,,bom-,,senso ,e ,,bom-,,gosto ,,carta ,,ao ,,excelentissimo ,,senhor ,,antonio ,,feliciano ,,de ,,castilho ,,por ,anthero do ,quental ,,novembro ,,de #ahfe ,,bom-,,senso ,e ,,bom-,,gosto ,,carta ,,ao ,,excelentissimo ,,senhor ,,antonio ,,feliciano ,,de ,,castilho ,,por ,anthero do ,quental ,,coimbra ,,imprensa ,,da ,,universidade #ahfe ,ex4mo ,sr4 ,acabo de ler um escripto#a de v4 ex4 onde1 a proposito de faltas de bom-senso e de bom-gosto1 se falla com aspera censura da chamada eschola litteraria de ,coimbra1 e entre dois nomes illustres#b se cita o meu1 quasi desconhecido e sobre tudo desambicioso4 ,esta minha obscuridade faz com que a parte de censura que me cabe seja sobre maneira diminuta3 em quanto que1 por outro lado1 a minha despreoccupao de fama litteraria1 os meus habitos de espirito e o meu modo de vida1 me tornam essa mesma pequena parte que me resta to indifferente1 que como que se a nada a reduzissemos4 ,estas circumstancias pareceriam sufficiente para me imporem um silencio1 ou modesto ou desdenhoso4 ,no o so1 todavia4 ,eu tenho para fallar dois fortes motivos4 ,um a liberdade absoluta que a minha posio independentissima de homem sem pretenes litterarias me d para julgar desassombradamente1 com justia1 com frieza1 com boa-f4 ,como no pretendo logar algum1 mesmo infimo1 na brilhante phalange das reputaes contemporaneas1 por isso que1 estando de fra1 posso como ninguem avaliar a figura1 a destreza e o garbo ainda dos mais luzidos chefes do glorioso esquadro4 ,posso tambem fallar livremente4 ,e no esta uma pequena superioridade neste tempo de conveniencias1 de precaues1 de reticencias--ou1 digamos a cousa pelo seu nome1 de hypocrisia e falsidade4 ,livre das vaidades1 das ambies1 das miserias d'uma posio1 que no pretendo1 posso fallar nas miserias1 nas ambies1 nas vaidades d'esse mundo to extranho para mim1 atravessando por meio d'ellas e sahindo puro1 limpo e innocente4 ,a este primeiro motivo1 que um direito1 uma faculdade s1 accresce um outro1 e mais grave e mais obrigatorio1 porque um dever1 uma necessidade moral4 esta fora desconhecida que nos leva muitas vezes1 ainda contra a vontade1 ainda contra o gosto1 ainda contra o interesse1 a erguer a voz pelo que julgamos a verdade1 a erguer a mo pelo que acreditamos a justia4 ella que me manda fallar4 ,no que a justia e a verdade se offendessem com v4 ex4 ou com as suas apreciaes4 ,verdade e justia esto to altas1 que no tm olhos com que vejam as pequenas cousas e os pequenos homens das infimas questiunculas litterarias d'um ignorado canto de terra1 a que ainda se chama ,portugal4 ,no isso o que as offende4 ,mas as idas que esto por de trs dos homens2 o mal profundo que as cousas apenas miseraveis representam2 uma grande doena moral accusada por uma pequenez intellectual2 as desgraas1 tanto para reflexes lamentosas1 d'esta terra1 reveladas pelas miserias1 to merecedoras de despreso1 dos que cuidam dominal-a2 isso que afflige excessivamente a razo e o sentimento1 o que prende o olhar ainda o mais desdenhoso a estas baas intrigas2 isso que levanta esta questo do raso das personalidades para a elevar at altura d'uma questo de principios1 e que d s ridiculas chufas1 que entre si trocam uns tristes litteratos1 todo o valor d'uma discusso de philosophia e de historia4 ,sim1 ex4mo sr4 ,eu no sei se v4 ex4 tem olhos para ver tudo isto4 ,cuido que no3 porque a intelligencia dos habeis1 dos prudentes1 dos espertissimos muitas vezes cega em lhe faltando