemos o retrato2 o gabinete conheceu o modelo4 ,camillo tem feito a historia de muito homem2 s o seu gabinete poderia fazer a historia de ,camillo4 ,ns temos o romancista2 o gabinete tem o homem4 ,ainda mais4 ,se os moveis quizessem fallar1 revelariam o romance de muito escriptor portuguez1 que elles tm conhecido e ouvido em intimas praticas1 ora contando os seus desalentos1 as suas maguas1 os seus queixumes1 ora arroubando-se em enganosos sonhos1 em esperanas quasi sempre mentidas1 em aspiraes poucas vezes realisadas444 ,todavia o leitor denuncia-se impaciente de entrar ao gabinete de ,camillo4 ,entremos pois4 ,corrido um reposteiro1 estamos n'uma alegre e clara sala -rez-de-chausse4 ,logo nos fascina o pittoresco do ensemble4 ,no o gabinete de ,lucullo2 o escriptorio d',horacio4 ,no ha iriados reflexos de crystaes e marmores4 ,encontramos apenas o atelier do artista4 ,dizem para a rua duas largas janellas2 transparentes amarellos modificam a claridade exterior4 ,no desvo da janella da direita casa-se com o angulo da parede uma pequena mesa triangular coberta de panno amarello2 o desvo da janella da esquerda occupado por uma gaiola1 priso d'um viuva1 ave cujo nome procede de se vestir de negro duas vezes ao anno4 a viuva o primeiro cuidado de ,camillo quando entra ao seu escriptorio2 vae vel-a1 fallar-lhe1 examinar se lhe faltam as regalias indispensaveis para tornar suave a carceragem4 parede interposta s duas janellas fica encostado o fogo sempre chammejante de intenso brasido2 sobranceiras ao fogo pendem uma gravura representando ,lacordaire1 e um quadro com o retrato de ,vieira de ,castro4 ,visinha do fogo est a priguiceira de palha1 onde o romancista1 ora com os ps no fender1 ora resguardados no couvre-pied de feltro1 procura repousar-se para o trabalho1 intercortado de pequenas pausas1 lendo os jornaes do dia e atiando o fogo4 ,entre a janella da direita e a porta1 encimada por um quadro a oleo que representa as armas da casa de ,cadaval1 ha uma banca com tinteiro de prata e uma cesta de palha cogullada de cartes de visita1 que a meu vr so o verdadeiro bosquejo historico da litteratura portugueza4 ,o erudicto padre ,cardoso1 se tivesse conhecimento d'esta cesta1 poderia augmentar consideravelmente a sua synopse com os nomes de notabilissimos escriptores portuguezes desde ,garrett a esta parte4 ,este lano de parede est adornado com os retratos da familia de ,camillo e com um quadro a oleo reputado de ,murillo por pessoas sobremodo competentes em assumptos de pintura4 ,na continuao d'esta parede encontramos uma etagre de pau preto com romances francezes e inglezes2 sobrepostos etagre os retratos da familia ,ouguella1 uma paisagem ingleza a oleo1 o collar da academia real das sciencias que pertencera a ,vieira de ,castro1 e uma valiosa placa de prata que apresenta em relevo a imagem de ,santo ,antonio4 ,segue-se uma mesa sustentando uma estantesinha entre cujos livros notaremos as obras de ,filinto ,elysio2 sobre a estantesinha ha um relogio2 superior um quadro anonymo a oleo1 figurando o ,eden2 aos lados duas gravuras francezas1 uma assignada por ,desjardins--,l'aprs dine--1 outra assignada por ,paul ,girardin--,la ,benediction paternelle1 e a photographia de ,jos ,barbosa e ,silva1 deputado que foi da nao1 e auctor do romance ,viver para soffrer4 ,avultam no angulo duas etagres com livros e bustos4 ,cobrem a parede do fundo duas estantes envidraadas1 sobranceadas por quadros a oleo1 bustos de escriptores estrangeiros1 rumas de livros1 e pela caixa que guarda o chapo do uniforme de socio da academia pertencente a ,vieira de ,castro4 ,encostada parede fronteira porta d'entrada ha uma estante1 e pendentes varias gravuras1 retratos1 e pinturas4 ,uma das gravuras assignada por ,granville representa o lance do ,medecin malgr lui em que ,sganarelle diz a ,gronte3 ,voil justement ce qui fait que votre fille est muette2 ha ainda duas gravuras1 copias de ,horacio ,vernet1 denominadas ,le dernier morceau de pain e ,le dernier ami1 que o romancista possue desde os vinte annos4 ,resaltam tambem d'este panno dois quadros a oleo1 um relogio de parede1 uma copia da ,virgem da ,cadeira1 o espadim de ,vieira de ,castro1 e os retratos de ,thomaz ,ribeiro1 ,vieira de ,castro1 ,jos ,julio d',oliveira ,pinto1 ,francisco ,martins1 e morgado de ,pereira1 actualmente em ,africa1 senhor da honra e solar de ,esmeriz1 antigo solar dos ,pereira ,forjazes1 de ,riba d',ave4 ,por estes sinceros amigos d'outros tempos1 ,vieira de ,castro1 ,jos ,barbosa e ,silva1 ,jos ,julio d',oliveira ,pinto1 hoje cadaveres1 sente ainda o corao de ,camillo pungentissima saudade4 ,no ha ahi encontrar memoria mais tenaz em recordar desgraas alheias1 e alma mais devotada a carpir as angustias d'esses notaveis homens que pereceram deixando immoredouro nome historia portugueza mais deslembrada do que elles valiam do que o amigo que os prantea ainda no remano meditativo do seu gabinete4 ,em seguida estante deparamos uma jardineira com candeeiro1 albuns1 e uma urna de prata offerecida pelos portuguezes de ,hongkong1 como consta da inscripo gravada na mesma urna3 ,,ao ,,ill4mo ,e ,,ex4mo ,,snr4 ,,camillo ,,castello ,,branco ,o4 ,,os ,,socios ,,da ,,bibliotheca ,,portugueza ,,de ,,hongkong #ahfi4 ,immediatamente jardineira ficam o soph e as poltronas d'estofo vermelho com ramagens cinzentas4 ,as demais cadeiras so de pau preto com molduras douradas4 ,entre o soph e a janella da esquerda est collocado um contador sobre o qual assentam rumas de livros e outro candeeiro4 ,resta-nos fallar d'uma estante de musica1 que serve de banca a ,camillo1 quando por incommodo de saude no pde lr sentado1 para chegarmos mesa onde habitualmente escreve1 posta esquerda da porta d'entrada4 ,so unicos adornos da sua banca um tinteiro circular de metal amarello1 um cinzeiro de loia1 uma cabea de metal onde archiva as cartas recentemente recebidas1 livros depositados a um e outro lado1 e tiras de papel que ,camillo ,castello ,branco infatigavelmente enche todos os dias4 ,da banca para o fogo facilmente se deslisa ao longo do tapete que cobre todo o pavimento4 ,sigamos este breve trajecto para nos repotrearmos na priguiceira de palha em que provavelmente se reclinou o imperador do ,brasil1 que ,camillo ,castello ,branco presenteou com um quadro dos reis de ,portugal at ,d4 ,joo ,,iv4 ,relanceemos ainda um olhar a este mudo conjuncto de coisas inanimadas que o romancista estima como partes integrantes de sua familia4 ,parece-nos porm ouvir passos no corredor4 decerto ,camillo que vem retomar o seu posto de todos os dias4 ,soou a hora de trabalhar4 ,antes de sentar-se1 festejar a ave da gaiola1 aquecer ao fogo as mos enregeladas1 e abancar depois para escrever um dos ultimos capitulos do romance ,herana de ,londres ou para traduzir primorosamente algumas paginas do ,diccionario de educao1 de ,campagne4 ,antes que o artista entre ao seu atelier e retome a penna que descana sobre o tinteiro desde o alvorecer da manh1 saiamos ns1 os que no temos direito a surprehender o escriptor na doce quietao da sua vida intima4 ,entre o romancista que est escrevendo a novella cujo entrecho ser amanh conhecido das classes menos abastadas da sociedade portugueza e das mais remotas provincias1 interpe-se hoje o reposteiro que separa o escriptor do homem4 99 99 99 99 99 ,o ,,primeiro ,,de ,,janeiro ,o ,primeiro de ,janeiro como os viajantes que teem de partir ao romper da manh3 passa a noite a fazer a mala4 ,quem vae de jornada prepara-se para todas as eventualidades3 mette ao sacco seis lenos supranumerarios para uma constipao2 a casaca para uma soire inesperada2 um frasco d'agua sedativa para uma nevralgia2 dois livros para uma hora d'aborrecimento2 os sapatos de borracha para um dia de chuva4 ,ainda como o touriste1 o ,primeiro de ,janeiro dispe-se a poder satisfazer todas as reclamaes que o assaltem no caminho3 para os impacientes leva na mala os telegrammas1 para os negociantes as cotaes1 para os politicos o artigo1 para os ociosos o folhetim1 para os alviareiros as noticias1 para os interessados os annuncios1 e para as senhoras as modas4 ,os passageiros vo sentados no vehiculo2 elle vae a correr pelo caminho4 ,quando o comboyo parte1 apparece-lhes nas ,devesas2 quando chega a ,aveiro1 encontram-no na estao2 quando passa em ,coimbra1 o ,primeiro de ,janeiro salta aos vages e diz aos viajantes engalfinhando-se na portinhola3 ,aqui estou6 ,que prodigio de ubiquidade este8 ,como que o jornal chega primeiro que o homem6 ,ah6 porque o homem o barro1 e pesa1 e o jornal o pensamento1 e va4 ,nasceu da faisca electrica e do vapor2 irmo gemeo da locomotiva4 ,o comboyo leva o homem2 o jornal o pensamento4 ,o motor d'um a machina2 o do outro o espirito humano4 ,so os passaros da civilisao1 as aguias do progresso4 ,por isso ,arsenio ,houssaye disse3 ,o jornal a ave errante que atravessa o mundo3 prendei-lhe a vossa ideia asa1 e a vossa ideia florir nos mais remotos desertos4 ,nada ha menos complicado que o jornal e mais complexo que elle3 a sociedade1 a raa1 a civilisao e o seculo4 o thermometro que mostra o grau da vitalidade popular1 a lente que reproduz a lucta das geraes1 o melhor historiador e a melhor historia4 ,poderemos chamar ao ,genesis o jornal da creao do mundo1 o que nos leva a crr que esta manifestao do pensamento publico no data unicamente dos tempos de ,guttemberg1 mas vae pelas idades a dentro procurar origem no fiat creador que deu frma e movimento ao nada4 medida que a intelligencia do homem ia profundando a sonda n'este mar de bellezas infinitas que o verbo creador espraiou entre as balisas do universo1 e se foram arando os mares1 e desbravando as florestas1 e povoando cidades e consolidando imperios1 a vida das naes tomou um incremento que se no poderia registar em longas chronicas1 como os commettimentos da antiguidade1 seno que dia a dia1 hora a hora1 momento a momento4 ,a personalidade moral do homem dilatou-se e1 na impossibilidade material de estar em toda a parte1 diffundiu o seu pensamento em particulas que voaram aos grandes centros attrahidas pela gravitao que regula a harmonia das sociedades4 ,ento o jornal renasceu de si mesmo1 multiplicou-se1 e comeou a collaborao universal dos povos beira da prensa d'onde todos os dias parte o mensageiro alado a sacudir da plumagem as ideias que o homem lhe prendeu4 o correio do mundo1 o postilho dos seculos2 anda sempre e no cana4 ,cada gerao tem o seu temperamento collectivo1 as suas paixes1 as suas luctas1 os seus revezes e os seus triumphos4 ,o jornal1 que tudo isso1 ir resuscitando amanh do tumulo que se fechou hontem1 e acompanhar o movimento febril das geraes que se succedem4 ,o que viajar mais depressa1 ser sempre o mais querido4 ,espera-o a officina e o albergue com a impaciencia de quem sabe a hora a que deve chegar um mensageiro4 ,a velocidade indispensavel1 mas ainda no tudo4 preciso que o jornal no seja egoista1 no roube ao operario o po do corpo para lhe dar o po do espirito1 que no esbulhe as creanas do patrimonio que o salario do pae vae dilatando cada dia4 ,urge pois que o jornal tenha azas para chegar depressa1 e que reuna velocidade a modicidade para sustentar equilibrio entre a receita intellectual1 que o jornal representa1 e a receita economica1 que o trabalho produz4 ,o ,primeiro de ,janeiro reune estas duas condies maximas1 que se completam pela sanidade da doutrina1 e mais d'uma vez tem nas primeiras horas do dia entrado ao albergue e fabrica firmado pelos primeiros escriptores do paiz4 ,realisa o desideratum que em #ahdh intensamente preoccupava o espirito de ,alphonse ,karr3 ,eu publicava ento em ,paris--diz o author das ,tresentas paginas--um jornal a #aj reis1 no qual collaboravam os nomes mais celebres e mais festejados4 ,queriamos vr se as classes populares preferiam--como pensam alguns--o vinho tinto das barreiras ao ,chteau-,laffitte e ao ,rheno2--queriamos fazer a experiencia e dar-lhes o ,chteau-,laffitte e o vinho do ,rheno pelo preo do vinho d',argenteuil4 ,por dez reis--o preo das mais grotescas e das mais odiosas especulaes--fazer vender um jornal bem impresso1 em bom papel1 com artigos dos mestres da litteratura4 ,o ,primeiro de ,janeiro entrou abroquellado no certamen4 ,quiz vr se o povo preferia o vinho da ,bairrada ao vinho do ,porto1 e conheceu que era essa uma calumnia de pessimistas aristocratas4 ,o povo lia a ,formosa ,mangalona e o ,vicente marujo porque lhe no facultavam um jornal que simultaneamente lhe ensinasse as evolues do mundo physico e do mundo moral1 no porque o jornal tivesse a preteno de resumir em si a sciencia universal1 mas porque da natureza mesma dos assumptos do dia derivavam os conhecimentos que o jornal espalhava4 ,trabalhou para lhe dar o vinho do ,porto pelo vinho da ,bairrada1 e provou que a inanidade das classes baixas provinha do abuso da zorrapa com que dessedentavam o espirito diante da litteratura de cordel e cego andante4 ,luctou1 batalhou1 e conseguiu dar ao povo1 por dez reis1 um almoo de politica e litteratura1--o romance das naes e o romance dos homens4 ,alphonse ,karr1 quando estava empenhado em to santa crusada1 devotou-se inteiramente a ella2 no visitava o seu jardim de ,sainte ,adresse2 esqueceu as flores e o mar4 ,o ,primeiro de ,janeiro vive igualmente para o povo4 ,emquanto o povo dorme1 vae o prelo imprimindo a ideia que pela manh ha de saltar na rua4 ,enxameiam porta os gavroches como soldadesca impaciente de dar batalha4 ,esperam o almejado momento de transpr o limiar4 ,e no phrenesi do desespero saracoteam e gritam3 --,abram6 --,so horas6 --,j tarde6 ,sentem ranger os gonzos4 ,apinha-se a multido em vaga encapellada1 e entra de tropel4 ,os empregados da machina dobram os jornaes4 ,o distribuidor est de p4 ,c'o a mo no junco1 irado e no facundo1 ,ameaando a terra1 o mar e o mundo4 --,que leva hoje8 --,a novidade8 --,diga1 diga6 o cro dos gavroches que pedem anciosamente o prego4 ,o distribuidor tem lido previamente o jornal4 ,faz signal de silencio e vota falla3 --,foi o raio que matou um homem4 ,calam-se1 conticuere omnes1 a fixar na memoria o prego4 ,o receio de se esquecerem faz com que realmente se esqueam4 ,l pergunta um3 -- o homem que matou o raio8 --,toleiro6 ,foi o raio que matou o homem4 ,so-lhes distribuidos os jornaes2 os gavroches rugem de impaciencia4 ,para que no haja rivalidades1 saem todos ao mesmo tempo4 um furaco que passa4 ,que sejam mancos ou no1 pouco importa4 ,n'aquelle momento todos teem azas444 nos ps1 como ,mercurio4 ,estala a multido na rua similhante a bombarda4 a noticia1 o telegramma1 o romance1 a politica que sapatea no solo4 ,comea a vida no exterior4 ,sau o sol4 ,e o operario antes de trabalhar para o patro trabalha para si1--vae lr4 ,o que feito do ,moienes1 do ,morte-scaloia1 do ,pintasilgo1 do ,pau-preto1 do ,cacarac8 ,desappareceram4 ,demoram-se apenas um segundo para entregar o jornal e receber o dinheiro4 ,resta unicamente o ,jos ,custodio1 o melhor typo da colleco1 sentado no passeio1 repousando a perna manca1 a lr o jornal atravez da sua famosa luneta4 um grande egoista o ,jos ,custodio4 ,antes de dar aos outros1 quer para si4 ,e depois fia-se no seu talento comico1 e sabe1 dando ouvidos ao orgulho1 que os outros no vo mais depressa por ir primeiro4 ,basta-lhe apregoar para vender4 ,esto agrupados os pedreiros a almoar4 ,o ,jos ,custodio vae mancando e gritando3 --,licena que veio do governo para os cdeas usar bigode6 ,o sapateiro1 quando elle passa gritando1 berra de dentro4 ,o ,jos ,custodio esbofa-se a apregoar3 -- a morte d'um sapateiro que morreu entalado com um pino6 ,o ,jos ,custodio o epigramma1 a satyra1 a mordacidade vibrante4 ,por onde elle passa1 incendeia o rastilho da curiosidade4 ,at certo ponto1 encontrou um rival no ,jeronymo1 que tinha d'engenhoso quanto o ,jos ,custodio tem de mordaz4 ,eram os pimpes do rancho2 reinadios como nenhum6 ,o ,jeronymo affeioou-se a um co1 ou o co se lhe affeioou a elle4 ,comprou um carro de pau1 que o fiel mollosso tirava1 e onde levava o jornal2 a ideia do vehiculo suscitou-lhe a tentao de negociar em larga escala4 ,comeou a vender por sua conta folhetos e repertorios4 ,era um andar que luzia6 ,um dia aborreceu-se de ser feliz e desertou3 o co desertou com elle4 ,mas que imaginoso homem o ,jeronymo6 ,no tempo da guerra franco-allem arranjou tres canas com encaixes de folha4 ,a ultima tinha no topo uma campainha1 um gancho e um saquitel que se moviam por correia4 ,sahia de noite o supplemento4 ,batia com a cana na vidraa1 a campainha tocava1 no gancho ia o supplemento1 o freguez abria a janella1 e o ,jeronymo descia o saquitel que trazia dentro dez reis4 ,vejam que talento este6 prodigio6 ,um cego muito conhecido1 que ainda no encontrou co fiel e precisa de ganhar a vida1 assalariou um rapasinho que o conduz4 ,o cego apregoa1 e o rapasinho recebe o dinheiro para vr se falso4 ,e assim que o jornal1 que espalha a ideia1 ampara a cegueira d'uns1 a vida d'outros1 e a pobresa de todos4 ,ol6 ,so elles1 os gavroches1 que pedem o jornal d'hoje4 ,espera-se unicamente pelo folhetim4 ,pois bem1 o folhetim ahi vae4 99 99 99 99 99 ,a ,,aguia ,d',,ouro ,o ,,que ,,foi ,e ,o ,,que ,o dia #ab d'outubro de #ahcc era de festa para todo o ,porto1 cidade que vae sempre na vanguarda das iniciativas patrioticas4 ,celebrava-se o anniversario natalicio de sua magestade imperial o senhor ,d4 ,pedro de ,alcantara1 duque de ,bragana1 e regente do reino4 ,ao amanhecer1 ao meio dia e noite salvaram as baterias das linhas de defeza ao norte e ao sul do ,douro4 ,o general ,stubbs1 commandante do exercito do norte1 passou revista s tropas estacionadas em seus acantonamentos nas linhas4 ,estiveram embandeiradas algumas ruas da cidade e estoirou durante o dia muito fogo do ar4 ,tanto que foi noite1 houve illuminao geral1 e abriram-se de par em par as portas do theatro de ,s4 ,joo onde a sociedade dos actores nacionaes1 em commemorao de to faustoso dia1 representara um elogio dramatico denominado ,gloria de ,lisia1 terminado o qual elogio o governador das ,armas da ,provincia levantou vivas familia real4 ,a ,chronica constitucional do ,porto1 unico jornal que a esse tempo era lido de portuenses1 escrevendo do espectaculo diz que diversas obras ,poeticas1 e ,hymnos encheram os intervallos do ,drama que foi scena4 ,o snr4 ,joo ,nogueira ,gandra1 proprietario da typographia onde se imprimia a ,chronica1 publicou ao depois em opusculo todos os sonetos que se recitaram n'essa noite e na seguinte1 em que o espectaculo se repetiu4 ,n'aquelles tempos com tal impetuosidade repuxava o patriotismo poetico do imo peito1 que no bastavam as breves horas d'uma noite a dar-lhe vaso4 ,os vates incendidos em amor da patria ficavam com o metro reservado para a noite seguinte1 como hoje os nossos parlamentares ficam com a palavra reservada para a sesso immediata4 ,deixemos porm as bellesas de #ahcc estadeando seus dotes naturaes nos camarotes do theatro de ,s4 ,joo1 enviesando olhares mais amorosos que patrioticos aos cysnes que punham fra da balaustrada o pescoo1 cujos musculos se avolumavam apopleticamente quando a onda do estro refervia nos gorgomilos enfartados4 ,onde iremos ns levar a nossa mysanthropia1 fugindo o congresso do que mais selecto havia em ambos os sexos na sociedade portuense8 ,mais selecto no podemos dizer1 porque faltavam muitas pessoas da melhor roda contemporanea1 entre as quaes bardos que hoje se diriam satanicos1 e que antepunham o contacto das garrafas contemplao de mulheres formosas4 ,esses taes leram na vespera o seguinte annuncio inserto na ,chronica constitucional do ,porto3 ,amanh sabbado #ab do corrente1 se abre o novo ,caff do ,commercio na rua nova dos ,inglezes aonde se encontraro diversidades de ,vinhos e ,licores engarrafados1 ,nacionaes e ,estrangeiros4 ,a novidade do acontecimento e a perspectiva de lauto beberete devia de attrahir numerosa concorrencia ao ,caff do ,commercio1 que pela primeira vez se abria n'essa noite na casa onde actualmente est o escriptorio da companhia de seguros ,garantia4 ,em conformidade com a opulencia botiquineira d'esse tempo1 o novo ,caff do ,commercio tinha cortinas de chita e mostrava sobre o balco uma longa fila de copos1 voltado para cima o fundo1 que servia de base a um limo4 ,como ainda ento no estivessem arruinados pela dyspepsia os estomagos nacionaes1 e houvesse portuguezes que bebiam um quartilho de geropiga com o simples condimento d'uma azeitona1 eram minguadas as docerias nos botiquins e ordinariamente limitavam-se a melindres e bichinhas4 ,quando porm os negociantes da baixa se sentiam enfraquecidos hora do lunch ou da merenda1 no se repletavam com assucarices de nenhuma substancia4 ,o petisco mais em voga eram ostras que vinham de ,lisboa j cosinhadas no unico vapor de carreira que ento havia1 e que se comiam no novo ,caff do ,commercio1 a #fj rs4 cada uma4 ,calcule-se do consumo dos liquidos n'aquelle estabelecimento to prosperamente aberto1 depois de saber-se que os mais appetecidos e procurados comestiveis eram ostras1 mollusco sobremodo irritante para o systema nervoso1 e talvez causa primaria da depreciao da gerao actual4 ,mas voltemos abertura do novo ,caff solemnisada na rua dos ,inglezes com vistosa illuminao que sobrelevava as demais4 ,apollo presidiu em espirito bacchica tunantada4 ,os vates empunharam as lyras e1 por muito costumados dedilhao1 at das bambas cordas tiraram muito correctos sonetos1 mais lisongeiros ao duque de ,bragana que agradecidos ao proprietario do botiquim1 no obstante sentirem enervado o brao pela aco cada vez mais intensa dos liquidos4 ,parece que deposta a oitava-rima1 por inopia de pojantes ,cames1 a frma de metro mais patriotica n'aquelles tempos era o soneto1 que1 por muito familiar que fosse a festa1 havia forosamente de ser allusivo aos acontecimentos politicos da epocha4 ,um dos cysnes levantou o pescoo e modulou este soneto1 que logo foi distribuido pelos circumstantes3 ,se brama pelos ,ceos da ,liberdade ,o espantoso trovo da ,tyrannia2 ,se cobrem trvas a ,lusa ,monarquia1 ,fulge o claro da antiga ,heroicidade4 ,quanto cresce a despotica maldade1 ,assim dos povos o valor porfia1 ,com o ,chefe de ,bragana por seu guia ,enchem d'assombro a vindoura idade4 ,dias felizes1 dias venturosos1 ,augura-nos o ,ceo1 em dons fecundo6 ,maria e ,pedro nos faro ditosos4 ,daremos nobre exemplo ,europa1 ao ,mundo3 ,que os ,povos de ser livres sequiosos1 ,calcam do despotismo o rosto immundo4 ,o segundo soneto afina pelo mesmo tom emphatico2 ,thronos ha tido o ,mundo1 que producto ,foram to s de ,leis1 e sangue herdado1 ,quaes desde longo tempo celebrado ,os gosa ,portugal indissoluto4 ,outros no foram mais que excelso fructo ,da ,justia1 e do ,merito elevado2 ,qual ,viriato1 e qual ,sertorio honrado1 ,reis ou ,chefes por solido atributo4 ,taes houve1 e ainda os ha1 a quem ,cobia1 ,ou ,acazo erigio1 contra seu ,dono ,fervendo a ,execrao que a ,raiva atia6 ,a ,segunda ,,maria em seu abono1 ,em mais bases que as ,leis e que a ,justia ,tem sobre coraes firmado o ,throno4 ,o terceiro soneto troa assim3 ,se em nossa idade1 ,jupiter1 quizeste ,com terrivel aspecto olhar a terra1 ,se os males todos da sanguinea ,guerra ,surgir do negro ,barathro fizeste3 ,a ,,pedro tu doaste um dom celeste1 ,que ao fero ,usurpador confunde e aterra3 ,monstro dos monstros1 que no peito encerra ,tartareas serpes que vomitam peste6 ,,pedro1 d'altas virtudes coroado1 ,olha nos ,luzos inconcusso abono ,de elevar sua ,filha ao ,solio herdado4 ,nunca ,lisia hade ter intruzo ,dono2 ,seu ,rei como os ,numes adorado1 ,e tem nos coraes firmado o throno4 ,falta o quarto soneto2 ,nos faustos ,ceos de ,lisia triunfante1 ,a ,liberdade o grito levantando1 ,ferros ao ,despotismo vai lanando ,de tmpera mais dura que o diamante4 ,do ,throno o esplendor salva constante ,d'um principe brioso ao nobre mando3 ,o ,solio1 quasi em terra1 sustentando1 ,esmaga a ,hydra de aspecto vacilante4 ,oh ,principe ditoso1 exulta1 e vive1 ,para que esta ,nao por ,jove eleita ,dos teus ,decretos os seus bens derive4 ,da ,patria1 como ,pai a olhar-te affeita1 ,de ,lisia1 que na gloria hoje revive4 ,do salvo ,povo1 os coraes acceita4 ,no obstante o fallar-se de coraes nas composies precedentes1 parece que a viscera mais attendida na bambochata era o estomago1 e a illuminao por igual abundante dentro e fra4 ,o dono da casa no tinha sobejos motivos para ficar lisonjeado da amabilidade dos convivas que no fallaram d'elle nem do botiquim4 ,o certo que n'aquella epocha em que no havia editores1 os vates lucraram duplamente com o brodio1 porque ao depois se imprimiram os sonetos na typographia ,gandra1 sendo cada soneto precedido d'estes dizeres2 ,,publicado ,e ,,distribuido ,a #ab ,,de ,,outubro ,,de #ahcc3 ,,por ,,occasi,o ,,da ,,illumina,o1 ,,que ,,na ,,rua ,,nova ,,dos ,,ingleses ,,da ,,cidade ,,do ,,porto ,,se ,,patenteou ,n',,esse ,,dia ,,de ,,abertura ,,da ,,casa ,,de ,,caff ,,do ,,commercio ,custava o folheto1 de quatro paginas1 um vintem4 ,se bem que os versos em #ahcc estivessem mais baratos do que as ostras1 os poetas1 attento o pequeno dispendio da impresso1 deviam enfardelar no mesmo sacco1 a despeito do anexim1 honra e proveito4 ,ora este ,caff do ,commercio1 que recebeu ao nascer o baptismo da politica1 veio depois a mudar-se para a ,praa da ,batalha com o nome de ,aguia d',ouro1 sem todavia desmentir1 apesar da mudana1 as tradies que lhe embalaram o bero4 ,venus do botiquim1 sahiu da onda da revoluo e mantem-se revolucionario1 posto que decorado ao gosto moderno1 com espelhos1 mesas de marmore1 e apainelado o tecto com manchas multiformes de humidade e immundicie4 ,no obstante o desgracioso do tecto1 alli se travam ainda os grandes acontecimentos portuenses1 as pateadas1 os meetings1 as eleies1 e alli se discutem as magnas questes do estado4 ,verdade que ha outro botiquim onde se conversa de politica1--o ,suisso4 ,todavia este caff usa entreter-se na tranquilla politica municipal1 ao passo que os mais animados debates da ,aguia versam sobre politica governamental4 ,da ,aguia tem sahido acontecimentos para a historia2 do ,suisso1 que nos conste1 apenas uma ou outra occasio sae uma embriaguez para a pharmacia4 ,sem embargo muitas discusses da ,aguia acabam por diluir-se em amoniaco4 ,j disse pois o que foi a ,aguia d',ouro e o que 4 ,quanto a mim1 a ,aguia d',ouro 444 o que foi4 99 99 99 99 99 ,,physiologia ,,do ,,theatro ,,de ,s4 ,,jo,o 7,,no ,,domingo ,,gordo ,,de #ahgc7 ,elle grande e triste4 ,no obstante hade esta noite encher-se de sociedade sedenta de recrear-se4 ,as senhoras esto nos camarotes como livros de marroquim em estantes de mogno4 ,lem-se as etiquetas e passa-se adeante4 ,os bailes de mascaras permittem em toda a parte que se atire uma flr1 um rebuado1 uns versos4 ,alli no4 ,o mais que se atira um444 olhar4 ,o mais que se faz um cumprimento4 ,bonitos livros mas em sanskrito4 ,tudo luxuoso e frio4 que elle1 o theatro de ,s4 ,joo1 grande e triste4 ,no ,palacio de ,crystal um baile de mascaras uma batalha2 os galopes so cargas de bayoneta4 ,no theatro de ,s4 ,joo valsa-se para passeiar roda com outra mascara4 ,no palacio bebe-se ,xerez ou ,porto2 em ,s4 ,joo parece que todas as pessoas esto costumadas a tomar vinho em444 pilulas4 ,gostam de comer delicadamente um cacho d'uvas1 e sentem-se horrorisadas deante d'uma garrafa4 ,para ir a ,s4 ,joo basta haver ceiado2 para ir ao ,palacio preciso ter comido uma ceia4 ,s4 ,joo uma sala2 o ,palacio uma avenida4 ,em ,s4 ,joo uma visita2 no ,palacio uma escaramua2 a ,s4 ,joo vae o mascara2 ao ,palacio vo as mascaras4 ,depois que d meia noite parece estremecer a grande nave do ,palacio na vertigem do galope4 um assalto quaresma que est perto1 uma lucta1 um combate2 preciso vencel-a e danar ainda em quarta feira de cinza4 uma invaso das hostes do carnaval pelos reinos das endoenas4 ,ah6 tu ests ahi1 roxa penitencia1 a dois passos de distancia1 palida dos teus jejuns1 angustiada pelos teus cilicios1 arrependida dos teus erros6 ,pois bem4 ,ns somos o vendaval da alegria1 que saccode as tranas loiras da ,magdalena peccadora4 ,tu queres impor-nos o arrependimento1 e ns queremos vencer-te para que nos deixes valsar algumas horas mais4 ,e rompem de esfusiada pelo salo fra os pares1 parecendo correr todos a aggredir um ponto invisivel1 um inimigo mysterioso4 ,no theatro de ,s4 ,joo o baile de mascaras no uma refrega mas um acampamento4 ,parece descanar-se em vez de combater-se4 ,as armas esto ensarilhadas1 porque a noite em que mais se dispensa o binoculo4 ,espera-se que sejam duas horas da manh para retirar4 ,quando comea o sopro do ,euro1 o vil quebranto a agitar as arvores da ,batalha1 principiam a rodar as carruagens4 que tambem as palidas bellezas parecem sopitadas pelo vil quebranto4 ,esta phrase d'um grande poeta contemporaneo1 o snr4 ,raymundo ,felgueiras1 no final d'uma formosa quadra que eu li algures3 ,cahiste1 como a rosa desfolhada1 ,que no via murcho o purpurino encanto1 ,no aos beijos da brisa perfumada1 ,mas ao sopro do ,euro1 ao vil quebranto4 s duas horas murcha o purpurino encanto4 ,os candelabros bruxoleam4 ,os porteiros--aquelles homens mysteriosos que ninguem ainda pde vr de dia na rua--dormem pelos corredores dentro dos seus amplos casaces4 ,sae-se pois s duas horas1 fugindo ao tempo1 emquanto nos outros theatros se corre ainda atraz do tempo para detel-o4 ,o ,cames do tecto tem j fechado o unico olho que lhe resta4 ,joo ,baptista ,gomes resona4 ,almeida ,garrett est aborrecido por no vr damas a quem esteja galanteando4 ,gil ,vicente1 o falso ,gil ,vicente do theatro de ,s4 ,joo1 pensa em escrever um novo romance satyrico modelado pelo seu ,gargantua et ,pantagruel4 ,que mistiforio este6 ,gil ,vicente a escrever romances satyricos444 em francez6 ,perdo1 que o ,gil ,vicente do theatro de ,s4 ,joo no ,gil ,vicente mas ,rabelais4 ,eu lhes conto4 ,quando se tractou de pintar o tecto do theatro1 os administradores da casa a esse tempo perguntaram ao meu erudicto amigo o snr4 ,jos ,gomes ,monteiro se conhecia os retratos de ,joo ,baptista ,gomes e ,gil ,vicente4 ,sua ex4 indicou o paradeiro do retrato de ,joo ,baptista1 e pelo que tocava ao de ,gil ,vicente certificou os administradores do theatro de que no havia deixado retrato4 ,esta circumstancia pareceu contrarial-os vivamente4 --,mas1 volveu o consultissimo bibliophilo1 podem facilmente fazel-o substituir por outro escriptor4 --,isso prejudica um pouco o nosso plano4 --,sim2 ns optamos pelo ,gil ,vicente1 acrescentou outro administrador1 e444 queremos o ,gil ,vicente4 --,mas se no deixou retrato6 --,emfim1 se a gente advinhasse como era ,gil ,vicente6 --,ah6 isso pde muito bem ser4 --,pode ser8 --,muito bem444 --,como8 --,fazendo substituir ,gil ,vicente por outro escriptor da epocha4 --ptima lembrana6444 --,qual ha de ser8 --,vejamos444 --,vamos a vr se lembra4 --,lembro-me d'um6 apostrophou o snr4 ,jos ,gomes ,monteiro4 --,qual8 --,um escriptor da mesma epocha e cuja individualidade litteraria no deixa de ter seus pontos de contacto com ,gil ,vicente444 --,chama-se8 --,rabelais4 --,muito bem6 ,procurou-se o retrato de ,rabelais1 e pintou-se ,gil ,vicente1 aquelle ,gil ,vicente que o leitor pde vr esta noite n'um dos quatro medalhes do tecto do theatro de ,s4 ,joo1 e que a mim mesmo1 que sei esta anecdota1 me fez algumas vezes desconfiar de que no seja ,rabelais1 porque o meu binoculo me permitte vr em grandes caracteres o nome de ,gil ,vicente