,library of ,portugal 7,biblioteca ,nacional de ,portugal747 99,nota de editor399 ,devido existncia de erros tipogrficos neste texto1 foram tomadas vrias decises quanto verso final4 ,em caso de dvida1 a grafia foi mantida de acordo com o original4 ,no final deste livro encontrar a lista de erros corrigidos4 ,rita ,farinha 7,jul4 #bjji7 ,,bibliotheca ,,do ,,cura ,,de ,,aldeia ,d4 ,,maria ,,amalia ,,vaz ,,de ,,carvalho ,,mulheres ,e ,,crean,,as 7,,notas ,,sobre ,,educa,o7 ,editores--,,joaquim ,,antunes ,,leit,o ,,irm,o ,rua do ,almada #bji--a4o andar ,,porto ,,mulheres ,e ,,crean,,as ,a propriedade d'esta obra pertence3 ,em ,portugal ,bibliotheca do ,cura de ,aldeia4 ,no ,brazil ao snr4 ,adriano de ,castro1 residente no ,rio de ,janeiro4 ,,bibliotheca ,,do ,,cura ,,de ,,aldeia ,,maria ,,amalia ,,vaz ,,de ,,carvalho ,,mulheres ,e ,,crean,,as 7,,notas ,,sobre ,,educa,o7 ,,porto ,editores--,,joaquim ,,antunes ,,leit,o ,,irm,o ,rua do ,almada #bji--a4o andar #ahhj ,,typ4 ,,de ,,alexandre ,,da ,,fonseca ,,vasconcellos #bi1 ,rua do ,moinho de ,vento1 #bi ,minha querida me ,companheira constante e fiel de toda a minha vida1 offereo-lhe este livro humilde1 que escrevi inspirada pelos seus conselhos e pelo seu santo e nunca desmentido exemplo4 ,,capitulo ,i ,falla-se hoje muito a respeito da dissoluo domestica1 manifestada e provada constantemente por casos de divorcio1 suicidios1 questes miseraveis entre parentes proximos1 rebellies filiaes1 etc41 etc4 ,surprehende a todos aquelles1 que sem aprofundarem radicalmente as questes sociaes1 se preoccupam todavia com ellas um pouco mais do que o vulgo1 que este mal que todos sentem e que poucos definem1 que este estado inquieto e doloroso que depois de agitar a familia assusta e perturba a sociedade1 se haja aggravado justamente na poca em que o homem auxiliado por grandes e immortaes pensadores1 tem adquirido a mais elevada e justa noo do ,bem que ainda lhe foi dado alcanar no seu caminho de seculos4 ,a manifesta e clara contradico que hoje mais do que nunca existe entre as idas e os factos desnorteia e desanima ainda os espiritos mais penetrantes4 ,como que o homem que tem domado a materia a ponto de fazer d'ella a escrava submissa da intelligencia2 que forou a grande e muda ,natureza a tornal-o seu confidente e seu senhor2 que arrancou ao astro e planta o segredo immortal da vida que os anima2 que penetrou--investigador implacavel--nas catacumbas das mortas religies1 e que ouviu de cada uma a palavra suprema que as explica e desvenda2 porque que o homem que tem hoje a percepo lucida e completa do seu destino1 no soube ainda prostrar1 vencer1 amordaar o animal indomito que vive dentro d'elle1 que o martyrisa1 que o rebaixa1 que o leva muitas vezes ao abysmo1 quando o no leva ao lodaal8 ,se o bom e o bello lhe revelaram a sua larga claridade benefica1 porque se no revigora elle1 e se no robustece n'esse grande banho de luz8 porque no estabelece uma harmonia perfeita e intima entre a ida que frma dos deveres e a sua manifestao pratica e vizivel8 ,depois de havermos concedido s paixes humanas o imperio relativo que ellas no podem perder1 somos ainda forados a confessar que na culpa d'esta desgraa que todos lamentam1 compete s mulheres um grandissimo quinho4 ,concorrem ellas em grande parte para dar fora ao impulso que contraria a marcha triumphante e apesar de tudo invencivel1 que leva a civilisao no caminho da verdadeira luz4 ,e concorrem por varias e complexas razes que devem analysar-se e depois combater-se4 ,ignorantes impoem resistencia inconsciente s transformaes continuas do progresso4 ,retrogradas por educao e por natureza1 cada innovao se lhes affigura ou uma cousa inutil1 ou uma cousa perigosa4 ,amesquinhadas pela profunda escurido intellectual em que jazem immersas1 em vez de auxiliarem o homem no cumprimento difficil do dever afastam-no pelo desdem1 desanimam-no pela frivolidade1 canam-no com as exigencias loucas1 gastam-lhe a fora1 o alento1 as aspiraes arrojadas e grandes na satisfao de desejos pueris1 ou lhe destroem a dignidade e lhe annullam a energia obrigando-o a transigir com os desvairamentos d'uma imaginao doentia4 ,mas se as mulheres produzem este effeito funesto confesse-se para bem da justia que aos homens se deve o atrazo intellectual em que todas ns estamos4 ,sentem elles1 e a meu ver sentem muito bem1 que para conservar este equilibrio necessario manuteno da ordem na familia e na sociedade1 cumpre que a mulher se no revolte contra a inferioridade a que fatalmente a condemnam as leis1 e contra a dependencia a que a condemnam os costumes4 ,para alcanarem porm esta submisso voluntaria entenderam desde muito1 que o melhor meio consistia em condensar as trevas da ignorancia e da superstio em torno d'aquella de quem so forados a fazer a sua companheira na vida1 o seu consolo nas horas da provao1 a me de seus filhos1 a carne da sua carne4 ,terrivel contradico1 systema absurdo que tem como resultado a lenta desorganisao da familia e que corrompendo a mulher atravez do homem1 no pde deixar d'ir com o andar dos tempos corrompendo o homem atravez da mulher4 ,d'um lado querem conservar-nos n'uma plana muito inferior sua1 como illustrao1 conhecimentos1 intelligencia1 isto para que nunca nos venha ida aspirar perfeita igualdade dos direitos e dos privilegios2 d'outro lado exigem de ns prodigios de virtude1 de abnegao1 de paciencia1 de que s so capazes as almas bafejadas pelo sopro ideal da eterna ,perfeio4 ,a mulher precisa de ser moralmente mais forte do que o homem1 para conseguir levar a cabo a tarefa relativamente superior que a natureza e a sociedade lhe impoem4 ,no dia em que se assentar este ponto como verdade incontestavel1 o mundo ter dado um dos seus passos mais gigantescos no caminho da felicidade4 ,educar a mulher eis o grande problema que resta ainda a resolver4 ,educar a mulher arrancal-a na infancia ao seu bero ffo e tepido de beijos1 e leval-a por caminhos d'uma magestade austera que ella nunca trilhou4 preparal-a para a grande lucta moral que a ,vida1 com os cuidados com que ,sparta1 a guerreira cidade antiga1 preparava os seus filhos para as luctas do corpo1 para as victorias da destreza physica4 associal-a pela comprehenso e pela sympathia a todos os trabalhos e investigaes do homem moderno2 dar-lhe ao lado d'este um lugar honroso e definido1 no egual pois que so diversas as attribuies de ambos1 mas equivalente em direitos e em deveres4 fazer-lhe comprehender bem claro que as seduces do corpo--seu orgulho supremo e seu constante desvanecimento--quando no so reflexo da formosura e da robustez da alma1 no passam d'um lao ignobil armado ao animal malefico e bravio que todo o homem encerra em si4 ,educar a mulher leval-a a compenetrar-se do seu papel providencial na familia1 e achal-o grande1 util1 elevado1 digno de saciar as mais levantadas ambies1 e tambem--o que d'uma importancia capital--de pezar como uma responsabilidade tremenda no animo mais altivo4 dar-lhe uma ida perfeita do dever e da justia1 um ,ideal a que tendam incessantemente as aspiraes do seu espirito1 uma religio que a hypocrisia e os calculos interesseiros no maculem nem amesquinhem1 que se resuma para ella no sacrificio e no amor1 mas sacrificio sem voluptuosidades dissolventes e amor sem extasis hystericos e sem raptos de paixo sensual4 ,no basta porm exprimir tudo que se ousa esperar da mulher de manh1 preciso tambem lanar um olhar demorado e justo ao que a mulher d'hoje4 ,s assim podero comprehender-se os erros que preciso desarreigar1 os preconceitos que indispensavel destruir1 a distancia enorme que temos de transpr para chegar ao momento da sua completa e salutar transformao4 ,,ii ,as divises sociaes que hoje em face dos homens educados nos mesmos collegios1 nas mesmas academias1 nas mesmas escolas superiores1 quasi que se no distinguem1 ou se distinguem apenas por ligeiros cambiantes imperceptiveis s vistas superficiaes1 imperam ainda na mulher com extraordinaria fora4 ,vamos pois procurar s diversas classes as suas femeninas representantes1 e pincipiemos pela mulher da classe media1 classe que considerada no seu elemento masculino representa a intelligencia1 a riqueza1 o commercio1 a industria1 o progresso d'um paiz4 ,a mulher d'essa classe especial divide-se em dous generos accentuadamente distinctos3 aquella que as vaidades sociaes ainda no corromperam1 e aquella que pretende offuscar com os deslumbramentos da sua opulencia1 as finas graas1 as exterioridades elegantes1 os requintes herdados e tradicionaes que pompeiam nas regies mais elevadas da sociedade4 ,a primeira evidentemente mais sympathica2 laboriosa e tem a rude sensatez plebeia da sua raa4 ,tem o amor dos filhos1 um amor animal1 um amor physico1 mais instincto do que religio4 ,no raciocina mas sente com uma energia poderosa e creadora4 d'uma ignorancia absoluta1 ingenua1 profunda1 quasi sublime na sua cegueira4 ,imagina-se porm investida d'um dever supremo a que todos se subordinam3--o de proporcionar por todos os meios ao seu alcance o bem estar material do marido1 e da familia4 ,no tem conversao1 no tem espirito1 no tem aquella doura benevola e intelligente que para o corao dos homens o que o algodo em rama para o ninho das aves4 ,quando aconselha irrita2 quando quer guiar contraria1 quanto tenta convencer1 despersuade4 porm activa1 aceada1 robusta1 fiel1 e nas horas de adversidade1 de doena1 de desfallecimento ou de miseria1 tem os carinhos rudes1 tem a dedicao humilde1 tem a vigilancia perseverante1 tem o exemplo energico e fecundo por isso mesmo4 ,o homem anda l fra1 na lucta1 no trabalho1 na investigao1 na sciencia2 vae vivendo e vendo como n'uma ascenso rude1 desvendarem-se todos os dias horisontes novos1 vae estudando e sentindo como n'uma iniciao progressiva dilatar-se-lhe o espirito1 clarear-se-lhe o entendimento4 ,ella a esposa1 a sua companheira1 a sua melhor amiga1 ignora os seus combates1 as suas glorias1 as acres delicias do seu sacrificio1 os desanimos1 as horas de impotencia1 as aspiraes1 os arrebatamentos triumphantes da victoria4 ,percebe simplesmente se o marido est doente1 se anda magro1 se tem fastio1 se tem roupa branca4 ,inventa-lhe pequenos pratos1 manipula-lhe remedios caseiros1 vigia para que lhe no faltem aquelles commodos que elle aprecia1 tem prodigios de inveno espontanea para o envolver no bem estar to necessario aos que se consomem n'uma actividade sem treguas4 ,de que ha de elle queixar-se8 ,de nada4 amado1 estremecido1 obedecem-lhe cegamente1 tem a certeza de encontrar ao seu lado sempre que o precise um sincero e leal affecto4 ,mas quando um sentimento superior o transporta1 quando uma grande ida o levanta e ennobrece1 quando um nobre desejo do bello e do bom lhe faz palpitar de enthusiasmo o corao1 debalde que elle busca junto de si o espirito que comprehenda o seu espirito1 que partilhe as suas impresses1 que lhe revele emfim intima1 absoluta1 indestructivel1 essa unio ideal sem a qual o casamento espiritualmente infecundo e incompleto4 ,isto tem de esmorecer fatalmente o impulso que levava esse trabalhador1 esse homem de pensamento ou de sciencia conquista e posse da sua felicidade4 ,sem que elle talvez mesmo d por isso1 uma tristeza indefinivel1 vaga1 sem traduco1 lana como que um sopro esterilisador sobre as suas mais queridas concepes4 ,falta-lhe alguma cousa que elle precisava e que no entretanto no conhece nem sabe definir4 ,falta-lhe o complemento do seu sr6 ,subamos agora na escala social mais um degrau4 ,o trabalhador incansavel venceu4 ,o dono da fabrica fez-se capitalista2 o chimico enriqueceu com a sua descoberta2 o medico alcanou uma popularidade subita2 o industrial ganhou um milho4 ,elle simples e modesto1 lembra-se dos dias em que trabalhava e combatia1 como dos seus dias melhores2 no quer offuscar ninguem1 basta-lhe hoje como hontem lhe bastava a consciencia do seu valor individual4 ,ella porm a mulher--e eis a segunda variedade que acima citamos--ella que deixou penetrar na sua alma ignorante o veneno da vaidade1 ella a quem o trabalho forado j no absorve1 e a quem as distraces elevadas e nobres d'um espirito culto so vedadas1 ella que no pensa1 que no medita1 que no entendeu bem na sua acepo levantada e digna a misso exercida pelo marido pois que se envergonhava da pobreza honesta em que vivera largo tempo1 eil-a que deseja esmagar as que a esmagaram n'outra poca com o pezo da sua superioridade social1 eil-a que opera a pouco e pouco1 quasi imperceptivelmente1 uma influencia funesta no homem1 que o corrompe1 e que o arrasta4 ,emquanto elle tivera as serenas e robustas consolaes do trabalho que a intelligencia illumina1 e a que a intelligencia preside1 tinha ella apenas na sua profunda escurido mental1 as pequenas humilhaes1 as raivas mal dissimuladas1 os despeitos mal contidos4 ,no podendo ter a consciencia do seu dever o que a faria sublime1 s tivera a consciencia da sua inferioridade1 que a tornara mesquinha e redicula4 ,chegando o momento da desforra exigi-a completa4 ,leitora1 quando tu vires passar triumphante1 grosseiramente desdenhosa1 mal sentada nos flaccidos coxins d'um coup de oito molas1 coberta de velludos e de rendas a altiva burgueza dos nossos dias1 lembra-te que o fructo pernicioso da ignorancia combinada com a mais feroz vaidade4 ,ninguem a excede no absurdo desprezo por tudo que est abaixo d'ella1 que mais pobre1 mais humilde1 menos cheio de lantejoilas e de falsos brilhantes4 ,tem as refinadas atrocidades do paria que se vinga4 ,como para ella ser pobre foi o maximo dos martyrios e a maxima das humilhaes envolve todos os pobres no mesmo olhar de cruel desdem4 ,as filhas d'esta me so as desgraadas creanas que por ahi vendem a sua mocidade e os seus carinhos por um titulo avariado ou pelos milhes d'um negreiro enriquecido4 ,no as accusemos1 accusemos antes a perniciosa1 a funesta educao que receberam1 germens que teem no passado as suas raizes damninhas e que vo estender sobre o futuro a sua sombra deleteria e esterelisadora4 ,combater estes erros1 lanar por terra estes preconceitos deve ser a mira de todo o ser que pensa e cr6 ,,iii ,deixemos agora os menages modestos onde reina o trabalho ou os sales vulgarmente luxuosos onde a riqueza ostenta os seus vos orgulhos1 e penetremos no boudoir elegante1 onde a mulher do alto mundo proclama o que se lhe afigura a sua incontestavel superioridade4 ,ha um preconceito falsamente democrata1 e digo falsamente porque a democracia tem obrigao de ser justa1 imparcial e intelligente1 que attribue aos restos desmantelados da nossa aristocracia1 todas as culpas e todas as inferioridades4 ,engano6 verdade que a aristocracia portugueza avaliada no seu conjuncto1 se annullou pela ignorancia1 como a aristocracia franceza se annullou pelo desdem1 e a prova temol-a ns em ,inglaterra onde esta classe que no foi nunca ignorante nem desdenhosa1 predomina com todo o pezo d'uma robusta instituio de seculos nos destinos politicos1 economicos e sociaes da nao4 ,hoje porm1 o que em ,portugal resta de uma raa que teve todos os privilegios e todas as prepotencias1 tenta instruir-se de boa vontade1 aspira a levantar-se pelo valor individual1 e se raras vezes o consegue1 que o passado exerce ainda a sua influencia nefasta1 que a decadencia e o abastardamento das raas so uma verdade scientifica contra a qual nada pde a vontade humana4 ,a fidalga tradicional e lendaria1 soberba1 sem conseguir ser magestosa1 ignorante1 cheia de preconceitos1 de rediculos e de toda a especie de idas estapafurdias1 olhando de muito alto com um pasmo idiota que aspira a ser desdenhoso1 para as maravilhas d'uma civilisao que no comprehende1 vae desapparecendo completamente at dos velhos solares da provincia acastellados e altivos4 ,morre sem deixar saudades e sem ter quem a substitua4 ,hoje as representantes femeninas das altas classes se no seguem um caminho mais verdadeiro1 mais util1 mais fecundo em resultados praticos1 revestem ao menos a sua falsa percepo da ida moderna1 d'um prestigio que primeira vista agrada e seduz4 ,a educao d'ellas1 uma educao toda exterioridades brilhantes1 se no aquella de que carecem as mes1 as perceptoras de futuro1 estabelece comtudo e accentua incontestavelmente a sua superioridade social sobre as geraes que as precederam4 ,a influencia estrangeira e sobretudo a franceza1 penetrou nas salas desbotadas dos nossos palacios e nas luxuosas residencias da nossa aristocracia moderna4 ,se no temos a mulher de familia1 a creadora de uma gerao robusta1 conscienciosa1 crente e leal1 temos a mulher de sala1 que uma nova face da transformao lenta por que vo passando as idas e os acontecimentos4 ,a mulher de sala um producto exotico entre ns4 ,a ,frana recebeu-a da ,italia1 cultivou-a1 transformou-a1 deu-lhe todos os requintes falsos1 todos os donaires artificiaes1 ergueu-lhe um throno no seio das suas crtes galantes1 e deixou que ns1 vendo-a de longe a cubiassemos e tentassemos transplantal-a para os nossos costumes chos1 para a nossa pobreza envergonhada e modesta4 ,sahiu-nos uma cousa hybrida e estranha1 que no est em relao com o seu meio1 deslocada1 inutil1 mas em todo o caso attrahente para os olhos superficiaes4 ,a mulher de sala falla umas poucas de linguas1 com facilidade e fluencia2 escreve bem1 com uma certa graa adquirida que no occulta a frivolidade1 mas que a envolve em vu rendilhado2 conversa com vivesa e com chiste1 sabe dar aos pequenos nadas da sua vida uma elegancia que illude os incautos4 ,quem a v de longe1 no scenario pomposo da sua opulencia1 sente-se deslumbrado2 quem a observar de perto conhece que ella tem de facto caminhado para se afastar das suas predecessoras1 mas que o caminho que vae trilhando como o que ellas trilharam1 um caminho falso1 um caminho sem sahida4 ,o primeiro obstaculo que a separa da verdadeira luz1 uma devoo inteiramente errada1 em que a ida luminosa e fecunda prgada pelo ,christo se subverte e se afoga n'uma onda de preconceitos e de mentiras anti-christs4 ,se a mulher das classes inferiores estabelece entre si e o marido uma barreira enorme--a sua ignorancia--a mulher mais culta e mais educada das classes elevadas separa-se do marido1 como se separa mais tarde dos filhos isolando-se na esphera inaccessivel do seu intransigente fanatismo4 ,quando digo fanatismo1 no quero referir-me a uma crena exaggerada e absoluta1 que impere em todos os actos da vida1 e que os subordine s suas austeras exigencias4 um fanatismo elegante1 um fanatismo de alta vida1 bastante indulgente para se permittir todos os gozos sociaes1 bastante severo para no admittir que haja virtudes1 merito1 nobreza1 sublimidade possivel fra do seu estreito gremio4 ,aqui como alli sempre o divorcio na familia debaixo de qualquer dos aspectos4 ,aqui porm mais completo ainda1 visto que a vida da sociedade exige mais da mulher1 visto que n'esta existencia de representao exterior e pueril1 nem ao menos subsiste entre a mulher e o marido aquella intimidade material1 aquella proteco mutua que faz com que o homem seja o brao1 o amparo1 o sustentaculo1 e a mulher o desvelo1 a economia1 a vigilancia continua1 a dispensadora e reguladora de todos os confortos materiaes da familia4 ,a mulher de sala vive para todos1 menos para os seus4 ,veste-se1 despe-se1 reza1 confessa-se1 recebe visitas1 tagarella1 agrada1 encanta1 mas no meio d'este labyrintho de pequenas occupaes1 de pequenos deveres1 de pequenas caridades officiaes1 de pequenas praticas devotas1 ignora completamente e absolutamente tudo que pde constituir a verdadeira misso da mulher no mundo e na familia4 ,se alguem tivesse a ousadia de dizer-lhe3 --,julgas-te superior e moralmente fallando a mulher do povo que ganha com o suor do rosto ao lado do homem1 o po que os filhos ho de comer noite1 tem sobre ti superioridade moral incontestavel4 ,julgas-te instruida e no tens no teu pequeno cerebro recheiado de insignificancias bonitinhas1 a noo mais elementar dos milhes de cousas que precisas de saber para estares em harmonia com o teu tempo1 para educares dignamente aquelles em cujas mos esto os destinos de manh4 ,julgas-te virtuosa e no pratcas nem concebes sequer nenhuma d'aquellas virtudes ss que so a dignidade1 o imperio e a fora da mulher4 ,julgas-te religiosa e cada uma das tuas praticas acanhadas1 cada um dos teus preconceitos mesquinhos te aparta da verdadeira religio que allumia e esclarece os fortes4 ,julgas-te boa esposa e boa me e vives ssinha n'um mundo teu1 povoado de phantasias morbidas1 onde teu marido e teus filhos no penetram2 no tentas acompanhal-os1 consolal-os1 comprehendel-os2 nunca te veio ida que a me de familia precisa de viver no corao dos seus1 identificada completamente com elles1 para ser digna d'este sagrado nome6 ,se alguem lhe dissesse isto ella julgaria ouvir fallar uma lingua estranha1 ou rir-se-ia com desdenhosa incredulidade4 ,pois necessario que ella entenda esta lio1 que ella oua estas palavras1 e que pelo seu esforo permanente e consciencioso1 ella tente sahir das trevas intellectuaes e moraes em que a sua funesta e falsa educao a teem submergido4 ,,iv ,no meio do desalento profundo1 da inconsolavel tristeza1 que n'esta poca parece obumbrar de espessas nuvens a alma do homem1 e como que vencer-lhe as aspiraes e as energias1 erguemos a voz desauctorisada e humilde para apontar algumas das causas que produzem effeitos to deploraveis4 ,temos visto a desharmonia que existe no lar domestico1 e encontramos como unico motor de tamanho desastre a desigualdade intellectual que a educao estabelece e nutre entre os dous sexos4 ,mas no se trata smente de observar as causas e os effeitos1 trata-se de pensar n'um remedio que seja efficaz para este estado de cousas1 que a prolongar-se indefinidamente produz a dissoluo social nos seus aspectos mais dolorosos e mais repellentes4 ,se a sociedade e a civilisao requintada e corrupta dos nossos tempos ainda no ensinaram mulher o caminho verdadeiro e util que tem a seguir1 antes d'elle a teem afastado mais e mais1 ella pde ainda erguer-se do marasmo intellectual em que se compraz1 e mostrar ao homem que digna de coadjuval-o na sua obra de reedificao1 digna de acompanhal-o na realisao pratica do que para elle1 desajudado e s1 no tem passado d'uma bella concepo theorica onde s vezes transluzem no sei que visos de chimera4 ,todos os seculos teem mais ou menos acceitado a herana dos seculos precedentes4 ,ao nosso cabe porm a gloria de ter renegado muitos erros do passado1 de ter proclamado a sua independencia1 de ter produzido um reviramento absoluto n'esse conjuncto de idas1 de conhecimentos1 de aspiraes e de theorias que constituem o ideal humano4 ,o que hoje se exige da mulher positivamente o contrario do que a sociedade antiga affeioada por moldes diversissimos exigia at agora4 ,este ponto d'uma importancia capital precisa de ser esclarecido a fundo4 escravido absoluta a que o nosso sexo se curvou sob o imperio de religies extinctas1 bruteza dilacerante em que elle viveu submerso entre as sombras das idades barbaras1 succedeu--e succedeu providencialmente--a apotheose da mulher divinisada pelo christianismo1 aureolada por aquella poesia artificial1 exageradamente requintada e platonica dos trovadores da ,edade media1 e aquella abnegao amorosa e idealista dos paladinos da cruz6 ,essa transformao radical no destino da mulher fez sentir a sua influencia at hoje1 em phases e gradaes successivas e diversas4 castell de repente acordada do seu lethargo mental1 pela tiorba namorada do pagem1 ou pela supplica ardente do cavalleiro1 succedeu a rainha das crtes de amor1 a que erigia em dogma ideal o adulterio1 a que proclamava em sentenas preciosas a quebra de todos os laos da familia1 a que via no amor requintado1 falsamente seraphico1 um direito superior a todos os direitos e deveres domesticos4 ,veio depois a gentil pag da ,renascena1 a inspiradora dos artistas1 a amante dos papas1 a musa dos loucos poetas1 a princeza dos festins1 erudita1 apaixonada1 intelligente1 cheia de phantasias superiores1 que se era virtuosa se chamava ,victoria ,colonna1 e se era dissoluta se chamava ,lucrecia ,borgia4 ,a esta que correspondia ao seu meio social1 que cumpria uma misso civilisadora1 que tinha o seu destino marcado1 e a sua orbita descripta succedeu a mulher de sala do seculo ,,xvii e do seculo ,,xviii1 de que hoje s temos a descendencia amesquinhada1 decadente1 anachronica1 e1 o que peor de tudo1 inutil quando no funesta1 ridicula quando no tambem perniciosa1 o que lhe succede quasi sempre4 ,o homem que muitos seculos considerou a mulher um animal inferior e mal domesticado1 fez d'ella movido por influencias que no podemos historiar aqui1 o seu luxo1 a sua poezia1 o enlvo das suas horas de ocio1 depois novamente a escrava dos seus vicios ou o instrumento dos seus prazeres1 e por fim um mero ornamento social1 um brinquedo sem importancia1 uma creana indocil1 ante a qual se curvava1 no porque a respeitasse mas porque n'esta falsa e mentida submisso encontrava novos requintes de prazer4 ,no comprehendeu porm que era victima da sua propria injustia1 que a corrupo da mulher se convertia para elle em gangrena1 que o seu amesquinhamento se lhe communicava em villeza1 que a sua ignorancia o fazia tambem retrogradar1 que ha relaes reciprocas que no podem quebrar-se1 e influencias mutuas a que os dous sexos ao mesmo tempo divorciados e unidos1 no podem por mais que queiram furtar-se4 99 99 99 99 99 ,hoje uma corrente de ar puro1 a corrente das idas democraticas1 purificou a atmosphera viciada onde uns poucos de seculos haviam deixado os vestigios das suas paixes insalubres4 ,tudo se transfigurou sob esta influencia benefica4 ,fez-se uma grande claridade na alma dos povos e na dos individuos1 o pensamento reconquistou a sua independencia perdida1 e uma voz firme e poderosa bradou bem alto3 t --,no se tracta de continuar no caminho que iamos trilhando1 tracta-se de procurar uma nova direco que nos conduza verdade4 ,ouvir esta voz renunciar aos erros do passado1 e cumpre que ns mulheres renunciemos a elles1 para no caminharmos por uma estrada opposta quella por onde vo subindo fortes1 illuminados1 convencidos1 os nossos paes1 os nossos esposos1 os nossos irmos4 ,no a uma penna to obscura como a minha que pertence dar leis absolutas sobre um systema de educao diverso do que hoje est geralmente adoptado4 ,limitar-me-hei rapidamente e apenas animada com a fora da consciencia1 consultando o bom senso que apanagio dos mais humildes1 e a observao que pde ser partilha dos mais pobres1 a indicar alguns dos obstaculos que nos separam moralmente d'aquelles de quem smos companheiras e de quem devemos ser auxilio e complemento4 ,a vida da sociedade uma vida toda de egoismo e de vaidade1 a vida de familia uma vida de renunciamento e de abnegao4 ,para viver na sociedade a mulher s precisa de ser exteriormente agradavel1 para viver na familia a mulher precisa de ser forte4 ,o mundo exige as graas1 as garridices1 as subtilezas do espirito1 as louanias do tracto2 a familia sem prescrever inteiramente aquellas1 exige acima de tudo a consciencia firme1 a ida clara e definida dos deveres1 o espirito do sacrificio1 e aquella energia branda que resiste s tentaes dissolventes do peccado4 ,entendemos pois que os esforos de todos os educadores1 de todos os que se preoccupam com o futuro da sociedade devem convergir para annullar a mulher dos sales1 e para crear e fortalecer a mulher da familia4 ,no nos revoltamos contra as graciosas futilidades que hoje constituem a educao feminina1 no as condemnamos a um completo ostracismo1 desejamos simplesmente vel-as collocadas no lugar que por sua natureza lhes compete4 ,so simples ornatos decorativos1 como taes os applaudimos e os queremos1 no como fundo solido e base de todo o cultivo intellectual da mulher4 ,tambem no pedimos para o nosso sexo a emancipao1 essa utopia de que hoje se falla tanto e com tantas banalidades impensadas4 ,o que ns desejariamos era vr na mulher uma personalidade robusta e consciente1 inaccessivel s chimeras da sentimentalidade1 solidamente e despretenciosamente instruida1 tendo todas as noes praticas necessarias para subordinarem o seu destino s leis do bom senso1 ao alcance de todos os descobrimentos e de todas as conquistas do seu tempo1 comprehendendo o bello debaixo de todos os seus aspectos2 prompta para perdoar o mal mas no para transigir com elle2 sabendo resistir-lhe mas sabendo explicar as circumstancias que o attenuam s vezes4 ,tendo acima de todas as religies a religio do ,bem1 sacrificando-se aos seus affectos1 mas sacrificando-se principalmente aos seus deveres4 ,laboriosa como condio indispensavel da propria dignidade4 ,o trabalho a redempo4 ,no ha mulher que no tenha conhecido mais ou menos fugitivas1 mais ou menos traioeiras1 mais ou menos perigosas1 essas horas ms chamadas tentaes4 ,o trabalho a salvaguarda para essas horas4 ,os espiritos ociosos so os espiritos accessiveis4 99 99 99 99 99 ,no dia em que este novo ideal tiver tomado uma frma tangivel at para os mais humildes e para os mais ignorantes a familia estar salva1 porque ter por esteio a moralidade4 ,at ento ha de haver as incertezas1 as duvidas1 as vacillaes1 os desalentos que tornam esta hora da vida das naes1 uma hora contradictoria1 estranha1 profundamente dolorosa1 que j no tem raizes no passado sem ter ainda um ficto no futuro4 ,trabalhem todas as mes n'esta obra sublime1 e como a mythica ,minerva sahiu armada do cerebro olympico de seu pae1 assim a mulher sahir do ninho em que se educou1 j prompta para receber a p firme o embate tempestuoso das paixes1 que se a vencem a inutilisam e a degradam4 99 99 99 99 99 ,,capitulo ,,ii ,o falso luxo ,i ,na nossa pequena sociedade de ,lisboa1 em que os meios esto em completo desequilibrio com os desejos1 chega todos os annos um periodo1 o periodo que antecede o carnaval1 em que nos julgamos mais ou menos obrigados a sacrificar ao amor da sociabilidade4 ,entendemos que uma sociedade civilisada no pde viver sem festas e sem saraus1 portanto necessario que sem hesitao faamos tudo que nos seja possivel1 e mesmo impossivel1 para darmos e recebermos saraus e festas4 ,ouo eu por ahi dizer e affirmar que os talentos e os genios enxameiam como papoulas nas seras de abril4 ,no duvido1 no senhor2 temos talento1 temos genio1 temos superioridade1 temos phantasia1 temos tudo quando quizerem4 ,o que ns no temos uma cousa pequena1 humilde1 despertenciosa1 desdenhada4 ,no temos bom-senso4 ,no quero aqui entrar na questo muito complexa e muito complicada de saber se as festas1 se os bailes1 se os jantares de gala1 se todas as ceremonias pomposas da vida mundana podem ter no desenvolvimento da industria1 no progresso da civilisao moderna alguma influencia benefica4 ,em outros paizes mais ricos1 em outras naes mais industriaes1 em outro regimen mais favoravel ao luxo creio que sim4 ,entendo eu1 porm1 que as leis geraes no se podem applicar a casos especiaes1 e que ns no podemos conservar a vida falsamente luxuosa que e continuar a ser por muito tempo o nosso ideal supremo6 ,em ,lisboa haver cem familias que estejam no caso de gastar em superfluidades um rendimento avantajado4 ,mas1 como o amor da representao o nosso cunho nacional1 como o desprezo pelos pobres o timbre e o brazo da nossa sociedade1 como o luxo o sonho e a aspirao constante de todos os cerebros juvenis1 provm d'aqui que dia a dia1 se sente na familia uma perturbao e uma desharmonia mais graves que o contentamento intimo e desinvejoso vae-se tornando uma flr rara1 que s aqui ou alli enfeita suavemente a fronte ignorante de uma collegial de quinze annos6 ,depois1 como se no pde vencer o impossivel1 mesmo as que empregam os maximos sacrificios para apparecerem e brilharem1 depois de alcanado o fim a que aspiravam1 ficam mais tristes e mais despeitadas do que antes de o ter realisado4 ,no baile1 luz opalina dos lustres1 no aroma capitoso das violetas1 entre as magnificencias avelludadas das camelias1 percebem--e com que amargo desespero6--que o seu vestido no est fresco1 que esto machucadas as suas flores1 que a ninguem illude o amarellado artificial das suas rendas falsas1 e que o strass no pde substituir com muita vantagem os diamantes verdadeiros4 ,oh6 quantas privaes1 quantos sacrificios1 quantas luctas conjugaes1 que scenas intimas1 para alcanarem aquella toillete mesquinha1 desbotada1 humilhante1 que parece ter malicias diabolicas em cada uma das suas pregas1 a rir-se ferozmente no seu fru-fru escarnecedor4 ,e a dona d'esse vestuario hybrido pensa de si para si com uma furia concentrada1 que pe manchas biliosas nas suas faces1 e chispas sombrias nos seus olhos pisados4 --,no consigo humilhar nenhuma das minhas inimigas1 no veno nenhuma das minhas rivaes6 ,as pobres adivinharo todas as penas que esta hora de ostentao me tem custado6 as ricas tero d1 um d profundo da minha miseria mal disfarada e mal occulta6 ,que ganhei eu com isto8 ,ganhou1 minha senhora1 ganhou alguma cousa1 pde crer4 ,ganhou a certeza de que seu marido ou no a estima j1 se honesto e digno e tem a alta comprehenso dos deveres da familia1 ou continua a sentir o mesmo que at alli tinha sentido1 uma paixo insalubre ou uma indifferena bestial1 e n'esse caso no passa de um homem tolo1 ou de um homem mu6 ,ganhou o haver definido1 de si para comsigo a sua propria situao2 ganhou o reconhecer bem a que especie de marido entregou o destino de seus filhos e o seu4 ,e no se diga que ha n'estas minhas palavras demasiada acrimonia1 ou injustia flagrante4 ,o nosso defeito consiste positivamente n'isso3 em dar pouca atteno a todas as cousas2 em ver os resultados sem observar e sem julgar as causas2 em perdermos completamente de vista1 que no ha effeito por mais mesquinho que no seja o corollario de uma lei importante4 ,no quero1 j se v1 condemnar sem appello as senhoras que frequentam a sociedade e se habituam atmosphera artificial dos sales4 ,quero provar simplesmente que entre cem senhoras que o fazem1 s dez que o podiam fazer1 e que o nosso modo de ser social se no coaduna com esses costumes pomposos1 restos e herana de um extincto regimen4 99 99 99 99 99 ,para se saber quanto o luxo corrompe e adoece um paiz bastar-nos-hia apontar para a ,frana de ,luiz ,,xv e para a ,frana do segundo imperio4 ,a historia e as chronicas d'esses dias de ominosa memoria revelar-nos-hiam de um modo bem claro e bem frisante quanto escorregadio o declive que do luxo exagerado conduz immoralidade1 ao impudor da mulher e s deshonestas transigencias do homem4 ,no queremos1 porm1 n'este estudo despretencioso evocar a historia1 nem revolver o lodo das passadas corrupes4 ,queremos simplesmente fallar ao bom senso das leitoras1 e queremos fallar chmente1 simplesmente1 sem declamaes1 nem idas preconcebidas4 ,todos sabem que o nivelamento das classes1 a livre diviso dos bens1 a democratisao das fortunas1 se teem conseguido debellar muitas e crueis injustias sociaes do passado1 teem sido tambem a destruio das colossaes fortunas de outro tempo4 ,hoje1 quando essas fortunas por acaso existem1 so creadas pelo trabalho em grande escala1 pelas importantes emprezas commerciaes1 pela actividade devoradora de homens privilegiados4 ,j se no fundam como antigamente em direitos estaveis e indestructiveis4 ,so ephemeras1 contingentes1 dependem de muitas causas com que se no pde absolutamente contar4 ,uma crise financeira1 uma guerra europa1 uma quebra importante1 um abalo qualquer de credito1 e eis por terra um edificio assombroso e complicado que parecia dever resistir ao embate de todas as tempestades1 e que um spro logra alluir6 ,ora1 se isto tem relao com as grandes fortunas1 se nem ellas podem contar com o dia de manh1 que faro os que no possuem mais que o necessario1 os que s vezes nem isso possuem8 ,antigamente1 no modo por que estava constituida a hierarchia social1 uns tinham todos os bens1 e outros soffriam todos os males2 hoje como todos teem eguaes direitos1 todos querem ter eguaes regalias4 ,seria isso muito bom1 se a egualdade que existe entre as prerogativas podesse existir tambem entre as riquezas1 se em vez de haver pobres e ricos1 houvesse smente ricos1 cousa a que nem os mais exaltados socialistas se lembraram ainda de aspirar4 ,ora1 se est sobejamente provado que1 principalmente no nosso pequeno paiz1 ha uma minoria pequenissima que rica1 ha uma maioria enorme que miseravel1 e ha1 entre os dous extremos1 uma classe1 a mais importante--no fim de contas1 visto que tem a superioridade da educao e da intelligencia1 que simplesmente remediada1 porque que no havemos de sujeitar o nosso regimen social s exigencias e necessidades d'essa classe1 que a predominante1 seno pelo numero1 ao menos pela influencia que exerce8 ,essa classe pde conhecer as distraces de uma agradavel intimidade1 mas no as pompas decorativas1 as ceremoniosas galas de uma vida de salo apparatosa e futil4 ,se os filhos d'essa classe olhassem para baixo e vissem as privaes1 as luctas1 as miserias dos que s conseguem com o suor do rosto ganhar um pedao de po duro e cobrir pobremente o corpo emmagrecido1 de certo que se sentiriam felizes1 triumphantes1 dignos de inveja1 na sua mediocridade aurea1 na modesta fartura da sua vida domestica1 nas distraces intimas de um circulo affectuoso e limitado4 ,mas no6 ,olham para cima1 vem os ricos1 os potentados1 os dominadores do seculo1 ouvem nas tentaes febris das suas noites o tilintar magnetico do ouro1 vem passar no fundo dos seus ligeiros coups1 pallidas e desdenhosas mulheres1 que medram como flres exoticas de fulva folhagem metallica na estufa das suas salas opulentas1 sentem em si o desejo insaciado de todos os prazeres que no teem1 e sem prudencia1 sem pudor1 sem dignidade1 atiram-se s especulaes vergonhosas1 transigem com a sua propria probidade1 vendem1 desde os bens que herdaram de seus paes1 at consciencia que lhes veio de ,deus1 e quando conhecem que n'esta lucta ingloria1 n'esta lucta impossivel s podem ser vencidos1 j no tempo para retrocederem no funesto caminho encetado6 ,e que no ha parar n'esta ingreme descida4 ,teem-me dito por varias vezes que eu sou feroz para com o sexo a que perteno2 que accuso com muita injustia as mulheres de todos os males que teem succedido1 que succedem ou que esto para succeder no nosso mesquinho planeta4 ,ora eu1 pelo contrario1 estou convencida de que o meu orgulho1 de que a minha vaidade feminil me levam a dar s mulheres uma importancia que mais ninguem lhes quer reconhecer4 ,eu digo que d'ellas provem todos os males1 porque estou convencida--talvez sem razo--que d'ellas podiam provir todos os bens4 ,ainda no ponto de que se tracta d'ellas toda a culpa1 no meu humilde entender4 ,sim1 porque no fim de contas1 no so os pobres maridos que mais desejam figurar nos bailes e nos saraus1 e que de boa vontade sacrificam a commoda poltrona em que podiam dormir a sesta1 o bom e saboroso jantarinho que podiam comer1 o livro util e proveitoso que comprariam1 para gastarem esse dinheiro n'uma toilette falsamente luxuosa1 n'uma soire ridiculamente burgueza1 n'um jantar de ceremonia cujos acepipes1 na opinio do conviva mais guloso1 seriam s dignos de figurarem n'um banquete de theatro com pratos de444 papelo4 ,so as mulheres que teem sempre a louca ambio de figurarem ao par de outras mais ricas1 embora n'essa lucta desigual s consigam tornar bem visivel e bem grotesca a sua derrota6 ,so as mulheres que consideram os prazeres mundanos como o indispensavel elemento para a sua completa felicidade4 ,so ellas que arrancam s primeiras necessidades do mnage1 carne que os filhos devem comer1 s roupas brancas da familia1 aos abafos do inverno1 lenha do fogo das noutes frias1 mobilia commoda e confortavel das casas1 ao peculio das doenas1 ao asseio e ao conforto domestico1 o dinheiro com que adquirem esse luxo ridiculo1 esse luxo de pacotille que no illude1 nem excita a commiserao de ninguem4 ,e quando ellas percebem no olhar