of public domain material from ,google ,book ,search7 ,,historia ,,alegre ,,de ,,portugal ,,historia ,,alegre ,,de ,,portugal ,,leitura ,,para ,o ,,povo ,e ,,para ,,as ,,escolas ,,por ,m4 ,,pinheiro ,,chagas ,,david ,,corazzi--,,editor ,,empreza ,,horas ,,romanticas ,lisboa--,rua da ,atalaya--#dj a #eb #ahhj ,ao ,ill4mo e ,ex4mo ,sr4 ,,conselheiro ,,miguel ,,martins ,,dantas ,ministro de ,portugal em ,londres ,ill4mo e ,ex4mo ,am4o e ,sr4 ,ha dois ou tres annos1 desejando eu obter de ,inglaterra um livro que fra citado no parlamento por um deputado da opposio ao ministerio ,beaconsfield1 dirigi-me a v4 ex41 meu collega na ,academia1 perguntando-lhe se seria possivel alcanal-o4 ,a resposta de v4 ex4 no se fez esperar4 ,enviou-me o livro pedido1 que obtivera com summa difficuldade1 e juntamente com elle quantos documentos officiaes se referiam questo da escravatura1 questo de que esse livro se occupava1 e que ento me captivava mais particularmente a atteno4 ,foi mais longe ainda a amabilidade de v4 ex42 enviou-me um livrinho francez1 de que eu no tinha conhecimento1 intitulado ,entretiens populaires sur l'histoire de ,france1 perguntando-me se no seria possivel fazer1 com relao historia portugueza1 um livro n'esse genero4 ,li o livro e achei-o encantador4 ,tempos depois1 encontrei-me com v4 ex4 em ,lisboa1 e disse-lhe que a tentar o emprehendimento a que v4 ex4 me incitra1 e pedi-lhe licena para lhe dedicar o livro1 que fosse o fructo d'essa tentativa4 o que fao agora4 ,como v4 ex4 ver1 o plano da ,historia alegre de ,portugal diversissimo do dos ,entretiens populaires sur l'histoire de ,france1 mas a ,historia alegre vae escripta tambem no tom faceto1 folgazo1 singelo e popular que achei original1 picante e util no livro francez que v4 ex4 me recommendava4 ,folgo de ter ensejo de mostrar publicamente a minha gratido a v4 ex4 pelas provas de estima e de considerao que me dispensou n'esta e n'outras occasies1 e o alto apreo em que tenho o talento e o saber do escriptor distinctissimo1 que renovou completamente1 com os seus ,faux ,don ,sbastien1 o estudo de uma poca interessante da historia portugueza1 que nos deu emfim n'esse primoroso livro um estudo profundamente moderno1 um estudo1 como ,gachard os sabe fazer1 de um dos episodios mais curiosos e mais romanescos da nossa vida nacional4 ,de v4 ex4 ,cruz ,quebrada1 #be de outubro de #ahhj4 ,att4o v4or e ob4o ,pinheiro ,chagas4 ,,introduc,o ,o sr4 ,joo ,martins1 mais conhecido pelo nome de ,joo da ,agualva1 porque morava na pequena aldeia d'este nome1 que fica entre ,bellas e o ,cacem n'um sitio rido e feio1 fra mestre de instruco primaria numa das freguezias do concelho de ,cintra4 ,conseguira a sua aposentao1 e viera para a sua aldeia natal amanhar umas terras que ali possuia1 e cujo rendimento o impedira j de morrer de fome nos tempos1 em que o ,estado lhe pagava munificentemente os noventa mil ris annuaes1 com que remunerava n'essa poca os primeiros guias do homem nos speros caminhos da instruco4 ,mas o ,joo da ,agualva era homem de uma illustrao excepcional4 ,convivera muito tempo com o prior de ,monte-lavar1 padre instruido que emprestra ao bom do professor os livros da sua limitada bibliotheca2 em ,bellas tambem se relacionra com um engenheiro francez1 empregado nas obras de agua de ,valle de ,lobos1 de ,broco e de ,valle de ,figueira1 o qual tomra gosto em desenvolver o espirito intelligente e vido de saber do velho professor4 ,apezar d'isto vivia modestamente na sua pobre casa1 lidando com os saloios que o tratavam com verdadeiro respeito1 e tinham por elle um affecto em que entrava um pouco de venerao4 ,era no inverno1 e o ,joo da ,agualva estava passando a noite em casa de uma boa velha1 a tia ,margarida1 viuva de um caseiro do marquez de ,bellas1 e me do ,francisco ,artilheiro1 que1 depois de ter servido cinco annos em artilheria1 como indicava o seu sobre-nome1 viera para ,bellas ajudar a me a cuidar de umas leiras de terra1 que a velhinha herdra do marido4 ,um grupo de saloios de ,bellas e das aldeias proximas1 sabendo que o ,joo da ,agualva viera para ali seroar1 tinham vindo tambem1 desejosos de ouvir algumas das historias que o velho s vezes contava e que entretinham agradavelmente a noite4 ,n'essa occasio1 porm1 o professor estava macambusio1 e1 quando o velho ,bartholomeu1 irmo da tia ,margarida1 que era dos que mais gostavam de o ouvir1 lhe pediu que contasse alguma das suas historias1 o bom do ,joo da ,agualva abanou negativamente a cabea4 --,no estou hoje com disposio para historias da carochinha1 disse elle1 e sabem vocs8 ,tenho andado a matutar n'uma cousa4 ,no uma vergonha que vocs saibam de cr as alteiadas historias de cousas que nunca succederam1 nem podiam succeder1 e no saibam ao mesmo tempo nem o que foram seus paes nem os seus avs1 nem o que fizeram1 