sotoposto ao medalho444 ,o caso que ,rabelais1 hora que os camarotes se despovoam1 parece preparar na mente1 a julgar pela contraco sarcastica das faces1 um novo romance satyrico em que moteje da composta austeridade da sociedade portuense n'um theatro onde1 ha cincoenta annos1 se queimou fogo artificial no palco1 executado por ,joo ,semelhes1 e um palhao divertiu os espectadores com a graciosa ,macaquinha1 e se danou o ,fandango1 e se fez a exhibio da ,corda ,bamba4 ,para os leitores que duvidarem da fidelidade d'estas asseres vou copiar alguns periodos de dois annuncios d'espectaculo n'aquelle theatro1 no tempo em que alli trabalhou uma companhia de funambulos1 o que devia d'acontecer ahi por #ahbd4 ,os avisos trazem apenas indicado o dia2 no me foi possivel precisar a epocha4 ,no primeiro aviso1 correspondente a #bd de julho1 lem-se estes periodos3 ,o ,palhao divertir os ,senhores ,espectadores com novas1 e diversas habilidades1 entre as quaes executar a ,scena do ,bebado1 dando fim a esta primeira parte a graciosa ,macaquinha4 ,mais abaixo3 ,madama ,joannita1 e o ,diabrete danaro os ,boleros1 dando fim o divertimento com duas peas de ,fogo ,artificial de composio ,italiana1 executadas por ,joo ,semelhes1 cujas consto de hum brilhante sol com variedades de cres1 entre as quaes apparecer o raro fogo azul1 e outra que figura uma ,rosa ,italiana transparente1 donde apparecer por tres vezes um distico aluzivo a ,sua ,magestade fidelissima 7,d4 ,joo ,,vi7 formando-se no fim em uma brilhantissima ,gloria1 rodeada de lindissimas estrellas4 ,do segundo aviso1 correspondente a #c de fevereiro1 basta citar estas linhas3 444 danar depois ,madama ,joannina o ,slo ,inglez1 a que ho-de seguir-se os vistosos equilibrios do ,menino1 depois dos quaes se danar o ,fandango1 terminando-se todo o devertimento com a ,corda ,bamba1 onde o insigne ,diabrete far admiraveis difficuldades4 ,a sociedade d'aquelle tempo riu e applaudiu com sincero enthusiasmo todas as facecias e evolues da companhia de funambulos4 ,agora1 por maior que seja a festa e o artista1 parece que ninguem traz gratas sensaes do theatro de ,s4 ,joo mrmente d'um baile de mascaras4 ,faz-se um silencio sepulchral nos intervallos4 s vezes apenas se escuta um levissimo rumor3 uma fita que se agitou ou uma petala que se despegou d'um toucado4 ,em epochas mais turbulentas atiram-se estalos plateia4 ,os artistas italianos1 quando l fra lhes perguntam pelo clima de ,portugal1 j vo respondendo3 -- bom2 o peior que tem o estalo4 ,o estalo no ,porto como a febre amarella na ,america e a carneirada na ,africa4 ,tirante o accidente do estalo1 o clima do theatro de ,s4 ,joo no prejudica ninguem4 ,sae a gente como entrou3 quente se entrou quente1 fria se entrou fria4 ,antigamente1 quando se ceiava nos camarotes da quarta ordem1 podia a gente sahir de l com uma indigesto1 ou1 quando se exhibia a graciosa ,macaquinha1 rebentar um suspensorio1 ou finalmente chamuscar o casaco quando o ,semelhes queimava fogo artificial no palco4 ,qualquer d'estas contrariedades podia ser perigosa1 mas sendo a vida uma serie de perigos1 viver era aquillo4 ,agora1 ,catalani1 ,milanez1 madama ,joannita1 phosphorecente ,semelhes1 eu lembro-me tristemente de vs1 e desejo-vos2 principalmente se ha estalo1 invejo-te1 ,semelhes6 99 99 99 99 99 ,,physiologia ,,do ,,theatro ,,baquet ,ha theatros que procuram a gente1 em vez de ser a gente que os procura a elles4 ,para ir ao ,palacio de ,crystal1 por exemplo1 preciso ir l procural-o s ribas outr'ora solitarias que se aprumam sobre o ,douro4 ,quando vamos ao theatro de ,s4 ,joo1 sahimos de casa no proposito de ir ao espectaculo1 como quando vamos almoar ,foz ou jantar ,ponte da ,pedra4 uma caminhada que se faz simplesmente por distraco4 ,todavia com o theatro ,baquet no acontece o mesmo2-- o theatro que nos procura1 elle que nos d na vista1 que nos chama1 que nos tenta4 ,sahimos de casa para comprar um par de luvas1 um chapo1 um casaco1 umas botas1 uma badine1 um relogio1 um frasco com conserva1 uma caixa de charutos1 um obo1 para tomar um banho1 para mandar tingir um collete1 para reconhecer um attestado1 e at para comprar tortas1 por divertimento1 porque eu j conheci um comilo de tortas s direitas1 que as trazia no bolso1 e que de instante a instante se mettia n'um portal1 como quem accende um charuto1 para comer uma torta4 ,no theatro guardava uma proviso de tortas na copa do chapo1 e ia-as comendo de intervallo a intervallo1 fazendo no botiquim unicamente a despeza de um copo de agua4 ,mas voltando ao ,baquet1--sahimos de casa para comprar qualquer coisa1 e damos comnosco na rua de ,santo ,antonio4 ,fazemos a transaco1 paramos porta do theatro a lr o cartaz1 e vemos a passeiar no atrio o snr4 ,antonio ,moutinho de ,sousa1 floreando a sua badine na posse da mais tranquilla felicidade1 de modo a dar gente tentaes de ser empregado no theatro para vr se tambem engorda4 ,entra-se ao portal4 ,depois de entrar1 vergonhoso retroceder4 ,n'este momento chega um actor cantarolando1 e emquanto o bilheteiro faz o troco entra uma paviola com um soph de velludilho encarnado e quatro cadeiras d'espaldares doirados4 ,por ,deus6 como aquelle actor ha-de cantar bem noite1 se at pela rua se anda ensaiando6 como as cadeiras ho-de relampejar reflexos deslumbrantes luz da rampa6 ,sae a gente e passa pelos cartazes com o reservado orgulho de quem sabe mais do que lhe dizem4 ,o cartaz annuncia simplesmente o espectaculo1 mas o comprador do bilhete sabe o que no diz o cartaz1--que entram no drama cadeiras com espaldares doirados4 noite enxameia porta do theatro o bando dos agiotas4 --,quer geral8 --,quer cadeira8 ,e a gente rompe por entre elles com a sobranceira indifferena de quem tem desde pela manh1 no bolso do collete1 o divertimento que elles nos offerecem1 esbofando-se4 ,no theatro ,baquet ha sussurro nos corredores4 ,no theatro lyrico entram as senhoras1 cobertas d'arminhos1 friamente silenciosas1 e assomam aos camarotes com a estudada compostura de quem vae ser retratado4 ,muda o caso no ,baquet2 as senhoras charlam pelos corredores1 e os homens descem rapidamente as escadas1 cumprimentando e saltando4 ,bem6 um theatro popular1 onde os espectadores fallam alternadamente com os actores1 e onde a gente pde espirrar vontade sem que lhe digam do lado--sciu6 ,os frequentadores habituaes do theatro ,baquet--os das platas1 entenda-se--dividem-se1 a meu vr1 em trez classes distinctas3 espectadores fluctuantes1 espectadores fixos1 e espectadores moderados4 ,os espectadores fluctuantes so os que occupam as primeiras filas da superior1 e os logares das coxias na geral4 ,alguns1--especialmente os da superior1--trazem camelia ao peito e luva cr de canario4 ,mal desce o panno1 saiem para o botiquim1 para os camarins1 e para os corredores4 ,que teem elles que fazer em todos os intervallos8 ,que vo dizer8 ,nada4 ,saiem porque so fluctuantes4 ,entram plateia quando comea a symphonia4 ,encostam-se varanda da orchestra1 com requebrada negligencia1 olhando uns para os camarotes atravez do binoculo e outros cantarolando se esto em scena os ,apostolos do ,mal3 ,as moas da nossa aldeia ,d'aldeia de ,s4 ,luiz1 ,fallam sempre de maridos ,e n'um enlace feliz2 ou se se representam as ,mulheres de marmore3 ,amas tu4 ,marco gentil1 ,os sales cheios de flores1 ,com uma alegria infantil ,as danas1 risos1 amores8 ,espectadores fixos so uns sujeitos pesados1 que no se mexem na cadeira1 e que conversam nos intervallos com os visinhos da direita e com os visinhos da esquerda1 incommodando-se com os espectadores fluctuantes que os obrigam a levantarem-se ao sahir e ao entrar4 ,espectadores moderados so1 a meu vr1 os que saiem em dois intervallos1 quando a pea tem cinco actos1 e os que s incommodam o porteiro no fim do drama se depois do drama vae comedia4 ,so methodicos4 ,da ultima vez que saiem no por variedade mas unicamente por methodo4 ,vo buscar o guarda-chuva ou a bengala para evitarem os apertos da confuso no fim do espectaculo4 ,passemos s galerias4 ,a galeria um mundo dentro d'um theatro4 ,de hemispherio a hemispherio medeia o oceano-plata4 ,as ondulaes1 as correntes1 e as tempestades esto na plata1 mas nas galerias ha a variedade do atlas3--alli que esto as castas1 os systemas1 as luctas1 a verdadeira liberdade do homem e a verdadeira emancipao da mulher4 ,pouca gente leva uma creana para um camarote1 mas o povo leva os seus filhos para a galeria4 que reside alli a soberania popular4 ,os mil episodios1 que por via de regra accidentam a vida das naes1 reproduzem-se nas galerias4 ,ha em todos os espectaculos do ,baquet--digam se no verdade--uma creana que chora3 um visinho da esquerda que se oppe expanso vocal da creana1 e um visinho da direita que proclama alto e bom som a liberdade da larynge4 ,estas luctas so eterno apanagio do povo4 ,ha sempre um velho1 ou bonacheiro1 rosado1 inxundioso1 que diz graolas1 e o divertimento dos visinhos durante os intervallos1 ou um velho zarolho1 de cabello em ss e chapo quinhentista1 silencioso1 que se no levanta toda a noite1 e que faz a critica do drama e da plata pela unica janella que a ,providencia lhe deixou aberta para vr a humanidade4 ,o velho gordo1 se v que uma lorette pe a cabea fra da galeria1 para ser vista1 acode logo a dizer3 --,estenda a cabea1 estenda1 que lhe caiem os pingos das vlas6 ,o velho sco olha com o seu luzio para a toilette1 e volta logo a cara para o outro lado1 porque de si para si fez austeramente a seguinte reflexo3 --,bem te entendo6 ,ha sempre nas galerias um cicerone4 ordinariamente um cocheiro1 de jaqueta e chapo redondo2 explica todas as situaes da pea ainda que seja nova4 --,ella agora vae pegar n'aquella flr6 s vezes1 mrmente se o drama novo1 o cocheiro engana-se1 e a actriz em vez de pegar na flr bebe um copo d'agua4 ,o cicerone no se acobarda4 ,continua a explicar2--explica tudo4 ,isto facilmente se comprehende4 ,o cocheiro precisa de presumir-se sabio4 ,pergunta-se-lhe3 --,sabes onde mora ,f48 --,sei1 meu amo4 ,no sabe4 ,vai andando espera que lhe batam na janella da carruagem4 --,pra2 aqui4 -- aqui2 eu bem sabia4 ,o cocheiro precisa realmente de dizer que sabe4 ,vamos agora ao botiquim4 ,o botiquim do ,baquet offerece curioso estudo4 preciso ser-se philosopho para se exercer o logar de botiquineiro alli4 ,de contrario1 ao cabo do primeiro intervallo1 o botiquineiro estaria doido com toda a certeza4 ,o snr4 ,magalhes1 botiquineiro1 pois um philosopho4 --,uma sangria6 --,gelatina6 --,uma limonada6 --,uma orchata4 --,um grog6 ,n'uma palavra1 nem mais nem menos que todos os espectadores fluctuantes a dizerem ao snr4 ,magalhes3 --,retalhe n'um momento o seu botiquim e d a cada um de ns um fragmento4 ,qualquer homem menos philosopho responderia3 -- senhores6 no os posso servir a todos ao mesmo tempo6 ,sem este senhor beber a limonada1 no dou ao senhor o grog4 ,isto era o mesmo que perder a freguezia4 ,o snr4 ,magalhes descubriu um optimo systema para viver com todos4 ,como seja grande a concorrencia1 alguns espectadores1 em raso da sua mesma natureza fluctuante1 j esto no corredor no momento em que deviam pagar4 ,o snr4 ,magalhes bem percebe que logrado1 mas no se afflige4 ,tem a paciencia de esperar para o dia seguinte4 ,d'esta maneira tudo vae bem4 ,conta-se de ,mazarino dizer3 ,cantam6 ,deixal-os cantar2 elles o pagaro4 ,toda a philosophia do snr4 ,magalhes tem por eixo esta anecdota de ,mazarino3 ,escapam-se6 ,elles o pagaro4 ,saiamos do botiquim para fallarmos ainda d'uma classe supplementar de frequentadores1 que j iam esquecendo4 ,so os espectadores-meteoros4 ,no compram bilhete pela simples raso de no terem tempo de o comprar4 ,entram plata e dizem ao porteiro3 --,eu saio j4 ,est o panno em cima4 7,elles entram sempre quando o panno est em cima74 ,encostam-se varanda da orchestra4 ,passam em revista os camarotes1 medem a plateia com um s olhar1 e saem4 ,vae a gente a procural-os1 e j no os v4 ,so meteoros2 desappareceram4 ,quando a gente os procura1 j esto em outro theatro4 ,tambem por sua vez so philosophos2 toda a philosophia d'elles est no adverbio j4 --,eu saio j4 ,e vem tudo4 ,ora eu1 se fosse actor e fizesse beneficio1 havia de perguntar ao porteiro3 --,voc quantos js conhece8 ,a esses que eu passaria bilhetes para vr o que respondiam4 ,agora me lembro6 ,salvavam-se ainda com o mesmo adverbio3 --,j tenho4 ,depois de conhecida a nau e a tripulao1 justo fallar do piloto1 que vai tranquillamente encostado cana do leme1 sereno em meio da azafama geral1 saboreando-se nos mil accidentes de bordo1 como homem que morreria nostalgico se porfiasse a sorte em arrancal-o ao mar4 ,o ,palinuro do ,baquet o snr4 ,antonio ,moutinho de ,sousa1 actual empresario4 ,nasceu para o theatro como o piloto nasceu para as vagas4 alli que elle vive feliz4 ,derivaram os primeiros annos de sua vida na eschola e na ourivesaria de seu pae1 mas chegado a idade em que no espirito comeam a desabrochar as tendencias1 boas ou ms1 ao sabor das quaes havemos de fazer a peregrinao terrena1 o snr4 ,moutinho1 contados #bd annos1 embarcou para o ,rio de ,janeiro1 e foi escripturar-se no theatro do ,gymnasio4 ,os jornaes brasileiros de #aheh festivamente commemoram a brilhante appario do snr4 ,moutinho no ,gymnasio4 ,ha um periodo notavel do ,correio ,mercantil que diz assim3 ,o primeiro passo da sua vida artistica como os dos antigos guerreiros da sua patria nas areas d',africa a derrubarem nos campos da lucta os obstaculos que lhes impediam a victoria1 foi grandioso e decisivo6 ,percorreu em um s dia o escabroso e longo estadio que conduz o talento ao perystilio do sanctuario das artes4 ,o ser actor revelou-lhe que tambem podia ser litterato1--dramatisou1 folhetinisou e versejou agradavelmente1 mas todos os lances solemnes da sua vida ao theatro os deveu4 ,casou em primeiras nupcias com a actriz ,d4 ,ludovina ,devecchy1 e em segundas com a actriz ,d4 ,amelia ,simes4 ,parece que todo o seu fito foi escolher esposa que comprehendesse as tradies gloriosas do theatro e houvesse sacrificado no altar do bello4 ,se o snr4 ,moutinho tivesse casado com certa dama que uma vez dissera ter ouvido uma pea em cinco dramas1 o snr4 ,moutinho requereria immediatamente divorcio4 ,como empresario tem o seu camarim4 ,podia ter simplesmente um escriptorio1 mas o snr4 ,moutinho quer ter camarim para se enganar a si proprio4 ,passa as noites d'espectaculo a tomar caf4 um velho habito theatral4 ,quer excitar os nervos para as luctas da scena1 como se houvesse de representar4 ,encontram-se n'elle todos os requisitos d'um empresario1 e at1 se attendermos unicamente ao homem1 conheceremos que o snr4 ,moutinho est entre a gordura do empresario ,palha e a gordura do empresario ,price4 ,todavia affigura-se-nos que o snr4 ,moutinho poder fazer um d'aquelles admiraveis prodigios que s se conseguem no theatro1 e vem a ser--representar um papel de galan tendo propores de empresario4 preciso acabar1 e sahirmos do ,baquet4 ,toda a gente sabe como se sae do ,baquet3 hombro com hombro1 brao com brao4 ,tanto se aproximam os espectadores sahida1 que talvez essa a raso de se conhecerem todos uns aos outros4 ,um sujeito conhecemos ns que ao sahir uma noite do ,baquet metteu a mo no bolo do bournous para tirar a charuteira1 e encontrou com grande surpresa uma caixa de prata4 ,s ento reconheceu haver introdusido a mo no bolso do espectador que vinha a par4 ,passou angustias para se salvar com dignidade do equivoco444 ,ora so justamente estas peripecias1 todas as circumstancias que ahi ficam amontoadas1 que do ao theatro ,baquet uma individualidade caracteristica4 99 99 99 99 99 ,,telhudos ,,historicos ,a telha muito antiga4 ,nos tempos heroicos vae o escalpello do historiador encontrar conspicuos telhudos como ,orestes1 ,athamas1 e ,alcmeon1 posto se dissesse simplesmente que viviam atormentados pelas ,eumenides4 ,nos tempos historicos tornam-se notaveis pela telha ,pythagoras1 ,socrates1 ,mahomet e ,luthero4 ,em tempos menos remotos apparecem na historia uns celebrados telhudos que se chamam ,swedenborg1 ,pascal e ,voltaire4 uma consolao444 ,encosta-se a gente com a sua telha a estas cabeas-firmamentos da historia1 que ora tinham relampagos de genio1 ora negruras de sandice1 e vae vivendo4 ,no se falla por ahi na historia a cada passo8 ,para se dizer que um sujeito velho no se lhe chama ,mathusalem8 ,nero para dizer que mau8 ,job para dizer que paciente8 ,pois muito bem4 ,desculpemo-nos da nossa telha com a historia na mo1 e vamos vivendo com o nosso mal1 porque para mim ponto de f que1 sendo telhudos os maiores genios1 cuja memoria assombra o mundo1 no ha por ahi sujeito que no tenha a sua telha4 ,os que so mais robustamente organisados sabem que a teem e procuram modifical-a1 como se combate uma enfermidade2 os que nasceram peior acabados vo vivendo sem se lembrar um unico dia de que nasceram com telha e com lombrigas4 ,a uns e outros desculpa a historia4 ,pouco importa conhecer ou no conhecer a telha1--o caso tel-a4 ,hyppocrates veio a dizer na sua que a telha estava na cabea2 ,lacaze e ,bordeu que estava no diaphragma1 e ,bichat no corao4 ,esteja ella onde estiver2 o certo que est dentro de ns e da historia4 ,isto mesmo de querer dizer onde a telha est1 j telha4 ,o que estou vendo que os sabios da velha antiguidade eram muito mais perspicazes que os sabios dos tempos modernos4 ,nos tempos heroicos1 se um sujeito tinha a telha de rinchar de cavallo1 dizia-se logo que entrara n'elle o espirito de ,neptuno2 se a telha lhe dava para comear a cantar de passaro1 era por alta vontade de ,apollo4 ,agora a sciencia trata de enxotar a ideia do espirito ruim o apregoa que se o sujeito tem telha porque nasceu tolo4 ,isto assim no vae bem4 ,em remotissimos tempos pagos desculpava-se a telha de pythonissas e sibyllas com influio divina2 agora vem a sciencia e diz que a telha procede de imperfeio do systema nervoso1 chamando-lhe monomania4 ,ser monomaniaco no poder um homem andar e proceder por sua conta e risco4 ,tanto vale como matal-o4 preciso pois que faamos crusada e nos defendamos com a historia4 ,os homens do passado constituem a historia que hoje lmos1 assim como ns constituiremos a historia de amanh4 ,pois folheemos a chronica do passado e ponhamos a nossa telha ao abrigo de censuras1 escondendo-nos agachados contra o pedestal de preclaros homens que o mundo festeja1 e deixemos assim aberta uma valvula de segurana para respirar a telha de nossos netos4 ,comecemos4 ,o marquez ,arouet de ,voltaire444 ,marmontel conta que fra um dia1 acompanhado pelo seu amigo ,gaulard1 visitar ,voltaire4 ,encontrou-o na cama1 recostado em travesseiras1 de barrete de l na cabea4 --,encontram-me a morrer1 disse com voz debil o philosopho4 ,venham receber o meu ultimo suspiro4 ,mr4 ,gaulard commoveu-se1 mas ,marmontel1 que j conhecia a telha1 tregeitou a ,gaulard para calmal-o4 ,voltaire entrou de conversar e de animar-se progressivamente4 --,meu caro ,marmontel1 disse elle1 folgo de vl-o em occasio em que lhe posso apresentar um estimavel artista1 mr4 ,ecluse6 ,como elle canta a cano de ,remouleur4 ,e ,voltaire comeou a imitar ,ecluse cantarolando2 ,je ne sais o la mettre ,ma jeune fillette1 ,je ne sais o la mettre ,car on me la che444 ,os hospedes riam estrepitosamente4 --,imito-o mal1 bem sei1 objectou ,voltaire1 preciso ouvil-o a elle1 ao proprio ,ecluse4 ,oh6 que voz aquella6 ,telhudo6 ,la ,fontaine1 o meigo educador das creanas1 pertence ao rol4 ,casou com ,maria ,hericard1 uma formosa e intelligente mulher4 ,passados tempos1 abalou para ,paris esquecido de haver casado4 ,aconselharam-n'o porm alguns amigos a reconciliar-se com sua esposa4 ,partiu com esse intuito e1 procurando madame ,la ,fontaine em ,chauteau-,thierry1 disseram-lhe que estava na igreja4 ,recolheu-se a casa de um amigo1 onde comeu e dormiu durante dois dias1--ao cabo dos quaes regressou a ,paris4 --,ento1 reconcilias-te com tua mulher8 --,no a pude vr3 estava na igreja4 ,certo militar convidou ,la ,fontaine para banquete opiparo com o simples intento de o ouvir discretear mesa4 ,la ,fontaine comeu1 bebeu e apenas disse levantando-se3 --,tenho d'ir ,academia4 -- ainda muito cedo444 --,no importa4 ,irei por onde fr mais longe4 ,telhudo6 ,d',alembert444 ,elle1 o grande geometra1 o chefe da seita encyclopedica1 chegou a ser um escravo amoroso de mademoiselle ,espinasse4 ,sahia todas as manhs para lhe fazer servios1 a comprar alfinetes ou ganchos1 e1 quando o seu rival ,mora partiu de ,frana1 ia ainda como de noite esperar o correio estrada para levar as cartas a mademoiselle ,espinasse4 ,telhudo6 ,saint-,foix1 author do ,essais sur ,paris1 e varias obras444 ,estava uma vez no caff ,procopio1 a lr o ,mercurio4 ,era noite4 ,entrou um sujeito e pediu capil4 ,saint-,foix disse da sua mesa3 --,o capil uma triste ceia6 ,o sujeito olhou e ficou-se4 ,torna ,saint-,foix3 --,o capil uma triste ceia6 ,o sujeito carregou o sobr'olho4 ,torna ,saint-,foix3 --,o capil uma triste ceia6 --,isso commigo1 senhor8 --,pois com quem8 ,o capil uma triste ceia6 ,foi immediatamente reptado1 bateu-se no ,luxemburgo1 e recebeu uma cutilada4 ,j em terra1 banhado em sangue1 apostrophou3 --,isto no prova nada4 ,o capil uma triste ceia4 ,telhudo6 ,pugnani1 compositor de musica e celebre violinista piamontez444 ,estando uma noite tocando violino em meio de numerosa sociedade1 parou subitamente e disse3 --,senhoras e senhores1 rezem cinco ,padre-,nossos pelo pobre ,pugnani4 ,e ajoelhando comeou elle proprio a rezar o ,padre ,nosso4 ,telhudo6 ,sua exc4 o baro de ,dangu444 ,tinha a telha de querer ser almirante1 e1 como houvesse passado no mar os primeiros annos de sua vida1 sabia um avultado numero de termos nauticos de que diariamente usava4 ,o palacio em que morava tinha a configurao interior d'um immenso navio4 ,os criados vestiam de marinheiro e tractavam-n'o por almirante4 ,o baro fazia quarto no terrao que chamava convez4 ,pela manh dizia-lhe um dos criados3 --,o mar foi muito esta noite6 ,quando elle queria sahir1 outro criado berrava pelo porta-voz3 --,a chalupa do almirante ao mar6 ,isto queria dizer que pozessem as cavallos carruagem4 ,momentos depois1 o baro subia ao convez1 d'onde com o auxilio de cordas1 descia carruagem1 que se abria pelo tecto4 ,telhudo6 ,mr4 ,berluguer1 author de tres enormes volumes--,les farfadets4 ,ora os farfadets eram demonios que elle dizia vr pendurados das arvores do jardim1 do espaldar do catre e s cabriolas sobre a mesa do jantar4 ,pensava que a melhor maneira de se vr livre dos farfadets era mettel-os em garrafas ou atravessar-lhes o corpo com alfinetes4 ,tirante esta notabilissima pancada1 era um homem alegre e amavel1 que sabia conversar com senhoras4 ,basta porm lr os farfadets para conhecer que era444 ,telhudo6 ,o historiador ,mezerai1 membro da ,academia ,franceza444 ,escrevia luz da candeia1 ainda que fosse meio dia1 e pleno estio4 ,quando alguem o visitava1 acompanhava-o ao corredor1 de candeia na mo1 e algumas vezes chegava porta da rua3 --,olhe l1 no caia1 dizia elle4 ,telhudo6 ,sua magestade catholica1 ,filippe ,v1 rei d',hespanha444 ,este soberano passava na cama seis mezes inteiros1 sem cortar o cabello e as unhas1 sem mudar de camisa4 ,umas vezes queria que o capello do pao fosse camara real dizer missa s cinco horas da manh1 outras ao meio dia e outras s oito horas da noite4 ,no inverno mandava abrir de par em par as janellas2 durante os ardores caniculares dormia com tres cobertores de papa4 ,muitas vezes1 emquanto dormia1 arranhava-se e1 quando acordava1 comeava a gritar que o haviam mordido os vermes4 ,julgava-se ento morto1 mordia em si1 em seus filhos e na rainha4 ,perguntavam-lhe o que tinha4 ,respondia3 --,no tenho nada6 ,e desatava a cantar4 ,telhudo6 ,sua ex4 o marquez de ,brunoy444 ,quando morreu o marquez pae1 mandou despejar em todos os tanques do palacio almudes de tinta d'escrever para que as aguas tomassem lucto2 e cobriu de crepes todas as arvores do parque4 ,era o sachristo da igreja de ,brunoy4 ,d'uma occasio1 em ,conflans1 pegou no cadaversinho d'uma criana debaixo do brao1 e foi elle proprio sepultal-o4 ,ahi por #agge projectava ir de sandalias e esclavina ,terra ,santa1 fazendo-se acompanhar por sessenta romeiros4 ,a familia pde estorvar-lhe o plano e sua ex4 o marquez desistiu de ser peregrino para continuar a ser444 ,telhudo6 ,esta a grande lio da historia4 ,quando alguem nos atacar1 leitores1 facilmente nos poderemos defender apontando para o enorme epitaphio da historia1 que diz3 ,aqui jaz a telha de muitas geraes4 ,jaz e ha de jazer4 ,culpa dos ministros portuguezes que fazem reformas na instruco e no supprimem o estudo da historia4 ,mandam-nos estudar historia2 estudemos4 ,admiremos os telhudos e sejamos tambem telhudos por nossa vez4 ,l diz o conhecido verso3 ,un sot trouve toujours um plus sot qui l'admire4 fado4 ,iremos caminhando de telha em telha4 ,o numero dos tolos infinito1 diz o livro santo1 e assim4 ,acho prudente o conselho de no sei quem que disse3 quem os no quizer conhecer1 no saia de casa e quebre o espelho444 99 99 99 99 99 ,,os ,,domingos ,no ,parocho1 romance religioso de ,roselly de ,lorgues1 ha um periodo que diz3 ,newton1 extasiado perante as maravilhas da creao1 observou que de todos os dias do anno o domingo aquelle em que os vapores da atmosphera nos encobrem menos o astro brilhante4 ,assim devia ser4 ,o domingo o dia do repouso1 da tranquillidade1 do lar4 ,ha sueto geral--diz ainda ,roselly de ,lorgue2--est suspensa a lei do trabalho4 portanto este o dia em que se l1 em que o povo procura o jornal1 em vez do jornal ir procurar o povo1 como acontece durante a semana4 ,o jantar do artista tem ao domingo mais um prato e mais um copo4 ,urge pois que o homem de trabalho procure tornar-se digno da modesta opulencia da sua mesa4 ,d'aqui procede a ancia de se nobilitar1 de se illustrar2 de lr ao domingo4 ,viveu na fabrica toda a semana2 vive ao domingo no lar4 ,ora a leitura um lao que prende familia1 um prazer sereno que requer silencio4 ,o operario senta-se a uma restea de sol1 com o seu jornal debaixo do brao1 com o seu cigarro na mo4 ,o tabaco--embora o neguem pessimistas--torna a percepo mais clara4 ,fuma e l4 ,quer encontrar o seu jornal variado1 alegre1 leve e crystallino4 ,entende4 ,um cerebro inculto como um estomago fraco4 ,demanda alimento ao mesmo passo substancial e de facil digesto4 ,pelo jornal se identifica o artista com a sociedade4 ,sabe o que se passa nas altas regies de que elle vive esquecido toda a semana4 ento que trava conhecimento com os actos do governo4 s vezes deprehende da leitura que tem de pagar mais4 ,fica triste4 ,tem filhos1 e recebe pequeno salario4 ,mas desce com a vista ao folhetim1 e o folhetim serena-o por isso mesmo que lhe no falla de impostos4 ,l com curiosidade1 s vezes sorri1 e levanta-se para ir comer o seu guisado e beber o seu copito1 supplementos domingueiros do jantar1 mais lembrado do folhetim que do imposto4 ,senta-se meza1 e como fora que o folhetim d'um jornal popular seja candido na ideia e singelo na frma1 o artista facilmente reproduz o folhetim mulher que no sabe lr4 ,no adquiriu sciencia1 nem elle estava intellectualmente preparado para recebel-a2 o que adquiriu1 e j no pouco1 foi amor leitura1-- leitura1 este elemento de moralidade1 quando prudentemente adoptado1 porque preservera da orgia e affasta da ruina4 ,estas foram as rases que me levaram a escolher o domingo para o folhetim semanal1--conversao facil1 que eu procurarei guiar sempre por caminho desatravancado d'espinhaes1 sejam quaes forem os cataclismos da sociedade1 e por mais brutalmente que escouceiem os onagros nas selvas visinhas4 justo dar ao povo o que nasceu do povo1--o folhetim4 ,preciso porm dizer-lhes que eu fao distinco entre o antigo folhetim e o moderno folhetim4 ,um aristocrata2 o outro democrata4 ,o primeiro saiu dos palacios d',athenas2 o segundo dos theatros1 dos botiquins de ,paris4 ,o primeiro rojou-se aos ps de ,aspasia e ,lais quando os gregos as mandavam entrar ao dessert na sala do banquete1 justamente ao contrario dos inglezes1 que ao dessert que expulsam as mulheres4 ,o segundo saiu da caixa de rap do abbade ,geoffroy1 uma noite1 na ,opera1 quando elle a abria para offerecer uma pitada a mr4 ,bertin1 que o tinha acompanhado4 ,o primeiro recebeu ao nascer o baptismo dos vinhos de ,corintho1 de ,samos1 e de ,chios4 ,o segundo mergulhou na onda nacarada do ,bordeus ou do ,champagne4 ,no seu ,grande diccionario de cosinha1 recentemente publicado1 escreveu ,dumas pae3 ,foi n'estes elegantes jantares 7de ,athenas7 que se formou a conversao grega1 conversao ao depois copiada por todos os povos1 e da qual a nossa era1 asseguro-o1 antes da introduco do cigarro1 uma das mais vividas e mais rapidas copias4 ,d'aqui a expresso sal attico4 ,assim foi que nasceu o folhetim aristocrata1 passando de bocca em bocca1 borboleteando entre os convidados1 que eram ordinariamente sete1 em honra de ,pallas1 rematado provavelmente com um beijo de ,phryn ou com um sorriso d',aspasia4 ,depois passou da ,grecia para ,roma4 ,os banquetes d',augusto1 conversados por ,virgilio1 ,horacio e ,pollion1 deviam de ser folhetins delicadamente cinzelados como os cyathos imperiaes4 ,todavia o grande espirito de ,augusto amava a publicidade1 e permittia que circulassem em ,roma as anecdotas dos seus opiparos folhetins4 ,conta-se1 por exemplo1 que certo dia1 em que jantava com ,virgilio e ,horacio1 se desculpara d'umas sombras de tristeza dizendo que estava entre os suspiros e as lagrimas1 porque um d'estes escriptores soffria dos pulmes e o outro tinha uma fistula lacrimal4 ,no tempo d',augusto j o povo romano conhecia a publicidade4 ,julio ,cesar foi o verdadeiro creador do jornal4 ,nos primeiros tempos de ,roma os pontifices escreviam dia a dia os acontecimentos do co e da terra4 ,julio ,cesar arrancou o privilegio aos pontifices fazendo redigir e publicar os actos quotidianos do senado e do povo4 ,o que1 segundo uma bonita phrase de ,julio ,janin1 foi passar duas vezes o ,rubicon1 desvelando d'uma vez para sempre os tenebrosos mysterios do senado romano4 ,to inveterado estava porm entre os patricios o habito do folhetim mesa1 tanto o banquete era mais uma recreao para o espirito que um prazer para o estomago1 que ,heliogabalo reunia mesa anes1 zarolhos e corcundas para os vr da galeria e os ouvir conversar durante o jantar4 ,era um folhetim burlesco1 como s vezes por ahi apparecem alguns1 o que ,heliogabalo queria4 ,fallemos agora do folhetim democrata1 nado e creado em ,pariz1 teudo e manteudo pelo abbade ,geoffroy4 ,nominalmente o folhetim data de #aghi1 do nascimento do jornal politico em ,frana4 ,chamava-se assim o espao em que o jornalista escrevia1 na parte inferior da pagina1 a resenha dos trabalhos que a ,assembla deixra indicados para o dia seguinte4 ,mas o folhetim s comeou a existir de facto no fim do seculo ,,xviii4 ,um homem de letras havia a esse tempo1 ao mesmo passo escriptor e clerigo1 o abbade ,geoffroy1 que1 entediado das noitadas do caff ,procope1 voluntariamente se desterrou de ,pariz4 ,um certo dia1 porm1 mr4 ,bertin1 que comprara aos irmos ,baudonim a propriedade do ,journal des ,debats1 lembrou-se de ir procurar o espirituoso abbade ao seu remoto escondrijo4 ,foi e arrastou-o4 --,que quer de mim1 ,bertin8 perguntou-lhe o abbade4 --,que venha jantar commigo a ,pariz1 que v noite commigo ,opera1 e que manh me escreva um artigo para o primeiro numero