e na bcca dos que assistem a essa lucta absurda1 um sorriso malicioso1 uma faisca de ironico desdem1 so ellas que irritadas1 desvairadas1 fra de si1 arrastam o marido extravagancia1 dissipao1 prodigalidade1 ao crime1 e arrastam os filhos miseria e desolao6 ,nada mais funebre1 mais triste1 mais sombrio do que o interior de uma d'essas casas1 em que o necessario sacrificado ao superfluo1 em que o real sacrificado s apparencias1 em que o conforto intimo sacrificado ao apparato exterior4 ,as criadas sujas1 despenteadas1 petulantes2 as creanas pallidas1 anemicas1 sem educao e sem solas2 com os dentes podres e nodoas no vestido2 os moveis indiscretos na mal disfarada miseria1 uma unica casa elegante--a sala--falsa taboleta de uma vida de imposturas2 a roupa branca do marido encardida e grosseira1 a toilette da mulher vistosa e mirabolante4 ,as cres tapageuses1 substituindo a qualidade fina e solida2 a multiplicidade dos arrebiques1 substituindo a simplicidade opulenta do trajo4 ,quem depois de conhecer dous annos estas gals conjugaes1 se resigna a viver n'ellas8 ,os pequenos preferem o collegio sordido e brutal2 o homem foge para o botequim ou para outros sitios peiores2 a mulher vive na rua1 na modista1 no theatro1 nas salas do seu conhecimento1 no passeio1 na ociosidade e depois ,deus sabe em que6 ,eis a vida creada pelo immoderado amor do luxo4 99 99 99 99 99 ,afastemos porm os olhos d'estes quadros sombrios e que no entanto1 leitora querida1 tu bem sabes que no so carregados4 ,imagine-se que transformada a sua educao1 a mulher se formava unicamente para o interior da sua casa4 ,d'essa casa no fugiriam de certo os amigos fieis e dedicados1 no se excluiam as pequenas reunies intimas1 a musica1 as conversaes artisticas1 as leituras agradaveis1 os alegres e joviaes seres4 ,o que se excluia sem appellao eram os inuteis apparatos4 ,como a mulher tinha em mira ser s agradavel aos seus1 deixava logo de armazenar todas as suas armas--o espirito1 a graa1 o sorriso1 a amabilidade--para distrahir os estranhos1 para agradar aos indifferentes4 ,como desejava fugir ao tedio1 melancolia1 s enervantes tristezas da solido1 aprendia a dispensar as companhias banaes1 fazendo seus companheiros1 os melhores1 os que nunca atraioam1 os livros1 a musica boa1 as flres1 o trabalho4 ,logo que1 em vez de se enfastiar em casa1 ella se1 divertisse e se achasse bem junto dos seus1 elles comeariam mesmo involuntariamente a sentir-se aquecidos por essa boa e salutar influencia4 ,ninguem pde estar aborrecido ao p de uma pessoa que se diverte francamente4 ,o marido por mais que os negocios de fra o preoccupem e enfadem1 por mais que as luctas da arte1 do commercio1 da politica1 da industria1 o cansem e mortifiquem1 ha de sentir forosamente um raio de bom e salutar contentamento ao p da esposa que volitar em torno d'elle viva e chalreadora como um pardal1 fresca como uma flr1 animada1 activa1 cheia de invenes felizes1 e de sincera e desaffectada alegria6 ,e depois1 eliminado o luxo exagerado da existencia de qualquer familia1 eliminam-se ao mesmo tempo os cuidados mais lancinantes1 as preoccupaes mais absorventes1 as luctas mais dolorosas1 os despeitos mais corruptores4 ,temos visto varias vezes o seguinte3 ,o homem trabalha para dar o bem-estar mulher1 e rouba para lhe dar o luxo6 que--note-se isso bem--o luxo quando no a atmosphera natural em que se nasceu e se tem sempre vivido1 uma cousa que fora de estar identificada comnosco1 ns j nem se quer percebemos--o luxo quando o fim a que aspira a nossa desenfreada ambio1 torna-se um elemento profundamente desmoralisador4 ,enerva o corpo1 excita fatalmente a imaginao1 aggrava a insaciabilidade natural aos desejos da mulher1 d-lhe a ida de requintes romanescos1 de aventuras1 de amores vedados1 attrahe um cortejo de voluptuosas tentaes4 ,a vida das salas a consequencia inevitavel do amor do luxo que devora a mulher de hoje4 ,no a mulher de uma certa e determinada classe1 a mulher de todas as classes sociaes4 ,a esposa do alto financeiro1 do colosso da industria1 deseja vestir-se de um modo que logo de uma vez crte pela raiz na alma ainda mais ambiciosa o desejo de a vencer4 ,ora1 como este desejo se nutre de difficuldades1 todas as que esto no mesmo caso d'ella travam a lucta e empregam os mais loucos esforos para lograrem a palma4 ,as raras flres da nossa velha aristocracia1 no querendo ser desthronadas pelos potentados modernos1 entram1 j se v1 no combate com grave transtorno das bolsas de seus respectivos maridos4 ,a nenhuma d'ellas cabe completa victoria2 se as rendas de ,bruxellas que guarnecem o vestido d'esta so mais preciosas1 os diamantes que enfeitam o collo e os braos d'aquella so mais raros2 se a traine de velludo d'est'outra mais distincta1 a tunica de setim e ouro da outra mais singular4 ,e o combate recomea mais feroz1 mais acceso1 mais desapiedado4 ,c em baixo a lucta toma as mesmas frmas4 a lucta da falsa riqueza1 a lucta das pedras que fingem brilhantes1 das imitaes que fingem rendas1 dos vestidos concertados que fingem vestidos novos4 ,so mais profundos ainda os despeitos1 mais desesperada ainda a energia que se gasta6 ,quem vive esta vida ardente1 inflammada de ambies insalubres1 exaltada de mesquinhas invejas1 corroida de miseraveis tricas1 no pde1 no sabe1 no tem foras para ser boa esposa1 boa me1 boa dona de casa6 ,pintmos em traos rapidos a vida das nossas mundanas2 procuraremos desenhar1 se tanto nos fr possivel1 a vida que ambicionamos e desejamos para a mulher de familia4 ,no dia em que ella a quizer adoptar1 reconquistar-se-ha a serena dignidade1 a tranquilla doura do lar domestico1 que pouco a pouco se vae tornando desflorido1 melancolico e deserto4 ,,ii ,nas paginas antecedentes condemnava eu a vida de apparato1 a vida da sociedade1 a vida de sala1 pela influencia corruptora que ella exerce nos costumes e nos sentimentos1 e pela absoluta desharmonia em que ella est com a moderna concepo da familia e da sociedade4 ,no entanto no basta s lavrar a condemnao de um modo de ser social1 necessario apontar o remedio1 ou pelo menos apresentar um alvitre que nossa consciencia parea proficuo e salutar4 ,as mulheres gostam da vida frivola e inutil dos sales1 pelos seguintes motivos3 --,porque as salas so o theatro dos seus triumphos e conquistas4 --,porque ahi que ellas so lisongeadas1 louvadas1 incensadas e queridas4 --,porque os homens s prestam homenagem s mais bonitas1 s mais vaidosas1 e s mais ricas1 na realidade ou na apparencia4 ,alm d'estas causas que as levam a gostar da representao e da pompa mundana1 ha outras dependentes d'estas ou relacionadas com ellas1 que as levam a aborrecer-se no interior das suas casas4 ,primeiramente1 e acima de tudo1 a falta de uma educao solida e positiva1 que as faa encarar a vida debaixo do seu verdadeiro aspecto4 ,um aspecto de seriedade e de justia1 assentando na comprehenso de todos os deveres4 ,segundo1 a inhabilidade e a ignorancia1 que as torna incapazes de qualquer trabalho seguido4 ,a falta de gosto natural ou de gosto adquirido1 para se entreterem1 para se distrahirem1 para revestirem de uma frma sympathica e attrahente as suas obrigaes de donzellas1 de esposas1 de mes1 de donas de casa4 ,terceiro1 a inveterada frivolidade que herdaram1 e que os exemplos recebidos1 e a falsa educao mais aggravou e desenvolveu1 tornando-a um perigo1 o maior de todos os perigos que ameaam a familia4 ,eu tenho repetido isto tantas e tantas vezes1 que receio por fim enfastiar as minhas leitoras4 necessrio antes de tudo transformar radicalmente a educao das mulheres4 ,muitas das cousas que hoje se ensinam mister que deixem de se ensinar4 ,muitas outras que se encaram debaixo de um certo e determinado ponto de vista1 cumpre que se vejam sob outro aspecto inteiramente differente4 ,outras ha ainda a que ninguem attende e que se no ensinam1 e positivamente a essas que se deve dar a maxima e a mais desvelada atteno4 ,tratemos de apresentar exemplos das tres asseres que acabamos de apresentar4 ,das cousas inuteis que hoje se consideram ainda partes integrantes de uma educao perfeita4 ,ha a dana3 um talento absolutamente dispensavel1 que nas meninas s serve para desenvolver a coquetterie1 o desejo de brilhar e de agradar4 ,a tapearia3 um pretexto futil para estragar o tempo4 ,em quanto a mo vae preguiosamente bordando a talagara1 a phantasia irrequieta da mulher1 da creana1 corre e va por montes e valles1 procura de um vedado ou de um impossivel ideal4 ,chama-se a este genero especial de trabalho feminino1 a hypocrisia da preguia4 ,como estas duas cousas1 ha muitas mais que no temos tempo de enumerar1 mas que se no so nocivas como a primeira1 so pelo menos inuteis como a segunda4 ,procuremos agora muitas das materias que se ensinam1 e devem continuar a ensinar-se1 mas s quaes a educao tal como est rotineiramente estabelecida1 no sabe dar a importancia e o valor devido4 ,so a musica1 a historia1 as linguas1 a geographia1 a arithmetica1 etc41 etc4 ,o primeiro cuidado de toda a me vaidosa ou illustrada1 intelligente ou mediocre1 que as suas filhas aprendam a tocar piano4 ,muito bem4 preciso1 porm1 advertir-se que a monomania do piano1 tal como ahi anda inoculada e propagada1 um flagello1 um temivel flagello e nada mais4 ,a musica de todas as artes aquella que mais falla aos sentidos e alma do homem4 ,modera1 dulcifica1 adormenta1 consola1 estimula1 apaixona1 enternece e muitas vezes1 quando profanada e desvirtuada por sacerdotes sacrilegos1 enerva1 abranda a energia e a vitalidade do espirito1 e vence todas as resistencias viris do caracter4 uma amiga1 pde ser uma cumplice4 ,em todos os casos um grande1 um milagroso1 um divino1 um terrivel poder4 ,mas mesmo pelo papel importante que occupa1 mesmo pela influencia profunda que exerce1 no dado a todos interpretal-a e comprehendel-a4 ,muitos ha que se submettem ao seu irresistivel dominio1 sem saber sequer adivinhal-o ou presentil-o4 ,quantas vezes no temos visto uma pobre mulher boal1 uma modesta e ignorante creatura1 chorar de commoo ouvindo as notas tristes de uma flauta ou de uma guitarra6 ,no tem a consciencia da commoo que a perturba1 mas vibram-lhe os nervos1 latejam-lhe as fontes1 toda ella palpita e estremece como que agitada por uma potencia ignota4 ,como todas as artes1 a musica s pde ser interpretada por quem a comprehenda com o seu espirito1 e por quem a sinta com o seu corao4 ,de outro modo uma profanao e um escarneo4 ,achamos1 portanto a musica1 um elemento poderosissimo de educao1 mas exigimos que haja intelligencia e vocao nas pessoas que a aprendem4 ,no fazer do piano um attributo indispensavel de todo o ensinamento elegante1 e obrigar sem discernimento e sem escolha todas as meninas a estudal-o e a atormentar com elle o ouvido do proximo4 ,logo que se comprehenda bem o grande alcance da musica1 a sua influencia moralisadora1 a sua misso artistica1 as mes escolhero de entre as suas filhas1 aquella ou aquellas que mostrarem predisposio para este genero de estudo e auxiliaro por todos os modos o desenvolvimento d'essa vocao4 ,o piano deixar de ser o flagello e a peste das soires sem ceremonia1 o tormento dos visinhos proximos1 o pezadello dos maridos1 o martyrio das proprias executantes4 ,no reinar exclusivamente como at aqui esse despotico e terrivel instrumento4 ,no se dir das meninas bem educadas3 toca admiravelmente1 subentendendo j o malfadado piano4 ,dir-se-ha mais acertadamente3 sabe musica1 toca muito bem violoncello1 ou harpa1 ou rebeca1 ou piano mesmo1 porque ns no queremos condemnar nenhum instrumento ao ostracismo1 pelo contrario queremos livrar os outros do ostracismo a que esto injustamente condemnados4 ,com esta escolha sensata das pessoas que particularmente devessem cultivar a sua vocao musical1 muitos bens proviriam educao da mulher4 ,a musica executada s por quem a entendesse1 ouvida s por quem a apreciasse1 tornar-se-hia1 em vez de um ornato de vaidade1 uma elevada distraco artistica4 ,educaria e apuraria o gosto1 exerceria a sua pura e civilisadora influencia1 seria o repouso depois do trabalho ou a consolao no meio d'elle4 ,os velhos mestres allemes com as suas largas e simples harmonias1 ouvidas noute no sero modesto da familia1 ao p de um ou dous amigos intelligentes e sinceros1 penetrariam o corao da mulher de uma serenidade affectuosa e dce1 de um casto enternecimento salutar6 99 99 99 99 99 ,o que dizemos da musica instrumental tem applicao a todas as outras artes4 ,o canto1 o desenho1 a pintura1 a escultura mesmo4 ,todas merecem o nosso respeito1 no como adornos pueris1 mas como elementos de util e fecunda moralisao4 ,sempre que a me ou que a educadora descubra em sua filha1 ou na sua discipula1 tendencia pronunciada para um ramo qualquer de actividade intellectual1 deve por todos os modos facilitar e desenvolver essa vocao espontanea4 ,mas que a educao de todas no seja pautada por um molde uniforme6 ,mas1 por ,deus6 que no se faa d'esta grande e sublime misso de cultivar um espirito infantil1 uma questo de moda1 uma questo de vaidade1 uma questo de mutua inveja mesquinha4 ,as linguas so hoje ensinadas com muito esmero4 ,mas que applicao se d a essa sciencia adquirida em muitos annos de estudo e de pratica8 ,uma applicao deveras ridicula6 ,entre vinte das meninas que sabem hoje francez1 inglez1 allemo ou italiano1 no ha quatro que tenham lido ,hugo ou ,bossuet1 ,racine ou ,montaigne1 ,shakspeare ou ,milton1 ,goethe ou o ,dante1 no ha quatro sobretudo que estejam aptas para comprehenderem estes mestres do pensamento e da palavra4 ,e no entanto para que servem as linguas estrangeiras8 ,no passam de meros instrumentos com os quaes adquirimos noes1 factos1 idas1 conhecimentos1 que nos seriam estranhos sem ellas4 ,na lingua de um povo est consubstanciado muito do que elle moral1 physica e intellectualmente4 ,penetra-se no caracter de uma nao conhecendo a fundo as locues de que ella se serve4 ,e quem que hoje encara as linguas d'este modo a no ser algum philosopho retirado na sua torre ideal1 ou algum philologo embebecido nos seus estudos8 preciso que este conhecimento se vulgarise e se propague1 para que as linguas estrangeiras tomem na educao o lugar que lhes compete4 ,a historia1 que um apontoado de datas e de nomes proprios1 de dynastias e de batalhas1 logo que passasse a ser na educao das mulheres o que ella j no espirito dos criticos1 seria um estudo attrahente1 mais dramatico do que todos os romances1 de uma realidade mais poderosa e dominadora4 ,a geographia1 que no mais do que uma arida e enfadonha nomenclatura1 animada pelo espirito da me intelligente1 levaria a imaginao infantil1 no j pelos paizes chimericos1 do sonho e do impossivel1 mas por essas regies pittorescas1 onde tanto ha que vr e que aprender4 ,mais tarde as sciencias naturaes1 a botanica1 a mineralogia1 a biologia1 abririam ao espirito j preparado1 horisontes larguissimos1 onde pudesse espraiar-se livremente4 99 99 99 99 99 ,assim educada1 quer dizer1 sabendo tudo que sabe hoje1 mas classificado por outra ordem1 e encarado debaixo de outro aspecto1 e muitissimas cousas que hoje no sabe1 mas s quaes a conduziria naturalmente1 o novo methodo dos seus estudos1 a mulher transfigurada1 levantada1 fortalecida1 podia aspirar a uma vida inteiramente diversa da que hoje tem4 ,teria grandes vantagens esta modificao profunda no seu modo de ver1 de pensar e de sentir4 ,vulgarisada para todos a educao cujas bases apontamos1 desapparecia da sociedade essa entidade singular chamada mulher pedante4 extraordinario mas verdade1 a ignorancia das outras que constitue o pedantismo d'esta4 ,sendo uma excepo no seu meio1 tem as qualidades e os defeitos das excepes4 ,comprehende que alvo da curiosidade1 do pasmo1 da observao dos que a rodeiam1 e a pouco e pouco vae cahindo n'uma pose artificial que a torna ridicula4 ,poucas so as que tem a coragem de--tendo um lado superior--se conservarem simples1 desartificiosas1 naturaes4 ,lram1 estudaram1 compararam2 no meio da estupidez geral1 produzem um vago assombro que lentamente vae distinguindo n'ellas6 ,oh6 mas no dia em que a mulher instruida deixasse de ser uma excepo admiravel1 como ellas1 as pobres mulheres pedantes se sentiriam humilhadas e deslocadas6 ,a vida de sala iria pouco a pouco sendo o apanagio das frivolas e das tlas1 e acabaria por desapparecer completamente4 ,a mulher dentro de sua casa sentir-se-hia bem1 porque teria em si recursos sufficientes no s para entreter os seus1 como tambem--e isto o principal--para se entreter a si4 essa a grande questo6 preciso que as mes preparem o espirito de suas filhas de modo que ellas no precisem dos outros para viver contentes4 ,e como se ha de conseguir este fim8 ,educando-as para que ellas bastem a si proprias4 ,dando-lhes ao espirito todos os recursos1 ao corpo todo o vigor1 ao caracter toda a austera dignidade2 cultivando e desenvolvendo todas as faculdades superiores que ellas revelem1 encadeando harmonicamente as suas acquisies intellectuaes1 para que d'essa harmonia interior resulte para ellas uma exacta e elevada comprehenso da vida6 ,e no muito o que ns exigimos4 ,somos a primeira a confessar que hoje ha muito mais esmero e apuro do que havia antigamente na instruco que as classes abastadas do s suas filhas4 ,pouco mais precisam de aprender2 o que lhes falta a ligao logica entre as varias cousas que aprendem1 uma concepo mais larga das mesmas sciencias que adquirem1 o conhecimento das proprias armas que possuem1 contra esse inimigo poderoso da mulher1 chamado ,tedio4 ,em nosso humilde entender classificariamos d'este modo os conhecimentos indispensaveis a toda a mulher1 para esta ser julgada apta a exercer o sacerdocio de esposa1 de me1 e de dona de casa4 ,as linguas estrangeiras1 consideradas como meios de adquirir noes praticas1 idas justas1 factos positivos2 como meios de comparar1 de julgar1 de aquilatar1 de exercer emfim o seu senso critico1 de modo que o desenvolvesse1 elevasse e afinasse2 como meios de conhecer as differentes manifestaes do bello e de as poder relacionar entre si4 ,a ,historia1 com o fim de conhecer atravs d'ella a humanidade de todos os tempos1 de seguir a sua lenta e continua evoluo1 e de penetrar lucidamente no sentido da palavra--progresso4 ,o conhecimento profundo e philosophico da historia moralisa1 pacifica1 e revigora as crenas4 ,d ao espirito1 alm de notavel perspicacia1 grande justeza de pontos de vista4 ,viriam depois1 como j dissemos1 a geographia natural1 a arithmetica1 a geometria1 as sciencias da natureza1 e isto harmonicamente1 progressivamente1 de deduco em deduco1 sem esforo1 ligando um conhecimento a outro conhecimento1 n'uma cadeia logica e inquebrantavel4 ,juntamente com estas acquisies uteis1 e como que amenisando os esforos que ellas por ventura custassem1 a me intelligente levaria sua filha a cultivar especialmente a arte para a qual sentisse mais accentuada vocao4 ,preparada por esta iniciao em que o espirito fosse exigindo dia a dia alimento mais substancioso e mais forte1 proporo que mais rico de vigor e de vitalidade elle se sentisse1 escusado dizer1 que nenhuma mulher deixaria de comprehender e de saborear com intimas delicias o encanto novo e superior com que a arte illuminasse a sua vida4 ,seria uma ascenso gloriosa e lenta1 s alturas onde se respira um ar mais puro e mais subtil4 ,d'alli1 d'aquella montanha ideal1 a que ella houvesse subido1 levada pela sciencia e pela arte1 pelo estudo e pelo sentimento1 ser-lhe-hia facil descobrir o caminho que devesse seguir na vida4 ,a ida do dever1 esta ida que o remate e a cora da educao perfeita1 apresentar-se-lhe-hia como um resultado natural de todo o trabalho interior que no seu espirito se houvesse feito4 ,chegariamos emfim ao ponto que queremos attingir4 ,a educao deixaria de ser um fim e tornar-se-hia o meio elevado e transformado de alcanar a perfeio moral4 ,resta1 porm1 fazer uma pergunta que est no animo de todos4 ,sujeitar-se-ha a mulher1 assim arrancada de chofre banalidade da esphera limitada em que tem vivido at agora1 a cumprir as mesmas humildes obrigaes1 que teem sido e continuaro a ser a sua tarefa quotidiana1 e o seu quinho na vida8 ,de certo que sim1 e seguindo o mesmo methodo que seguimos para o seu cultivo intellectual no nos ser difficil provar que esses mesmos deveres1 logo que sejam comprehendidos dignamente1 em vez de humilharem1 so um triumpho para aquella que os sabe exercer4 ,,capitulo ,,iii ,a velhice das mulheres ,nas nossas continuadas predicas cerca da transformao que necessario operar-se em tudo que respeita educao feminina1 levamos em mira principal1 duas cousas muito dignas de attender-se4 ,primeiro3 que a mulher torne quanto possa1 independente de circumstancias exteriores1 a marcha do seu destino1 quer dizer1 que ella no seja forada fatalmente a seguir um caminho para o qual haja no seu espirito instinctiva repugnancia1 que ella dispense na sua vida influencias estranhas e muitas vezes incompativeis com a sua indole4 ,segundo3 que ella se v lentamente preparando na infancia e na sua to curta e ephemera mocidade1 para a quadra mais longa1 mais difficil e podemos hoje dizer1 mais dolorosa da sua existencia3 a velhice4 ,exemplifiquemos1 para que melhor seja comprehendido o nosso raciocinio4 ,no que toca ao primeiro ponto1 lancemos em roda os olhos e vejamos4 ,por toda a parte encontraremos argumentos victoriosos4 ,no estado presente da educao a mulher est sujeita a uma funesta dependencia1 a qual mesmo sem tendencia para exageraes declamatorias1 se pde chamar escravido4 ,assim como descuram dar ao seu corpo por meio da gymnastica a fora1 a elasticidade1 a ligeireza1 o vigor1 assim descuram dar sua alma a energia1 que a torne superior aos preconceitos1 e ao seu espirito a forte e larga educao1 que a habilite para ganhar honestamente a sua modesta subsistencia4 ,sente-se fraca1 e pusillanime diante do trabalho1 diante das luctas1 diante da desgraa4 ,confessa a cada instante o medo pueril que a avassalla2 medo de no resistir s tentaes que a covardia dos homens arma insensatez da mulher2 medo do riso alvar com que os tolos lhe castigariam a viril energia2 medo de se sujeitar ao trabalho incansavel e tenaz que ha de dar-lhe a independencia1 a dignidade1 a livre posse do seu destino4 ,alm do medo a impossibilidade absoluta4 ,se nada sabe1 o que ha de ella fazer8 ,podia dirigir a contabilidade de uma casa de commercio importante4 ,as mulheres com o seu instincto de ordem1 mais desenvolvido do que os homens1 so proprias para este genero de trabalho4 ,podia1 sendo medianamente illustrada1 ser caixeira de um estabelecimento de modas1 de uma loja de papel1 de um mercador de fazendas1 etc41 etc4 ,tudo isto est em harmonia com a delicadeza dos seus orgos4 ,podia ensinar linguas1 ensinar musica1 ensinar e explicar as sciencias que houvesse aprendido1 a historia1 a arithmetica1 a litteratura1 a geographia4 ,podia1 tendo alguns fundos que houvesse herdado de seus paes1 estabelecer qualquer pequena industria1 emfim1 ter uma aco propria1 independente e no subordinada aos caprichos alheios1 ou s circumstancias eventuaes4 ,mas como no sabe fazer nada d'isto1 como a sua educao a pz e a conserva n'um estado de absoluta e desoladora humildade1 no tem seno tres caminhos a seguir4 ,ou casar mesmo que no tenha pelo seu noivo nenhum sentimento de respeito2 mesmo que o ache ridiculo ou estupido ou mu2 mesmo que elle lhe seja imposto unicamente pelas conveniencias egoisticas do seu futuro2 mesmo que nenhum lao de sympathia a elle a prenda1 e d'esta funesta causa escusado ser dizer quantos males terriveis no resultam para a sociedade e para a familia6 ,ou ficar a cargo dos parentes mais ricos1 que por commiserao a acolham1 a alimentem1 a vistam1 a protejam1 e n'este caso soffre e decahe a sua dignidade propria1 a alma curva-se-lhe n'uma postura humilhante1 deixa de ter responsabilidade1 de ter opinio1 de ter individualidade emfim2 constitue-se um ser mutilado cujo aspecto enfermio faz tristeza e d1 quando se no torna um temperamento azedo1 atrabiliario1 perverso1 folgando no espectaculo de todas as desgraas alheias4 ,a terceira hypothese j todos a adivinharam infelizmente4 ,a mulher repellida da familia1 porque a no quizeram inutil e pobre1 no achando em si nem a coragem1 nem a sciencia do trabalho1 lucta contra o mal que lhe revela as suas traidoras miragens1 mas se mo estranha a no soccorre e a no prende1 succumbe1 precipita-se e perde-se4 ,d'estas tres hypotheses exceptuamos1 j se entende1 todas as mulheres que tiverem a suprema felicidade de encontrar no homem a quem entregaram absolutamente o seu destino1 alm do noivo escolhido e preferido entre todos1 o protector mais util e mais dedicado4 ,exceptuamos tambem as ricas1 porque essas que no tinham em si proprias a independencia1 adquiriram-na indirectamente por meio da sua fortuna4 ,mas a diviso infinita dos bens vae diminuindo mais e mais o numero das ultimas1 e a felicidade negativa que ha na maior parte dos mnages tornando as meninas de pouca edade impacientes de sahirem da casa paterna1 imprudentes e precipitadas na escolha1 vae diminuindo em no menor proporo o numero das primeiras4 ,como quer que seja1 abandonemos essas duas cathegorias de excepes e achamo-nos em frente de uma numerosissima maioria4 99 99 99 99 99 ,os resultados que encontramos so1 portanto1 os seguintes3 ,a incapacidade absoluta da mulher dominar o seu destino1 incapacidade cujas causas j apontmos1 produz estes tres generos de victimas4 ,a mulher que casou1 porque no podia deixar de o fazer1 que casou para ter po1 para ter casa1 para ter luxo1 para ter protector1 um editor responsavel da sua vida1 e que tendo smente este objectivo1 se no occupou nem um instante em estudar e conhecer o homem a quem ia para sempre entregar-se4 ,a creatura humilhada1 dependente1 parasita1 vivendo das migalhas do luxo que a rodeia4 ,a desgraada que a sua fraqueza inteiramente desprotegida perdeu e abysmou4 ,nenhuma d'estas mulheres condemnadas ao descontentamento intimo1 dolorosa inquietao da consciencia1 em resultado de uma causa identica1 pde estar satisfeita comsigo mesma4 ,o que fazem1 pois1 para fugirem de si8 ,procuram quanto sabem e como podem1 os outros4 ,as festas de uma folia burlesca1 ou as festas de uma pompa deslumbrante1 o mundo1 emfim1 a convivencia1 o barulho1 tudo que aturde1 tudo que faz esquecer4 ,ainda aqui os nossos calculos nos no illudiram4 ,a mulher procura o mundo1 porque as alegrias que pde encontrar em si mesma1 no s lhe no bastam para illuminar com ellas o lar onde vive com os seus1 como lhe no chegam para si propria se distrahir e se contentar4 99 99 99 99 99 ,entremos agora no segundo ponto que ha pouco tocmos4 ,a mocidade da mulher forosamente curta4 ,aquella que se compenetrar sensatamente d'esta ida1 o que deve fazer para attenuar a amargura8 ,preparar-se com dignidade1 com resignao1 diremos mesmo com alegria para esse longo supplicio da mundana1 que se chama velhice4 ,o homem1 desenvolvendo em muito mais larga escala e de um modo muito mais variado a sua actividade complexa1 pde gosar at mais avanada edade dos prazeres que por assim dizer mais apreciou4 ,a ambio1 as luctas da politica1 as lucubraes da sciencia1 as argucias da diplomacia1 as investigaes da historia e da critica1 e mesmo os gosos ardentes da arte4 ,vejam-se ,goethe1 ,miguel ,angelo1 ,hugo1 ,beethoven1 ,talleyrand1 ,thiers e tantos e tantos mais4 ,a mulher de hoje1 a mulher educada por este acanhado ideal que a domina1 funda o seu fragil poder nas graas fugitivas da sua formosura1 no encanto juvenil da sua vivacidade1 na sua elegancia1 no seu riso frivolo e pueril1 no esplendor radiante do seu luxo1 na sua convivencia inutil e perfumada como a das flres6 ,um dia alveja-lhe na massa fulva1 cendrada1 ou negra dos seus cabellos1 um fio de prata1 o primeiro1 invisivel para todos os olhos1 mas que o espelho revelou aos seus4 ,esse fio traz preso a si a desventura6 ,oh6 ella reinou1 dominou1 teve subjugadas aos seus ps todas as foras e todas as vontades6 ,a casa1 mesmo sendo a casa um ninho ffo e perfumado1 parecia-lhe bem pequena e bem mesquinha para theatro dos seus triumphos4 ,era das salas que ella gostava6 ,do murmurio surdo1 abafado1 voluptuoso de admirao1 que ella excitava ao entrar nos sales pelo brao do seu pobre marido1 muito enfastiado e soberanamente ridiculo6 ,como todos gabavam o sabio decote do seu corpete1 revelando com uma indiscrio que accendia invejas e desejos em torno d'ella--invejas e desejos que a enroscavam como serpentes de fogo--a brancura do seu collo e dos seus hombros1 aquella brancura setinosa de camelia1 que o orvalho da madrugada humedeceu4 ,como era magestosa a cauda do seu vestido6 como as flres e as perolas se ennastravam bem nas suas tranas opulentas6 como os braceletes de brilhantes mordiam de raios iriados a carnao explendida dos seus braos6 ,como a adoravam1 como a detestavam ferozmente aquelles homens e aquellas mulheres6 ,cada olhar tinha a agudeza de uma lamina de ao6 ,traspassavam-n'a1 feriam-n'a1 beijavam-n'a aquellas mudas caricias insolentes1 e aquelles odios violentos e felinos6 ,e a consciencia da sua formosura1 da sua soberania omnipotente1 do seu prestigio invencivel1 fazia-a vibrar toda como ao contacto de uma pilha4 ,sentia-se rainha4 ,tinha ditos graciosos1 tinha repentes felizes1 tinha epigrammas implacaveis1 coquettismos crueis2 era espirituosa1 era bella1 era triumphante6 ,a casa1 os filhos pequeninos1 o marido1 os livros1 que so to bons companheiros da honestidade e da modestia1 onde ficara tudo isso8 ,nas brumas indecisas de um passado que ella no queria ver4 ,oh6 que intensidade de vida n'estas horas6 ,era s pensando n'ellas que vivera4 ,para que havia de lr1 para que havia de instruir-se1 para que havia de ir perguntar natureza muda1 o segredo de todas as suas riquezas1 para ella inuteis e desdenhadas8 ,era feliz porque era admirada4 99 99 99 99 99 ,como desce o panno sobre o tablado cheio dos deslumbramentos de uma magica1 assim para ella descera agora o panno1 sobre os prestigiosos esplendores da sua vida de garridice e de vaidade1 de luxo e de loucura4 ,aquelle cabello branco avisou-a sinistramente de que tudo acabara4 ,se contina a luctar com a velhice que nunca se deixa vencer1 achar s escarneos onde antigamente achra cultos1 s baldes onde a tinham acclamado em triumpho4 ,se vae procurar as alegrias e as distraces proprias d'essa nova phase da sua vida1 o que que encontra em torno de si8 ,no ficra ninguem no lar1 que primeiro do que os outros1 ella havia desertado4 ,o marido andava l fra no trabalho absorvente1 ou na dissipao criminosa4 ,como ella nada lhe dera nos dias florentes da mocidade1 elle tambem nada lhe queria dar agora nas tardes glaciaes da velhice4 ,crera outros interesses ou outras affeies1 seguira outro rumo1 outra ordem de idas4 ,j agora no era possivel tornarem-se a encontrar na terra4 ,os filhos esquecidos1 indifferentes1 quasi estranhos1 estavam no collegio ou nas escolas1 se o pae tinha tido piedade2 estavam na vergonhosa ociosidade1 na vadiagem ignobil1 se o pae tinha tido indifferena4 ,em todos os casos1 nada de commum podia haver entre essa me frivola e vaidosa1 e esses filhos desprezados4 ,os livros8 ,sim1 os livros444 ,os que ella conhecera4 ,eram romances4 ,fallavam de paixes indomitas1 de amores mais fortes do que a morte1 de aventuras romanescas ao luar1 com escadas de seda e capas couleur de muraille2 de juramentos feitos em voz soluante na sombra voluptuosa das alamedas2 de duettos de ternura cantados pelas ,rosinas e pelos ,almavivas de torna-viagem4 ,que lhe importava a ella tudo isso1 que era agora o enlevo d'outras1 embebecidas na mesma mentira que a transvira1 mas que aos seus cabellos brancos parecia uma ironia cruel6 ,mas a natureza sempre me1 a natureza acolhe at os mesmos parias4 ,ella tem a sombra das suas arvores1 a musica dos seus passaros1 o aroma das suas charnecas em flr1 as serenas linhas das suas montanhas azues6 ,ella tem a claridade pallida das suas estrellas1 a doce melopa das suas fontes1 o soturno e angustioso bramido dos seus mares1 a influencia calmante das suas noites tepidas6 ,acolher a natureza aquella que tantos e tantos annos a desconheceu8 ,no4 ,e no que ella seja implacavel ou severa1 no que ella saiba sequer das mesquinhas miserias que se agitam no seu seio4 porque no na velhice que a alma pde iniciar-se n'um culto novo4 que para tudo indispensavel uma aprendizagem gradual1 que a vasta creao s tem consolos tranquillisadores1 caricias adormecedoras1 para os velhos1 quando teve para os moos sonhos1 sorrisos1 radiosas esperanas4 que a alma1 que ao desabrochar no soube ser sensivel enternecedora poesia das cousas1 nunca saber entender na hora triste do declinar1 a sua ineffavel e divina linguagem6 que os longos horisontes de purpura e de ouro sabem vestir de bemditas claridades a alma dos velhos1 quando os velhos se recordam1 e vem docemente descer a noute cheia de estrellas e de harmonias mysteriosas sobre uma vida que teve por companheiros o trabalho1 o amor puro1 o sacrificio1 a abnegao6 ,resta apenas como pasto e alimento a estas almas que andaram em busca da felicidade por toda a parte1 menos no lugar to proximo e to accessivel1 onde ella estava1 resta-lhe apenas a falsa devoo4 l que ellas vo buscar refugio4 ,vivem nas egrejas1 procuram um confessor que tenha a jesuitica paciencia de revolver com ellas o monto de flres murchas do passado1 a ver se ainda de l vem o vestigio da extincta fragrancia1 praticam fervorosamente toda a casta de supersties rediculas2 entram em associaes pseudo-caridosas1 gastam o resto da vida de outra frma no menos redicula e no menos balofa do que gastaram os dias da juventude4 ,e de vez em quando1 para maior espanto nosso1 morre uma em cheiro de santidade entre a piedosa confraria4 99 99 99 99 99 ,o que pois necessario e indispensavel para todas ns8 que possamos viver sem o auxilio dos outros1 e tirando unicamente dos intimos mananciaes do nosso espirito e da nossa alma1 elementos para construir com elles a nossa propria felicidade4 ,quando a mulher depois de ter recebido uma educao robusta1 depois de ter desenvolvido as suas faculdades no sentido mais amplo e mais favoravel1 depois de estar apta a viver de pouco1 a dispensar tudo que seja luxo ou vaidade1 de ter dado uma applicao util s suas aptides especiaes1 depois de ter adquirido uma larga somma de idas geraes1 de noes e de pensamentos justos1 quando a mulher emfim1 tendo a consciencia de que mesmo ssinha na vida1 saber grangear dignamente o seu po1 olhar em torno de si1--forte1 intelligente e instruida--e entre os homens que a rodearem1 e que a preferirem1 fixar a sua escolha n'um homem1 esse pde sentir-se justamente ufano4 ,no haver n'este consorcio nenhuma especulao e nenhum calculo4 ,ella est apta a julgal-o1 a estudal-o1 a entendel-o1 por isso foi raciocinada a sua escolha4 ,elle achou uma companheira fiel do seu destino1 um guia incorruptivel1 um precioso auxiliar4 ,trabalharo ambos4 ,commerciante ou sabio1 poeta ou diplomata1 artista ou especulador1 negociante ou politico1 sempre a coadjuvao de uma intelligencia cultivada e flexivel1 penetrante e fina1 ser de incalculavel utilidade ao homem4 ,no vivero de certo nos arrobamentos e transportes dos romanescos e rapidos amores2 tero um fim commum1 o bem proprio e o bem de seus filhos4 ,tero meios identicos1 o trabalho1 a mais escrupulosa dignidade de vida1 o estudo perseverante1 a economia e a paz4 ,como o casamento foi um acto em que no entrou a paixo irreflectida1 a precipitao estupida1 ou o calculo inevitavel1 ha muito mais garantia de que essa unio seja duradoura e feliz4 ,como a phantasia da mulher irrequieta e audaz1 logo que ella faa o seu fito de alguma cousa de maior e de mais elevado1 deixaro de ser perigosos os seus caprichos4 ,o homem1 preparando-se para casar1 tambem no dir comsigo3 ,vou buscar um encargo4 ,dir com muito mais propriedade3 ,vou buscar um auxilio4 ,eis inteiramente deslocado o velho ponto de vista4 ,provir d'esta nova interpretao do casamento o haver muito menos mulheres solteiras4 ,as que houver1 porm1 tero o seu lugar1 o seu destino1 a sua tarefa4 ,trabalharo4 ,no ha ninguem que querendo e sabendo1 se no possa tornar util1 e produzir em bem1 tudo que consome em sustento4 ,descrescero de certo as industrias que vivem do luxo e da dissipao1 mas crear-se-ho outras novas1 mais necessarias1 e para as quaes a mulher poder levar as suas faculdades felizes1 s quaes s falta educao condigna4 ,e quando para todas chegar a velhice ser como a cora e o remate de um monumento sublime4 99 99 99 99 99 ,ha muito quem alcunhe de pretenso esta minha teima de attribuir todos os males da familia falsa educao das mulheres4 ,como se ellas fossem tudo6 ,como se d'ellas dependesse tudo6 que realmente1 directa ou indirectamente1 pela sua influencia immediata ou pela sua longinqua influencia1 o caso que muitos males1 que muitas desgraas1 que muitas immoralidades se lhes devem6 ,cherchez la femme1 direi eu sempre1 por mais que achem vaidosa pretenso feminina esta minha ida4 ,,capitulo ,,iv ,a dissoluo dos costumes e o casamento ,os philosophos1 os moralistas1 os observadores clamam continuamente contra a dissoluo dos costumes modernos1 ou descrevem-na com o pungente realismo da sua solta e desbragada ironia4 ,uns accusam1 outros fulminam1 outros contentam-se com chascos e satyras de ,juvenaes au petit pied4 ,poucos so os que ao passo que apontam o mal1 indiquem o remedio1 ou pelo menos o caminho que deve seguir-se para chegar a alcanal-o4 ,as theorias so optimas1 a pratica deploravel4 ,ninguem j to ignorante e to desallumiado da scentelha sagrada1 que confunda o bem com o mal1 mas o criminoso desleixo de todos1 mais funesto sociedade e familia1 do que a ida confusa que em pocas menos adiantadas se formava dos deveres de cada um4 ,sim1 a familia parece corroida por um occulto verme1 que pouco a pouco vae dando a essa arvore frondosa1 cheia de fructos e de flores1 um aspecto morbido e doentio que entristece e causa profundo assombro aos que de perto lhe observam o progressivo definhar4 ,mas no basta mostrar ao mundo este indicio da sua decadencia moral1 cumpre investigar as causas para oppr um dique aos effeitos desastrosos que todos os dias se vo mais claramente revelando4 ,este dever de todos2 dos grandes e dos humildes4 ,no ha ninguem que no esteja interessado igualmente na destruio de to terrivel flagello4 ,tragam uns os esplendores do talento que v de cima1 e que das alturas onde paira1 derrama luz clara sobre os que labutam na sombra2 tragam outros o bom senso1 a experiencia1 a f e a boa vontade4 ,parece que metade do caminho est vencido1 porque se muitos1--se a maioria--anda transviada1 todos pelo menos sabem definir o ideal a que aspiram1 o fim que desejam attingir e do qual involuntariamente se afastam4 ,o grande mal da nossa poca --quem tal o diria8-- a preguia intellectual4 ,todos trabalham mais ou menos1 porm ha poucos que meditem e que pensem4 ,o seculo desoito foi o seculo do pensamento2 o seculo desenove o seculo da industria4 ,predomina a materia1 aspira-se ao bem-estar do corpo1 aos gozos da riqueza1 ao sybaritismo refinado e artistico e pouco se attende voz prophetica d'essa ,cassandra1 chamada philosophia1 que debalde clama aos homens que elles vo por um caminho errado1 que trilham uma estrada que no a verdadeira1 visto que a no illumina e lhe no mostra os precipicios1 a verdadeira e eterna luz4 ,os males que affligem a sociedade1 que affrouxam os laos da familia1 que contaminam e dissolvem lentamente os costumes1 provm de uma causa1 composta de muitas causas complexas1 e para combater a qual devem juntar-se os esforos de todos os que amam o bem4 ,ninguem considera o casamento como elle precisa de ser considerado1 no j sob um ponto de vista mystico e sentimental1 porm no seu verdadeiro aspecto1 nas suas relaes