uma cousa bem pequena1 que se encontra nos simples e nos humildes--a boa-f4 luz d'ella1 porem1 eu hei de sempre ver uma pessima aco1 digna de toda a importancia d'um castigo1 nas impensadas e infelizes palavras de v4 ex41 dignas quando muito d'um sorriso de desdem e do esquecimento4 ,e se eu nem sequer me daria ao incommodo de erguer a cabea de cima do meu trabalho para escutar essas palavras1 entendo que no perco o meu tempo1 que sirvo a moral e a verdade1 censurando1 verberando a deshonesta aco de v4 ex4 ,porque uma aco deshonesta4 ,o que se ataca na eschola de ,coimbra 7talvez mesmo v4 ex4 o ignore1 porque ha malevolos innocentes e inconscientes71 o que se ataca no uma opinio litteraria menos provada1 uma concepo poetica mais atrevida1 um estylo ou uma ida4 ,isso o pretexto1 apenas4 ,mas a guerra faz-se independencia irreverente de escriptores1 que entendem fazer por si o seu caminho1 sem pedirem licena aos mestres1 mas consultando s o seu trabalho e a sua consciencia4 ,a guerra faz-se ao escandalo inaudito d'uma litteratura desaforada1 que cuidou poder correr mundo sem o sello e o visto da chancelharia dos gros-mestres officiaes4 ,a guerra faz-se impiedade d'estes hereges das lettras1 que se revoltam contra a auctoridade dos papas e pontifices1 porque1 ao que parece1 ainda a luz de cima lhes no escreveu nas frontes o signal da infallibilidade4 ,faz-se contra quem entende pensar por si e ser s responsavel por seus actos e palavras444 ,agora quem move estes ridiculos combates de phrases a vaidade ferida dos mestres e dos pontifices2 o espirito de rotina violentamente incommodado por mos rudes e inconvenientes2 a banalidade que quer dormir socegada no seu leito de ninharias2 a vulgaridade que cuida que a foram--ns s lhe queremos puchar as orelhas6 ,isto1 resumido em poucas palavras1 quer dizer3 combatem-se os hereges da eschola de ,coimbra por causa do negro crime de sua dignidade1 do atrevimento de sua rectido moral1 do attentado de sua probidade litteraria1 da impudencia e miseria de serem independentes e pensarem por suas cabeas4 ,e combatem-se por faltarem s virtudes de respeito humilde s vaidades omnipotentes1 de submisso estupida1 de baixeza e pequenez moral e intellectual4 ,v4 ex41 com a imparcialidade que todos lhe conhecemos1 deve confessar que uma guerra assim feita no s mal feita1 mas tambem pequena e miseravelmente feita4 ,mas que a eschola de ,coimbra commetteu effectivamente alguma cousa peior de que um crime--commetteu uma grande falta3 quiz innovar4 ,ora1 para as litteraturas officiaes1 para as reputaes estabelecidas1 mais criminoso do que manchar a verdade com a baba dos sophismas1 do que envenenar com o erro as fontes do espirito publico1 do que pensar mal1 do que escrever pessimamente1 peior do que isto essa falta de querer caminhar por si1 de dizer e no repetir1 de inventar e no de copiar4 ,por que8 ,porque todos os outros crimes eram contra as idas3 haveria sempre um perdo para elles4 ,mas esta falta era contra as pessoas3 e essas taes so imperdoaveis4 ,innovar dizer aos prophetas1 aos reveladores encartados3 ha alguma cousa que vs ignoraes2 alguma cousa que nunca pensastes nem dissestes2 ha mundo alm do circulo que se v com os vossos oculos de theatro2 ha mundo maior do que os vossos systemas1 mais profundo do que os vossos folhetins2 ha universo um pouco mais extenso e mais agradavel sobre tudo do que os vossos livros e os vossos discursos4 ,isto1 sim1 que intoleravel6 ,isto1 