do ,journal des ,debats4 ,o abbade lembrou-se dos seus tempos1 e foi4 ,as palmas1 os bravos1 as acclamaes espiritaram-n'o4 ,ao outro dia fez a critica da opera na parte interior de duas columnas1 e a terceira encheu-a ,bertin com anunncios de theatro4 ,o artigo1 occupando o logar do folhetim1 chamou-se folhetim4 ,o povo leu e gostou4 ,correu a comprar o jornal1 chegou a disputal-o1 o successo foi ruidoso1 e ,geoffroy no s fez a sua celebridade seno que tambem tornou celebre o ,journal des ,debats4 ,geoffroy d'alli em deante applaudia1 acclamava1 pateava e assobiava no folhetim4 ,o povo seguia-o1 acompanhava-o1 o povo pensava com ,geoffroy e ,geoffroy pensava pelo povo4 ,foi o povo que lhe deu nome1 a elle e ao folhetim1 e era para o povo que ,geoffroy escrevia4 ,no havia trova popular1 caricatura1 retrato e lanterna magica--at lanterna magica6--que no reproduzisse o abbade folhetinista4 ,quando elle morreu1 annunciou-se nos collegios a sua morte depois do ,benedicite4 ,geoffroy festejado6 ,geoffroy applaudido6 ,geoffroy444 cantado6 ,o successor de ,geoffroy no folhetim foi ,charles ,nodier4 ,no o excedeu mas no o deshonrou4 ,depois de ,nodier vieram ,etienne ,bquet1 ,duvicquet1 e outros1 sempre acclamados e sempre attendidos pelo povo1 at que chegmos revoluo litteraria de #ahcj4 ,ento appareceram ,sainte-,beuve1 ,dumas1 ,janin e ,gautier4 ,o dia que o movimento litterario do romantismo designou ao folhetim foi a segunda feira4 ,d'ahi o chamar-se ao folhetim causerie du lundi1 e aos folhetinistas les rois du lundi4 ,os reis da segunda-feira6 ,reis1 porque8 ,porque empunhavam elles o sceptro da opinio8 ,porque eram os soberanos absolutos da critica8 ,nada d'isto4 ,porque cada folhetinista da segunda-feira tinha sua crte d'admiradores1 seus salamaleques1 e seus subditos4 ,alexandre ,dumas chama a ,sainte-,beuve um poeta2 a ,janin um phantasista1 e a ,gautier um esmaltador4 ,sainte-,beuve1--continua a escrever ,dumas pae1--no se quer indispor com ninguem4 ,janin um escravo do seu estylo4 ,gautier o ,benvenuto ,cellini do periodo4 ,era-lhes o folhetim vitrine onde estadeavam as pompas da sua linguagem finamente rendilhada4 ,os aulicos da sua crte eram as mulheres da ,opera1 os academicos e os virtuoses4 ,janin pertence actualmente ao numero dos quarenta da academia franceza4 ,como havia o povo de entender um escriptor que traduzia ,horacio e dispunha de recursos para chegar a ser academico8 ,o folhetim1 aristocratisado1 era para os erudictos1 para as salas1 e para os gabinetes4 ,vestia casaca1 leno branco1 e trazia flr na boutonnire4 ,o povo1 que comprehendia ,geoffroy1 no entendia ,janin4 ,mas como o jornal depende essencialmente do povo1 comeou o jornalismo a folhetinisar o noticiario1 a fazer espirito1 a contar anecdotas1 de sorte que o povo comprava o jornal1 no por causa do folhetim1 como no tempo de ,geoffroy1 mas por causa do noticiario4 ,isto foi1 e isto ainda em ,frana4 ,ora eu que no posso ser academico1 que no cinzelo a phrase1 que no disponho de recursos para ser ,janin e ,gautier1 escreverei n'um jornal do povo unicamente para o povo4 ,o folhetim veiu do povo2 preciso portanto que elle v para o povo1 quando o povo o pde receber1--ao domingo4 ,que v1 que lhe falle de assumptos que elle conhece1 que no seja nubloso na phrase1 impuro na ideia1 que no tenha subtilezas1 mas que se faa lr1 que se faa applaudir se poder1 e que uma vez por outra nobilite a caixa de rap do abbade ,geoffroy4 99 99 99 99 99 ,,as ,,italianas ,a esta hora fogem as que estiveram entre ns4 ,deixem-me porm fazer uma observao4 ,as italianas de que vou fallar no so as mulheres de ,italia1--so as mulheres da ,opera4 ,no nasceram para viver1--nasceram para cantar4 ,por isso andam cantando de paiz em paiz1 e chegam no inverno1 quando a natureza emudece1 partindo na primavera1 quando as andorinhas regressam444 ,so ricas1 opulentas1 e todavia o mais que guardam na sua mala so os seus anneis de cabello1 as suas fitas e as suas rendas1 coisas to leves que o vento pde agital-as4 ,o thesouro d'ellas est na garganta2 l que guardam as notas1 que trocam em qualquer paiz1 sem desconto1 antes com o premio das palmas e dos applausos4 ,cantando atravessam o mundo1 as tempestades sociaes1 os cataclismos da humanidade4 ,cabe-lhes perfeitamente a anecdota que se conta do guitarrista ,phillis1 pae da celebre cantora do mesmo nome4 ,uma vez1 durante o ,terror1 um magistrado chamou-o e perguntou-lhe3 --,como se chama8 --,phillis4 --,que faz8 --,toco guitarra4 --,que fazia no tempo do tyranno8 --,tocava guitarra4 --,que vae fazer pela republica8 --,tocar guitarra4 ,ellas tambem atravessam todos os regimens1 a republica1 a monarchia1 a propria tyrannia1 cantando1 sempre cantando1 sem que o imperador ,guilherme recuse ouvil-as por haverem cantado na presena de ,grant ou de ,thiers4 ,constituem ellas mesmas a unica realeza perduravel1 porque l est a ,sass em ,madrid sendo rainha1 victoriada1 festejada1 acclamada1 e todavia a ,hespanha acaba de emergir a fronte do baptismo republicano4 ,o certo que a nobreza lhes instinctiva1 que se habituam a reinar1 a viver baloiadas nos seus briskas1 deslisando sobre tapetes1 roagando sedas1 colhendo flores e joias1 revendo-se em espelhos1 e admirando-se tanto de receber o bouquet d'um burguez como um bracelete que lhes envia um monarcha4 ,uma rainha parece haver alienado a delicada sensibilidade dos seus nervos quando atravessa as multides que se precipitam sobre o coche saudando-a doidamente2 a cantora domina com um sorriso a tempestade dos applausos1 sem chorar de commoo1 sem tremer d'alegria1 sem se desvairar d'orgulho4 ,raso de sobra tinha madame de ,pompadour quando disse depois de ouvir cantar ,sophia ,arnauld3 --,d'aqui havia com que fazer-se uma princeza4 ,parece que de todas ellas a legenda das pastoras que ao depois foram czarinas4 ,nascera da obscuridade1 o destino atira-as aos braos da gloria1-- por via de regra um empresario que as ouve cantar uma tonadilha e as aggremia logo sua troupe--chegam a ser muito ricas1 como se houvessem encontrado thesouros encantados1 e j fiam tanto da sorte1 que esperam encontrar collares e braceletes por toda a parte sem se darem o incommodo de procural-os4 ,ainda outro dia1 na ,russia1 na noite em que a ,nilson se despedia cantando o ,fausto1 lhe fizeram a surpreza de encher de preciosos brindes o cofre que devia abrir ao cantar a aria das joias1 e ella1 sem se admirar1 sem se agitar de commoo1 foi examinando-as e cantando1 cantando sempre1 at chegar a repetir toda a aria1 porque uma cantora de verdadeiro talento bem sabe que a sua voz a vara de condo que faz surgir os thesouros4 ,no quarto acto1 depois da scena da igreja1 deram-lhe um annel todo liso1 do qual pendia uma grossa lagrima1 formada d'um s diamante4 ,felizes mulheres1 para as quaes a saudade do publico se desentranha em lagrimas de444 diamantes6 ,quando acabou o espectaculo1 tiraram-n'a nos braos para a carruagem1 que rodou vagarosamente1 escoltada por gentis cavalleiros1 luz de fachos1 cujos reflexos vivissimos permittiam vr a diva4 s vezes1 como as pastoras da legenda1 chegam a ser esposadas por titulares1 como a ,patti1 hoje marqueza1 e ainda algumas vezes chegam a enamorar os principes4 ,frederico ,,ii quiz a todo o custo reter na ,prussia a ,mara1 e1 quando ella tentou fugir das algemas da admirao real1 expediu emissarios para lhe tomarem o passo e reconduzil-a capital4 ,a poesia desde muito tempo que reconhece a realeza das italianas4 ,depois que no ,porto se introduziu o costume de espalhar versos no theatro lyrico1 em todos elles encontro eu1 revolvendo as colleces1 alguma coisa que denuncia vassallagem4 ,ha quarenta e oito annos dizia um poeta anonymo ,varesi3 ,harmonia1 ,deidade encantadora1 ,da naturesa magico thesouro1 ,legisla aos coraes teu sceptro d'ouro1 ,incenso universal teu throno escora4 ,ha vinte e nove annos outro poeta anonymo cantava ,rossi ,caccia3 ,rainha das canes6 nobre filha ,do portentoso ,lacio1 onde inda ovante1 ,em mil padres de fabrica pujante1 ,a gloria dos ,heroes avulta e brilha4 ,cento e onze annos vo decorridos desde que o governador general ,joo d',almada e ,mello inaugurou o theatro lyrico do ,corpo da ,guarda fazendo ouvir aos seus governados a primeira italiana1 a ,giuntini1 na opera ,trascurato4 ,desde ento para c quasi todas ellas tm atravessado o theatro do ,porto calcando tapetes de flores1 rompendo florestas de applausos1 colhendo nos loureiraes da scena as coras que para ellas pendem1 e sentindo esvoaar sobre a fronte o bando alado dos versos1 muitas vezes com azas de setim1 como aconteceu ,laura ,geordano e ,luisa ,ponti4 ,depois1 porque ellas so como as aves migrantes--deixam aps si o rastro brilhante do seu talento1 e vo levar a ,italia aos gelos da ,russia1 aos nevoeiros da ,inglaterra ou aos lagos da ,suissa4 ,vo1 algumas vezes desprotegidas1 ss com a sua ,italia1 com a recordao dos explendidos horisontes da patria1 das gondolas do seu ,adriatico1 da sua lingua pittoresca e harmoniosa1 que no podem fallar em todo o longo caminho4 ,vo passando de festa em festa1 de theatro em theatro1 e s vezes1 depois do espectaculo1 algumas d'ellas se sentiro tristes na sua pavorosa solido1 ainda ao p das flores que lhes atiraram1 e das joias que lhes offereceram4 por isso talvez que muitas casam com artistas1 para terem um corao que as defenda e um brao que as proteja4 ,procuram talvez mais um corao que as defenda do que um brao que as proteja4 ,a ,schmoehling casou com o violoncellista ,mara1 cujas faces eram hediondas de variola1 perdeu o appellido de seu pae para acceitar o appellido d'este homem1 ella1 a formosa captiva de ,frederico ,,ii1 s porque o ,mara era musico e podia entender-lhe as tristezas sem causa1 os desconfortos do triumpho444 ,uma noite1 ao entrar no camarim para poisar os seus bouquets e as suas coras1 recebe uma d'ellas um telegramma de ,napoles1 porque os talentos mais doces so talvez os de ,napoles4 ,at j um escriptor notou que em ,italia parece haver um dialecto para cada classe de gente4 ,o de ,veneza convm sensualidade das cortezs1 o de ,florena elegante nobreza dos grandes senhores1 o da ,sicilia s graas simples e rusticas dos pastores de ,teocrito1 o de ,roma bonhomia maliciosa dos burguezes1 mas o dialecto de ,napoles o dos artistas1 do povo-poeta1 da populao que nasce a cantar e que vive a cantar sem saber lr nem escrever4 ,o que era o pae da italiana8 ,por ventura um pescador ou ento um canta-storie1 um canta-historias1 a quem os lazzaroni faziam circulo1 sempre que elle apparecia na praa4 ,a diva tem ainda de cantar o final da opera1 mas deseja mais partir para ,napoles1 porque o telegramma lhe diz que o pae est moribundo1 do que subir ao proscenio4 ,no ha transigir com o dever4 ,vae cantar1 a sua voz tem lagrimas1 admiravel1 sublime1 e s o empresario sabe talvez que ella est cantando e sentindo dilacerar-se o corao fibra a fibra4 ,e que se est lembrando de que na vspera da festa da ,piedigrotta1 reunidos na gruta de ,pausilippe1 o pae cantara para o povo a ,finestra bassa1 no seu pittoresco dialecto3 ,finestra bassa e padrona crudele1 ,quanti sospiri m'hai falto gettare1 e de que ella mesma cantra com a sua voz infantil e vibrante aquella formosa aria napolitana ,te voglio ben'assage1 e de que os guaglioni a applaudiram1 os guaglioni que em ,paris1 com o nome de gamins1 lhe venderam algumas vezes jornaes sahida do theatro4 ,quem lhe dera a ella encontrar ainda vivo o pae1 vel-o com a sua jaqueta azul e o seu collete vermelho1 como na noite da ,piedigrota1 mas o publico chama-a1 e acclama-a1 e ella sente deslisar-lhe nas faces a chuva das petalas1 algumas das quaes rolam humedecidas com uma lagrima6 ,finalmente a ovao extinguiu-se1 livre1 e sae do theatro sosinha1 cantando e suspirando ao mesmo tempo3 ,finestra bassa e444 ,quer chegar a tempo de receber a beno paterna1 e vae chorando1 chorando1 porque se lembra de que se o pae a chamou para lhe assistir ao passamento1 ella no ter por quem chamar no leito da morte444 ,pois a gloria8 ,oh6 a gloria s para a vida1 a illuso1 a embriaguez1 o delirio1 e a morte a realidade1 a pedra do sepulchro1 o silencio do cemiterio1 e o mysterio da eternidade444 ,a gloria deixou-a ella com as flores que ficaram no camarim1 sobre as coras de louros que dentro em pouco estaro ressequidas444 ,e todavia1 hora em que ella vae chorando sosinha pelo caminho1 correm o mundo as italianas1 e toda a gente diz--,chegaram6--,viu-as8--,eil-as6 e ella vae j muito perto de ,napoles1 e s com vr o co da sua terra teve coragem para enxugar as lagrimas e soluar3 ,finestra bassa e padrona444 99 99 99 99 99 ,,emilio ,,castelar ,sabeis o que ir correndo mundo1 com os olhos fitos n'uma esperana1 vencendo todos os obstaculos1 dormindo sombra d'uma arvore espera da aurora1 que o pharol dos que navegam no mar da vida1 deixando-se bater dos temporaes que passam mugindo e alastrando a estrada de folhas e flores8 ,os viandantes apenas relanceiam um olhar de surpreza ou desdem ao peregrino que vae absorto no seu pensar1 e logo desviam a vista a procurar horisonte1 sem se importarem mais com a sombra que se afastou1 d'olhos baixos1 porque o horisonte que procura ainda est longe1 porque o co coberto de nuvens sinistras no ca ainda os fulgores iriados do sol444 ,a sombra que perpassou por vs1 caminheiros da vida1 levava uma ideia comsigo1 um proposito1 um desejo1 uma esperana4 ,vs ides com a vossa ideia2 elle vae com a sua4 ,vs procuraes um horisonte2 elle procura outro4 ,vs quereis aproveitar o dia2 elle quer esperar a alvorada4 ,ris-vos6 ,pois se o sol desencadea das alturas torrentes de luz1 dizeis vs1 se tudo azul e oiro no co1 elaborao e abundancia na terra1 como que o peregrino vae a procurar a aurora que se illumina apenas de palidos diluculos1 e no aquece o mundo1 e no fecunda a gleba1 e no doira as aguas8 ,toda a gente vos dar raso1 porque a humanidade costuma legislar para as circumstancias normaes da vida1 para as temperas vulgares que seguem a rotina do vicio ou da virtude1 para as abelhas que volitam em inalteravel rotao em derredor da grande colmea do mundo1 e no vos obrigam a suppr o caso extraordinario de desertar uma do enxame e ir procurar em jardins remotos os sucos com que ha-de encher de mel o seu favo4 ,ah6 no riaes4 que o espirito d'elle no foi vasado nos moldes communs do vosso2 que a sua alma no se pde medir pela bitola que pe limites ao vulgar dos homens2 que o peregrino que passou tem o seu ideial n'umas alturas que s a aguia com a sua vista audaz e penetrante lograr devassar4 ,ride pois4 ,chamae-lhe devaneador1 utopista1 poeta1 visionario444 ,notae porm que nobreza a sua6 ,vs no vos contentaes com o vosso riso banal1 e chegaes ao insulto2 elle vae com a sua ideia e com o seu silencio1 procura do seu sol4 ,vs transigis com todos os accidentes da jornada para vos dardes repouso e conforto2 elle no entra s pousadas1 porque l dentro ha rumor de vozes1 e cada um dos convivas ha de ter uma opinio que pde no ser a sua4 ,senta-se pois sombra de uma arvore1 por entre cujas frondes descem as fitas do luar ou as ondulaes do sol1 porque a arvore pde dar sombra a todos1 e porque sobranceiro arvore fica o co que o abrigo universal444 ,alli tem as suas vises1 as suas luctas1 alli se retemperam as suas esperanas1 e ainda o horisonte to vasto e to limpido1 sem um contorno que denuncie a architectura dos castellos sonhados na phantasia6 ,no importa4 ,bastar uma hora de descano physico para reanimal-o4 ,depois1 l ir pela estrada deserta1 rompendo as trevas1 expondo a fronte ao aoite dos vendavaes1 procura da sua luz4 o peregrinar continuo do sonhador que no encontra1 dizeis vs1 a realidade1 porque o seu ideal no ter realidade4 ,ah6 vs sabeis lr no futuro1 escrutar os segredos do amanh1 sondar o destino que intangivel8 ,e elle1 o peregrino1 tambem se podia rir de vs1 porque elle bem sabe que muitas vezes na nuvem rosada do occaso referve latente a tempestade da noite4 ,no se ri1 no vos insulta3 caminha4 ,mas sabei1 porm1 que o sonhador que vs chasqueaes o audaz ,colombo que vae procura d'um mundo novo2 o velho ,no que anda recolhendo madeiras para construir a arca em que se ha de salvar no diluvio sonhado2 o inquebrantavel ,demosthenes que erra de montanha em montanha para afinar pela orchestra das tempestades a revolta eloquencia com que ha de oppr uma enorme barreira s hostes conquistadoras de ,philippe4 ,todos tres pareciam devaneadores1 e todavia a viso de ,colombo abrange um hemispherio1 e a arca de ,no depe nas faldas do ,arar a familia que ha de ser humanidade1 e ,demosthenes com um s decreto lucta contra os exercitos de ,philippe4 ,se o visseis1 tambem vos ririeis do louco que andava acordando os echos dos fragoedos para domar as rebeldias da palavra1 que devia de ser a primeira espada hellenica4 ,e todavia o devaneador solitario das montanhas mereceu aos athenienses seus irmos este epitaphio3 ,demosthenes1 se a tua fora fosse igual tua eloquencia1 jmais o ,marte da ,macedonia haveria submettido a ,grecia6 ,demosthenes dos tempos modernos1 ,emilio ,castelar1 o sonhador da republica hespanhola1 errava desde os primeiros annos na indefessa peregrinao do seu ideial4 ,quando mais brilhavam de clares festivos os paos de ,castella1 e o throno de ,s4 ,fernando se recamava de custosos brocados1 ia elle mundo alem1 de capital em capital1 ouvindo os homens e estudando os acontecimentos para tirar horoscopos com a credulidade do sonhador que s vive do seu phantasiar4 ,quem no caminho o encontrava1 ficava-se dizendo aos companheiros3 ,visionario6 ,e os companheiros repetiam3 ,visionario6 ,e elle caminhava1 caminhava1 medindo-se com a voz da tempestade1 como ,demosthenes1 e expondo a ampla fronte ao turbilho que arrastava na passagem o sceptro de ,napoleo ,,iii1 a cora d',izabel1 o manto de ,maximiliano1 folhas soltas da arvore da realeza444 ,corria o mundo1 visitava ,paris1 estudava ,roma1 e a peregrinao no tinha ainda acabado1 e havia tantos annos que partira6 ,d'onde partira elle1 o visionario8 ,da praia do seu pensamento1 das regies da liberdade1 da sancta sanctorum onde guardava este evangelho da sua religio politica3 ,a liberdade1 a igualdade1 prgadas no ,golgotha1 selladas com o sangue de ,christo1 verdades religiosas no ,evangelho1 vieram a ser na austera ,suissa1 n'esses ,estados ,unidos que se sacrificam pelo escravo1 grandes verdades sociaes4 ,o mundo moderno1 a civilisao moderna1 no faro mais que estender essas verdades e applical-as vida4 ,so como a lei definitiva da historia4 ,passaro s geraes arrastadas pela corrente dos seculos1 e no daro de si ideal superior ao ideal da liberdade4#b ,para onde ia elle1 o sonhador das ,hespanhas8 ,ia para o futuro que devia chegar fatalmente1 para a realisao do seu ideal1 para as paragens sonhadas que o seu espirito procurava4 ,acabava de vibrar o seu grito de liberdade no ,atheneu de ,madrid e ia para a ,republica de ,hespanha4 ,e1 nem por affrontado do caminho1 levava o corao cheio d'odio contra os reis4 ,amava os principes1 quando fossem magnanimos2 o que elle no queria era a cora1 o throno e o sceptro1 porque a cora averga a fronte1 porque o throno eleva o homem e o homem uno1 e porque o sceptro fatiga o brao que o sustenta4 ,queria liberdade1 e at para os principes a queria4 ,por isso1 quando a generosa alma do filho de ,victor ,manoel1 espavorida dos horrores da grandeza1 quiz sacudir de si os arminhos da magestade1 e aspirou liberdade do seu principado1 do seu lar1 da sua patria1 ,emilio ,castelar1 redigindo a resposta mensagem d'el-rei ,amadeu1 generosa como a renuncia do monarcha1 fez votos porque a liberdade1 que o principe deixra nos seus jardins de ,italia1 voltasse a sorrir-lhe de novo1 deposta a cora que comprime a fronte444 ,quando elle viu descer do throno o ultimo rei d',hespanha1 no parou para dizer--,emfim6--mas antes o ficou abenoando1 porque comprehendeu a alma do principe1 que no tivera uma palavra d'azedume para os que o elegeram e o desampararam1 e porque o julgava to feliz como elle proprio1 porque para ambos havia terminado a trabalhosa peregrinao1 a de um pelas regies do poder1 a do outro pelos dominios da phantasia4 ,e a viso convertera-se em realidade1 e a ,hespanha1 o paiz das tradies monarchicas1 patria de reis que chegariam para occupar muitos solios1 a ,hespanha1 dizia eu1 deixava vazio o unico throno que tinha1 e sem dar tempo a que resfolegasse a ambio dos pretendentes realeza1 arvorava a bandeira da republica sem havr derramado uma gota de sangue nos despojos da magestade444 ,e os que tinham gritado3 ,visionario6 ficaram olhando estupefactos para o horisonte que no co da peninsula apparecia refulgente dos clares matinaes da ideia nova4 ,e o peregrino despia a esclavina do caminho e lanava ao povo hespanhol1 da tribuna do poder1 construida pelo povo1 as primeiras palavras do crdo republicano1 porque1 como disse ,fenelon d'um periodo analogo da historia grega1 tudo dependia do povo e o povo dependia da palavra4 ,se a eloquencia chamada a representar um papel activo nos destinos d'um paiz1 se ella tem necessidade de ser uma instituio do estado e um meio de governo1 de certo quando se desencadeam todas as foras vivas d'uma raa que readquire a consciencia da sua individualidade e do seu poder4 ,ento torrente infrene da vontade popular1 da seiva que rebenta em caches do corao do povo1 preciso oppr a torrente da eloquencia reflectida1 a luz d'um grande espirito1 que desempenhe a misso do sol1 e aquea a seiva1 para que possa fructificar e revigorar todas as sinuosidades do organismo nacional4 ,a ,grecia1 no periodo fecundo que seguiu o grande movimento das guerras mdicas1 quando a alma popular respirava desopprimida do jugo de ,pisistrato1 teve ,pericles que appareceu ao mundo como a mais completa encarnao da fora nova1 dirigindo com a palavra1 durante vinte annos1 os destinos do paiz4 ,pericles1 fallando1 diz um historiador francez1 tinha a fora e a serenidade do ,jupiter homerico1 tal como o cinzel de ,phidias acabava de creal-o4 ,o que dominava no orador era um sentimento profundo da gloria de ,athenas e do papel que ella lhe havia confiado4 ,a ,hespanha d'este que pde ser periodo fecundo1 similhana da ,grecia1 tem tambem o seu ,pericles1 digno como elle do cognome de ,olympiano1 cuja palavra alternadamente poder servir de barreira e de leme1 de sol e de tufo1 de correco e de guia4 ,o mundo antigo costumava vencer com a espada2 o mundo moderno deve convencer com a palavra4 ,convencer vencer duas vezes3 vencer-se a si e vencer aos outros4 ,esta dupla misso pertence ao nosso seculo2 seja pois a palavra que derrube1 a palavra que construa1 a palavra que persuada1 que arraste1 que conquiste4 ,e a ,hespanha1 no por emquanto breve periodo da sua frma republicana1 j por mais d'uma vez tem carecido da fora e da serenidade do ,jupiter homerico1 j comprimindo a impaciencia popular n'este dilemma pungente3 ,ou rei ou dictador1 j serenando as facciosas tempestades parlamentares1 como na sesso do dia #ad de maro1 com o seu verbo incisivo1 pensado e ardente4 ,elle tem1 como ,pericles1 o sentimento profundo da gloria d',hespanha1 e sobre as aguas da democracia que pretende estender a sua vara de ,moyss apontando a liberdade nascente4 ,trabalhar1 fallar1 persuadir4 ,o que elle pede a liberdade collectiva1 a felicidade da sua patria1 mas se o destino lhe fr adverso1 contentar-se-ha com a liberdade individual1 volver modesta posio de escriptor1 aos seus jornaes americanos1 sua velha propaganda at que resurja de novo a aurora1 porque ,emilio ,castelar morrer republicano1 sorrindo liberdade4 99 99 99 99 99 ,,animaes ,e ,,vegetaes ,outro dia ia eu passeando ao longo d'aquella extensa avenida do ,prado do ,repouso1 quasi ao anoitecer1 hora em que os visitantes saem e o coveiro entra4 ,fui andando1 andando1 com os vagos pensamentos que d o estar entre tumulos1 e mais d'uma vez me pareceu ouvir murmurar as grandes arvores que ladeiam a avenida pendidas aos sarcophagos4 ,e insensivelmente me occorreram os versos de ,lamartine3 ,tout parle4 ,et maintenant1 homme1 sais tu pourquoi ,tout parle8 ,ecoute bien4 ,c'est que vents1 ondes1 flammes1 ,arbres1 roseaux1 rochers1 tout vit6 ,tout est plein d'ames4 ,e entrei de contemplar pensativamente as arvores a vr se lhes encontrava coisa que fosse vestigio d'alma4 ,murmurar1 murmuravam ellas2 ora se a gente falla porque pensa1 claro est que os vegetaes teem sensibilidade e intelligencia4 ,depois fui-me lembrando de que ,lamartine havia descoberto outrosim que tudo n'este mundo tinha1 alem de voz e alma1 modo de vida3 444 l'abime est un prtre et l'ombre est un pote e completei os meus pensamentos pela ideia de que1--assim como os vegetaes possuiam alguma coisa de gente humana1 bem podia a gente humana ter alguma coisa de vegetal4 ,e fortifiquei-me na philosophia de ,lamartine tentando averiguar que casta de planta ou arvore seriam algumas pessoas1 das que a phantasia me ia configurando alli mesmo4 ,ah6 bem sei1 disse-me eu1 tu1 uma rapariguinha corada1 muito aceiadinha1 com dois signaes pretos nas duas faces1 tu1 que podes ser mestra de meninas ou femme de comptoir nos bazares do ,palacio1 que nasceste mais para andar em cima d'um prato do que em cima dos taces1 tu1 haverias nascido morango1 sim1 morango1 d'aquelles de que se comem duas duzias1 pela manh1 antes d'almoo4 ,e tu1 rapariga que vendes os morangos1 que nasceste na ,magdalena1 que tens a robustez das organisaes retemperadas pelo mar e pelo acre salutar dos pinheiros1 tu1 que tens perna de varina1 que vens cidade por baixo d'um sol abrasador1 de modo que chegas ,ribeira cheirando a saude e a sol1 tu serias fatalmente1 irremessivelmente1--ma camoeza4 ,e tu1 morena de faces tostadas e pennugentas1 de boas cores carregadas1 cheia1 refeita1 tu1 que no nasceste beira do mar1 mas nasceste beira da serra1 tu nascerias1 se teus paes fossem vegetaes1 tu nascerias pcego4 ,e tu1 camponeza quarentona1 com as tuas enormes argolas a cahirem nos refegos do pescoo1 tu1 que vens cidade em dias de romaria com os teus pesados grilhes d'ouro e as tuas grandes soletas de verniz e setim1 tu1 que s talvez me de dez ou doze raparigas-pcegos1 tu serias uma rotunda bolina1 no das que os lavradores vendem1 mas das que do de presente ao administrador ou ao juiz de direito4 ,e tu-- contraste6--tu1 menina esverdeada1 que tens escrophulas ou soffres do figado1 tu que pareces sahir d'um banho de verdete e que tens uma mam com o mau gosto de te dar vestido verde1 e brincos de esmeralda1 tu1 pendida do teu camarote1 para melhor ouvires o ,santos ou a ,emilia ,adelaide1 tu1 n'essa mesma inclinao em que te vejo1 tu haverias nascido1 desventurosa menina--como isto triste6--tu haverias nascido--vagem4 ,e tu1 borracho encartado1 que tens o unico modo de vida de passar os dias nos armazens1 que trazes a cara colorida dum vermelho-roxo que d o abuso do vinho1 tu1 que s to inutil para o mundo como o a amora para o lavrador1 tu apparecerias n'este mundo1 se teu pae se chamasse ,silva1--feito amora4 ,e tu1 que nasceste fadado para seres caixeiro de teu pae1 que poderias chegar a aperfeioar o artefacto com que elle se enriqueceu se no desses a escrever versos e a lr poetas allemes1 a pintar olheiras1 a fazer-te triste1 a andar com a cabea pendida1 a escrever o teu artigosinho para o jornal1 tu1 que andas curvado a procurar pelas ruas os pensamentos que os outros deixaram1 tu1 se no fosses o que s1 meio litterato e meio negociante1 tu serias o que devias ser--choro4 ,e tu1 que s alto1 magro1 escuro1 que trazes bengalo e no bates em ninguem1 que serves quando muito para fazer inflammar a gente1 tu nascerias pinheiro1 e darias pinhas1 que so boas para atear o fogo4 ,e tu1 calumniador insupportavel1 que appareces entre os homens para aborrecel-os e para incommodal-os1 tu1 de quem todos fogem e que s serves para incommodar e aborrecer1 tu1 se nascesses n'um jardim1 serias com toda a certeza--arruda4 ,e tu1 feia de boas qualidades1 mal feita de corpo e bem feita da alma1 tu1 que no tens graa propria e soccorres a desgraa alheia1 tu nascerias marmello1 fructo pouco sympathico1 de que se faz a marmellada1 que realmente muito peitoral para os que soffrem4 ,e tu1 parasita1 que andas sempre encostado aos outros1 que te vaes mettendo viva fora por entre os que teem um vintem de seu1 que nos vaes perseguindo medida que te vamos enxotando1 tu bem sabes o que serias1 parietaria social1 tu serias--hera4 ,e tu1 que s anguloso1 que trazes sempre o casaco a danar nas protuberancias osseas e os joanetes a luctar com as botas1 tu1 que s uma pessima figura e talvez uma boa alma1--tu nascerias pra de sete cotovellos4 ,e tu1 languido ,romeu1 que ests sempre doente1 que no pensas em ganhar a vida porque teu pae tem bom emprego1 que precisas de muito resguardo1 segundo diz a mam1 e que passas quasi todo o anno mettido no mar1 a conselho do medico1 tu s para a sociedade o que a alface para a mesa1--uma coisa molle e transparente1 que no fortalece o estomago e que se come por luxo--portanto tu serias--alface4 ,e tu1 aborrecido grosseiro1 que nos deixas sempre indigestos da tua presena1 que s s supportavel quando ests ao p de tua irm1 que so uns bons trinta annos1 e de tua filha1 que so uns bons vinte contos1 tu serias pepino1 sim1 tu serias pepino1 fructo que s se pde tolerar1 em salada1 com azeite e vinagre mistura4 ,e tu1 pequenina graciosa1 que pareces contar eternamente vinte annos1 que ds gente vontade de te passear ao collo em vez de te passear pelo brao1 que tens no obstante a elegancia da tua pequenez1 tu serias forosamente1 pequenina e gentil como s1--tu serias--avell4 ,e tu1 conductor de mala-posta1 queimado e musculoso como um athleta1 tu1 que atravessas serras e serras ao pino do meio dia1 e ests sempre apto para o servio1 tu s a uva da humanidade1 porque a uva tambem vive entre fragas1 e recebe cr do sol que apanha1 e tem o prestimo que tu lhe costumas utilisar muitas vezes ao dia1--e por isso1 conductor de mala-posta1 tu1 a seres vegetal1 serias--uva6 ,e tu1 menino que cursaste sete annos o lyceu1 e incommodaste os professores com grandes empenhos e teus paes com grandes despezas1 para ao cabo de sete annos de luctas e dispendios alcanares unicamente certido de exame de francez1 tu1 inutilsinho1 pedantesinho1 que te ds a importancia da tua ignorancia1 sabes como se chamaria teu pae1 se fosse arvore1 e como te chamarias tu1 a seres filho de teu pae8 ,pois bem1 eu t'o digo1 para que o fiques sabendo1 d'uma vez para sempre1 entende bem1--d'uma vez para sempre1--elle chamar-se-ia ,carvalho e tu serias--bugalho4 ,e tu1 eterno pretendente1 que vives aos ps dos ministros1 que te ds bem na humidade das secretarias1 que encaras como modo de vida o ser pretendente1 que no serves seno para seres o que s1--que te parece que serias se a philosophia de ,lamartine no fosse apenas um devaneio poetico8 ,tu serias tortulho4 ,e tu1 agiota1 fraca figura que tens a fora do dinheiro1 que s preciso para tudo1 que tens o que d luz ao homem e sabor vida1 que tens na tua algibeira o azeite com que se tempra e allumia a existencia1 tu nascerias--azeitona4 ,e tu1 irascivel1 atrevido1 petulante1 que pareces arder e fazes arder a gente1 que te ds a conhecer em toda a parte pela rudeza agreste de teus gestos e palavras1 tu1 a no seres o petulante1 o atrevido1 o irascivel que s1--tu serias malagueta4 ,e tu1 espirito lucido e malicioso1 que tens graa1 que tens alegria1 