nem como elles viveram1 nem o que succedeu n'esta boa terra de ,portugal1 que ns todos regamos com o nosso suor1 que hoje nada vale1 mas que deu brado no mundo pelas faanhas que os nossos praticaram8 --,tomra eu saber tudo isso1 sr4 ,joo da ,agualva1 disse o ,manuel da ,idanha1 rapazote de cara esperta1 moo de lavoura do sr4 ,garignan1 o antigo dono de collegio1 que hoje reside na aldeia da ,idanha1 a cousa de quinhentos metros de ,bellas1 tomra eu saber tudo isso1 mas como ha de ser68 verdade que1 graas a ,deus1 sei ler e escrever1 e l o patro emprestou-me uma vez uns livros de historia que eu lhe pedi1 mas1 mal os comecei a ler1 deu-me o somno4 ,diziam gente os nomes dos reis e os filhos que tinham tido1 e as batalhas que tinham ganho1 e mais umas lenga-lengas de que no percebi patavina4 ,ora1 sr4 ,joo da ,agualva1 eu1 para dormir1 graas a ,deus1 ainda no preciso de ler historia4 --,mas que diriam vocs1 tornou o velho professor1 se eu1 n'estes nossos seres1 lhes contasse1 em vez de contos de fadas1 e de historias de ,carlos ,magno1 a historia do que succedeu em ,portugal8 ,talvez vocs me entendessem1 quer-me parecer que se no aborreceriam muito1 e1 em todo o caso1 se se enfastiassem1 diziam-m'o francamente1 e eu no continuava1 porque l para massador que no sirvo4 --,ah6 sr4 ,joo1 exclamou o ,manuel da ,idanha1 isso que era um regalo6 ,os outros no disseram palavra1 e o ,joo1 que os percebeu1 riu-se para dentro1 e fingiu-se desentendido4 --,pois ento1 v feito1 eu hoje estou canado1 porque j fui a p ao ,sabugo tratar da compra de um boi1 mas amanh domingo4 ,venham vocs noite aqui para casa da tia ,margarida1 e eu comearei a minha historia4 ,no domingo noite ninguem faltou2 mas1 se vieram1 foi pelo respeito que tinham ao ,joo da ,agualva1 no porque esperassem divertir-se muito4 ,o ,bartholomeu j abria a bca ainda antes do ,joo da ,agualva principiar4 ,mas o ,joo chegou-se mais para o lume1 porque a noite estava fria a valer1 sorriu-se1 e principiou como o leitor ver no capitulo immediato4 ,,primeiro ,,ser,o ,o que era ,portugal4--,os seus primeiros habitantes4--,as colonias estrangeiras4--,os phenicios4--,os gregos4--,os carthaginezes4--,os romanos4--,viriato4--,sertorio4 --,meus amigos1 comeou o ,joo da ,agualva1 de saber que esta terra em que ns vivemos nem sempre foi ,portugal1 e1 se alguem se lembrasse de fallar1 aqui ha cousa de uns tres ou quatro mil annos ou mesmo s de mil annos1 em ,portugal e em portuguezes1 havia de ver como todos ficavam embasbacados sem perceber patavina4 ,isto l para os antigos era tudo ,hespanha1 desde os cocurutos dos ,pyrinus1 que so uns montes que separam a ,hespanha da ,frana1 at essas aguas do mar que cercam por todos os lados a nossa terra1 mais a dos hespanhoes1 e at por estar este pedao de terra cercado de agua por toda a parte1 menos pela banda dos ,pyrinus1 que se chama a isto peninsula1 que quer dizer uma cousa que quasi uma ilha1 mas que o no vem a ser de todo4 --,bem sei1 bem sei6 peninsula onde houve uma guerra em que entrou meu av6 exclamou o fallador do ,manuel da ,idanha4 --,mette a viola no sacco1 ,manuel1 quem muito falla pouco acerta4 ,l chegaremos guerra da peninsula4 ,roma e ,pavia no se fez n'um dia4 --,pois ento1 v l vocemec contando a sua historia4 --,como eu a dizendo1 esta peninsula1 a que se chama ,hespanha e ,portugal1 era ento s ,hespanha4 ,hespanhoes ramos ns todos444 --,menos eu6 acudiu o ,bartholomeu1 levantando-se todo furioso1 hespanhol que nunca fui1 nem sou1 nem serei4 ,vae aqui tudo raso1 se444 --,espera1 homem de ,deus6 ,que tem que tudo isto fosse hespanhol se nunca mais o ha de ser8 ,tambem a ,hespanha1 e a ,frana1 e a ,inglaterra1 e a ,italia1 e a ,grecia1 e o ,egypto foi tudo imperio romano1 e vae l dizer agora a essas naes todas que se sujeitem ao mesmo governo6 ,tambem a ,frana d'antes se chamava ,gallia e estendia-se pela ,belgica fra1 e mais pela ,suissa1 e1 se o ,gambetta1 ou quem que governa l na ,frana1 quizesse por isso empolgar a ,suissa e a ,belgica1 a ahi em toda a ,europa uma berraria de seiscentos demonios4 --,pois sim1 resmungou o ,bartholomeu sentando-se de mau humor1 mas no me digam a mim que eu fui hespanhol4 --,ora1 meus amigos1 quem foram os que primeiro moraram c n'este canto de terra que ninguem sabe4 ,seriam uns iberos1 que fallavam uma lingua arrevesada1 assim a modo similhante que fallam hoje os hespanhoes das ,vascongadas que nem o demo entende8 ,isso que lhes no posso dizer4 ,o que sei que1 quando a ,hespanha comeou a ser conhecida1 havia aqui uma sucia de povos que era uma cousa por demais1 turdetanos para um lado1 celtiberos para outro1 ilergetas para aqui1 bastetanos para acol4 ,estava at manh a dizer-lhes nomes estramboticos1 se no preferisse fallar-lhes s nos nossos avs1 c nos que moraram na nossa terra4 --,isso que 6 