inilludiveis com a sociedade e com a verdadeira moral4 ,como sempre1 mulher que aqui me dirijo1 com a mulher que eu fallo4 ,o homem tem-se em muita conta para dar atteno minha debil e desautorisada voz4 ,a mulher attender-me-ha porque em vista da sua felicidade1 da felicidade de seus filhos1 da solidez e do aconchego de seu ninho1 que eu lhe estou aqui fallando4 ,o casamento no um contracto puramente social1 no uma unio s filha da religio e do sentimento1 no uma sanco legal de affectos egoistas e de paixes indomadas1 de tudo isso tem alguma cousa1 mas muito mais srio1 mais sagrado e mais santo do que isso tudo4 ,se esta quadra transitoria e convulsa que atravessa a gerao de que fazemos parte1 triste como nenhuma outra1 essa tristeza provm principalmente das imperfeies que maculam o casamento1 das duvidas que assaltam todos os espiritos ao vr to longe da sua resoluo definitiva o problema importante da familia4 ,por toda a parte o desconsolo1 o desalento1 a duvida1 a melancolia insanavel dos que1 depois de haverem sonhado um esplendido e estrellado sonho1 despertam para as agras tristezas da realidade e nada encontram que corresponda s radiosas esperanas com que se haviam embalado4 que realmente depois da escurido caliginosa1 da noute lugubre e sinistra que durante seculos envolveu a humanidade1 fizeram-lhe esperar tanto1 evocaram diante do seu deslumbrado olhar tantas apparies luminosas1 apontaram-lhe para um ideal to levantado1 fizeram-lhe crr em to divinas utopias1 que todos os desalentos se desculpam ao vr quo pouco a realidade dos factos correspondeu a todos esses sonhos por ora infecundos4 ,mas no percamos a f2 sem ella o mundo caminhar sem ter outro norte que no seja o perigoso conselho das suas paixes desordenadas4 ,se ainda pouco est feito1 appellemos para o futuro e vamos preparando essa evoluo pacifica e luminosa de que j talvez nenhum de ns aproveite os resultados beneficos4 ,esqueamos este egoismo feroz e improductivo que nos faz desanimar em todas as emprezas de que no possamos com mo soffrega e impaciente colher os fructos embora prematuros e mal sasonados4 99 99 99 99 99 ,no ha nada mais triste do que ouvir o modo desdenhoso1 quasi sacrilego1 com que os moos de hoje1 os moos de ambos os sexos1 fallam do casamento e da familia4 ,elles duvidam1 rindo com ironia ignobil de tudo que n'outro tempo amavam devotamente4 ,foram-se os bardos sentimentaes e um tanto rediculos1 diga-se a verdade6 que amavam sem esperana1 mas com ternura apaixonada1 as queridas perfidas1 que desprezavam o seu desinteressado affecto4 ,a litteratura1 que o espelho das sociedades1 tem por feio a ironia mordente1 a analyse fria1 a dissecao anatomica mais positiva e mais crua4 ,o desdem pela mulher manifesta-se sob todas as frmas1 e debaixo de todos os aspectos4 ,se acabaram as declamaes de ,benedicto e de ,antony contra a tyrannia esmagadora da instituio conjugal1 apparecem em logar d'estas os quadros mais abjectos da dissoluo e da decadencia a que chegou o casamento e com elle a mulher4 ,no limiar da adolescencia os que no alardeiam um cynismo falso e to ridiculo como os transportes romanticos do passado1 calculam arithmeticamente o que pde provir-lhes em beneficios liquidos d'aquillo a que chamam um bom casamento4 ,no attendem s qualidades moraes1 que no podem apreciar nem conhecer2 quando muito1 lanam no oramento como uma verba de certa importancia as vantagens physicas da noiva escolhida4 ,nenhum grande pensamento os exalta1 nenhuma ida definida e clara da misso que aceitam os eleva a seus proprios olhos4 ,pelo seu lado a noiva1 a creana radiosa que enfeitam todas as galas e todas as flres dos vinte annos1 gaba-se em confidencia s amigas intimas1 de que j no tem illuses e que conhece a vida1 a vida de que ella no leu ainda sequer a primeira pagina6 ,casa porque a familia quer1 casa porque encontrou aquelle rapaz em dous bailes1 porque o achou interessante1 sympathico1 muito amavel1 porque emfim um bom partido1 segundo diz o pap6 ,outras vezes casa porque gosta d'elle1 mas gosta d'elle instinctivamente1 animalmente1 sem o conhecer1 sem saber se essa mo que aperta nas suas mos virginaes1 ser sempre em todas as crises1 em todas as occasies da vida1 a mo de um homem honrado4 ,no dia em que se acham ligados indissoluvelmente o seu primeiro sentimento um sentimento de surpreza1 quasi de susto4 ,dizem ento os frivolos e os superficiaes3 o melhor tempo o da lua de mel4 ,engano6 ,esses dias so os dias da vertigem1 mas no so os dias da felicidade4 ,cada defeito que os dous mutuamente se descobrem1 como uma semente envenenada que ha de germinar mais tarde4 ,no se lembram do futuro1 saboreiam com a volupia da paixo sensual os prazeres ephemeros d'essa hora que passa4 ,no fundo1 bem no fundo do pensamento1 n'um escaninho escuro em que ambos fogem de entrar1 porque sabem que l os espera a desilluso1 teem guardadas muitas das tristes descobertas que fizeram n'aquellas horas de abandono1 de loucura1 de extasi1 em que as suas almas se embeberam voluptuosamente4 ,elle sabe j que a mulher frivola1 ignorante1 vaidosa1 que v no casamento as alegrias da vaidade1 antes de ver os deveres e os sacrificios2 ella tem a certeza de que todas aquellas promessas radiosas no passam de uma chimera que o tempo desfar1 que o marido no tem as delicadezas que satisfariam a alma da mulher ainda a menos exigente1 e a menos ambiciosa4 ,na ebriedade d'aquelles primeiros tempos perdoam-se mutuamente os defeitos1 que parecem at graciosos1 lindos e feiticeiros4 ,o que os entristecer mais tarde1 o que avincar de rugas de mau prenuncio o rosto do marido1 e far encher de insondavel tristeza o corao da mulher1 no mais que a resultante das pequenas e todavia fataes concesses e desculpas que reciprocamente fizeram os noivos aos defeitos que viram apparecer nas primeiras horas da convivencia1 nos risonhos dias do noivado4 ,ella sahiu do aconchego tepido da familia1 das douras do lar paterno1 dos braos amoraveis da me2 vem acostumada a quererem-lhe muito1 a ser muito estimada e amada4 ,em casa conheciam-lhe os gostos1 as inclinaes1 os habitos e os defeitos1 porque a par das boas qualidades ha sempre no corao humano um recanto onde se abrigam as deficiencias de caracter e de genio4 ,aquillo que os paes1 as mes e as pessoas que de mais perto conviviam com ella lhe perdoavam1 desculpado tacitamente por elle no extasi e na delicia ineffavel do noivado2 porm1 mais tarde tudo isso servir de base a accusaes asperas1 e a censuras amargas4 ,ella1 pelo seu lado1 retrahir-se-ha1 offendida e triste ante as imperfeies que outr'ora desculpava1 e para as quaes hoje intolerante e severa4 ,por isso1 a me1 quando d o ultimo abrao filha que parte para os braos do noivo expede dilacerantes soluos de afflico1 e lamenta-se desesperadamente4 -- um estranho1 pensa a me1 pouco viveu com ella2 mal a conhece1 viu-a apenas nos sarus1 luz viva do gaz1 cercada de adoraes1 risonha1 feliz1 espirituosa e delicada4 ,eu tambem fui assim444 ,mas como me custou a aprendizagem da vida6 ,e como esta devras to outra e differente do que suppunha6 ,pobre creana6 ,isto pensam as mes1 com aquelle sagrado affecto que nunca se desmente1 e que no trepida ante nenhum sacrificio1 por mais arduo e assombroso que seja4 ,mas1 de quem a culpa1 bom ,deus8 ,sobre quem deve recahir a culpa das nuvens que se acastellaram no futuro da vida dos noivos1 a culpa das horas longas e plumbeas que os esperam1 das recriminaes azedas1 que faro exploso mais tarde1 e que levaro quelle dce lar tranquillo o desassocego1 a duvida1 a desilluso1 e a algida tristeza desconsoladora de vermos as ridentes chimeras que se desfazem lugubremente1 e que nunca mais resurgiro8 ,a culpa deve caber tanto a um como a outro1 tanto mulher como ao marido4 ,o noivado uma iniciao augusta1 uma escla onde devemos aprender a ser justos e tolerantes4 ,o que hoje transparece vagamente1 o defeito que aponta subtil e timido em meio das alegrias do noivado1 ser pouco tempo depois injustamente considerado uma cousa horrivel e monstruosa4 ,e mister que o marido e a mulher se no julguem a suprema e alta perfeio1 e que sejam complacentes para as maculas e defeitos a que ninguem escapa4 ,o homem1 com a sua vida ruidosa e trabalhadora de militar1 de negociante1 de artista e de proprietario ter impaciencias1 phrenesis e agastamentos4 ,quando a sua natureza se expandir livremente e sem peias1 no ser o mesmo que estava mezes ou annos atraz aos ps da noiva1 submisso1 trmulo e feliz1 no medindo o mundo seno pelo ambito aquecido pelo bafo da sua gentil amada2 perder todo esse ar de humildade e de escravido1 e1 sem o querer1 ha de ferir a pobre creatura1 machucar-lhe os mimosos caprichos e offender-lhe a ingenua e nativa delicadeza4 ,a mulher com o seu pouco ou nenhum conhecimento das difficuldades da administrao de uma casa1 ante o enorme peso das responsabilidades que prev1 ter hesitaes1 duvidas e receios1 que lhe faro rebentar muitas e repetidas vezes as lagrimas1 no principio da sua difficil e to ambicionada posio de senhora e dona de casa4 ,quando o marido recolher da rua1 da praa1 das officinas1 das academias1 desgostoso1 com o corao mordido pelo infortunio1 magoado pela ingratido de um amigo1 pela falsidade de um outro em que cgamente confiara1 pelas mil contrariedades emfim da vida1 e precisar de uma boa e querida palavra de affecto1 de um conselho leal e sincero1 de uma consolao benigna1 a mulher deve esquecer-se de si1 velar resolutamente as feridas que sangram1 para s pensar no marido de que solidaria companheira1 e de cuja consciencia viril deve ser amoravel directora4 ,nas mos da mulher est a tranquillidade1 o socego1 a ventura e a honestidade do lar1 porque ella deve ser a perseverana inalteravel1 a bondade suprema e inexgotavel1 a intelligencia allumiada pela doce luz que dimana do corao4 ,que a mulher saiba perdoar1 que a mulher desculpe o egoismo1 a dureza1 as coleras bruscas do marido1 e ver como este saber fingir que ignora que tambem n'ella existem maculas1 que tambem n'ella avultam defeitos4 ,se deseja ser perdoada1 que perde ella primeiro1 que d o exemplo1 e os resultados d'essa condescendencia sero de maravilhoso alcance4 ,ah6 preciso repetil-o mil vezes1 dmos um caracter de austera seriedade ao casamento1 respeitemol-o1 cerquemol-o de garantias duradouras1 se no quizermos que a familia se desmanche1 e que a immoralidade triumphe4 ,que as noivas antes de pensarem na inveja que o seu vestido branco e a grinalda de flr de laranjeira causaro s suas mais intimas amigas1 entrem no seu novo lar1 resolvidas a crearem a felicidade do ente1 que apesar de viril e forte ha de ter durante a vida muitas horas de abatimento e tristeza1 que s os beijos de uma esposa honesta espancam4 ,que se compenetrem as noivas1 que dos primeiros dias do noivado depende a paz dos dias futuros1 a saude1 a educao e o porvir dos filhos4 ,passados os primeiros dias1 volvidos os primeiros mezes1 sendo o marido intelligente e a mulher bondosa1 tendo ambos uma completa noo do justo e da verdade1 podero facilmente escolher o caminho que os leve mais direitos felicidade1 de que tantos casados andam distantes porque se no souberam corrigir a tempo1 e porque deixaram que se expandissem em espraiada e opulenta rama os defeitos que ambos conheceram e viram com olhos benevolamente complacentes1 e s ento complacentes6 de noivos4 ,no campo no raro ouvir-se s aldes a quem se pergunta se se do bem com a vida de casadas1 o seguinte dizer quasi invariavel na bocca d'essas mulheres3 --,ao principio tivemos as nossas turras1 mas a gente1 como o outro que diz1 foi-se habituando um ao outro1 e agora no ha que se lhe diga2 o que elle quer1 quero eu tambem4 ,ao principio tinhamos as nossas turras444 ouviram8 que no campo ao primeiro beijo segue-se bem cedo a primeira recriminao2 que no campo o noivado dura menos1 mas em compensao descobrem-se brutalmente as differenas de genio e as desigualdades que a pouco e pouco vo desapparecendo4 ,a mulher1 porm1 que sempre mulher1 quer ande vestida de sedas1 quer ande envolvida em saragoa1 pde com a sua benefica e pacificadora influencia1 tanto no campo como na cidade1 desculpando o marido1 conseguir que este lhe desculpe e lhe attenue as imperfeies e defeitos que esto fatalmente inherentes1 ai de ns6 mesquinha natureza humana4 ,,capitulo ,v ,as mes e as filhas ,venho ainda hoje fallar s mes a respeito das suas filhas4 ,creio que um meio de ser ouvida com atteno4 ,se as mes so pela maior parte das vezes a causa inconsciente dos males que affligem a educao de seus filhos1 no d'ellas a culpa1 que s levam em mira o bem e a felicidade dos queridos fructos das suas entranhas4 ,mas o amor das mes cego como um instincto1 e como tal precisa de ser guiado e dirigido4 ,entregues a si1 transviadas pelas noes incompletas que j lhes eivaram de erros funestos a educao que receberam na infancia1 ouvindo mais a voz da propria vaidade1 que a voz austera da razo1 as mes continuam a suppr que na educao de uma menina se deve attender antes de tudo s exterioridades brilhantes1 que faro d'ella a favorita dos sales mundanos1 a elegante e afamada cultora de todas as delicadas frivolidades sociaes4 ,desde a burgueza1 que1 apenas sahe dos desfiladeiros sombrios da miseria1 j cuida to smente em hombrear com as duquezas que inveja de longe1 at mais aristocratica descendente das antigas paladinas1 todas teem as mesmas noes falsissimas cerca da educao que suas filhas devem receber4 ,no estudam os diversos espiritos que se propoem a adornar com as mesmas galas sedias2 para ellas uma educao de senhora no varia4 ,segue sempre a mesma norma absurdamente anachronica4 ,os filhos so reclamados pela escola1 pelo lyceu1 pelo instituto1 e teem de sujeitar-se s regras acanhadas e incompletas da educao official2 as filhas1 debaixo da direco mediata ou immediata das mes1 comeam no lar domestico a sua aprendizagem1 que como que a opposio systematica a todos os instinctos poderosos de que a natureza as dotou4 ,turbulentas1 como natural que sejam as creanas1 aprendem a suffocar a espontanea e salutar actividade dos seus pequenos membros4 ,a primeira obrigao que reconhecem a de no fazerem bulha4 ,tornam-se taciturnas e sonsas4 ,o habito de contrariarem incessantemente os impulsos to naturaes da sua idade1 como que lhes abre o caminho para a hypocrisia1 o peior e o mais vulgar dos vicios femininos4 ,sentindo continuamente pesar-lhe sobre a cabea uma presso despotica1 de que no podem reconhecer a justia1 aspiram instinctivamente ao livramento1 teem surdas revoltas intimas1 de que nenhum olhar sonda os segredos4 ,no se desenvolvem na plena liberdade da natureza1 ha nos seus corpos miudinhos um aspecto de enfezamento e de fraqueza que faz pena4 ,a vaidade maternal cuida ento de as enfeitar2 o vestuario das suas pequenas joias torna-se para as mes--para as mulheres--um negocio de alta e gravissima importancia4 ,no ha nada que as satisfaa2 os bordados finos1 as rendas1 as sedas1 as plumas1 os velludos1 tudo se combina para adornar o gracioso e querido anjo4 ,dous resultados inevitaveis3 ,a immobilidade a que este luxo condemna as suas victimas pequeninas1 e a feroz vaidade de que elle lhes lana n'alma a primeira semente1 que mais tarde ha de desatar-se em venenosos fructos4 ,a pequena assim vestida julga-se forosamente de uma essencia superior s que no podem competir com ella em opulencia2 de um lado levanta-se o orgulho1 de outro lado rasteja a inveja4 ,o gosto de ser contemplada1 admirada1 de excitar emulaes raivosas1 de ser apontada como um modelo de elegancia infantil1 accende no espirito da creana a funesta luz que mais tarde ha de allumiar os erros da mulher4 ,quando sa emfim a hora em que o espirito exige a sua indispensavel cultura1 o mesmo systema que at alli dominou na educao da pequenina contina a fazer sentir a sua corruptora influencia4 --,quero que a minha filha se no possa envergonhar de apparecer ao p das mais ricas6--diz a me enfatuada na sua funesta vaidade4 99 99 99 99 99 ,chamam-se os professores de dana1 de musica1 de linguas1 de desenho1 ou conduz-se a menina ao collegio mais afamado em prendas d'este genero4 ,algumas mes exigem tambem que as filhas aprendam a bordar a l1 a bordar a ouro1 a bordar sobre escomilha1 a fazer crochet1 flres1 pequenos trabalhos de agulha1 proprios para ornamentao de um quarto de pensionista ingenua4 ,outras1 mais dadas sciencia1 querem uns elementos de geographia1 alguma historia sagrada e profana1 uma leve tintura de arithmetica4 ,por cima de tudo isto um p dourado de devoo elegante1 ministrada pelo director das consciencias do high-life4 ,no se admitte de modo nenhum que um velho sacerdote obscuro e despretencioso1 cujos sermes no tenham fama1 cujas predicas no sejam ouvidas1 entre suspiros e lagrimas1 pelas devotas da aristocracia1 inicie a pequena neophyta nos mysterios subtis da doutrina catholica4 indispensavel um padre galante1 perfumado1 estrangeiro1 que torne o ensino da religio alguma cousa de artistico e de adocicado como elle4 ,saber bem doutrina constitue um dos deveres de uma educao primorosa1 e no entanto a filha que aprendeu1 a me que a mandou ensinar1 ignoram todos os deveres a que esta sciencia1 a ser bem comprehendida1 as obrigaria4 ,sabem doutrina como sabem grammatica2 quer dizer repetem de cr umas certas e determinadas regras de que no percebem a applicao pratica4 ,aos quinze annos a menina preparada por estes elementos tem a sua educao completa4 ,quer seja filha de um duque1 quer seja filha de um fabricante1 quer o seu destino a reserve para receber n'uma sala faustuosa os altos personagens da politica e da diplomacia1 para fazer parte da crte1 para conviver n'um p de intimidade com todos os grandes1 e com todos os opulentos2 quer ella tenha de partilhar as luctas obscuras de um modesto empregado1 de um industrial de poucos haveres1 de um artista desprotegido1 a mesma a sua educao moral1 physica e intellectual4 ,est do mesmo modo preparada para as luctas e para os combates da vida2 tem a mesma fora nos musculos1 tem as mesmas faculdades no espirito1 tem as mesmas noes na consciencia4 ,a burgueza ou a fidalga1 com tanto que tenham dinheiro1 teem os mesmos direitos1 as mesmas aspiraes1 ambicionam para suas filhas o mesmo lugar na sociedade4 ,mas o que deve confessar-se uma vez por todas que esta educao1 toda vaidade1 toda orgulho frivolo1 toda inutil ostentao1 convem to pouco filha da aristocracia e da opulencia1 como filha da burguezia e da mediocridade4 ,uma1 collocada nos altos pincaros sociaes1 precisa de ter o juizo recto e seguro para conhecer os homens1 a graa ondeante e fina para os attrahir1 o conhecimento profundo dos seus interesses e paixes1 para os conciliar entre si2 precisa de fallar a cada um a linguagem mais propria para o convencer e dominar2 precisa de ser1 junto de seu marido um auxiliar proficuo com que elle conte1 uma intima e fiel alliada1 que o ajude a conservar dignamente a posio que herdou dos seus avs ou que conquistou com o brao e com o pensamento4 ,a outra1 n'uma esphera que inferior da primeira1 segundo o ponto de vista social1 mas que de feito lhe superior1 porque inclue mais altos e mais complexos deveres--a outra precisa de descer com seu marido arena onde combatem os modernos trabalhadores1 precisa de lhe ser em tudo e por tudo ajuda1 guia e conselho1 precisa de acceitar para si terriveis responsabilidades1 para as quaes nenhuma lio a preparou6 ,dir-me-ho que o nivelamento democratico das modernas sociedades d a todos os mesmos direitos1 porque d a todos os mesmos deveres2 que a me opulenta e nobre que cria suas filhas nos ffos ocios da riqueza no sabe se em breve ter de vel-as curvadas ao peso da maxima miseria1 assim como a mulher de um humilde empregado no sabe se ver sua filha ascender a uma prospera e brilhante posio1 elevada por um d'esses casamentos que so vulgares1 como d'antes eram raros4 ,d'accordo1 meus senhores2 mas essa hypothese em cousa alguma destre a minha assero1 pois o que eu disse e repito que a educao feminina1 tal como hoje a entendem1 para nenhuma classe da sociedade1 para nenhuma posio brilhante ou precaria util ou conveniente4 99 99 99 99 99 ,que desenvolvimento moral1 physico ou intellectual1 pde adquirir-se partindo de to errados principios8 ,a que fim se aspira1 que fim se attinge1 alcanando uma educao que tem por unica base a vaidade8 ,pois a mulher1 que levou annos e annos da sua vida a adquirir conhecimentos inuteis1 est porventura armada para resistir s tentaes1 s adversidades1 s miserias1 aos combates da vida8 ,imagine-se1 em contraposio a esta falsa cultura1 que constitue o que os burguezes embebecidos em comico enthusiasmo chamam uma educao muito fina1 imagine-se que as mes1 juntando-se n'uma piedosa cruzada1 conseguiam crear uma instituio moderna1 onde suas filhas recebessem a educao que hoje lhes poderia servir1 para se tornarem uteis na sociedade e na familia4 ,quantas vezes no tenho eu acariciado em sonhos a ida d'essa escola-modelo1 onde a creana aprendesse a ser mulher1 onde a mulher aprendesse a ser me6 onde uma direco harmonica e intelligente presidisse ao desenvolvimento do espirito e ao desenvolvimento no menos sagrado do corpo2 onde a moral caminhasse a par da sciencia1 onde a primeira noo que o entendimento feminino recebesse fosse esta3 ,todo o trabalho nobilita e exalta a quem o executa com a consciencia de cumprir um dever6 ,eu no quizera por certo proscrever da educao da mulher as graas1 que so para ella o que o perfume para a flr4 ,no queria vr o mundo convertido n'um viveiro de pedantes1 enfronhadas em sciencia e tornando antipathica a virtude1 fora de lhe darem ares dogmaticos4 ,se a leitora suppe de mim tal abominao1 que eu bem pouco tenho conseguido revelar-me aos seus olhos4 ,o meu intento outro2 permitta-me que lhe torne aqui bem palpavel4 ,v4 exc4a1 minha senhora1 tem uma filha1 um pequenino anjo1 louro e risonho1 que n'este mundo o seu enlevo1 como que um bocadinho do cu azul1 que lhe cahiu no seio n'um dia abenoado4 ,tome o meu conselho3 no siga na educao do seu pequeno amor o systema que sua me seguiu comsigo1 que as suas amigas seguem com as filhas que teem4 ,crte de uma vez este fatal n gordio da tradico1 do costume1 da rotina1 que faz morrer em flr tantas innovaes beneficas4 ,tenha a coragem das suas opinies2 inutilise esse formoso e rico enxoval que umas modistas banaes inventaram por ordem sua2 deite fra essas sedas1 essas rendas1 esses instrumentos de perdio para a alma pequenina que ,deus lhe confiou4 ,vista sua filha simplesmente1 com um aceio gracioso e poetico1 que revele os seus desvelos de me1 mas que no denuncie as suas vaidades de rica4 ,bem v que1 livre de todo aquelle fausto que a incommodava1 como um lao de fita incommoda uma ave1 a sua doce pequenina se sente mais livre e mais contente4 ,eu bem sei que ainda ha pouco uma amiga sua1 passando por ella1 a mediu dos ps cabea1 muito espantada e um pouco desdenhosa1 perguntando a si mesma se v4 exc4a j no era to rica como ella julgou2 mas em compensao d'esta pequena ferida de seu amor proprio1 houve uma creana pobre1 que ao parar junto da sua filhinha1 ousou estender a bocca de rosas1 e beijal-a com um dce e fraterno beijo1 como os anjos se do entre si1 e para os quaes ,deus do alto da sua gloria teve sempre um sorriso bom6 ,que importam os desdens dos parvos e dos mediocres aos que no teem as invejas dos miseraveis a pezarem-lhe na cabea como uma eterna maldio6 ,quando a sua filha passa com o seu vestidinho branco1 muito simples e muito aceiado1 as mes pobres sorriem-se com amor por dous motivos1 ambos santos3 porque ella no humilha ninguem1 e deixa uma esmola de po e um rasto de luz no seu caminho de anjo inconsciente4 ,oh6 como so doces ao corao das mes as benos que se desfiam como um rosario de perolas sobre a cabea loura de seus filhos4 99 99 99 99 99 ,quando a intelligencia j viva e luminosa da sua filha lhe pedir cultivo1 como as flores pedem agua1 no a force a um trabalho pesado e tenaz1 nem to pouco lhe d da vida uma ida to frivola1 que ella s aprenda o que superfluo para no dizer inutil4 ,abra-lhe com a sua mo maternal to delicada e to subtil o vasto livro da natureza1 e deixe que ella1 enlevada e curiosa1 o folheie cheia de amor e de f4 ,toda a sciencia se encerra n'isto1 minha senhora4 ,faa-a penetrar na alma de todas as cousas para que a vida se no conserve aos seus olhos inanimada e esteril4 ,em vez de lhe ensinar a doutrina morta que vem nos livros1 leve-a brandamente por um declive suave a comprehender o espirito d'essa lei1 que feita de tanto amor6 ,conte-lhe as miserias occultas que ha n'este mundo1 ensine-a1 ou antes1 deixe que ella adivinhe como essas miserias se consolam pela esmola do po e pela esmola do carinho1 e1 quando ella voltar do albergue da desgraa1 ao seu lado1 calada1 pensativa1 com os olhos cravados nas nuvens alaranjadas do poente1 pergunte-lhe ento baixinho1 com a sua voz de me1 a unica que nunca perturba nem afugenta os sonhos de uma virgem3--,comprehendes agora as palavras do ,christo3 ,ama a ,deus sobre todas as cousas e ao proximo como a ti mesmo8 ,s este commentario das lies do ,justo pde fazer com que ellas dem abenoados fructos6 ,em vez de lhe occultar os mil subterfugios com que a maldade humana tenta avassallar e corromper a innocencia1 innocule-lhe lentamente com a sua palavra serena e firme a fora necessaria para vencer e dominar as astucias criminosas e traioeiras4 ,faa-lhe sentir com a lio e com o exemplo que a mulher tem quasi sempre em si o seu peior inimigo1 e que este inimigo1 que toma todas as frmas imaginaveis1 sempre no fundo o mesmo6 o orgulho4 ,que ella comprehenda bem que o dominio que a mulher exerce pela sua bondade nobilita aquelle que se lhe submette1 emquanto que o despotismo1 que tem como origem a belleza e a graa artificial das seduces1 rebaixa o homem que o acceita1 e a mulher que o pe em aco4 ,nas cousas triviaes da vida pratica prepare-a para todas as eventualidades4 ,que se no ache deslocada n'um throno1 nem atraz d'um balco4 ,eis o ideal4 ,ha uma dignidade que est comnosco1 que participa da nossa propria assencia1 que provm da noo elevada que ns temos dos nossos direitos e dos nossos deveres1 e que portanto independente de qualquer circumstancia exterior4 d'esta dignidade que uma educao justa e forte deve dar mulher1 e que em todas as peripecias da vida1 por mais desusadas e estranhas1 a deve acompanhar4 ,ter bastante humildade para exercer sem repugnancia os trabalhos menos delicados1 e bastante superioridade para comprehender a ida do dever que os exalta e sobredoira2 ver na vida1 primeiramente as obrigaes1 depois as distraces1 eis aquillo que todas as mes devem ensinar s suas filhas4 ,no dia em que todas o souberem1 teremos ento1 em vez das creanas fracas e inuteis1 que o homem ora protege1 ora escravisa1 segundo o impulso das suas ephemeras paixes1 uns seres pensantes1 conscios da sua fora1 sem ambies desregradas de um poder que lhes no deve pertencer1 sem a hypocrita humildade1 que faz de cada mulher uma victima pouco sympathica4 ,as salas tero menos estatuetas de biscuit amaneiradas e ridiculas1 mas a familia ter mais elementos na vida e durao2 os pianos deixaro de suspirar em noutes de luar as suas sentimentaes confidencias2 mas a verdadeira comprehenso da arte1 da religio1 e da poesia penetrar como por encanto nos entendimentos feminis4 ,teremos emfim ao lado do batalhador das modernas lides uma companheira1 no s digna d'elle1 porm capaz de o levantar a um nivel que elle ainda1 desacompanhado e desprotegido1 no pde desgraadamente attingir4 ,,capitulo ,,vi ,leitura para nossas filhas ,minha querida amiga3 ,disse-me hontem que sua filha tinha esgotado a pequena bibliotheca infantil1 que a muito custo colligio para ella1 e que esse candido e luminoso espirito1 de quinze annos exige energicamente mais alimento que a nutra e que a deleite4 ,pergunta-me a respeito da leitura que ha de permittir a sua filha1 a minha opinio1 o meu conselho4 um caso difficil este que me prope4 ,lili uma graciosa e excepcional creatura2 tem a logica inflexivel das creanas intelligentes1 tira rapidamente a concluso das premissas que submettam ao seu criterio4 ,a leitura pde fazer-lhe muito mal ou muito bem2 no pde de modo algum ser-lhe indifferente4 ,a minha amiga seguindo as tradices que j encontrou assentes1 pergunta-me se pde deixar ler a sua filha ,paulo e ,virginia1 esse idyllio que tem cem annos e que ameaa ser eterno1 ou ,jocelyn1 o poema mais perigosamente mystico que eu conheo4 ,falla-me no ,genio do ,christianismo1 de ,chateaubriand1 e nas tragedias sacras de ,racine4 ,no se lembra para sua filha de nenhum outro escripto e lembrou-se justamente d'aquelles que s lhe podiam fazer mal4 ,antes de mais nada1 responda-me francamente3 quer fazer de sua filha uma mulher solidamente instruida ou ento uma mulher ignorante8 ,quer que ella saiba resistir s tentaes que forosamente ha de encontrar na vida1 ou quer que ella se conserve na mais completa e absoluta inexperiencia at edade em que ha de entregal-a ao homem que tem de ser seu marido8 ,da resposta a estas duas perguntas que tudo depende1 porque segundo a ida que a minha amiga frma da educao de uma mulher1 segundo o systema que tenciona pr em pratica com relao educao de sua filha1 o futuro d'esta ha de levar um outro caminho4 ,eu no posso dizer-lhe positivamente3 faa isto1 faa aquillo4 ,posso apenas contar-lhe o que fiz4 ,minha filha tem hoje vinte seis annos1 casada1 me1 e tem sabido cumprir a dupla e difficil misso que a sorte lhe confiou4 ,no sei se deva attribuir os meritos que todos lhe reconhecem educao que procurei dar-lhe2 parece-me1 porm1 que sem falsa modestia poderei confessar1 que os meus cuidados no foram de todo inefficazes1 e que o muito que pensei e meditei sobre o caracter da minha querida filha1 me ajudou a guial-o no caminho do seu aperfeioamento4 ,ha gente que diz que as mulheres no devem ler4 ,no sei se alguma vez tem ouvido essas opinies estupidas ou perfidas2 no lhes d credito minha boa amiga4 ,eu no acho merito algum mulher ignorante1 que se resigna ao cumprimento dos seus obscuros deveres de todos os dias4 ,segue rotineiramente um caminho de que no conhece as difficuldades1 e se no se afasta d'elle porque no sabe de nenhum outro4 ,a mulher deve ler1 mas se mais tarde no pleno uso das suas faculdades mentaes1 e da sua fora moral1 ella pde ler tudo sem perigo1 indispensavel que uma educao anterior a tenha preparado e fortalecido1 indispensavel que haja o maior cuidado na cultura intellectual que ella deve receber na infancia e na adolescencia4 ,diz-me a minha amiga1 que a maior parte dos romances so immoraes1 que os que no so immoraes nos intuitos so perigosamente exaltados ou revellam ao espirito da mocidade quadros que ella no deve conhecer3 diz-me que a historia de todos os povos no mais que um amontoado confuso de crimes e de vicios1 que a sciencia est em contradico absoluta com as verdades de religio1 e no meio das duvidas que se desnorteiam e assaltam quasi que prefere condemnar sua filha a uma ignorancia que ao menos a conserve simples de corao e tranquilla de espirito4 ,tenho duas objeces a fazer-lhe minha amiga1 e parece-me que ambas ho de impressionar o seu esclarecido entendimento4 ,em primeiro logar1 se consultar bem a sua consciencia1 ver que transige por fraqueza e por preguia com a ignorancia de sua filha4 ,prefere que ella no tenha quasi nada1 a ter de se entregar a trabalho difficilimo de escolher com o mais delicado dos escrupulos o que ella deve saber4 ,em segundo logar1 essa ignorancia1 que para a mulher lhe parece o porto socegado e tranquillo onde ella repousar affoutamente1 parece-me a mim um banco de perfidas areias onde facilmente ella pde naufragar4 ,j estou d'aqui prevendo a sua objeco4 ,mas eu no quero tal que minha filha seja ignorante4 ,pelo contrario1 dei-lhe uma excellente educao4 ,aqui no se tracta seno das leituras que depois de educada eu lhe devo permittir ou recusar4 ,minha amiga1 creia isto que lhe vou dizer4 ,se sua filha no souber seno o que tem aprendido at agora1 de poucos recursos fica munida para combater na grande batalha em que vae entrar4 ,ensinou-lhe o cathecismo1 bem sei2 ,lili fez j a sua primeira communho1 e respondeu ao exame de doutrina com admiravel facilidade1 e com uma memoria impecavel4 ,e depois8 ,em que que essas noes a auxiliam para que ella chegue a conceber o bem absoluto1 a eterna justia1 o ,espirito ,supremo que anima a grande natureza8 preciso que ella forme de ,deus uma larga e fecunda ida1 e as manifestaes da sua grandeza no esto no cathecismo1 esto espalhadas n'essa creao universal que ella no sabe ver e que ella no conhece4 ,conhece a historia pelos pequenos opusculos cheios de todas as maculas e impurezas1 que deixaram chegar s suas mos infants4 ,no ser uma irriso dizer que ella conhece a historia8 ,sabe os nomes dos reis1 as datas dos seus nascimentos e mortes1 coroaes e consorcios1 e os filhos que tiveram e as cidades e villas que conquistaram2 mas que ida tem ella d'essa historia sublime1 que participa do drama e da epopa1 que tem paginas doloridas e paginas brilhantes1 que tem cantos triumphaes1 e gemidos de lutuosa angustia1 d'essa historia em que esto registradas tantas luctas heroicas1 tantas conquistas immortaes1 e que se chama a historia da humanidade8 ,no lhe parece que deve ser um estudo elevado1 fortificante1 robustecedor1 que faz conhecer melhor1 os esforos titanicos que o homem tem empregado para alcanar a quasi omnipotencia que hoje possue8 ,do homem rude1 primitivo1 inhabil1 rodeiado de perigos para o corpo e de chimeras para o espirito1 esmagado pela fora brutal da natureza1 sem comprehenso do destino que o esperava e da misso a que vinha1 at ao homem dos nossos dias1 ao rei1 ao victorioso1 ao vencedor1 ao que tem dominado todas as tyrannias que o dominavam1 que differena enorme vae1 minha querida amiga6 ,entre o pria errante das selvas pre-historicas e esse triumphador que se chama ,newton ou ,goethe1 ,claude ,bernard ou ,victor ,hugo1 ha a distancia de uns poucos de milhares de seculos1 que preciso conhecer ao menos pelos marcos milliarios que teem assignalado a passagem dos mais illustres caminhantes n'essa estrada luminosa que se chama civilisao4 isso que eu chamo conhecer a historia4 ,d'essa sciencia o espirito de sua filha1 curioso1 vido1 aberto para todas as grandes cousas1 s pde colher proveito1 um enorme proveito cujo alcance mal lhe posso explicar6 ,dir-me-ha que n'essa historia ha crimes ignobeis1 ha quadros revoltantes1 ha homens condemnados cujo contacto pde ferir o delicado e original espirito de uma creana4 ,oh6 mas tambem ha martyrios1 sacrificios1 abnegaes1 arrojos sublimes6 ,se ha criminosos1 tambem ha heroes2 se ha algozes1 tambem ha martyres2 se ha monstros1 tambem ha santos4 ,deixe que no cerebro da creana se faa a mysteriosa elaborao de que ha de sahir o culto pelo que fr bello e bom1 o odio raciocinado e violento a tudo que fr abjecto e vil1 a compaixo virtuosa e divina para tudo que fr fragil e ignorante6 ,ponha nas mos de sua filha todos os cantos d'essa epopa enorme4 ,faa-lhe lr com atteno essa historia1 e quando ella tiver chegado ultima pagina1 ser mulher4 ,uma mulher instruida1 uma mulher forte1 capaz de ser esposa digna1 e me desvellada1 tendo aprendido a conhecer1 comparar1 julgar e a pensar4 ,no sei se comprehendeu bem a ida que procurei expr-lhe4 ,apontei a traos largos a direco una que deve dar s leituras de sua filha4 ,isto a que chamei conhecer a historia1 no 1 como viu1 ler simplesmente os historiadores4 lr1 dominada por uma ida de elevada critica1 que as conversaes d'uma me intelligente podem dar1 todas as que tenham trazido a este thesouro formado pelos seculos1 algum conhecimento precioso e util4 ,os bons historiadores como ,macaulay e como ,herculano1 os poetas que vivificam e animam o passado1 que entram no espirito de todos os seculos1 como ,michelet3 os viajantes intrepidos1 os exploradores1 os navegantes1 os homens de sciencia1 conquistadores tambem e dos mais gloriosos2 os moralistas1 os criticos1 todos aquelles que buscam lealmente a verdade e que aspiram ao aperfeioamento do homem4 ,fallei-lhe de ,michelet e deixe-me dizer-lhe o que penso d'elle4 o corao mais apaixonado de justia que eu conheo1 o que o no priva de ser injusto muitas vezes2 mas tem uma alma to grande1 tem uma comprehenso to viva do bello1 tem faculdades artisticas to poderosas1 que para mim no ha companheiro melhor para um espirito moo4 ,deixe que sua filha leia muito ,michelet4 um grande mestre4 ,atravez d'elle ella saber sentir melhor1 amar com um amor mais intelligente a natureza4 ,michelet tem a doura misericordiosa que redime e levanta os humildes e anima os fracos1 tem a paciencia que penetra no intimo dos sres mais inferiores1 e que o illumina de uma luz sympathica4 ,sabe fazer ver tudo1 sabe explicar todos os mysterios4 um genio que tem alguma cousa de propheta4 ,como bom1 divinamente bom1 o contacto d'aquelle espirito1 d bondade e fora4 ,para elle no ha na natureza1 nada que tenha vida1 e no tenha alma6 ,da planta ao mollusco1 e do mollusco ao homem tudo que vive ama1 e tudo que ama tem direito ao nosso amor4 ,doce philosophia que nos ensina o segredo de todas as misericordias6 ,minha querida1 ainda que para mim ,michelet seja o melhor dos poetas1 no entendo que das leituras de uma menina se deva proscrever implacavelmente a outra poesia4 ,quando digo isto refiro-me poesia rimada1 que canta no ouvido1 com uma musica que muitas vezes traioeira4 ,procure no entanto que seja o mais tarde possivel1 que essas vozes de sereia penetrem no ouvido de sua filha4 ,oh6 que preciso muita fora para resistir influencia dissolvente que ellas teem em ns4 ,nunca perca de vista que a vida um combate1 um rude e terrivel combate1 e elles os que cantam e os que choram em vez de inocularem no espirito a fora de que este precisa1 tornam-n'o debil1 amollecem-n'o1 em voluptuosidades enervantes4 ,ninguem tem medo de ,lamartine4 ,as mes do-n'o a ler s suas filhas1 os noivos do-n'o de presente s suas noivas4 ,para todos elles o mais puro dos poetas1 um cysne que nunca maculou as suas pennas brancas no lodaal das paixes insalubres6 ,no se illuda com este juizo que universalmente se formou a respeito de ,lamartine e dos melancolicos da sua escola4 ,que maior perigo para uma alma juvenil do que a aspirao a um ideal impossivel8 do que a sede de venturas irrealisaveis e do que o sonho de amores que no existem8 ,e depois os poetas inconsolados e inconsolaveis no ensinam a luctar contra as magoas da vida4 ,ensinam a curvar a cabea aos golpes da fatalidade1 ensinam a chorar covardemente1 a deliciar-se nas agonias1 a saborear a doura debilisadora das lagrimas6 ,saudemos os que combatem virilmente1 os que vencem a desgraa1 os que furtam a sua alma s languidas tristezas da desesperana1 saudemos os que so fortes1 alegres e bons4 d'essas intelligencias eleitas1 que sua filha deve smente alimentar-se4 ,ella ha de querer ler romances4 natural4 ,os romances so a fantasia1 e na vida das mulheres a fantasia tem um grande logar4 na escolha d'esses que precisa ter o maior cuidado4 ,proscreva sem d1 da bibliotheca de sua filha1 as obras primas dos romancistas francezes4 ,balzac um anatomista implacavel4 ,os seus romances matam a flr da f na alma dos innocentes4 ,georg ,sand um bello anjo revoltado4 ,tem o orgulho de ,satanaz na imaginao de uma mulher apaixonada4 ,octave ,feuillet to fino1 to delicado1 s deve ser lido depois dos trinta annos4 ,daudet um delicioso romancista1 comeou a escrever n'uma poca doentia2 ha n'elle um no sei que de morbido que entristece e que faz mal4 ,escusa de procurar minha amiga4 ,ns as mulheres para quem a vida j no tem segredos1 adoramos esses escriptores1 porque elles contam-nos o que j tinhamos adivinhado1 relembrando-nos o que tinhamos sentido2 