que ds colorido e relevo s mais relamborias semsaborias1 tu que s a animao e a vida1 que desembotas o paladar e abres o apetite1 tu nascerias--pimento4 ,e tu1 alma angelica1 pallida enfermeira do filho moribundo1 nobre corao que enthesouras todas as riquezas n'esse cofre em que se torna o corao da mulher quando chega a ser me1 santa1 me1 tu serias o que de mais delicado pde haver entre as flores1--tu serias--lyrio4 ,e tu1 irm carinhosa1 formosa e boa1 terna e gentil1 mixto de innocencia e formosura1 pura amiga1 doce amparo1 que te escondes do mundo se ns soffremos1 e que lhe sorris se o sol da felicidade nos doira a vida1 tu serias1 porque o s1--sensitiva4 insipida menina1 que dizes no meu senhor1 sim meu senhor1 que no sabes sorrir1 que no sabes fallar1 que no sabes viver--tu serias--lima4 ,mas teu primo1 aquelle azougado rapaz1 que a alegria da tua casa1 que est sempre a metter-te bulha1 e que parece ter sido dado luz por tua tia para compensar o disparate que tua me fez gerando-te1 teu primo1 que deve ter um appellido similhante ao teu1 teu primo seria--limo4 ,e tu1 filha do burguez1 que no vaes ao theatro1 porque teu pae s gostava da ,degolao dos innocentes1 e acha estes dramas modernos pataratas1 tu1 que no s gentil1 mas que pezas cincoenta contos de reis1 tu1 que tens muito que comer em444 dinheiro1 tu1 invejavel burgueza6--tu serias melancia4 99 99 99 99 99 ,,academia ,,de ,,coimbra ,se no organismo das naes1 como no organismo do homem1 indispensavel um corao que alimente a vida publica1 deve o sangue portuguez jogar em systole e diastole1 ahi1 onde vs estaes1 nos paos da ,universidade4 ,coimbra o corao de ,portugal4 ,para ahi confluem as veias cavas cujo sangue negro da mocidade inculta ahi vae ser purificado no pulmo da eloquencia1 e d'ahi que nasce a aorta que revigora os vasos capillares d'este grande homem collectivo chamado ,portugal4 ,e digo grande1 porque sois vs que fazeis mover as valvulas do corao portuguez1 vs1 a intelligencia de quatrocentos homens1 garantia de existencia futura1 vs o futuro mesmo4 ,ahi aprendeis a deletrear o passado da vossa patria nos traos architectonicos do pao das ,alcaovas1 na contemplao dos retratos dos illustres vares que revestem as paredes da sala dos actos grandes1 e d'alli aprendeis a amar o futuro embalados nas santas aspiraes que mutuaes no desenfadado conversar da via latina ou no suave bordejar do vosso ,mondego4 ,sois1 vs todos os que passaes por esse grande chrysol1 duas vezes portuguezes3 portuguezes pelo passado1 portuguezes pelo futuro4 ,e para ser nobre1 e generoso1 e digno1 basta haver nascido portuguez4 ,mas vs quereis mais1 deixaes os vossos lares1 a vossa familia e a vossa aldeia para vos irdes juramentar no exercito do futuro1 cuja cazerna se levanta como reducto venerando a dominar a vossa ,coimbra1 a praa do militarismo intellectual1 onde a intelligencia faz sentinella1 e se aprende a manejar armas nos combates incruentos do espirito4 ,tinheis a serenidade lareira das vossas arvores1 e ides procurar a sombra menos consoladora dos claustros do vosso annoso baluarte4 ,tinheis a aldeia e os seus remanos1 e quereis a lucta e os seus alvoroos4 ,tinheis a familia que o ocio1 e procuraes a patria que a grande batalha1 onde todos combatem4 ,vs sois os defensores e a causa1 os soldados e a bandeira4 ,defensores1 porque ahi estaes retemperando as armas do combate2 a causa1 porque sois a gerao nova1 e a gerao nova o amanh1 e a patria depende do amanh4 ,soldados1 porque tendes a vossa bandeira2 bandeira1 porque combateis por vs mesmos4 ,hoje sois a academia2 amanh sereis a sociedade4 ,hoje vestis a batina2 amanh cingireis a toga do magistrado1 os talares do sacerdote1 a opa do tribuno1 a banda do militar1 os arminhos do ministro4 ,hoje sois a nau do futuro2 amanh sereis o leme4 ,hoje ides na tolda cantando ao luar os poemas das vossas navegaes amorosas2 amanh estudareis luz da bitacola os contornos coloridos do atlas4 ,hoje sois a almenara do acampamento2 amanh sereis o pharol da sociedade4 ,hoje ouve-vos o ,mondego2 amanh ouvir-vos-ha o mundo4 ,d'ahi sahireis apostolos e soldados3 apostolos da religio do bello e do bem2 soldados das tradies gloriosas da patria4 ,a vossa palavra fecundar o solo portuguez1 e vossos filhos recolhero no celleiro nunca exhaurido das memorias gloriosas a colheita que vs lhes preparardes em cinco annos de suado e ininterrompido agricultar nos campos do pensamento4 ,a charrua o instrumento da fecundao1 e vs conduzireis a charrua1 que a me da abundancia universal4 ,de vs1 que sois o futuro1 proviro os destinos do futuro1 e assim vos perpetuareis nas idades porvindoiras da patria4 ,vs sois a madrugada do vosso dia2 e se a aurora repontar rosada e loira1 o vosso dia ser ameno e tranquillo4 ,se agricultardes a terra1 a terra fructificar4 preciso portanto que derrubeis os velhos preconceitos1 as antigas usanas da vossa vida academica1 nocivas a vs e patria4 ,o agricultor1 que1 ao alvorejar da manh1 sae do tugurio1 d'enxada ao hombro1 primeiro derruba as parietarias que lhe comem o pomar do que desbrava os matagaes que lhe ensombram a sementeira4 ,sde como o agricultor1 e primeiro extirpae as tradies anachronicas da academia do que as tradies anachronicas da sociedade4 ,a troa um velho habito da vida escholastica da ,universidade4 ,vs1 que vos estaes preparando para defrontar os mais nublosos problemas do futuro1 retrocedeis ao passado pelas chacotas truanescas da troa4 ,troar ridicularisar4 ,fundi a estatua da humanidade1 no traceis a caricatura do homem4 ,no caloiro ha o embryo que pde ser flr1 a chrysalida que se volver borboleta4 uma recruta que vem procurar o vosso regimento4 ,recebei-o1 no o amedronteis4 ,aquella alma no est to vasia que no tenha uma aspirao4 ,no to cega1 que no procure a vossa luz4 ,no to inerte1 que no queira lidar comvosco4 ,dentro dos muros da vossa praa d'armas todos devem de ser soldados2 a divisa una1 e uno o exercito2 una a bandeira1 e uno o triumpho4 ,hoje sois irmos2 amanh sereis homens4 ,hoje viveis na communidade da vossa aspirao2 amanh vos apartareis para os vossos destinos4 ,a vossa ,universidade o tabernaculo onde desde o reinado d'el-rei ,diniz se archiva a taboa da lei4 ,ahi aprendeis vs a respeitar o direito1 a observar o dever4 ,a troa uma offensa ao direito primittivo2 por tanto1 vs1 almas generosas e nobilissimas1 extinguireis a velha tradio academica4 ,conheceis1 melhor que eu1 o artigo #bchc do ,codigo4 ,breve sereis chamados a pedir nos tribunaes justa punio violao dos direitos adquiridos4 ,breve tereis de sahir a propugnar pelos interesses materiaes externos dos vossos clientes4 ,comeae pois por defender os direitos primitivos de vs mesmos2 por impr respeito personalidade physica e moral da vossa numerosa familia universitaria4 ,a troa abriu recentemente1 no seio da academia1 a sepultura de ,antonio de ,barros ,coelho de ,campos4 ,no caveis sepulturas entre vs4 ,a morte a saudade1 e vs sois a esperana4 ,a morte o occaso e vs sois a aurora4 ,a morte o passado e vs sois o porvir4 ,a morte a quietao e o silencio2 vs sois o movimento e a vida4 ,sobre o vosso arraial no deve pairar a morte1 porque as vossas lides so incruentas4 ,a ampulheta1 que regula a vossa vida1 deve medir o tempo2 no deve descanar na eternidade4 ,uma sepultura uma coisa inutil entre vs4 ,amaes os salgueiraes do ,mondego1 porque n'elles remurmura o ecco dos vossos cantares4 ,amaes a onda limpida do vosso ,pactolo1 porque ella deslisa sobre a areia doirada do lveo4 ,a sepultura muda a todas as interrogaes4 ,o unico movimento que a sepultura permitte o ondular das hervagens que a cobrem4 ,onde havia uma intelligencia e um corao1 ha agora um comoro e uma cruz4 ,a morte no admitte exforos3 o irreparavel4 ,luctar com a morte esgrimir com o silencio e com o p4 ,a vossa raso lucidissima1 para que queiraes luctar com o impossivel2 o vosso animo valorosissimo para que tenteis bater-vos com phantasmas4 ,vs deveis estar n'um polo1 e a morte no outro4 ,que a cinza esteja no cemiterio1 e o fogo na ,universidade4 ,que o choro abrigue a urna1 e o loureiro ensombre o livro4 ,que descance o nada1 e que o germen elabore4 ,tudo festa em derredor de vs1 e a saudade inimiga da festa4 ,o lucto triste3 reservae-o para a velhice4 ,e todavia vs estaes de lucto4 ,ha um cadaver e no houve assassinio4 ,ha victima e no houve algoz4 ,houve apenas uma grande fatalidade4 ,correu sangue1 e no raivou odio4 ,eram tudo irmos1 e morreu ,abel sem haver ,caim4 ,a logica dos acontecimentos terrivel4 ,foi ella1 e s ella1 que comprimiu a academia nos rostros d'este dilemma3 ,carcere e ,sepultura4 ,foi ella1 e s ella1 que abriu o carcere1 a sepultura da vida1 e lhe atirou para dentro um corpo vigoroso e uma alma innocente2 que descerrou a sepultura1 o carcere da eternidade e deixou cahir no fosso um corpo inanimado1 viuvo d'uma alma sonhadora4 ,d'um lado o cemiterio2 do outro a priso4 ,ambos frios1 calados1 tenebrosos1 vastos1 medonhos4 ,n'um o repouso dos vivos1 n'outro o repouso dos mortos3 em nenhum a liberdade4 ,e1 sepultos na frialdade1 no silencio e nas trevas1--dois corpos4 ,sob a abobada um corpo que desejara a morte2 sob a terra um corpo que tinha direito vida4 ,quem os matou a ambos8 ,foi a troa4 ,a troa homicida4 ,dispensae a interveno da policia academica4 ,onde ha intelligencia1 a intelligencia que governa4 ,pouco importa abolir de direito a troa2 vs a abolireis de facto4 ,fazei dos vossos peitos muralha para oppr logica terrivel dos acontecimentos4 ,a vossa poderosa vontade esmigalhar para sempre o fatal dilemma2 no preciso intervir a alabarda do archeiro4 ,eu quizera vr abolida a troa no pela ,universidade mas pela ,academia4 ,e assim ha-de ser4 ,sabereis vingar com a vossa provada grandeza o irmo que est no carcere e o irmo que est na sepultura4 ,a abolio da troa ficar para sempre vinculada memoria por igual pungente e sublime da catastrophe de #c de maio4 ,triste1 porque foi uma dupla desgraa4 ,sublime1 porque se as lagrimas da academia inteira nobilitaram a memoria do morto1 o perdo do pae inconsolavel1 antecipando-se deciso piedosa da justia1 nobilitou a desgraa do vivo4 ,quando o corao de pae no achou culpa1 ,themis no achar peso na balana4 ,o corao de pae1 ferido por to excruciante dr1 o verdadeiro ideal da justia4 ,e a justia do pae perdoou4 ,a justia do tribunal perdoar tambem1 esperemol-o4 ,porque1 vs o sabeis melhor que eu1 a justia para a sociedade o que o pae para a familia3 o poder supremo4 ,a vara1 que representa a auctoridade1 cajado e ltego3 o mesmo na familia que na sociedade4 ,e sendo esta dupla auctoridade uma personalidade moral1 que pde symbolisar-se em ,jano1 o deus bifronte1 no esperemos vr umas faces illuminadas pela luz evangelica do perdo e outras avincadas pelas rugas sinistras da severidade4 ,e esta grandissima catastrophe ficar para sempre archivada na tradio de ,coimbra1 com justos applausos da historia1 porque ella por a descoberto a grandeza de muitas almas3 da victima que morreu sem odio2 do encarcerado que chora o arrependimento de culpa que no teve3 do pae que perdoou2 e de vs todos1 que no consentireis mais que dentre vs saiam desgraados para o carcere e cadaveres para o cemiterio4 99 99 99 99 99 ,,os ,,annuncios ,o annuncio o seculo4 ,saber annunciar saber viver4 ,quem melhor annuncia mais ganha4 ,dize-me se sabes annunciar1 dir-te-hei quem tu s4 ,ha por ahi algumas raras pessoas a quem repugna a vaidade de se dizer no annuncio o que se no devia dizer1 e mais do que se devia dizer4 ,so os retrogrados1 os que ficaram parados no caes quando o progresso partiu a explorar mundos desconhecidos1 os pagos da antiguidade que s conheciam como meio de publicidade a trombeta da fama1 so finalmente os que vivem no seculo e no comprehendem o seculo4 ,suspiram ainda pelas epistolas do ,braz ,tizana1 acendem a vla com lumes de pau1 e preferem o mysterio do logogripho ao prego do annuncio4 ,detestam todas as modernas manifestaes do pensamento--o annuncio1 a reclame1 a abundancia de jornaes e a alluvio de lumes promptos de phosphoro4 ,de lumes promptos de phosphoro6 ,sim1 senhores4 ,l disse ,moleschott que sem phosphoro no ha pensamento2 ,couerbe que a ausencia de phosphoro no encephalo1 reduz o homem ao estado de bruto1 e ,paulo ,janet que o phosphoro se tornou o grande agente da intelligencia1 o estimulante universal1 a propria alma4 ,o annuncio progrediu com o jornal1 como o lume-prompto progrediu com o phosphoro4 ,jornal e phosphoro so irmos3 o jornal a ideia2 o phosphoro a luz4 ,as tribus selvagens1 que no conhecem o phosphoro1 desconhecem o jornal4 descoberta da imprensa andam ligados dois nomes3 ,guttemberg e ,fust2 descoberta do phosphoro outros dois3 ,brandt e ,kunckel4 ,estes quatro homens1 irmos pelo genio1 descobriram a luz que a todos nos alumia e aquece4 ,uma caixa de phosphoros um pequeno jornal illustrado3 as caixas do snr4 ,melchior ,sola fazem circular os retratos de ,bismark1 de ,castelar e ,d4 ,amadeu2 os phosphoros inglezes1 conhecidos pela designao de flamns1 espalham os retratos de ,gladstone1 do marquez de ,lorne e do doutor ,livingstone4 ,os mesmos vendilhes que pregoam de manh os jornaes populares vendem de tarde caixas de phosphoros4 ,o annuncio desenvolveu-se com o jornal1 e o lume-prompto completou-se pelo phosphoro4 ,o annuncio comeou por ser laconico1 serio1 conciso4 ,tinha a principio uma pollegada de capacidade4 ,depois dilatou-se e desenvolveu-se4 ,hoje o annuncio pde ter um palmo de largura e -lhe permittido alargar-se at occupar uma pagina inteira do jornal4 ,traz vinhetas1 medalhas1 tarjas1 e muitas vezes--versos4 ,o antigo lume-prompto era uma esquirola de pau com as extremidades empapadas em enxofre derretido4 ,para inflammal-o urgia pl-o em contacto com um corpo j em ignio4 ,o annuncio teve um periodo similhante1 quando precisava de que o espalhassem2 hoje espalha-se elle per si mesmo4 ,vieram depois os lumes-promptos chamados chimicos que appareceram em #ahji4 ,para acendel-os era preciso mergulhal-os em acido sulfurico4 ,havia tanta demora em annunciar como em fazer luz4 ,em #ahcb foram substituidos os lumes oxygenados pelos lumes de frico4 ,s um anno mais tarde se completou o lume prompto juntando-se-lhe o phosphoro4 ,comeou ento o pensamento a invadir o mundo2 o annuncio a espalhar as invenes modernas2 o phosphoro a derramar a luz e a divulgar os retratos dos grandes homens2 o jornal a contar dia a dia os passos e as proezas dos homens cujo retrato nos havia custado dez ris4 ,por toda a parte nos persegue o annuncio1 o phosphoro e o jornal4 ,em ,madrid1 no ,prado1 andam enxames de rapazes1 hora do passeio1 a espalhar tudo isso3 atiram os annuncios para dentro das carruagens1 mettem-os no bolso do paletot de quem vae andando1 e em vez de gritarem como antigamente--,la candla1 seoritas1 esbofam-se a apregoar--,cirillos1 seoritas4 a febre da publicidade4 ,est a gente no theatro a assistir a um espectaculo2 de repente sente um papel nas mos3 j o annuncio d'outro espectaculo4 ,vae a gente pela rua e parece cahir das nuvens sobre o chapo o annuncio d'um perfumista1 d'um luveiro ou de um domador de fras4 ,annuncios de todas as cres1 de todos os feitios1 de todas as frmas geometricas4 ,deixem negar ,paulo ,janet que o pensamento seja um movimento4 ,que elle pergunte se j se viu um pensamento em spiral1 um pensamento circular ou um pensamento rectilineo4 ,a ns compete respondermos que j temos visto pensamentos circulares nas etiquetas das garrafas1 e que a quarta pagina do nosso jornal nos traz todos os dias pensamentos rectos1 pensamentos curvos1 e pensamentos quebrados4 ,o annuncio espalha a litteratura1 a gravura e a geometria4 ,o annuncio uma philosophia1 e a synthese do annuncio est no ,almanach da ,agencia ,primitiva4 ,do alto d'aquelle livro v-se o mundo todo4 ,o snr4 ,braun ,peixoto o ,atlante dos tempos modernos4 ,sustenta sobre os hombros a machina gigantesca dos homens e das coisas4 ,eu acho to indispensavel o snr4 ,braun ,peixoto como mr4 ,du ,barry2 to indispensavel o annuncio como a ,revalescire4 ,ella restitue a saude do corpo1 elle restitue a saude do espirito4 ,ou illustra ou diverte4 ,uma pessoa est triste1 e no se pde alegrar com champagne1 porque tem mau estomago4 ,procura no jornal um annuncio tolo1 e consegue rir-se4 ,ahi vo trez specimens d'annuncios1 que fazem cocegas3 ,,rua ,,tal1 ,,numero ,,tantos ,continua a ir pentear senhoras1 assim como pentea caracoes4 99 99 99 99 99 ,vende-se um piano de manivella por pouco dinheiro4 ,o motivo da venda o proprietario no entender da materia4 ,,programma #a4 ,symphonia4 #b4 ,jogos ,icarios por mr4 ,bergonsini e sua familia4 #c4 ,variados trabalhos por outros ces intelligentes4 99 99 99 99 99 ,,vende-,,se ,uma cabra e um violo1 e algumas missas n'esta redaco4 ,este annuncio mereceu as honras de segunda edio1 e sahiu de novo com as seguintes correces e emendas3 ,,atten,o ,diz-se n'esta redaco quem vende uma cabra1 algumas missas1 e um violo4 ,ou finalmente este3 ,quem nas immediaes de ,lamego perdesse um albardo pela romagem dos ,remedios de #ahfg1 etc41 etc4 ,annuncios ha1 porm1 que se impem pela extenso1 pela gravidade1 pela elegancia1 e at pela pureza do dizer1 acrescendo a tudo isto1 que j no pouco1 serem verdadeiros4 ,haja vista o annuncio da frasqueira dos snrs4 ,castro ,leo1 publicado n'este jornal e em outros4 ,por traz d'aquelle annuncio enxergam-se dois rapazes elegantes1 que principiam a negociar em vinhos tambem elegantemente1 e que para redigirem o annuncio calaram luvas do ,sertori4 ,escrevem para o publico como escreveriam para um amigo1 por exemplo3 ,no se especialisam mais vinhos como branco do ,porto1 ,carcavellos1 ,chably1 ,mansanilha1 ,madeira e muitos outros para no tornar a lista mais longa1 e por isso talvez fastidiosa4 ,isto delicado4 ,annunciantes ha que fatigam o publico1 porque entendem que o publico s afflue quando se v impertinentemente rodeado d'annuncios e reclames4 ,tudo quanto se diz alli1 verdade4 ,vae a gente em bacchica peregrinao frasqueira da rua do ,rosario e encontra abundancia1 riqueza1 bom gosto e1 digamol-o1 bom tom4 ,plantas1 crystaes1 candelabros e porcelanas4 ,o ,baron ,latour sorri amavelmente2 o ,chateau d',yquem cumprimenta2 o ,sparkling atira-nos um beijo d'espuma iriada e1 tentao1 venha a taa1 ,evoh6 e em derredor o ,bourgogne1 o ,hochheimer1 o ,forestier1 o ,venoge e o ,medoc comeam a bailar nas prateleiras e a entoar ruidosamente um dythirambo4 ,quem nos levou l8 ,foi o annuncio4 ,o annuncio falla1 o annuncio chama1 o annuncio fascina4 ,rases tinha o meu querido ,julio ,machado para dizer3 ,annunciae1 annunciae6 ,sempre d'ahi se tira alguma coisa6 ,annunciar armar o barco para sahir pescaria4 ,convm que seja bonito o batel1 e que v alegre o pescador1 cantando uma barcarola1 para que o fundo do mar o oia e de terra o vejam4 ,eu conheo annunciantes tristes1 que fazem annuncios tristes1 com dizeres tristes1 e que muitas vezes vendem objectos tristes4 ,o resultado que as pessoas de temperamento nervoso1 e hoje o predominante1 no lem segunda vez o annuncio1 nem vo loja1 nem compram os objectos4 ,e o annunciante1 se annuncia tristemente1 tristemente vive e tristemente morre4 ,um homem pde vender sapatos de defunto com tanto que se saiba annunciar4 ,se elle disser3 ,fulano tem grande sortimento de sapatos de defunto para cadaveres de todas as idades diz mal1 e a gente no lhe quer passar pela porta com receio de que lhe cheire a cemiterio4 ,mas caso annuncie3 ,quem esperar que eu lhe d o que costumo vender1 toda a vida andar descalo diz bem1 mysterioso1 tem novidade1 e faz espirito com a coisa mais triste d'este mundo1 perdo1 com as duas coisas mais tristes1 porque o annunciante no vender um sapato s4 ,quando se no poder ser elegante no annuncio1 seja-se ao menos mysterioso4 ,e fazer como aquelle cavalheiro d'industria que chegou a uma feira1 armou barraca1 e pregou porta este distico3 ,quem quizer vr a ardina1 ,deite dez reis e corra a cortina4 ,ardina um provincianismo2 tanto vale como ardil4 ,deitavam-se os dez reis caixa1 corria-se a cortina1 e que se via8 ,um burro velho preso mangedoura pela cauda4 ,era o ardil4 ,ninguem se queixava do annunciante porque elle tinha prevenido no annuncio4 ,e depois ninguem queria dizer o que tinha visto para no confessar que fra enganado4 ,ia toda a gente vr a ardina2 sahia a rir1 e no dizia nada4 ,quando acabou a feira1 o cavalheiro d'industria tinha os seus vintens4 ,e a quem os deveu8 ,a elle proprio1 que soube ser mysterioso4 ,supponhamos que o snr4 ,costa ,braga1 fundador da chapelaria a vapor1 fornecedor da casa imperial do ,brazil e da casa real de ,portugal1 precisava de annunciar os seus excellentes chapos4 ,se dissesse simplesmente que vendia chapos finos1 lustruosos como setim1 ninguem recordaria que o snr4 ,costa ,braga gastara cem contos de reis para montar a sua fabrica4 ,se1 porm1 annunciasse3 ,delicadas estufas de feltro para os pensamentos1 redomas de sda e carto para perseverar das intemperies as mais mimosas ideias o snr4 ,costa ,braga teria de fechar as suas portas por no ter tempo de vender a todos os compradores chapos altos e chapos baixos1 artisticamente annunciados4 99 99 99 99 99 ,,industria ,,das ,,ruas ,industria das ruas a arqueta do belfurinheiro1 o urso que maneja um pau1 o macaco que toca pratos1 o garrano que conta as horas1 a harpa1 o realejo1 a gaita de foles1 o sabonete que tira as nodoas1 o cosmorama1 a loteria1 o arranca-dentes1 o arlequim1 o compe-loua1 o pick-pocket1 e mais ainda4 ,todos os homens so como os passaros3 teem seu ninho4 ,voar voam s vezes1 e para longe1 mas no seu ninho que descanam1 no seu ninho que dormem4 ,os negociantes da rua1 que constituem para assim dizer uma humanidade parte1 so como as borboletas2 voar1 sempre voar6 ,e assim como os naturalistas atravessam com um alfinete o corpo das borboletas para as fixarem n'um carto1 usam alguns escriptores fazer da penna alfinete para apresentarem humanidade das salas1 em livros e jornaes1 a humanidade das ruas4 ,em ,frana os typos populares teem tido por photographos habilissimos talentos4 ,bastar citar dois ou tres livros1 porque so numerosos os que tractam do assumpto4 ,eu conheo o ,ce qu'on voit dans les rues de ,paris e ,les espectacles populaires et les artistes des rues por ,victor ,fournel2 ,enigmes des rues de ,paris por ,eduardo ,fournier e ,clbrits de la rue de ,charles ,yriarte4 ,em ,portugal apenas um ou outro escriptor se tem occupado em artigos de jornal--lembro-me agora do snr4 ,alexandre ,herculano e de ,julio ,cesar ,machado--dos typos populares4 ,e todavia esse immenso mundo das ruas tem1 como todos os mundos1 seus mysterios1 suas lagrimas1 seus sorrisos1 seus romances1--o que lhe dava direito a ter tambem a sua litteratura4 ,estude-o porm quem se julgar com foras para o fazer2 eu limitar-me-hei hoje a pregar n'este carto volante duas ou tres borboletas1 das que se andam espanejando nas ruas1 luz do sol de ,deus1 e que podem constituir1 quando muito1 outras tantas paginas da epopa do povo4 ,o leitor perfeitamente conhece os meus typos1 de os vr todos os dias1 de manh1 em frente da igreja dos ,congregados1--um com o seu cosmorama1 o outro com os seus canarios4 ,o do cosmorama estava fazendo fortuna1 mrmente em dias de feira1 mas vae seno quando apparece-lhe um rival temivel na feira de ,s4 ,lazaro1 com um cosmorama muito mais variado1 porque tem vistas sacras e profanas1 e com o que mais1 com um voseiro capaz de suffocar a voz de todos os expositores de cosmoramas4 ,occupemo-nos em primeiro logar do parvenu da feira de ,s4 ,lazaro1 e do seu cosmorama mixto4 ,typo de cigano1 olhar e linhas de invencivel velhacaria2--jaqueta1 chapo de lavrador e calas d'almocreve4 ,a mulher1 um pouco gibosa1 e zombeteira como todos os gibosos1 est sentada1 emquanto o homem falla1 n'uma das travessas do ,x de pau1 que sustenta o cosmorama1--sempre a rir um risinho444 ,eu no pude averiguar se ella se ri da velhacaria do homem1 se da credulidade dos espectadores4 ,o certo que ri sempre4 ,o homem ronca de p1 com a precipitao d'um jorro d'agua1 dando ao pescoo o geito d'um cysne que levanta a cabea4 ,comea a funco1 e a mulher a rir1 alapada entre o cosmorama e o cho1 como um satyro feminino n'uma gruta444 ,comea o espectaculo e o discurso3 ,vamos1 senhores1 cheguem-se para vr as grandes guerras da ,frana e ,prussia4 ,isto baratinho1 custa apenas #aj reis1 ainda temos dois vidros4 7,para um espectador3 ,d c #aj reis47 ,passamos a vr a primeira vista4 ,ahi tendes1 senhores1 a grande cidade do ,rio de ,janeiro1 aquella grandiosissima cidade com a sua barra por onde entram e saem embarcaes e grandes naus3 olhae1 senhores1 para o vosso lado direito1 e vereis o grande palacio do imperador de quatro andares4 ,olhae ao centro e vereis a grande ilha das ,cobras2 esquerda l se avista a grande torre da ,candelaria onde o imperador vae missa4 7,o orador enxota com a vergasta um gatuno que tenta espreitar por cima do hombro d'um espectador47 ,passamos agora1 senhores1 a vr o grande exercito prussiano a bater o exercito francez3 olhae ao centro que l vereis j #ab3jjj francezes prisioneiros2 esquerda l se vem sahir os prussianos debaixo d'umas arvores4 ,pela direita444 7,um espectador1 desorientado1 volta subitamente os olhos para a esquerda1 e1 reconsiderando1 vira logo o pescoo para a direita4 ,o orador37 ,pela direita l chegam os carros dos feridos francezes2 mais adiante l se v ,napoleo ,,iii na batalha de ,sedan com o seu brao esquerdo no cachao do cavallo1 dando o seu brao direito ,prussia4 ,l vem ,bismark a toda a brida2 l rebentam as metralhadoras1 l se v ao centro a grande exploso de polvora4 ,passamos a vr agora ,paris4 ,olhae1 senhores1 vossa esquerda e l se vero as balas ardentes a sahir das boccas dos canhes2 mais ao centro l se v o balo a fugir para fra dos muros da cidade4 ,triste desgraa esta1 senhores6 ,agora vae apparecer o inferno4 ,l esto as alminhas penando1 l est uma a levantar a cabea1 e o diabo a mergulhar-lhe a cabea na lavareda4 ,vereis agora1 senhores1 o purgatorio3 o lugar onde esto as almas antes de subir para o co4 ,l est o padre santo e seus companheiros1 e todos os bispos e alcebispos4 ,passamos agora1 senhores1 a vr a ultima vista1 que o inferno1 onde os maus so castigados pelos crimes que fizeram c n'este mundo4 ,a velhacaria d'este homem attrae1 mais talvez que o seu voseiro4 ,faz dinheiro1 junta muita gente1 mas ainda assim o seu rival dos ,congregados1 que tambem foi feira1 tem suas sympathias e sua clientella certa4 ,representa os seus quarenta annos2 traz calas antigas1 casaco velho e bonnet decrepito2 chama-se ,joaquim de ,almeida1 e natural de ,villa ,nova de ,gaya4 ,anda emparceirado com o homem dos canarios1 que veste pelo mesmo theor1 e que poderia ter a mesma cara1 se no fosse trazer a barba crescida4 ,chama-se ,jos ,maria ,alves1 e natural de ,valena4 ,o cosmorama est sempre collocado a par da gaiola1 se bem que os espectaculos poucas vezes sejam simultaneos1 porque o homem dos canarios toma a peito fazer a policia do recinto emquanto o cosmorama funcciona4 ,joaquim de ,almeida falla em cima de uma cadeira4 ,esto as lentes todas occupadas3 uma enchente4 ,principia a explicao3 ,vamos a vr1 senhores1 a paixo e morte de ,n4 ,s4 ,jesus ,christo4 ,a primeira estao representa ,jesus preso deante de ,pilatos para ser sentenciado morte4 ,pilatos1 no encontrando crime nem delicto em ,jesus1 mandou que sentenciasse ,caifaz1 e elle lavava as mos do bem e do mal4 ,como ,jesus caminha de casa de ,pilatos para casa de ,caifaz4 ,a sentena que le deu ,caifaz que ,jesus caminhasse com toda a brevidade ao monte ,calvario com a cruz s costas para n'ella ser crucificado4 ,e a primeira cahida que deu ,jesus4 ,jesus caminhando para o monte ,calvario eram tantos os golpes que le davam os judeus1 que ,jesus cahiu rendido por terra com o peso da ,cruz4 ,agora vamos a vr o encontro que teve ,jesus com sua me ,maria ,santissima pelas ruas da amargura4 ,sahiu ,sua ,me ,maria ,santissima ao encontro para se despedir de seu amado filho1 mais ,jesus no se podendo despedir de ,sua ,divina ,me le disse3 ,me1 no choreis1 pois por minha morte vos glorificarei4 ,ahi se v como fica a ,virgem triste chorando atraz de seu amado filho4 ,jesus caminha arrastado pelos algozes sem se poder despedir de ,sua ,divina ,me4 ,agora vamos a vr como ,jesus foi ajudado do ,cyreneu4 ,jesus caminhando para o monte ,calvario1 sem foras e sem alentos1 pediu a ,simo ,cyreneu que le ajudasse a levar a cruz ao monte ,calvario4 ,tambem se v ao lado direito como est ,simo ,cyreneu ajudando a levantar a cruz ao ,senhor1 e ao lado esquerdo se v como caminha o menino ,isaac com a cesta dos pregos e com a escada deante de ,jesus1 mostrando o caminho do monte ,calvario aonde ,jesus ia a padecer e a ser crucificado4 ,agora o santo sudario4 ,jesus caminhando para o monte ,calvario em agonias e suor de morte sahiu ,santa ,varonica ao encontro4 ,ao lado direito l se v como est a ,santa ,varonica com o leno branco estendido e o santo sudario do ,senhor escripto4 ,este discurso expectorado com verdadeira rapidez de manivella1 erguendo o orador o rosto para os espaos1 e interrompendo-se1 a cada vista nova1 o tempo preciso para acompanhar com os olhos o movimento que a mo tem de executar para a mutao de scena1 operao que se resume em puxar por um cordo4 ,agora a segunda cahida que deu ,jesus caminhando para o monte ,calvario4 ,eram tantos os golpes que le davam os judeus1 que cahiu ,jesus segunda vez por terra com o peso da cruz dizendo3 ,os maus cargam meus hombros e meu corpo cae rendido de afflices4 ,jesus caminhando para o monte ,calvario com o peso da cruz1 sahiram as filhas de ,jerusalem ao encontro com palmas e ramos para recebel-o1 mas ,jesus olhando para ellas le disse3 ,filhas1 no choreis sobre a minha morte2 chorae sobre vs mesmas e sobre vossos filhos4 ,agora a terceira e ultima cahida4 ,jesus caminhando para o monte ,calvario1 eram tantos os golpes e a pressa que le davam os judeus1 que ,jesus cahiu desfallecido a terceira e ultima vez por terra4 ,caifaz vendo que ,jesus no tinha foras nem alentos1 se apresenta a cavallo dirigindo guarda que apromptamente apressasse com ,jesus para vir a ser crucificado4 ,ns paramos aqui2--o orador no pra1 vae repetindo o seu discurso at ultima scena4 ,annunciado o fim1 os espectadores debandam1 ordinariamente calados1 rompendo a multido com a sobranceria de quem acaba de vr o que a muitas defeso4 ,o homem dos canarios tem quatro1 que se chamam3 ,isabel1 ,dolores1 ,branca ,flor e ,garibaldi4 ,tres femeas e um macho1 o que equivale a dizer que tem menos musica do que podia ter se fossem tres machos e uma femea4 ,como se sabe1 por excepo aos costumes do sexo feminino1 as femeas dos canarios cantam menos que o macho4 ,foi por isso que j um poeta francez extranhou natureza o 444 priver les meres des serins ,du caquet si commum aux femmes des humains6 ,todavia elle no quer que lhe dem musica1--quer que lhe dem po4 ,ha cinco annos que os possue4 ,no lhes dar commodidades1 porque trabalham todo o dia1 no lhes dar mesmo limpeza1 porque1 ou velhice ou falta d'esmero1 a plumagem no est setinosa1 mas com a sua rao d'agua e paino no lhes falta4 ,ainda assim1 apesar do seu fadario1 so alegres1 teem nos olhos a vivacidade que os caracterisa e a delicadeza e graa de frmas propria dos canarios1 admiravelmente intelligentes4 ,chega uma pessoa que quer tirar