sim1 que infame e revoltante e impio e subversivo6 ,contra isto1 sim1 s armas1 ergamo-nos na nossa fora1 mostremos o que somos e o que podemos444 escrevamos tres folhetins e um prologo6444 ,v4 ex4 fez-se chefe d'esta cruzada to desgraada e to mesquinha4 ,no posso seno dar-lhe os pezames por to triste papel4 ,mas se eu1 como homem1 desprzo e esqueo1 como escriptor que no posso calar-me2 porque atacar a independencia do pensamento1 a liberdade dos espiritos1 no s offender o que ha de mais sancto nos individuos1 mas ainda levantar mo roubadora contra o patrimonio sagrado da humanidade--o futuro4-- seccar as nascentes da fonte aonde as geraes futuras tm de beber4 cortar a raiz da arvore a que os vindoiros tinham de pedir sombra e socego4 ,e atrophiar as idas e os sentimentos das cabeas e dos coraes que tm de vir4 ,o contrario d'isto tudo que a bella1 a immensa misso do escriptor4 um sacerdocio1 um officio publico e religioso de guarda incorruptivel das idas1 dos sentimentos1 dos costumes1 das obras e das palavras4 ,para isso toda a altura1 toda a nobreza interior so pouco ainda4 ,para isso toda a independencia de espirito1 toda a despreoccupao de vaidades1 toda a liberdade de jugos impostos1 de mestres1 de auctoridades1 nunca ser de mais4 ,o mineiro quer os braos soltos para cavar buscando o ouro entre as areias grossas4 ,o piloto quer os olhos desvendados para ler nos astros o caminho da no por entre as ondas incertas4 ,o sacerdote quer o corao limpo de paixes1 de interesses1 para aconselhar1 guiar1 julgar1 imparcial e justo4 ,o escriptor quer o espirito livre de jugos1 o pensamento livre de preconceitos e respeitos inuteis1 o corao livre de vaidades1 incorruptivel e intemerato4 ,s assim sero grandes e fecundas as suas obras3 s assim merecer o logar de censor entre os homens1 porque o ter alcanado1 no pelo favor das turbas inconstantes e injustas1 ou pelo patronato degradante dos grandes e illustres1 mas elevando-se naturalmente sobre todos pela sciencia1 pelo paciente estudo de si e dos outros1 pela limpeza interior d'uma alma que s v e busca o bem1 o bello1 o verdadeiro4 ,este o escriptor1 o poeta1 o apostolo4 ,se o obrigassem a respeitos convencionaes1 a terrores supersticiosos diante de certos homens1 a espantos cegos diante de certas cousas2 se o fizessem baixar a cabea e as costas para entrar a porta do pantheon litterario2 elle1 o pobre1 ficaria sempre curvo e submisso1 humilde e sem fora propria1 servo de alheias idas e apostolo apenas de palavras decoradas e vazias d'alma4 ,como se havia elle pois erguer1 entre seus irmos1 to alto que seus olhos fossem uns como pharoes para todos os outros olhos1 a sua fronte uma como montanha de luz2 to alto que as palavras de sua bocca cahissem sobre as cabeas como uma chuva benefica e fecundante8 ,seria1 depois das provas e das torturas1 das genuflexes e das baixezas da iniciao no gremio dos senhores1 seria um aleijo e no gigante1 um aborto em vez de heroe e1 em vez de sobr'exceder a todos com a fronte1 andaria sumido entre elles1 visitado escassamente pelo sol e pela luz4 ,elle1 que no soubera procurar para si o seu caminho1 como poderia elle allumiar o dos outros8 ,elle1 humilde1 como ensinaria a altivez e a dignidade8 ,respeitador de conveniencias estereis1 como daria o exemplo das revoltas fecundas8 ,sem alma1 como a insuflaria no peito dos tristes e humilhados8 ,sem vontade1 como resistiria s tyrannias da opinio omnipotente1 ao capricho dos grandes1 