bradaram todos em cro4 --,pois muito bem6 ,saibam vocs que no era um povo s4 ,no ,algarve e n'um pedao do ,alemtejo havia os cuneenses1 no resto do ,alemtejo1 na ,estremadura e na ,beira moravam os lusitanos1 e l para cima para o ,douro1 para o ,minho e mais para ,traz-os-,montes moravam os gallegos4 --,os gallegos6 exclamou o irritavel ,bartholomeu1 veja l como falla1 sr4 ,joo da ,agualva1 olhe que o pae de minha mulher veiu de ,traz-os-,montes1 e meus sogro no era nenhum gallego1 ouviu8 --,valha-te ,deus1 ,bartholomeu1 ento tu cuidas que os gallegos andam todos com o barril s costas1 e so todos uns grosseires como os aguadeiros dos chafarizes de ,lisboa8 ,pois digo-te1 e depois t'o mostrarei1 que de todos os povos l das ,hespanhas foram os gallegos os que mais depressa se poliram4 ,mas1 cala-te bca1 no v o carro adiante dos bois1 e1 como tu no queres ser genro de um gallego1 sempre te direi que os que moravam para c do ,minho no eram da mesma casta que os de l4 ,os nossos chamavam-se ,bracharos e os gallegos da ,galliza chamavam-se ,lucenses4 --,ainda bem6 murmurou o ,bartholomeu1 isso de ,bracharos at parece que d ida de ,braga4 --,e verdade que d1 sr4 ,bartholomeu1 lavre l dois tentos4 ,todos se riram1 e o ,joo da ,agualva continuou3 --,mas no imaginem que os nossos antepassados eram assim como ns1 que viviam em cidades1 villas e aldeias1 que andavam vestidos dos ps at cabea1 que tinham espingardas para a caa e para a guerra4 ,qual carapua6 ,eram uns selvagens1 uns lapuzes4 ,as armas eram lanas de cobre1 e o amante pedregulho1 mais uns dardos e uma especie de escudo para se defenderem2 fato pouco havia1 cabello comprido como o das mulheres1 que atavam com uma fita quando tinham de ir para a guerra4 ,as mulheres que tinham os seus enfeites e os seus bordados1 os seus vestidos compridos1 etc4 --,pois j se v que l as meninas nunca podem passar sem arrebiques6 disse o ,z ,caneira1 relanceando um olhar malicioso para a boa tia ,margarida que fiava na sua roca ao p da lareira4 --,melhor para ellas1 ouviu6 redarguiu a velha4 ,que pena que no vivesses n'esse tempo para atares os cabellos com uma fita1 quando fosses para a guerra6 ,como o ,z ,caneira era calvo1 uma gargalhada geral acolheu a observao da tia ,margarida4 --,em comidas no eram muito requintados1 de carne de cabra que elles principalmente se alimentavam1 e o seu po era cousa de pouca substancia4 ,bebiam agua1 dormiam no cho1 os seus barcos eram de couro1 matavam gente em sacrificio aos seus deuses1 quando tinham algum doente punham-n'o beira da estrada1 quem fazia algum roubo ou outro crime grave era apedrejado4 ,no passavam de ser uns selvagens4 ,ento que querem8 nem os homens nem os povos nascem ensinados4 ,todos comeam assim4 ,valentes eram elles1 isso sim1 valentes como touros4 ,tiveram occasio de a mostrar1 porque esta nossa terra foi na antiguidade uma espcie de ,california4 ,por muito tempo ninguem soube d'ella1 e os navios da gente civilisada que vivia l para o ,oriente nunca passavam para c do estreito de ,gibraltar1 at que um dia passaram os phenicios1 gente atrevida1 que queriam metter o nariz em toda a parte1 e que sobretudo procuravam terras novas para commerciar4 ,acharam que lhes convinham a ,andaluzia e o ,algarve1 e aqui fundaram algumas colonias1 sendo ,cadiz a principal4 ,como tinhamos por c muitas minas de ouro1 e os homens deram sempre o cavaquinho por este metal1 estavam os phenicios nas suas sete quintas4 ,ao mesmo tempo outro povo civilisado do ,oriente1 os gregos1 vieram na piugada dos phenicios1 mas esses estabeleceram-se principalmente na ,hespanha do lado de l1 onde hoje a ,catalunha1 e o ,arago e ,valencia1 etc4 ,os indigenas de c no se deram mal com os phenicios1 emquanto elles se limitaram a trocar as suas fazendas pelo nosso ouro e outras produces1 mas1 quando viram que os taes estrangeiros comeavam a fazer casa1 acabaram com o negocio1 foram aos gaditanos e deram-lhes uma tareia real4 --,foi bem feito6 observou ,bartholomeu4 --,mas os phenicios1 que estavam muito longe da sua terra1 chamaram em seu soccorro os carthaginezes1 que eram tambem uns phenicios1 quer dizer tinham assim com os phenicios o mesmo parentesco que os brazileiros tem comnosco4 ,ora os cartagineses viviam aqui mais proximo1 ali na ,africa1 ao p de ,tunis1 no muito longe de ,argel4 --,argel6 exclamou o ,francisco ,artilheiro1 j l estive4 --,j l estiveste8 --,j1 sim senhor4 ,quando eu andava ao servio1 e que fui para a ,india1 o vapor que me levou arribou a ,argel4 uma bonita terra4 --,j vs que no fica muito longe4 ,carthago era mais para o lado de l4 ,vieram pois os carthaginezes em soccorro dos phenicios1 mas gostaram da terra1 pozeram fra os que vinham soccorrer1 e fora de bordoada1 porque bons guerreiros eram elles1 sujeitaram ao seu poder tudo4 --,mas ento1 tornou