descrevem-nos o que tinhamos a curiosidade de conhecer1 mas as creanas que os lerem devem experimentar bem dolorosas surprezas4 a litteratura ingleza a mais rica1 a mais fecunda no genero que procura4 ,walter ,scott um verdadeiro poeta1 reviver para sua filha as scenas mais pittorescas de um passado aventuroso4 ,puros amores1 enthusiasticos guerreiros1 heroismos nacionaes1 sentimentos caracteristicos de uma raa energica e arrojada1 incidentes romanescos1 mas de um romanesco so1 tudo que tem o poder de enlevar e attrahir a imaginao colorida e ardente de uma mulher de poucos annos4 ,no ha creaes femininas mais diliciosamente virginaes do que as do romancista escossez4 ,as suas mulheres1 como as mulheres de ,sakspeare1 como as mulheres de ,dickens1 so feitas de um raio de luar1 de uma petala de rosa1 de um canto de rouxinol4 ,o crime nem de leve se approximou d'ellas2 o vicio1 de envergonhado1 cra na sua presena2 no conhecem as ms tentaes1 as vigilias ardentes1 os sonhos que perturbam e agitam a alma das outras mulheres4 ,que doces e queridos exemplos6 que bellas e radiosas companheiras4 ,as escriptoras inglezas seguiram a tendencia moralisadora da sua nao4 ,os livros de algumas d'ellas teem a graa d'um narrar discreto e nuanc4 ,no se queixe de que no pde dar sua filha romances que a distraiam1 sem a inquietarem4 ,dickens o mais energico e convencido dos moralistas1 ,mrs4 ,graswell1 ,broute1 ,georges ,elliot e muitos mais que no tenho tempo de enumerar1 ahi esto para desmentirem4 ,que sua filha entremeie a leitura de escriptores mais instructivos com esta outra leitura amena e agradavel1 e ver como ella aprende a gozar da companhia dos bons livros1 e a dispensar as futeis distraces mundanas que esterelisam o espirito1 e o tornam mesquinho e baixo4 ,assim1 absorvida pelo estudo bem dirigido1 pelas elevadas distraces intellectuaes1 assim educada1 fortalecida1 illucidada1 ver como ella chega edade propria de escolher o seu destino1 possuindo um so criterio1 uma penetrao delicada1 uma firmeza de principios que a ponha ao abrigo de qualquer tentao menos digna4 ,conhecendo o bem e o mal1 e comprehendendo o que um e outro significam e valem1 saber o que no sabem os ignorantes1 saber escolher o caminho que tm de seguir se lhe confiarem a escolha4 ,parece-me que para chegar a este fim a leitura1 o cuidadoso cultivo da intelligencia devem ser auxiliares preciosos1 no acha8 ,encontramos esta carta nos papeis velhos de uma excellente amiga nossa1 e sem a corrigir vimos offerecel-a s nossas leitoras4 ,,capitulo ,,vii ,as dactas d'uma vida ,a ida para o collegio --,ento achaste o que procuravas8 --,achei4 ,eu tinha consultado a este respeito a baroneza de ,s41 que tem1 como sabes1 immenso juizo4 ,indicou-me o collegio de ,m4me ,maubry4 ,uma franceza elegantissima4 ,parece-me que fiquei muito bem servida4 --,tu que foste ao collegio fallar com a directora8 --,pois a quem havia eu de confiar similhante encargo8 ,fui1 vi1 julguei por meus proprios olhos1 e fiquei satisfeita4 --,o collegio est bem situado8 --,sim4 ,est n'um sitio muito central1 muito concorrido1 tudo muito mo4 ,um constante vai-vem de carruagens1 que nas horas de recreao ha de distrahir immenso as creanas4 --,e a respeito de jardim para ellas correrem8 --,tem um jardim pequeno1 mas muito bonito1 muito bem tratado1 ingleza4 ,conhece-se primeira vista a obediencia e a docilidade das discipulas1 olhando para o jardim4 ,nem um vestigio de travessuras infants4 ,uma limpeza ideal nas pequenas ruas aradas4 ,fui l na hora do recreio da tarde2 andavam as meninas passeiando e conversando com uma gravidade6 uma compostura644 pareciam senhoras em miniatura644 ,achei engraadissima aquella parodia de uma das nossas salas4 --,ainda bem que me contas isso tudo1 ,mathilde4 ,ando com vontade de metter as minhas pequenas em um collegio1 porque esto de uma maldade644 ,no pra nada com ellas6 ,importunam-me extraordinariamente4 ,tu sabes4 ,nem eu nem o pae gostamos de barulho1 e dous diabretes em uma casa pequena1 de se morrer4 ,decido-me pelo teu collegio4 ,perguntaste o que l ensinam4 --,oh6 a esse respeito podes estar descansadissima4 ,uma perfeita educao de senhora4 ,m4me ,maubry o typo da parisiense delicada e graciosa4 ,tem um cuidado inexcedivel com as maneiras das discipulas1 com o seu modo de se apresentarem1 com a sua toilette4 ,disse-me ella que tinha por systema1 dar-lhes desde muito cedo o gosto de agradarem na sociedade1 de excitarem em torno de si uma sensao agradavel444 impregnal-as d'aquella graa especial que constitue a mulher do mundo644 ,approvo immenso aquella maneira superior de entender a vida social4 --,mas no me fallaste ainda da instruco que recebem as discipulas444 --,oh6 j se v1 correspondente ao resto4 ,linguas444 nas linguas ,m4me ,maury tem um apuro especial4 ,piano1 canto1 um pouco de historia1 de geographia1 dana1 desenho1 varios bordados1 etc41 etc4 ,creio que o sufficiente para brilhar entre as primeiras4 ,m4me ,maubry segue o systema moderno no que elle tem de muito aproveitavel4 ,ministra a instruco brincando por assim dizer4 ,ha concertos semanaes em que figuram as melhores discipulas2 ha cursos de conversao2 ha noutes em que se l alto1 se recita ou se representa4 ,n'uma palavra1 o fim d'ella tornar deleitoso o estudo1 e desenvolver a emulao entre as discipulas4 ,como verdadeira franceza1 percebeu que a vaidade o motor principal da mulher e444 --,minha querida1 interrompeu n'este momento o marido da oradora2 faze o que quizeres1 visto que tive a imprudencia de te jurar que educarias tua filha conforme te aprouvesse e sem que eu nunca entrasse n'isso2 mas o que desde j te affirmo que a tua ,m4me ,maubry uma corruptora inconsciente da mocidade1 e que a tua filha nunca passar de uma boneca6 99 99 99 99 99 ,durante as ferias --,mam1 eu antes quero o lao cr de rosa444 --,pois faz a ,lili muito mal4 ,o azul fica-lhe muito melhor4 ,olha que no baile infantil ho de estar muitas companheiras tuas do collegio4 ,que alegria para ellas se te virem feia6 --,alegria1 mam8 ,alegria porque8 ,as meninas do meu collegio so todas minhas amigas1 ho de gostar muito de me ver bonita e bem vestida4 --,assim ser1 minha filha1 mas as mams d'ellas que com certeza ho de ter inveja de mim se tu fores a mais linda1 a mais bem vestida1 a que danar melhor6 ,chega-te aqui ,lili6 ,deixa-me annellar os teus cabellos4 ,assim que ficas bonita1 ouviste8 ,levanta os teus olhos para mim1 so to bonitos os teus olhos644 --,a mam quer que eu levante os olhos8 ,m4me ,maubry ralha commigo por eu os levantar de mais4 ,diz ella que uma menina deve andar sempre de olhos baixos1 deve crar de vez em quando444 nunca se deve rir com vontade4 --,m4me ,maubry diz-te isso844 --,diz1 mam1 e que assim que as senhoras agradam e se tornam amaveis4 99 99 99 99 99 --,ento1 minha ,lili1 tu e a mam divertiram-se muito no tal baile infantil8 --,ah6 pap1 no imagina6 ,dancei muito1 e todos me disseram que eu era a menina mais bonita que l estava4 -- verdade6 a ,lili estava encantadora4 ,no imaginas como a elogiaram6 ,todas me perguntaram onde ella aprendeu a danar4 --,e a mim tambem1 mam4 ,as outras meninas perguntaram-me onde era o meu collegio4 --,vs6 dizias tu1 meu maridinho ralhador1 que ,m4me ,maubry era uma professora m4 ,v o triumpho que teve a nossa filha no primeiro dia em que appareceu em publico6 ,lili1 corada de alegria1 foi dar uma pirueta defronte do espelho4 ,a primeira communho ,acabou agora mesmo de vestir-se4 ,branca1 branca que parece uma pomba4 ,o vu de gaze cahe em prgas soltas e ondeantes por sobre aquelle corpo esbelto e franzino1 de #ad annos2 a cora de rozas emmoldura-lhe deliciosamente a fronte eburnea e levemente sombreada por uns toques de infantil melancolia4 ,acha-se linda1 e sente que todos que a virem ho de achal-a assim6 ,dentro da sua alma resa como que um cantico de orgulho6 ,vae ser noiva do ,senhor1 vae receber pela primeira vez no puro tabernaculo do seu corao a visita mysteriosa do ,esposo6 ,o seu director espiritual1 um moo sacerdote francez1 fino1 louro1 delicado1 com uma voz branda e persuasiva1 com umas mos brancas1 de cardeal1 com uns gestos lentos e graves de irreprehensivel bom gosto1 acabou hontem de a conduzir at aos umbraes d'essa nova vida1 em que ella vae penetrar j consciente do que e do que vale4 ,que doura mystica tinham as palavras d'aquelle padre6 ,eram ternas1 unctuosas1 de uma graa desconhecida6 ,at alli para ella a religio fra um no sei qu de vago1 triste e indefinivel1 mais para assombro e terror do que para delicioso extasi444 ,o ,christo macilento e ensanguentado1 com a fronte coroada de espinhos1 e o corpo cravejado de prgos1 dera-lhe a ida de uma angustia desoladora e desesperada1 que s vezes enchera de lagrimas a sua pequenina alma de dez annos4 ,porque seria que1 voz do moo confessor1 o ,martyr do ,calvario como que se tinha transfigurado aos olhos d'ella8 ,o padre pintara-o bello1 radiante de mocidade1 prodigo de ineffaveis esperanas1 chamando a si as almas virginaes1 e promettendo-lhe a eternidade no amor1 a radiosa alegria das nupcias celestiaes4 ,era uma nova musica1 a que elle fizera vibrar aos ouvidos da gentil neophyta1 que sentia1 sem saber como1 inundal-a uma alegria anciosa1 um pungitivo arrebatamento1 inteiramente desconhecido ao seu passado6 ,e olhava para o espelho1 e sentia-se bella1 moa1 radiosa de vida e de esperanas1 com um profano desejo de alegrias novas1 de triumphos ignorados a alvoroar-lhe o seio juvenil4 ,e agitando em torno de si as prgas fluctuantes do vo de noiva do ,christo1 baixou os olhos languidos sobre o livro das oraes e leu em voz baixa e palpitante as palavras sagradas1 na lingua melodiosa em que se habituara1 por um requinte de aristocracia1 a fallar com ,deus3 ,oh6 venez le bien-aim de mon coeur6 venez1 ,agneau de ,dieu1 chair adorable1 venez servir de nourriture mon me6 ,que je te voie1 le ,dieu de mon coeur1 ma joie1 mes dlices1 mon amour1 mon tout6 ,qui me donnera des ailes pour voler vers toi6 ,mon me loigne de toi1 impatiente d'tre remplie de toi1 languit1 te souhaite avec ardeur et soupire aprs toi1 mon ,dieu1 mon unique bien1 ma consolation6 ,embrase moi1 mon ,dieu1 brule1 consume mon coeur de ton amour444 ,mon bien-aim est moi ,o que1 traduzido na nossa lingua1 decididamente reputada impropria para fallar com a ,divindade1 significa pouco mais ou menos a seguinte edificante declarao de amor3 ,vem1 amado da minh'alma6 cordeiro de ,deus6 carne que eu adoro6 vem servir-me de alimento ao corao6 ,quero ver-te1 oh ,deus amado1 minha alegria1 minha delicia1 meu amor1 meu tudo6 ,quem me dera azas com que voasse para ti6 ,minh'alma afastada da tua presena almeja por se impregnar de ti1 enlanguece1 deseja-te com ardor1 e suspira por ti1 oh meu ,deus1 oh meu unico bem1 minha consolao6 ,abraza-me oh ,deus6 queima1 consome o meu corao com as chammas do teu amor644 s meu1 oh bem amado1 pertences-me6 ,na volta do baile ,lili vem extraordinariamente pallida e pensativa6 ,as brancuras opalisadas do alvorecer penetram atravez dos vidros da carruagem1 e como que cingem de uma graa ideal os contornos delicados do seu rosto1 que o capuz de baile emmoldura em alvas rendas4 ,danou at s seis da manh2 vem cansada1 abatida1 toda ennovellada nos ffos coxins do seu coup1 mas vem pensando muito4 que o viu no baile1 e lhe disseram que elle seria o seu marido4 ,o pae antes d'ella partir de casa--vestida de tulle e rendas1 coroada de myosotis1 e com um collar de perolas lacteas e iriadas1 a affagar voluptuosamente a transparencia rosea do seu collo--o pae1 antes d'ella partir1 dissera-lhe gravemente1 mas com uma gravidade em que havia muito affecto3 --,elle moo1 nobre1 herdeiro de uma casa riquissima4 ,a familia deseja este enlace4 ,no te quero forar1 ,lili2 mas1 se gostares d'elle1 approvarei com enthusiasmo essa affeio6 -- moo e nobre1 pensra ,lili comsigo4 ,hei de amal-o por fora4 ,ter maneiras distinctas1 um porte correcto1 um sorriso levemente desdenhoso4 ,e dir amo-te1 com uma graa fina e superior6 ,depois1 proporo que o baile se ia approximando1 com o esplendor prestigioso dos seus lustres1 com o capitoso aroma das suas montanhas de flores1 com as prismaticas scintillaes dos seus diamantes1 com o ruge-ruge que fazem ouvir as serpentes e as sedas1 ,lili pensava que era positivamente uma cousa agradabilissima ser rica6 --,irei muitas vezes ao baile1 ouvirei em torno de mim o murmurio discreto de admirao que enlouquece as mulheres1 terei vestidos de velludo negro1 com diademas de brilhantes a morderem o ouro fulvo dos meus cabellos6 ,invejar-me-ho1 e quando eu sahir acclamada e triumphante das salas em que fr rainha1 deixarei no meu caminho um rasto de admiraes apaixonadas6 ,vira-o no baile1 fallara com elle1 tinham danado juntos4 ,percebera que o noivo que lhe destinavam era um pobre rapaz1 ignorante e enfatuado1 muito feliz de ser nobre1 de ser rico1 e de haver mulheres que em torno d'elle cubiassem o seu titulo futuro e a sua riqueza presente4 ,apesar d'isso1 ,lili estava contente4 ,era ella que elle preferira1 e visto que elle era rico1 teria carruagens1 daria bailes e festas1 teria um modo original1 severo e elegante de vestir-se1 as suas amigas imitariam a mobilia das suas salas1 e o feitio dos seus chapus1 seria uma das raras mulheres que sabem gozar1 em toda a sua plenitude1 a vida social no que ella tem de fastoso e brilhante4 ,que importa que elle no saiba dizer amo-te com a voz que ,lili tinha sonhado6 ,a troco do seu ouro1 ouviria dos labios d'ella sem hesitao e sem lagrimas as palavras mysteriosas que a mulher pura s deve dizer ao eleito do seu corao1 as palavras magicas3 ,sou para sempre tua6 ,dez annos depois ,j lhe no chamam ,lili4 condessa4 ,tem um palacio magestoso e severo1 povoado com obras primas de todas as artes e de todas as civilisaes4 ,as festas que ella d so citadas pela sua pompa severa e artistica1 pela sua graa principesca1 pelos requintes de bom gosto que as singularisam entre todas4 ,tem um povo de criados correctamente respeitosos1 que obedecem a cada um dos seus accenos4 ,as suas carruagens quando passam ao trote largo dos finos cavallos inglezes excitam a admirao dos entendidos e a inveja dos profanos4 ,a condessa nunca est s4 ,hoje uma recepo a que no pde faltar1 manh um baile1 no outro dia um jantar diplomatico1 e as mil praticas da sua devoo aristocratica1 e as pequenas soires intimas que d1 e as festas a que preside em sua casa1 e que o seu gosto escrupuloso e cultivado dirige desde os minimos accessorios4 ,tudo isto lhe prende o tempo1 a absorve e a distrae4 ,tem duas filhas444 que uma governante ingleza educa e acompanha4 ,tem um filho444 que est no collegio4 ,tem marido444 que anda sempre por fra6 ,ser feliz8 ,quem ha que o possa dizer8 ,na sua pallida fronte marmorea no se reflecte seno uma sombra4 a mulher do mundo na sua accepo mais genuina4 ,viveu e vive da monstruosa vaidade que desde a infancia lhe deram por exclusivo alimento4 ,sabe que bella1 invejada1 cubiada1 admirada1 odiada at6 ,isto basta-lhe1 isso a sacia e satisfaz6 ,na velhice ,est sentada ao fogo na vasta sala opulenta povoada como outr'ora por tudo que ha mais bello e mais luxuoso4 ,um grande candieiro espalha1 atravez do seu globo fosco1 uma luz discreta e tranquilla sobre a mesa oval cheia de bagatellas preciosas4 ,a condessa est s1 e os seus olhos baos e amortecidos seguem as chammazinhas iriadas do fogo com uma insistencia pensativa4 ,com a formosura perdeu a fora dominadora que a tornava poderosa e querida4 ,os amigos da hora dos triumphos povoam agora as salas illuminadas e festivas onde suas filhas j casadas segundo as conveniencias da alta posio que occupavam1 continuam a vida de que sua me lhes dra o exemplo tentador4 ,o seu confessor comea a sentir-se cansado do escrupulo esmiuador com que a condessa aproveita os longos ocios da solido para esgravatar piedosamente nos mais escuros escaninhos da consciencia4 --,minha senhora1 diz-lhe o bom do abbade1 que j no era o moo almiscarado dos dias da mocidade1 e que ganhra em abdomen o que perdera em mystica elegancia2 minha senhora1 no nos percamos em funestos exageros4 ,deus no quer a morte do peccador1 snr4a condessa4 ,nem essa distraco ultima lhe ficra4 ,as praticas adocicadas do confessionario1 aquelles extasis a um tempo deliciosos e pungitivos1 as confidencias segredadas a meia voz1 a analyse fina e delicada dos peccados mais subtis1 tudo isso lhe falta para suprema distraco4 ,no fim de contas a sua vida no fra mais do que um sonho frustrado1 a carreira impetuosa e desvairada atrs de uma sombra que fugia sempre6 ,no tivera as livres e salutares expanses da alegria infantil1 no tivera os sonhos cariciosos e ideaes da adolescencia1 no fra filha1 nem amante1 nem esposa1 nem me6 ,agora j no saberia ao menos ser av6 ,e pelos recantos sombrios do aposento enorme1 a condessa julgou ver deslisar uma pequenina figura de cabea annellada e loura1 uma figurinha que dava pelo nome de ,lili6 ,era o phantasma saudoso de sua infancia que passara6 --,minhas filhas--murmurou baixinho a altiva senhora1--perdoae-me pelo amor de ,deus1 assim como n'este momento eu perdo minha me6 ,,capitulo ,,viii ,casamentos pobres e casamentos ricos ,uma das accusaes mais frequentes que hoje se dirigem aos homens que elles so egoistas1 interesseiros1 que introduzem o calculo e as finanas no que devia ser um impulso espontaneo do corao1 que confundem um pouco nos seus sonhos do futuro o mercantilismo e o amor4 ,eu1 que no gosto de julgar sem ter conhecido ao menos as causas que produzem um certo e determinado effeito1 lembrei-me de observar de perto1 nos costumes e praticas de todos os dias1 se eram realmente bem cabidas as censuras frisantes que por ahi ouo continuamente poro mais feia da humanidade4 ,uma cabana e o teu corao6 eis o que antigamente soluavam aos ps das suas deusas de biscuit os trovadores de algodo em rama4 ,um rez de chausse muito commodo e quatro contos de ris de rendimento6 eis o minimo a que hoje aspiram nas suas suspirosas alegrias os pretendentes mais positivistas da nossa quadra utilitaria e mercantil4 ,mudou a tal ponto o corao humano1 que j os sinceros e impetuosos sentimentos no possam acclimatar-se n'elle8 ,isto caminha n'uma tal e to rapida decadencia1 que tudo que era bom1 honesto1 sincero no amor1 tenha fugido assustado para outras regies ainda inexploradas8 ,sinceramente no o acreditamos4 ,em primeiro logar1 em todas as pocas e em todos os paizes1 o desinteresse absoluto1 o completo desprendimento dos bens da terra1 foi cousa muito rara1 e muito para notar-se com espanto4 ,que o digam os claustros sem conto1 povoados de pallidas monjas juvenis1 que o mundo expulsava do seu seio1 por no tr que lhes dar nenhuma das alegrias naturaes que so o apanagio mais caro da mulher6 ,se alguma differena temos que apontar so as conquistas alcanadas pela familia1 nos terrenos que at aqui usurpara o egoismo e a ambio do homem4 ,mas1 admittindo mesmo que se accentue na nossa poca1 com uma certa fora o interesse pessoal1 que um dos elementos mais esterilisadores que pde existir na sociedade1 no demos s ao homem a culpa de essa tendencia nefasta4 incontestavel que proporo que as civilisaes se desenvolvem1 crescem as necessidades1 cresce o amor do luxo1 sem que para todos cresam proporcionalmente os meios de satisfazer essas aspiraes fataes4 ,no portanto espantoso1 que o homem1 ainda o mais dedicado e crente1 antes de tomar aos hombros o pesadissimo encargo da familia1 mea as suas foras1 calcule com preciso mathematica os meios de que dispe para cumprir as obrigaes que acceita1 e muitas vezes diante da grande desproporo que encontra entre aquelles e estas1 suffoque a voz do sentimento e siga os austeros e aridos conselhos da razo6 que a familia1 tal como est constituida na sua generalidade1 estabelece um grandissimo desequilibrio entre os deveres do homem e os deveres da mulher4 ,se a esta1 em face da consciencia e da razo1 cabe a tarefa mais espinhosa1 a misso mais elevada e mais complexa1 nem por isso1 logo que ella fecha os ouvidos a esta voz superior que to poucas escutam e que to poucas entendem1 se acha realmente forada a outra cousa que no seja consumir sem produzir1 receber sem dar1 acceitar proteco1 amparo1 ajuda1 sem pagar estes beneficios com beneficios equivalentes4 ,queixam-se do homem porque elle conta com o dote da noiva1 e este entra com bastante peso na balana dos seus affectos4 ,que dizem ento da mulher que casa para ser livre1 para ser independente1 para ter diamantes e rendas preciosas1 para frequentar os bailes1 os theatros1 os passeios1 para ser uma taboleta ambulante do luxo real ou do luxo hypothetico do mnage8 ,imagine-se1 por instantes um rapaz moo1 intelligente1 cheio de aspiraes ss1 de boa vontade e de energia1 dotado de ricas faculdades intellectuaes1 capaz de conquistar fora de perseverana1 de trabalho e de privaes1 um lugar distincto na sciencia ou na industria1 na politica ou no magisterio4 ,no tem dinheiro1 ou tem apenas uma pequena fortuna que o pae lhe legou1 juntamente com um nome honrado4 ,sente a natural aspirao de completar a sua existencia1 unindo-se mulher que mais ou menos lhe povoou os sonhos de adolescente4 ,no tem tempo para escolher2 absorve-o o trabalho a que forosamente tem de consagrar quasi todas as suas horas4 ,no tem um conhecimento profundo da natureza feminina4 ,os nossos costumes com as suas reservas hypocritas1 com as suas precaues restrictas1 que do ida pouco lisongeira do pudor e da castidade das mulheres portuguezas1 oppoem-se a que o homem tenha d'ellas um conhecimento que no seja frivolo1 ridiculo1 superficial--o conhecimento que se adquire em uma sala entre duas quadrilhas sensaboronas1 ou n'um camarote durantre um entre-acto cheio de tedio4 ,no pde pr-se pelo mundo busca de uma excepo3 o molde das nossas meninas da sociedade varia muito pouco4 ,todas sabem bordar a matiz1 tocar a ,somnambula e o ,trovador ao piano1 fazer housses de crochet1 papaguear em duas ou tres linguas puerilidades comicas1 danar os ,lanceiros e criticar as amigas intimas4 ,n'estas circumstancias o que pde fazer o pobre moo8 ,ou resistir s solicitaes impetuosas da mocidade1 necessidade instinctiva que sente do conchgo de familia1 d'aquelle sweet home que tanto imperio tem no corao de todo o homem de pensamento e de trabalho2 ou tem de contentar-se com a escolha feita pressa de uma d'essas rachiticas flres de salo4 desinteressado no sentido mais amplo da palavra1 tem aquellas santas utopias que so a suprema riqueza dos vinte annos2 na sua escolha impera tudo menos o calculo e a arithmetica4 ,prefere1 pois1 uma noiva pobre4 ,applaudem-lhe a generosa imprevidencia2 gabam-lhe os sentimentos honestos e cavalleirosos2 envolve-o um certo prestigio durante uns poucos de mezes4 ,os mezes da lua de mel4 --,portou-se admiravelmente6--exclamam as mams1 contemplando com ar piedoso as filhas sem dote1 e envolvendo na sua furia rancorosa os dandys que andam pesca de noivas ricas1 pelas aguas turvas da nossa sociedade4 ,resultado pratico de tudo isto3 seis mezes depois de casado1 o nosso pobre heroe v-se a braos com todos os encargos de um mnage a que falta o conchgo e a alegria4 ,como no teve tempo de fazer-se amado1 como o amor no fim de contas um genero carissimo que o corao das meninas de hoje prodigalisa muito pouco1 encontra em casa ao voltar das luctas quotidianas1 a que se arrojou com novos alentos e nova f1 um acolhimento frio1 um rosto desconsolado1 uma mulher que finge resignao e que s tem despeito1 porque o casamento lhe no deu nenhumas das frivolas vantagens que lhe promettera4 ,tinha sonhado com toilettes elegantes1 uma robe de chambre bordada1 uma touca de manh como as que desenha a phantasia pittoresca dos caixeiros da ,mode ,illustre1 queria uma casa de jantar elegante com mobilia en vieux chne1 aparadores carregados de finas porcellanas1 um criado de casaca preta e modos de embaixador1 passando discretamente1 sem fazer barulho1 por cima do parquet suisso1 cuidadosamente encerrado4 ,gostava de ter um boudoir todo de seda cr de perola onde ella podesse ler1 preguiosamente deitada no no seu pequeno fauteuil muito flascido1 diante de um guridon cheio de violetas e de gardenias1 os ultimos romances1 as revistas estrangeiras1 as criticas musicaes dos mestres mais famosos4 ,sempre tivera a esperana de fugir pelo casamento presso sordida da miseria paterna4 ,detestava a vida que tinha levado em solteira1 fazendo ella propria os vestidos para ir ao baile1 cerzindo redes nas botinas de setim branco1 com os dedos picados1 um roupo de chita amarrotado1 e o corao cheio de rancor e inveja s que tinham o luxo e o conforto que ella no tinha4 ,aquelle homem apparecera-lhe4 ,era pobre1 verdade1 mas disseram-lhe que tinha talento1 que tinha ou que ia ter uma posio2 acceitara-o por cansao1 por desalento1 porque se impacientava j de esperar mais tempo4 ,levara comsigo os mesmos sonhos que a tinham perseguido1 imaginava casas imprevistas1 edificava hypotheses extravagantes2 fora de ambicionar a riqueza1 acabava por se convencer que havia de ser rica4 ,e agora6 ,tudo que a cercava era to mediocre6 ,se tivesse pachorra1 se tivesse boa vontade1 podia enfeitar com plantas o seu pequenino quarto de trabalho1 pr ao menos umas cortinas de cassa branca na janella4 ,no tendo a riqueza1 podia ter o aceio2 no tendo o luxo1 podia ter a graa4 ,os livros bem dispostos sobre a mesa1 cujo tapete ella propria houvesse feito ao sero1 uma jarra de loua com um ramo de madresilva ou de rosas de maio1 as cadeiras agrupadas com um certo ar de intimidade e de alegria1 um aspecto de pobreza satisfeita que faz to bem alma6 ,vestiria um simples roupo de fazenda clara1 sem enfeites1 mas de um feitio elegante e gracioso1 os cabellos bem penteados1 uma flr presa nas tranas4 ,iria ella mesma cosinha arranjar uns pratinhos de que elle gostasse1 o pobre trabalhador que noute voltaria cansado1 mas cheio de f robusta e de profundas crenas1 porque o amor o amparava e lhe sorria6 ,dentro de uma gaiola1 na janella da casa de jantar1 haveria um canario muito alegre1 no tanto ainda assim como ella1 a pequenina mnagere muito atarefada1 muito contente1 espalhando na sua casa modesta e pobre um perfume de virtude1 de castidade1 de ternura animadora e s6 ,mas quem que a tinha educado para cumprir este programma to simples e to difficil8 ,quem lhe tinha communicado com o leite a noo d'estes graves e honestos deveres8 ,a me que a passeara de baile em baile1 cata de um marido8 ,os livros que ella lra e que fallavam de duetos apaixonados entre um bardo pelintra e uma menina romantica com olheiras e muito p de arroz8 ,o marido ao principio quer luctar2 procura educal-a elle1 j que a familia a no educou2 vem de fra muitas vezes preoccupado com os seus estudos1 com um problema scientifico que deseja resolver1 com uma especulao industrial que talvez lhe d a paz e a aurea mediocridade a que tanto aspira1 por amor da sua querida mulhersinha444 no importa6 ,sacode como um peso importuno todos os pensamentos que o absorviam1 senta-se ao p d'ella1 porque a v triste1 enfastiada1 com um certo desleixo no aspecto que lhe aperta o corao1 procura no reparar1 para a casa sem arranjo a que falta aquella poesia do lar que tanto o captivou nas suas scismas de rapaz2 conversa1 afaga-a1 desenrola diante do olhar d'ella vago e distrahido um horisonte de futuras alegrias4 ,um dia1 porm1 descobre com magoa que ninguem jmais poder sondar nem comprehender1 que tudo que elle esperou um dia assenta n'uma base chimerica2 que essa mulher1 a quem associou a sua vida1 em vez de ser-lhe amparo1 guia1 consolao1 conselho1 em vez de luctar ao lado d'elle para conquistarem ambos a ventura dos filhos1 o dce e tranquillo socego da velhice1 vive toda absorta n'um sonho de imaginarias riquezas2 que empallidece de raiva de vr as outras ricas emquanto ella pobre2 que amaldia todos os dias o alimento que elle lhe ganha laboriosamente1 porque lhe no servido em pratos do ,japo2 que olha com desdem para os modestos presentes que elle custa de longas economias consegue comprar-lhe2 que detesta emfim tudo que elle ama2 que tem o tedio invencivel de tudo que elle julgou1 por muito tempo1 o resumo de todas as suas alegrias6 ,n'essa hora dolorosa e que tem de soar fatalmente na vida de quasi todos estes obscuros luctadores1 alguns1 os mais fracos1 amaldioam tambem a sua austera e honrada pobreza1 e tractam de fugir-lhe atirando-se a todos os turvos mares da especulao e do mercantilismo6 ,outros--os fortes--afastam-se com desdem de aquella que1 sem talvez saber o que fazia1 tentava arrastal-os por um declive funesto1 e isolam-se n'um mundo onde no querem a companhia de ninguem4 ,ha tambem os que1 despertando do sonho em que andaram embebidos1 descrem de tudo em que um dia acreditaram e cedem convico fatal de que no mundo no ha cousa alguma que seja digna1 desinteressada e sem liga de calculos vis4 ,a verdade que mais ou menos todos se arrependem e todos o deixam ver6 ,este exemplo que vae a pouco e pouco destruindo no corao dos moos a ida de que a familia1 em vez de roubar o alento e a fora ao homem1 os robustece e lhes d mais solidos alicerces4 ,no dia em que as mulheres tiverem coragem para supportarem com alegria e com intrepidez a pobreza que tanto as assusta1 vero como a base do casamento deixa de ser o calculo que hoje o macula4 ,se o homem1 que por natureza egoista1 comprehender que unindo a sua vida vida d'uma mulher dedicada1 adquire novas foras para a lucta em que anda empenhado1 incontestavel que deixar de considerar como unico elemento de prosperidade futura o dote da noiva que houver escolhido4 ,no basta ter coragem e ter intrepidez para supportar as privaes da pobreza2 preciso antes de tudo compenetrar-se bem da ida de que a pobreza tem grandes alegrias defezas aos ricos2 que a modestia dos meios no obsta a que possamos enflorar a vida dos que amamos1 com aquelle dce e poetico conchego1 que para a alma um ninho mais tepido e mais macio1 do que as pompas magestosas que envolvem theatralmente a vida dos millionarios4 ,,capitulo ,,ix ,a uma noiva ,minha querida ,maria3 ,a tua carta conta-me as tuas primeiras e adoraveis alegrias de noiva4 ,ests radiante6 ,subiste ao setimo co da ventura humana e crs que no possivel cahir de l4 ,fallas-me do teu vo branco1 da tua cora1 das palavras enternecidas que elle te disse1 das opulencias do teu enxoval1 do teu quarto de cama ,pompadour1 do amor que tens ao teu maridinho1 do futuro que sonhas radioso1 eu sei2 fallas-me de tudo1 filha1 e eu li esse poema gentil da tua mocidade com um verdadeiro enternecimento bem sincero4 ,fallas-me de tudo1 digo eu2 engano-me4 ,no me fallaste de uma cousa importantissima1 filha4 ,no me fallaste da panella4 ,sou eu1 pois1 que vou fallar-te1 com a mais profana das irreverencias1 d'este assumpto que um dos mais graves n'um mnage que principia4 ,credo6 exclamas tu com aquella moue engraadissima1 que eu te conheo do collegio1 e que sempre teve a habilidade de me fazer rir immenso4 --,pois eu sei l sequer se ha em minha casa uma panella6 ,pois eu hei de misturar as confidencias extaticas da minha mysteriosa e ideal felicidade com a relao das minhas cassarolas6 ,que tem este amor que me enleva e me arrebata1 com a comida que se manipula na cosinha6 ,deixa que eu te descreva as rendas e os setins com que me enfeito para lhe agradar a elle2 mas1 por ,deus1 pelo amor da arte1 da poesia1 da delicadeza feminil1 no queiras que eu ajunte a essas descripes uma nova receita de refugado4 ,ouve-me1 filha2 ninguem attende por ahi estas verdades1 que so elementares1 tudo quanto ha de mais elementar4 ,sabes onde se fabrca e se consolda a felicidade de um mnage8 ,na cosinha4 ,sabes de onde sahe muitas vezes a ruina de uma casa8 ,da cosinha4 ,sabes qual a origem de tantas doenas que por ahi nos desconsolam com os seus aspectos repulsivos8 ,a cosinha4 ,e tu entrando na vida conjugal1 acceitando o encargo d'almas1 porque a dona da casa acceita-o1 recebendo nas tuas pequenas mos delicadas a responsabilidade complexa de me de familia1 tu pobre querida ignorante1 ousas dizer desdenhosamente que nem sabes sequer se em tua casa ha cosinha4 ,pois sabe4 ,ests habituada a evocar com a aerea ligeireza dos teus longos dedos brancos as notas immortaes em que ,beethoven1 ,rossini1 ,mayerbeer nos legaram as mysteriosas riquezas da sua alma8 ,gostas dos delicados lavores inventados1 pela paciencia feminal1 dos bordados custosos1 das matizadas sedas1 de todo esse conjunto de graciosas futilidades em que ns dispendemos horas e horas da nossa vida8 ,pois1 minha querida1 logo que a mulher penetra no limiar da sua casa de esposa tem de antepr tudo que util a tudo que agradavel1 tem de adoptar como suprema divisa da sua vida a palavra--sacrificio6 ,e no creias que isto seja uma dolorosa e inutil mutilao do teu ser4 ,quanto mais te sacrificares1 cr que maior e que melhor te has de sentir4 ,ser como um progressivo ascender a uma esphera superior4 ,c em baixo ficam as pequenas vaidades1 as frioleiras inuteis1 as puerilidades infantis1 os despeitos raivosos1 toda a expresso mesquinha e imperfeita do teu organismo2 l em cima est a larga tranquillidade que ha de envolver-te como um delicioso banho tepido1 a consciencia plena de haveres attingido o fim para que foste creada1 a certeza divina da felicidade que communicas em torno de ti1 a satisfao do dever preenchido1 tudo emfim que nos eleva1 que nos depura1 que nos faz comprehender o motivo para que viemos a este mundo--aqui para ns--eminentemente estupido6 ,no te deslumbrem1 pois1 as primeiras alegrias da tua lua de mel4 ,entre parenthesis1 esta uma phrase que eu abomino1 pela simples razo de a achar falsa1 e causadora de falsas e funestas interpretaes da vida conjugal4 ,a lua de mel uma mentira2 no existe1 ou1 se existe1 no deve de modo nenhum existir1 o que vem a dar na mesma4 ,esse periodo officialmente consagrado1 que se funda em toda a especie de impostura1 deve ser abolido sem appellao por todos os pares honestos que se estimem e prezem4 ,imagine-se por um instante que os novos conjuges assumiram a liberdade de formularem em palavras tudo que tivessem no pensamento1 o que diziam um para o outro3 ,j conheo todos os teus defeitos1 j sei que hei de vir a dar-me muito mal comtigo3 achei-te ainda agora profundamente ridiculo n'aquella phrase que me disseste2 mas como estamos na lua de mel1 deixa-me que te beije com transporte1 que te recite ao piano o idyllio apaixonado da minha ventura1 que olhe para ti com a sentimentalidade pigas com que os caixeiros romanticos olham para as namoradas1 que minta emfim conscienciosamente1 como compete a quem se acha de posse de uma posio official e a quem no pde renunciar sem desdouro6 ,no seria profundamente ridiculo este dialogo8 ,pois sabe1 minha querida1 que em cada cem casaes1 oitenta podiam em boa consciencia traval-o entre si4 ,muitas vezes a lua de mel no passa de uma dolorosa iniciao4 ,mais tarde as circumstancias modificam-se1 o que nos parecia prenuncio de desgraas transforma-se em tranquilla felicidade2 os caracteres1 que no fundo se repelliam1 embora na apparencia se afagassem1 adaptam-se e identificam-se em resultado da ultima convivencia2 a paz domestica conquista-se1 com esforos meritorios de parte a parte2 o que ha pouco era mentira1 torna-se uma verdade luminosa e pura4 ,e o que prova tudo isto1 minha amiga8 que o tempo mais difficil da nossa vida de casadas aquelle que os tolos e os impostores chamam1 seguindo a estupida rotina de seculos1 o mais delicioso6 ,sou adoravelmente feliz1 porque ainda no conheo bem meu marido1 nem meu marido me conhece a mim444 ,palavra1 que acho isto uma esplendida interpretao da vida domestica644 ,commentem bem esta phrase implicitamente incluida em todos os louvores que se tecem celebre lua de mel1 e ahi tem os divorcios1 os adulterios1 os intimos dramas conjugaes1 as luctas atrozes em que dous entes se dilaceram at que n'elles morra a alma e o corpo6 ,mas1 minha ,maria1 que longe me arrastou esta digresso apaixonada4 ,perdoa-me4 ,se bem me lembro1 estavamos ambas muito mais terra a terra4 ,eu tinha conseguido fazer-te largar o teu piano de ,erard1 as tuas aquarellas e os teus bordados1 e tinha-te arrastado at cosinha de tua casa1 cuja existencia tu teimavas em ignorar4 ,talvez tu penses1 minha pobre amiga1 que esse senhor1 discreto1 ameno1 gracioso1 condescente1 que acha graa a tudo que tu dizes1 que concorda com todas as tuas opinies1 que s vezes se ajoelha submissamente aos teus ps1 e te diz baixinho--adoro-te6--com uma expresso de tenor em disponibilidade1 que se delicia com as tuas toilettes1 que d muita atteno variedade artistica do teu penteado1 que 1 emfim1 todo teu no sentido falso d'esta palavra1 pensa tudo quanto diz1 e se conservar por muito tempo n'esse adoravel e massador diapaso844 ,enganas-te4 ,elle enfastia-se soberanamente do seu papel1 estuda-te com ar sorrateiro1 e pede a ,deus que acabe o periodo em que tem de renunciar sua individualidade1 para se conformar com os usos e costumes da sociedade elegante1 de que faz ou quer fazer parte4 ,acabado que seja esse periodo que tem limites determinados1 dize-me tu qual o meio de que tencionas usar para o prenderes junto de ti1 para que elle comece ento a ser sincera e dignamente o teu marido1 isto 1 o teu melhor e mais fiel amigo1 para que a vossa vida commum assente em bases solidas e perduraveis4 ,julgas que basta para isso vestires o teu mais bonito vestido1 penteares o teu bello cabello louro do modo mais excentrico e original1 dizeres com a tua voz sonora e grave os paradoxos mais scintillantes1 mostrares-lhe as riquezas com que uma esmerada educao povoou o teu espirito8 ,innocente creatura6 no conheces o que o homem1 o animal mais prosaico e positivo da creao6 ,o que elle quer depois das suas luctas com os outros homens1 das faras que obrigado a representar para o publico1 dos combates em que alternativamente vencido e vencedor1 o que elle quer descanso1 conchego1 esquecimento de todos os artificios que vo l por fra1 e sobretudo 7no te horrorises1 minha sonhadora67 e sobretudo commodidades physicas4 ,d-lhe a melhor das poltronas1 o mais confortavel dos gabinetes1 o mais suave e caricioso dos sorrisos1 e1 principalmente1 d-lhe um bom jantar4 ,cheguei emfim1 ao ponto a que tendia desde o principio d'esta carta4 ,confesso que me custou6 ,isto de mulheres644 ,tu provavelmente imaginas que um bom jantar cousa que pertence exclusivamente aos dominios do bom cosinheiro4 ,como te enganas6 ,em primeiro logar1 no ha nada peior que um bom cosinheiro4 ,um bom cosinheiro a ruina de uma casa1 um envenenador de barrete branco1 um assassino de abdomen tranquillisador e hypocrita4 ,um bom cosinheiro comea por nos dar cabo da bolsa1 o que terrivel2 acaba por nos dar cabo do estomago1 o que simplesmente irremediavel4 ,todos os restaurants luxuosos possuem a prenda de um bom cosinheiro4 ,pe um pobre homem a jantar durante dous annos a fio n'um d'esses restaurants elegantes1 e depois conta-me por miudos em que estado miseravel vaes dar com elle4 ,destruida esta primeira ida1 deixa-me ainda dizer-te uma cousa que tu no sabes4 ,a mesa no tem tal a importancia insignificante que tu embirras em querer dar-lhe4 ,sendo o estomago um dos orgos principaes da humanidade1 absurdo desdenhar d'esse modo o que tem com to elle estreitas relaes4 ,se eu fosse pedante era capaz at de te provar que o livro que descrevesse o que o homem tem comido nas pocas primitivas e nas quadras de civilisao refinada e perfeita1 nos periodos de barbaria e nos tempos de desenvolvimento e de progresso1 seria o livro mais completo da historia universal da humanidade4 ,o alimento faz o homem4 ,os antigos scandinavos1 os reis do mar1 os impetuosos e bravios caadores de uroch1 brancos1 athleticos1 sanguinarios1 de olhos azues metallicos e faiscantes2 