s ambies1 s tentaes8 ,as grandes1 as bellas1 as boas cousas s se fazem quando se bom1 bello e grande4 ,mas a condio da grandeza1 da belleza1 da bondade1 a primeira e indispensavel condio1 no o talento1 nem a sciencia1 nem a experiencia3 a elevao moral1 a virtude da altivez interior1 a independencia da alma e a dignidade do pensamento e do caracter4 ,nem aos mestres1 aos que a maioria boal aponta como illustres1 nem opinio1 critica sem sciencia nem consciencia das turbas1 do maior numero1 deve pedir conselhos e approvao1 mas s ao seu entendimento1 sua meditao1 s suas crenas4 ,nesta eschola do trabalho1 da dignidade1 das altas convices1 se formam os homens em cujos peitos a humanidade encontra sempre um vasto lago onde farte a sde de verdade1 de consolaes1 de ensinos para a intelligencia e confortos para o corao4 ,no peito dos outros1 dos que andam de capella em capella na lida afanosa de incensar cada dia todos os idolos1 dos que fazem da gloria uma bastilha para aventureiros levarem de assalto1 e no pulpito aonde se suba com respeito e amor1 no peito d'esses no habita mais do que ambio1 vaidade1 endurecimento e miseria4 ,esses lisongeiam os grandes2 e os grandes do-lhes a mo para que subam1 e desprezam-nos depois4 ,lisongeiam as maiorias2 e as maiorias inconstantes lanam-lhes no regao um pouco de ouro e algum applauso de momento1 e depois passam e esquecem4 ,afagam todas as vaidades2 e tm em cada vicio humano um capital1 cujo juro dissipam em quanto vivos1 porque essa moeda corrompida para mais ninguem serve4 ,emfim1 nos quinze ou vinte annos em que do que falar s gazetas1 aos botequins1 aos gremios1 a todos os vadios1 a todos os futeis1 folgam1 vivem alegres e esquecidos de tudo quanto no seja a satisfao do que ha no homem de mais pequeno--a vaidade e o interesse4 ,para os outros a obscuridade1 e a miseria muita vez--mas a estima dos melhores entre os homens pelo espirito1 e1 o que excede tudo1 a posse d'uma consciencia superior a quanto no seja a verdade1 a justia e a formosura4 ,as idas serenas brilham-lhes na escurido do isolamento e alumiam-lhes com uma luz doce mas immensa toda a sua obscuridade4 ,do-se a desbaratar o mal dos outros homens1 como muitos se do a augmentar o seu bem proprio4 ,vivem na regio das benos1 escutando as palavras da bcca invisivel1 e com os echos d'essa voz celeste compem os hymnos de esperana e de amor para a humanidade4 ,morrem2 mas morrem nobres e puros4 ,tudo isto porque foram independentes4 ,no pertenceram a corrilhos2 no elogiaram ninguem para que os elogiassem a elles2 no incensaram os fetiches dos ridiculos pagodes litterarios4 ,foram honrados4 ,foram simples4 ,a estes taes chamo eu poetas4 ,porque nos ensinam o bem4 ,porque so originaes e dizem sempre alguma cousa nova nossa curiosidade de saber4 ,porque do com a elevao das vidas confirmao sublimidade dos escriptos4 ,porque so to poeticos como os seus poemas4 ,porque vo adiante abrindo luz e ao amor novos horisontes4 ,porque no conhecem ambies nem orgulhos4 ,porque tm a cabea do genio e o corao da innocencia4 por isso tudo que lhes chamo poetas4 ,os outros adoram a palavra1 que illude o vulgo1 e desprezam a ida1 que custa muito e nada luz4 ,so apostolos do diccionario1 e tm por evangelho um tractado de metrificao4 ,fazem da poesia o instrumento de suas vaidades4 ,pregam o bem por uso e conveno litteraria1 porque se presta declamao poetica1 mas practicam o egoismo por indole e por vontade4 ,fazem-nos descrer da