o ,francisco ,artilheiro1 vocemec diz que os nossos eram to valentes8444 --,ora1 que outro me fizesse essa pergunta1 v1 mas tu que foste militar6 ,quem vence quem tem disciplina4 ,por mais valentes que os homens sejam1 em combatendo sem ordem1 um por aqui1 outro por ali1 um regimento bem formado d logo cabo d'elles4 --,isso verdade4 --,estavam os carthaginezes senhores da ,hespanha1 e1 como tinham posto fra os phenicios1 queriam tambem pr fra os gregos1 quando estes se lembraram de pedir o soccorro dos romanos1 que andavam ha muito tempo de rixa velha com os carthaginezes1 e que eram dos povos mais pimpes d'aquelle tempo4 --,vieram ento os romanos8 perguntou o ,francisco ,artilheiro que estava seguindo com interesse a narrativa4 --,no tiveram tempo de vir1 porque um tal ,annibal1 rapasote dos seus vinte e cinco annos1 e que dizem at que era filho de uma lusitana1 succedendo no commando dos carthaginezes a seu pae ,amilcar1 no esperou que elles viessem1 correu a ,sagunto1 uma das taes colonias gregas1 tomou-a e queimou-a1 e depois sae da ,hespanha1 atravessa os montes ,pyrinus e mais os montes ,alpes1 que parecia que tinha mesmo o diabo no corpo1 bate os romanos aqui1 derrota-os acol1 escangalha-os mais alem1 e s duas por tres1 se continua assim de vento em popa1 era uma vez ,roma4 ,porm1 os romanos1 que eram tambem levadinhos da breca1 nunca desanimaram1 e1 apesar de estarem de corda na garganta1 tiveram artes de mandar para c um exercito1 de frma que1 emquanto ,annibal saa por uma porta1 entravam os romanos por outra4 ,o atrevimento a-lhes sando caro1 isso verdade1 mas a fortuna virou1 e o que certo que d'ahi a pouco tempo no havia nem um carthaginez na peninsula1 e estavam os romanos senhores de tudo isto4 --,ento os povos de c estavam a olhar ao signal8 perguntou ,bartholomeu4 --,ora ahi que bate o ponto4 ,effectivamente1 os povos c das ,hespanhas acharam assim exquisito que os carthaginezes e os romanos andassem a dispor d'elles1 sem ao menos lhes perguntar a sua opinio1 de frma que1 quando os romanos1 julgando-se senhores da ,hespanha1 comearam a espreguiar-se1 os differentes povos da peninsula disseram-lhes d'esta maneira3 ,ora esperem l1 senhores romanos1 que ns somos duros para colches6 --,ah6 boa rapasiada6 observou1 esfregando as mos1 o ,francisco ,artilheiro4 --,comeou a pancadaria1 e o povo que andou sempre na frente foram c os nossos lusitanos1 principalmente os serranos do ,herminio 7que era assim que se chamava d'antes a serra da ,estrella74 ,no eram os romanos capazes de metter dente c para este lado1 at que uma vez um dos seus generaes1 chamado ,sergio ,galba1 apanhou os lusitanos traio1 e fez n'elles uma mortandade de que poucos escaparam4 --,ah6 grande patife6 exclamou o ,manoel da ,idanha4 --,isso era1 mas alem de patife era tolo1 porque isto de excitar muito d maus resultados4 ,os lusitanos1 que escaparam1 ficaram como uma bicha4 ,ora um d'elles era um pastor chamado ,viriato1 homem decidido e esperto1 que disse para os seus patricios3 ,faam vocs o que eu mandar1 e deixem os romanos comigo4 ,assim foi1 juntaram-se roda de ,viriato1 e1 quando appareceu um exercito romano commandado pelo consul ,vetilio1 o nosso homem1 que era das bandas de ,vizeu1 esconde n'uma emboscada uma parte da sua gente1 e com o resto pe-se a fazer fosquinhas aos romanos1 parecendo a modo medroso4 ,o consul percebe que elle est assim com seu susto1 e diz l de si para si3 ,vaes apanhar uma surra mestra4 ,corre sobre elle1 ,viriato faz tres meia volta1 e1 pernas para que te quero1 elle ahi vae4 ,o consul ,vetilio desata a correr atraz de ,viriato1 e vae-se mesmo metter na boca do lobo4 ,era uma vez um exercito romano4 ,depois de ,vetilio vem outro e outro1 e elle sempre zs1 psada de crear bicho4 ,em ,roma havia terror1 diziam que o luzitano lhes dava mais que fazer que o proprio ,annibal4 ,em ,hespanha ento era um enthusiasmo por ahi alem4 ,se ,viriato j nem se contentava em estar nas montanhas1 entrava pelos povoados romanos1 levantava contribuies1 revolucionava os povos1 era um vivo demonio1 e cada novo exercito1 que por c apparecia1 no lhes digo nada1 sumia-se n'um abrir e fechar de olhos1 at que emfim o consul ,scipio apanha l dois patifes que ,viriato mandra para tratar de um negocio1 e tantas endrominas lhes metteu na cabea1 e tantas promessas lhes fez que elles1 quando voltaram para onde estava o seu chefe1 apanharam-n'o a dormir e mataram-n'o4 --,oh6 que grandes malvados6 exclamou ,bartholomeu4 --,e assim acabou esse homem que foi o que se pde chamar um homemzarro6 senhores1 eu sou um pateta1 que no percebo nada d'estas cousas1 mas1 quando me ponho a pensar n'este ,viriato1 quando me lembro que era apenas um pobre pastor de cabras1 um selvagem que no entendia nada de guerras1 nem de manobras1 nem de legies para aqui1 nem