alimentavam-se nos seus festins cyclopicos da carne quasi crua dos animaes que matavam4 ,nero gostava de saborear as contorses de agonia das muras que creava nos seus viveiros1 e que alimentava muitas vezes com o corpo palpitante dos escravos1 e nas festas voluptuosas e crueis que dava na sua ,casa de ouro1 emquanto danavam as bailarinas gaditanas e egypcias1 os convivas1 coroados de rosas1 esperavam que o peixe tivesse soltado o ultimo arranco de vida para se servirem do saboroso acepipe4 ,no vs atravez d'estes dous exemplos uma raa de instinctos barbaros1 e uma civilisao pavorosa e apodrecida8 ,o homem moderno enfraquecido pela degenerao progressiva de umas poucas de geraes1 tendo de dispender uma enorme poro de energia e de fora nas luctas incessantes a que o obrigam as infernaes exigencias da nossa poca1 precisa1 por assim dizer1 de ser reconstituido dia a dia4 n'isto que as mulheres no pensam bastante4 ,depois em um mnage1 sobretudo de medianos haveres1 a mesa relaciona-se com tres questes de uma alta importancia4 ,primeiro1 a questo da saude1 que sobreleva a todas4 ,segundo1 a questo da economia de que depende a paz1 a alegria1 o socego1 a elegancia modesta da vida intima2 o bom humor do marido1 a toilette fresca e garrida da esposa1 a alvura da toalha pezada de linho adamascado1 tudo que emfim constitue o conforto e a alegria domestica4 ,terceiro1 a fidelidade do marido s modestas mas saborosas iguarias da sua mesa de familia4 ,o jantar tem de ser bem feito1 economico e salubre4 ,eis o grande problema4 ,para o resolveres no te fies n'uma cosinheira muito estupida1 muito suja e muito rotineira1 nem n'um altivo sujeito cheio de theorias estapafurdias e de nomes francezes estropiados4 ,fia-te em ti4 o mais seguro1 o mais razoavel1 aquillo que teu marido te ha de agradecer mais4 ,no estragues as tuas finas mos de duqueza1 no desas humilhante posio de cordon bleu da tua propria casa1 mas dirige tu esse ramo to importante de administrao domestica4 ,estuda essa sciencia to util e to descurada que se chama chimica culinaria1 e vers como a saude dos que tens debaixo da tua guarda ha de progredir com isso4 ,no te injuries1 nem te afflijas ento quando conheceres que o sorriso que teu marido negou s sabias architecturas do teu penteado1 lhe desabrocha nos labios franco e alegre em frente de um caldo feito sob a tua direco1 de um roastbeef temperado pelas tuas mosinhas de fada1 de um novo acepipe que inventastes e que lhe despertou o esmorecido appetite4 ,a arte de ser esposa e de ser me funda-se n'um segredo muito simples4 ,no se trata de sermos felizes custa dos que so nossos2 trata-se de fazermos felizes os nossos1 nossa propria custa4 ,comeamos pelo sacrificio1 e acabamos pela apotheose6 ,mas que de cousas eu fui buscar para te dar uma lio de azeites e vinagres4 ,ai6 filha1 que tenho aprendido minha custa que na terra no ha nada pequeno1 e que todas as cousas que de perto se nos afiguram mesquinhas1 esto de tal maneira ligadas e relacionadas entre si1 que formam unidas este grande conjuncto que se chama a vida4 ,,capitulo ,x ,o dever de ser bonita ,dizia uma das mais espirituosas escriptoras da ,frana1 aquella para quem ,theophile ,gauthier inventou o gracioso epitheto de bas lilas1 livrando-a d'este modo da terrivel1 grotesca e immerecida alcunha de bas bleu1 que o primeiro e mais sagrado dever da mulher ser bonita4 ,abaixo o paradoxo6 bradou logo em torno a turba-multa das feias1 furiosas contra a sentena que as punha por assim dizer fra da lei4 ,foi necessario entrar em explicaes1 e todas ns vemos ento a comprehender o que ,madame de ,girardin entendia pela belleza feminina4 ,ser bonita no fim de contas no ter frmas esculpturaes--isso j passou de moda1 no ter feies perfeitas--no ha nada mais profundamente monotono e massador2 no ter collo de alabastro1 cabellos de ebano1 labios de rubis1 dentes de perolas1 olhos de diamante preto1 testa de marfim1 etc41 etc41 etc4 --,deixemos isso aos artifices mais ou menos engenhosos1 que trabalham com as sobreditas materias1 e aos trovadores mais ou menos choramigas1 que manejam as sobreditas rimas2 no saber olhar com expresso ardente ou languida consoante o genero da phisionomia2 saber sorrir com malicia ou com ternura1 saber inclinar-se meiga e scismadora ao influxo do um sentimento occulto1 ou erguer a cabea altiva e triumphante com a plena consciencia da propria formosura6 ,ser bonita1 ser bella1 na accepo elevada e completa d'esta palavra1 possuir a graa mysteriosa que prende os que param junto de ns1 que attrahe os que vo passando ao nosso lado4 ,resta agora analysar os fios tenuissimos de que se tece este divino encanto da mulher6 ,a graa de que eu fallo feita principalmente de intelligencia e de bondade4 ,o primeiro dom concede-o ,deus1 e aperfeioa-o e depura-o a vontade humana2 o segundo adquire-se custa de sacrificios cccultos1 de abnegaes intimas1 de aspiraes continuas e incessantes para a suprema perfeio6 ,todos podem ser bons6 preciso que os espiritos se compenetrem profundamente d'esta verdade1 que o primeiro passo para a conquista do bem1 que todos ambicionam e que tantos julgam vedado4 ,no ha terreno1 por mais duro1 inhospito e ingrato1 a que um cultivo cuidadoso e vigilante no possa arrancar flres4 ,no homem--e quando digo homem1 refiro-me geralmente humanidade--1 no homem ha preso1 algemado1 vencido1 um robusto animal de tendencias bravias1 que lucta continuamente para reconquistar a perdida liberdade4 ,foi a aco civilisadora de seculos sem conta que domou essa fra de funestos instinctos2 a presso continuada e constante de uma vontade energica1 de uma razo esclarecida1 de uma percepo profunda de todos os deveres1 que conserva e sustem intimidado e submisso o terrivel selvagem4 ,uns precisam de desenvolver n'esta porfia assidua1 mais tenacidade e mais fora1 outros de indole nativamente branda e pacifica1 podem deixar adormecer de vez em quando a accesa vigilancia4 ,so no fim de contas os primeiros que teem maior merecimento4 ,ser bom quasi sempre um esforo1 mas para ser meritorio cumpre que este esforo seja to invisivel para todos os olhos1 que a analyse ainda a mais perspicaz no chegue a dar por elle4 ,a bondade o supremo attractivo da mulher1 aquelle que mais aco exerce em torno de si4 ,a bondade pois a verdadeira belleza feminina4 ,imaginae que a ella se reune a intelligencia1 e tendes o ideal da perfeita formosura1 da unica que s se apaga e extingue com a vida1 da que excita os grandes1 os eternos1 os sos e robustos amores4 ,o culto pago da belleza plastica um dos erros que mais ha de custar a destruir1 e que no entanto se acha to deslocado no ideal moderno1 como se achava no seu verdadeiro lugar1 no velho mundo que a revoluo deitou por terra alluido e decomposto6 ,a mulher transviada por esta falsa comprehenso do seu destino1 s aspira a ser bonita no sentido futil e exterior da palavra1 s inveja as que possuem os ephemeros encantos de que foi desherdada1 e no percebe que a belleza interior aquella cuja gloriosa conquista1 accessivel para todos1 lhe podia dar a realeza e o predominio4 ,a quantas meninas sentimentaes de olheiras roxas e phrases sonoras no temos ns ouvido lamentar a pouca durao dos affectos terrestres1 a inconstancia do homem1 a ingratido cruel que faz definhar as suas victimas em desolador abandono6 ,apesar do aspecto ridiculo de que estas romanticas e elegiacas creaturas se revestem1 que ninguem se ria d'elles6 ,victimas se chamam1 e victimas so de certo1 mas no de imaginarias perfidias ou de tragicas aventuras4 ,so victimas da sua educao falsa1 da sua sentimentalidade pigas1 da ida inteiramente errada que formam da vida pratica4 ,imaginaram que haviam de ser eternamente amadas1 amadas com extasis poeticos1 com grandes discursos inflammados1 com acompanhamento de viola franceza e de epistolas em verso1 que tivessem de mais em amor1 o que tivessem de menos em grammatica2 sonharam ser as pallidas ,julietas apaixonadas1 recebendo luz branca da lua1 as confidencias convulsas dos seus ,romeos de obra grossa2 e para attingirem este ideal dos seus desejos suppozeram que lhes bastavam a alvura da tez1 o brilho do olhar1 a frescura dos labios1 a abundancia dos cabellos1 e por cima de tudo isto a garridice1 a pretenso1 a ignorancia e a toilette6 ,em muito menos tempo do que preciso para murchar uma rosa1 os proprios homens se enfastiaram4 ,e eil-as inconsolaveis e inconsoladas1 maldizendo a traio masculina1 que lhes no deu mais que o castigo merecido6 ,houve tempo em que a mulher feia tinha como unico refugio o convento4 ,felizmente1 porm1 esse tempo vae longe4 ,o homem j no exige da companheira do seu destino1 como condio unica de felicidade1 encantos que murcham com os annos4 ,assenta em mais solidas bases a ventura conjugal4 ,mulheres1 sde boas1 cultivae o espirito1 e allumiae a consciencia2 na vida do homem ha horas escuras2 que a luz que sabeis diffundir as illumine4 ,a sociedade tem desfiladeiros sombrios1 tem selvas ignotas1 como o inferno do ,florentino1 aprendei a guiar com a vossa pequena mo branca e macia os robustos luctadores1 que s vezes param no limiar d'esses caminhos1 com a vista incerta e o passo hesitante4 ,e isso que hoje se exige de vs4 ,eu vou mais longe que madame de ,girardin1 na sua arrojada proposio que to poucos comprehenderam4 ,quando vejo um homem sou capaz de adivinhar a que genero pertence a mulher que elle tem por esposa2 quando entro n'uma casa basta-me vr a disposio dos moveis1 a escolha dos livros1 o aspecto das creanas1 a expresso das cousas mudas1 para poder afianar se a dona d'essa casa1 a divindade modesta e tutelar d'esse pequeno templo1 digna do seu titulo sagrado de esposa e me4 que tudo falla1 para quem sabe ouvir1 e a mulher sobretudo--natureza expansiva e vibratil--pe uma indiscrio involuntaria em cada objecto de que se rodeia4 ,mais de uma vez tenho ouvido vozes femininas levantarem-se em favor da emancipao politica e social do seu sexo4 ,pobres sres hybridos e incompletos so de certo os que teem to acanhada ida do destino da mulher4 ,no dia em que esta fr emancipada1 cahir para sempre do throno que tem seculos por degraus4 que a emancipao politica seria a abdicao domestica1 quer dizer1 a mais dolorosa catastrophe que tem affligido as sociedades4 ,imagino que nenhuma verdadeira mulher a acceitaria6 ,a familia tal como a entendem todos que sabem sentir e pensar1 o refugio onde se vae buscar paz e esquecimento2 o templo onde encontram direito de asylo os parias que andam c fra aos baldes da ira popular2 o lugar querido1 inaccessivel onde os athletas do pensamento acham momentos de alegria descuidada1 onde os mineiros cansados da sciencia1 os que andam pelos antros obscuros arrancando segredos aos seios da natureza1 procuram a clara e festiva luz dos affectos simples1 onde os politicos esquecem a maldade e a mesquinhez humana1 onde os diplomatas fallam verdade1 onde os argentarios fecham os ouvidos ao tinir metallico do ouro1 onde os que caminham levando no corao as terriveis hydras do odio e da inveja se assentam por instantes embevecidos na musica matinal de umas vozes infantis que chilram1 de uma voz crystallina que adverte1 aconselha e consola4 ,os que roubarem a familia ao incansavel trabalhador d'estas eras de febre e de combate1 roubam-lhe a fora1 a energia1 a consciencia1 a dignidade1 o amor1 roubam-lhe tudo emfim6 ,emancipar a mulher atacar na sua base a familia1 trazer para dentro do lar as paixes tumultuosas da praa publica1 destruir o mais doce dos poderes a que o homem se curva1 o temivel poder da fraqueza feminina6 ,e no se diga que eu combato a mulher quando combato a sua libertao absoluta perante a sociedade e perante a lei4 ,os que pretendem furtal-a tutella salutar1 que a contm na esphera que lhe propria1 que so os seus peiores inimigos4 ,dentro1 porm1 d'essa esphera quantos servios ella deve fazer e no faz6 ,exemplifiquemos3 ,a mulher na generalidade ambiciosa4 ,qualidade que no est de todo em todo desligada de peccado1 mas qualidade util na maior parte dos seus resultados4 ,esta ambio pela influencia latente que exerce no animo masculino leva-o1 no poucas vezes a arrojados commettimentos e a grandes e nobres cousas4 ,at um certo e determinado limite1 portanto benefica a ambio da mulher4 ,transviada1 porm1 do seu verdadeiro fito1 quantas vezes esta ambio mal dirigida por uma educao eivada de mesquinhos preconceitos no arrasta o homem at infamia1 deshonra1 quebra de todos os pudores1 ao suicidio6 ,a garridice1 o amor da toilette1 das pequenas futilidades elegantes1 o gosto do luxo1 das graciosas invenes da moda1 ahi est uma das graas1 um dos elementos do dominio da mulher4 ,mas ainda n'este ponto cumpre que uma razo clara1 que uma percepo definida do dever1 a guie1 a dirija1 a constranja nas suas tendencias muitas vezes exageradas4 ,no ha nada mais agradavel n'um mnage do que uma mulher moa1 fresca1 elegante1 da graciosa e simples elegancia que provm do gosto apurado e distincto2 os requintes de luxo exterior so1 por assim dizer1 na vida do homem1 uma superfluidade necessaria1 so um conchego para o corpo1 uma caricia para a alma1 mas que nunca o luxo conduza a familia mais leve transigencia indelicada1 que nunca a mulher lhe sacrifique um s dos seus deveres6 ,todos so igualmente respeitaveis2 todos esto unidos entre si por uma cadeia de los inquebrantaveis4 ,na mulher ainda mais do que no homem1 o abuso das qualidades uteis leva s mais funestas consequencias4 ,para a mulher ainda mais delgada a linha do dever4 ,o caminho estreito1 difficil1 sinuoso3 para quem d'elle ou para alm d'elle est o erro4 ,por isso quantas senhoras s vezes dizem3 ,queixam-se de ns porque somos garridas1 e se nos vem modestas1 sem prendermos a minima atteno s futilidades perigosas do luxo1 condemnam-nos ou fogem do nosso lado4 ,queixam-se de ns porque somos ignorantes1 mas se o nosso espirito se accende em curiosidades scientificas1 se lmos1 se estudamos1 se tentamos ir um pouco alm dos limites impostos ao nosso sexo1 somos alcunhadas de pedantes1 e de preciosas ridiculas6 ,queixam-se de ns porque somos devotas1 supersticiosas1 porque levamos ao exagero as praticas do catholicismo1 porque nos deixamos guiar mysteriosamente pela mo occulta do padre1 mas se procuramos livrar-nos d'este jugo1 se queremos a independencia absoluta do espirito e da consciencia1 chamam-nos livres pensadoras1 e os homens sentem medo instinctivo de entregar a sua honra nas nossas mos4 ,e por aqui adiante uma longa jeremiada n'este teor4 ,eu1 porm1 mesmo concedendo que ha um fundo de incontestavel verdade no que dizeis1 respondo-vos1 minhas senhoras1 que positivamente porque a vossa misso difficil que ella tem tamanha importancia e pde adquirir de dia para dia uma importancia ainda maior4 ,no dia em que comprehenderdes claramente o vosso destino1 sabereis ento o que ter a graa1 a elegancia1 o encanto exterior1 sem que vos contaminem as criminosas vaidades2 o que ser intelligente1 instruida1 reflexiva sem conhecer o pedantismo1 e a ridicula pretenso2 o que ter o ideal religioso1 sem o manchar com supersties1 preconceitos1 intolerancias funestas2 o que aproveitar cada uma das vossas riquissimas faculdades equivalentes1 mas no iguaes1 das do homem1 sem que a vossa inercia as esterilise1 sem que a vivacidade nervosa do vosso temperamento as leve a extremos e demazias altamente funestas familia e sociedade da qual aquella o mais perfeito reflexo4 ,,capitulo ,,xi ,o trabalho das mulheres ,o preconceito mais funesto1 que ainda nasceu e medrou n'este mundo1 o que considera o trabalho uma escravido deshonrosa4 ,comea hoje a irradiar os seus primeiros clares rubros a aurora do dia que ha de vr o trabalho santificado1 que ha de assistir divina apotheose d'esse bemfeitor supremo da humanidade1 d'esse amigo de todas as horas1 que conforta os animos desconsolados1 que levanta os animos abatidos1 que distre de todos os tdios1 que lucta contra todas as inercias4 ,por emquanto1 sobretudo entre ns1 rara a mulher bastante superior para confessar que trabalha1 e o que peior de tudo1 rara a mulher que trabalha sem absoluta e incontestavel preciso4 ,mais d'uma vez temos visto senhoras1 que pela sua educao mais apurada e mais completa deviam estar a cima de to profunda ignorancia dos seus deveres1 confessarem que no gostam de fazer nada1 que so preguiosas1 que no tem com que se distrahir1 que os dias lhes parecem seculos1 etc41 etc4 ,e no entanto qual ser a creatura bastante desfavorecida de ,deus1 para no poder aproveitar proficuamente as horas do dia1 sempre curtas para quem as sabe empregar bem8 ,fallemos primeiramente das meninas solteiras de pouca edade2 para essas1 logo que queiram tornar-se dignas do alto destino que as espera1 pouco ser sempre o tempo para se instruirem1 para adquirirem os varios e complexos conhecimentos de que carecem antes de exercerem a sua misso complexa4 ,no so smente os futeis ornamentos superficiaes em que ellas devem pr a mira2 a par d'esses1 que tambem so indispensaveis1 ha todo um mundo1 que a mulher ignora1 e cuja explorao lhe enriqueceria o espirito de thesouros incomparaveis4 ,e depois1 mesmo os frivolos adornos1 que constituem uma alta educao mundana1 podem ter uma significao elevada1 um sentido occulto1 uma alma emfim1 logo que se no considerem um todo1 mas uma parte insignificante do mais alto e perfeito conjuncto2 logo que occupem o lugar que lhes compete1 na classificao harmoniosa e bem graduada das varias riquezas que formam um espirito4 ,saber cantar1 saber tocar piano1 saber fallar as linguas1 saber desenho e pintura1 que vale tudo isso quando se no tenha uma ida elevada e synthetica1 que ligue entre si estas diversas acquisies intellectuaes1 e que por assim dizer as vivifique8 ,o que preciso antes de tudo1 comprehender a musica e a sua influencia poderosa nas almas e nos organismos2 saber usar com aproveitamento esses instrumentos que se chamam linguas1 as quaes por si1 s1 tomadas abstractamente1 nada significam e para nada servem2 estudar a natureza sob os seus multiplos aspectos e transplantal-a para a tela ou para o papel2 ter emfim um ideal1 que sobredoire todas estas prendas1 que superficialmente entendidas e superficialmente executadas1 no teem valor nem tem utilidade alguma na vida pratica4 ,basta a qualquer espirito feminino entrar n'este caminho1 que imperfeitamente acabamos de apontar1 e1 sem que elle mesmo tenha a consciencia d'isso1 as suas idas ho de dilatar-se e encadeiar-se por uma successo logica1 e dar vida um novo e imprevisto aspecto4 ,as meninas bem educadas das nossas altas classes sociaes1 teem todas uma grande facilidade em fallar varias linguas2 aproveitam porm essa facilidade444 conversando com os diplomatas4 ,no lem ,schiller1 nem ,goethe1 nem ,shakespeare1 nem ,macaulay1 nem ,pascal1 nem ,montaigne2 no entram no genio das differentes nacionalidades e das differentes litteraturas2 no comparam entre si as civilisaes1 chegando por esta comparao a conhecerem de um modo mais ou menos perfeito a humanidade1 no senhor6 ,conversam com os gommeux da diplomacia estrangeira e contentam-se com isso6 ,na musica que1 mais do que nenhuma arte1 lhes revelaria o corao do homem no corao de tantos homens de genio1 o que ellas vem smente o modo de executarem mais difficuldades e de desesperarem de inveja mais rivaes644 ,na pintura1 copia da natureza que as podia fazer penetrar no seio carinhoso e fecundo da grande me1 so to frivolas1 to superficiaes1 como em todas as outras cousas4 ,as mais das vezes no teem animo de colherem uma flr do jardim e de a copiarem com o pincel ou com o lapis6 ,copiam copias1 amesquinhando a natureza1 e atrophiando a propria imaginao6 ,so estes defeitos1 que todas ns as que pensamos um pouco1 devemos combater com todas as nossas foras6 ,longe de mim o aconselhar mulher que se emancipe dos seus graves e obscuros deveres1 que tente luctar com o homem1 e arrancar-lhe a palma das grandes descobertas e das grandes conquistas6 ,o que eu pretendo provar-lhe que divina entre todas1 a misso a que o futuro a convida4 ,a mulher de sala tem por fora de morrer2 surja pois a mulher da familia1 ser complexo1 grande e nobre sr1 que as geraes vindouras ho de admirar fervorosamente4 ,a mulher da familia no de certo a matrona desgeitosa1 deselegante1 s occupada em dar a vida1 o leite e o alimento aos filhos de um affecto1 despido de todas as flores e de todas as poesias4 ,no1 ella deve ser instruida1 profundamente instruida1 tendo ao mesmo tempo a consciencia de que essa instruco a no aparta do cumprimento religioso dos mais humildes deveres do amanho da casa e da maternidade4 ,o homem deve achar n'ella no s a enfermeira desvelada das suas doenas2 no s a distribuidora sensata e economica do seu alimento2 no s a dona de casa aceiada1 vigilante1 infatigavel2 no s a me carinhosa1 dedicada1 capaz dos maximos e dos mais perseverantes sacrificios1 seno tambem a companheira do seu espirito2 a socia das suas aspiraes2 a intelligencia que comprehenda e partilhe as suas legitimas ambies e as suas chimericas phantasias2 o animo viril que saiba amparal-o nas horas de desalento2 a mo firme e branda1 que saiba guial-o nos momentos escuros de lucta e de tentao3 o seio terno que lhe acolha a cabea cansada na hora sinistra das derrotas2 o bello e enthusiastico espirito que applauda a suprema embriaguez das suas victorias2 n'uma palavra1 a mulher digna de ser me e de educar uma gerao de fortes4 preciso1 que se compenetrem bem d'esta ida fundamental3 o trabalho1 seja de que especie fr no desdoira uma mulher nem deixa de ser compativel com as mais delicadas distraces de um espirito culto4 ,trabalhar no fazer crochet1 no cozer durante seis mezes na mesma camisa1 que ha de ser offerecida a um pobre romantico1 a um pobre de opera-comica2 no bordar umas eternas babouches1 que se comeam no dia seguinte ao do casamento1 e que se acabam dez annos depois4 ,trabalhar ser util1 occupar o espirito1 adquirir conhecimentos ou espalhal-os em torno de si1 concorrer para o bem-estar dos outros e para o seu aperfeioamento proprio4 ,a mulher que trabalha levanta-se cedo1 no conhece as scismas voluptuosas1 os languores morbidos1 as flneries sem motivo e sem fim4 activa1 por isso no tem aquellas horas de tdio profundo1 que descobrem diante de um olhar os horisontes sinistros e esbraseados do suicidio2 tem saude porque o tempo bem applicado e bem dividido no lhe deixa intervallos para se escutar1 se sondar1 para analysar as suas pequenas dres1 os seus pequenos incommodos1 e os aggravar tomando remedios nocivos1 e entregando-se molleza que a pouco e pouco destroe a robustez do corpo2 gosa de tudo com alegria1 com vitalidade1 com expanso1 no desdenha nenhum dever1 nenhuma occupao1 nenhum trabalho porque o amor e a intelligencia prendem-se a tudo que ella faz4 ,porque sabe conversar na sala com facilidade e chiste1 nem por isso deixa de saber estar na cosinha1 observar um por um todos os utensilios1 vr se esto limpos1 inventar um menu que reuna as condies da economia e da variedade1 ensinar a sua cosinheira1 fazer mesmo por suas mos um prato predilecto1 que mesa o marido e os filhos ho de saudar com alegria e saborear com appetite4 ,desejo que ella saiba bordar1 mas exijo que saiba serzir panno1 dar rdes com perfeio1 cozer a roupa da casa e a roupa dos filhos1 cortar e fazer os seus vestidos1 dando assim mais que um exemplo de economia1 um exemplo de moralidade6 protestando at onde chegam os seus limites1 contra a torrente impetuosa e funesta1 que arrasta as familias desde o luxo at infamia1 desde a impostura at quebra de todas as dignidades e de todos os pudores4 ,quero mais1 que ella se no envergonhe de confessar que trabalha1 e que no diga que o seu fato feito por uma qualquer modista estrangeira1 quando ao seu laborioso sero que ella deve a elegancia que d'este modo duplamente preciosa e sympathica4 ,no imagine a mulher1 que entre os deveres que acceitou ha uns que a deslustram1 e outros que lhe ficam bem4 ,debaixo do ponto de vista da razo todos os deveres so eguaes e esto prezos entre si por uma cadeia invisivel4 ,da alegria da mesa depende a alegria do lar2 da economia de todos os instantes1 depende o bom humor das festas de familia2 da elegancia e primoroso aceio da mulher depende a ternura inexgotavel do marido2 do modo porque ella rege e domina o seu pequeno imperio domestico1 depende a educao dos filhos1 a moralidade do interior1 a harmonia intima da vida1 e at a graa1 o espirito1 a liberdade com que ella conversa e ri na sala4 ,todas as mulheres se queixam dos maridos1 e nenhuma ainda percebeu o seguinte3 so ellas que preparam e determinam o seu destino2 a ellas que a familia em geral deve a sua desordem1 a sua dissoluo1 ou a sua felicidade4 ,no basta ter todas as graas1 preciso ser util1 e no fardo que se acceita em commum tomar a parte que mais custa a supportar4 ,no basta ser util1 prestadia1 arranjada1 economica2 preciso ter a intelligencia que idealisa um pouco os tristes e aridos encargos da vida4 ,toda ou quasi toda a mulher se sente amesquinhada pelo seu destino1 e protesta contra as leis1 contra os usos1 contra as instituies1 que a exilaram dos altos cargos da republica1 que lhe tolheram o passo para todas as eminencias sociaes1 e que a condemnam obscuridade e lhaneza do viver domestico4 ,oh6 abenoados sejam os costumes1 as leis1 as instituies1 que deram ao homem tudo que ruido1 pompa1 ostentao1 orgulho e vaidade1 e que nos deram a ns a dce misso de encaminharmos o futuro1 de guiarmos a humanidade no caminho do bello e do bom6 ,se at agora temos trahido essa misso a que fomos destinadas1 a culpa nossa e no de quem constituio sob uma frma to racional e to justa a sociedade4 ,o tempo que passamos no barulho vazio das festas mundanas1 colhendo decepes e rancores1 excitando invejas1 provocando sensuaes applausos1 porque o no gastamos a lr1 a estudar1 a penetrar no mundo da natureza e no mundo da sciencia em todos os seus aspectos to varios1 em todas as suas manifestaes to sympathicas2 porque no dirigimos a poder de trabalho e de esforo a primeira educao de nossos filhos1 e deixamos que mos mercenarias lhe arranquem aquella dce penugem da alma que a ignorancia dos pequeninos8 ,porque no fazemos da nossa casa1 um ninho alegre e ffo1 que o nosso marido prefira ao botequim1 ao ,gremio1 ao ,club1 ao restaurante1 casa dos seus amigos1 e onde elle esteja certo de encontrar o alimento mais saboroso e mais hygienico1 o ar mais puro e lavado1 a poltrona mais commoda1 a conversao mais animada1 mais substancial1 mais chistosa e menos pedante8 ,pouco a pouco regenerao da mulher1 seguir-se-hia a regenerao do homem1 deixariamos de ser a ruina1 para nos tornarmos o conforto2 deixariamos de ser o tdio para nos tornarmos a alegria4 ,talvez no houvesse tantos bailes e saraus1 talvez ,offenbach1 ,dumas filho1 ,sardou tivessem menos espectadores1 talvez as salas de bilhar perdessem um pouco da sua popularidade2 talvez os ourives e as modistas fechassem algumas das suas lojas1 mas em compensao quebravam menos negociantes1 perdiam-se menos mulheres1 a calumnia renunciava a uma grande poro do seu alimento diario1 o falso luxo que mata de fome os filhos e que arrasta sedas pelas ruas enlameiadas da cidade1 ou se reclina voluptuosamente nos coxins flascidos d'um coup de oito mollas1 o falso luxo deixaria de ostentar com to descarada altivez as suas lentejoulas compradas com moeda vil1 e esta nossa sociedade1 que paroda to ridicula e to desgraadamente a sociedade cosmopolita1 opulenta e artificial da ,frana1 tomava diverso rumo1 assumia a dignidade que lhe falta1 e descobriria no futuro o ideal1 que no tem e que procura nas trevas4 ,o primeiro passo para que este deploravel estado de cousas melhore um pouco1 que as mulheres comecem a trabalhar4 ,as ricas instruam-se2 as pobres ajudem seu marido sem se envergonharem da sua honesta pobreza1 e todas sem exceptuar qualquer posio social1 occupem o tempo para no darem logar s tentaes da vaidade1 aos sonhos morbidos que enfraquecem o corpo e o espirito1 s negras horas dissolventes do tdio1 em que tudo se concebe e se admitte como possivel1 at o esquecimento de todos os deveres1 at o proprio crime com o seu romantico cortejo de sensaes e de terrores4 ,,capitulo ,,xii ,a toilette ,as mulheres teem1 na generalidade1 um costume deploravel6 ,s se vestem e se enfeitam e querem ser amaveis para o publico4 ,o marido1 ainda o mais feliz e mais extremoso1 tem sempre um rival terrivel1 um rival exigente1 um rival que lhe rouba parte das prerogativas e lhe cerceia parte dos direitos4 ,esse rival o publico1 esse detestavel tyranno chamado tout le monde1 a quem tudo se sacrifica1 e do qual em recompensa s se recebem criticas e desdens6 ,para elle nos vestimos1 para elle levamos horas e horas a combinar o effeito da nossa toilette1 para elle estamos defronte do espelho prendendo flores no cabello1 inventando as difficeis architecturas do penteado1 para elle sabemos tocar piano e sabemos cantar1 para elle desejamos ser formosas6 para que elle nos applauda--mentiroso e humilhante applauso6--exhaurimos todos os recursos da nossa imaginao4 ,para agradarmos a elle1 que o extranho1 nos esquecemos dos que so nossos6 ,em casa as mulheres1 pelo menos as mulheres portuguezas1 as que eu de mais perto conheo1 preferem a tudo1 aquillo a que to impropriamente chamam estar vontade4 ,usam uma robe-de-chambre desbotada1 quando no trazem um vestido velho que j no serve para a rua2 trazem o cabello em papelotes ou frisado em ganchos1 e como querem descansar um pouco das talas que impuzeram aos ps1 consolam-nos1 mettendo-os em umas largas babouches desgeitosas4 ,pela manh1 hora do almoo do vontade de chorar6 ,o marido olha para ellas e444 de duas uma3--ou sente fastio ou come como um lobo4 ,de qualquer dos modos manifesta a sua melancolia4 ,questo de temperamento que no vem ao caso analysar aqui4 ,ao meio dia1 eis porm1 que se lembram das visitas que no tardam1 das inimigas intimas que veem colhr invejas e semear despeitos1 de todas as ferozes exigencias sociaes1 de que so submissas escravas6 ,desfranzem a testa1 ageitam um sorriso malicioso ou sentimental1 consoante o genero da physionomia1 mergulham o corpo nas tepidas e perfumadas caricias do banho1 vestem-se1 burnem-se1 penteiam-se1 pintam-se444 e apparecem transformadas4 ,durante umas poucas de horas esto no palco4 ,o auditorio escrupulosissimo4 ,ao menor indicio que lhe deste1 manifesta sem piedade o seu desagrado4 ,ellas1 no entanto1 suam sous le harnais1 mas so intrepidas at heroicidade4 ,teem caricias felinas1 sorrisos que adormecem a tristeza nos coraes mais desconsolados1 sabem ser engenhosas1 cheias de invenes felizes1 conseguem plenamente o seu fim1 e ao deixarem a scena fica no ar uma impresso boa1 quasi enternecida4 ,chegou a occasio de voltar aos bastidores4 ,n'este caso os bastidores so a companhia do marido4 ,oh6 ,como ellas veem cansadas1 aborrecidas1 cheias de tedio1 e de desalento6 ,despem1 com a voluptuosidade com que se despe um cilicio1 todas essas elegancias que as torturavam2 o sorriso ficticio apaga-se-lhes dos labios1 a luz ficticia esmorece-lhes no olhar4 ,a pelle precisa de cold-cream1 de veloutine1 de todos os ingredientes nauseabundos3 o cabello cahe-lhes aos ps1 solto dos ganchos que o prendiam1 e em quanto a aia1 com um sorriso ladino1 os recolhe cuidadosamente na caixa de carto1 o marido contempla assarapantado1 cheio de ingenuo e comico assombro1 aquella cabea que ainda ha pouco1 no orgulho com que se erguia1 na magestade altiva com que ostentava o delicado edificio das tranas e dos riados1 lembrava uma das cabeas gentis que o seculo ,,xviii beijou com enlevos e que a guilhotina beijou com volupia selvagem4 ,o p estreito e cambr1 que ainda ha pouco nos circulos vertiginosos da valsa1 fazia pensar n'aquellas andorinhas forasteiras1 que roam a terra com o vo inquieto e leve1 sacode as prises que o ligavam dolorosamente1 e dilata-se vontade1 com uma furia de independencia verdadeiramente demagogica e revolucionaria1 na primeira chinela que apparece4 ,todo o aspecto physico se transfigura e--consequencia fatal d'esta mesma causa--o aspecto moral transfigura-se tambem4 ,como a dissimulao eterna impossivel ainda aos mais hypocritas1 os defeitos que to cuidadosamente se esconderam ao publico1 revelam-se ao marido4 ,riamos sem vontade ainda agora6 ,com a fortuna6 ,desabafemos o nosso mau humor1 visto que estamos em casa6 ,tinhamos paciencia para aturar com expresso interessada e benevola as sensaborias muito estafadas de um senhor engravatado1 de luvas cr de canario e bigode retorcido e insolente8444 ,sejamos agora desapiedadas para as historias j um pouco velhas1 mas em summa bastante apresentaveis que o nosso marido nos quer contar6 ,fingir6 sempre fingir6444 ,impossivel6 ,sejamos verdadeiras1 ao menos n'esta occasio1 j que s desagradamos quelle que tem obrigao restricta de nos aturar1 quer queira1 quer no6 ,isto1 que primeira vista parece insignificante1 quasi frivolo1 tem um alcance enorme no destino de vv4 ex4as1 minhas senhoras6 ,o marido1 ao perceber que de todas as mulheres a mais desagradavel a sua1 tem um momento de profunda tristeza1 ao qual succedem uns poucos de annos de revolta6 assim que se destroe a familia1 assim que se torna desflorido e deserto o lar4 ,em compensao enchem-se os sales1 os clubs1 os theatros1 os botequins4 ,resta saber se uma das cousas pde n'uma sociedade honesta e bem constituida supprir a outra4 ,sejam mais garridas em casa1 e sejam-no menos fra2 aspirem elegancia desprezando os mentirosos artificios2 procurem1 antes de tudo1 agradar familia e conseguiro a pouco e pouco1 sem esforo premeditado1 agradar aos estranhos4 ,uma familia boa1 unida e feliz como um fco de calor que attrahe e que irradia luz benefica4 ,ha casas onde se entra e onde nos sentimos como n'um meio sympathico e captivante4 ,so sempre as casas em que a mulher possue a intelligencia do corao1 essa cousa rara e preciosa1 que suppre a formosura1 o talento e todos os attractivos do espirito4 ,vestir-se com uma graa despretenciosa e simples1 rodear-se de cousas bellas1 sentir e communicar em torno de si o prazer das distraces delicadas1 ser em casa um perfume vivo1 uma harmonia suave que no cansa1 uma luz serena que allumia e que no deslumbra1 eis o que ser mulher na accepo completa da palavra4 ,toda a mulher tem de ser coquette para o marido emquanto para o marido a eterna tentao for o pmo vedado4 ,em geral s se conhecem os dous extremos4 ,ou a matrona envolvida na sua virtude como n'uma couraa1 temivel1 assanhadia1 formidavel1 imaginando merecer todas as homenagens do esposo1 porque afugenta com medonho aspecto as homenagens de todos os outros2 ou ento a mulher dos sales1 a flr exotica das nossas estufas mundanas1 ,salamandra que vive no fogo1 ,ninon de biscuit que se compraz nas adoraes que provoca e que inspira1 infativel actriz que s luz da ribalta sabe desenvolver e manifestar todos os seus recursos4 ,entre os dous contrastes que fica a verdade4 ,mulheres1 desenvolvei no seio da familia as graas que desperdiaes pelas voragens d'este mundo4 ,tende todas as flexibilidades e todas as resistentencias1 todas as graas e todas as energias2 sde o encanto1 sem deixardes de ser a virtude2 e sobretudo perdei de vista o publico1 esse brutal amante que vos absorve1 que vos perde e que nunca vos corresponde4 ,,capitulo ,,xiii ,victoria ,woodhall ,uma oradora americana ,os ,estados-,unidos1 que so decididamente a patria das excentricidades colossaes1 o paiz em que o excesso do positivismo1 como que para justificar o axioma de que os extremos se tocam1 tem conduzido a intelligencia a uma especie de permanente hallucinao1 os ,estados-,unidos estiveram para dar segundo affirmou a imprensa ingleza1 mais uma prova evidente do seu amor pelas originalidades ruidosas4 ,dizia-se que a presidencia d'esta republica to poderosa e florescente ia ser offerecida a uma mulher1 e citava-se o nome d'essa mulher1 que uma das mais fervorosas e apaixonadas propagandistas da reforma politica e social1 uma das advogadas mais eloquentes da emancipao completa do seu sexo4 ,j muitas vezes o temos dito1 antipathisamos formalmente com esta doutrina revolucionaria1 da qual no esperamos seno funestos resultados1 por isso nenhum lao de sympathia pde prender-nos famosa ,victoria ,woodhall1 de que se occupam com verdadeiro enthusiasmo alguns dos jornaes importantes da ,inglaterra e da ,america do ,norte4 ,no deixaremos1 porm1 de estudar com atteno os poucos dados que conhecemos do seu caracter e da sua intelligencia1 porque1 embora como mulher--no concordemos com as suas theorias1--como artista--no podemos deixar de reconhecer que ella um producto perfeito do seu meio4 ,victoria ,woodhall moa1 tem uma formosa presena1 sabe vestir-se1 o que j deveras para notar-se n'uma advogada convicta dos direitos politicos da mulher1 e se aprecia os triumphos que a sua palavra um pouco emphatica costuma arrancar aos numerosos ouvintes que a escutam1 nem por isso desdenha os cuidados minuciosos da elegancia mundana4 ,teem-na visto prgar sobre um texto biblico1 que ella modernisa segundo as conveniencias da sua these1 trajando elegantemente um vestido de velludo preto1 e com uma rosa purpurea aninhada nas lustrosas tranas escuras do seu cabello garridamente penteado4 casada1 visto que lhe chamam ,mistres ,woodhall1 mas nos sales onde tem preleccionado apparece sempre s sobre uma elevada platafrma1 de onde prga s turbas4 ,o marido1 se existe1 um simples comparsa1 ninguem o nota e ninguem se occupa em fallar d'elle4 ,entre parenthesis3 no ha posio mais deploravel que a do marido de uma mulher celebre1 quer dizer de uma mulher que falla em publico1 que apparece1 que declama1 que tem os ruidosos triumphos da actriz1 da cantora1 da agitadora politica1 e agora os mais modernos da preleccionista social4 ,nunca pudemos deixar de sentir muito d do ,baro ,stael1 de monsieur ,rolland1 do marido de ,henriqueta ,beecher ,stowe1 e de tantos outros forados e obscuros satelites d'esse astro brilhante e phenomenal que a mulher acclamada pelo indiscreto applauso das multides4 ,agora o marido de ,mr4 ,victoria ,woodhall1 se acaso vive1 o que no podemos de modo algum affirmar1 no tendo nunca ouvido citar o seu nome1 parece-nos uma victima igualmente lamentavel do mesmo negro fado4 ,victoria tem dado conferencias1 extraordinariamente concorridas1 em ,nova-,york1 em ,londres1 em ,liverpool e em outros centros industriaes da ,inglaterra e da ,america4 ,tem a voz insinuante e harmoniosa1 a gesticulao arrebatada e artistica1 a palavra facil1 fluente1 emphatica1 mas to quente e apaixonada que exerce sempre uma impresso profunda nos que a escutam4 ,como j dissemos no tem os terriveis oculos azues1 nem o rosto anguloso e severo de ,mrs4 ,beecher ,stowe1 uma mulher que fez no seu paiz uma revoluo humanitaria1 e que destruiu aos nossos olhos todo o effeito sympathico da sua cruzada contra a escravatura com aquellas conferencias pedantes pelas quaes concluiu a sua carreira litteraria4 ,a mulher oradora precisa de ser formosa1 sob pena de ser ultra-ridicula4 ,parece-nos1 porm1 que do ridiculo simples1 sem circumstancias aggravantes1 no a salva nem mesmo a formosura4 ,victoria ,woodhall no seu paiz prga em favor da santidade do matrimonio1 da reforma da educao1 de todos os graves e momentosos assumptos de que hoje depende a regenerao politica e moral das sociedades4 ,fra do seu paiz1 porm1 no vo to longe ainda as suas aspiraes4 ,o que ella por emquanto reclama a igualdade e nivelamento absoluto de deveres e direitos entre a mulher e o homem4 ,adoptamos com todo o corao no os meios1 mas o fim d'essa propaganda to necessaria2 mas no podemos concordar de modo algum com o complemento que a feminil oradora proclama indispensavel4 ,achamol-o contraproducente1 illogico1 funesto s instituies abaladas1 que se pretendem salvaguardar4 ,queremos o casamento grave1 austero e santo1 querermos a creana educada com solicitude extremosa1 queremos a mulher respeitada e querida1 consciencia de bronze e corao de cra1 queremos na arte um ideal severo e levantado1 queremos na sociedade a incorruptivel e serena justia1 queremos o homem regenerado e forte1 e porque desejamos tudo isso1 que pedimos a ,deus afaste para bem longe de ns o terrivel flagello da mulher dominando o seu proprio destino e o destino da sociedade4 ,n'um discurso de ,victoria ,woodhall1 pronunciado em ,nova-,york e applaudido enthusiasticamente por um auditorio de #dj3jjj pessoas leem-se os trechos seguintes3 ,fallando do casamento1 escusado dizer que falamos n'esse casamento ideal que toda a maldade dos homens no pde destruir2 n'esse casamento1 de cujos membros poder dizer-se com verdade3 ,foram unidos por ,deus1 e o poder do homem1 no lograr desunil-os2 n'esse casamento1 de cujas alegrias jmais querero apartar-se os que um dia as conhecerem2 n'esse casamento que to sagrado1 to puro1 to santo1 que nem a sombra de uma discusso pde existir entre1 os dous factores que o determinam2 fallamos n'esse casamento em que os dous representantes oppostos da humanidade--o elemento positivo e o negativo das raas--se tornam pela aco e pelo pensamento n'um unico ser1 e to perfeito1 que os mesmos motores o movam e o faam pensar e obrar2 em resumo1 n'esse casamento do qual nem a sombra d'um elemento estranho possa alterar a pureza1 a unidade1 a ideal perfeio4 ,o casamento geralmente considerado como um assumpto por demais frivolo ou pueril4 ,aceitam-no ou quebram-lhe os laos com a mesma pressa e a mesma ida das responsabilidades que elle impe1 como se o considerassem uma instituio especialmente designada para satisfazer as egoisticas paixes da humanidade4 ,sim1 concordamos plenamente com este levantado ideal do casamento que a formosa preleccionista apresenta e proclama1 mas affirmamos que elle nunca poder realisar-se se triumpharem universalmente as doutrinas que ella to ardentemente advoga4 ,a prova evidente d'esta nova assero ella quem se encarrega de nol-a fornecer4 ,a mulher1 como ns a sonhamos e a queremos1 no a forasteira acclamada e illustre que anda espalhando por sobre a cabea das turbas indifferentes ou passageiramente commovidas1 as suas convices e as suas theorias sociaes4 ,recolhida no seu modesto e placido interior1 me de um bando infantil1 mimoso e louro1 de que ella fosse a providencia1 o amparo1 a suprema alegria1 esposa de um homem forte e honesto1 de um trabalhador1 de um membro activo e laborioso da moderna sociedade1 a aco d'esta mulher seria muito mais restricta1 mas incontestavelmente mais util e mais salutar4 ,no daria uma hora de commoo dramatica ao auditorio que viesse ouvil-a1 curioso de excentricidades novas2 no julgariam possivel a sua eleio como presidente de uma republica poderosa2 mas as pessoas que vivessem em mais ou menos estreito contacto com ella receberiam a influencia honesta do seu exemplo1 e os filhos que ella educasse seriam outros tantos elementos fecundos da futura regenerao social4 ,no prgando o respeito ao casamento que se convencem os homens1 provando esse respeito nas minimas aces e nas aces mais decisivas de uma existencia4 ,mrs4 ,victoria ,woodhall tem arrebatamentos soberbos de eloquencia oratoria1 fulminando a decadencia em que o sentimento da familia tem modernamente cahido1 mas como quer ella provar-nos que comprehende essa absoluta identificao de duas almas1 essa absorpo de um espirito em outro espirito seu irmo1 ella que affirma to rasgadamente a sua individualidade1 ella que apparece em plena luz deixando na sombra aquelle de que no pde ser seno a metade incompleta1 a poro imperfeita e mutilada4 ,anda n'uma gloriosa faina a converter as suas irms que prevaricam ou descreem1 ou ignoram4 ,mas se o exemplo da gloriosa propagandista as tentar e seduzir8 ,onde fica o lar modesto1 o aceio do ninho1 o terno amor dos filhos pequeninos1 as obscuras virtudes domesticas1 toda a graa1 toda a poesia1 todo o conchego1 todo o encanto mysterioso e indestructivel d'essa ineffavel unio chamada o casamento8 99 99 99 99 99 ,no nos surprende1 porm1 este producto extraordinario de uma sociedade agitadissima e ainda para si propria indefinida e indefinivel4 ,a ,america tem-se feito a si mesmo1 no procura para as suas leis e para os seus costumes uma solida base tradicional4 ,n'ella que to forte como nao1 to pertinaz nos intentos1 to energica nas aces1 n'ella que uma prova terminante de como em dous seculos se frma uma raa1 unica e cheia de virginal vigor1 ha cousas que esto ainda perfeitamente vagas e fluctuantes4 ,o destino das mulheres uma d'essas cousas4 ,politicamente possuem os mais amplos direitos1 podem ser tudo1 aspirar a tudo1 todas as carreiras esto abertas diante dos seus passos2 socialmente quasi um dogma o respeito que inspiram4 ,ninguem ousa insultal-as nem com uma palavra1 nem com uma suspeita1 gosam de uma liberdade absoluta1 andam ss1 viajam desprotegidas ou antes protegidas pela sua fraqueza omnipotente1 nos caminhos de ferro1 nos omnibus1 nos paquetes2 sentam-se ssinhas meza redonda de um hotel1 fazem emfim impunemente1 apoiadas pela despotica soberania dos costumes1 tudo que a ns1 europas de facto ou de tradio1 se affigura quasi monstruoso de inconveniencia4 ,e no entanto1 apesar d'este reinado apparente1 apesar d'este predominio ostensivo1 bem mais profunda a invisivel influencia que as mulheres do velho mundo exercem em torno de si1 no sobre as leis1 o que seria pouco1 mas sobre os costumes1 o que quasi tudo4 que somos as rainhas do lar2 de nosso bom ou mau juizo depende a paz ou a guerra1 a ventura ou a desgraa1 a prosperidade ou a ruina1 a dce mediania tranquilla ou a agitada e tempestuosa existencia mundana4 ,no parecemos nada e somos tudo6 ,os que mais nos desdenham no escapam ao nosso poder4 ,submettem-se-lhe inconscientemente4 ,os que luctam contra ns teem de confessar-se vencidos4 ,no somos medicas1 no somos advogadas1 no somos professoras1 no somos preleccionistas officiosas de qualquer theoria1 mais ou menos arriscada2 mas somos a influencia continua e permanente1 a voz surda que sempre se escuta1 a tentao funesta ou a guia providencial1 o grande poder obscuro1 a que se no furta o filho1 o irmo1 o marido1 o proprio pae6 ,que importa que no possamos exercer a nossa aco dentro da esphera restricta e limitada das leis1 se os costumes ahi esto1 para que ns os crimos1 os modifiquemos1 os transformemos1 para que ns lhes dmos o nosso collectivo impulso enorme6 ,na ,america1 visto que a mulher tem a faculdade de luctar com o homem no campo da actividade pratica1 -lhe restringido fatalmente o seu poder na esphera em que ella pde e deve ser rainha4 ,o casamento na ,america protestante1 dizem os viajantes que teem observado os costumes d'essa raa estranha e vigorosa1 um contracto temporario que se baseia no calculo1 e que o mais leve atricto pde destruir4 ,o divorcio alli um facto vulgarissimo1 ha mulheres divorciadas de tres maridos que contrahem muito serenamente um quarto matrimonio to sagrado e to respeitavel como os tres primeiros4 ,os filhos resentem-se inevitavelmente d'este estado transitorio em que permanece a familia4 ,no teem respeito nem disciplina1 e mais do que provavel que no tenham amor4 ,em pequenos teem de sujeitar-se s regras estabelecidas1 logo porm que sahem da infancia representam por si proprios1 encetam a grande lucta da vida4 ,a independencia pessoal1 o individualismo britannico1 accentua-se alli d'uma frma muito mais saliente4 ,cada um por si1 eis a lei que rege o verdadeiro ,yankee1 lei que herdou de seus avs anglo-saxonios e que exagerou1 accommodando-a s despoticas exigencias do seu meio4 ,assim como a sociedade politica1 assenta no principio da mais ampla e rasgada descentralisao1 assim a sociedade moral dominada por um principio exagerado de independencia1 que afrouxa necessariamente os laos da familia4 ,no se faz ida entre ns do que um interior nos ,estados-,unidos4 ,nas classes burguezas e medianamente favorecidas dos bens de fortuna1 vive-se por assim dizer em commum n'uma especie de hospedaria1 em que se reune uma duzia ou mais de familias4 s horas da refeio agglomera-se em torno da meza aquella multido de indifferentes que mal se conhecem2 comem pressa absortos em preoccupaes de ordens diversas que ainda mais os separam e os distanceiam4 ,a comida feita sem amor1 sem solicitude1 sem o cuidado que inspiram boa me e boa esposa as predileces dos filhos e do marido1 a hygiene da familia1 a economia do lar1 no tem para nenhum dos commensaes nem alegria nem sabor4 ,comem como quem cumpre uma obrigao indispensavel e enfadonha1 e d'alli partem para a faina1 para o trabalho sem treguas1 para a lucta acerba e pertinaz4 ,nem um momento de repouso ou de tranquillo devaneio4 ,a vida o trabalho2 o tempo mais do que dinheiro1 sangue4 ,a existencia dos americanos uma existencia de operario1 tressuada1 esmagadora4 ,todos querem conquistar a sua poro legitima de abundancia ou mais ainda1 de riqueza4 ,para que8 ,para terem bem firme a consciencia de que a mereceram4 ,ha uma pressa febril1 uma impaciencia vertiginosa1 uma ancia de todos os instantes n'esta raa de impetuosos luctadores4 ,as qualidades e os defeitos britannicos attingem alm do ,atlantico um relevo exagerado4 ,n'esta vida cortada de obstaculos e difficuldades1 n'esta vida em que a energia do homem1 o seu vigor physico e moral1 a dura tenacidade do seu querer1 se exercitam e robustecem na mais desenvolvida escala1 que lugar pde haver para a poesia1 para a arte1 para as tranquillas douras da vida domestica1 para os prazeres de uma culta sociabilidade8 ,ha tempo apenas para admirar as extravagancias imprevistas1 as cousas novas e excentricas que firam a atteno1 que se imponham rapida e subitamente ao pasmo das turbas4 ,deriva do modo inteiramente caracteristico porque os americanos entendem a vida1 o lugar que n'ella do mulher4 ,isolada por um esteril respeito1 despojada de todo o predominio que entre ns lhe concedem os costumes1 e a tradio religiosa e social1 a mulher para tentar adquirir a consciencia da sua fora1 tem fatalmente de ir procural-a na arena em que luctam os homens4 ,isto em vez de os converter1 mais os liberta d'aquelle poder occulto e latente1 d'aquella doce e invisivel influencia que partindo d'alto lhes suavisaria a indole1 os costumes e os gostos4 ,victoria ,woodhall o fructo genuino d'esta sociedade incompleta n'uns pontos e n'outros inteiramente transviada do verdadeiro caminho1 do caminho que conduz felicidade e ao equilibrio de todas as faculdades humanas4 ,s na ,america do ,norte que esta valente prgadora das reformas sociaes podia ter nascido1 s a ,america que podia entendel-a e applaudil-a com to sincero enthusiasmo6 ,se manh uma das nossas mulheres comeasse a percorrer as grandes cidades da ,europa meridional1 prgando a transformao dos costumes1 os direitos politicos do sexo feminino1 a reforma das instituies1 a sua prdica1 por mais eloquente que fosse1 seria abafada em uma tempestade homerica de risos6 ,aqui muito puridade1 eu no sei se somos ns1 que temos razo6 ,criados e ,amos ,,capitulo ,,xiv ,i ,fallemos dos nossos criados4 um assumpto este de importancia summa4 ,tem relaes estreitas com a administrao da casa1 com o seu aceio1 arranjo1 conforto e bom governo2 com a moralidade que n'ella existe1 com a figura que ella representa em relao s outras casas4 ,parece uma questo ridicula e comesinha2 tem sido estragada por todas as matronas de mau humor que desafogam n'ella a superabundancia da sua bilis2 o assumpto obrigado das conversaes das mes burguezas1 em quanto nas pequenas soires dos quartos andares as meninas estafam um desgraado piano asthmatico1 os litteratos da familia recitam versos a ,ella1 e tres commendadores gordos e vermelhos disputam acalorada e ferozmente a uma banca de voltarete4 ,ninguem todavia ainda encarou esta questo debaixo do seu verdadeiro aspecto4 ,declama-se contra a decadencia e desmoralisao dos criados de hoje1 mas ninguem pensou que esta decadencia1 que esta desmoralisao1 provm forosamente de alguma causa que necessario conhecer e destruir4 primeira vista1 observando na familia1 esse elemento que se tem tornado to indispensavel quanto perigoso1 nota-se o seguinte3 --,que os criados de hoje no se podem comparar aos criados antigos1 nem na fidelidade1 nem na lealdade1 nem no desinteresse1 nem na moralidade4 ,j se v que esta regra tem excepes numerosas1 de que no tractaremos1 mas que reconhecemos e admittimos4 --,que dia a dia se nota n'esta classe um desapego mais profundo pelas familias a quem serve1 e em cujo seio penetra4 --,que elles so sempre ou quasi sempre os auxiliares da traio1 do vicio1 da desobediencia1 e que portanto profundamente corruptora a influencia que exercem na familia4 --,que o seu interesse consiste em especularem com as fraquezas ou as maldades d'aquelles de quem dependem1 e que vivem e medram na immoralidade dos seus superiores4 --,que pelo seu comportamento se revelam inimigos natos de todos que esto acima d'elles1 e que presentindo a vantagem que lhes pde provir do rebaixamento dos entes de quem receiam a severidade ou que so forados1 muito contra sua vontade1 a respeitar1 o fim que elles teem1 e que procuram por todos os modos attingir1 o seguinte3 penetrar vagarosa e cautelosamente na confiana dos amos1 extorquir-lhes os seus segredos1 e divulgal-os por sde instinctiva de vingana1 ou exploral-os1 por desejo immoderado de ganho4 ,posto isto1 provado est que os criados so os nossos inimigos necessarios1 e que preciso que para com elles a nossa attitude seja por em quanto inteiramente defensiva4 ,e dizemos por em quanto1 por uma razo muito simples4 ,porque entendemos que1 quando n'uma classe inteira se manifestam symptomas de corrupo e de gangrena1 a culpa vem por fora de longe1 e de cima1 e que devemos applicar-nos com todas as nossas foras e todos os nossos desejos1 a modificar essa culpa1 e a redimil-a por fim4 ,a que pde attribuir-se o contraste notavel que se reconhece entre os criados antigos e os criados de hoje8 ,a muitas causas independentes da nossa vontade1 e sobretudo da vontade d'elles2 as causas que teem o seu qu de politicas1 e seu qu de economicas1 o seu qu de sociaes1 o seu qu de philosophicas4 ,vejam em quantas questes nebulosas e importantes entesta esta humilde questo de criados4 ,transformao completa do viver social e do viver domestico4 ,d'antes a familia era fundada n'um principio de muito menos justia1 mas n'uma base de muita mais solidez4 ,havia o chefe que acolhia sua vasta sombra1 os irmos1 os parentes pobres1 os filhos1 os servos que eram tambem uma tradio e tambem uma herana4 ,quando o chefe morria succedia o filho ou o irmo mais velho1 que herdava os irmos1 os tios1 os parentes pobres1 os servos1 todos os haveres1 e tambem todas os encargos da numerosa communidade4 ,os criados entravam ao collo de sua me que vinha ser aia1 ou varredora1 ou engommadeira1 ou outra cousa qualquer e sahiam de #fj ou #hj annos no caixo para o cemiterio1 deixando na familia nova gerao de servos que eram seus filhos4 ,d'este modo havia estabilidade nos seus empregos4 ,s eram demittidos por erro de officio4 ,no receiavam o dia de manh1 no sentiam a esmagadora indifferena dos superiores a revelar-lhes que na familia eram prias1 eram estranhos1 eram inimigos4 ,no precisavam de se apossar de um segredo1 de ameaar tacitamente com uma denuncia1 de lisongear vilmente um vicio ou mesmo uma mania1 para darem solidez e garantia de durao sua posio dependente e precaria6 ,em quanto que na vasta sala de jantar1 de tectos apainelados1 e custosos pannos de ,arras1 em torno da pesada meza de carvalho1 primorosamente entalhada1 se reunia alegre a numerosa familia1 em que umas poucas de geraes se enlaavam1 na cosinha do palacio1 ao lume crepitante das fornalhas enormes1 reunia-se tambem a familia ainda mais numerosa dos antigos servos4 ,eram paes1 mes1 filhos1 s vezes netos4 ,no estavam privados de todas as condies humanas1 tinham as suas festas intimas1 as suas alegrias1 os seus affectos4 ,o seu maior empenho consistia em que a familia de que dependiam1 florescesse e prosperasse2 a sorte d'elles e dos seus1 estava por assim dizer1 identificada com a sorte dos amos4 ,affeioavam-se quellas paredes1 ou quelles moveis1 senhora que era branda e protectora para elles1 s creanas que tinham ajudado a crear1 e que um dia viriam a conceder-lhes a mesma proteco que hoje recebiam dos paes4 ,eram maus1 interesseiros1 crueis s vezes6 ,embora6 porque eram homens1 e no porque eram servos4 ,tinham as qualidades boas ou ms da humanidade e no as de uma determinada classe4 ,d'aqui a sua superioridade sobre os criados de hoje4 99 99 99 99 99 ,no regimen moderno1 a familia tem outra constituio e outros costumes4 ,as fortunas extremamente divididas j no consentem esse modo de viver opulento e patriarchal4 ,os mesmos ricos1 que so no fim de contas os grandes financeiros modernos1 esses que juntaram a fortuna de que gosam custa de privaes e de trabalho1 so egoistas para todos1 e particularmente duros para os inferiores4 ,na sua opinio os criados so machinas4 ,umas machinas que vestem casaca1 e usam gravata branca4 ,exigem d'elles um servio irreprehensivel1 uma obediencia passiva1 uma disciplina exemplar4 ,de resto odeiam-nos porque lhes teem um certo mdo4 ,comprehendem perfeitamente que so rediculos1 elles que andaram tanto tempo de tamancos1 a varrer os armazens1 a levarem empurres e maus tractos dos caixeiros grandes da casa1 a curvarem-se humildemente diante dos patres1 dando-se agora aquelles ares superiores e desdenhosos de potentados4 ,emquanto comem em pratos de ,sevres ou do ,japo1 uns manjares exquisitos que o cosinheiro1 o seu cosinheiro de dez ou doze libras por mez1 lhes impinge traioeiramente1 sentem-se acanhados diante do olhar frio1 do olhar metallico dos criados de meza1 e imaginam que elles no mudo escarneo d'esse olhar1 lhes dizem que esto percebendo o seu desastramento1 os seus gestos grosseiros1 e at a saudade com que recordam a assorda e o bacalhau salgado dos bons dias da mocidade4 ,d'esta hostilidade mutua nada bom pde resultar4 ,os amos so orgulhosos1 cheios de desdem1 de indiferena1 de duro egoismo2 os criados so hypocritamente humildes1 so invejosos1 e malevolamente escarnecedores4 ,s um lao pde ligar estes sres2 a cumplicidade4 ,de cima no haver brandura em quanto de baixo no houver subserviencia criminosa4 ,ambos o comprehendem de sobejo2 comprehendem-no sobretudo os criados que andam mira d'um segredo1 d'uma indiscrio1 d'uma descoberta qualquer que os faa levantar a cabea4 ,no dia em que a aia recebe a primeira confidencia da senhora1 no dia em que entrega o primeiro bilhete1 no dia em que lhe escutado o primeiro recado de que a encarregam1 invertem-se os papeis1 e s continua apparentemente aquella humildade que a suffocava de colera e de despeito4 ,era escrava obediente e muda1 hoje cumplice1 o que quer dizer tyranna4 ,ao marido em caso identico succede o mesmo4 ,moralidade d'esta situao3 o criado de hoje triumpha quando seus amos se rebaixam4 99 99 99 99 99 ,entremos nas casas burguezas1 que constituem hoje a maioria4 ,vive-se com pouco1 ha uma ou duas criadas1 a pobreza traz comsigo uma certa promiscuidade que abala o respeito4 ,j aqui os criados no so automatos que se movem ao impulso d'uma vontade superior4 ,no so mudos1 no teem a fria apparencia aristocratica que revela a opulencia da casa em que servem4 ,pelo contrario2 as criadas esto iniciadas nos pequenos segredos da familia1 mas como a vida de hoje1 toda de expedientes1 toda no ar1 desiquilibrada1 impostora1 no tem aquella dignidade da vida antiga1 as criadas com o seu malicioso instincto plebeu penetram esse viver1 julgam-no e escarnecem-o4 ,podia-se viver decentemente com o pouco que ha4 ,chega mesmo para uma alimentao sadia1 para a satisfao das necessidades indispensaveis2 se a dona da casa desenvolver os seus recursos de economia1 conseguir-se-hia sem muito trabalho1 no fim do anno1 joindre les deux bouts como expressivamente dizem os francezes4 ,o pae um funccionario bem collocado1 o rendimento se no grande pelo menos sufficiente para uma vida mediocre e laboriosa4 ,diante d'este quadro parece-nos que no ha brecha por onde possa penetrar a malicia interesseira da criadagem4 ,pois ha1 minhas senhoras6 ,o dono da casa tem um emprego bom1 verdade1 mas aspira a subir de posto1 quer de mais a mais a carta de conselho1 leva isto em capricho por causa das picuinhas do seu collega da secretaria1 o conselheiro ,fulano2 logo1 para attingir este fim desejado preciso antes de tudo figurar4 ,tem de ir aos chs do seu amigo deputado1 s soires do baro de tal que muito influente1 tem de dar de jantar de vez em quando ao seu amigo cicrano que parente do primo da mulher do secretario particular do ministro1 tem de gastar muito em apparato ridiculo1 em luxo avariado1 em pompa feita de remendinhos4 ,a mulher1 j se entende1 no lhe fica atraz6 ,podra6 ,e ella ento que tem de se vingar d'uns chascos que as snr4as ,silvas fizeram ha tres annos a um vestido de seda um tanto usado que ella trazia2 e que tem de fazer rebentar de inveja a ,d4 ,leocadia que mulher d'um commendador seu conhecido2 e de quebrar os olhos prima ,ausenda que anda a dizer pelas casas do seu conhecimento que no sabe onde ella vae buscar para tanto luxo6 ,filhas d'estes paes o que sero as meninas8 ,querem vestidos de seda1 embora os comprem em segunda mo1 querem joias embora sejam falsas1 querem botinas de taco alto1 porque as teem visto s pequenas da viscondessa de ,m4 e da baroneza de ,s4 e da marqueza de ,v42 querem apparecer no theatro1 querem ir ao ,club1 querem tomar banhos quando no seja em praia elegante1 ao menos na ,ericeira2 querem reunir noute uma vez por semana1 umas visitas que nunca vo1 querem fazer emfim o que por ahi faz toda a gente4 ,resultado d'isto1 resultado inevitavel4 ,deve-se na tenda1 deve-se no carvoeiro1 deve-se na modista1 deve-se no sapateiro1 deve-se na loja de fazendas1 deve-se s criadas4 ,a falta de seriedade na vida1 acarreta comsigo um milhar de pequeninas humilhaes insupportaveis4 ,as criadas vo porta receber os credores1 e trazem dentro os recados com um sorriso magano que escapa a todas as reprehenses e a todos os castigos4 ,se esto de mau humor resmungam1 fazem causa commum com o inimigo1 que no fim de contas o confrade2 se esto bem dispostas do alvitres1 inventam e lembram desculpas1 lamentam a senhora1 etc41 etc4 ,de qualquer dos modos amesquinham os amos1 estabelece-se entre elles e ellas uma intimidade funesta4 ,destroe-se assim o respeito1 disciplina1 a obediencia1 aquella hierarchia que tem de existir n'uma familia para que essa familia esteja bem organisada4 ,um dia1 as meninas1 que teem recebido a educao mais perniciosa e mais falsa1 fartam-se d'aquella vida de privaes intimas1 de balofas apparencias e querem fugir d'ella4 ,teem s uma porta3 o casamento4 ,nas familias pobres da burguezia1 o casamento julgado a porta por onde se sahe da miseria6 ,quantas vezes no elle a porta por onde se entra na desgraa6 ,comeam ento a namorar4 ,a namorar seja quem fr4 ,o alferes que passa1 o dandy pelintra que encontram nos seus passeios1 o litterato pallido e fatal que olhou para ellas da plateia4 ,quem a confidente natural d'este namoro1 a auxiliar forada d'esta intriga ridicula8 ,a criada6 ella quem espia a me1 e quem ajuda a enganal-a2 ella quem entrega e recebe as cartas1 ella quem se farta de rir com a menina1 ouvindo contar o que ella lhe disse1 e o que elle lhe tornou6 ,quantos perigos1 quantas humilhaes1 quantas vergonhas n'este facto que hoje trivial e repetidissimo6 ,a criada s tem a ganhar na execuo d'estes misteres4 ,ganha indulgencia para as suas proprias faltas1 uma advogada que ou por medo ou por sympathia defende a sua causa1 e at se tanto fr preciso se revolta por amor d'ella contra a authoridade maternal4 ,ganha quem a ajude no trabalho6 ,ganha a possibilidade de ser insolente e atrevida1 de se vingar da sua posio inferior1 de desafogar o mau genio1 e isto sem perigo de qualidade alguma4 99 99 99 99 99 ,quando se no do estes casos que ahi deixamos apontados do-se outros identicos ou outros similhantes4 ,da parte dos superiores indifferena profunda1 desejo de explorar de todos os modos e feitios os dependentes1 rudeza1 orgulho1 egoismo1 desapego4 ,da parte dos inferiores1 a mesma indifferena creada a pouco e pouco pela incerteza cerca do dia de manh2 desaffeio pronunciada1 despeito1 inveja1 e desejo de trabalhar o menos possivel1 em troca do maior salario que poderem alcanar1 separao de vida1 de interesses1 de alegrias1 de affectos4 ,se entra em casa a doena com todo o seu cortejo de lugubres tristezas1 de vigilias e de lagrimas1 nunca a criada saber ser enfermeira4 ,far o servio1 resmungando1 furiosa1 desattenta1 fazendo esperar um caldo para ir janella ver quem passa2 deixando apagar o lume de noite porque adormecer inteiramente esquecida dos que soffrem e velam4 ,e que lhe importa a ella no fim de contas que elles morram ou se salvem4 ,hoje est aqui1 manh estar n'outra parte6 ,se adoecer vem uma maca e leva-a para o hospital abandonada1 ssinha como um co6 ,no d porque no recebe4 ,entre os criados e os amos os interesses so absolutamente oppostos4 ,a unica circumstancia que pde alterar esta situao reciproca3 a cumplicidade4 ,que admira1 pois1 que todos os dias se observe maior e mais profunda immoralidade nos criados das grandes cidades8 que admira que as excepes se vo tornando dia a dia mais raras8 ,a culpa de uns e d'outros1 mas o mal tem ainda remedio4 ,procuremos apontal-o4 ,no que respeita aos amos cumpre3 ,que sejamos benevolos para que a humildade dos nossos inferiores nunca seja para elles uma humilhao4 ,que tenhamos no interior das nossas casas a maxima dignidade e o maximo respeito de ns mesmos e dos outros1 para que o nosso exemplo levante ainda os que esto mais baixo4 ,que vivamos de modo que nunca receiemos o escarneo1 ou a censura de alguem1 para que sobre ns nunca possam exercer-se influencias funestas4 ,que no exploremos a actividade dos pobres1 para que os pobres no tenham interesse em explorar as nossas fraquezas1 e j que indispensavel crear-se e educar-se a classe dos criados1 juntemos todos os recursos da nossa experiencia e do nosso bom senso1 para dar prompto e efficaz remedio a todos os males que so por assim dizer o privilegio especial d'essa classe4 ,,ii ,no capitulo anterior1 tractando d'esta questo1 tentmos apresentar as causas que determinam e aggravam a decadencia e desmoralisao dos criados modernos4 ,essas causas teem um resultado fatal que vem a ser o seguinte3 to precaria1 to falta de garantias1 to exposta a continuas alteraes a sorte dos criados1 que para ella s descem os que n'outra esphera no poderiam achar collocao que lhes d a subsistencia4 ,os bons1 que por acaso ou por circumstancias fortuitas acceitam este modo de vida1 so ainda mais desgraados do que os maus1 porque so mais explorados4 ,portanto ou fogem d'elle1 ou se corrompem fatalmente4 ,estamos1 pois1 em face d'este dilemma4 ,ou havemos de no ter criados1 ou havemos de os ter maus4 verdade que fomos ns que voluntaria ou involuntariamente os corrompemos e estragmos4 ,concedo4 ,agora1 porm1 no se tracta d'isso4 ,achamos o resultado das nossas proprias culpas e procuramos os meios de o modificar4 ,primeira necessidade imprescindivel3 preciso educarmos os nossos futuros criados4 ,mas como8 ,creando para isso instituies especiaes1 ou modificando a indole das que j existem4 ,tractemos antes de tudo das mulheres4 ,esto por todo o reino espalhadas1 e ainda bem que assim 1 as instituies de caridade1 tanto de iniciativa dos particulares1 como de iniciativa do ,estado4 ,o que que n'esses asylos se aprende1 salvo excepes possiveis1 mas que no chegaram ainda ao nosso conhecimento8 ,aprende-se em primeiro lugar o que hoje indispensavel para toda e qualquer situao1 por mais humilde que seja2 aprende-se a ler1 escrever1 contar1 coser e marcar4 ,aprende-se em segundo lugar a bordar de branco1 a bordar de missanga1 a bordar com cabello1 a fazer crochet1 a tocar orgo ou harmonium2 ha alguns onde se aprende grammatica1 historia1 geographia1 etc41 etc4 ,muito bem4 ,em cada cem raparigas1 admittimos que haja dez1 cuja intelligencia superior possa mais tarde aproveitar-se d'este genero de estudos4 ,sero mestras regias1 sero talvez caixeiras de alguma pequena loja1 sero mesmo professoras particulares se houverem progredido no estudo e adquirido uma instituio mais solida e mais proficua4 ,que fazemos das outras noventa8 ,imaginemos que cincoenta casaram muito moas4 ,acham um artista1 um carpinteiro1 um chapeleiro1 um entalhador1 um pedreiro1 um operario de fabrica1 que as rouba desamparada solido que estava espera d'ellas e que as leva para o seu pobre albergue desguarnecido e miseravel4 ,dos conhecimentos que adquiriram na educao dada pelo asylo quaes aproveitaro1 quaes applicaro sua felicidade1 ao seu bem estar domestico8 ,com que trabalho podero auxiliar o trabalho do marido1 insufficiente para acudir a todas as necessidades do mnage8 ,que officio aprenderam a exercer8 ,do as voltas de casa1 varrem1 limpam o p1 cosinham1 mas fazem tudo isto mal4 ,nunca ninguem as compenetrou bem da importancia altissima d'estes misteres to humildes4 ,ter a roupa do marido bem desencardida1 bem engommada1 com os seus remendos bem deitados1 ter a casa acciada e fresca1 ter uma comida pobre mas saborosa e bem temperada1 ter a alegria1 a abnegao1 a boa vontade1 e1 em muitas das horas que ficam vagas1 exercer qualquer pequena industria que ajude o marido1 banir de casa a tagarellice das visinhas1 viver s com o seu homem1 com os seus filhos1 no trabalho continuo1 no trabalho fecundo1 isso que de certo o ideal1 quem que lh'o ensinou a praticar8 ,deixemos1 porm1 essas cujo destino agora no precisamos de apreciar e voltemos para as que ficam4 ,sahem do asylo1 vo umas servir1 outras vo ser costureiras1 vendedeiras1 etc41 etc4 ,umas so as pobres creaturas roucas e aguardentadas que ahi vemos atravessar as ruas1 apregoando hortalias1 ou fructa1 outras as pallidas e anemicas creanas1 de cuia postia1 chapeu de aba revirada1 polonaise phenomenal1 bota de taco alto e cambada1 que encontramos noutinha ou de manh cedo1 indo para casa das modistas1 ou voltando de l4 ,as outras quem as no conhece1 ao menos por ter ouvido fallar d'ellas8 ,so as criadas de hoje1 ou sero as criadas de manh4 ,a educao que lhes deram est em contraposio perfeita com a tarefa que teem de cumprir4 ,uma que foi apresentada para cosinheira1 no tem as minimas noes culinarias1 mas em compensao l correctamente os jornaes que veem de manh4 ,outra1 cuja obrigao engommar1 no tem geito seno para bordar de matiz4 ,algumas1 menos favorecidas da intelligencia1 no sabem o que aprenderam1 nem aprenderam aquillo que fazem4 ,so as mais vulgares6 99 99 99 99 99 ,porque pois que se no d s raparigas do povo1 ao menos s que so educadas nos asylos de beneficencia1 uma educao em harmonia com o seu futuro papel8 ,no reprovamos de certo a leitura1 a ortographia1 uns elementos de arithmetica1 mas o que reprovamos que haja uma uniformidade absoluta na educao que se ministra a tantas e tantas creanas de indoles diversas1 de intelligencias diversissimas4 ,aquellas que tivessem disposies para um genero de trabalhos mais levantados1 deviam encontral-o n'uma casa especialmente destinada para as filhas do povo que at aos #ab annos tivessem dado manifestaes inequivocas de claro e perspicaz entendimento4 ,ali formar-se-hiam futuras professoras1 ou futuras artistas4 ,haveria n'esse estabelecimento mestras ou mestres que a cada uma conforme a sua vocao ensinassem as linguas1 a musica1 a pintura em porcellana1 a grammatica1 a geographia1 a contabilidade1 etc41 etc4 ,a essa casa1 que devia ser subsidiada pelo governo e auxiliada pela bolsa particular1 iriam as mes de familia procurar professoras portuguezas para as suas filhas1 professoras cuja educao fosse completa1 e cuja moralidade podesse ser affianada4 ,mais tarde os chefes de casas de commercio1 mais capazes de comprehenderem o grande alcance d'esta innovao1 iriam tambem buscar a essa casa raparigas honestas1 que elles podessem sentar mesa ao lado de suas filhas1 e a quem confiassem a contabilidade e os livros do seu estabelecimento4 ,os fabricantes de louas e outros industriaes achariam na intelligencia e na prompta comprehenso feminina grande auxilio1 e auxilio mais economico4 ,abaixo logo d'essa cathegoria mais elevada de intelligencia1 haveria1 n'outra casa1 as que tivessem especial tendencia para os trabalhos que requerem no s engenho1 mas tambem habilidade manual4 ,costureiras de vestidos1 modistas de chapeus1 raparigas que soubessem fazer rendas1 fazer franjas1 etc41 etc41 e que o asylo logo que lhes houvesse completado a aprendizagem1 podia empregar convenientemente4 ,seriam estas1 preferidas de certo a raparigas avulsas que entram para qualquer officio completamente ignorantes do trabalho que teem a fazer4 ,a disciplina escolar1 a instruco elementar recebida1 a aprendizagem methodica1 affirmava-lhes a sua superioridade enorme sobre as outras4 99 99 99 99 99 ,collocadas assim as mais destras e as mais intelligentes1 ficariam aquellas cujo espirito menos desenvolvido se recusava a uma applicao difficil4 ,estas seriam educadas expressamente para criadas de servir4 ,mas que educao precisa uma criada8 ,ora essa6 ,uma criada precisa uma educao to cuidadosa como uma duqueza4 ,a differena consiste unicamente n'isto3 ,uma tem de educar-se para criada1 e outra tem de educar-se para duqueza4 ,no asylo destinado a formar criadas1 haveria o mesmo escrupulo na escolha das mestras4 ,antes de tudo uma moralidade austera4 ,depois no que toca parte technica da educao1 officinas distinctas onde cada uma das discipulas fosse alternativamente aprender os servios que mais tarde tivesse a cumprir4 ,officinas onde se aprendesse a cosinhar segundo as regras da hygiene4 ,officinas onde se aprendesse a engommar segundo os processos mais adiantados4 ,outras onde se lavasse roupa de l1 e roupa de linho e algodo4 ,outras onde se talhasse roupa branca1 fatos de creana1 e fatos de senhora4 ,no se attenderia aqui como no atelier das modistas do asylo superior1 aos caprichos da moda1 mas unicamente commodidade1 ao bom gosto e hygiene4 ,outras ainda onde se cozesse machina4 ,haveria mulheres especialmente encarregadas de ensinarem as discipulas a varrer1 a limpar o p1 a esfregar o sobrado1 ou a enceral-o moda franceza1 a deitar bem rdes1 a fazer meias1 a cerzir panno1 etc41 etc4 ,haveria n'este estabelecimento um requinte de aceio hollandez4 ,as mestras escolhidas primeiro nos paizes estrangeiros1 e depois educadas pelo mesmo asylo1 ensinariam com o maior cuidado s suas discipulas1 que as criadas destinadas pelo seu trabalho a penetrarem no seio de familias inteiramente estranhas a viverem em contacto com gente de muita qualidade eram foradas a ter1 alm da honestidade commum a todas as mulheres honestas1 uma honestidade particular da sua classe1 uma honestidade composta de elementos muito variados4 ,dir-lhes-hiam que uma criada boa tem de ser leal1 tem de ser digna1 de resistir s ms tentaes1 de ser fiel1 de ser boa companheira1 de ser laboriosa e de ter o escrupulo mais exagerado no cumprimento das suas obrigaes4 ,n'este asylo ainda haveria subdivises necessarias4 ,as mais geitosas para um certo e determinado trabalho applicar-se-hiam a elle de preferencia1 no desprezando porm os outros4 ,aquella que fosse destra para tudo1 aproveitaria egualmente todos os elementos que houvessem de constituir a sua educao4 ,ser criada no --entenda-se bem--nem uma vergonha nem um pis aller2 ser criada um officio1 s vezes mais complicado que os outros1 porque comprehende muitos4 ,a unica differena que se pde ser uma boa criada no sendo excessivamente intelligente1 e que as qualidades aqui indispensaveis so robustez1 destreza de mos1 fidelidade1 amor de trabalho4 99 99 99 99 99 ,no se diga que isto uma utopia impossivel4 ,no estado de adiantamento a que chegou entre ns o principio de associao applicado beneficencia1 nada mais facil do que organisar por este modo os asylos do paiz1 ou pelo menos de uma cidade do paiz4 ,no augmentaria de modo algum a despeza1 mas progrediria necessariamente a educao popular4 ,reunidas debaixo de uma direco geral1 todas as casas de ,beneficencia de uma cidade1 passaria esta no a crear asylos novos1 mas a modificar a indole dos que existem4 ,estabelecer-se-hia uma especie de gradao natural4 ,em baixo a casa que recebesse sem distincao todas as creanas de #d a #aj annos que estivessem no caso de serem admittidas4 ,alli1 sob a direco de professores intelligentes1 e de directoras de espirito cultivado1 far-se-hia aos #ab annos de edade a escolha4 ,umas seriam enviadas para o asylo profissional de #a4;a classe1 outras para o asylo profissional de #b4;a classe1 a terceira para o asylo das criadas futuras4 ,aquellas que estivessem mais adiantadas trabalhariam logo1 de modo que grangeassem um salario por mesquinho que fosse4 ,esse salario entraria como elemento de receita na caixa central4 ,este plano1 como se v1 no mais que um plano embryonario1 o germen d'uma ida que se nos affigura util e praticavel4 ,outros melhor do que ns o estudem e desenvolvam1 se entenderem que o merece4 99 99 99 99 99 ,quanto a ns1 acreditamos piamente que s ento comeariamos a ter criadas4 ,as que sahissem do asylo com #bj annos de edade ficariam sujeitas a uma certa e determinada vigilancia1 cujo systema e cujas bases nos no compete agora explicar4 ,com estas garantias de moralidade1 e de bom servio1 seriam preferidas a todas que as no tivessem1 e pelo menos fariam uma util concorrencia s criadas indisciplinadas e ignorantes que hoje temos4 ,as casas dignas e honestas teriam criadas cujo comportamento as no deslustrasse4 ,as outras ficariam com as que teem hoje4 ,no merecem mais4 99 99 99 99 99 ,nos asylos dos rapazes1 seguir-se-hia uma norma egual ou parecida4 ,esses como teem campo muito mais vasto para exercerem as suas actividades complexas1 dariam de certo1 bem educados e bem dirigidos1 um pequeno contingente para a classe dos criados4 ,seria um bem4 ,uma criada representa sempre uma necessidade1 um criado representa sempre um luxo6 ,para que ha de haver criados de meza ociosos e insolentes1 cosinheiros envenadores e infieis8 ,estes servios to faceis no podem ser feitos por mulheres8 ,logo que este uso se propagasse entre os ricos1 deixaria de ser indicio de pobreza1 ou de habitos plebeus4 ,no fim de contas tudo isto no passa de conveno6 99 99 99 99 99 ,j que o ,estado julga descer occupando-se d'estas pequeninas questes de moralidade domestica1 que a iniciativa individual o substitua4 ,ninguem mais do que ns tem applaudido o engrandecimento progressivo1 o rapido desenvolvimento das instituies de caridade4 ,no o dinheiro que falta1 porque entre ns quando se falla na miseria1 a caridade nunca faltou2 o que falta uma direco boa4 ,a rotina n'isto como em tudo funestissima4 ,a nossa caridade official d po e vestuario s creanas1 mas que faz em favor das mulheres8 ,dando-lhes uma educao que no est em harmonia com os seus meios futuros1 condemna-as miseria1 desgraa1 quantas vezes ociosidade e ignominia8 ,a educao deve fazer-se pratica e positiva1 deve tornar-se um preventivo efficaz contra os maus conselhos da pobreza ou da preguia6 ,os que pensarem n'isto faro um bem familia1 e sociedade4 ,creanas ,,capitulo ,,xv ,i ,so ellas a alegria da familia1 como a familia a suprema ventura dos felizes1 e o supremo consolo dos desgraados4 ,quando apparecem trazem comsigo o sol2 tudo se illumina4 ,sorriem os labios mais ironicos1 marejam-se de lagrimas doces os olhos mais aridos1 estendem-se prodigas de benes as