grandeza humana1 porque so uns sophismas que nos mostram a pequenez e a m f aonde as apparencias so todas de nobreza4 ,preferem imitar a inventar2 e a imitar preferem ainda traduzir4 ,repetem o que est dicto ha mil annos1 e fazem-nos duvidar se o espirito humano ser uma esteril e constante banalidade4 ,so os enfeitadores das ninharias luzidias4 ,pem os nadas em p para parecerem alguma cousa4 ,so os idolos litterarios da multido que mal sabe ler4 ,so os philosophos queridos da turba que nunca pensou4 ,so1 emfim1 genios no ,brasil como v4 ex4 ,estes taes escusam da nobreza e da dignidade3 tm a habilidade e a finura4 ,para a obra que fazem1 isso lhes basta4 ,mas a obra1 ex4mo sr41 que uma obra vulgar3 bem feita para agradar ao ouvido1 mas esteril para o espirito4 ,sa bem1 mas no ensina nem eleva4 ,ora a humanidade precisa que a levantem e que a doutrinem4 ,so1 pois1 necessarias outras e melhores obras4 ,mas1 se j alguma hora da historia impoz aos que fallam alto entre os povos obrigaes de seriedade1 de profunda abnegao1 de sacrificio do eu s tristezas e miserias da humanidade1 de trabalho e silencioso pensamento2 se alguma hora lhes mandou serem graves1 puros1 crentes1 certamente esta do dia de hoje1 da edade de transformao dolorosa1 de scepticismo1 de abaixamento moral1 de descrena1 que o nosso seculo4 ,refundem-se as crenas antigas4 ,geram-se com esforo novas idas4 ,desmoronam-se as velhas religies4 ,as instituies do passado abalam-se4 ,o futuro no apparece ainda4 ,e1 entre estas duvidas1 estes abalos1 estas incertezas1 as almas sentem-se menores1 mais tristes1 menos ambiciosas de bem1 menos dispostas ao sacrifcio e s abnegaes da consciencia4 ,ha toda uma humanidade em dissoluo1 de que preciso extrahir uma humanidade viva1 s1 crente e formosa4 ,para este grande trabalho que se querem os grandes homens4 ,sahiro esses heroes das academias litterarias8 das arcadias8 das sinecuras opulentas8 dos corrilhos do elogio-mutuo8 ,sahiro as aguias das capoeiras8 ,saltaro as idas salvadoras do choque das maledicencias e dos doestos8 ,nascero as dedicaes do casamento das vaidades8 ,daro a grande novidade os ledores de ,horacio8 ,inventaro as novas formulas os que decoram as phrases rabugentas dos livros bolorentos que chamam classicos8 ,e os ,socrates e os ,epictetos descero para as suas misses das cadeiras almofadadas1 das rendosas conezias litterarias1 das prebendas1 das exploraes8 ,fra d'essa atmosphera corrupta1 e1 quando no corrupta1 pelo menos esterilisadora1 mais provavel encontrarem-se as condies que precisam para viver e crescer os homens uteis e necessarios s transformaes do espirito humano4 ,no traduzindo os velhos poetas sensualistas da ,grecia e de ,roma2#c requentando fabulas insossas diluidas em milhares de versos semsabores2#d no com idyllios grotescos sem expresso nem originalidade1 com alluses mythologicas que j faziam bocejar nossos avs2#e com phrases e sentimentos postios de academico e rhetorico2#f com visualidades infantis e puerilidades vs2#g com prosas imitadas das algaravias mysticas de frades estonteados2#h com banalidades2#i com ninharias2#aj no 1 sobre tudo1 lisongeando o mo gosto e as pessimas idas das maiorias1 indo atrs d'ellas1 tomando por guia a ignorancia e a vulgaridade1 que se ho de produzir as ideias1 as sciencias1 as crenas1 os sentimentos de que a humanidade contemporanea precisa para se reformar como uma fogueira a que a lenha vai faltando4 ,mas fra de tudo isto1 d'estas necedades