de centuries para ahi1 e que1 apezar disso1 em defeza da sua terra1 fez andar os romanos em papos de aranha1 e atarantou aquella poderosa ,roma que mettia medo a todos1 quando me lembro que elle era filho d'esta boa terra2 que hoje se chama ,portugal1 ah6 c'o a breca1 sinto assim uns arripios pela espinha1 e parece que at uma vergonha para o paiz no se lhe ter levantado uma estatua de um tamanho por ahi alem1 no alto da serra da ,estrella1 que aquillo que se podia chamar a sentinella da nossa independencia4 ,e o bom do ,joo da ,agualva1 no impeto do seu enthusiasmo1 cerrava os punhos2 faiscavam-lhe os olhos1 e dava mostras de querer elle mesmo ir pr nos fraguedos da serra da ,estrella a estatua do seu heroe4 --,tem raso1 tem1 observou o ,bartholomeu1 l que o tal ,viriato foi um homem de truz1 isso foi4 --,a morte de ,viriato1 como podem imaginar1 continuou o ,joo da ,agualva1 deixou ficar os lusitanos um pouco atrapalhados1 mas continuaram a defender-se1 e os romanos viram uma bruxa com elles4 ,pde-se dizer que s ,roma foi senhora da ,lusitania1 quando no ficaram nas nossas montanhas seno as mulheres e as creanas4 ,mas as creanas fizeram-se homens1 e os homens estavam mortos por jogar as cristas com os romanos4 ,no tardou a apparecer-lhes uma boa occasio4 --,vamos l a ver isso6 exclamou o ,bartholomeu1 com um orgulho patriotico4 -- de saber que em ,roma havia umas guerras civis1 tal qual como ns tivemos c por muito tempo em ,portugal1 assim umas cousas moda da ,maria da ,fonte ou da guerra dos dois irmos4 ,um fulano ,sylla e um sicrano ,mario andaram pancadaria um com o outro1 at que venceu um d'elles que foi ,sylla4 ,era homem de cabellinho na venta este ,sylla1 e1 apenas se viu no poleiro1 comeou a chacinar nos que eram do partido contrario1 de frma que parecia que no queria deixar vivo nem um s4 ,os amigos de ,mario trataram de se escapulir1 e um d'elles1 homem desembaraado1 chamado ,sertorio1 safou-se c para ,hespanha1 para os lados do ,oriente4 ,ahi1 n'um instante1 revolucionou tudo1 arranjou um exercito1 mas os generaes de ,sylla espatifaram-lh'o1 e o amigo ,sertorio tingou-se para a ,africa4 ,souberam os lusitanos do caso1 e disseram comsigo3 ,este magano que nos faz conta4 ,mettem-se uns poucos n'um barco1 vo ali a ,marrocos1 por onde o ,sertorio andava aos paus2 offerecem-lhe o vir commandal-os4 ,sertorio saltou logo para dentro do barco1 e d'ahi a pouco estavam os lusitanos em campo com ,sertorio frente4 ,este1 porm1 no era1 como ,viriato1 um pastor de cabras1 era homem civilisado1 sabendo tudo o que se sabia no seu tempo1 e que tratou de arranjar c nas nossas terras uma especie de ,roma4 ,pareceu-lhe que ,evora servia para o caso1 estabeleceu-se ali1 e1 como o tinham acompanhado muitos romanos1 conseguiu perfeitamente o seu fim4 ,que o ,sertorio era uma grande cabea1 isso que no tem duvida6 ,no s poz o sal na moleirinha dos seus patricios que se quizeram metter com elle1 mas costumou os lusitanos a ser gente civilisada1 e a imitar os romanos em tudo1 de frma que ,viriato1 se resuscitasse1 no os reconhecia4 ,e a final de contas1 vejam como as cousas so6 ,este ,sertorio deu lambada nos romanos por um sarilho6 pois ninguem fez mais servios a ,roma do que elle6 ,introduziu aqui as artes1 os usos e os costumes de ,roma6 de frma que1 depois1 os nossos comearam a ter menos repugnancia aos estrangeiros1 a confundir-se com elles4 ,isto de fallar a mesma lingua1 de ter os mesmos habitos1 sempre uma grande cousa6 ,sertorio foi assassinado1 assassinado tambem por um traidor1 um patricio d'elle1 um tal ,perpenna6 ,pois senhores1 quando morreu1 j isto por c era to romano como a propria ,roma2 de frma que nunca mais houve revoltas1 e os lusitanos como o resto dos habitantes de ,hespanha1 excepo dos vasconsos que sempre foram mettidos comsigo1 e nunca se deram com os visinhos1 os lusitanos ficaram fazendo parte do grande imperio que vinha do ,mar ,negro ao ,oceano ,atlantico1 e da bca do ,rheno at foz do ,guadalquivir1 e ainda mais para baixo1 do outro lado do estreito4 ,e com isto os no enfado mais1 meus amigos1 a ,margarida j acabou a sua estriga1 a luz do candieiro est assim a modo aos upas como quem se quer ir embora1 e ento domingo noite continuaremos com esta conversa1 visto que vocs parece que vo gostando4 --,ora se gostamos1 sr4 ,joo de ,agualva6 bradaram todos em cro4 ,venha depressa o domingo para ouvirmos o resto4 ,e despedindo-se de ,margarida1 e de ,joo1 retiraram-se para as suas casas4 ,,segundo ,,ser,o ,cesar e os montanhezes do ,herminio4--,o imperio romano4--,o christianismo4--,os barbaros4--,suevos1 alanos e visigodos4--,os mouros4--,o reino das ,asturias4--,o reino de ,leo4--,portucale4--,os condados de ,portugal e de ,coimbra4 --,meus amigos1 comeou o ,joo da ,agualva1 apenas todos fizeram roda no domingo