mos mais avaras4 ,ellas so a graa que se ignora1 a fraqueza que nenhum poder assusta1 a innocencia que interroga1 a aurora intellectual que desponta e que diffunde em torno de si uma luz cariciosa e limpida1 uma luz que se reflecte em jubilos no corao das mes4 ,tudo na vida para ellas mysterio1 mysterio que as chama e as attrahe1 cujas trevas as no apavoram1 em cujos sinistros meandros nem sequer receiam perder-se4 ,em cada um d'aquelles pequeninos cerebros encerra-se em germen tudo que no homem pequenez ou grandeza1 genio ou mediocridade1 fora ou impotencia1 virtude1 abnegao1 esquecimento de si ou egoismo1 vicio e crime4 ,onde ha maior mysterio do que a creana8 ,debalde a interrogamos2 no sabe responder1 seno quelles que pelo poder da sympathia logram identificar-se com ella4 ,recebel-a das mos de ,deus para a mulher1 para a me a mais tremenda das responsabilidades1 e desgraadamente aquella de que tem a consciencia menos definida e menos clara6 99 99 99 99 99 ,ser me1 quem o no 8 ,a difficuldade e o segredo saber sel-o4 ,na sociedade1 tal como ella est constituida e continuar a estar por largos e dilatados annos1 dous entes1 um homem e uma mulher1 moos ambos1 encontram-se1 olham-se1 sorriem-se e pensam de si para comsigo que esto apaixonados4 ,durante alguns dias1 alguns mezes1 a que elles em falsa e sentimental linguagem chamam seculos1 repetem um ao outro1 n'um tom mais ou menos desafinado os duettos de ternura doentia que os romancistas1 os prosadores e os maestros inventaram para conveniencia sua444 dos seus emprezarios e editores1 e para envenenamento do resto da humanidade4 ,n'este meio tempo1 por detraz dos bastidores1 os paes1 que fingem no ver nada1 calculam in petto quaes os prs e os contras pecuniarios do matrimonio hypothetico4 ,se os primeiros levam certa vantagem aos segundos1 celebra-se com a devida pompa o almejado consorcio1 e n'essa noite ha mais dois desconhecidos1 dois indifferentes1 dois estranhos acorrentados um ao outro por um lao que devia ser sagrado1 e que muitas vezes consegue smente ser444 dourado6 ,o marido no outro dia vae para as suas labutaes do costume1 para a vida exterior que o reclama e absorve1 a mulher fica em casa provando os vestidos do enxoval1 experimentando se lhe fica bem a touca1 distinctivo invejavel das noivas1 ensaiando os seus primeiros vos timidos de senhora independente1 que pde sua vontade fechar o piano1 atirar fra o lapis e as tintas1 deixar para um canto a costura e o bordado1 e subverter-se sem receio das censuras maternas no dolce far niente1 que tanto a namorava em seus dias de educanda submissa4 ,d'alli a um anno1 se boa1 docil1 se tem a intuio das cousas delicadas1 se um poderoso instincto de creatura amoravel lhe pede que espalhe em volta de si a felicidade1 concedamos-lhe que j tem tido tempo de conhecer e apreciar seu marido1 que principia a estimal-o1 que se lembra um poucochinho envergonhada dos falsos lyrismos de solteira1 das cartas que lhe escrevia fazendo estylo e copiando phrases dos grandes apaixonados que a lenda e o romance immortalisam2 que tem1 emfim1 ainda incompleta1 mas j accentuada a noo da verdade e da justia que ha de guiar-lhe a vida4 ,param1 porm1 aqui os seus conhecimentos1 e um dia1 surpreza1 encantada1 extactica1 chorando de alegria1 umas lagrimas verdadeiras1 d'estas que se escoam entre risos de gratido1 percebe que tem nos braos um pequenino ser1 a quem tem direito de chamar filho1 porque o gerou no seio em longos mezes de agonia insondavel4 ,que ha de fazer d'elle8 ,como ha de desenvolver1 robustecer1 cultivar a saude d'aquelle entezinho1 fragil e indefezo1 que lhe solta no regao os seus primeiros vagidos1 buscando com a boquinha faminta e o instincto animal1 que ,deus concede a todos os seres creados1 a primeira gotta do leite materno1 que a sua vida8 ,entram as amigas e dizem-lhe em cro3 --,no o cries que perdes a formosura1 o vio1 a mocidade1 tudo o que prende e captiva teu marido4 --,no o cries1 que tens de te despedir dos bailes1 das noites triumphantes em que a valsa nos arrebata nos circulos vertiginosos1 em que as flres e as finas essencias nos embriagam com o perfume enervante1 em que a musica nos ca nos sentidos as suas caricias languidas1 em que a luz cra do gaz nos beija as espaduas opalinas1 em que a admirao dos homens nos envolve na audaz provocao dos seus olhares1 em que a inveja das mulheres nos enrosca em espiraes de cobra4 --,no o cries1 que ters de perder as noutes1 no entre alegrias e folgares1 mas na alcova1 onde a medo bruxoleia a luz mortia da lamparina1 junto de um pequeno bero1 ouvindo aquelle choro da infancia1 to doloroso para os ouvidos maternaes4 ,teu marido fugir de ti2 elle1 que anda cansado da faina diaria1 quer as noutes tranquillas1 os somnos fartos1 as placidas madrugadas2 repugnam-lhe os primeiros trabalhos que a creana tem que dar por fora me1 que fr me1 na accepo plena da palavra4 ,no creio que a maior parte das mulheres oua os funestos e corrosivos conselhos das amigas falsas2 hoje comea a radicar-se em todos os espiritos a convico justa e sensata de que s a me1 quando robusta1 ou quando simplesmente s1 deve amamentar o filho4 ,entregal-o aos braos mercenarios de mulher estranha aceitar a mais tremenda das responsabilidades4 ,a ama pde communicar no leite os seus vicios1 os seus instinctos maus1 as suas doenas ou defeitos de organisao hereditaria1 toda a herana fatal de um passado inteiramente desconhecido para as pessoas que to levianamente lhe confiam o que devia ser o mais precioso thesouro da sua alma4 ,abstraiamos1 pois1 a ama1 por no querermos suppr que se trata aqui de uma me frivola at ao crime1 despiedosa at ferocidade1 ou fraca a ponto de no poder cumprir os deveres da sua misso maternal4 ,fica-nos simplesmente a me inexperiente e ignorante em face da recem-nascida creatura1 flr que precisa o mais desvelado cultivo1 a mais complexa das educaes4 ,no a accusemos ao vel-a aceitar o seu mimoso fardo com to leviana confiana1 com uma to plena inconsciencia da grande misso que precisa de cumprir4 ,a culpa no d'ella2 n'este ponto ha um criminoso apenas-- o homem4 99 99 99 99 99 ,abrem-se universidades1 lyceus1 escolas1 seminarios1 institutos scientificos1 para educarem no seu seio os jurisconsultos1 os medicos1 os sacerdotes1 os mathematicos1 os commerciantes1 os sabios1 os cidados do futuro4 ,s falta uma escola1 a primeira1 a mais indispensavel das escolas1 a que facilitaria e tornaria fructiferos os trabalhos das outras3 falta a escola das mes6 ,ninguem se lembrou ainda de a crear1 julgam-na desnecessaria1 ou talvez que a julguem frivola4 --,como que se ha de ensinar a ser me8 s a natureza que instrue a mulher4 ,ha mes de quinze annos que sabem mais n'este assumpto do que velhos pensadores de sessenta4 ,deixae obrar a natureza1 ella a grande mestra1 a suprema inspiradora6 ,de accordo1 meus senhores2 quem que nunca se lembrou de negar me o seu divino instincto de proteco e de ternura8 ,quem ao vel-a segurar com to delicado carinho o tenro corpo do filho1 acalental-o nos braos1 adivinhar-lhe as necessidades e os desejos at para elle indistinctos1 negar que entre esses dous entes ha uma cadeia mysteriosa1 que a natureza nunca poder mais desatar8 ,mas necessario que o estudo auxilie o maravilhoso instincto1 que elle ensine me a comprehender no seu triplice aspecto1 physico1 moral e intellectual1 a educao do ser complexo1 que hoje uma fraqueza que implora auxilio e ajuda1 que manh ser uma fora util ou funesta1 conforme a direco que haja recebido desde os mais tenros annos4 99 99 99 99 99 ,o estudo que comprehende todos os outros estudos1 e que deve1 portanto1 constituir o ponto culminante da instruco1 a theoria e a pratica da educao da infancia4 ,estas palavras de ,herbert ,spencer1 o philosopho mais notavel da moderna ,inglaterra1 um grande pensador1 um chefe de escola1 provam de sobejo at que ponto1 aos olhos do homem que medita1 avulta hoje o grande problema da educao4 um erro imaginar que a creana nasce boa4 ,ha n'ella instinctos innatos de natureza selvagem1 instinctos primitivos1 que s uma habil cultura modifica1 transforma1 encaminha ou desarreiga4 ,toda a creana curiosa3 mes aproveitae essa grande fora1 que conduz o homem conquista de todas as grandes descobertas da sciencia e da arte1 e que pde quando entregue a si conduzir a creana ao mais deploravel e mesquinho dos vicios de caracter1 curiosidade esteril do ocioso1 da senhora visinha4 ,a creana tem o instincto do roubo4 ,apossa-se do que v1 do que attrahe pelo brilho1 do que lhe desafia a cubia1 a gulodice1 o amor da posse4 ,leitora1 quando o teu pequenino de tres ou quatro annos tiver artes de te roubar uma joia muito querida1 um manjar muito reservado1 um bibelot qualquer1 que seja para ti de grande estimao1 no chores desconsolada1 lendo n'esse primeiro symptoma sinistras prophecias4 ,esse prenuncio de ambio desregrada pde1 dirigido com previdente vigilancia1 transformar-se na legitima energia que leva o homem a desejar a posse das riquezas honestamente adquiridas1 a exercer no seu espirito uma influencia fortificante1 a tornal-o pertinaz no caminhar para um ficto que de longe antevio4 ,dirigir toda e qualquer tendencia para um fim elevado e util1 combater a inercia1 a preguia physica e intellectual da creana1 empregando activos reagentes1 ir ajudando lenta e gradualmente a evoluo natural do entendimento infantil1 abrir-lhe o espirito a todas as curiosidades ss1 apontar para a natureza inteira como para um livro enorme1 mysterioso1 cheio de apaixonado interesse1 de peripecias dramaticas1 de imagens vistosas1 que elle ha de ir decorando a pouco e pouco1 conduzil-o at ao limiar da adolescencia1 puro de corao1 immaculado no corpo1 prompto e apto para absorver em si os conhecimentos complexos que o esperam1 robusto1 so1 energico1 confiante1 cheio de crena nos outros1 e de crena maior em si1 eis a misso das mes4 ,que de cousas no so indispensaveis para a saber cumprir6 99 99 99 99 99 ,uma das cousas que a mulher quasi geralmente ignora a hygiene pratica1 que ella tanto precisava saber1 tendo1 como tem1 a seu cargo a distribuio e direco do alimento da familia4 ,do alimento que se ministra creana depende em grande parte no s a sua futura saude1 mas1 o que poucas mulheres sabem1--o seu caracter futuro6 ,dae a uma creana alimentos irritantes1 inflammaveis1 apimentados2 deixae-a usar sem discernimento de bebidas em que o alcool predomine1 e tereis o temperamento adulterado1 o caracter azedo1 os habitos baixos1 os gostos perversos1 todas as aberraes de um organismo estragado4 ,dae-lhe s carne1 alimentae-a brutalmente de materias fortemente azotadas1 e fareis d'ella1 da meiga e fragil creatura1 do pequeno anjo de cabellos louros e olhos innocentes1 um temperamento sanguinario1 selvagem1 amigo das luctas bravias1 das distraces violentas1 dos exercicios athleticos1 que caracterisam as rigorosas raas do norte4 ,exemplo3 os inglezes1 que s domam as revoltas brutaes do temperamento com a forte disciplina de uma educao que o supremo milagre do espirito sobre a materia4 ,a alimentao fraca produz os organismos inertes1 fleugmaticos1 sem impulso1 sem fibra1 sem energia duravel4 ,saber pois1 conhecer os diversos attributos que caracterisam a alimentao do homem1 saber combinal-os de modo que todos concorram para o seu bem-estar physico1 e que nenhum produza as graves perturbaes organicas de que podem ser origem1 a sciencia das mes1 sciencia para cujo estudo devem tender todos os seus esforos4 99 99 99 99 99 ,a actividade quasi incessante da creana um dos meios que mais efficazmente concorrem para o seu crescimento physico e1 por consequencia1 para o seu desenvolvimento intellectual4 ,as mes1 julgando fazer n'isto um grande servio a seus filhos1 combatem por todos os modos esta actividade1 obrigando as creanas a uma quietao que se transforma em supplicio para os pequeninos corpos buliosos1 que um impulso involuntario leva a um quasi continuo movimento4 ,no s com as reprehenses1 s vezes asperas e sempre injustas1 no s encerrando os pobres seres pequeninos em espao muito estreito para os seus desejos1 tambem vestindo-os para obedecer ao despotismo da moda1 e s exigencias da propria vaidade de um modo que est em pleno contraste com a ida que todo o espirito um pouco sensato deve formar das aspiraes e necessidades da infancia6 ,a creana1 que quer e que precisa de correr no espao amplo1 pelas ruas pedregosas1 pelos campos lavrados1 pela matta cheia de raizes1 traz quasi sempre uma botina alta1 justa1 de salto levantado e estreito6 ,ella1 que aspira aos movimentos livres1 que se compraz nos grandes gestos1 que trepa s arvores1 que se roja pelo cho1 que atira ao longe os improvisados projectis que encontra1 sente-se cruelmente cingida por um fato rico1 elegante1 phantasioso1 caro por fora1 e que tem o defeito duplo e contradictorio de a entristecer lentamente1 inconscientemente pelas censuras e ralhos de que lhe motivo incessante--visto que no ha nada mais avarento do que a prodigalidade e nada mais economico do que a ostentao--e de a tornar vaidosa pelo habito e pelo gosto de attrahir as vistas dos frivolos1 e a inveja dos pobres1 dos pequenos rotos1 dos miseraveis de cinco annos1 que ignoram as alegrias bemditas da sua liberdade indomada6 ,mes1 arrancae ao vestuario dos vossos filhos tudo que fr vaidade1 falso luxo1 ostentao ridicula6 ,a graa das creanas consiste na plena expanso da sua vitalidade2 o luxo d'ellas est no doce aroma de infancia que de si exhalam1 e que falla de aceio1 de pureza1 de carinho materno1 que revela--aos que sabem ver--as matinaes e frescas alegrias do banho1 as risadas crystallinas como perolas que se desfiam1 os gritinhos infantis1 as fugidas subitas1 todo esse poema1 que ninguem traduz1 de um bando de pequeninos corpos1 feitos de leite e rosas1 com cabelleiras louras por aureola1 que uns braos amorosos amparam1 susteem1 acariciam1 em quanto que um sorriso meigo e pensativo illumina em clares de limpidez ideal1 uma bocca que s sabe abenoar1 uns olhos de me1 que nunca desamparam nem desfitam o tepido ninho das suas doces aves implumes4 ,,ii ,por muito tempo todas as attenes do homem se fixaram n'um ponto que se avistava para alm da vida terrestre4 ,curava-se smente da alma considerando a terra morada transitoria1 cheia de males e de miserias1 e o corpo ephemero involucro1 especie de lodoso carcere onde o espirito prisioneiro anciava por levantar o vo para as altas espheras da eterna bemaventurana4 ,este pensamento1 que dominava todos os outros e ao qual todos os outros se subordinavam1 a causa suprema de onde deriva toda a philosophia da edade mdia1 e que determina o ideal a que tenderam os sonhos de milhares de geraes1 nossas predecessoras na vida4 ,foi elle que estabeleceu o medonho antagonismo entre o espirito e a materia1 causa de tantos erros e de to falsas interpretaes2 foi elle que levou o homem perdido e transviado a considerar a natureza como a sua mais cruel inimiga1 como a sua tentao mais perigosa e abominavel4 ,d'esta guerra anti-humana e anti-natural nenhuma conquista verdadeira poderia provir4 ,era falso o ponto de vista de que o homem partia1 falsissimas todas as deduces que d'esse ponto de vista resultavam4 ,o corpo era um farrapo miseravel que s merecia desprezo e humilhao2 todo o prazer1 ainda o mais natural era um peccado que cumpria expiar cruelmente2 a vida era um periodo curto de passagem e penitencia2 a creana nascida j vinha contaminada do peccado original2 a alma1 s a alma precisava dos nossos cuidados1 das nossas meditaes1 do nosso mais especial e esmerado cultivo6 ,quantos erros de educao1 de moralidade e de hygiene6 ,quantas revoltas medonhas este despotismo espiritual no excitava6 ,mas foi por acaso esse tempo de pura espiritualidade8 ,pelo contrario6 ,nunca os instinctos maus do homem imperaram com mais violencia6 ,nunca se materialisaram mais todos os cultos e todas as idas6 ,o ,deus que todos adoravam em extasis apaixonados1 era o ,christo dolorido1 cadaverico1 crivado de pregos1 escorrendo sangue de cada uma das suas chagas abertas4 ,a dr maternal era symbolisada por sete espadas atravessando um corao dilacerado4 ,os fanaticos mostravam admirao das turbas os estygmas sangrentos das suas carnes palpitantes4 ,os ascetas tinham vises nas quaes o ,padre ,eterno1 o ,christo1 a ,virgem1 os ,santos1 lhes appareciam sob a frma humana1 com feies diversas e caracteristicamente accentuadas1 fallando na linguagem mais correntia e mais ch4 ,a resurreio da carne era um dos pontos fundamentaes do dogma catholico4 ,o espiritualismo d'essas ras barbaras era muito mais material do que a sciencia de hoje4 --,para que aperfeioarmos e amenisarmos a vida1--diziam do alto dos seus pulpitos ou nas paginas dos seus tractados as terriveis authoridades d'essas ras to hostis para o homem4--,quanto maiores supplicios houvermos padecido n'este momento rapido1 maior quinho de gloria tem para ns a eternidade4 ,sofframos todas as humilhaes mais abjectas1 curvemo-nos diante de todas as tyrannias1 deixemos que os vermes devorem o nosso corpo ulcerado1 sejamos grandes em face do ,senhor1 como ,job na sua gloriosa estrumeira4 ,os que forem ultimos c em baixo1 sero os primeiros no cu6 ,e a humanidade1 bria de um sonho de beatitude immortal1 perdia a fora para combater1 e esperava passivamente a resurreio esplendida que os illuminados lhe promettiam6 ,oh6 quanto devemos robustez de espirito1 f fecunda e creadora que moveu alguns homens privilegiados a fazerem-nos sahir d'esse marasmo estagnador6 ,foram esses homens os verdadeiros creadores da sciencia1 que hoje illumina at os mais ignorantes1 dos bens que hoje desfructam at os mais desgraados4 99 99 99 99 99 ,um dos problemas resolvidos pelos modernos1 e que se no fossem esses benemeritos de que acima fallamos ficaria para sempre obscuro1 o problema da educao4 ,segundo o ponto de vista da edade mdia1 a me no devia attender seno alma de seu filho4 ,era preciso fazer d'elle um santo1 e as mais das vezes s se fazia um bandido4 ,e que o alvo a que se tendia era estupido e anti-natural e os meios de que se usava eram inteiramente contraproducentes4 ,hoje a me j no tem desculpa nem da sua ignorancia propria1 nem da ignorancia da sua poca4 ,se no sabe porque no quer saber4 ,o homem moderno tem applicado grande parcella da sua prodigiosa actividade em descobrir os meios mais efficazes de fazer as geraes que vo seguir-se-lhe melhores do que as geraes que o precederam4 ,est pacificada a guerra que se havia travado entre a alma e o corpo4 ,mais ainda2 hoje comprehende-se perfeitamente que da saude do corpo que depende a saude da alma1 e que os maus so quasi sempre os enfermos ou os defeituosos4 ,o caminho das boas mes est naturalmente traado4 ,no poupar esforos para aperfeioar e robustecer o corpinho querido1 dentro do qual est crescendo e desabrochando a flr maravilhosa1 a flr delicadissima1 que a alma infantil4 ,poucas pessoas comprehendem a fundo qual seja a responsabilidade de ser me4 ,no a pde haver mais seria e mais tremenda4 ,desde que a creana nasce at ao segundo periodo da sua vida1 em que ella j comea a ser susceptivel de ensino1 quantos cuidados multiplos1 engenhosos1 delicados e constantes6 ,um movimento menos suave1 um golpe de ar quando a creana est no banho1 um abafo excessivo ou uma imprudente e rapida mudana de habitos1 qualquer pequena cousa que primeira vista parece insignificante1 pde ter um alcance enorme no futuro do querido entezinho4 ,sabemos de uma creana que ficou cega1 porque estabeleceram uma corrente de ar no quarto em que ella tomava um banho tepido4 ,conhecemos uma pobre mulher1 que tem padecido toda a vida cruelmente1 que nunca pde trabalhar1 nem ser util a ninguem1 porque a tornou rachitica uma quda que a fizeram dar brincando com ella em pequena4 ,ha muita gente que se diverte estupidamente atirando as creanas ao ar1 fazendo-as dar voltas1 abalando-lhes o pequeno cerebro4 ,quem pde dizer os resultados fataes para o seu organismo que d'ahi resultam6 ,a creana tudo que ha de mais fragil e de mais delicado4 ,pensem bem todas as mes que um erro de hygiene pde s vezes fazer de uma indole pacifica uma indole perversa4 ,a alma e o corpo1 os dous irreconciliaveis1 inimigos de outro tempo1 esto hoje para todos os olhos to estreitamente unidos1 to profundamente identificados1 que no ha abalo ou sensao que um experimente e de que o outro deixe de resentir-se logo4 99 99 99 99 99 ,pensam muitas mes que o melhor meio de emendarem os erros de seus filhos1 so os ralhos repetidos e os castigos severos4 ,engano perfeito6 ,o unico meio de educao verdadeiramente proficuo o exemplo4 ,que encargo de almas no assume a mulher que quizer ser boa me6 ,a mais doce e a mais tocante relao reciproca que existe entre a me e o filho1 aquella em virtude da qual a me educando-se educa1 e o filho sendo ensinado ensina4 ,emquanto ensinamos os nossos filhos1 a ns proprias nos estamos illustrando4 ,pensando nas virtudes que elles devem adquirir e no meio de lh'as inocularmos no corao1 como que se nos vo lentamente revelando todas as bellezas incomparaveis d'este mundo moral1 de cuja contemplao andavamos1 seno alheiadas1 ao menos distrahidas4 ,oh6 de quantos rasgos bons no origem para a me1 o receio de vr traduzir-se um espanto accusador nos olhos limpidos de seu filho4 ,e depois necessario que todas as educadoras pensem muito n'esta verdade to simples e to lucida4 ,o exemplo1 que ensina1 guia e robustece a alma e educa o espirito4 ,que importa que ella pregue e ensine as boas palavras1 e a brandura do caracter1 se ella no provar com o seu exemplo de todos os dias a divina graa d'estas qualidades e d'estes usos8 ,a creana obedecer talvez1 mas sem convencimento e sem alma6 ,para que todas as benos de ,deus chovam sobre a cabea das que sabem ser boas mes1 nem esta beno suprema lhes faltou4 ,ao contacto divino da infancia1 na doce intimidade da innocencia1 perdem defeitos e ganham virtudes4 ,a educao bem comprehendida to util me como creana4 99 99 99 99 99 ,imagine-se uma creatura fraca1 indolente1 tendo sido de pequena criminosamente amimada1 mas ao mesmo tempo possuidora de claro e perspicaz entendimento4 ,tem habitos inveterados de preguia1 tem horas desoladoras de tedio e de morbida melancolia4 ,o tempo para ella pesado e longo4 ,vive1 no gosando as horas porm matando-as como pde4 ,no se occupa1 no reage contra o seu natural e funesto prostramento1 no tem um fim util e querido para o qual viva4 ,um dia esta creatura infeliz me6 ,comprehende toda a responsabilidade que lhe cahiu sobre os hombros1 e como no fim de contas intelligente e boa1 quer cumprir dignamente a sua sagrada misso4 ,como milagrosa e abenoada a influencia que n'este caso a creana innocente exerce no caracter de sua me4 ,acabaram-se as longas scismas dolentes1 as doentias tristezas1 os inuteis desalentos6 preciso que ella ensine a viver fragil creaturinha que ,deus confiou aos seus braos4 ,quantas d'estas redempes se no devem infancia6 ,quantas vezes a mo inconsciente de um pequeno ser de dous ou tres annos no tem redimido os erros de seus paes6 99 99 99 99 99 ,lembra-nos1 a proposito d'isto1 uma poesia deliciosa que lmos ha muitos annos1 e cuja ida esta4 ,duas desgraadas creaturas1 d'estas que a miseria prende s vezes mutuamente por ephemeros laos1 arrastavam juntas uma vida angustiada e degradante4 ,ella sem coragem1 sem aceio1 sem actividade1 sem aquella fora que ao mais negro albergue pde dar a mysteriosa graa dos ninhos2 elle1 ocioso1 cruel1 covarde diante da desgraa e diante do trabalho1 brio s vezes1 d'aquella selvagem embriaguez da aguardente e do absintho4 ,porque se conservaram unidos8 ,nem elles proprios o sabiam4 ,poder do habito1 abjecto marasmo das supremas degradaes4 ,um dia1 n'aquelle antro miseravel1 soou o vagido de uma creana4 ,no se admirem4 ,tambem s vezes das podrides de uma sepultura desabrocha uma rosa de maio4 ,quando noite o homem voltou de suas divagaes sem rumo1 a pobre mulher prostrada nas palhas apodrecidas da enxerga1 perguntou-lhe espantada3 --,porque me no bates8 porque me no ralhas8 quem que suspendeu o insulto da tua bocca1 e os golpes dos teus braos8 ,e elle1 o homem perdido e brutal1 respondeu baixinho com um enternecimento desconhecido na voz rouca3 --,tenho medo de acordar o pequenino4 --,j'ai peur de rveiller l'enfant4 ,oh6 creanas1 creanas1 como isto revela bem o poder divino que to vosso6 99 99 99 99 99 ,tenho fallado muito s mes n'este assumpto4 ,nunca me cansarei de lhes repetir que se entreguem bem do intimo d'alma educao dos seus filhos6 que no ha creanas ms1 como no ha homens perversos4 ,ha creanas mal educadas e ha homens pervertidos4 ,na educao que as creanas recebem dominam ainda perigosos preconceitos1 e dizemos perigosos1 por que n'este grave assumpto todo o erro um perigo4 ,apontemos alguns4 ,toda a me ambiciona possuir um filho modelo4 ,quer dizer1 um menino muito direito1 muito aprumado1 que falla como um livro1 que sabe grammatica1 maximas moraes1 que repete versos classicos1 que nunca faz bulha1 que tem gestos desdenhosos e reprehensivos para a travessura dos outros1 que nunca se esquece das lies1 que emfim um prodigio que todas as mes invejam1 e apontam como ideal a seus filhos menos privilegiados4 ,esta classe de creanas pde dizer-se que a unica verdadeiramente antipathica4 ,evitemos quanto possivel que os nossos filhos sejam meninos modelos4 ,para evitar este resultado1 preciso no dar excessiva atteno s graas naturaes da creana1 no a louvar de modo que ella oua1 no a forar a estudos precoces1 fazel-a brincar1 correr dar-lhe plena liberdade de movimentos e de impulsos4 ,se a creana tem demasiada propenso para os estudos mais proprios de outra edade1 cumpre distrahil-a1 pl-a em contacto com a natureza1 ensinal-a a comprehender a alma das cousas4 ,nada melhor para desenvolver o espirito e o corao das creanas do que a vida no campo4 ,plantas1 arvores1 animaes1 os alegres trabalhos da lavoura1 tudo que desperta sans curiosidades no entendimento infantil4 ,dae ao vosso filhinho um alegrete do jardim para elle tratar1 dae-lhe um animalzinho manso e inoffensivo a que elle se affeioe4 99 99 99 99 99 s vezes quando o nosso filhinho bate com a cabecinha no cho1 ou em qualquer movel da casa1 vemos com indifferena a criada que o trata bater tambem1 fingindo-se muito zangada1 no objecto que sem culpa nem consciencia a causa da magoa que afflige o nosso pequeno amor4 ,este velho costume das aias e das mes pouco atiladas1 um erro4 ,torna a creana absurdamente vingativa4 ,d'ahi a bater ou a ter vontade de bater em quem a contraria1 no vae nada4 ,de cada ida falsa se faz n'estes cerebros delicados e impressionaveis o germen de um vicio ou de um defeito4 ,quantas mes eu no tenho ouvido dizer3 ,meu filho to teimoso6 ,meu filho to guloso6 ,ou to tagarella1 ou to curioso6--ou to colerico6 ,mes1 procurae bem no passado e achareis a semente d'isso que hoje planta damninha e venenosa4 99 99 99 99 99 ,combater a teima1 com a teima1 a gulodice natural com a abstinencia forada1 a clera instinctiva1 com os castigos implacaveis1 pessima tactica4 ,o meio de levar uma creana a esquecer-se de que teimava1 distrahir-lhe a atteno para assumpto muito diverso d'aquelle que a absorvia4 ,quando uma creana exageradamente gulosa1 o meio de a emendar leval-a a envergonhar-se do seu defeito1 a crar d'elle diante de si propria4 ,nas cleras a que todas as creanas so mais ou menos sujeitas1 o remedio mais efficaz uma brandura magoada4 ,que a me deixe ver que os erros de seu filho a no enfurecem1 mas a fazem soffrer muito4 ,a creana ficar desarmada e moralisada4 ,para ella a revelao subita de que foi causa de grande amargura para aquella a quem mais estremece1 corresponde ao despertar da consciencia e ao pungir do seu primeiro espinho6 ,usemos na educao dos meios puramente moraes1 e no das degradantes correces physicas4 ,acordemos por todos os modos imaginaveis o bom senso da creana1 e a impressionabilidade do seu ser moral4 ,que ella conhea sempre o mal e o bem1 no pelos inconvenientes ou vantagens que d'estas duas cousas possam provir1 mas pelo que ellas valem1 pelo que significam1 pelo rebaixamento que uma inclue em si1 e pela essencia superior de que a outra feita4 ,,iii ,n'este delicioso e querido assumpto da educao infantil tudo est dito1 e tudo est ainda por dizer4 ,as regras geraes teem forosamente de ser modificadas na sua applicao a casos particulares2 nenhuma creana existe no mundo que seja absolutamente egual a outra creana2 ao espirito da me que pertence o gravissimo e delicado encargo de corrigir1 ampliar1 alterar1 restringir as regras e os preceitos enunciados pelos educadores e pelos moralistas4 ,o que 1 pois1 necessario antes de tudo1 levar as mes a pensarem profundamente n'estas altas questes1 e a estudarem com pertinaz paciencia o caracter das creanas cujos destinos teem de dirigir4 ,conhecemos uma senhora1 alis muito boa e muito dedicada1 que1 tendo cinco filhos1 os educa a todos pelo mesmo systema4 ,resultado inevitavel e fatal3 ,as creanas so todas deploravelmente educadas4 ,ernesto ,legouv1 distincto escriptor francez1 que tem consagrado grande parte da sua vida a notaveis estudos sobre a sorte da mulher1 e sobre a educao da creana1 publicou ha mezes um bello livro que d'aqui recommendo a todas as minhas leitoras4 ,intitula-se--,nos filles et nos fils1 e contm uma serie de scenas e estudos de familia1 muito proprios para ampliar e esclarecer o corao e o entendimento das mes em certos momentos criticos da sua difficil misso4 ,um d'esses trechos1 e talvez um dos mais importantes1 trata das creanas e dos criados1 da intimidade forada e muitas vezes perigosa que entre elles se estabelece1 e dos resultados nocivos que d'essas relaes resultam para a educao4 ,legouv leu este trecho na ,academia ,franceza2 por aqui se reconhece a sua importancia1 a maneira superior por que foi tratado4 ,muitas mes desattendem na educao dos seus filhos a questo gravissima dos criados4 ,deixam que as creanas vivam n'um contacto muito intimo com gente de tracto grosseiro1 de comportamento equivoco1 de linguagem eivada de erros1 de conversao baixa e degradante4 ,quantas mes eu no tenho ouvido dizer s suas filhinhas de quatro1 cinco e oito annos3--,vae l para dentro2 deixa-me conversar86 ,imaginam ellas que para a creana nenhuma consequencia m pde provir da sua intimidade com as criadas4 ,enganam-se4 ,antigamente1 quando os domesticos faziam1 por assim dizer1 parte integrante da familia1 nasciam e morriam na casa1 no havia perigo em que as creanas estivessem junto d'elles e com elles tagarellassem e brincassem4 ,o instincto d'essas boas creaturas1 afinado na convivencia de pessoas de educao elevada1 fazia-lhes comprehender que as creancinhas eram uns seres sagrados e queridos1 cuja intelligencia se no devia macular nem de leve1 cujos ouvidos tinham de ser escrupulosamente respeitados4 ,hoje1 infelizmente1 como j o dissemos1 esse modo de comprehender a vida de familia1 modificou-se completamente4 ,os nossos criados entram e sahem com uma rapidez e uma facilidade incrivel2 no criam raizes em parte alguma1 e este viver de prias no meio dos que teem lar e alegrias intimas e familia e tecto seu1 desenvolve-lhes contra os amos uma estranha hostilidade4 ,dizem mal por gosto1 por necessidade1 por um costume de classe4 ,precisam de vingar-se1 e vingam-se dos maus e dos bons1 sem escrupulo e sem remorso4 ,de cada casa d'onde sahem trazem os segredos1 as anecdotas mais intimas1 os incidentes comicos1 os acontecimentos grotescos2 e contam tudo isto1 uns aos outros1 n'uma grande liberdade de palavras1 de apreciaes e de commentarios4 ,surprehenderam aqui um drama1 alli um ridiculo1 conhecem as miserias de muito interior1 os vicios que se fazem pobreza1 e a pobreza que se faz vicio4 ,com o amor do pittoresco e do maravilhoso1 que ha sempre na alma do povo1 do um colorido phantastico aos seus contos1 que attrahe por fora a curiosidade da creana4 ,imaginem-se uns ouvidos de cinco1 de seis1 de oito ou nove annos a beberem essa deploravel sciencia6 ,e no se diga que a creana no entende6 ,a creana tem o instincto da curiosidade desenvolvido n'um extraordinario grau6 ,a creana entende quasi tudo1 e d'aquillo que no entende guarda a memoria at edade em que o mysterio lhe seja naturalmente explicado4 ,no levar nunca para um caminho mau a curiosidade de uma creana1 deve ser um dos maiores cuidados da me4 ,mas dir-me-ho3 as pessoas crescidas conversam por fora em mil assumptos melindrosos2 se realmente as creanas percebem1 como evitar que ouam8 n'isso positivamente que est o mal4 ,na sala de uma senhora que tem filhos e que se compenetra absolutamente dos seus deveres de me1 deve haver o maximo escrupulo na escolha das diversas conversaes4 ,assim como ha limpeza nas habitaes1 porque no haver limpeza nos espiritos8 ,no ha tantos assumptos attrahentes de conversao8 ,ser absolutamente preciso dizer mal1 murmurar1 revelar indiscretamente mysterios alheios8 ,no quer isto dizer que a humanidade se limite a um puritanismo de palavras1 que degenerar por fora em hypocrisia2 mas entre esse excesso ridiculo e a liberdade absoluta que se usa diante das creanas1 creio que ha um meio termo que seria facil de adoptar4 ,e depois1 seja dito com toda a coragem3 ou se me no sentido completo e absoluto d'esta palavra ou se mulher do mundo4 ,ou nos havemos de consagrar companhia dos nossos filhos1 sua educao1 ao desenvolvimento gradual das suas delicadas faculdades1 vigilancia solicita das suas almas e dos seus corpos1 ou havemos de dar aos tenros espiritos de quem somos guias1 o deploravel espectaculo das fraquezas e dos defeitos que tanto lhes desejamos fazer evitar4 99 99 99 99 99 ,na creanca do sexo feminino a tendencia que mais cedo se desenvolve a vaidade4 ,a pequenita de tres annos j comea a ter orgulho e presumpo no seu vestidinho bordado1 nas suas saias de folhos1 no seu chapu vistoso e garrido4 ,todos se riem da gracinha4 --,meu anjinho6 ,como presumida6 ,diz a me toda enlevada4 ,e gaba-a muito4--,ests linda6 a minha filha muito bonita4 ,fica-lhe to bem este vestido6 ,mais tarde1 d'ahi a quinze annos1 quando a creancinha do outro tempo um rapariga delambida1 arrebicada1 cheia de appetites luxuosos1 de ambies extravagantes1 sonhando com um noivo muito rico que lhe sacie todos os seus desejos de riqueza e de pomposa elegancia1 quando os homens serios e honestos olham para ella com desdem1 e no seu intimo a desprezam como uma boneca inutil e frivola1 de quem a culpa1 digam-no sinceramente8 ,a culpa de quem favoreceu1 em vez de combater1 esse pendor funesto1 to natural mulher1 e que s custa de muita reflexo ella consegue vencer4 ,a culpa da me1 que teve orgulho dos defeitos da sua filha1 em vez de lidar por transformal-os em virtudes4 ,a mulher vaidosa8 ,pois bem6 se no podemos destruir esse vicio organico1 demos-lhe ao menos um rumo diverso do que elle leva4 ,que1 em vez de ter vaidade dos seus trapos e dos seus miseraveis arrebiques1 ella tenha vaidade de ser boa1 laboriosa1 honesta1 instruida e forte4 ,faamos comprehender bem ao nosso anjinho de tres annos1 que bem mais difficil e glorioso ser docil do que ter um vestido novo2 que muito mais digno de louvor saber ler do que trazer um chapu de plumas4 ,isto no mais do que indicar o caminho4 ,no ha me cujo instincto a no advirta de que estamos fallando verdade4 99 99 99 99 99 ,at a escolha da boneca uma cousa importante6 ,uma boneca esplendidamente vestida1 de chapu com flores1 de luvas e cabellos d'ouro annellados1 inspira um certo assombro1 e depois uma certa inveja4 ,uma boneca de trapos1 estupida1 inerte e molle causa desdem e antipathia4 ,oh6 a primeira boneca6 que jubilo supremo que ella no deu a todas ns6 ,comparavel alegria da primeira boneca1 s a alegria do primeiro filho6 a mesma hesitao em lhe tocarmos com medo que ella se quebre6 o mesmo susto6 a mesma curiosidade6 o mesmo enlevo6 o mesmo espanto namorado e feliz6 ,a me intelligente comprehende e sabe aproveitar isto4 ,a boneca como a aprendizagem da maternidade6 --,est nua1 coitadinha1 est nua a tua boneca1 ,lili4 ,que frio que ella deve ter6 ,que desconforto6 ,que pena de olhar para ti e de te vr to bem vestida e quente e confortavel4 ,senta-te aqui ao p de mim1 ,lili1 vamos ns fazer o fatinho da tua boneca6 ,e como o corao que sempre domina e guia a mulher1 eis o corao fazendo um milagre n'aquella mulhersinha de oito annos1 que deixa de ser a traquinas1 a turbulenta1 a ociosa creaturinha1 e que principia a conhecer as delicias do trabalho e os santos prazeres do sacrificio4 ,o sacrificio por uma boneca6 ,sim1 o sacrificio1 e porque no8 ,s quem no me e quem nunca foi creana que escarnecer da expresso que empregamos4 ,pois no sabem que essa primeira boneca1 que se recolhe nua nos braos1 e que se veste1 que se cala1 que se conchega1 que se adormece entre beijos e affagos1 o primeiro sonho de um corao de me8 99 99 99 99 99 ,as amigas das nossas filhas6 ,grave e momentoso assumpto1 no raro descurado e de cujo esquecimento ou de cujo desleixo resultam s vezes damnos irremediaveis4 ,no collegio que se travam quasi sempre as primeiras amizades4 ,ora1 ns para as meninas desadoramos o collegio4 ,por muito bom que elle seja1 achamol-o sempre pessimo4 ,quem que nos responde pela boa escolha de relaes que alli adquirem nossas filhas8 ,quem nos diz que essas creanas todas que alli se reunem1 e que entre si trocam as mais intimas e minuciosas confidencias1 s viram bons exemplos1 s conhecem quadros de santa e impeccavel moralidade8 ,pois nenhuma d'ellas trar comsigo aquella funesta curiosidade1 que perdeu a nossa primeira me8 ,todas so innocentes1 todas ignoram da vida o que ella tem de baixo ou de corrosivo8 ,quem nos affirma que ellas sabero ser boas e honestas companheiras1 que no lanaro com uma palavra imprudente um germen venenoso1 que no corrompero com precoce perversidade o espirito da creana innocente1 que n'ellas se confiar8 ,as amigas das nossas filhas so aquellas de quem logo depois de ns depende a pureza1 a candura1 a innocencia d'ellas6 de uma grave imprudencia acceitar para uma filha nossa1 sem escolha e sem criterio1 a companhia de outra creana4 ,cumpre conhecer bem a me1 a educao que ella d aos seus filhos1 o modo porque vivem1 o caracter1 a moralidade d'essa familia4 ,e que as mes1 n'este ponto1 se no prendam com preoccupaes de banal delicadeza4 ,primeiro que tudo est o futuro das suas filhas4 ,se a educao de um rapaz j difficilima1 que ser a educao de uma menina8 ,quantos perigos a evitar1 quantos obstaculos a temer1 quantas contrariedades em meio do caminho6 ,que a me procure ser a melhor amiga de sua filha1 e que esta no receie confiar-lhe nem os seus pequeninos segredos infantis1 nem as mysteriosas comoes da sua alma adolescente4 ,n'esta deploravel educao que hoje se d e se recebe1 a primeira cousa de que os filhos tratam de enganar os paes4 ,de que provm isto8 ,da mal entendida severidade d'estes4 ,a indulgencia para as primeiras travessuras prepara naturalmente a creana para se confiar sem medo ao corao que a sabe entender e lhe sabe perdoar4 ,mas muito delicado este ponto da misso maternal4 ,se o excesso da severidade cria a desconfiana e a mentira1 o excesso da indulgencia cria o cynismo e a desvergonha4 ,que difficil no para um espirito de me saber ao mesmo tempo attrahir a confiana e impr o respeito6 ,levar o filho que peccou a confessar a culpa1 no por ter a certeza de que ser facilmente perdoado1 mas por lhe exigir a consciencia que no esconda o seu delicto aos olhos d'aquella que sabe com mo delicada e firme repr no caminho direito o ente fragil que se transviou4 ,no dia em que a me tiver alcanado do corao de sua filha ou de seu filho esta singular conquista de venerao e de amor1 pde sentir-se tranquilla e satisfeita1 pde sem medo responder pelo futuro4 99 99 99 99 99 ,para concluirmos este