tradicionaes1 o nevoeiro1 o methaphysico1 o inattingivel--diz v4 ex4 ,todavia1 quem pensa e sabe hoje na ,europa no ,portugal1 no ,lisboa1 cuido eu3 ,paris1 ,londres1 ,berlim4 ,no a nossa divertida ,academia das ,sciencias1 que revolve1 decompe1 classifica e explica o mundo dos factos e das idas4 o ,instituto de ,frana1 a ,academia ,scientifica de ,berlim1 so as escholas de philosophia1 de historia1 de mathematica1 de physica1 de biologia1 de todas as sciencias e de todas as artes1 em ,frana1 em ,inglaterra1 em ,allemanha4 ,pois bem3 a ,allemanha1 a ,inglaterra1 a ,frana1 comprazem-se no nevoeiro1 so incomprehensiveis e ridiculas1 so methaphysicas tambem4 ,as tres grandes naes pensantes so risiveis deante da critica fradesca do sr4 ,castilho4 ,os grandes genios modernos so grotescos e despreziveis aos olhos baos do banal metrificador portuguez4 ,o grande espirito philosophico do nosso tempo1 a grande creao original1 immensa da nossa edade1 no passa de confuso e embroglio desprezivel para o professor de ninharias1 que cuida que se fustiga ,hegel1 ,stuart ,mill1 ,augusto ,comte1 ,herder1 ,wolff1 ,vico1 ,michelet1 ,proudhon1 ,littr1 ,feuerbach1 ,creuzer1 ,strauss1 ,taine1 ,renan1 ,buchner1 ,quinet1 a philosophia allem1 a critica franceza1 o positivismo1 o naturalismo1 a historia1 a methaphysica1 as immensas creaes da alma moderna1 o espirito mesmo da nossa civilisao4444 que se fustiga tudo isto e se ridicularisa e se derriba com a mesma sem-cerimonia com que elle d palmatoadas nos seus meninos de #cj1 #dj e #ej annos1 de ,lisboa1 do ,gremio1 da ,revista ,contemporanea6 ,quem seguir tudo isto vai com o pensamento moderno2 com as tendencias da sciencia2 com os resultados de trinta annos de critica2 com a nova eschola historica2 com a renovao philosophica2 com os pensadores2 com os sabios2 com os genios2 vai com a ,frana2 vai com a ,allemanha--mas que importa8 no vai com o sr4 ,castilho6 no vai com o novo methodo repentista6 no vai com o moderno folhetim portuguez6 ,o metrificador das ,cartas d',echo diz ao pensador da ,philosophia da natureza--tira-te do meu sol6--,o mythologo do diccionario da fabula diz ao profundo descubridor da ,symbolica--s um ignorante6--,a rethorica portugueza diz sciencia1 ao espirito moderno--cala-te d'ahi1 papelo6 que tudo isto no passa de idas4 ,ora ha uma cousa que o sr4 ,castilho tomou sua conta1 que no deixa em paz1 que nos prometteu destruir444 a methaphysica444 o ideal444 ,o ideal6 palavra mystica2 de gothica configurao2 quasi impalpavel2 espiritualista2 impopular2 que o artigo de fundo repelle2 que desacreditaria o deputado do centro que a empregasse2 que ,victor ,hugo adora e de que se riem os localistas2 que no chega para um folhetim e que enche o maior poema2 immensa aos olhos dos que a vem com os olhos fechados e que nunca viram os que os trazem sempre arregalados2 palavra pessima para uma rima de madrigal2 palavra que faz desmaiar as beatas2 grotesca num botequim2 disforme numa sala2 medonha numa assembleia de litteratos horacianos444 decididamente v4 ex4 devia odiar esta desgraada palavra6 ,o ideal quer dizer isto3 desprezo das vaidades2 amor desinteressado da verdade2 preoccupao exclusiva do grande e do bom2 desdem do futil1 do convencional2 boa fe2 desinteresse2 grandeza d'alma2 simplicidade2 nobreza2 soberano bom gosto e soberanissimo bom senso444 tudo isto quer dizer esta palavra de cinco letras--ideal4 ,por todos estes motivos ella sobremaneira odiavel2 ella