immediato1 e que a boa da tia ,margarida1 depois de carregar a sua roca1 principiou a fazer girar o fuso nos seus dedos ageis1 deixmos no outro dia os bons dos nossos lusitanos1 depois da morte de ,sertorio1 costumados j civilisao romana1 e fallando o latim como se tivesse sido sempre a sua lingua1 gostando de dar as suas passeatas at ,roma1 e provavelmente chamando barbaros aos que se lembravam com saudades dos tempos de ,viriato4 ,nas serras continuavam a refilar o dente aos senhores do mundo1 e o proprio ,cesar1 que veio a ser depois um grande homem1 estreiou-se nas guerras1 tendo c na ,lusitania os seus dares e tomares com os montanhezes do ,herminio1 que vieram diante d'elle em rota batida at aqui s proximidades de ,peniche1 pouco mais ou menos1 e que1 quando deram de cara com o mar1 no estiveram l com meias medidas1 metteram-se n'umas jangadas1 e foram merendar s ,berlengas1 deitando a lingua de fra ao sr4 ,cesar1 que se foi embora de queixo cado4 ,mas isso eram barulhos l de quando em quando4 ,a verdade que a ,lusitania estava sendo devras romana1 e ento1 quando l em ,roma republica succederam os imperadores1 nem mais se pensou em independencias1 nem meias independencias4 ,as cidades com os nomes romanos ferviam por ahi1 as estradas militares cortavam o paiz1 e uma pessoa podia ir de ,lisboa at ,roma sem perguntar a ninguem4 ,hoje diz-se3 quem tem bca vae a ,roma4 ,pois n'aquelle tempo1 e com as estradas militares1 bastava ter ps e olhos1 a-se l direito como um fuso4 --,havia caminho de ferro8 perguntou o ,z ,caneira embasbacado4 --,qual caminho de ferro1 bruto6 ,teu av ainda nem sabia que vinha isso a ser1 e j tu querias que o teu trigesimo ou quadragesimo av andasse de wagon6 ,no senhor1 eram estradas ordinarias1 mas feitas com todo o cuidado e limpeza1 e que1 partindo de ,roma1 am ter aos pontos mais distantes do imperio6 ,l que os taes romanos eram um grande povo1 isso eram6 --,pois sim6 mas regalaram-se de levar tapona c na nossa terra1 interrompeu o ,bartholomeu4 --,quem vae guerra d e leva1 respondeu o ,joo da ,agualva1 e a final quem vence quem mais sabe4 ,se os romanos venceram1 no foi nem porque tinham mais fora1 nem porque eram mais valentes1 foi porque sabiam mais4 ,tu vers ao depois4 ,olha que isto c no mundo no se leva a poder de bordoada4 ,queres um exemplo8 ,ora ahi tens tu o mundo todo romano4 ,o imperador est em ,roma1 e tudo governa4 ,n'isto sem da ,juda uns homens de bordo na mo1 e de ps descalos1 que comeam a prgar por esse mundo1 a dizer que ,deus veiu terra1 que foi crucificado1 que disse que todos os homens eram iguaes1 senhores e escravos e grandes e pequenos1 que a gente deve amar no s os seus amigos1 mas tambem os seus inimigos1 que ha mais alegria no cu pela volta de um peccador1 que se arrepende1 do que pela entrada de noventa e nove justos1 e outras cousas assim que embasbacavam todos1 e vae os imperadores romanos comearam a scismar que esta gente1 que lhes fazia mal1 que desorganisava tudo1 e botam a chacinar n'esses sujeitos que se diziam christos1 e a queimal-os1 e a deital-os s feras1 e a martyrisal-os1 e quanto mais os desbastavam mais elles cresciam1 e tanto e tanto que lhes no digo nada4 s duas por tres o mundo romano tinha sido conquistado1 sem pau nem pedra1 por esses soldados de ,christo4 ,ora aqui tens tu como quem vence nem sempre a fora bruta4 --,essa agora mais fina6 accudiu o ,manuel da ,idanha4 ,esses1 se venceram1 porque eram os santos apostolos1 e porque prgavam a palavra de ,deus4 --,pois assim 1 ,manuel1 dizes tu muito bem1 mas que isto que se chama civilisao no tambem seno a palavra de ,deus4 ,a civilisao o que concorre para nos fazer melhores1 mais dignos de ser homens4 ,umas vezes prgam-n'a os santos1 outras vezes so os sabios1 e s vezes tambem so os soldados1 porque ,deus de todos os meios se serve para chegar aos seus fins4 ,e assim que o instrumento d'isto a que eu chamo civilisao umas vezes o livro1 outras vezes a cruz1 e outras vezes a espada4 ,os bons dos saloios ouviam boqui-abertos estas cousas todas1 que s o ,manuel da ,idanha parecia perceber um bocadinho1 por isso o ,joo da ,agualva1 que no queria perder a atteno do auditorio1 apressou-se a continuar3 --,isto quer dizer1 meus amigos1 que foi por este tempo que principiou a prgar-se no mundo a nossa santa religio1 e foi c a nossa terra uma das primeiras que se converteram4 ,dizem at que veiu aqui o proprio apostolo ,s4 ,thiago1 mas isso estou que so lrias2 o que certo1 porm1 que ainda quasi no havia bispos por esse mundo de ,christo1 e j ,braga era bispado1 tanto assim que se chama ao arcebispo de ,braga arcebispo primaz das ,hespanhas1 porque foi o primeiro que na ,hespanha houve4 ,mas1 entretanto1 meus amigos1 grandes cousas se passavam pelo mundo4 ,fra dos limites do imperio1 do lado de l do ,rheno1 do lado