sorte4 ,aproximada da gaiola a caixa dos bilhetinhos coloridos1 o homem dos canarios abre a porta d'arame1 e chama por um3 --,vem c1 ,isabel6 ,o canario d duas voltas na gaiola antes de sahir4 --,tira uma sorte a este cavalheiro4 ,o canario tira com o bico um papelinho4 --,d-lhe quatro voltas4 ,o canario obedece4 ,esta operao para que o vaticinio leve toda a virtude4 s vezes1 como se o papelinho1 permittam-me a expresso1 no estivesse ainda bem impregnado de futuro1 diz o homem3 --,izabel1 d-lhe mais duas voltas4 ,uma por este cavalheiro444 ,o canario executa4 --,outra pela sua familia4 ,obedece ainda4 ,ento que o homem entrega o papelinho1 e que a gente vae saber o seu destino por um vaticinio como este1 influenciado pelo signo de piscis1 que no papel apparece mudado em pricis3 ,ests tranquillo por o temor de no sahirem bem de tuas emprezas4 ,tranquillisa-te2 os teus desejos se cumpriro dentro em pouco tempo1 ters muito breve noticias que te daro alegria4 ,a educao de teus filhos ser a tua mais doce occupao4 ,alguns annos depois do teu casamento1 encontrars um thesouro e comprars muitos terrenos1 tens de fazer favores e a paga a m recompensa2 a ideia de cumprires tem de privar-te d'alguns prazeres2 ters uma herana que te proporcionar um bem estar4 ,depois affastam-se as pessoas que tiraram a sorte1 algumas rindo do disparate1 outras pensando--as mais sonhadoras--que ho de achar algum dia um thesouro1 ainda que no seja seno o ,thesouro de444 meninos4 99 99 99 99 99 ,a ,,giganta 7,,carta ,a ,,julio ,,cesar ,,machado7 ,,meu ,,julio3 ,d'esta vez o assumpto 444 grande4 ,e1 quem como o ,julio sabe o que ter de dar um folhetim em determinado dia1 comprehende que muito mais raro encontrar um assumpto grande do que uma mulher grande4 ,d'esta vez apparecem simultaneamente os dois phenomenos1--uma mulher que um assumpto1 e um assumpto que uma mulher1 ambos grandes4 ,ora este folhetim nada mais e nada menos que a ,giganta2--ella a que ha-de encher estas seis columnas1 talvez com os bicos dos ps ainda de fra por no caber perfeitamente n'ellas4 ,esta notavel mademoiselle ,rose tem passado de paiz em paiz1 e de folhetim em folhetim4 ,o ,julio escreveu d'ella o brilhante folhetim que n'este jornal reproduzi quarta-feira2 hoje escrevo eu1 no com pretenes a desbancar o ,julio1 mas a desbancar a ,giganta4 ,eu lhe explico4 ,sendo certo que ns todos devemos professar o mais profundo respeito pela tradio biblica1 e ensinando ella que o pequeno ,david recebera o collossal ,gollias com uma simples funda1 eu quero tambem1 segundo a santa lio1 receber ao estylo apocalyptico esta illustre representante da familia gigantea3 atirando-lhe com um folhetim4 ,fui vel-a4 ,era noite1 hora dos namorados1 como o ,julio disse4 ,desde que entrei a porta senti chilriar em francez1 e eu mesmo1 antes de procurar o dinheiro na algibeira1 procurei no meu espirito recordaes da grammatica do ,albano e do diccionario do ,fonseca4 ,comecei por ser francez1 dando um franco pela entrada4 ,ainda quiz vr se1 como geralmente succede no commercio1 me fariam o franco a #ahj4 ,n'essa noite porm a sala estava cheia1 sentia-se dentro a alegria franceza mistura com umas ligeiras modulaes no piano1 e o cambio estava alto4 ,resignei-me a dar pela entrada o que at agora se dava por uma edio de ,michel ,levy4 ,em todo o caso sempre era um livro que eu ia lr4 ,antes de correr a cortina vermelha1 a tradicional cortina vermelha que empana todas as celebridades1 disse para dentro1 com voz que sobrelevou o murmurio1 a madame que recebia as entradas3 --,il y a du monde4 ,esta phrase1 que visivelmente se referia a mim1 fez-me estremecer d'orgulho4 ,est a gente1 n'estas agrestes lides da imprensa1 to costumada a vr-se depreciada em jornaes e opusculos1 que j teria por grande elogio chamarem-lhe microcosmo4 ,vae a madame da porta e chama-me mundo1 como quem diz3 ,entra o snr4 ,cosmos4 ,estava eu quasi a deixar cahir a cortina1 para deitar uma falla madame encarecendo-lhe a grandiosidade da sua lingua patria1 quando me lembrei1 por interveno do ,jos da ,fonseca1 que ella simplesmente quizera avisar para dentro de que entrava gente4 ,era tarde para retroceder1--entrei4 ,ao fundo da sala1 erguidas sobre estrado1 e ambas sentadas1 deslumbraram-me duas mulheres4 ,ao nivel do estrado ondulavam as cabeas dos admiradores4 ,o fumo dos charutos1 que caprichosamente se derramava no ar1 fez-me lembrar a vaporao d'uma pyra4 ,insensivelmente tirei o chapo4 ,das mulheres1 a mais alta1 mandou-me cobrir em francez4 ,eu cobri-me em portuguez4 ,a mais gorda mandou-me sentar1 e1 a esse tempo1 j eu estava to enleiado1 que no sei bem se me mandou sentar em francez1 se em portuguez4 ,eu sentei-me universalmente1--como todos4 ,sempre lhe quero dizer1 meu querido ,julio1 a razo do meu enleio4 ,o ,julio fallava apenas da ,giganta1 e eu fui encontrar1 na saleta da rua de ,santo ,antonio1 duas mulheres3 a ,giganta e a outra4 ,foi uma agradavel surpreza o poder lr dois livros pelo preo d'um s4 ,achei ento que o ,michel ,levy estava sendo caro1 vendendo o volume a duzentos e cincoenta4 ,esta litteratura viva1 muito mais agradavel vista1 pareceu-me economica4 ,depois d'estas ponderaes entrei de examinar as mulheres4 ,ergui o meu olhar altura de dois metros e quinze centimetros1 e encontrei a cabea da ,giganta--mademoiselle ,rose4 ,depois desci com a vista at encontrar as quatorze arrobas da outra1--mademoiselle ,claire4 ,estive hesitando entre as arrobas e os metros1 e decidi-me pelo systema decimal4 ,eu s acredito que uma mulher franceza1 sendo alegre4 ,ora mademoiselle ,rose estava cantarolando com coquetterie o ,orpheu nos infernos2 e mademoiselle ,claire desfolhava tristemente uma flr4 ,esta circumstancia levou-me a perguntar-lhe se era franceza4 ,respondeu-me mademoiselle ,rose que era sua irm1 e do mais que me disse deprehendi que eram ambas francezas1 que tinham quinze irmos1 o mais novo dos quaes estava sentado ao piano4 ,pedi logo para vr os outros quatorze4 ,mademoiselle ,rose sorriu do meu equivoco1 e respondeu-me que eu teria de navegar o ,atlantico para os ir vr a ,frana4 ,consultando o programma1 que me deram entrada1 e o folhetim do ,julio1 vi que era verdade ser mademoiselle ,rose uma mulher d'espirito4 ,depois1 como mademoiselle ,claire se zangasse com um admirador que lhe estava bulindo no p1 vi que o programma era tambem verdadeiro na parte que lhe dizia respeito3 tem bellas maneiras e todas as qualidades proprias do bello sexo4 ,n'isto erguem-se ambas ao mesmo tempo1 e annunciam explicao4 ,os espectadores da geral arregalaram os olhos4 ,mademoiselle ,rose tomou a mo para fallar1 e um espectador da superior atalhou do lado3 --,parlez en franais4 ,ella sorriu1 e disse em francez3 ,mrs4 e ,m4mes1 nous sommes franaises1 nes ,paris2 ma soeur 7,claire7 est age de dixhuit ans et moi 7,rose7 de vingt ans4 ,s'il y a parmi l'honorable societ une persone qui desire connaitre la diffrence de taille1 elle peut s'approcher4 ,vous pouvez voir que nous avons la main et le pied petits por tre ma soeur aussi grosse1 moi aussi grande1 et le molet proportionn4 7,reproduzo fielmente o francez444 d'ellas47 ,mademoiselle ,claire limitou-se a mostrar a mo1 o p e a perna1 porque1 realmente1 aquella linguagem plastica era eloquente de sobra4 ,no obstante1 eu continuei a optar pelo systema decimal4 ,como porem o publico da geral dsse mostras de no ter entendido nada1 tornaram a levantar-se e a fazer uma explicao em portuguez4 ,quando mademoiselle ,rose chegou ao ponto de dizer3 e a barrica da perna regular1 eu tive tentaes de observar3 --,c'est vrai3 barrica4 ,calei-me1 porque ella estava fallando4 ,n'este comenos um lavrador da geral comeou a rir e a apontar para a ,giganta1 que lhe perguntou o que elle queria4 ,o lavrador1 com o mesmo sorriso alvar1 tartamudeou3 -- que eu queria perguntar se o paisinho da menina era do mesmo tamanho4 --,muito grande6 muito grande6 respondeu a ,giganta abrindo as mos e sorrindo em francez para os que entendiam aquella lingua4 ,a mulher do lavrador benzeu-se1 e disse para o homem3 --,olha que ainda maior do que o castanheiro de ,quintes6 ,comeou ento a sahir o publico da geral1 e a madame da porta1 que cunhada da ,giganta1 a dizer de cada vez3 --,il y a du monde4 ,d'uma vez olhei1 e vi entrar um ano4 ,que mundo to pequeno6 ,reconheci que no me devera ter orgulhado da phrase1 e entrei de admirar a coragem do ano que1 voluntariamente1 se expunha a ser vencido por uma mulher4 ,e eu1 interposto quellas antitheses1 lembrei-me de que a humanidade era a rethorica da creao1 e de que da variedade das figuras procedia o que no poema da vida ha de recreativo4 ,em todo o caso achei muito melhor ser gigante1 porque sempre se vae vivendo custa dos444 pequenos4 ,e depois1 aquelle estrado em frma de solio dava a ideia de realeza4 ,realeza d'estatura1 certo2--com prs e contras1 como todas4 ,ella alli est1 pensei eu1 admirada1 festejada1 galanteada1 recebendo flores e rebuados1 to feliz1 to feliz1 que tem sempre vinte annos6 ,mas tambem1 horror6 nascer uma mulher gentil1 elegante1 coquette1 e viver sentada1 entre os seus pannos vermelhos1 sem poder espanejar-se ao sol no vero1 sem poder molhar os ps no inverno6 ,molhar os ps1 digo eu1 porque isso mesmo1 que para ns um desastre1 seria para mademoiselle ,rose uma deliciosa surpreza6 ,tem corrido a ,europa sentada1 e dizem-me que tenciona ir agora sentar-se ,america4 ,o mundo para ella uma cadeira4 ,se algum dia quizer fazer exercicio1 a conselho dos medicos1 e subir ao pico do ,himalaya1 para admirar o mundo1 ella1 que tem sido admirada pelo mundo1 e vir ao sop da montanha uma tribu do ,indosto ou uns pastorsitos de ,thibet1 dir logo voltando-se para o irmo3 --,la chaise1 mon frre1 il y a du monde4 ,as mulheres vo ao theatro1 passeiam1 danam1 e ella1 tendo talento1 como realmente tem1 vive sentada1 a repetir sempre a mesma coisa1 victima da sua propria realeza6 ,como no pde passear ella mesma1 vae passeando em photographia1 e espalhando o seu retrato4 ,um dia bem pde ser que se sinta incommodada a ponto de ter inveja da sua photographia1 que tenha um ataque nervoso por querer sahir1 e que o medico declare que precisa d'andar durante vinte e quatro horas4 ,n'esse dia estar perdida na terra onde estiver1 porque todos a vero de graa1 que justamente a maneira porque ella no quer ser vista4 ,a sua cadeira perder todo o prestigio1 e desde ento a cadeira da ,giganta ficar valendo to pouco como a ,giganta4 ,uma e outra perdero todo o mysterio4 ,mysterio1 digo eu1 porque seguramente a ,giganta o tem4 ,quando que ella chegou8 ,quem a viu descer das ,devezas1 atravessar a ponte1 passar na rua de ,s4 ,joo1 das ,flores1 subir finalmente a rua de ,santo ,antonio8 ,como que ella entrou por aquella porta to pequena1--to pequena1 que muita gente cuido eu que dar de vontade os dois tostes1 no tanto para vr a ,giganta1 como para averiguar o modo porque ella entraria8 ,quando partir8 ,quem a ver8 ,no se sabe4 ,ella tambem pouco sabe do mundo1 a no ser que no mundo ha dois tostes1 e que o mundo gosta das photographias1 e dos originaes tambem4 ,recebe dinheiro e nunca viu um ,banco4 ,recebe flores1 e nunca viu os jardins4 ,no obstante1 a realeza de estatura tem suas vantagens para uma mulher4 ,quanto o marido lastima1 se casado1 ter de vestil-a1 folga ella com a certeza de no poder queimar as suas tranas4 ,eu vou1 meu caro ,julio1 fazer-me perceber melhor4 ,sabe o ,julio1 sabe toda a gente1 como as mulheres estimam as suas tranas1 pretas ou loiras1 avelludadas como a noite ou radiosas como o sol2 com que f no lhes prendem uma flr1 que sempre lhes fica bem1 porque emfim as flores tanto so do dia como da noite4 ,pois bem1 supponha o ,julio que uma mulher est lendo o seu poeta favorito1 luz de stearina1 muito curvada1 to curvada sobre o livro1 que chega a crestar os cabellos6 ,sendo o cabello a fora1 a mulher perdeu muito da sua individualidade4 um cataclismo4 ,mas a ,giganta1 com os seus dois metros e quinze centimetros1 por mais febril que seja a leitura1 to superior hade ficar sempre luz1 que pde viver inteiramente tranquilla cerca da inviolabilidade das suas tranas4 ,quando muito1 poder acontecer-lhe apagar a luz com a respirao1 e ficar s escuras4 ,todavia bastar uma caixa de phosphoros para proseguir na sua recreao2 e1 para ella1 os phosphoros so to baratos1 que qualquer pessoasinha1 por mais pequena que seja1 valendo dois tostes1 vale vinte caixas de phosphoros4 ,e ns1 meu caro ,julio1--olhe que differena6--valemos to pouco1 que sahindo de casa com a nossa caixa de phosphoros1 levamos apenas comnosco a vigesima parte d'uma ,giganta4 99 99 99 99 99 ,o ,,album ,,do ,,gymnasio 7,,por ,,occasi,o ,,da ,,estada ,,da ,,companhia ,,do ,,theatro ,,do ,,gymnasio1 ,,de ,,lisboa1 ,,no ,,porto7 ,oio dizer que vamos ter muita coisa3 as campanas dos nios que esto actualmente na ,corunha1 o violoncello do snr4 ,casella1 o reportorio do ,santos1 as tragedias da ,ristori1 e as guitarras dos fadistas4 ,seria opportunidade de me dispender em pontos d'admirao1 n'este conjuncto de surprezas que medeiam entre a campainha e a guitarra1 entre o campanologo de poucos annos e o fadista de muitos1 mas reservo esse luxo ortographico para depois que vir e ouvir os artistas cuja chegada se annuncia para breve4 ,e isto por duas rases3 por que me ser mais facil copiar do cartaz1 e porque no quero servir gratuitamente as empresas fazendo os cartazes444 eu mesmo4 ,portanto1 na espectativa do que vir1 volto-me para o que providencialmente j temos1 e digo providencialmente1 porque no444 tinhamos4 ,quero fallar-lhes do ,gymnasio1 perdo1 quero fallar-lhes unicamente do album do ,gymnasio1 que tenho presente n'este momento1 e cujas photographias estou passando entre os dedos1 suppondo que a minha cadeira de braos um camarote1 e que a minha jardineira o palco4 ,estou vendo-os1 a elles e a ellas1 sem a interposio do binoculo1 que muitas vezes mentiroso1 e que realmente tem um terrivel e perigoso rival na photographia4 ,elle a illuso1 o cosmetico1 a cabelleira2 ella o nariz defeituoso1 a bocca desgraciosa1 as rugas da velhice4 ,elle tem o prestigio da mentira2 ella a eloquencia da verdade4 ,quando um admirador se apresenta a uma actriz por este modo3 --,minha senhora1 eu j tive hontem a felicidade de a conhecer por intermedio do meu binoculo1 ella1 que est para entrar em scena1 segreda sua alma3 --,bem2 ento no me viu4 ,quando porm lhe diz3 --,minha senhora1 eu j tinha a felicidade de a conhecer em photographia1 a actriz fica desgostosa e menos coquette1 porque seria inutil simular4 ,ora sendo a photographia a verdade1 optemos por ella4 ,bem4 ,aqui temos o album3 folheemos e conversemos4 ,na primeira pagina444 ,taborda4 ,a gente tem vontade de gritar logo1 como se encontrasse em ,paris uma gravura representando a proeza da padeira d',aljubarrota3 --,bem sei3 uma lenda da minha patria1--a lenda do ,homem-,gargalhada4 ,d'uma valentona que em vez de espancar o homem pretende espancar a humanidade1 costuma dizer-se3 ,que ,brites d',almeida6 ,d'um sujeito que a alegria em pessoa1 que faz rir todos os grupos1 no quero j n'uma visita de pesames1 que justamente onde tudo d vontade de rir1 mas n'um casamento1 que a coisa mais seria que eu conheo1 costuma dizer-se3 ,que ,taborda6 ,este conhecido e est definido3 a legenda do ,homem-,gargalhada4 ,na segunda pagina444 ,izidoro4 ,parece um commerciante que vae praa com o seu bengalorio e com a sua gordura1--a gordura passou a ser to desejada que prudente defendel-a com um bengalorio--e um actor distinctissimo1 que s negoceia noite com as palmas e com os bravos4 ,to conhecido 1 que j ,julio ,cesar ,machado1 o primeiro photographo portuguez do folhetim1 o retratou na sua pequena galeria dos grandes actores nacionaes4 ,portanto procurar a photographia na casa ,mor4 ,no tem que saber3 atelier de ,julio ,cesar ,machado1 ,lisboa1 retrato do actor ,izidoro1 com biographia3 preo #bjj reis4 ,terceira pagina444 ,maria das ,dores4 ,ah6 um gentil talento1 creado no theatro desde os quatro annos6 ,to pequenina era quando appareceu em ,d4 ,maria na ,condessa de ,sennecey1 que adormeceu em scena1 e foi preciso acordal-a para completar o seu papelinho4 ,depois1 estreiou-se a valer no mesmo theatro1 no ,anjo da reconciliao1 no tempo em que a esplendida aurora do talento de ,manuela ,rey deslumbrava o publico lisbonense4 ,era sobremodo difficil fazer-se notar n'aquella epocha1 pela simples raso de que a intensidade da luz chega a cegar4 ,e ,manuela foi realmente um meteoro que s appareceu no co do theatro portuguez para se amortalhar nos seus proprios esplendores1 e deixar saudades4 ,maria das ,dores estudou1 luctou1 fez magistralmente o ,gaiato de ,lisboa1 substituiu ,manoela ,rey no papel de ,bertha da ,mulher que deita cartas1 o que podia considerar-se uma incontestavel victoria1 e hoje essa grande actriz que todos temos admirado1--a ,silvana da ,filha unica1 a ,valentina1 e a viscondessa do ,como se enganam mulheres6 ,quarta pagina444 ,rosa ,junior4 ,quando este rapaz nasceu 7#ahdd7 j o pae estava farto de saber para o que elle nascia4 ,para pintor1 dizia na sua boa f o velho ,rosa4 ,n'esse proposito1 foi o rapaz iniciar-se no curso de bellas-artes1 e quando terminava o curso declarava ao pae que no queria ser pintor4 que realmente a gente nasce com a sua estrella1 e1 muitas vezes os paes to cegos esto da sua amorosa ufania de serem pilotos da barca do nosso destino1 que chegam a imaginar possivel a navegao sem olharem para o co onde esto as estrellas444 ,ha ainda alguns desenhos de ,rosa ,junior1 ha1 mas elle suppz--e suppz bem--por interveno da sua estrella1 que o maior atelier do mundo1 sem ser o mundo1 era o theatro1 e voltou-se para o desenho dos caracteres moraes1 a que s um verdadeiro talento pde dar colorido4 ,estreiou-se no ,porto1 em #ahfb1 nas ,joias de familia e appareceu em ,lisboa1 um anno depois1 no theatro de ,s4 ,carlos1 no ,ricardo ,,iii4 ,n'esse mesmo anno foi escripturado por ,francisco ,palha para ,d4 ,maria ,,ii1 onde se estreiou na ,sophia ,mopin1 verso de ,rebello da ,silva4 ,foi contando os triumphos pelos papeis3 na ,nobreza1 nos ,fidalgos de ,bois ,dor1 nos ,nobres e plebeus1 na ,patria e na ,lucrecia ,borgia4 ,se o publico se no se encarregasse de lhe dizer que a sua estrella tinha raso1 bastaria a corar a sua resoluo o silencio do pae que nunca se atreveu a dizer-lhe3 --,diabo6 porque no foste tu pintor6 ,o seu maior elogio o silencio do pae4 ,quinta pagina444 ,cesar ,polla4 ,eu no sei realmente como elle chegou a ser actor6 ,foi empregado publico1 e1 o que mais esterilisador ainda1 metteu-se em politica4 ,a burocracia teve-o nas garras at #ahfd1 e deixou-o escapar6 ,chegou a saber o processo de fazer e desfazer deputados4 ,sondou as profundezas revoltas da urna eleitoral4 ,e1 caso raro6 pde salvar-se a si e sua intelligencia1 fugir comedia dos homens1 enganar o cerbro da politica para que o deixasse passar e1 quando muito1 fazer deputados bocca da scena1 o que mais glorioso do que fazel-os bocca da urna4 ,estreiou-se em #ahfe1 em ,d4 ,maria1 nos ,diffamadores1 na noite do beneficio do ,tasso4 ,esteve em ,d4 ,maria at #ahgj1 e durante esses cinco annos revelou-se o grande artista que hoje 1 mrmente quando1 incumbido do papel de baro de ,lambech1 no ,anjo da meia noite1 ao tempo que ,jos ,carlos dos ,santos o estava fazendo na rua dos ,condes1 logrou confirmar o enthusiasmo das primeiras saudaes4 ,o publico lisbonense festejou-o delirantemente no ,pomerol da ,fernanda1 no ,bevalan da ,vida d'um rapaz pobre1 no ,mirabeau da ,maria ,antonietta1 no ,gil ,paes de ,lima da ,crte n'aldeia1 no medico do ,juiz444 ,verdade que se perdeu um burocrata6 ,o oramento no lucrou com isso1 mas quem com certeza lucrou foi o theatro portuguez4 ,sexta pagina444 ,emilia dos ,anjos4 uma discipula do ,conservatorio1 de faces morenas e olhar vivo1 expedita e intelligente1 j conhecida do publico portuense1 que em mais d'uma poca a tem festejado na comedia4 ,representou no ,porto1 com ,pinto de ,campos1 a ,familia ,benoiton1 e o nosso publico ficou estimando-a4 ,voltemos folha3 ,pinto de ,campos4 ,filho d'uma familia de lavradores de ,villa ,franca1 comeou por ser typographo4 ,certo dia lembrou-se porm de que no conhecia ainda todos os typos--os do drama e da comedia--e fez-se actor4 ,estreiou-se no ,gymnasio em #ahee e passou depois a ,d4 ,maria4 ,com estas andadas esqueceu-se da typographia1 mas em compensao ficou conhecendo optimamente a topographia444 do theatro4 ,fez admiravelmente o ,krig da ,cora1 o piloto dos ,homens do mar e1 no ,porto1 os galans com ,emilia das ,neves4 ,artista consciencioso e boa alma4 ,ouro sobre azul4 ,temos na setima pagina444 ,maria ,adelaide4 ,no theatro e na sociedade uma coquette4 ,alguem1 vendo-a no ,afilhado de ,pompignac1 disse que ella tinha nascido para amazona4 ,diz com graa1 e tem s vezes a travessura d'um rapaz4 ,ora1 pela coquetterie1 bom passar a gente depressa4 ,folheemos as paginas restantes4 ,bayard1 se no se pde considerar um artista de primeira ordem1 todavia um actor apreciavel1 em que os outros podem ter confiana1 porque no desmancha1 como se diz em linguagem de theatro4 ,luiza ,candida tem uma especialidade--os typos populares1--em que vae muito bem1 o que no quer dizer por modo algum que no tenha intelligencia para outras creaes4 ,jesuina uma soubrette engraada e distincta4 ,ora tambem no bom demorar-se a gente onde ha graa e distinco444 ,carlos d',almeida um actor comico1 que se adivinha pelo seu casaco azul de botes amarellos1 pela sua badine1 e pelo seu chapo4 ,no ,afilhado de ,pompignac est constrangido1 mas ainda outro dia1 n'aquella bagatella ,entre casados1 fez rir a bom rir4 ,na ultima pagina do album est ,leopoldo1 discipulo do ,conservatorio1 e ensaiador da companhia4 ,apparece pouco1 mas em compensao todas as noites apresenta a sua obra4 tempo de fecharmos o album do ,gymnasio1 e1 como n'esta vida anda sempre a illuso a par da realidade1 bom ser que o publico1 que viu a photographia1 veja noite pelo binoculo444 a companhia4 99 99 99 99 99 ,,esbo,o ,,de ,,comedia ,o pessoal d'esta comediasinha inferior ao de todas as secretarias1 mas1 ao contrario do que acontece nas secretarias1 todo o pessoal faz alguma coisa4 ,declaro1 para evitar pedidos d'empresarios1 que ha de ser posta em scena por curiosos1 evitando-se outrosim as tolices dos actores1 e que se nomear no cartaz3 ,,historia ,d',,um ,,collar ,,personagens 99,raymundo ,savedra99--leo4 99,dolores99--leoa4 99,baroneza de ,faies99--ex-leoa4 ,principia s #i horas para haver tempo de preparar a jaula4 ,scena ,i ,boudoir de ,dolores4--,tapetes de ,susa1 espelhos de ,veneza1 e uma bilha d',extremoz4 ,raymundo e ,dolores4 ,,raymundo--,amo-a6 ,,dolores 7despeitada7--,o senhor ama todas as mulheres6 ,r4--,no confunda os fogos-fatuos d'uma noite canicular1 estiva1 apopletica com a chamma do sol1 intensa1 continua1 deslumbrante1 esplendida4 ,d4 7bocejando7--,que estylo6 ,r4--,no fao estylo4 ,eu fallo assim4 ,d4--,oh6 ento o nosso amor impossivel1 atroz4 ,o senhor1 se alguma coisa ama1 444 os adjectivos4 ,r4 7carinhoso7--,perdo1 ,dolores1 a minha eloquencia filha do meu amor4 ,o rouxinol da balseira s descanta quando a primavera enflora os prados4 ,o carneirinho444 ,d4--,no sabe que embirro tanto com os carneirinhos como com os bachareis6 ,que est o senhor a bacharelar6 ,r4--,perdo4 ,entre bacharelar e ser bacharel medeia a distancia da reprovao4 ,eu no tenho cartas4 ,d4--,com que ento no joga6 ,virtuoso moo6 ,r4-- implacavel1 ,dolores6 ,d4--,n'esse caso pea treguas4 ,r4--,pedirei4 ,d4--,com a condio de me satisfazer um capricho1 uma velleidade4 ,preciso dum collar4 ,estou doidamente namorada d'um que vi esta manh em casa do meu ourives4 ,v comprar-m'o4 ,r4 7pegando no chapo7--,voltarei em breve4 ,o collar ser seu1 e a felicidade ser minha4 7,sae47 ,scena ,,ii ,,dolores 7cahindo no soph7--,puff6 ,que xarope de morphina o estylo d'este homem6 ,como elle me aborrece1 me adormenta6 ,me adormenta1 phrase d'elle6 ,e no se lembrar este doido de que casado1 de que tem filhos444 ,,um ,,criado1 que podia ser de papelo1 se alguem fallasse por elle entre scenas3--,a snr4 baroneza de ,faies4 ,scena ,,iii ,,baroneza--,minha senhora6 ,d4 7erguendo-se7--,senhora baroneza6 ,b4 7sentando-se a convite de ,dolores7--,eu espero que a justia da minha causa me absolver da ousadia da visita4 ,d4 7para a frisa do lado direito7--,que querer ella8 ,no sei que me adivinha o corao6 ,b4--,ha realmente assumptos to melindrosos1 que eu no sei se deva444 ,d4--,minha senhora6 ,b4--,peo toda a sua benevolencia para a justa defensa dos direitos de minha cunhada444 ,d4--,mas444 ,b4--,sim1 eu sei que ama delirantemente meu irmo1 que o verdadeiro amor cego para todas as conveniencias sociaes1 mas ao corao doente que eu venho trazer o cauterio da piedade4 ,lembre-se1 ,dolores1 de que meu irmo casado com uma senhora nova e extremosa1 e pae de cinco filhos4 ,d4--,mas444 eu queria dizer a v4 ex4 que no amo seu irmo4 ,b4 7admirada7--,como6 ,d4--,que o no amo4 ,b4--,pois ser possivel6 ,meu irmo suppe-n'o1 acredita-o1 jural-o-ia4 ,d4--,eu creio que o snr4 ,raymundo ,savedra facil em acreditar tudo3 o espirito simples 1 por via de regra1 credulo4 ,agora lhe pedi eu um collar de preo fabuloso para vr se conseguia que o sacrificio lhe fosse lio4 ,b4 7parte7--,piedosa lio6 ,esta mulher6 7para ,dolores7--,muito bem6 ,est1 pois1 concluida a minha misso4 ,saio d'aqui com a felicidade na alma1 e creia que jmais me esquecerei da nobre franqueza que encontrei nas suas palavras 7comprimentando74 ,d4 7correspondendo7--,senhora baroneza6 ,scena ,,iv ,,raymundo 7entrando aodado7--,que veio aqui fazer minha irm8 ,ouvi-a fallar n'esta sala1 e escondi-me no corredor4 ,que disse ella8 ,,dolores 7com indifferena7--,perdo6 ,e o meu collar8 ,r4--,oh6 ,o seu ourives s sabe propr negocios leoninos6 ,pede uma quantia fabulosa6 ,d4 7no mesmo tom7--,quanto8 ,r4--,um conto de reis6 ,d4--,ah6 ,acha muito6 ,r4-- que realmente eu tenho dispendido comsigo1 ,dolores1 loucamente1 e receio que um dia a pobreza v encontrar meus filhos amaldioando o tumulo do seu pae4 ,d4 7tocando a campainha7--,que entranhas paternaes as suas6 7,ao criado7 ,diga a este senhor que estou incommodada4 7,sae47 ,r4 7fulo de colera7--,eu me vingarei1 infame6 ,ficar sem collar6 7,sae47 ,scena ,v ,,dolores 7entrando pela mesma porta porque saira7--,no ficarei sem collar1 no4 ,eu serei infame1 mas tu s444 parvo4 7,escrevendo7 ,duas linhas ao meu ourives3 ,snr43 ,queira aceitar a offerta1 qualquer que seja1 feita pelo snr4 ,raymundo ,savedra4 ,eu completarei o preo da compra do collar4 ,exijo absoluto segredo4 7,tocando a campainha2 ao criado7 ,leve esta carta ao meu ourives4 7,erguendo-se7 preciso que elle fique inteiramente derrotado4 uma fonte de receita que se vae eliminar do meu oramento1 e convm no prescindir da ultima verba4 ,tu recebers a correco devida a todos os parvos4 ,scena ,,vi ,raymundo entra timidamente4 ,,dolores 7sentindo-lhe os passos7--,que amor o d'aquelle homem1 que recua deante d'uma velleidade6 ,vo l fiar-se no amor6 7,,raymundo avanando7--,no faa esse conceito de mim1 ,dolores1 bem sabe se a amo1 doidamente1 perdidamente1 mas que444 ,d4-- que talvez nem mesmo agora saiba ser cavalheiro4 ,o meu ourives acaba de avisar-me de que resolvera acceder offerta do senhor4 ,r4--,n'esse caso444 ,d4--,quanto offereceu o senhor8 ,r4--,quinhentos mil reis4 ,d4--7 parte7 muito6 ,tenho de dar outros quinhentos4 7,alto7 ,no lhe convm ainda8 ,acha cara a felicidade que lhe custa quinhentos mil reis6 ,que largueza d'animo a sua6 ,r4 7apaixonado7--,no1 vou j1 ,dolores4 noite fulgir o collar no seu seio1 e as estrellas desmaiaro no co4 ,no ser mais formosa a huri quando as exhalaes calidas da noite444 ,d4 7com aborrecimento7--,quer que lhe faculte o adresse do meu ourives8 de suppr que a imaginao lhe anniquille a memoria4 ,r4--,at j1 ,dolores4 ,vou buscar as estrellas para completar o meu co de felicidade4 7,sae474 ,scena ,,vii ,,dolores 7olhando para a porta7--,bonita figura444 a do homem6 ,o amor d azas4 ,voar4 ,dentro em pouco estar aqui4 ,o collar ser meu4 ,deital-o-hei ao pescoo4 ,mirar-me-hei ao espelho1 e intimarei o snr4 ,raymundo ,savedra a que saia para nunca mais voltar4 ,e depois um collar d'um conto de reis no caro por metade do preo4 7,chegando janella7 ,j desappareceu4 ,no tardar4 ,o caso que estou impaciente pelo desfecho d'esta pequena comedia4 7,tocando a campainha2 ao criado7 ,j vieste ha muito8 ,ficou entregue8 7,o criado bole affirmativamente a cabea7 ,est bem2 vae-te4 ,mal persintas o snr4 ,raymundo ,savedra1 avisa-me4 ,no sei o que hei-de fazer6 ,ah6 o meu piano6 7,senta-se arpejando e monologando7 ,e dizerem que a felicidade isto6 ,quantas vezes m'o no teem dito6 ,se soubessem como estou aborrecida agora6 ,e as minhas canes6 ,vamos1 ,marc1 desafia-te a ti mesma2 vence o teu proprio fastio4 ,pde ser que venhas a amar um dia2 enta o teu cantico d'esperana6 ,no1 no posso6 ,que demora6 ,scena ,,viii ,o ,,criado 7com uma carta7--,da snr4 baroneza de ,faies4 ,,dolores 7impaciente1 levantando-se do piano7--,vejamos4 ,que ter a baroneza ainda que dizer-me6 ,snr4 ,acabo de escrever a meu irmo desenganando-o4 ,antecipei-me1 porque lhe seria menos doloroso o golpe vibrado por mim4 7,o criado3 ,chega o snr4 ,raymundo ,savedra7 ,,dolores3 ,ah6 7escondendo a carta74 ,scena ,,ix ,,raymundo 7entrando de chapo na cabea1 com uma caixa na mo esquerda e uma carta na mo direita4 ,ameaador1 tetrico7--,sei tudo4 ,minha irm teve a feliz ideia de me deixar esta carta em casa do seu ourives1 minha senhora4 ,esteja tranquilla4 ,no ser preciso que o sacrificio me seja lio4 ,esta carta desvendou-me2 chamou-me realidade4 ,o sorriso da amante no vale o corao da esposa4 ,d4--,o que8 ,r4--,oh6 socegue6 ,as pedras falsas inventou-as o homem para as falsas mulheres4 ,mas estas1 as que so realmente preciosas1 creou-as a natureza para as mulheres honestas4 ,adeus4 ,vou offerecer este collar a minha mulher4 7,sae47 ,d4 7cahindo fulminada no soph7--,e os meus quinhentos mil reis6 castigo6 7,cae o panno47 99 99 99 99 99 ,,as ,,colheitas ,eia1 ceifeiros6 ,comeam a arroxear os pampanos e a loirejar as messes444 ,v de limpar a eira1 e preparar a adega2 de varrer o lagar e ventilar o celeiro4 ,ri no campo a conta amarella do milho1 na vide o bago roxo da uva4 ,foi ,deus que da primavera ao outomno os preparou no mysterioso laboratorio da terra4 ,a ambos deu cr1 e frma1 e prestimo3 no interior d'uma pz o cereal que ha-de ser po2 no interior do outro a gota que ha-de ser vinho4 ,e d'estas pequenas coisas vae sair a fartura1 a abundancia1 a alegria1 a festa1 a riqueza6 ,to contingente a felicidade do homem1 que um sopro de vento pde prostrar os milheiraes1 e um insecto1 to pequeno como a uva1 inutilisar o cacho444 ,mas se ,deus vos protegeu o campo e o vinhedo1 se loirejam n'um os cabellos de ,daphne1 e no outro vergam os sarmentos com os psos cr da amethista1 v de azafamar para a colheita1 de afinar a viola do descante1 de phantasiar as alegrias da esfolhada1 de escolher corpo gentil onde caia o abrao do milho-rei4 ,quem no conhece agora a aldeia1 quando ,abre a rom1 mostrando a rubicunda ,cr com que tu1 rubi1 teu preo perdes2 quando ,entre os braos do ulmeiro est a jucunda ,vide1 com uns cachos roxos e outros verdes2 quando mais se amacia o velludo do 444pomo1 que da patria ,persa veio1 ,melhor