capitulo que1 talvez por muito incorrectamente desenvolvido enfastiasse as leitoras1 sem lograr a ventura de as convencer1 damos em seguida o fragmento de uma carta1 que por circumstancias que seria inutil referir1 ha pouco tempo chegou s nossas mos4 ,como vero1 pertence esse trecho a uma carta que na vespera do seu casamento foi dirigida sua filha por uma extremosa me4 ,explica muito melhor do que ns o podemos fazer o triumpho de um bom corao maternal4 ,no tive animo de te dizer todas estas cousas frente a frente4 ,tive medo de chorar1 e tu sabes1 meu anjo1 que detsto acima de tudo os enternecimentos intempestivos4 ,depois1 teria pejo1 eu1 tua me1 eu que julgo ter concorrido pelos cuidados de toda a vida para o excellente exito da minha obra--quer dizer1 da tua educao--teria pejo de te encher de louvores que embora justos1 recahiriam um pouco sobre mim4 ,sabes que eu nunca te deixei1 que por amor de ti renunciei1 e de muito boa vontade1 companhia dos indifferentes e dos frivolos1 que s viriam destruir ou modificar o effeito de todos os meus esforos1 to santamente abenoados por ,deus6 ,com que saudades eu me lembro dos seres de outro tempo1 em que tu j serena1 grave e modesta como s hoje1 lias ao p de mim1 emquanto os nossos bons e velhos amigos conversavam em cousas ss1 em cousas simples1 das que no podem ferir os ouvidos de uma menina6 ,no te aconselho que renuncies ao mundo por amor dos anjinhos que viro de certo abenoar e consagrar o teu casamento2 mas peo-te que sejas escrupulosa como eu sempre fui na escolha d'aquelles que admittires na sagrada intimidade do teu lar4 ,procurei sempre evitar em ti todos os excessos1 mesmo os excessos bons4 ,no te quiz beata1 nem espirito forte2 no desejei que fosses uma metaphysica1 nem um entendimento demasiadamente positivo1 nem mulher s de sala1 nem mulher exclusivamente do mnage4 ,o ideal1 minha filha1 que de tudo se saiba ser um pouco4 ,gostarei que recebas com graa senhoril na tua saleta de todos os dias1 artistica e confortavel1 mas no desejarei menos que saibas ensinar a tua cozinheira1 fazer o rol da tua roupa1 concertar o fato de teus filhos1 e economisar sem mesquinhez e gastar sem avareza4 ,no quiz nunca que tivesses outra amiga1 e creio ter feito bem4 ,se foi egoismo1 ,deus no me castigou por elle1 porque devi a essa precauo1 por ventura excessiva1 ter tido a deliciosa confidencia das tuas primeiras alegrias e dos teus primeiros sonhos4 manh j no sers minha1 querido encanto2 nem j sero os meus beijos os unicos que a tua pura testa de vinte annos receber6 ,mas n'esta saudade dilacerante que me punge1 quantas compensaes supremas eu no encontro6 ,entrego-te ao teu noivo1 to candida1 to ignorante do mal como deviam ser todas as creanas da tua edade1 que tivessem me1 que s n'ellas pensasse e s por ellas vivesse6 ,nunca ouviste pronunciar uma palavra grosseira1 nunca ouviste applaudir um acto injusto1 nunca se abaixaram os teus olhos seraphicos a um espectaculo ignobil4 ,eu fui sempre a tua fiel companheira2 e1 como as vestaes velavam o fogo sagrado1 velei eu pela tua immaculada innocencia6 ,de que ventura se privam as que preferem o mundo aos seus filhos6 ,ignoram as alegrias profundas de ser me1 como eu fui1 como tu sers1 minha joia6 ,no ha na tua alma um pensamento1 uma ida1 uma saudade1 que eu no conhea1 e se manh quizer folhear diante de teu marido o livro radioso da tua infancia e da tua adolescencia1 no haveria n'elle uma s pagina que eu lhe no podesse repetir de cr4 ,respondo pelo passado e respondo pelo futuro4 ,basta-me essa gloria para me consolar de todas as minhas saudades6 bem pezada n'este mundo a cruz das boas mes1 mas no te esqueas nunca1 minha filha1 que mesmo n'esta hora de tantas lagrimas1 eu confesso bem alto1 no ha rosas mais frescas1 mais puras e mais orvalhadas do que as rosas que enfloram e entrelaam essa cruz6 ,s d'aqui a muitos annos comprehenders a angustia com que te digo--adeus6 ,ento1 sei que has de chorar por mim6 ,,capitulo ,,xvi ,cartas de um marido ,meu caro amigo4 ,onde que fui desencantal-a8 perguntas tu com justificado espanto4 ,e tens razo4 ,o facto que nunca a vi1 valsando n'um baile luz quente e abafadia do gaz1 decotada1 cheia de p de arroz e de suor1 abandonando-se n'uma postura voluptuosa1 nos braos de um sujeito esgrouviado1 de casaca1 collarinhos de papelo1 e olhar que tenta ser magnetisador e irresistivel1 e que depois de tamanhos esforos no consegue ser seno comico4 ,nunca a encontrei cantando n'um concerto duetos apaixonados em beneficio dos meninos pobres1 vendendo n'um bazar sorrisos de danarina e bibelots de fancaria em beneficio dos velhinhos aleijados1 representando n'um sarau dramatico1 comediazinhas maliciosas em beneficio dos adultos cegos4 ,frequentando os theatros de segunda ordem1 onde os palhaos e as cocottes de ,offenbach1 e dos modernissimos maestrinos da decadencia se desengonsam em scena1 fazendo gestos desmanchados e sublinhando com sorrisos torpes as suas cantilenas de caf-concerto1 debalde a procurei pelas frisas1 e pelos camarotes1 applaudindo as faradas impuras1 e dando gargalhadas que attrahissem a atteno e os maliciosos commentarios da plata4 ,nas noites de vero1 no ,passeio ,publico1 quando ha musica1 fogo de artificio1 muito calor e muito aperto1 e as meninas burguezas que ainda no podem gozar da villeggiatura elegante1 passeiam com toilettes claras1 na plena expanso da flirtation lisbonense1 confesso que muitas vezes atravessei a multido1 pisado1 empurrado1 offegante1 sem respeito pelas caudas de seda1 de foulard1 de linho transparente1 que para alli vo desfructar o prazer de se encherem de poeira e de rasges1 e que debalde procurava reconhecel-a em cada vulto feminino1 esbelto1 gracioso1 que passava pisando a areia das ruas1 com o taco alto das estreitas botinas de pellica4 ,at comecei a frequentar ,s4 ,luiz1 a igreja da devoo fidalga1 do arrependimento perfumado de poudre d'iris1 do mais alto1 do mais distincto e do mais desdenhoso beaterio444 ,vi todas as nossas flores da alta vida1 trajando com discrio finamente aristocratica1 revelando a elegancia que as distingue1 no modo de se ajoelharem1 de se persignarem devotamente1 de erguerem os olhos com extasi piedoso1 para a imagem alabastrina da ,virgem1 que parece erguer-se como um lyrio desabrochado1 d'entre as verduras e as brancas florescencias que a cercam de todos os lados4 ,vi-as descalarem1 das suas estreitas luvas de cinco botes1 as mos esguias1 avelludadas1 feitas da alvura dos marfins2 vi-as curvarem-se at ao cho1 humilhadas1 contritas1 mas sempre correctas2 lerem uma orao privilegiada1 em cada um dos quatro ou seis grossos volumes devotos que trazem comsigo1 beijarem com felina graa as mos rechonchudas e macias dos louros abbades francezes1 disputarem entre si com delicadeza1 no inteiramente isenta de colera1 a sua vez de confissionario1 e de confidencias adocicadas e asceticas2 mas nenhuma d'essas encantadoras filhas de ,eva1 com os seus gestos miudos1 os seus movimentos ondeantes de serpente1 as multiplas seduces da sua artificial formosura1 me deu a ida boa1 s1 carinhosa1 como um affago de me1 que eu tivera vendo-a1 a ella4 ,escuso de accrescentar que ella no se encontrava entre essas todas4 ,um dia porm1--que bom dia aquelle6--tornei a vel-a em casa de uma amiga de minha me4 ,no me pareceu bella1 pareceu-me boa1 mas de uma bondade em que a belleza no deixava de entrar1 embora como elemento secundario4 ,estava com as suas amigas em volta de uma grande mesa de sero4 ,largra um pequeno trabalho da agulha1 e comeara a lr alto a pedido de todas as companheiras4 ,lia um livro de ,michelet1 ,l'insecte4 ,tinha a voz grave1 sonora1 musical1 como eu sempre imaginei que havia de ser2 a luz coada pelo globo fosco do alto candieiro1 banhava de vagos tons dourados o seu cabello simplesmente penteado1 torcido n'um grosso rolo luminoso sobre a nuca torneada e forte4 ,no me lembro bem de como estava vestida1 signal de que era to despretencioso o seu trajo que no prendia nem demorava a atteno4 ,havia de ser por fora bastante distincto para lhe no alterar a graa2 bastante singelo para no dar um aspecto de artificio sua natural e casta formosura4 ,emquanto a ouvia ler1 parecia-me comprehender melhor aquella grande alma luminosa do velho ,michelet4 ,e sentia em mim a vivificante sympathia da natureza1 o amor dos pequeninos1 a ternura comprehensiva para tudo que vive1 que sente1 que palpita na enorme ,creao4 ,quando acabou de ler1 fechou o livro1 e naturalmente1 sem languidez1 sem cansao1 pegou de novo no trabalho1 e recomeou a bordar4 ,aproveitei o ensejo e sentei-me n'uma cadeira vaga ao seu lado4 ,conversmos muito4 ,em muita cousa1 em quasi tudo4 ,era um gosto ver de perto a luz tranquilla e doce d'aquelle olhar azul escuro1 reflectido1 serio1 innocente4 ,no baixava os olhos deixando transparecer nas faces rubor intempestivo2 tinha um modo seu de olhar1 franco1 sincero1 de uma limpidez de lago suisso em que se reflectisse o largo cu da primavera4 ,de vez em quando ria-se4 ,que musica crystallina a do seu riso6 ,uma das vezes lembra-me1 que seguindo o falso pendor da nossa detestavel educao de sala1 fui sentimental1 sem dar por isso1 de uma sentimentalidade piegas1 da que produz sempre um certo effeito no espirito das meninas que valsam4 ,levantou subitamente a cabea1 como se ficasse um tanto surprehendida1 como se tivesse agourado melhor de mim1 primeira vista4 ,depois1 no sei o qu1 provavelmente a expresso alambicada da minha cara1 desafiou-lhe a vontade de rir1 uma vontade de rir irresistivel6 ,coitadinha6 ,que bem educada que ella 6 ,suffocou aquella boa hilaridade to espontanea6 ,disfarou perfeitamente o effeito comico que eu lhe produzira1 isto com uma graa1 to cheia de infantilidade6 ,castigou-me melhor assim1 do que outra qualquer fingindo um enleio theatral4 ,d'alli a nada1 a dona da casa1 uma senhora de aspecto muito distincto e muito bondoso1 veio pedir-lhe com grande empenho que fosse para o piano4 ,levantou-se docilmente1 e tocou e cantou emquanto quizeram ouvil-a6 ,era a simplicidade1 a graa1 a mais delicada intuio artistica1 isto acompanhando uma vocao musical deveras notabilissima4 ,nem uma s d'aquellas languidas arias italianas1 de um sentimentalismo to dissolvente e que parecem banhar a alma que as escuta n'um tepido banho de caricias molles6 ,musicas graves e de uma austera melancolia como as dos mestres allemes2 ou musicas graciosas1 ligeiras1 scintillantes1 inoculando no espirito uma sensao de frescura matutina1 de robusta alegria1 levando-nos atraz das suas notas de crystal1 pelas pradarias illuminadas da luz das alvoradas estivas1 onde os melros maliciosos assobiam1 saltando de ramo em ramo6 ,quando sahi d'alli1 d'aquella casa hospitaleira1 em que o espirito parecia dilatar-se affectuosamente1 pensei de mim para mim que ella havia de ser minha mulher6 4444444444444444444444444444444444444444 44444444444444444444444444444 444,sabes uma cousa8 ,temos um filho6 ,estas palavras a ti no te dizem nada1 a mim banham-me o corao n'uma alegria que em lingua humana se no pde exprimir4 ,a deliciosa cano da minha felicidade1 canto-a eu em beijos chilreados1 no corpinho rolio e avelludado1 no corpinho de leite do meu primeiro pequenino6 ,vivemos em um bairro pouco central1 em uma rua muito socegada1 onde passam pouquissimos trens1 e onde se no ouve o pregoar rouquenho dos vendilhes ambulantes4 ,o nosso oramento de uma exiguidade que faz rir1 mas no sei porque minha mulher tem a habilidade de fazer render da maneira mais milagrosa os nossos modestissimos haveres4 ,creio que se manh me visse rico1 no podia ser to feliz4 ,se eu fosse rico1 havia de ter criados1 no verdade8 ,criados graves1 solemnes1 de olhar sonso1 que vivessem da minha vida1 que maculassem com a sua ironia baixa as santas expanses do meu affecto de marido e de pae1 que invejassem a minha felicidade1 que calumniassem as minhas intenes1 os meus actos1 a minha vida toda6 ,ao jantar um ou dous d'aquelles figures altos1 espadaudos1 ociosos1 vestidos de preto1 haviam de espreitar com olhar guloso cada bocado que eu mettesse na bca2 teria um cozinheiro gordo1 de barrete branco1 que me fizesse molhos indigestos1 uma criadinha de quarto buliosa1 e petulante que se risse do burguezismo pacato dos meus habitos4 ,viveria escravo1 preso nas malhas de ouro1 d'esta grande rede que se chama a riqueza4 ,receberia muitas visitas1 muita gente indifferente ou hostil1 que viesse para me bajular1 e que se fosse embora para me morder traioeiramente pelas costas4 ,uma governante ingleza empavezada1 grotesca1 um pouco pedante1 cortaria na sua flr1 na querida alma transparente do meu pequeno anjo1 os carinhos1 as expanses innocentes1 os risos inextinguiveis e sem causa1 tudo que hoje a nossa alegria6 ,e depois1 habituado ao luxo no sentiria o conchego6 ,satisfeitos at saciedade todos os desejos1 no teria nunca a boa1 a vivificante sensao do obstaculo vencido6 ,e o socego depois do trabalho6 ,e as alegrias da posse1 quando o objecto longo tempo cubiado1 para alcanar o qual se fizeram tantas economias1 se supportaram tantas privaesinhas1 nos apparece emfim em todo o prestigioso brilho do impossivel1 que de repente se deixa conquistar6 ,ai6 as minhas alegrias de pobre1 que saudades que eu terei d'ellas mais tarde6 ,mas1 meu querido ,a41 no comeces tu agora a lamentar-me imaginando-me novo monge entregue s austeridades da penitencia voluntariamente acceita6 ,no te disse eu que uma boa mulher que nos ame1 e que nos saiba amar1 um thesouro inestimavel1 que o homem desdenha1 e que por isso1 se tem feito to raro8 ,a minha casa no tem estofos de seda1 no tem custosos moveis de carvalho entalhado1 no tem frageis porcellanas de ,saxe1 de ,sevres ou do ,japo1 no tem tapetes turcos1 nem artisticos ,gobelinos4 ,mas olha que nem sempre o luxo o conforto1 nem sempre a opulencia a graa1 nem sempre as cousas caras so as cousas elegantes6 ,a nossa pequenina casa1 toda forrada de papel claro1 com as suas cadeiras de cretonne1 as suas cortinas muito brancas1 e vasos de plantas em pequenas estantes de madeira1 e jarras de flres na mesa de jantar1 com a luz clara e festiva do sol1 a illuminal-a toda1 com o aceio escrupuloso que o luxo dos pobres1 com a tranquilidade doce e recolhida1 que a poesia dos que se amam e na qual pe a espaos a nota clara e festiva o riso do nosso filhinho1 a nossa casa como que a deliciosa encardenao do poema do nosso amor6 ,todas as senhoras que eu conheo sahem muito2 os maridos voltam noite exangues das enfadonhas labutaes do dia1 com o espirito abatido1 com o corpo cansado e no entanto teem de seguil-as ao baile1 ao theatro1 a casa das amigas1 de figurarem de comparsas na fastidiosa comedia social1 de se mostrarem debaixo de um aspecto desfavoravel1 de realizarem emfim risca o lendario typo que o romantismo amarrou ao pelourinho do ridiculo1 o marido macambuzio1 o marido desengraado1 o marido sem espirito1 em quanto roda1 fresco1 malicioso1 cheio de ditos e anecdotas1 com uma rosa na abotoadura1 borboleteia o galan que pova de perigosas seduces a fantasia de todas as pobres mulheres frageis6 ,minha mulher noite sahe raras vezes1 de modo que eu durante o dia1 na atmosphera pesada e asphyxiante do escriptorio1 estou sem querer a scismar no conforto que me espera quando eu voltar4 ,o jantarinho quente1 saboroso1 cozinhado pela nossa velha ,anna1 debaixo da direco da minha querida ,maria1 a toalha muito branca1 um ramo de lilazes no centro1 as fructeiras de vidro com as suas pyramides de fructas1 sahindo do ninho fresco e avelludado das folhas verdes1 os talheres muito bem limpos1 um grande conchgo na atmosphera1 e em tudo visiveis o gosto d'ella1 os cuidados d'ella1 o affecto d'ella manifestando-se no bem-estar que me envolve e me acaricia6 ,depois1 noite1 o gabinete com a mesa redonda no centro1 o candieiro de ,carcel de luz clara e discreta1 a poltrona de marroquim1 com os grandes braos abertos que me convidam1 os jornaes do dia1 a ultima ,revista1 um romance novo1 e a minha querida mulhersinha1 com um vestido que lhe fica muito bem e que andou ella propria a fazer s minhas escondidas--a ladina6--como se eu no tivesse olhos perspicazes que vem de longe6 com os seus longos cabellos louros penteados d'aquelle modo simples e puramente artistico1 que faz da cabea de cada estatua grega uma cabea encantadora1 e sobretudo com o seu sorriso bom1 o seu olhar affectuoso e honesto1 a sua voz consoladora que uma musica1 a melhor das musicas para o meu corao6 ,para alm do reposteiro entre-aberto1 v-se a alcova1 o bero de cortinados brancos1 e luz branda da lamparina1 sobre uma cadeira1 um vestidinho claro1 uns pequenos sapatos1 umas meiazinhas de cr1 umas cousas para que ninguem repara1 e que a mim me fazem s vezes chorar4 ,tenho j perguntado a mim mesmo1 que differena existe entre mim e os outros homens1 porque que elles andam pelo gremio1 pelos cafs1 pelos theatros1 alguns pelas salas1 e porque estou eu tanto em casa1 finda que seja a minha tarefa diaria8 ,serei melhor do que os outros maridos8 ,no2 ella que melhor do que as outras mulheres4 ,a felicidade de que eu gozo devo-a sua comprehenso to santa dos deveres1 e ao meu egoismo todo masculino4 ,vou para onde me chama maior somma de alegrias e de confortos que posso conhecer n'este mundo4 ,no ha n'isto merito nem dedicao dignos de louvor4 ,se noite a nossa pequena sala se enchesse das amigas de minha mulher1 palradeiras1 frivolas1 pueris1 a discutirem banalidades1 provavel que eu fugisse para qualquer outra parte4 ,se quando chegasse a casa1 a visse prompta para sahir1 minha espera para me fazer envergar uma terrivel casaca muito hostil1 que me acenasse de longe com as suas azas de gafanhoto1 se ella me apparecesse toda occupada de si1 da sua toilette1 dos triumphos que ia ter1 e esquecendo completamente as exigencias mais prosaicas1 do meu temperamento de homem1 da minha vida de trabalhador1 com certeza que me chegaria a minha hora de revolta1 que o trabalho deixaria de ser o meio de que eu me servisse para alcanar o bem estar dos meus1 e que se tornaria simplesmente uma tarefa exercida sem alma1 sem alento interior1 s para que o mundo me no alcunhasse de ocioso e de zango da grande colma social4 ,dos defeitos d'ella proviriam todos os meus defeitos1 dos seus esquecimentos1 todas as minhas faltas4 ,j vs quanto ganhei casando-me com esta querida e nobre creatura4 ,se me perguntares o que ella sabe1 dir-te-hei que sabe tudo1 e que a sciencia toda lhe provm de uma s fonte--o corao4 ,comprehende ,shakespeare e faz deliciosamente uma omellete1 toca com o sentimento mais fino e mais ideal1 uma phantasia de ,beethoven1 e inventou um systema engenhoso e abreviado de fazer o rol da lavadeira2 adora as flores1 os versos1 as creanas1 os livros1 tudo que bello1 tudo que bom na natureza1 e de manh1 com a sua touquinha de cambraia branca1 o seu avental de merino1 um espanador de pennas na mo1 pondo os moveis em harmonia1 tocando em todas as cousas1 imprimindo em tudo o cunho da symetria e da ordem1 atarefada1 sem distraco1 sem enfado1 parece uma spinster ingleza atacada da monomania do arranjo4 ,a brincar com o filho1 na rua areada do nosso pequeno jardim1 dir-se-hia a sua irm mais velha2 na hora da atribulao1 na hora difficil em que de um bom conselho depende s vezes a dignidade de um homem1 lembra um espirito austero1 cheio de altivas aspiraes estoicas4 ,o contacto d'ella faz bons os que so maus1 faz robustos os que so fracos6 ,so estas as mulheres que salvam a honra e a felicidade dos maridos4 ,queres um conselho8 ,procura no mundo outra ,maria como a minha e casa-te4 ,,capitulo ,,xvii ,confidencias maternaes ,minha querida amiga4 ,ha quasi quatro mezes que te no escrevo1 e supponho que no estars por isso mal comigo4 ,no sei bem dizer-te como se passam os meus dias1 e quando s onze horas da noite adormeo1 um poucochinho fatigada e deixando sempre para o dia seguinte parte da tarefa d'aquelle dia1 metto a mo na consciencia e sinto que no commetti o delicto de desperdiar um s instante4 ,e talvez que no fim de contas assim no seja4 ,ouve-me tu1 e julga4 ,fez hontem um anno o meu querido baby4 louro1 rosado1 tem uma cabelleira revolta e crespa que lembra uma aureola de anjo1 ou uma juba de leo pequenino1 tem um corpo rolio1 mimoso1 redondinho que parece feito por uma fada muito habilidosa no seu torno de marfim4 ,comea a andar1 e os passos d'elle1 desastrados e timidos enchem-me a alma de um susto1 de uma inquietao1 de uma delicia1 de um no sei qu profundamente novo na minha vida e que eu no encontro palavras que exprimam bem6 ,at aqui parecia-me que elle era eu1 que fazia parte de mim1 que ns ambos formavamos um todo4 ,agora percebo e com uma surpreza que s vezes chega a ser dolorosa6 que me enganara1 e que cada um d'aquelles passinhos hoje to miudos e to vacillantes1 manh apressados e firmes1 o ir afastando de mim na vida1 se eu o no souber seguir1 fazendo-me como elle pequena1 como elle infantil1 penetrando intimamente na sua alma e ao mesmo tempo compenetrando-me bem de todas as doces claridades matutinas que ha dentro d'aquelle espirito que vae desabrochar4 ,no comprehendes bem esta iniciao lenta1 que no momento em que o corpo da me e o corpo do filho deixam de ser um s1 faz uma s das duas almas de ambos8 ,visto que elle j no pde ser eu1 preciso que eu seja elle2 s assim lhe poderei ir inoculando na alma e no entendimento1 tudo que no meu entendimento e na minha alma houver de bom2 s assim me poderei ir lentamente transformando sob a influencia regeneradora e purificante d'aquella immaculada innocencia6 ,oh6 divina transmisso mutua de virtudes e de foras1 que constitue o lao moral e inquebrantavel que une a me ao filho das suas doloridas entranhas6 ,por ora nada tenho que ensinar ao meu louro bb4 ,tenho s de escutar o que diz no silencio1 aquella pequenina alma em embryo1 e de aprender a ler n'aquelle mysterioso livro que indecifravel para todos e que to eloquente para mim4 ,bb tem uns grandes olhos2 uns dizem que so azues1 outros dizem que no4 ,por ora no tem cr2 ou para melhor dizer ha na sua limpidez de crystal todos os cambiantes e todos os reflexos4 ,os olhos de ,bb so como a alma d'elle1 teem a doura do leite que bebe1 teem a suavidade dos beijos com que o visto noite e dia4 ,scisma s vezes vagamente444 longamente444 ,em que8 ,no ha ninguem que o saiba dizer1 visto que um corao de me o no adivinha4 ,scisma no cu d'onde veio8 ,talvez4 ,ha mysterios de luz na alma profunda das creanas4 ,gosta da claridade dos dias limpidos1 das arvores1 das cres vivas1 e tambem da opalina tristeza do luar4 ,gosta dos sons1 dos risos1 das caricias1 uma alma que vive em pleno azul4 ,nenhuma sombra n'aquella tela transparente onde a mo de sua me vae escrever as primeiras palavras4 ,muita gente imagina que ser me custa apenas as dres dilacerantes de algumas horas1 os incommodos mais ou menos crueis d'um certo periodo1 e depois os cuidados de doze ou treze mezes4 ,quem pensa assim no sabe o que ser me6 ,pois tu no ouviste que elle espera1 e que a primeira palavra definida e clara que ha de vibrar na sua alma1 sou eu que hei de dizel-a1 a minha mo tremula1 fraca e inexperiente que ha de tornar-se firme para a gravar indelevelmente8 ,e se a voz esmorecer8 ,e se a mo vacillar8 ,quem me disse a mim que acertarei8 quem me deu foras para encaminhar um sr que s de mim ha de receber na terra o santo e a senha8 ,e depois quando o vejo to lindo1 querendo j esboar o primeiro capricho1 querendo experimentar a primeira vontade1 querendo vencer o primeiro obstaculo1 pergunto a mim mesma se terei valor sufficiente para lhe fazer perceber que a vida uma lucta1 para se tanto fr preciso1 ser eu propria que lucte com elle1 e que o ensine a ser vencido6 ,de quantas coragens mais que viris precisa de compor-se a fraqueza maternal6 4444444444444444444444444444444444444444 44444444444444444444444444444 ,mas nenhum d'estes vagos pensamentos que eu deixo aqui to mal expressos te diz quaes so as occupaes em que levo os meus dias6 ,meu ,deus6 e olha que acordo cedo6 ,ainda bem a cotovia no deixa ouvir a sua alegre voz matinal1 ainda bem o gallo no atra os campos com o seu grito estridulo de combate1 que um convite impetuoso para o trabalho1 j a voz do meu filho me acorda tambem a mim4 ,que penna pde contar as delicias d'aquelle despertar6 ,os risos1 as negaas1 os beijos1 e o modo malicioso com que elle deitado nos meus braos e depois de fartar as exigencias do pequenino estomago1 larga o seio para me sorrir com os beicinhos tintos de leite1 e torna de novo a pegar-lhe para saborear voluptuosamente1 lentamente o que j no tem vontade de engulir com a avidez deliciosamente glutona da infancia4 ,vem depois o banho1 o banho que um poema6 ,est alli a grande bacia de agua tepida1 e emquanto o dispo1 elle salta e ri1 e deita-se para traz e namora a transparencia da agua1 at ao instante em que mergulha emfim entre risadas de crystal que me echoam no corao4 ,tu sabes l os cuidados1 as manhas1 as idas engenhosas que necessario pr em pratica para illudir a impaciencia d'estes seres adoraveis6 ,o banho dura meia hora1 e acabo d'alli encharcada1 despenteada1 canada1 triumphante4 uma victoria de todos os dias4 ,o resto do dia pertence-lhe a elle quasi exclusivamente4 um tyranno o meu bb4 ,tenho de o passear1 de lhe dar de comer1 porque preciso que saibas que o doutor vendo que elle j tem oito dentes--carnivora creatura6--me deu licena emfim para lhe dar tres vezes ao dia a sua competente papinha1 tenho sobretudo de o entreter porque a imaginao infantil que desperta tem exigencias de que tu no podes fazer ida6 spleenetico como um velho lord o meu seraphim de palmo e meio de altura4 ,d-se-lhe um brinquedo agora1 recebe-o com uma apparencia de enthusiasmo que illude os inexperientes2 d'alli a um instante pe-n'o de parte desdenhoso1 enfastiado1 insaciavel444 ,quer ver sempre cousas novas1 quer que o emballem1 e lhe cantem e o levantem ao ar e o faam rir4 ,por'ora trata-se simplesmente de enganar aquella actividade graciosa e irrequieta1 mas quando chegar o momento de a applicar8 ,sabes uma cousa8 sou felicissima e tenho muito mdo444 4444444444444444444444444444444444444444 44444444444444444444444444444 4444444444444444444444444444444444444444 44444444444444444444444444444 ,quatro annos depois4 4444444444444444444444444444444444444444 44444444444444444444444444444 ,cinco annos6 ,sabes l6 ,um homem1 positivamente um homem6 mau4 ,deixa l dizer que so boas as creanas4 ,olha que uma perfeita illuso1 minha querida4 ,que bem se conhece n'elle j1 o bravio animal que todos ns somos6 ,bb um monstro6 ,no outro dia levei-o commigo a casa d'uma senhora minha amiga4 ,pois imagina que elle matou com a sua espada de pau1 a boneca de pellica e semeas de ,julia1 uma pequenita de #c annos1 a filha mais nova da dona da casa6 ,e como ella chorasse muito humilde1 muito medrosa diante d'aquella sanha terrivel1 chegou a ameaal-a--o desgraado6--com a mesma espada de pau que j fizera tamanhos maleficios4 ,chorei de pena de o ver to mau1 to irascivel1 to colerico1 e elle o leo pequenino1 ajoelhou-se com as mosinhas postas aos meus ps1 e gago1 cheio de lagrimas1 com os grandes olhos espavoridos1 disse-me--perdo mam6 ,magdalena1 imagina tu a fora de que eu precisei para o no devorar de beijos6 ,pois no o fiz6 ,mostrei-lhe uma cara seria1 magoada1 cheia de consternao e no o abracei em todo o dia4 ,ha de ser colerico1 j vs4 ,quem me ensinar a mim a corrigil-o8 ,j sei o que me respondes4--,faze queixa ao pae4 ,o pae que lhe ralhe4 ,deus me defenda de tal4 ,em primeiro lugar o medo no corrige1 humilha2 no modifica1 rebaixa4 ,depois eu no quero recorrer a ninguem para influenciar a alma de meu filho4 ,o pae ha de intervir sim senhor1 porm mais tarde4 ,por'ora elle meu1 s meu4 ,toda a creana tem defeitos1 e ai d'aquella que os no tem6 ,arrenego das creanas-modlos4 ,transformar esses defeitos--que so indicios caracteristicos do temperamento da organisao1 de qualidades muitas vezes herdadas--em foras activas e fecundas1 eis o grande problema da educao4 ,e talvez tu cuides1 minha pobre amiga1 que as gracinhas de bb ficam por aqui8 ,pois ainda ha mais8 exclamas tu assustada4 ,sim1 ha muito mais4 ,ha cousas que eu com a ajuda de ,deus tenciono aproveitar e dirigir para o futuro bem d'elle4 ,bb roubou6444 imagina6 ,no outro dia desappareceram-me de cima de uma etagre da saleta umas bugigangas de marfim que me tinham trazido de ,macau2 adivinha onde fui dar com ellas8 ,no seu quarto dos bonitos4 ,no estavam escondidas1 valha a verdade6 estavam impudicamente espalhadas ao sol1 com uma ostentao de cynismo deveras aterradora4 ,no posso explicar bem o trabalho que tive para1 sem polluir aquella innocencia sagrada1 lhe explicar que n'este mundo ha meu e teu1 e que a propriedade um direito inviolavel4 ,como no ha nada mais difficil--para no dizer impossivel--do que introduzir uma ida abstracta na cabea d'uma creana1 no imaginas de quantos artificios e quantas manhas me val4 ,cheguei a roubar-lhe tambem eu propria1 parte dos seus bonitos4 ,ento que era vel-o1 sem se atrever a condemnar-me1 e no entanto sentindo revoltados1 l dentro da sua alminha de cinco annos1 todos os instinctos de justia que sempre mais tarde ou mais cdo alli tinham de manifestar-se4 --,tiveste muito pena de te tirarem os teus bonitos8 --,tive muita sim1 mam1 respondeu todo sobresaltado e ainda mal restabelecido do susto4 --,ora ainda bem6 ,o bb agora nunca mais tira nada a ninguem1 ouviu8 --,ah6 sim1 e ficou-se instantes como que seguindo um trabalho que sem elle mesmo querer se lhe ia fazendo l dentro4 ,ah6 sim1 muito feio tirar s pessoas o que ellas teem4 ,bb nunca mais tira444 ,no outro dia a ,guilhermina1 a minha velha aia que tu conheces perfeitamente1 dizia-me consternadissima3 --,ninguem faz ida de como o menino mentiroso4 ,inventa cousas que de fazer tremer uma pessoa4 ,de feito1 no ha nada mais prodigioso do que a phantasia de bb4 ,conta os factos mais extraordinarios que nunca se deram1 como se tivesse assistido a elles4 ,da mais pequenina cousa deduz uma longa historia falsa4 ,umas vezes encontrou na rua um homem muito feio que o quiz levar comsigo2 outras vezes mordeu-lhe um bicho1 que elle parece ter visto e que descreve com as cres mais vivas4 ,quando est um pedao longe de mim vem narrar-me assombrosos acontecimentos que se deram com elle1 do mesmo modo quando me deixa instantes1 conta ,guilhermina uma infinidade de pormenores que s existiram na sua imaginao4 ,como que eu hei de conseguir subordinar a um principio de exactido e de verdade aquelle espirito iriado e phantastico1 para o qual todas as cousas tomam uma frma differente da realidade8 ,crear uma alma6 que misso difficil1 que misso esmagadora4 ,no fim de contas as foras da natureza no so boas nem ms2 da applicao d'ellas que tudo depende4 ,do meu anjinho1 impetuoso cheio de ambies1 de curiosidades1 de irrequieta alegria1 de cubias intuitivas1 de energia vital1 pde uma direco boa fazer um caracter nobre1 viril1 pertinaz1 capaz de todas as luctas1 prompto para todos os combates1 investigador1 inventivo1 cheio das beneficas curiosidades do bem1 e das ambies generosas que levantam e enobrecem4 ,e pensar1 meu ,deus1 que mal dirigidas1 todas estas qualidades1 todas estas foras1 todas estas manifestaes de vida intensa1 podem leval-o perdio1 infamia1 ao crime644 ,oh6 meu ,deus1 dae-me vida e entendimento para que s eu amolde e affeie a querida alma de meu filho6 4444444444444444444444444444444444444444 44444444444444444444444444444 4444444444444444444444444444444444444444 44444444444444444444444444444 ,o ,luiz faz hoje o seu primeiro exame no ,lyceu2 j se no chama bb1 j no tem aquelles annellados cabellos de ouro que eram o meu orgulho e as minhas unicas joias1 os seus bellos olhos escuros j no tem a doura pensativa1 o pasmo encantador da alma que se busca e que se ignora2 usa jaquetinha e calas1 e hontem dei a uma vizinha pobre uma blusa que era d'elle1 a sua ultima blusa de ha dous annos4 ,que tolice6 ,sabes que lh'a dei a chorar8 ,o meu ,luiz quasi um homem4 bom1 meigo1 d'uma deliciosa innocencia1 de uma expanso de vida que assombra6 ,no meditativo1 nem poeta2 nada d'isso4 d'uma alegria impetuosa2 d'uma actividade sem limites4 ,gosta de estudar para me satisfazer a mim1 mas tenho a certeza que gosta de brincar para se satisfazer a si4 ,no sabe muito2 ao p dos nossos sabichesinhos em miniatura1 creio mesmo que passar por um ignorante2 mas a verdade que est apto e preparado para aprender tudo4 ,suppe tu um lavrador que fizesse as suas sementeiras antes de preparar a terra com os convenientes adubos1 e aqui tens parte dos educadores de hoje4 ,no meu filho--perda-me este santo orgulho--nenhuma qualidade foi atrophiada1 todas esto no pleno desenvolvimento que lhe proprio1 n'aquella florescencia opulenta no fim da qual j se antev sazonado e saboroso o promettido fructo4 ,tem o corpo d'um pequeno atleta4 ,capaz de resistir s longas viagens1 aos estudos complicados da sciencia moderna1 aos trabalhos complexos do luctador d'este seculo estranho e poderoso4 ,at os seus recreios e distraces foram dirigidos com desvelo4 ,desenvolvem-lhe o corpo dia a dia1 a natao1 a gymnastica1 a equitao1 todos os exercicios physicos que tendem a duplicar e desenvolver o vigor natural do homem1 a creal-o mesmo se elle originariamente no existe4 ,vivemos muito no campo1 durante a sua risonha infancia4 ,o amor e o conhecimento intimo da natureza1 das plantas e dos bichos1 das cousas inanimadas e das cousas mudas1 o espectaculo grandioso ou suave dos campos e das montanhas1 dos tempestuosos mares1 ou das placidas e fartas lezirias1 entra como um elemento fortalecedor1 vivificante1 cheio de ensinamentos praticos na educao das creanas4 ,nunca uma arvore ensinou uma aco m2 nunca uma flr ou um ninho de aves crearam um pensamento abjecto4 ,no poz nunca o p n'um collegio4 ,no conhece nem as alegrias nem as lastimas d'essa intimidade que tem decididamente mais resultados funestos do que vantagens conhecidas4 ,aprendi quanto me foi possivel1 no para lhe ensinar1 mas para estudar com elle1 e comprehender antes d'elle o que era preciso que elle comprehendesse4 ,diante dos seus bellos olhos limpidos e curiosos no consenti nunca que passassem os abjectos quadros que polluem tanta imaginao infantil4 ,no me cancei inutilmente a prgar-lhe sermes de moralidade abstracta2 pratiquei o bem para que elle o praticasse2 em minha casa s tem visto exemplos dignos4 ,mais tarde1 quando os maus1 rindo lugubremente1 lhe disserem que o bem no existe1 elle no acreditar n'essa blasphemia porque pensar em mim6 ,no ainda um homem1 mas promette vir a sel-o6 ,est quasi cumprida a minha tarefa4 ,hoje quando elle voltar contente de haver sido premiado--porque estou certa de que o ser--acceitarei ainda os seus beijos como uma recompensa4 ,d'aqui vante a seu pae que pertence a direco suprema d'aquelle espirito que desabrocha para todas as altas curiosidades da vida4 ,choro porque as mes so fracas1 ,magdalena1 mas para que choro eu8 ,j nada1 nada na terra nem mesmo a minha morte nos pde separar4 ,todas as virtudes que elle tiver1 sero simplesmente o fructo das flores que eu tenho cuidado com tanto amor1 assim como essas flores veem dos germens que eu semeei cheia de susto1 de delicias1 de ambies1 de louco anceio6 ,fui eu que o conduzi pela mo1 ao mesmo tempo tremula e confiante1 at ao limiar da sua pura adolescencia4 ,sinto orgulho verdade1 mas tambem sinto saudades6 ,saudades do tempo em que o embalava nos meus braos1 em que elle s de mim vivia1 como eu vivia s para elle4 ,foram as minhas alegrias mais superiores e mais completas4 ,d'ora vante preciso que elle se emancipe um pouco da minha tutella extremosa1 que elle se v robustecendo ao contacto rude dos homens e das cousas4 ,fui eu que o formei4 ,sinto que pertencer ao numero dos fortes1 e que no succumbir na lucta da vida444 4444444444444444444444444444444444444444 44444444444444444444444444444 4444444444444444444444444444444444444444 44444444444444444444444444444 4444444444444444444444444444444444444444 44444444444444444444444444444 ,como estou velha1 minha querida amiga de outros dias6 ,lembrei-me tanto de ti1 hoje1 na igreja onde fui assistir ao casamento do meu ,luiz6 ,tem #bd annos1 realisou as doces promessas que eu sonhara e sahiu hoje de casa de seus paes para outra casa que vae ser d'elle4 ,tu no sabes a nuvem de tristeza que obumbra a minha alma1 no sabes como todos os egoismos humanos se revoltam em mim1 e ameaam fazer-me naufragar na sua formidavel tempestade6 ,oh6 deixa-me desabafar comtigo6 ,quem que ainda revelou ao mundo o martyrio que crucifica as mes6 ,foi para outra que eu andei formando aquelle divino thesouro com todas as riquezas que pude juntar dentro da minha alma6 ,tantas noites que velei a pensar1 a estudar1 a pedir voz intima da consciencia que esclarecesse e fortalecesse e guiasse o meu fragil corao de mulher6 ,tantos annos de abnegao profunda1 de abnegao sem nome1 de todas as horas1 de todos os instantes1 esquecida de tudo que no fosse aquella alma pequenina que andava a crear e a robustecer4 ,n'esse empenho me fugiu a mocidade4 ,por elle1 pelo meu adorado ingrato me esqueci de tudo que fra meu6 ,e hoje elle partiu2 partiu risonho1 triumphante1 orgulhoso como um rei1 sem se lembrar que onde vira at alli sua me1 deixava uma triste condemnada6444 ,e ha quem falle por ahi em ciumes romanescos1 em ciumes ephemeros1 em ciumes d'um instante6 ,qual ciume poder comparar-se a este que me est dilacerando o peito8 ,oh6 ,luiz6 oh6 meu amor6 oh6 minha solido6444 4444444444444444444444444444444444444444 44444444444444444444444444444 4444444444444444444444444444444444444444 44444444444444444444444444444 ,na ultima vez que te escrevi estava louca1 minha velha amiga4 ,nunca est s quem ama1 e espera1 e cr em ,deus1 e semeou o bem no seu caminho4 ,veio lembrar-me tudo isso n'essa hora de amarga revolta que passou1 o querido companheiro de toda a minha vida1 o meu honesto guia1 aquelle que partilhou commigo todas a sublimes responsabilidades que ha no amor dos paes4 ,j sou av minha amiga1 o meu ,luiz j pae4 ,nas alegrias d'elle vejo reflectidas as alegrias extinctas1 cujo aroma vago perfuma a minha alma de uma saudade ineffavel4 ,no se esqueceu de mim1 o meu querido filho2 tem presentes todas as minhas lices1 o lao mysterioso que um dia nos uniu conserva-se inquebrantavel1 e hoje no deixa ainda de vir consultar-me a cada instante como nos dias em que a sua alma e a minha trocavam incessantemente confidencias mutuas4 ,estou consolada6 ,vejo descer a velhice sobre mim como uma noite calma1 tranquilla e cheia de estrellas6 ,no nunca infructifera a obra das mes4 ,o meu sacrificio1 se o foi1 ser continuado1 e desatar-se-ha em flores bemditas de gerao em gerao4 ,felizes todas as que puderem adormecer como eu no seio de um filho a quem deram tudo que tinham de melhor1 de quem receberam tudo que n'este momento levanta a minha alma para alm da vida terrestre1 e me faz antever o somno tranquillo e doce das consciencias justas4 4444444444444444444444444444444444444444 44444444444444444444444444444 4444444444444444444444444444444444444444 44444444444444444444444444444 ,,fim4 99 99 99 99 99 ,,da ,,mesma ,,authora ,,no ,,pr,,lo ,,contos ,e ,,phantasias1 #a vol4 ,lista de erros corrigidos ,aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos3 ---------------------------------------- ------------- ,original ,correco ---------------------------------------- ------------- pg4 #ei acquisios acquisies pg4 #ig ,dir-me-ho quo ,dir-me-ho que pg4 #adg mar dinho maridinho pg4 #afa ,girardiu ,girardin pg4 #ahi uma lcance um alcance pg4 #bej grande gestos grandes gestos pg4 #bfc desonvolver desenvolver pg4 #bfc affiige afflige pg4 #cjh exemplo dignos exemplos dignos ---------------------------------------- -------------