de l do ,danubio1 havia povos que ,roma no conseguira conquistar3 gente selvagem como os luzitanos do tempo do ,viriato2 valentes como elles1 e ao mesmo tempo gente inquieta que no parava n'um sitio e que no podia viver quasi seno de caa e de rapina4 ,tinham os romanos um trabalho em os conter1 mas1 quando o imperio comeou a fraquear1 porque aquillo estava j sendo uma choldra1 quando as legies1 que como quem hoje diria as divises e as brigadas1 comearam cada uma a apregoar um imperador pela sua banda1 desabam todos aquelles meus amigos sobre o imperio1 e foi como quem diz uma verdadeira inundao4 ,ahi pelos annos quatrocentos e tantos caram em cima de ,hespanha1 vindos das bandas dos ,pyrenus1 nada menos de tres povos1 os ,alanos1 os ,suevos e os ,vandalos4 ,ns1 s nossa parte1 tivemos dois que tomaram conta de tudo isto1 que foram os suevos e os alanos4 ,mas aquillo6 as florestas de alem do ,danubio e do ,rheno parece que se no fartavam de despejar povos que se empurravam uns aos outros4 ,atraz d'estes tres povos vieram os visigodos que expulsaram os outros e ficaram senhores da ,hespanha toda4 ,mas agora ahi tem vocs como nem sempre quem vence quem conquista4 ,julgam por acaso que se fallou na ,hespanha o visigodo1 e que as leis visigothicas que governaram1 e que a religio dos visigodos que triumphou8 ,qual carapua6 os vencidos que conquistaram os vencedores e deram-lhes a sua lingua1 as suas leis e a sua religio4 ,porque8 porque os mais civilisados eram os vencidos1 e quem mais sabe quem triumpha4 --,mas ento1 a final de contas1 perguntou o ,manuel da ,idanha1 sempre isto ficou sendo romano8 --,no1 rapaz1 no assim4 ,ora dize-me uma cousa1 quando tu deitas sal e carne para dentro de uma pouca de agua1 o que que fica8 agua1 carne ou sal8 --,essa agora mais fina1 no fica nem uma coisa nem outra1 o que fica caldo4 --,ora pois ahi tens tu3 a agua eram os lusitanos1 os romanos foram o sal1 e os visigodos a carne1 e de tudo isso sau uma cousa nova1 um povo novo1 este caldo que depois veio a chamar-se portuguez1 que no fundo lusitano1 como o caldo agua1 e a que ,roma deu o sal que foi a ida1 e os visigodos a carne que foi a fora4 ,acharam graa comparao os bons dos saloios e o ,joo da ,agualva proseguiu d'esta maneira3 --,mas as cousas no ficaram por aqui1 porque no anno de #gef appareceu de repente em ,hespanha gente nova4 ,eram os mouros4 ,esses1 em vez de vir do norte1 vinham do sul4 ,seguiam uma religio nova1 a de ,mafoma4 ,no eram uns selvagens1 como tinham sido os visigodos4 ,traziam uma civilisao1 e das mais apuradas4 ,por isso a lucta que se travou foi medonha3 civilisao contra civilisao1 ,jesus contra ,mafoma4 ,primeiro venceram os mouros4 ,na batalha do ,guadalete foram os visigodos vencidos1 e morto o seu rei ,rodrigo4 ,em pouco tempo tinham os mouros tomado toda a ,hespanha4 ,a nossa terra l foi tambem para elles4 ,s nos montes das ,asturias1 que so levados de quantos diabos ha1 um punhado de visigodos continuou a resistir1 commandados por um tal ,pelayo1 que foi o primeiro rei das ,asturias4 ,metteram-se os mouros com elle1 levaram para o seu tabaco4 ,deixaram-n'o l estar no seu reino1 que era como quem diz um ninho de aguia1 encarapitado no cucuruto das montanhas1 e c'o a breca1 parece-me que uma aguia c'o as azas estendidas fazia-lhe sombra a elle todo4 ,a pouco e pouco foi augmentando4 ,agora tomava-se uma cidade1 logo outra2 a gro e gro1 diz o proverbio1 enche a gallinha o papo4 ,d'ahi a duzentos annos j os visigodos tinham tirado aos mouros terras bastantes para formar no s um reino1 mas uns poucos4 ,a moda que havia de se dividir o reino pelos filhos de um rei que a para o outro mundo1 dava este resultado4 ,deixemos1 porm1 isso1 e vamos a saber o que era feito de ns4 --,isso que 1 acudiu o ,bartholomeu1 os hespanhoes que tratem de si4 --,pois ns faziamos parte do reino que se chamou reino de ,leo2 quando digo ns1 quero dizer de ,coimbra para cima1 porque1 entre ,coimbra e ,lisboa1 umas vezes era-se mouro e outras vezes christo1 mas de ,lisboa para baixo no havia duvida nenhuma1 era tudo moirama4 --,mas ento1 vamos a saber1 isto era j ,portugal ou no era ,portugal8 perguntou o ,z ,caneira4 --,ora com que tu vens6 ,sabes o que era ,portugal8 ,era1 para assim dizer1 o ,minho4 ,havia ,portugal e havia o condado de ,coimbra4 ,portugal chamava-se assim porque na foz do ,douro havia uma terra que se chamava ,cale1 que depois se mudou em ,gaya1 e vae defronte mesmo beira do rio1 comeou a levantar-se outra terra que se chamou ,portus ,cale ou ,porto de ,cale4 ,esta terra o que se chama hoje simplesmente ,porto1 e o nome de ,porto de ,cale1 que se foi mudando em ,portugal1 dava-se a tudo o que ficava para o norte do ,douro4 ,e aqui est1 meus amigos1 como ,portugal deve o seu nome ao ,porto1 exactamente como depois lhe veio