tornado no terreno alheio e ,mil arvores esto ao co subindo ,com pomos odoriferos e bellos e 444 a tapearia bella e fina ,com que se cobre o rustico terreno1 ,faz ser a de ,achemnia menos dina1 ,mas o sombrio valle mais ameno6 agora que desce dos montes o prego de festa1 e que fogem da cidade para as sombras do bosque1 como aves a procurar abrigo1 as almas entediadas da vida ruidosa das cidades4 ,borboletas1 cuja vida ir queimar-se na chamma fatal1 querem povoar os campos1 cujos fulgores illuminam mas no matam1 porque descem do co1 e ou so do sol ou do luar4 tarde1 desencalmado o ar1 vo os ranchos festivos ribeira abaixo1 pela relvosa alea ladeada de arvores que vergam ao pezo dos pomos4 ,vo charlando os moos1 rindos os velhos1 doidejando as crianas4 ,haver por ventura no enxame quem leve seu livro para meditao8 ,qual ser elle8 ,livro puro e so1 como as aguas1 como o ar1 como tudo alli4 ,manon ,lescaut e ,margarida ,gauthier no entram ao santuario d'aquellas sombras1 porque as flores silvestres dos vallados lhes diriam3 --,aqui no ha camelias1 peccadoras4 ,os vossos ramos banharam-se no champagne das ceias1 e crestaram-se2 ns florimos banhadas no orvalho da manh1 e perpetuamo-nos4 ,somos pequenas e singelas4 ,enchemos apenas o nosso canteirinho rustico2 vs encheis o mundo com a cauda roagante dos vossos ricos vestidos4 ,olhae bem e procurae camelias444 ,no as ha4 ,eu sou a madre-silva1 aquella a violeta branca1 aquell'outra o malmequer4 ,riquezas para a pastora1 que vive para colher a laranjeira6 a sua ultima flor4 ,no lh'a venhaes empestar com as vossas camelias1 que trazem veneno como os vossos labios4 ,werther tambem l no entra1 porque lhe diz o camponez ancio1 sentado porta da cabana com o neto nos joelhos3 --,el1 poltro6 ,os nossos lares so tranquillos e sagrados1--no se invadem4 ,eu sei que esta criana filha de meu filho1 e por isso a amo4 ,no conhecemos c o desespero do amor illicito que leva morte4 ,aqui vive cada um o tempo das arvores que plantou4 ,por isso eu tenho estes cabellos brancos1 e porque me no aborrece a vida1 que os vs1 ainda confundidos com os cabellos loiros d'esta criana4 ,o santo reitor1 que serviu porventura de modelo ao evangelico personagem do primeiro livro de ,julio ,diniz1 encontra no caminho a sombra de ,voltaire1 e entre sereno e austero lhe falla3 --,no ha quem te comprehenda aqui2 vae-te1 sabio peior que o rustico4 ,so tudo camponezes4 ,nem a minha palavra rude e clara elles entendem1 porque no precisam entendel-a4 ,deus conhecem-n'o de o vr n'estes campos que ora fructificam1 e que na primavera riem4 ,esto estas serranias to habituadas ao silencio1 que no encontrarias pelas quebradas echos para as tuas tempestades4 ,vae-te em paz1 e adeus4 preciso que os livros1 na aldeia1 tenham alguma coisa do chilriar dos passarinhos3 que sejam candidos e bons4 ,servem os ,contos do tio ,joaquim1 porque na alma de ,thomaz1 o philosopho amoroso da estrella phantastica1 no modilhavam s os passarinhos1 a que do corao queria1--chilreava uma primavera perpetua4 ,servem os ,seres da provincia1 que se diriam outras tantas flores perfumadas pela alma de ,julio ,diniz4 ,no teem mau feitio os novellos da tia ,philomena1 nem os versos do doutor ,jacob queimam como as estrophes de ,byron444 ,esses livros cabem solido1 porque no despovoado que se rememora1 e ambos elles valem hoje duas saudades redivivas4 ,do rancho urbano uns lem1 outros fallam1 e nenhum est triste4 ,vae descendo o sol4 ,passam no caminho as ceifeiras1 contentes do lidar d'um dia inteiro4 ,na voz d'algumas canta-lhes a alma2 nas faces de todas alvoreja1 quella hora do entardecer1 a alegria do descanco4 ,metade da noite1 a seroam3 outra metade1 dormem-n'a4 ,sol nado1 toca a encastelar os cestos da ceifa e da vindima1 e partem cantando4 ,no palacete de gradarias de ferro acorda ao matinal concerto uma das formosas do rancho que na vespera estava lendo ,a flr d'entre o gelo4 ,e1 lembrada de ter lido n'um poeta portuense esta quadra1 sorri ao primeiro raio de sol que lhe brinca nas rendas do leito1 e abenoa3 ,ide ceifar6 ,deus vos encha ,os aafates d'espigas4 ,deus vos d boa colheita1 ,rapazes e raparigas4 ,e o sero6 ,as rumas de milho no meio da eira2 raparigas d'um lado1 rapazes do outro2 a requinta a distancia4 ,ao longe1 presentidos j pela turba1 os mascarados4 ,emquanto no chegam1 o desafio3 --,no penses em ser esquiva1 ,que se eu estender os braos1 ,tu vaes ficar prisioneira ,n'uma cadeia d'abraos4 --,que se me d de cadeias6 ,sempre um lo menos forte444 ,cadeias que se no quebram ,so as do amor e da morte4 ,chegam os mascarados4 ,irrompe a vozeria3 -- elle6 -- ella6 --,no elle nem ella3 outro6 ,sempre me ha de lembrar o caso da menina do ,pedregal1 que tinha amores contrariados4 ,na noite da esfolhada obteve licena para ir danar na festa vestida de camponeza4 ,foi1 e disse falseando a voz3 --,o primeiro abrao meu6 ,respondeu um camponez3 --,pertence-me6 ,era senha4 ,e depois8 ,depois a menina do ,pedregal no voltou a casa1 e o capito-mr1 apesar de vr a filha radiosa da felicidade do casamento1 nunca mais deixou andar mascarados nas esfolhadas4 99 99 99 99 99 ,s4 ,,bartholomeu ,per signum crucis444 ,sempre bom acautelar n'este dia6 ,vamos l para a ,foz1 com toda a gente1 depois de persignados4 ,encontramo-nos uns com os outros pela rua de ,ferreira ,borges abaixo3 --,para a ,foz8 --,pois6 --,almoar8 --,e jantar6 --,mais um copito por minha conta6 --,mais dous por minha6 --,a ,d4 ,rosalia no vem8 --,foi de vespera2 dormiu l6 --,que soffreguido6 --,a ,d4 ,rosalia no quer perder uma festa6 --,ento como as esposas ciumentas444 --,magano6 ,no caminho de ferro americano4 ,dous gordos3 --,esta romaria mette muita gente6 --,o poder do mundo6 --,voc passa o dia8 --,eu vou almoar a casa do cunhado4 --,mas voc vae de palito na bocca8 --,isto foi para experimentar os dentes4 ,duas magras1 que valem por seis tagarellas3 --,de ponto em branco6 --,sim444 a polonaise nova444 --,catita d'uma vez6 --,o mesmo posso dizer de ti6 --,ah sim444 o chapo4 --,est muito fresquinho6 ,eu gosto dos chapos arranjados com pouca coisa444 --,no disse isso a ,ravoux1 que me pediu oito mil e quinhentos444 --,ellas pedem sempre muito4 --,tu l sabes quanto te pediram pela polonaise444 ,um sujeito1 pondo a cabea fra da carruagem1 para outro que desce a rua de ,ferreira ,borges3 -- ,bernardo6 ,bernardo6 ,anda p'r'aqui6 ,o outro agitando os braos3 --,ol6 ,ahi vou6 ,uma velha rabugenta3 --,que gordura d'homem6 ,vamos aqui morrer de calor6 ,por isso que eu gostava dos carroes444 ,o gordo1 atravancando a portinhola1 e produzindo um breve eclypse no interior da carruagem3 --,vamos l a esse ,s4 ,barthalameu6 ,o que o chamava3 --,ora o ,bernardo6 ,o ,bernardo6 ,um petit-crev para um crev-petit1 atravez do fumo do charuto3 --,palpita-me que vamos ter bernardices4 ,uma creana esmagada pelo ,bernardo1 que se sentou3 --,ai6 ,o ,bernardo1 cuja sensibilidade est embotada pelo habito de trilhar pessoas3 --,no nada6444 ,ora coitadinha6 ,isto fez-me lembrar a anecdota da melancia e da avell444 ,abala o trem4 ,a velha1 estremecendo3 --,nos carroes no havia isto6 ,l vae aquella fluctuante colonia de romeiros povoar a ,foz durante vinte e quatro horas4 ,vo romaria6 disseram elles4 ,pois que vo4 ,chegaro l1 percorrero todas as cangostas1 todas as ruas1 iro ao adro1 praia1 a ,carreiros1 procurando1 sempre procurando1 e no encontraro a444 romaria4 ,o que elles encontraro ser3 ,na igreja--,duas cortinas vermelhas e seis velas acesas1 no altar de ,s4 ,bartholomeu4 ,um homem sentado a uma mesa1 a vender registos e a receber esmolas4 ,algumas mulheres1 que se ajoelham deante da mesa para beijar a imagem e beijam o diabo1 que a imagem tem aos ps444 ,no adro--,quatro mesas com bonecada4 ,um grupo d'homens de guarda-soes abertos4 ,na praia--,muita gente sentada e muita gente de p4 ,em ,carreiros--,algumas pessoas que vo procura dos lavradores1 os quaes lavradores no apparecem4 ,pelas ruas--,muita gente que vae e que vem4 ,n'uma encrusilhada--,um sujeito da provincia perguntando a uma pequenita3 --,onde a romagem1 menina8 ,a rapariga com cara de lorpa conscienciosa3 --,c no ha essa rua4 ,nas casas particulares--,algumas meninas sentadas na sala das visitas4 ,ao centro1 quatro velhos a jogar a bisca sueca4 ,tudo espera do444 jantar4 ,na cosinha--,a dona da casa a apressar a cosinheira4 ,a cosinheira a dizer ao criado que se apertarem muito com ella deixa o jantar por fazer e vae-se embora4 ,nos hoteis--,a mesa redonda cheia4 ,a mesa quadrada1 idem4 ,a mesa triangular1 idem4 ,mais quatro familias a perguntar se no ha mais mesas4 porta do castello--,dois veteranos a comer melancia1 e outro a dormir com o leno vermelho estendido sobre a cara4 ,nos bilhares--,dois caixeiros que jogam o bilhar toda a tarde1 porque elles foram ,foz1 no procurar a romaria1 mas divertir-se4 ,no pharol da ,luz--,um pae a explicar ao filho a espheroicidade da terra pela curva que vae descrevendo um vapor4 ,o menino3 pap1 mas se o mundo fosse redondo1 aquelle vapor cahia agora6 ,o pae3 ,cala-te1 cala-te1 tu no sabes o que dizes6 ,e a romaria8 ,procuraram-n'a1 rebuscaram1 vascolejaram tudo1 e no poderam encontral-a444 ,e os lavradores a tomar banho8 ,os lavradores tomam banhos todos os dias1 menos hoje4 ,teimavam em farpeal-os2 elles teimam em no dar sorte4 ,diz-se que costumavam tomar sete banhos na manh de ,s4 ,bartholomeu4 ,eu acho que tomaro sete1 em qualquer dia1 se tiverem muita pressa d'ir para a terra4 ,dois tomam elles todos os dias3 um de madrugada outro de tarde4 ,acontece por l a cada passo demorar-se um camponez quinze dias e retirar-se com trinta banhos4 ,j houve um1 meu conhecido1 de ,castello de ,paiva1 que esteve quinze dias na ,foz e tomou trinta e quatro banhos4 ,perguntou-me se eu queria alguma coisa para os seus sitios4 --,ento j vaes8 --,esta noite4 --,quantos dias estiveste8 --,quinze4 --,quantos banhos tomaste8 --,trinta e quatro4 --,como fizeste isso8 -- que aos domingos tomava quatro4 ,um anno por outro acontece que alguns d'elles tanta pressa teem de acabar com o remedio1 que tomam um unico banho4 ,isto 1 morrem depois do jantar1 no mar1 com uma apoplexia4 ,o pretexto d'ir vr os lavradores um mau pretexto1 porque1 ainda que elles se banhassem1 como dizem que se banhavam antigamente1 n'este dia1--no prestava aquillo para nada1 de certo4 ,eu vou explicar como os lavradores tomam banho na ,foz4 ,vo para as praias da ,luz com a sua trouxa sobraada1 aos ranchos1 por que um lenol chega para quatro4 ,elles entendem por um acertado instincto suino1 que quanto mais salgados ficarem1 melhor4 ,mettem-se entre os fragoedos4 ,homens e mulheres vo de branco1 ligeiramente vestidos2 a cr da roupa faz com que deixem no banho o ligeiramente e saiam sem adverbio e sem decencia4 ,esperam a onda1 de bruos na areia1 com a cabea virada para a terra1 e a parte opposta para o mar4 ,isto poderia offender os peixes1 se os peixes tivessem brios4 ,mergulham sete vezes1 porque1 para elles1 de sete em sete ondas1 vem uma que traz grande virtude curativa4 ,depois vo a correr para entre as fragas1 cheios d'areia e d'agua1 e limpam-se ao lenol a que j se limparam tres4 ,isto invariavel4 ,e o diabo1 que anda s soltas n'este dia8 ,a respeito d'este bicho eu sou exactamente da opinio do padre ,antonio ,vieira3 ,o diabo j no tenta no povoado1 nem necessario1 porque os homens lhe tomaram o officio1 e o fazem muito melhor que elle4 ,ora este mais um motivo1 vista a substituio1 para eu acabar como principiei3 --,per signum crucis444 99 99 99 99 99 ,o ,,natal ,os chefes de familia1 que logram contar vinte annos de praa conjugal1 devem hoje chamar seus filhos sala do jantar e dizer-lhes1 indicando a meza3 --,o ,natal foi alli4 ,que ss4 ss4as os moos pennujentos oiam reverentemente a voz de seus paes1 e desam olhos de commovido respeito s mudas tabuas onde o ,natal vaporou as mais succolentas iguarias1 e caldeou a mais serena embriaguez do genero humano nas garrafas scintillantes de vinho e luz4 ,o ,natal foi alli4 ,tudo quanto de indigestamente pesado pde haver para o mais vigoroso estomago1 aqueceu as loias que se deixaram cahir de maguadas das mos dos criados1 quando souberam que certo dia o menino mais velho tivera uma gastrite por haver comido uma gemma d'ovo depois da meia noite4 ,e tiveram raso4 ,a espada de ,d4 ,pedro ,,iv prefere a inactividade do ,museu de ,s4 ,lazaro a lampejar ao reflexo do sol em dia de solemne patuscada militar no ,campo de ,santo ,ovidio4 ,viram o throno deserto dos cortezos do seu tempo e no quizeram sobreviver ruina do estomago portuguez4 ,os homens contemporaneos d'aquellas loias comiam uma gallinha em dia de natal1 e um per em dia d'anno novo4 ,os filhos1 que simplesmente herdaram o nome paterno1 sentem-se affrontados com a digesto d'um ovo1 e esto adoptando meza os legumes porque a teia de aranha onde caiem os alimentos no consente mais que uma folha d'alface1 e uma vagem de conserva4 ,por isso se suicidaram as amplas terrinas de ha vinte annos1 e no resta da primeira festa portugueza mais que este epitaphio na bocca dos velhos3 --,o ,natal foi alli4 ,era alli4 ,a mesa deslumbrava de candelabros e garrafas4 ,em derredor estavam as largas cadeiras de couro tauxiado4 ,n'aquelles alterosos espaldares podia recostar-se uma cabea impassivel fermentao dos liquidos4 ,sabia-se que nenhum dos convivas cabecearia a ponto de fracturar o craneo na pregaria amarella4 ,aproveitava-se o encosto unicamente para se estar aprumado1 de modo a facilitar a descida dos alimentos ao longo do esophago4 ,os criados entravam e sahiam para pr os pratos2 hoje o principal cuidado dos criados dispol-os4 ,n'aquelle tempo no havia symetria2 a symetria foi creada e observada exclusivamente por ns1 que somos a gerao mais artificial que tem vindo ao mundo4 ,a abundancia era a condio unica a attender4 ,ha vinte annos dizia-se de uma mesa3 ,estava cheia2 hoje diz-se apenas3 ,estava bonita4 ,dispensavam-se as flores4 ,para recrear os olhos bastava a variedade dos pratos2 para deliciar o olfato era sufficiente o perfume dos cosinhados4 ,baralhavam-se as terrinas1 as travessas e as taas4 ,a luz passava d'umas s outras como o reflexo de luar que atravessa as ondas4 ,era um mar agitado1 amplo e alegre4 ,de espao a espao1 como ilha deleitosa1 erguia-se a garrafa2 j se sabia que se tinha de parar alli para fazer aguada4 ,a prudencia do marinheiro est em no se demorar nos portos onde toca1 de modo a atrazar a viagem4 ,assim observavam nossos paes mesa4 ,faziam escala por todos os archipelagos de crystal1 por ser vergonhoso a um maritimo no conhecer a mais insignificante ilhota4 ,saudavam na passagem o promontorio da gallinha1 a bahia do arroz1 a cordilheira dos paios1 o isthmo do pernil1 o cabo dos mexidos1 os escolhos das rabanadas1 e a frescura oleosa dos verdejantes oasis de grlos que ensombravam os pequenos desertos das travessas4 ,iam conhecendo o mappa palmo a palmo1 vendo o mundo retalho a retalho1 n'aquella noite4 ,corria a ceia na doce intimidade de bordo4 ,ria-se serenamente2 fallavam todos e ouvia-se cada um4 cabeceira da mesa estava o pae com os seus cabellos nevados1 radeante d'alegria4 ,parecia o piloto cana do leme4 ,dilatava-se n'aquelle suavissimo conchego a alma dos convivas como se dilata a alma dos passageiros na contemplao do infinito4 ,quando a tripulao saltava em terra1 quer dizer1 quando pouco antes da meia noite se levantavam da mesa1 iam em rancho missa do gallo1 com aquella religiosa solicitude de muitos marinheiros que vo orar ,senhora da ,boa ,viagem mal que descem a escada de portal4 ,era uma festa6 ,n'aquelle tempo o vinho no embriagava nem as comidas affrontavam4 ,o estomago dilatava-se tanto como o corao444 ,o somno fugia amedrontado da alegre voz do gallo4 ,estava-se bem toda a noite e ninguem pedia amoniaco nem soda ,watter4 ,o livro da felicissima gastronomia d'aquelle tempo era digno do prologo1 e levava quinze dias a lr-se4 ,s no dia de ,reis se virava a ultima folha4 ,e no dia #g de janeiro ninguem se queixava de dyspepsia6 ,hoje tudo differente4 ,os convivas introduziram os vinhos francezes porque so espuma que desce ao estomago1 e que d uma falsa alegria de momento4 ,todavia querem mostrar que so valentes1 e arremettem contra uma garrafa de champagne1 que durante meia hora os descompe1 a ponto de se supporem a ceiar com cocottes4 ,esquecem-se de que esto mesa com suas irms e com sua me4 ,at para ellas precisam de pedir emprestada a alegria s bebidas6 meia noite ninguem os encontra em casa2 esto no botiquim a tomar caff1 porque se sentem incommodados do estomago4 ceia o unico que est sinceramente risonho o pae1 porque se alegra das suas recordaes4 ,os filhos comeam a fallar depois que salta a primeira rolha de champagne4 ,no distinguem aquella ceia das ceias ordinarias3 no se lembram do irmo que est no ,brazil ou do irmo que est no cemiterio4 ,antigamente1 se estava ausente uma pessoa da familia1 punha-se-lhe o retrato na mesa4 ,era para que no faltasse ninguem ceia4 ,hoje no se colloca o quadro para no desmanchar a symetria4 ,mettemos a arte em tudo2 at nos lembramos de a metter entre os pratos6 ,para tudo ha preceitos1 tudo se faz por medida4 ,os criados andam collocando a loia com a ,arte de servir mesa1 do snr4 ,joo ,matta1 no bolo4 ,como se pe a mesa8 ,o snr4 ,matta dil-o3 ,a toalha convm que seja adamascada4 ,quando se estende1 deve ficar bem posta1 repartida com egualdade para todos os lados e sem rugas4 ,a pea principal1 para ornato ou servio1 colloca-se ao centro4 ,em torno d'ella1 pem-se serpentinas com vellas2 vasos de flores2 grupos de figuras2 pratos de doce de copa3 pratos montados de porcelana1 crystal1 ou prata1 com pastilhas1 amendoas torradas1 doces de ovos e de cco1 foguetes e algumas flores artificiaes para embelezamento d'esses pratos4 ,se houver plateaus com grandes vazos de bronze dourado1 devem collocar-se symetricamente na mesa1 tendo cada vaso sua garrafa de vinho de ,champagne rodeada de gelo1 para contentamento da vista e ostentao da grandeza do dono da casa4 ,antigamente os criados no tinham compendio4 ,o que se punha na mesa no era para se vr mas para se comer4 ,em dezembro o que se queria na mesa para contentamento da vista e ostentao da grandeza do dono da casa era o vinho4 ,o glo1 por ser frio1 deixavam-n'o vontade no topo do ,maro e da ,estrella4 ,hoje1 para aquecer os convivas e os vinhos1 pe-se gelo na mesa4 ,se uns e outros no ho-de estar frios6 ,ha vinte annos o que ostentava a grandeza do dono da casa era o diametro da vazilha4 ,o vinho mais desejado era o quente2 hoje querem o champagne bem nevado1 frapp1 como dizem os francezes4 tudo como os francezes dizem4 ,o caso que se lhes obedece1 e que j se deixa passar a noite de ,natal franceza4 ,no sei como se chama em francez s rabanadas e aos mexidos1 que se fazem ainda em atteno velhice de nossos paes4 ,ho-de ter um nome exquisito1 para no parecerem portuguezes4 ,tudo nos tem levado a ,frana1--at o feijo branco6 7,j no feijo branco3 diz-se flageolets47 ,deu-nos a arte1 e podemos dizer que nos levou o ,natal4 ,pois apezar de estar casquilha a mesa1 cheia de insignificancias bonitas1 de pastilhas1 de amendoas torradas e de rosetas de glo1 podeis dizer a vossos filhos1 indicando a mesa1 celeberrimos valentes da guarda velha3 --,o ,natal foi alli4 99 99 99 99 99 ,,os ,,bohemios ,o fallatorio este3 --,quando chegam8 --,quantos so8 --,devem vir muito moidos6 --,rijas pernas6 ,as donas de casa3 --,no sei como podem dispensar a loia6 ,os paes de familia3 --,prescindirem do soph para dormir a sesta6 ,as meninas umas s outras3 --,eu se fosse namoro d'algum no consentia6 --,nem eu6 --,porque8 --,porque no queria um marido com habitos de recoveiro444 ,os leitores do ,primeiro de ,janeiro3 --,elles444 quem so8 --,de quem est fallando8 --,a quem se refere8 ,n'uma palavra1--todas as explicaes4 ,estamos fallando dos cinco intrepidos cavalheiros lisbonenses1 que se propozeram fazer a p1 em verdadeiras condies de bohemios1 uma insignificante jornada de ,lisboa a ,braga1--resoluo que importa o sacrificio de dar apenas alguns passos como quem vae da ,praa ,nova ao ,palacio de ,crystal para aproveitar a companhia de dois amigos que lembraram um duello a cerveja4 ,mas1 sendo um pouco mais profundo1--porque o folhetinista tem obrigao de fazer a anatomia das intenes--vejamos se no haver porventura n'este caso1 que denota primeira vista bons pulmes1 bom sangue e boas pernas1 algum proposito recondito1 algum plano philosophico1 que revele1 em segunda leitura1 que os cavalheiros de ,lisboa so to intrepidos de espirito como de corpo4 ,leriam ha pouco tempo o ,roman comique de ,scarron1 o ,diable ,paris de ,eduardo ,ourliac1 ,l',angleterre et la vie anglaise de ,affonso ,esquiros1 o ,grand homme de province ,paris1 de ,balzac1 e enthusiasmar-se-iam com as comicas aventuras dos actores ambulantes e dos musicos das ruas8 ,no de suppr que rapazes que se encostam s vitrines do ,chiado1 que frequentam o ,gremio1 que vo a ,s4 ,carlos1 que no faltam espera dos touros1 que costumam passar o vero em ,cintra1 que calam bota de polimento1 que se frisam no ,baron1 que se vestem no ,keil1 se aguentem1 por mero capricho1 n'uma caminhada de sul a norte1 que os obriga a viver entre montes1 durante dois mezes1 n'uma barraquinha de campanha1 onde mal se pde lr a ,correspondencia de ,portugal e onde seria impossivel desdobrar o ,times4 ,e tanto isto no provavel1 que dois dos peregrinos do rancho desanimaram a meio da jornada com saudades do robe-de-chambre e do ,martinho4 ,se o intento fosse um simples devaneio d'espiritos moos1 uma extravagancia dos vinte annos1 haveriam retrocedido todos1 e affogariam o seu desalento n'um copo de champagne1 que como os rapazes costumam enterrar ruidosamente qualquer ideia que lhes morre444 ,mas tres d'elles1 os snrs4 ,a4 ,c4 da ,silva ,castro1 ,estevo ,ribeiro da ,silva e ,pedro de ,campos ,menezes1 avanaram sempre1 chegaram s ,caldas da ,rainha1 demoraram-se em ,coimbra1 acampando no rocio de ,santa ,clara1 e devem ter j partido do ,bussaco4 ,segue-os uma carroa1 puxada por um macho4 ,na carroa vae o chalet ambulante1 dobrado em frma de biombo1 e sentado em cima da lombada do chalet o cosinheiro1 que1 precisando de trabalhar com os braos1 se dispensa de trabalhar com as pernas4 o ,sancho ,pana da aventura1 que se presume a assistir quelle acto da ,cora em que vae passando em frente do espectador o panorama do ,mississipi1 porque vae vendo regaladamente as margens do caminho mettido dentro da sua mitra d'algodo branco1 do seu avental de linho e dos seus oculos de metal amarello4 ,elle o unico do rancho que se sente despreoccupado1 porque apenas tem uma ideia3 a cosinha4 ,os patres vem andando e pensando1 porque esta viajata representa para elles uma lucta entre as velhas tradies e as ideias modernas1 entre as foras do homem e as foras da machina1 entre os artelhos e os rails1 entre a vontade que manda mover e a locomotora que faz andar4 ,o empenho d'estes cavalheiros naturalmente mostrar que o homem mais completo do que o suppem2 que o progresso uma simples mistificao de preguiosos que querem viver na indolencia1 e viajar sentados2 que os caminhos de ferro so uma patarata engendrada para negocio d'uma companhia1 e finalmente1 que a raa latina tem ainda sangue rico1 alma arrojada1 altura de pensamentos1 colorido nas creaes1 valentia nas empresas4 ,querem pois supplantar as invenes modernas1 dispensando-as1 e tanto o conseguiram1 que de ,lisboa at ,coimbra entretiveram-se a ensinar a andar o caminho de ferro4 ,por um esforo pouco vulgar chegaram a dominar a propria curiosidade3 ha um mez que no recebem cartas nem jornaes4 ,no sabem nada do que se passa no seu paiz1 porque a direco do correio to pouco intelligente que os no manda procurar onde esto4 ,mais um triumpho para elles6 ,ento o correio foi feito para entregar as cartas a quem lh'as pede ou para as ir entregar a quem as deve receber8 ,nada sabem do que ha trinta dias acontece em ,lisboa1 nem siquer teem tido noticias da cotao dos fundos hespanhoes4 ,e fallar-se sempre da rapida transmisso do pensamento1 de telegraphos electricos1 de cabos submarinos1 de paquetes a vapor6 ,ha um mez que inteiramente ignoram o que se pensa no ,chiado1 e1 visto que j os incendios comeavam quando partiram1 no sabem ao certo se ,lisboa ardeu1 e se j se encommendou algum marquez de ,pombal para reedifical-a4 ,diz-se que o progresso tem levado commodidades a toda a parte1 desbravando florestas1 povoando desertos4 ,no ,cartaxo desejaram sorvetes e no os obtiveram2 em ,cho de ,mas pediram toicinho do co e alcanaram a certeza de que o co em ,cho de ,mas era mahometano4 ,apregoa-se a diffuso da instruco publica1 a creao de cadeiras primarias1 e na ,pampilhosa1 querendo sentar-se a tomar a fresca1 offereceram-lhes uma cadeira em to mau estado1 que de nenhum modo se podia considerar primaria4 ,em ,alfarellos quizeram passar a noite a lr1 e estando ,alfarellos a dois passos de ,coimbra1 e sendo ,coimbra1 segundo o pensamento de ,heitor ,pinto1 a cidade d'onde irradiam as virtudes e as lettras para todo o reino1 como do centro da esphera sahem as linhas para a circumferencia1 apenas conseguiram haver em ,alfarellos um reportorio de #ahgb4 ,pois ento1 n'este seculo de extrema e assombrosa mobilidade1 ha no mappa de ,portugal uma terra que em agosto de #ahgc se governava pela chronologia de #ahgb1 dormindo um anno inteiro6 ,um dos nossos guapos viajantes sentiu-se no caminho um pouco embaraado com um calo no dedo minimo do p direito4 ,ento ainda ha calos6 ,e os jornaes a assoalharem que a pomada ,galopeau o verdadeiro pedicuro descoberto at hoje6 ,um pouco crestados pelo sol1 desejaram refrigerar a pelle4 ,onde estava esse famoso ,charles ,fay1 inventor do p de arroz preparado com bismutho8 ,banharam as faces n'uma fonte1 que serpejava por entre rochas1 e saudaram enthusiasticamente mais uma vez o passado1 porque a agua to antiga1 que j o diluvio foi444 d'agua6 ,a frescura do liquido constipou-lhes os dentes4 ,reclamaram a presena do snr4 de ,vitry1 chirurgien dentiste de leurs majests trs fideles1 e o snr4 de ,vitry no os ouviu chamar na sua casa da rua do ,ouro em ,lisboa6 ,pois se o pensamento se transmitte com a apregoada rapidez parecia que444 ,em ,souzellas viram porta de uma tenda1 invadida por dous meirinhos1 o pobre do logista que se lamentava da desgraa a que o ia redusir a penhora4 ,perguntaram3 --,o que tem aquelle homem8 --,quebrou4 ,e os jornaes de ,lisboa a dizerem que o snr4 ,carvalho ,junior inventou um efficaz emplastro para soldar as pessoas quebradas6 suprema irriso6 verdadeiro triumpho ganho pelo passado sobre o presente6 indubitavel victoria do homem sobre a machina6 ,e vs1 illustres bohemios d'uma crusada santa1 que ides dilatando a f e o imperio1 dizei-me1 sinceramente1 intimamente1 se este no o verdadeiro fim da vossa rude jornada6 ,podeis1 ao longo do caminho1 ir cantando a velha cano dos actores ambulantes3 ,veut-on savoir d'ou nous venons1 ,la chose est trs-facile2 ,mais1 pour savoir o nous irons1 ,il faudrait tre habile4 ,sans nous inquiter1 enfin1 ,usons1 ma foi1 jusqu' la fin ,de la bont cleste6 ,il est certain que nous mourrons2 ,mais il est sur que nous vivons3 ,rions1 buvons6 ,et moquons--nous du reste6 e eu guardarei ufano o diploma de--tre habile--porque descortinei a vossa inteno recondita4 ,at vista1 e felicidade6 99 99 99 99 99 ,o ,,relogio444 o meu relogio que me d assumpto para este folhetim444 ,aqui est o meu pobre amigo1 to esquecido por mim em horas de felicidade1 e to esquecido por todos os homens4 ,no tenho mais leal conselheiro1 companheiro mais dedicado4 uma especie de consciencia que metti no bolo4 ,quando ella falla1 preciso attendel-a4 ,e todavia1 se uma nuvem de desgosto me enoitece o horisonte da vida1 se um cuidado me preoccupa1 se um sobresalto me traz perplexo1 esqueo-te1 pobre amigo1 no chego a lembrar-me de que te trago conchegado a mim1 e de que1 obrigando-te ao silencio para que tu no foste feito1 sou cruel para ti1 porque te condemno a ouvir as palpitaes vertiginosas do meu corao inquieto6 ,no te dou movimento1 porque inteiramente te esqueo4 ,condemno-te ociosidade1 e1 privando-te de trabalho1 no reparo que sobremodo doloroso estar a gente triste e calada6 ,que queres8 o egoismo dos homens2 somos todos assim6 ,temos de partir para uma viagem4 ,nossa me est doente1 e chamou-nos pelo telegrapho1 porque no quer morrer sem nos abenoar e beijar4 ,estamos ss1 n'um quarto d'hospedaria4 ,os criados1 que no comprehendem o que a ancia de receber o ultimo beijo materno1 deitaram-se1 extenuados de trabalho1 e nem siquer esto sonhando que teem ordem para nos chamar ao alvorejar da manh4 ,ns estamos deitados sobre a coberta1 j com o nosso fato de jornada1 fumando1 fumando1 inquietos1 rememorando os dias saudosos da infancia1 em que nossa me1 quella mesma hora1 nos ensinava a resar ao anjo da guarda1 ou as noites em que acordavamos sobresaltados1 e acudia ella a limpar-nos o suor da fronte1 e a conchegar-nos a roupa aos hombros4 ,sobre a commoda arde tristemente a vela que ha j duas horas precisava de ser espevitada4 ,a um canto est a nossa mala1 com o chapo de chuva em cima4 ,reina um silencio funebre no quarto4 ,nem ao menos se sente o palpitar do relogio no bolo4 ,todavia trabalha1 mas parece que intencionalmente se reprime para nos no perturbar4 ,n'aquella casa de gente desconhecida1 o nosso unico amigo o relogio4 ,est vigiando1 trabalhando para ns4 ,consultamol-o4 ,ainda cedo444 ,parece dizer-nos que estejamos tranquillos porque elle no adormecer4 ,continuamos pensando4 ,agora nos lembra a pallidez orvalhada de lagrimas com que nossa me se despediu ao partirmos4 ,e ella1 estamol-a vendo na heroica resignao das mulheres que sabem sacrificar o corao ao dever2 ella1 que do topo das escadas de pedra1 anciada1 fazendo um esforo supremo1 nos diz ainda3 --,parte1 filho1 preciso6 ,depois recolheu-se de golpe1 porque j lhe faltou a coragem de nos advertir de que eram horas1 muito horas444 ,no seu corao de me1 relogio que s a morte pde emmudecer1 havia soado a hora fatal da despedida4 ,e ns partimos1 ssinhos1 guiados pelo rustico almocreve1 ssinhos--com o nosso relogio4 ,no havia sol4 ,no poderiamos conhecer as horas pelas sombras das arvores4 ,o almocreve1 que se no podia orientar do curso do tempo1 porque o co estava escuro como o nosso corao1 ia-nos perguntando de legua em legua que horas eram4 ,consultavamos ento o relogio4 meio dia3 ,pois olhe1 volvia o almocreve1 quando meio dia1 e o ar est claro1 bate o sol n'aquelle cabeo4 ,meio dia6 ,a hora em que nossa me se levantava da sua costura para resar comnosco emquanto se no extinguia o echo da ultima badalada no campanario da aldeia6 ,quem nos disse isto tudo8 ,foi a memoria8 ,no foi4 ,ns iamos entorpecidos pela dr1 no ouviamos horas que nos evocassem recordaes1 a solido era immensa1 ao longe serras1 ainda mais ao longe serras444 ,foi o relogio1 o pequenino corao que ia sentindo por ns4 ,se at o almocreve1 que vive sempre s1 no medonho deserto das estradas1 faz do cabeo das montanhas relogio1 para que o caminho lhe v fallando e dizendo3 ,ante-hontem passaste aqui mais cedo6 ,d'uma vez1 mesma hora1 encontraste aqui aquella pegureira1 espavorida com medo dos lobos6 ,at elle1 aquella alma rude1 precisa da companhia do relogio6 ,por isso o vae pendurando de serra em serra1 fazendo do granito mostrador1 e dos