desprezivel por todas estas causas2 e v4 ex4 tem toda a razo1 chacoteando1 bigodeando1 pulverisando esse miseravel ideal4 ,elle1 com effeito1 nada do que elle ou do que vem d'elle1 serve ou pode servir jamais para alguma cousa do que se procura na vida1 do que nella procuram os homens graves1 os homens serios1 os homens de senso e gosto como v4 ex41 que nada querem com ideaes ou com idas1 mas s com realidades e com tactos2 para captar a admirao das turbas2 o applauso das multides2 para formar um grande nome composto de pequeninas lettras2 para merecer os encomios dos grammatices e o assombro dos burguezes2 para ser das academias2 das arcadias2 commendador2 citado pelos brasileiros retirados do commercio2 decorado pelos directores de collegio2 o ,tirteu dos mercieiros e um ,homero constitucional4 ,para isto que no serve o ideal4 ,e por isso1 pela sua absurda inutilidade1 que v4 ex4 o apeia com tanta sem cerimonia do pedestal aonde1 para o adorarem1 o tm posto os loucos que nunca foram nada neste mundo1 nem das academias nem do conselho de instruco publica1 um ,christo1 um ,socrates1 um ,homero444 ,por isso que v4 ex4 faz muito bem em o destruir1 a esse pobre diabo do ideal2 de o pr fra de casa a bofetes2 de o bannir das suas obras1 que no haver por l nem a mais leve sombra d'elle4 ,agradam a todos assim4 ,os versos de v4 ex4 no tm ideal--mas comeam por letra pequena4 ,as suas criticas no tm idas--mas tm palavras quantas bastem para um diccionario de synonimos4 ,os seus poemas lyricos no so methaphysicos1 no precisam d'uma excessiva atteno1 de esforos de pensamento para se comprehenderem--e tm a vantagem de no deixarem ver nem um s ideal4 ,nas suas obras todas ha uma falta to completa d'essas incomprehensibilidades1 que deve pr muito sua vontade os leitores que v4 ex4 tm no ,brasil4 ,v4 ex4 diz tudo quanto se pode dizer sem idas--boa1 excellente receita para no cahir nas nebulosidades do ideal4 ,os seus escriptos so optimos escriptos--menos as idas3 e v4 ex4 um grande homem--menos o ideal4 ,dante1 que era um barbaro1 e ,shakspeare1 que era um selvagem1 que rechearam as suas obras de ideal4 ,victor ,hugo tambem ce muito nesse defeito4 ,v4 ex4 que o tem sempre evitado cautelosamente1 e por isso no um barbaro como ,dante1 nem selvagem como ,shakspeare1 nem um mo poeta como ,victor ,hugo4 ,no ,dante1 nem ,shakspeare1 nem ,hugo--mas amigo do sr4 ,viale1 que falla latim como ,mevio e ,bavio4 ,mas1 ex4mo sr41 ser possivel viver sem idas8 ,esta que a grande questo4 ,em ,lisboa1 no curso de lettras1 na academia1 no conselho superior1 no gremio1 nos saraus de v4 ex41 dizem-me que sim1 e que mesmo uma condio para viver bem4 ,fra de ,lisboa1 isto 1 no resto do mundo1 em ,paris1 ,berlim1 ,londres1 ,turim1 ,goettingue1 ,new-,york1 ,boston1 paizes mais desfavorecidos da sorte1 na velha ,grecia tambem e mesmo na ,roma antiga1 que nunca poderam passar sem essas magnificas inutilidades4 ,ellas o muito que tm feito servirem de entretenimento aos visionarios como ,christo 7um metaphysico bem nebuloso71 como ,socrates1 como akia-,mouni1 como ,mahomet1 como ,confucio e outros sujeitos de nenhuma considerao social1 que se entretinham fazendo systemas com ellas1 e com os systemas religies1 e com as religies povos1 e com os povos civilisaes1 e com as civilisaes codigos1 leis1 sentimentos1 amores1 paixes1 crenas1 a alma emfim da humanidade1 cousa que se no v nem rende1 e tambem inutil e incomprehensivel4 ,eis ahi o mais a que