raios do sol ponteiros444 ,mas emfim nossa me est agora doente1 moribunda talvez4 ,que funda melancolia nos est dando a saudade6 ,facto inexplicavel6 ,a ancia de partir foi vencida pela ancia de recordar4 ,iamo-nos esquecendo pelo muito que nos estavamos lembrando444 ,dormem todos no predio2 melhor diriamos dorme tudo1 porque os mesmos moveis parece conhecerem a noite444 ,engano6 ,no dorme tudo4 ,vela o relogio4 ,abrimol-o4 ,so horas de partir6 clama elle4 ,acreditamol-o como ao melhor amigo4 ,saltamos do leito4 ,gritamos pelos criados4 ,os criados dormiam4 ,s o relogio velava1 pois certo1 porque ns mesmos estvamos atordoados pela somnolencia da saudade444 ,mais um momento1 e no chegariamos a tempo d'alcanar a diligencia4 ,e manh seria j tarde1 talvez4 ,nossa me haveria morrido1 quer dizer1 a nossa falta havel-a-hia assassinado1 mais cruel que444 a doena4 ,quando todos dormiam1 foi o relogio que nos avisou444 portanto elle que nos recorda os nossos deveres1 que nos diz quando havemos de entrar para o nosso escriptorio1 que sustenta em grande parte a nossa harmonia domestica1 advertindo o criado de que chegado o momento de ter lustrosas as botas1 e a criada de que j vo sendo horas de jantar444 ,s elle nos falla verdade n'esta epoca essencialmente insidiosa4 ,insidiosa1 o termo4 ,pois no est recebendo o principe de ,bismark1 todos os dias1 cartas perfumadas de almiscar e outras essencias irritantes para o systema nervoso8 ,pois em ,palermo1 onde canta actualmente uma prima-dona formosissima1 no lhe arremessou outro dia aos ps certo admirador despeitado um bouquet que1 ao chofrar no palco1 rebentou como metralhadora8 ,querem maior insidia8 ,chegaram a envenenar as duas coisas mais graciosas da creao1 as flores e os aromas2 no exijam portanto lealdade na mulher4 ,n'este cataclismo ainda se no afundou o relogio3 a unica tabua que resta aos naufragos da sociedade4 ,o relogio1 a despeito da corrupo geral1 representa e representar o dever4 por isso que no ,memorial de familia1 de ,emilio ,souvestre1 o av lega ao neto o seu relogio1 escrevendo no testamento esta clausula3 ,deixo a ,leo o meu relogio d'ouro que nunca se desconcertou durante vinte annos4 ,quando elle attentar nos ponteiros1 que1 sempre obedientes ao impulso da machina1 marcam fielmente as horas1 recordar que a submisso e a observancia so a primeira condio do dever4 ,o relogio filho do egoismo do homem1 e victima do mesmo egoismo que lhe deu vida4 ,nos tempos primitivos bastava o quadrante solar para medir o tempo4 ,paulo e ,virginia nem do gnomon se serviam4 ,so horas de jantar1 dizia ella1 porque as sombras das bananeiras j lhes do pelo p ou ento noite2 os tamarindos fecham as folhas4 ,as ampulhetas ou relogios d'areia remontam-se mais nubelosa antiguidade egypcia4 ,na ,grecia usavam-se os clepsydros1 relogios d'agua4 ,vs disputaes a minha agua dizia ,demosthenes1 phrase que d a entender que a durao dos seus discursos era marcada por um clepsydro4 ,meado o terceiro seculo antes de ,christo1 ,estsibius1 d',alexandria1 construiu um clepsydro notavel por ser mais complicado que os primitivos1 que se limitavam a um vaso com um orificio na parte inferior1 por onde se coava a agua gotta a gotta4 ,depois o homem entrou de profundar os segredos da natureza1 e de se querer apropriar de quanto n'ella havia de grandioso4 ,a ideia do relogio era innata creao4 ,linneu comprehendeu-o organisando o relogio botanico pelas horas em que certas flores abriam e fechavam4 ,mas tanto isto verdade1 que os primeiros relogios eram construidos com os primitivos elementos da terra3 com o sol1 os gnomons2 com a agua1 os clepsydros2 com a areia1 as ampulhetas4 ,onde quer que faltassem recursos artisticos1 ahi se podia medir o tempo3 no mais alto da serra1 com um raio de sol2 nas solides do deserto1 com um punhado d'areia1 e no deserto do mar com uma gotta d'agua4 ,o espirito humano progredia4 ,chegou a vez do homem dizer terra3 ,at agora creaste tu2 agora quero eu crear2 ,e trabalhou1 e empenhou-se em dispensar o sol1 a agua1 e a areia2 inventou o pendulo1 conseguindo que a fora motora fosse constante4 ,galileu ou ,huyghens1 a historia designa-os a ambos1 deu este grande passo4 ,mas ainda no estava completamente resolvido o problema4 ,era preciso inventar mais4 ,em viagem1 quem1 por obra do homem1 havia de indicar ao homem o curso do dia ou da noite8 ,o sol ou as estrellas4 ,todavia nem o sol nem as estrellas as fez elle4 ,pensou1 luctou de novo1 e descobriu a molla em spiral1 que substitue o peso motor pela elasticidade que tem4 ,ficaram portanto descobertos os relogios d'algibeira4 ,podes partir1 peregrino2 j conseguirs saber nas solides do teu caminho se a noite vae adiantada6 ,e s tu que o dizes a ti proprio444 ,realisaste1 finalmente1 o teu sonho4 ,conseguiste roubar ao relogio a individualidade que a natureza lhe deu1 e reflectir n'elle a tua propria individualidade4 ,no verdade que a estructura do corao uma1 e que no ha sentimentos1 por mais similhantes que se affigurem1 que sejam completamente irmos8 ,tambem o relogio tem o seu corao1 o seu machinismo1 igual em todos1 e abri quatro relogios ao mesmo tempo1 que difficilmente combinaro na indicao dos minutos4 ,cada um tem a sua maneira de trabalhar2 como cada homem tem a sua maneira d'escrever4 ,e o estylo2 a differente maneira de ser4 ,ahi temos a individualidade homem e a individualidade relogio fundidas n'uma s4 o relogio-homem1 e o homem-relogio4 ,o relogio mede as horas2 o homem os annos4 ,eu tenho doze annos1 diz a creana2 meia noite1 diz o relogio4 ,um nasceu d'um pedao de barro2 outro d'uma gotta d'agua4 ,a alma o pendulo do homem-relogio2 o pendulo a alma do relogio-homem4 ,o relogio o corao que sente o tempo2 o corao por sua vez o relogio que marca as horas solemnes da vida1 como diz a trova3 ,a uma hora nasci1 s duas fui baptisado2 s tres andava d'amores1 s quatro estava casado4 ,pois apesar de tudo isto--do homem a tal ponto haver conseguido identificar-se com o relogio1 sendo preciso mergulhar na onda escura da antiguidade para lhe ir buscar a origem1 porque elle nada conserva da sua frma primitiva1 apesar d'esta camaradagem leal1 que o relogio mantm como dedicado amigo1 estamos habituados a tractal-o como escravo1 exigindo-lhe a maxima fidelidade quando carecemos do seu auxilio1 e despresando-o1 obrigando-o ao silencio e quietao1 esquecendo-nos de lhe dar corda como nos esquecemos de calar as luvas4 ,por isso que elle s vezes1 despeitado1 adoece1 sendo preciso mandal-o ao relojoeiro1 porque emfim1 como tambem diz a trova3 444 amar sem ser amado ,faz perder a paciencia4 99 99 99 99 99 ,s ,,sete ,,horas ,,da ,,manh ,um d'estes dias aconteceu-me como rainha ,christina da ,joanna do ,arco3 tive saudades da ,aurora4 ,levantei-me alvoroado e resolvi ir procural-a1 no aos reportorios1 em que eu j vou perdendo muito a f1 mas nas ruas1 onde uma pessoa j no pde perder a f1 porque1 quando sae1 a deixa em casa4 ,e sahi a procurar a aurora1 s sete horas da manh4 ,infelizmente no a encontrei seno nos cartazes que annunciavam a ,joanna do ,arco e diziam3 ,aurora1 filha do rei ,faz-,tudo e da rainha ,christina ,amina--snr4 ,amelia ,menezes4 ,ora as auroras dos cartazes so como tudo o que do theatro3 s se vem noite4 ,e1 como d'ahi at poder vr amanhecer no palco do theatro ,baquet medeavam muitas horas1 decidi aproveitar o meu tempo o melhor possivel1 vendo tudo quanto apparecia1 ouvindo o que se dizia4 ,vi e ouvi4 ,na loja da primeira esquina poisava um gallego o seu copo d'aguardente sobre o balco1 com attitude de quem se despedia4 ,mas1 ao contrario dos olhos de quem se despede1 que esto quasi sempre humidos1 o copo estava enxuto4 ,tambem podera6 que a aguardente um combustivel para o carrejo4 ,quer armar-se pela manh1 porque o seu combate comea quasi logo com o dia4 ,aquella a sua polvora2--com ella far fogo4 ,depois de abastecido o paiol1 no receiar succumbir2 e se s vezes1 durante o dia1 houver suada refrega1 ir beber tantos copinhos quantos cartuxos requisitaria um soldado em lance identico4 ,o que reconheci que todos pela manh1 quando saiem rua1 o mais que procuram --a fora4 ,ora hoje a fora j no est1 como nos tempos pagos1 nos cabellos de ,sanso4 ,hoje a fora a aguardente1 a revalescire1 o oleo de figados de bacalhau1 o bife1 e1 apesar de se chamar frango a uma pessoa fraca1 a fora tambem est no frango4 ,eu digo isto porque encontrei uma velhinha1 to curvada1 que parecia ir procurando j a sepultura1 a embrulhar no seu capote um frango que provavelmente fra comprar ao mercado4 ,elle1 o franguito1 ia muito quieto1 como se conhecesse que era cobardia luctar com a velhice4 ,para que podia servir-lhe1 sem mais nada1 porque ella no levava realmente mais compra alguma8 ,para deitar panella1 com uma pouca d'agua e sobre uma pouca de lenha1 e para depois o comer1 ella1 que precisa de fora para esperar pela morte1 ou para o dar a um neto1 que est provavelmente com variola1 e precisa de fora para resistir morte4 ,em todo o caso eu desconfio que fosse para o neto1 pela pressa que a velhinha se dava4 ,no olhava para ninguem1 e ia encostada s casas como se quizesse evitar encontros e demoras4 ,provavelmente levava na algibeira a chave da casa1 e a criana havia ficado fechada1 em quanto ella fra comprar ao mercado o franguito com uns restos de dinheiro abenoado que lhe esmolra o anonymo ,y4 ,e ia com seu receio de que o neto precisasse d'alguma coisa1 e desse pela sua falta1 sem se lembrar de que1 quando acabar de velhice1 ninguem certamente dar pela falta d'ella4 ,isso no lhe importa4 ,morrer1 morre ella se lhe faltar o neto4 um peso1 1 mas a vida1 que tambem um relogio1 precisa d'um peso para regular1 como os relogios4 ,o peso de mais uma bocca para ella uma consolao4 ,naturalmente o rapasinho j ganhava o seu vintem a vender jornaes4 ,no era tanto pelo dinheiro1 que a av gostava do modo de vida1 como pelas novidades1 que o neto contava noite444 ,tudo isso estava provavelmente em risco d'acabar1--as novidades1 a vida do neto e a alegria da av4 ,por isso ella ia to afadigada--coitadinha6--com a sua velhice e com a sua compra444 ,agora comeo eu a encontrar o rancho dos criados1 com as amplas cestas enfiadas no brao4 ,de todas as cestas1 a que mais me deu na vista foi uma que ia completamente cheia de alfaces4 --,familia de grilos6 pensei eu4 ,e depois ratifiquei1 porque o criado1 referindo-se decerto a algum dos patres1 ia dizendo para o companheiro3 --,e elle est-me sempre a cantar6 ,uma criada dialogava com outra3 --,hoje prego-lh'a444 --,bem me fio eu n'isso6 --,ora tu vers4 --,ento que fazes8 --,no me ha-de tornar a deixar fechada3 hoje perco a chave da porta da rua4 ,eu disse para os meus botes3 --,trabalho escusado1 o de te fechar a porta6 ,as criadas1 como aves de rapina que so1 em poucas gaiolas cabem1 de modo que tem sempre a cabea de fra444 porta do ,anjo cantavam dois cegos o ,noivado do sepulchro2 o povo fazia circulo3 ,vai alta a lumha na manso di a morte1 ,j meia noite com bagar zoou4 ,no fui philosophando sobre a deturpao dos formosos versos do poeta portuense4 ,pensei mais nos cegos que no poeta1 ,deus me perde6 ,como so cegos1 no podem vr distinctamente a prosodia e a ortographia2 isso j se sabe4 ,no que eu pensei foi n'este continuo andar divertindo os outros1 sem siquer terem tempo de se lembrar de que so cegos4 ,l vo chorando na viola as suas maguas1 mas to disfaradamente1 que gente parece-lhe que esto cantando1 e elles esto talvez chorando4 ,passam no mundo sem vr o mundo1 e isso pouco lhes importa2 o que lhes custa mais decerto no verem o dinheiro444 ,n'uma barraca do mercado1 um soldado da guarda municipal offerecia morangos a uma criada de servir4 ,que delicado amor aquelle1 que elles iam mettendo na massa do sangue6 ,o morango a fructa mais innocente1 mais saborosa1 talvez a mais agradavel1 e este facto1 que eu presenciei1 depe realmente muito a favor da educao do nosso exercito4 ,podiam amar-se com peixe frito1 e amar-se-iam assim ha vinte annos2 agora o exercito ama comendo morango1 fructa que parece haver nascido para se comer de luvas1 to pequenina e rosada 6 ,quando recolhia1 vinham adeante de mim dois pequenitos1 com os seus livros sobraados4 ,pelo que diziam1 deprehendi que entravam n'aquelle dia o exame d'instruco primaria4 --,levas medo8 perguntava um4 --,eu no4 ,e tu8 --,eu6 nenhum6 ,e1 coitadinhos1 iam tremulos como passarinhos quando a gente pga n'elles4 --,infelizes6 pensei eu1 l vos espera o visco4 ,sabeis a origem da palavra districto8 ,sabeis qual a frma geometrica do reino de ,portugal8 ,no sabeis8 ,pobresinhos de vs1 que l ficareis a esvoaar infructifera e desastradamente no visco da reprovao6 ,pois ento ides fazer exame d'instruco primaria1 pequenos scelerados1 e no sabeis tudo6 ,estive capaz de dizer que retrocedessem4 ,todavia deixei-os ir1 entregues ao seu destino1 e s oraes das mes1 que em sua extrema bondade pensam que ho de vencer todas as difficuldades com padre-nossos4 ,santas creaturas--as mes6 ,coitaditos6 os pequenos l foram andando444 ,subo finalmente1 com a cruz da minha ociosidade1 a ladeira da rua de ,santo ,antonio4 ,ociosidade digo1 se bem que o meu animo no ande nunca to despreoccupado1 que no chegue a lembrar-se de que o domingo o dia do folhetim4 ,por conseguinte1 eu1 jornaleiro do jornalismo1 descano do labor quotidiano procurando444 assumpto4 ,e sabendo eu que ha pessoas to felizes que s vezes encontram dinheiro pelas ruas1 reputo-me to infeliz que1 sem achar dinheiro1 poucas vezes encontro assumpto4 ,todavia d'esta vez at na rua de ,santo ,antonio o encontrei6 ,j agora quero ser verdadeiro at ao fim1 e fallar-lhes d'um quadro que estava em exposio na loja dos snrs4 ,martins ,peres1 e que havia sido comprado por um cavalheiro de ,villa ,nova de ,gaya4 ,imaginem o mais formoso idyllio d'este mundo1 o verdadeiro consorcio da poesia com a pintura1 e tero o quadro que se intitulava a ,morte d'um passarinho1 copia de ,eugene ,lejeune4 n'aldeia1 e suppe-se provavelmente que n'um largosito1 onde s crianas costumam brincar4 ,qualquer d'ellas havia engaiolado1 no tempo1 um ninho de melros1 de que s escapara um4 ,vivia principesca o melro1 tractado pelos pequenos1 que muitas vezes se esqueciam do velho co1 para encherem os comedouros ave4 ,mas1 pois que at os principes morrem1 o melro morreu4 ,era preciso fazer um enterro condigno1 e tractou-se d'isso4 ,emquanto uma criana abre a cova e outra sustenta uma cruz de pau1 formam as restantes o funebre cortejo do passarinho4 ,o feretro vae deposto n'um carrosito de pau1 o melhor que se pde arranjar4 ,umas pequenitas tiram pelo carro1 em direco cova1 que se est abrindo4 ,apoz o feretro vae um rapasinho lacrimoso1 suspendendo a gaiola vasia1 e a par do rapasinho o co1 to triste como qualquer das crianas4 ,o quadro isto1--e o mais que se no pde dizer e constitue a alma da pintura4--,ainda no vi assumpto to ligeiro mais habilmente tractado1 d'onde se infere que1 se ,eugene ,lejeune tivesse visto os meus dois rapasinhos1 que iam fazer exame1 com os seus livros1 o seu medo e a sua esperana tambem1 haveria desenhado um quadro digno de figurar a par da ,morte d'um passarinho4 99 99 99 99 99 ,,meza ,,do ,,ch 7,,por ,,occasi,o ,,da ,,visita ,,do ,,shah ,,da ,,persia ,,europa7 --,estou summamente aborrecida1 primo6 --,confesse1 o que no nada lisonjeiro para mim6 --,o primo no me julga divindade para me fazer o sacrificio das suas palavras444 d'oiro6 --,perdo1 que eu estava provando o ch4 --,cuidado4 ,ento no escalde a eloquencia4 ,ainda se no pde tomar4 --,n'esse caso444 --,n'esse caso8 --,esperemos que o ch arrefea4 --,agora impossivel6 --,impossivel8 --,sim1 porque o shah j no est na ,russia4 --,bravo6 ,a prima faz espirito6 ,repta-me2 atira-me a sua delicada luva gris-perle4 ,est aceite4 ,conversemos4 --,pois conversemos4 --,dizia eu444 --,o que dizia o primo8 --,nada4 ,eu ia dizer que esta chavena do tamanho da ,europa4 --,que disparate1 primo6 --,perdo1 que tem dentro o shah444 99 ,as mes dos primos1 exportando maledicencia e importando fatias pela bocca3 --,l estavam hontem no theatro6 --,estavam4 ,elle e ,ella4 gente da primeira sociedade444 --,ora o que tu quizeres1 ,gertrudes6 ,fidalguia que sahiu da quinquilheria e do fundo d'um chapo4 ,elle tolo3 ella filha de criada6 --,mas fazem figura444 ,o filho mais novo1 que estuda geometria no lyceu3 --,figura de444 cylindro4 ,as mes3 --,cala-te1 ,luizinho6 --,deixa fallar o rapaz4 ,eu no entendi o que elle disse1 mas pde ser que tivesse graa444 --,pois eu estou pelo meu dito4 ,parecem da primeira sociedade4 --,parecem1 comeando pelo fim4 99 ,um dos pequenos3 -- mam1 ento sempre vamos para a ,foz8 --,o pap vae amanh alugar casa4 ,o pequeno sahindo da sala a correr3 -- ,juc6 o pap vae amanh alugar casa6 ,as mes3 --,no ha remedio1 ,leocadia1 eu tenho uma filha4 preciso vr se tractamos de casal-a4 --,que pressa6 --,tenho c uma raso2 no digo bem1 temos c uma raso4 --,aquillo em ,hespanha est mau444 --,que tem a ,hespanha com tua filha8 -- que meu marido anda com a mania de comprar fundos hespanhoes1 e1 se a ,hespanha fizer bancarota444 --,percebo4 ,o marido que se aguente1 e fique com a mulher sem dote444 --,tal e qual4 ,ns c444 pensamos assim4 99 ,o pae da menina lendo o ,jornal do ,commercio1 e interrompendo-se para chamar o sobrinho2 -- ,arthur8 --,meu tio6 --,tu j leste esta biographia do shah da ,persia8 --,eu no1 meu tio4 --,pois olha que tem sua graa6 ,lendo pausadamente3 ,mal subiu ao throno reformou o shah os costumes do palacio1 redusindo as despesas do serralho a limites mais equitativos4 ,seu tio1 a quem succedeu1 como j indicamos1 tinha nada menos de quinhentas mulheres1 das quaes houve cento e um filhos e cento e sessenta filhas1 o que constitue regular prole4 ,o monarcha actual tem unicamente quinze esposas e pae s d'uma duzia de filhos4 ,na sua viagem levou algumas d'aquellas at ,s4 ,petersburgo2 faziam parte da criadagem e costumavam alojar-se com os cavallos e os palafreneiros2 na capital da ,russia1 o shah mandou-as embora1 obrigando-as a voltar para ,thran4 ,as mes poisam as chavenas e do atteno4 ,o pae poisando o jornal3 --,pois1 senhores1 sempre um shah muito forte6 ,as mes3 --,ah6 ah6 ,a menina3 -- primo1 vamos fazer paciencias depois do ch8 --,como a prima quizer4 ,o pae3 --,deixem a paciencia para o shah3 com quinze mulheres6 99 ,o primo1 levantando-se da mesa1 abre a carteira e comea a escrever para evitar que a prima o force a ir fazer paciencias4 ,a me do primo3 --,l est o rapaz a tombos com os versos6 --,aquillo no lhe faz mal nenhum6 --,sim1 mas que j tem impresso tres volumes minha custa e esto para l as aguas-furtadas cheias de livros4 ,a prima levantando-se surrateiramente3 --,so para mim4 ,no d o brao a torcer1 mas ama-me com toda a certeza4 ,o primo fechando a carteira e erguendo-se3 --,com toda a metrificao4 --,que dizia1 primo8 --,que fiz um milagre4 ,ha um mez que no fao versos1 e escrevi tres quadras com toda a metrificao recommendada nas poeticas6 --,pde saber-se qual foi a inspirao8 --,oh6 uma loucura1 prima1 uma extravagancia minha4 ,a menina1 parte3 --,so a mim4 ,no se atreve a dizer-m'o6 ,em voz alta3 --,diga sempre444 --,olhe que no valem nada444 --,mas porque no l8 ,so444 --,a mr4 ,du ,barry4 --,a quem8 ,o primo est-me enganando6 --,acredite4 ,so a mr4 ,du ,barry1 author da ,revalescire4 ,a prima ainda desconfiada de ser a inspirao2 --,ora leia6 --,ahi vo3 ,meu ,deus6 eu vi suar os bons pedreiros ,a encastelar as pedras calcinadas ,com que armaram alfim uns pardieiros1 ,pendurados de rochas empinadas4 ,certo dia nefando a tempestade ,rugiu1 rolou1 desceu em turbilhes1 ,lascando a rocha1 arremeando a herdade ,do vendaval aos rbidos baldes4 ,ento1 ,du ,barry1 obreiro ingente1 ,que reconstrues as raas com farinha1 ,pensei em ti1 que vs morto o doente ,quando a ,r'valescir' salvado o tinha6 ,a prima3 --,ora6 ,o primo3 --,du ,barry um grande homem6 ,a prima agastada3 --,e o primo um grande ingrato6 99 ,a me do primo2 -- mano1 que diz a folha do que vae por ,hespanha8 --,a folha diz que os internacionalistas descubriram agora uma nova especie de banhos4 --,uma nova especie de banhos86 --,j havia os do mar1 que esto desacreditados desde que muitas meninas vem de l solteiras4 ,havia os de chuva1 que j no faziam effeito a ninguem4 ,havia os russos1 e ha-os agora de petroleo444 --,de petroleo6 --,mana e senhora--de petroleo1 diz a folha4 ,a me do primo3 --,aquelle meu rapaz metteu por fora a cabea em algum banho de petroleo6 99 ,a prima3 --,ento vamos fazer paciencias8 ,elle3 -- prima1 eu estava com vontade de fazer mais versos4 ,ainda tinha teno de cantar esta noite o dr4 ,paterson1 author das pastilhas americanas1 e o ,melchior ,sola1 fabricante de lumes promptos4 ,dois grandes homens1 prima6 ,um d a saude2 o outro a luz4 ,a pastilha o colorido das suas faces2 o phosphoro a alma do meu charuto4 ,a prima come uma pastilha e sente-se forte2 eu acendo um charuto e sinto-me poeta4 ,procurando o chapo3 -- ,paterson6 ,sola6 pastilha6 phosphoro6444 ,a prima3 --,ento vae-se embora8 ,o primo1 j do patamar3 --,vou ao theatro ainda4 ,a me do primo3 -- o que eu digo1 3 o rapaz toma banhos de petroleo6 99 99 99 99 99 ,s4 ,,jo,o 7,,no ,,dia #ba ,,de ,,junho ,,de #ahgc7 ,s4 ,joo o ,anacreonte do christianismo4 ,eterna mocidade1 inextinguivel alegria1 olhar brilhante1 faces rosadas1 cabellos revoltos1 sorriso nos labios444 o das canes1 dos bailaricos1 dos amores1 dos mysterios4 ,na sua noite de tal modo sabe distribuir pelas alamedas os claros-escuros do luar1 que parece haver uma sombra para cada segredo1 um reflexo para cada alegria4 ,a festa da mocidade4 ,suspira a guitarra debaixo do arvoredo e a musica d'aquella noite to docemente estonteia as raparigas1 que chegam a perder o seu annel de noivado entre as folhas do serpo444 ,andam no ar derramados uns effluvios que parece darem gente uma indolencia voluptuosa4 sentar-se na relva1 ouvir a guitarra1 cantar1 rir1 e a noite l se vae esquivando por entre os troncos das alamedas444 ,as trovas tambem contam que elle1 o precursor1 vivia no desleixo da felicidade4 ,de subito o colhia o somno1 quando a aurora vinha descendo terra1 para reanimar as flores pendidas durante a noite444 ,s4 ,joo adormeceu ,nas escadas do collegio4 ,depois1 quando acordava1 corria a procurar a sua felicidade ainda absorto nas vises do sonho444 ,o ,s4 ,joo1 d'onde vindes ,pela calma1 sem chapo8 ,outras vezes1 porque o somno era mais breve ou o sonho era maior1 despertava pouco depois de ter adormecido1 e as moas1 que ao entreluzir da manh abriam as janellas do casal1 iam-lhe perguntando de casa a casa3 ,o ,s4 ,joo1 d'onde vindes1 ,que tanto estaes orvalhado8 ,viveu rodeado de mocidade1 das alegrias da primavera e das maguas dos vinte annos1--maguas que so fecundantes como os chuveiros d'abril4 ,ora as moas lhe chilriavam em torno as alegrias dos seus desejos3 ,s4 ,joo1 as moas hoje ,vos pedem que as caseis2 ora o procuravam para que lhes dsse aquellas flores mysteriosas que trazem allivio a penas d'amor3 ,no altar de ,s4 ,joo ,ha um vaso d'aucenas1 ,aonde vo os namorados ,dar allivio s suas penas4 ,perseguido pelas feias1 que noite e dia lhe pediam noivo3 ,s4 ,joo1 todas as feias ,vos pedem um casamento1 corria a esconder-se nos rosaes3 ,o ,baptista no deserto ,entre as flores escondido1 certo de que ellas no ousariam1 ellas1--as feias6--defrontar-se com as flores para encontral-o4 ,poucas vezes1 sim1 mas l vinha uma tristeza ao corao1 quando alguma voz ia cantando na estrada3 ,por causa de pretenes ,mulheres que no faro8 e ento-- horror6--receioso da colera das desilludidas1 e do resentimento das feias1 procurava encantal-as a todas1 e fazia brotar a agua da sua fonte de prata1 para que umas e outras viessem narcisar-se ao espelho444 ,s4 ,joo por vr as moas ,fez uma fonte de prata4 ,todavia umas e outras1 astutas por serem bonitas1 astutas por serem feias1 fugiam ao logro1 e no levavam a sua bilha fonte1 para que todo se matasse de aborrecimento o santo444 ,as moas no vo a ella1 ,s4 ,joo todo se mata4 ,estava porm escripto no livro dos destinos que lhe viesse a queimar a vida o fogo com que elle brincava444 ,uma noite havia festa nos paos sumptuosos d',herodes-,antipas4 ,em derredor da aurea mesa estava reclinada ,herodiades1 a libertina que se rendera ao amor do irmo de seu marido1 e ,salom1 sua filha1 e os cortezos que libavam vinhos deliciosos em taas reluzentes de pedraria4 ,no longe1 no carcere1 estava ,joo ,baptista1 sepulto na silenciosa solido das cadeias1 porque elle havia levantado a sua voz contra a incestuosa unio do tetrarcha e da barreg illustre1 sua cunhada4 ,depois do festim1 ,salom tomou a harpa e cantou e bailou na presena de seu tio4 ,quiz elle galardoal-a e perguntou-lhe o que lhe aprazia4 ,ento ,herodiades inclinou-se ao ouvido da filha e a moa respondeu3 --,a cabea do preso4 ,e continuou a tanger na harpa dos seus cantares4 ,momentos corridos pendiam d'um taboleiro de prata1 na sala do festim1 os negros cabellos da inanimada cabea4 ,e ,salom bailava1 e ,herodiades sorria1 e os cortezos applaudiam4 ,no pao tudo era alegria2 na rua iam cantando melancolicamente as raparigas3 ,por causa de pretenes ,mulheres que no faro8 ,fizeram cahir ,s4 ,pedro1 ,degolaram ,s4 ,joo4 ,mas1 prodigio6 os olhos1 apesar de mortos1 tinham brilho1 e nas faces inertes havia um raio de sol6 ,era o brilho da eterna mocidade1 o reflexo da alegria eterna444 ,e nunca ninguem mais chorara o precursor1 porque o cutello do algoz no lhe roubou a grande alma que enche de luz e felicidade a noite d'hontem e o dia de hoje4 99 99 99 99 99 ,,judas ,,no ,,plural 7,,paschoa ,,de #ahgc7 ,foram-se alguns mas ainda ficaram muitos4 ,ha-os de todas as idades1 de todos os feitios e de todos os sexos4 ,a vida seria um perpetuo sabbado d'alleluia se cada homem e cada mulher tivesse a consciencia do que 4 ,mas o grande erro do nosso barro o querermos enganar-nos a ns mesmos4 ,d'este erro nascem todos ou quasi todos os maus sentimentos1--a vaidade1 o orgulho1 a perfidia444 ,na perfidia que bate o ponto1--da perfidia que hoje se tracta4 ,queimou-se hontem pelas ruas a figura do apostolo traidor1 e a maioria das pessoas que eu encontrei tinha as faces radiosas d'alegria e no denotava arder na fogueira interior em que muitas vezes nos queimamos1--o remorso4 ,tudo por no nos querermos conhecer1 tudo por no descermos s profundezas de ns mesmos a tactear aquella costella de ,judas que herdamos de nossa me ,eva1 quando no paraiso terreal seduzia o esposo com blandicias conjugaes para tental-o a comer do fructo prohibido4 ,no pomo da tentao foi toda a perfida maldade da fingida esposa4 ,ado comeu-o1 digeriu-o1 entrou-lhe muito da substancia na massa do sangue4 ,depois o sangue do primeiro homem correu para os grandes vasos da humanidade e levou comsigo alguma coisa da fatal ma1 alguma coisa de ,judas4 ,succedeu porm que no corpo do discipulo traidor entrou maior dose do veneno2 isto significa simplesmente que elle era mais traidor do que ns e no que1 por elle o ser1 no o sejamos tambem4 ,somos6 ,se somos6 ,o que ns temos a nosso favor a civilisao do nosso tempo e a suavidade dos nossos costumes4 ,judas fez uma aco m por maneira peior do que a aco4 ,ns fazemos o que elle fez1--mas sabemos fazel-o4 ,elle1 com toda a rudeza dos seus babitos de pescador1 envenenou com a sua traio a mais doce formula de exprimir a amisade1--o beijo4 ,o beijo ficou envenenado1 e tanto assim 1 que desconfiamos sempre do beijo1 excepto quando elle desabrocha em labios de me4 que o corao materno1 profundo como o mar1 inviolavel como elle3 rejeita qualquer corpo extranho pureza dos seus sentimentos4 ,feita esta excepo1 a primeira e unica1--o beijo continua a estar envenenado4 ,o beijo tem sempre um fim1 o beijo simplesmente um instrumento4 ,parece impossivel que uma coisa que dura to pouco possa fazer tanto mal1 mas faz4 ,ah6 de noite1 n'um quintalsinho de roseiras8 ,l ao longe ha montes1 recortados por pinheiraes1 e pinheiraes illuminados pela lua cheia8 ,julieta est entre as suas roseiras1 com os cabellos revoltos1 o seio offegante8 ,um fremito6 ,foi uma folha que cahiu8 ,ah6 no foi1--foi um beijo que poisou4 ,ests bem servido1 desgraado6 ,romeu piegas6 esse beijo coou-te ao sangue a febre do casamento4 desgraado6444 uma noite d'inverno4 ,a chuva torrencial4 ,a ventania abala as janellas4 ,tu ests sentado ao fogo1 com o teu robe-de-chambre e o teu capote1 com os ps no fender e a cabea mettida dentro do barrete de velludo preto4 ,leste o teu jornal1 e ficaste somnolento1 ou fosse que o jornal te adormecesse ou que o calor te enervasse4 ,chegaste a um d'esses estados de espirito em que j se no pensa em nada2 e se se pensasse em alguma coisa1 era decerto em dormir4 ,n'isto ouves entrar na sala tua mulher4 ,abriste os olhos1 conheceste-lhe o andar e deixaste cahir as palpebras4 ,ella vem1 p-ante-p1 debruar-se do espaldar1 bater-te uma palmada no hombro1 e dizer-te maviosamente3 --,j so horas de me vestir1 filho8 ,estremeces1 como se te rebentasse aos ps uma bomba ,orsini4 --,vestir8 --,so nove horas4 ,eu mandei vir a carruagem s onze4 -- filha1 mas eu estou constipado1 no posso comigo1 tem paciencia1 filha1 mas com esta noite1 no vamos1 no podemos ir6444 ,atchi1 atchi444 olha como eu estou constipado6 --,ahi ests tu com as tuas phantasias1 com a tua negregada imaginao6 ,dir-me-has manh se peioraste com o baile4 ,imagina que desces as escadas muito embrulhado no teu capote1 que te mettes na carruagem1 que te deixas enterrar nas almofadas1 que chegamos finalmente1 que entras nas salas onde as luzes conservam uma temperatura confortavel1 que o conselheiro e o doutor esperam por ti1 que fazem a sua partida de voltarete1 que ds seis codilhos e um geral1 que vaes tres vezes casca444 --,tudo isso verdade1 filha1 mas hoje no pde ser4 ,estou indisposto1 estou bruto1 deixa-me dizer assim1 estou bruto4 ,hoje1 se jogasse o voltarete1 no ia casca1 dava casca com toda a certeza4 ,ella1 que n'esta esgrima conjugal tem guardado para o fim o bote decisivo1 continua um pouco mysteriosamente1 cada vez mais debruada na cadeira3 --,pois sim1 tu no queres ir444 no vamos444 por mim pouco me importa4 ,mas lembra-te que no jantaste ainda ha duas horas1 que n'esta sala faz um calor excessivo1 que o medico444 ,o marido1 aprumando-se e esgazeando o olhar3 --,que o medico8 ,ella perplexa3 --,deixemos isso4 ,vamos ao baile1 filho1 anda vestir-te444 ,elle3 -- ,nini1 mas que disse o medico8 ,no me enganes444 ,este fogo444 este maldito fogo444 eu bem sinto que isto calor de mais4 --,mais uma raso para o evitares4 -- filha1 ,nini1 mas passar agora para o frio6 --,no passes j3 arrefece primeiro4 ,em todo o caso livra-te do fogo1 homem1 livra-te d'este fogo1 que hade dar cabo de ti444 ,bem o disse444 --,o medico8 --,sim1 o medico4 --,que disse elle1 ,nini8 --,que fizesse por arrancar-te ao fogo1 porque este calor1 depois de jantar1 bem sabes que o teu temperamento444 --,ah6 ,j sei6 ,a apoplexia6 ,e n'isto cae dos labios da esposa face sanguinea do marido um beijo muito mais venenoso do que um frasco d'acido prussico4 ,e que a esposa vende a tranquillidade do marido pelos trinta dinheiros do baile4 ,e as creanas1 quando so inquietas como borboletas1 e tem cabellos loiros como o sol1 e olhos azues como o co1 que graciosos ,judas que ellas so6 ,prohibe-lhes a gente que bulam no bouquet que poisamos em cima da mesa4 ,e ellas a estenderem sorrateiramente