as idas tm chegado4 ,creio que pouco mais ou nada mais tm feito do que isto4 ,em ,lisboa que nem isto4 ,no sei se tem havido quem tente introduzil-as nessa capital4 ,v4 ex4 que eu tenho a certeza de que no era capaz d'essa m aco4 ,por isso ,lisboa no cahe como cahiram ,athenas e ,roma1 por causa das suas idas1 e ,jerusalem e outras cidades infelizes1 cujos poetas tiveram um amor demasiado ao ideal444 ,uma s cousa ficou d'ellas3 uma memoria grande1 honrosa1 nobilissima4 ,cahiram1 mas deram ao mundo um espectaculo raro--o espirito e a consciencia humana triumphando da materia e brilhando no meio das ruinas como a chamma que se alimenta da destruio da lenha d'onde sahe e que a gerou4 ,eu no sei se v4 ex4 acha isto sensato e de bom gosto4 ,cuido que no4 ,o que eu sei smente que isto sublime4444444444444444444444 ,paro aqui1 ex4mo sr4 ,muito tinha eu ainda que dizer3 mas temo1 no ardor do discurso1 faltar ao respeito a v4 ex41 aos seus cabellos brancos4 ,cuido mesmo que j me escapou uma ou outra phrase no to reverente e to lisongeira como eu desejra4 ,mas que realmente no sei como hei de dizer1 sem parecer ensinar1 certas cousas elementares a um homem de sessenta annos2 dizel-as eu com os meus vinte e cinco6 ,v4 ex4 aturou-me em tempo no seu collegio do ,portico1 tinha eu ainda dez annos1 e confesso que devo sua muita paciencia o pouco francez que ainda hoje sei4 ,lembra-se1 pois1 da minha docilidade e adivinha quanto eu desejaria agora podel-o seguir humildemente nos seus preceitos e nos seus exemplos1 em poesia e philosophia como outr'ora em grammatica franceza1 na comprehenso das verdades eternas como em outro tempo no entendimento das fabulas de ,la ,fontaine4 ,vejo1 porem1 com desgosto que temos muitas vezes de renegar aos vinte e cinco annos do culto das auctoridades dos dez2 e que saber explicar bem ,telemaco a crianas no precisamente quanto basta para dar o direito de ensinar a homens o que sejam razo e gosto4 ,concluo d'aqui que a edade no a fazem os cabellos brancos1 mas a madureza das idas1 o tino e a seriedade3 e1 neste ponto1 os meus vinte e cinco annos tm-me as verduras de v4 ex4 convencido valerem pelo menos os seus sessenta4 ,posso pois fallar sem desacato4 ,levanto-me quando os cabellos brancos de v4 ex4 passam deante de mim4 ,mas o travesso cerebro que est debaixo e as garridas e pequeninas cousas1 que sahem d'elle1 confesso no me merecerem nem admirao nem respeito1 nem ainda estima4 ,a futilidade num velho desgosta-me tanto como a gravidade numa criana4 ,v4 ex4 precisa menos cincoenta annos de edade1 ou ento mais cincoenta de reflexo4 por estes motivos todos que lamento do fundo d'alma no me poder confessar1 como desejava1 de v4 ex4 ,coimbra #b de ,novembro de #ahfe4 ,nem admirador nem respeitador ,anthero do ,quental4 #a ,no livro do sr4 ,pinheiro ,chagas--,poema da ,mocidade4 #b ,os srs4 ,theophilo ,braga e ,vieira de ,castro4 #c ,allude as traduces de ,ovidio e ,anacreonte4 #d ,allude as ,cartas d',echo e ,narciso4 #e ,allude ,primavera4 #f ,allude ao ,tributo ,portuguez na morte de ,pedro ,v4 #g ,allude aos tractados de ,metrificao e ,mnemonica4 #h ,allude a todas as obras em prosa4 #i ,allude a todas as obras em verso4 #aj ,allude a todas as obras junctas1 prosa e verso4 ,vende-se nas principaes livrarias444 preo #ajj rs4 ,,do ,,mesmo ,,auctor 99,odes ,modernas99 #a vol4 em #h4444 preo #djj rs4 ,em ,lisboa na loja de livros de ,lavado2 ,porto e ,coimbra1 na livraria da ,viuva ,mor4