a mo444 --,menina6 --,menino6 --,no bula ahi4 --,deixe estar isso4 ,e d'ahi a segundos l torna a creana a mexer com a mosita1 como um beija-flr que estivesse abrindo uma aza para ir oscular uma rosa4 --,tu apanhas6 --,espera ahi6 ,e a creana1 em vez de saltar ao bouquet1 salta ao nosso collo1 e afaga-nos1 e pede-nos meigamente que lhe deixemos vr o bouquet1 que ella s o quer vr1 que s o quer cheirar4 ,beija-nos6 ,o almasita de ,judas em corpo de cherubim6 ,tu no sabes que o beijo foi a arma de ,judas1 mas o que tu j advinhaste que o beijo um veneno com que a gente facilmente mata uma opposio qualquer4 ,os governos ainda se no lembraram d'este grande expediente1 mas estou certo de que mais tarde ou mais cedo ser incluido na longa lista das tricas parlamentares4 ,supponhamos que um ministerio no tinha maioria4 ,um dos ministros entrava na camara1 e estava fallando vehementemente um dos maiores oradores do parlamento4 ,as accusaes eram energicas1 o ministro sentia-se abalado no pedestal do governo1 via cavar-se-lhe aos ps o abysmo do nunca mais4 ,era preciso uma ideia salvadora1 um pensamento luminoso4 ,pois bem4 ,s4 ex4 o ministro levantava-se doidamente apaixonado1 e corria a beijar freneticamente o orador da opposio4 ,e s4 ex4 o deputado1 affrontado d'aquella ancia de beijar1 cahia na cadeira amavelmente asphyxiado1 e afastava com um gesto carinhoso s4 ex4 o ministro4 ,j se tentou rehabilitar o beijo1 mudando-lhe o nome4 ,comeou-se a dizer osculo1 no por ser mais elegante a dico1 mas por ser menos conhecida4 ,logo porm que se veio a saber o que era o osculo1 entrou-se a desconfiar tanto do osculo como do beijo4 ,diziam os namorados3 --,acreditas o juramento8 --,no acredito4 --,e se o sellar com um osculo8 --,oh6 no acredito4 ,no pde haver amor exdruxulo4 ,ns no rompemos por entre a multido1 asperamente1 apartando os grupos1 para ir vender com um beijo2 vendemos e compramos com um beijo1 negociando com elle serenamente4 ,a grande culpa de ,judas foi falsificar a moeda e lanal-a falsificada na circulao4 ,ns no falsificamos1 verdade1 mas negociamos com dinheiro falso4 ,por isso hontem1 quando a alleluia passava festivamente de torre em torre1 e estralejava nas ruas1 e os ,judas de palha iam arder estoirando com grande applauso do rapazio1 eu ouvi soar a meus ouvidos a grande voz da ,raso1 d'esta ,raso que se escreve com letra maiuscula por ser da escola do ,infinito1 e dizer3 --,se s os que no fossem ,judas devessem acender o rastilho1 estes monos de palha1 que tu ahi vs1 no arderiam jmais4 99 99 99 99 99 ,,historia ,,velha ,sou muito novo para no ter esperanas e muito velho para deixar de sentir o suave doer da saudade4 ,espero no futuro1 na baixa das inscripes1 nas bancarotas1 nas dictaduras1 espero em tudo o que ns podemos ter de bom em ,portugal1 e no posso deixar de lembrar-me saudoso do passado1 das suas crenas1 das suas obras1 uma das quaes somos ns1 das suas tolices tambem4 ,se ponho olhos no futuro1 refujo de medroso para o passado e apraz-me ento conversar com os homens que foram1 os quaes me contam coisas maravilhosas e graves4 ,ora succede tambem que muitas vezes me fico pasmado diante do estendal das relamborias semsaborias das sociedades extinctas1 mas nem por isso deixo ainda de querer ao passado1 que no nos deu os bares1 nem os penicheiros1 nem as companhias de caminhos de ferro1 innovaes mil vezes mais causticantes que as supraditas semsaborias4 ,revivam pois as sinceras crenas e as ingenuas tradies de nossos avs1 e conversemos d'elles e d'ellas emquanto a sociedade moderna applaude o espectaculo de si mesma4 ,o primeiro varo respeitavel que temos a conversar chama-se ,antonio ,cerqueira ,pinto1 cidado da cidade do ,porto e academico supranumerario da academia real da historia portugueza1 o qual escreveu e estampou a ,historia da prodigiosa imagem de ,christo crucificado que com o titulo de ,bom ,jesus de ,bouas se venera no lugar de ,mathozinhos1 na ,lusitania4 ,posto isto como apresentao indispensavel1 vamos direito ao assumpto e oiamos o ,cerqueira n'uma das paginas do seu livro3 ,consiste pois o principal d'este admiravel successo1 em que voltando ,s4 ,thiago de ,hespanha a ,jerusalem1 com os sete discipulos1 que na provincia interamnense da ,lusitania convertera1 e havendo triunfado em martyrio n'aquella mesma cidade1 em que ,christo remira o mundo1 emprehenderam os mesmos discipulos1 tanto por anterior recommendao do santo1 como por divino impulso1 reconduzir o seu sagrado cadaver a esta parte1 para ter o jazigo1 na em que fra missionario apostolico4 ,embarcados com elle em ,jope1 porto maritimo da ,palestina1 e navegado em breves dias para o ,occidente1 o ,mediterraneo1 costeando pelo oceano a ,lusitania1 com rumo direito a ,galiza1 parou como em calmaria a embarcao1 vista do venturoso logar de ,mathosinhos1 no por faltar-lhe o vento1 pois vinha celestialmente equipada1 e tanto de divinas auras favorecida1 que lhe levou brevissimos dias a derrota sendo d'extenso bem dilatada2 mas por permittir o co1 que n'esta escala tivesse ,s4 ,thiago por refresco uma salva real1 como teve na converso do copioso gentilismo1 que n'aquella praia se achava ento celebrando os regios desposorios referidos 7uns que se celebravam n'esse dia em ,mathosinhos7 em justas1 torneios1 lanas1 e outros applausos ao antiquado uso1 que n'estas partes haviam introduzido os primeiros adventicios dominantes gregos4 ,e sendo n'este festejo um dos jogos celebrados1 o a que chama o ,flos sanctorum antigo de ,alcobaa1 andar bafordando#c porque os cavalleiros na praia em concertados meneios entravam pelas candidas espumas1 que ao mar costumam servir de crespo bordado ao ceruleo adorno1 com que gallea2 succedeu por alto mysterio1 que do noivo o cavallo desperando do domante freio os regulados preceitos1 se arrojou s ondas1 intrepido1 com tanto fogo1 que julgavam magoados os circumstantes ao cavalleiro desgraadamente perdido2 porm elle prodigiosamente venturoso chegou sem perigo a abordar nau1 em que com os seus discipulos estava o corpo de ,s4 ,thiago1 e lhe serviu de segura tabua a salvar-se1 e a todo o logar do naufragio gentilico1 por ir ,deus assim dispondo aquelle especioso terreno para soberano deposito da veneravel imagem de ,christo ,crucificado4 ,junto da nau1 entre os confusos assombros de vr-se na fluida inconstancia das anfuas1 como em terra firme1 seguro1 notou e advertiu o cavalleiro1 que no s chegava de maritimas conchas matisado3 mas que no mesmo perigo achava quem o livrasse do susto na milagrosa exposio do ,mysterio e instruido nos da ,f1 recebido o sagrado baptismo por um dos santos discipulos administrado1 impresso bem tudo no seu conceito com prazer inexplicavel convertido1 e por aquelle sacramento illustrado2 advertido finalmente do mysterioso final1 que as conchas haviam de ficar representando feito missionario apostolico1 triumphante da culpa1 e dos mares para elle j todos de graa1 voltou em airosa carreira pela liquida torrente ao mesmo sitio1 d'onde tinha sahido naufragante4 ,no cuidemos de saber como ,sam ,thiago se refrescava com uma salva real1 nem commentemos os pasmos do cavalleiro ao vr-se matisado de maritimas conchas4 ,esmiuncemos que regios desposorios eram esses que se celebravam na praia da villa de ,mathosinhos4 ,parece que a palavra regios se no quer referir unicamente ao fausto das bodas1 que foram sobremodo lusidas como inculca o citado ,flos sanctorum antigo de ,alcobaa1 cujo texto vem citado no ,catalogo dos bispos do ,porto#d 1 de ,d4 ,rodrigo da ,cunha1 a pag4 #bj1 part4 #a4 444 e a ,cavalaria1 e as ,donas1 e a gente moita1 e cada um fazia o que sabia1 que pertencia boda3 e os huns lanabo ao tavoado1 e os outros bafordabom1 mas entre estes que bafordabom1 bafordava hi o noivo4 ,hoje no se ostentam nas bodas proezas de cavallaria3 os convidados esgrimem contra os taboleiros1 e os noivos esperam que os convidados devastem os podins para se verem livres dos importunos parasitas de luva branca4 ,mas1 tornando ao conto1 escreve ainda ,d4 ,rodrigo da ,cunha3 ,no s o ,flos sanctorum de ,alcobaa o que faz meno d'este milagre1 que deu occasio a se converterem tantas almas n'este nosso ,bispado1 e em lugares to visinhos ao ,porto4 ,no ,breviario antigo da ,s de ,oviedo1 se acha um hymno1 que se costumava a resar na festa de ,sanct',iago aos #be de julho1 em que claramente se faz alluso a elle4 ,dizem os versos do hymno3 ,cunctis mar cernentibus3 ,sed profundo ducitur2 ,natus ,regis submergitur2 ,totus plenas conchilibus4 ,chama ao cavalleiro1 que se recebia filho d',el-,rei1 porque sem duvida o seria d'algum regulo1 a quem os ,romanos soffriam estes nomes de dignidades1 em quanto lhe no impedia a subjeio a seu imperio4 ,como d'aqui se deprehende1 conjectura-se nas passagens citadas a fidalguia do noivo1 natus regis1 e por isso adjectivaram de regias as bodas4 ,no obstante divergem as opinies sobre a qualidade e nome dos nubentes4 ,no os nomeia o ,flos sanctorum do mosteiro de ,alcobaa1 copiado por ,d4 ,rodrigo da ,cunha e outros doutos vares1 com quanto circumstanciadamente conte do milagre4 ,d'esta lacuna procede todo o embarao1 porque o padre frei ,luiz dos ,anjos os nomeia ,cayo ,carpo1 natural da ,maya1 e ,claudia ,loba1 do ,porto2 e ,d4 ,pedro ,seguino1 bispo d',orense1 escreveu que o cavalleiro se chamava ,rivano e a dama ,valeria4 ,ao noivo uns o do como liberto de ,augusto ,cesar1 e outros como filho d'algum poderoso regulo das ,hespanhas4 ,ora a nobreza da mulher1 suppe ,cerqueira ,pinto1--que persiste em chamar a elle ,cayo ,carpo e a ella ,claudia ,loba1--que era das primeiras e melhores3 no conselho da ,maya1 que he1 e foy sempre contiguo mesma ,cidade1 7do ,porto7 e onde est situado o lugar de ,matosinhos1 havia cavalheiro capaz de casar com mulher daquella nobre familia444 ,pelo que se v1 a villa de ,mathosinhos era alfobre de preclara nobreza em que floreciam varias fidalguissimas ,claudias4 ,hoje1 se ,claudias ha em ,mathosinhos1 trazem saia pelo joelho e seguram vigorosamente contra a ressaca as esgrouviadas banhistas que vo molhar no mar os nervos doentes4 decadencia das ,claudias1 e outras6 ,no vae o nosso amor pela antiguidade at averiguarmos cabalmente o verdadeiro chamadoiro e nascimento dos noivos de ,mathosinhos1 e at1 para conciliarmos os consultissimos historiadores1 no temos duvida em matrimoniar ,valeria com ,cayo ,carpo e ,rivano com ,claudia ,loba4 ,d'esta maneira1 ficariam por igual comprazidos os chronistas que divergem sobre o nome do cavalleiro que sahiu ao mar1 e da noiva que ficou em terra4 ,do prodigio resultou a total converso do logar de ,mathosinhos f catholica1 e1 segundo diz ,cerqueira ,pinto1 de toda a nobreza do ,porto e da ,maya1 que estava presente4 ,tambem lembra o historiador que o nome de ,lea1 dado ao rio1 poderia derivar da alegria devida aproximao da nau que conduzia ,s4 ,thiago ou plenaria converso d'aquellas gentes4 pois certo que o logar de ,mathosinhos1 onde o leitor descuidosamente passeia o seu aborrecimento em mezes de banhos1 por mais d'um respeito celebre1 porquanto no #a4 de abril do anno de #dd se operou o prodigio que vimos historiando1 e d'ahi a oitenta annos aportou quella praia a imagem cuja historia ,cerqueira ,pinto particularmente escreveu no livro de que havemos extrahido estes apontamentos4 ,a par da tradio religiosa1 que deriva das bodas de ,cayo ,carpo com ,claudia ,loba1 corre a tradio nobiliaria1 como se os homens1 ciumentos das glorias da ,igreja1 quizessem sequestrar-lh'as em grande parte para satisfazer sua vaidade4 ,conhecel-o-ha o leitor1 se me quizer acompanhar a ,benavente1 districto de ,evora1 onde encontraremos n'uma das torres da matriz as armas dos condes d'aquelle titulo1 as quaes armas representam cinco conchas em escudo liso4 ,este o ponto em que a tradio religiosa prende com a tradio nobiliaria4 ,do cavalleiro de ,mathosinhos1 predestinado para tamanhos prodigios1 qual foi o de galopar por sobre as ondas muito melhor do que ns pelas nossas estradas1 procede a familia dos ,pimenteis1 de ,traz-os-,montes1 aos quaes ,pimenteis appellida de nobres um chronista4 ,no sei se todos os ramos de ,pimenteis teem iguaes fros de nobreza e motivos de prosapia4 ,os ,pimenteis de que eu descendo foram homens honrados e obscuros1 que nem com titulos litterarios se podem abonar1 o que prova que os meus antepassados tiveram mais juizo que eu4 ,do fidalgo matisado de maritimas conchas procedeu ,joo ,affonso ,pimentel1 senhor de ,bragana e primeiro conde de ,benavente1 o qual as tomou por braso assim como pudera adoptar o corcel miraculosamente subjeito s rebeldias do oceano4 ,consta tambem que as mesmas armas esto gravadas na torre do castello de ,bragana1 mas se o leitor no as vir l1 nem na torre da parochia de ,benavente1 fique sabendo que eu fui muito menos feliz n'estes vagalhes de grossa erudico do que o cavalleiro da chronica nos mares aparcellados da praia de ,lessa4 99 99 99 99 99 ,,thiers ,mac-,mahon veio substituir ,thiers na presidencia da republica franceza4 ,alguem disse3 ,acabou a dictadura da palavra2 comea a dictadura da espada4 ,e porque8 ,porque ,mac-,mahon um general francez1 e ,thiers um estadista e um historiador4 ,porque um deu os primeiros passos da vida na ,escola militar de ,saint-,cyr1 e o outro na ,academia d',aix4 ,porque um saiu da escola para o campo de batalha1 e o outro saiu da ,academia para a lucta politica4 ,porque um comeou a militar no cerco d',anvers s ordens do general ,achard1 e o outro estudou o plano das primeiras campanhas no gabinete do velho ,talleyrand4 ,dictadura da palavra e dictadura da espada6 ,vejamos4 ,o estadista e o historiador foi chamado a governar a nova republica franceza depois da sangrenta guerra franco-allem4 sempre difficil dirigir uma creana1 mrmente uma creana1 cujo bero fluctua sobre sangue nas ruinas d'um paiz inteiro4 ,o sangue era francez3 as ruinas eram as da ,frana4 ,o vencedor era a ,allemanha4 ,pela eterna rivalidade que reina entre as duas naes1 a ,frana julgava-se duas vezes vencida por succumbir s mos da ,allemanha4 ,thiers foi o medico chamado cabeceira da ,frana no momento em que as feridas do corpo nacional sangravam dolorosamente sobre as ultimas purpuras encontradas nas ,tulherias4 ,comprehende-se o que seria governar assim4 ,vde bem que exforo titanico no requer subir ao ,vesuvio1 quando elle muge em convulses precursoras d'erupo1 debruar-se cratera1 despreoccupado da escurido sinistra que fecha a montanha1 escutar o surdo ruido das entranhas de pedra agitadas pelo fogo1 sentir affluir ao enorme local d'aquella pyra enorme o turbilho vertiginoso das lavas1 e suster com um dedo a massa candente que irrompe de dentro1 e reprimir com uma palavra a torrente impetuosa d'um niagra de chammas4 ,assim estava a ,frana3 isto fez ,thiers4 ,foi elle1 o dictador da palavra1 que provou ao mundo que para os cadaveres das naes como para os cadaveres dos homens tinha a physica descoberto o galvanismo4 ,foi elle que estendeu o seu brao obstando a que a plebe desenfreada sepultasse no grande tumulo das naes que foram o cadaver da ,frana1 amortalhado nos fragamentos das suas esphaceladas bandeiras4 ,apagados os fogos sinistros da batalha1 ergueram-se vorazes os fogos da ,communa4 ,depois da derrota1--o incendio2 depois da guerra extrangeira1 a guerra civil4 ,era preciso combater a ,frana para salvar a ,frana1 porque o peior inimigo da ,frana era a ,frana4 ,a derrota tinha alastrado de cadaveres o cho4 ,eram as cinzas dos heroes1 que se bateram com o eterno denodo francez4 ,cumpria veneral-as no mais sagrado culto devido aos que perecem pela patria4 ,mas o facho da ,communa tentava queimar em ,paris os corpos dos heroes nas fogueiras que no ,industo espalham no ar as cinzas das viuvas brahmines4 ,era uma profanao immensa4 ,cumpria respeitar a desgraa da patria1 salvar ao menos a quilha da nau desarvorada1 que desde tempos immemoriaes estava costumada a despejar as suas hostes conquistadoras nas praias da ,europa inteira4 ,pois bem1 ,thiers estava ao leme1 e queria morrer abraado ossada do seu navio1 quando desesperasse de salval-o4 ,n'estes momentos de suprema agonia todos os olhos e todas as esperanas esto concentrados no capito4 ,se elle desanima1 desanima a equipagem4 ,e cada vez mais referviam em derredor as ondas populares d'aquelle immenso mar de fogo que dava s aguas do ,sena uma ardentia sinistra4 ,thiers salvou a ,frana1 suffocando a ,communa1 e fazendo cahir o brao fratricida armado para a guerra civil4 ,isto ainda o no conseguiu a ,hespanha1 que manda as legies de ,madrid combater as guerrilhas da ,navarra4 ,a ,communa era o incendio1 o saque1 o fusilamento1 e1 para vencer todas estas calamidades1 claro est que era preciso oppor-lhes pelo menos outra3 a morte4 ,era preciso fazer justia3 correu sangue4#e ,dado porm que na presidencia da republica franceza estivesse a essa hora no o dictador da palavra1 mas o dictador da espada1 um intrepido militar costumado a oppr a fora fora1 lembrado de haver pelejado em ,africa no assalto de ,constantina1 de haver tomado em ,sebastopol as fortificaes de ,malakoff1 e de ganhar na ,italia a victoria de ,magenta1 esse militar1 dizemos1 impellido pela sua destemida coragem1 haveria atulhado de francezes os carceres e os cemiterios para salvar a patria que a sua espada to gloriosamente por mais d'uma vez nobilitara4 ,dictadura da palavra6 ,dictadura da palavra foi o governo de ,thiers4 ,luctas1 se as houve1 foram parlamentares unicamente1 e a assembla de ,versalhes o campo de batalha4 ,assim requeria ser tratado um enfermo illustre1 que tinha ainda nos labios um timido sorriso de esperana4 ,e esse enfermo era a ,frana1 o paiz das tradies gloriosas1 e a medicina foi a palavra1 a discusso1 o parlamento4 impossivel rehabilitar-se um paiz com maior dignidade4 ruina da guerra com o extrangeiro succede um governo republicano d'ordem1 que1 logo aos primeiros passos1 tem de supplantar a ,communa armada em ambas as mos com o ferro de ,caim e o facho d',omar4 ,o inimigo da familia depois do inimigo da ,frana6 ,ameaado o lar depois de retalhada a patria6 ,era preciso salvar o bero em que fluctuavam os ,moyss do futuro1 e o cemiterio onde dormia toda a immensa familia de ,clovis4 ,isto conseguiu ,thiers1 e mais ainda4 ,reorganisou o exercito4 ,satisfez a imperiosa avidez do erario allemo deixando-o cogulado do muito oiro da contribuio de guerra que pesa ainda menos do que o sangue das victimas de ,metz1 ,borny1 ,mars-la-,tour1 ,gravelotte e ,sedan4 ,levantou dois emprestimos que provam que o credito da ,frana bastaria a encher todos os thesoiros da ,allemanha4 ,e reergueu os edificios derrubados pelo inimigo ou pela ,communa e1 o que mais1 reergueu a patria1 sustentando um difficilimo equilibrio politico nas frequentes e perigosas oscillaes d'um governo provisorio4 ,isto fez ,thiers3 isto fez a dictadura da palavra4 ,vejamos agora como se pagou ao velho ,no que depz1 s e salva1 nas faldas do ,ararat1 a nau desconjunctada pelo imperio francez4 ,a eleio de ,buffet para presidente da assembla franceza1 por uma maioria de #gj votos1 contra ,martel1 candidato do governo1 recomposto nas fileiras do centro esquerdo1 era um mau prenuncio de imminente tempestade parlamentar4 ,e1 de feito1 a tempestade rebentou4 ,na sesso do dia #ai de maio deu-se o signal de rebate1 que no pde ter outro nome a apresentao da interpellao firmada por quasi todos os membros do centro direito e da direita4 ,venha o documento4 ,precisamos de vr claramente como ,thiers1 o dictador da palavra1 succumbiu dignamente s unicas armas cujo combate aceitava1--a palavra4 ,os abaixo assignados1 convencidos de que a gravidade da situao exige frente dos negocios um gabinete cuja firmeza tranquilise os espiritos em todo o paiz1 pedem para interpellar o ministerio a respeito das ultimas modificaes que acabam de fazer-se n'elle1 cerca da necessidade de que prevalea no governo uma politica resolutamente conservadora1 e propem que se destine a proxima sexta feira para se realisar a interpellao4 ,o governo1 pela bocca do ministro ,dufaure1 pediu um praso de vinte e quatro horas para se entender com o presidente da republica4 ,era esse o dia em que deviam ser apresentados os projectos da lei constitutiva dos poderes publicos4 ,a esquerda da assembla pediu que fossem lidos4 ,a direita oppz-se violentamente4 ,era a primeira refrega1 depois do signal de combate4 ,estava patente a impossibilidade d'acordo entre o presidente da republica e a direita1 unida ao centro direito da assembla4 ,a politica de partido levantava-se para combater a politica nacional2 comeava a referver a escumalha da paixo nas aguas que deveram anilar-se na doura d'uma discusso serena4 ,a direita foi intransigente1 violenta1 aggressiva4 ,thiers1 o dictador da palavra1 cujos actos e discursos procuraram sempre alliar todas as vontades por meio d'um espirito liberal e conservador1 prudentemente sustentado em todas as luctas1 quiz ainda responder direita com o seu verbo fluente1 sereno e limpido3 ,no solicitei o poder1 offereceram-m'o e exerci-o no meio de muitos desgostos e difficuldades3 as vossas censuras no as dirijaes aos leaes ministros aqui presentes3 dirigi-as a mim1 que para mim as tomarei4 ,o momento solemne2 imperiosas as circumstancias3 vs ides decidir os destinos do paiz4 ,mas era preciso dizer a verdade toda3 ,entre os republicanos ha alguns que querem ir mais longe e que instigam os outros a seguil-os3 so os que querem a republica para os republicanos4 ,n'esta situao1 precisa-se de um governo inexoravel para com a desordem1 e que1 depois de assegurar a tranquilidade1 inicie uma politica de pacificao2 tal a nossa politica4 ,todavia a direita1 como dizia a interpellao1 queria uma politica resolutamente conservadora1 e ,thiers desceu da cadeira da presidencia1 certamente deslembrado das ostentaes do poder1 se bem que naturalmente desalentado como todos os grandes obreiros que so chamados a receber a fria da ingratido444 ,finalmente1 ,mac-,mahon substituiu ,thiers4 ,a historia registrou o passado1 e a espectativa europea nada alcana pelas trevas do futuro a dentro4 ,ir inaugurar-se uma dictadura verdadeiramente militar8 ,so tudo perguntas4 ,governar a direita8 ,restaurar-se-ha a monarchia8 ,continuar a situao provisoria8 ,no se sabe4 ,todavia1 j vol-o disse1 alguem profundamente sabido em coisas dos homens e da politica1 sentenciou3 ,acabou a dictadura da palavra2 comea a dictadura da espada4 ,tambem sabeis que ,thiers o author da ,historia do consulado e do imperio1 e da ,historia da revoluo franceza1 e ,mac-,mahon o vencedor de ,constantina1 de ,malakoff e de ,magenta4 ,em todo o caso a ,frana governada por uma espada4 ,ora uma espada1 depois d'uma guerra fatal1 e quando se sonha em outra guerra diversamente fatal1 a revanche1 lembra o sangue que correu e o sangue que pde correr444 ,a espada vence1 e a palavra convence4 ,e a ,frana precisava convencer-se de que deve1 primeiro que tudo1 coroar a trabalhosa obra da sua rehabilitao4 99 99 99 99 99 ,,hespanha 7,,agosto ,,de #ahgc7 ,tu eras o menestrel da peninsula1 o trovador de capa traada1 que dedilhavas o bandolim dos teus cantares sob a janella illuminada pelo formoso luar das serenatas4 ,tu eras a madrilena1 de mantilha de rendas1 olhos de fogo1 que passeava tarde no ,prado1 agitando a ventarola1 os olhos e o mundo444 ,tu eras o torero1 de jaqueta azul constellada d'estrellas d'ouro e prata1 que te erguias no meio da arena1 de p como os triumphadores1 victoriado pela multido4 ,tu eras o amor ardente que descanta ao luar1 o salero que justifica a serenata1 a fora que vence os obstaculos4 ,eras um paiz que mantinhas o esplendor da tua individualidade sem fechares a porta invaso dos progressos moraes e materiaes do seculo4 ,tinhas o teu idioma1 as tuas danas1 os teus cantares1 os teus espectaculos4 ,tinhas reis como ,s4 ,fernando1 poetas como ,campoamor1 pintores como ,murillo1 campeadores como o ,cid1 oradores como ,castelar444 ,um dia1 porm1 uma d'estas grandes fatalidades1 que pesam sobre todas as naes1 avergou a tua nobre cerviz1 e um rei estrangeiro1 no podendo conter a impaciencia das ambies1 desceu do throno a que fra chamado1 depondo nas tuas mos a cora que de ti havia recebido4 ,e como so sempre os clares nascentes da aurora que succedem aos clares moribundos do occaso1 como sempre a flr que succede ao cahir das folhas mortas1 tu quizeste levantar sobre as ruinas da monarchia a bandeira vermelha da ideia nova4 ,havia n'essa tua aspirao1 ,hespanha1 um tributo nobilissimo memoria do teu ultimo rei4 ,elle descera do throno com a magnanimidade com que ,codro se expozera morte1 e a ,hespanha1 como ,athenas1 queria deixar para sempre devoluto o solio por no haver rei mais nobre que viesse occupal-o um dia4 ,no rolaste pelas ruas da capital1 cuspindo-lhe as injurias da canalha1 a cora da monarchia4 ,no1 archivaste-a na sancta-sanctorum das tuas gloriosas tradies1 porque essa cora a cingira ,d4 ,amadeu1 e ,d4 ,amadeu fra o omega da realeza hespanhola4 ,no a consideravas escarneo2 veneraval-a como reliquia4 ,ento1 ,hespanha1 os teus poetas1 os teus pintores1 os teus dramaturgos1 os teus campeadores1 os teus heroes ficaram supplantados por um homerico vulto cuja eloquencia jorrava em catadupas scintillantes pela bocca d'oiro do teu ,joo ,chrisostomo4 ,a voz do teu grande orador apostolisava o evangelho d'uma nova religio politica4 ,no era o inimigo dos reis que se levantava a insultar-lhes as cinzas depositadas nos tumulos soberbos do ,escurial4 ,elle queria vencer sem sangue1 combater sem ferir1 semear sem revolver a terra6 ,impossivel6 ,santa aspirao que no pde traduzir-se em facto1 sonho de fraternidade angelica sem realidade entre os homens1 onda crystalina que no chega a banhar todos os coraes porque encontra no caminho obstaculos e barreiras4 ,as auroras da terra no esplendem apenas como as do co4 ,so chamma4 ,cospem centelhas1 e muitas vezes a centelha o pollen luminoso que gera o incendio4 ,a luz tornou-se labareda4 ,acordaram1 sacudindo as tranas enleiadas de viboras1 as ,meduzas da ambio1 as ,furias do socialismo1 os ,omares dos fachos incendiarios4 ,mobilisaram-se tropas1 rodaram carretas1 soaram clarins4 ,caim armou-se para derrubar ,abel4 ,jacob vestiu no brao a pelle do anho para enganar a cegueira de ,izaac4 ,a insurreio vendeu o ,messias da nova ideia pelos trinta dinheiros de ,judas4 ,o luar da ,hespanha1 o doce confidente das serenatas1 volveu-se sanguineo1 como o reflexo d'uma forja4 ,o templo1 onde porventura existia uma ,virgem de ,murillo1 ficou devoluto1 abertas as portas1 e as aves de rapina entraram para os saquear depois que o pastor espiritual saiu para combater4 ,o bandolim do menestrel emmudeceu sob a ventana2 os echos do ,prado no repetiram mais o chalrar das morenas da mantilha4 ,a bandeira hespanhola nunca mais foi reverenciada na solido das aguas com o culto que se deve s cres nacionaes d'um paiz livre4 ,que importa que fosse aquella bandeira a mesma que acompanhou ,christovo ,colombo s regies ignoradas do mundo novo8 ,os descobridores morreram2 ficaram apenas os piratas4 ,o descobridor era saudado pela artilheria2 o pirata aprisionado por ella4 ,ruinas d'uma nacionalidade1 petalas d'uma grinalda desfolhada1 recordaes horriveis d'um sonho vago444 ,e ainda de p o vulto gigantesco1 que sobrevive sua propria ideia1 o sonhador que subsiste sua aspirao1 o jardineiro que no estremece ao perpassar do tufo que lhe arrebata o jardim do seu ideal6444 ,a sua voz sobranceia os rumores da tempestade2 ainda o verbo da paz no meio da lucta1 ouve-se na ,europa inteira a palavra do ,lazaro immortal que desperta nas profundezas do tumulo3 ,ns1 os republicanos1 temos muito de prophetas1 pouco de politicos4 ,sabemos muito do ideal1 pouco da experiencia2 abrangemos todo o co do pensamento1 e caimos no primeiro fosso que ha no nosso caminho4 ,assim succede e tem succedido sempre na historia1 que os inimigos dos partidos progressivos fundam as ideias progressivas1 como o judeu ,s4 ,paulo fundou o christianismo3 como o monarchico ,washington fundou a republica do ,norte da ,america2 como ,rivadavia1 outro monarchico1 fundou a confederao das republicas do sul da ,america2 que nem o ,baptista na egreja1 nem ,rosseau na revoluo1 nem nenhum dos prophetas consolidou a propria reforma por elles annunciada e trazida2 do mesmo modo que ,moyss guiou para a terra promettida1 e no chegou a entrar na terra promettida2 do mesmo modo que ,colombo descobriu a ,america sem saber que a tivesse descoberto para que uns guerreiros andaluzes e extremenhos a conquistassem e uns obscuros pilotos italianos a baptizassem2 porque os que concebem e presentem as grandes ideias1 no as realisam nem consolidam em nenhuma poca da historia4#f ,e no obstante referver ainda o cahos hora em que o ,moyss da ,hespanha se preparava para escrever o genesis da nova creao1 e atiarem-se as labaredas do incendio geral1 e despirem-se os altares2 no obstante fugir a ,hespanha da ,hespanha espavorida de sua propria crueza1 e demandar o tecto hospitaleiro dos ,euryalos estrangeiros1 e a bandeira da patria despertar contra si a aggresso dos paizes extranhos1--elle1 o gigante ferido no corao pela funda de ,david1 quer morrer ou renascer abraado aos escombros do seu bero3 ,eu quero ser hespanhol e s hespanhol2 quero fallar o idioma de ,cervantes1 quero recitar os versos de ,calderon2 quero colorir a minha phantasia com os matizes que tiravam das suas palhetas ,murillo e ,velasquez2 considerar como pergaminhos meus de nobreza nacional a historia de ,viriato e de ,cid2 quero ter no escudo de minha patria as naves dos catales que conquistaram o oriente e as naves dos andaluzes que descobriram o occidente2 quero ser de toda esta terra1 que ainda me parece estreita1 sim1 de toda esta terra que se estende dos ,pyreneos s ondas do gaditano mar2 de toda esta terra ungida e santificada pelas lagrimas que custara a minha me a minha existencia2 de toda esta terra redimida1 resgatada do estrangeiro pelo heroismo e pelo martyrio de nossos immortaes avs4 que s elle maior que a ,hespanha toda4 ,,fim4 #a ,do portal claraboia4 #b ,no prologo da ,civilizacion en los cinco primeros siglos del ,cristianismo1 por ,emilio ,castelar4 #c ,bafordar era1 no jogo d'armas1 brincar com ellas1 fingir combate militar4 #d ,annotado pelo mesmo ,antonio ,cerqueira ,pinto4 #e ,em outro livro 7,nervosos1 lymphathicos e sanguineos7 lamentamos que corresse o sangue de ,rossel1 por exemplo1 o que no quer dizer que censurassemos a represso da ,communa4 ,convinha s vezes que a justia no fosse cega para estremar os homens e os delictos4 #f ,fragmentos do discurso de ,emilio ,castelar recitado na assembla constituinte hespanhola em #cj de julho4 ,,indice ,pag4 ,advertencia ,,vii ,o ,gabinete de ,camillo #i ,o ,primeiro de ,janeiro #ag ,a ,aguia d',ouro #be ,physiologia do ,theatro de ,s4 ,joo #cc ,physiologia do ,theatro ,baquet #da ,telhudos historicos #ec ,os ,domingos #fc ,as ,italianas #ga ,emilio ,castelar #gi ,animaes e vegetaes #hi ,academia de ,coimbra #ig ,os annuncios #ajg ,a industria das ruas #aag ,a ,giganta 7carta a ,julio ,cesar ,machado7 #abg ,o ,album do ,gymnasio #acg ,esboo de comedia #ade ,as colheitas #aec ,s4 ,bartholomeu #aei ,o ,natal #afg ,os ,bohemios #agc ,o ,relogio444 #aha s sete horas da manh #aia mesa do ch #aii ,s4 ,joo #bjg ,judas no plural #bac ,historia velha #bba ,thiers #bbi ,a ,hespanha #bci