a dever a liberdade4 --,e ento ,coimbra j no era ,portugal8 --,no1 rapaz4 ,coimbra era outro condado1 tambem christo1 mas que tinha existencia sobre si4 ,ora o que lhes digo1 meus amigos1 que a corneta do destacamento que chegou hoje est j a tocar a recolher1 que so horas de se ir chegando cada um para suas casas1 e que no proximo domingo continuaremos a nossa historia4 ,,terceiro ,,ser,o ,d4 ,affonso ,,vi de ,leo4--,o conde ,d4 ,henrique4--,d4 ,thereza4--,o conde de ,trava4--,batalha de ,s4 ,mamede4--,egas ,moniz4--,fundao da monarchia4--,d4 ,affonso ,henriques4--,os cruzados4--,d4 ,sancho ,i4--,d4 ,affonso ,,ii4--,d4 ,sancho ,,ii4--,d4 ,affonso ,,iii4 --,viram vocs1 meus amigos1 tornou o ,joo de ,agualva1 no domingo immediato1 que o ,portugal de agora1 ahi pelo anno mil1 pouco mais ou menos estava1 do ,mondego para baixo1 quasi todo em poder dos mouros1 e do ,mondego para cima distribuido em dois condados1 um que se chamava de ,portugal1 que era como quem diz do ,porto1 e o outro que se chamava de ,coimbra1 e ambos estes condados faziam parte do reino de ,leo1 onde governava um rei de cabellinho na venta1 chamado o sr4 ,d4 ,affonso ,,vi4 ,ora1 como ,d4 ,affonso ,,vi tinha sempre guerra com os mouros1 e como n'esse tempo o grande pratinho para um principe ou para um fidalgo1 era jogar as cristas com elles1 tanto que os am buscar a casa de seiscentos diabos1 s para lhes dar tapona1 aconteceu que dois francezes1 chamados um ,henrique e outro ,raymundo1 ambos primos1 e ambos da casa de ,borgonha1 em vez de ir ,palestina1 vieram aqui a ,hespanha1 que lhes ficava mais ao p da porta1 pedir para dar tambem as suas garfadas nos de ,mafoma4 ,no havia duvida1 a mesa estava sempre posta e podiam servir-se vontade4 ,deram bordoada de crear bicho1 e o ,d4 ,affonso ,,vi1 que viu que eram uns valentes1 e que lhe podiam prestar para muito1 casou-os com duas filhas que tinha1 uma legitima filha do matrimonio1 e outra cousas e tal etc4 ,a primeira chamava-se ,urraca e foi para o ,raymundo1 a segunda chamava-se ,tareja ou ,thereza1 e dizem at que era uma rapariga de truz1 para o ,henrique4 ,ora ao primeiro1 como era casado com a legitima1 deu elle o governo de toda a parte do reino1 que ficava borda do mar1 desde os altos da ,galliza at s proximidades do ,tejo1 e a ,d4 ,henrique deu especialmente os condados de ,portugal e de ,coimbra1 ficando sempre sujeito ao primo4 ,ha quem diga que ,portugal veiu como dote de ,d4 ,tareja6 ,t carocho6 ,n'esse tempo nem os paes davam dotes s filhas1 os que queriam casar com ellas que ainda davam alguma cousa4 --,e acho isso muito bem entendido6 exclamou vivamente o ,z ,caneira1 que tinha uma filha casadoira4 --,pois sim6 redarguiu sorrindo o ,joo da ,agualva4 ,o que certo que a moda no pegou4 ,d4 ,henrique1 porm1 ficou sendo vassallo de ,affonso ,,vi1 e empenhou-se em alargar os seus dominios1 dando pancadaria nos mouros4 ,muito cedo deixou de ser sujeito a seu primo1 e teve a sua capital em ,guimares1 que por isso se chama o bero da monarchia4 ,mas este ,d4 ,henrique parece que tinha bicho carpinteiro1 foi ,palestina1 como se no tivesse por c mouros com fartura1 e1 quando o sogro morreu deixando o throno cunhada ,d4 ,urraca1 que j ento era viuva1 o bom do conde metteu-se em todos os barulhos que l am por ,hespanha1 para ver se apanhava mais alguma cousa para si4 ,qual carapua6 no apanhou nada1 e a perdendo muito1 porque os mouros1 que se viram larga1 comearam a fazer-se finos1 e j subiam por ahi acima1 como quem estava com desejo de se espreguiar o seu pedao nos montes verdes de ,coimbra4 ,no meio d'esta azafama toda1 morreu em #aaad o honrado conde deixando uma viuva muito frescalhota ainda1 e um filho pequeno que teria os seus tres annos1 e se chamava ,affonso ,henriques1 que o mesmo que se dissesse ,affonso filho de ,henrique1 assim como ,sanches queria dizer filho de ,sancho1 ,fernandes filho de ,fernando1 e ,martins filho de ,martim4 --,ora essa6 exclamou um que at ahi estivera silencioso1 aqui estou eu que me chamo ,antonio ,martins1 e mais meu pae chamava-se ,jos4 --,pois isto que eu digo1 tornou ,joo1 era n'aquelle tempo1 depois os nomes ficaram1 mas j sem se lhes saber a significao1 como acontece a muitas outras cousas4 ,a me de ,d4 ,affonso ,henriques1 que era uma mulher bonita e desembaraada1 continuou a andar por cercos e batalhas1 sempre a ver se isto c em ,portugal ficava independente1 e1 emquanto ella assim procedeu1 correu tudo bem2 mas isto de mulheres sempre so mulheres--no se zangue1 tia ,margarida--e ,d4 ,thereza l teve o seu fatacaz por um conde gallego1 ,ferno ,peres de ,trava1 que d'ahi a pouco era quem punha e dispunha em ,portugal4 ,no agradava isso muito aos nossos fidalgos1 e menos ao rapazelho1 que era levadinho da brca1 esperto como um alho1 valente como seu pae1 e que fra de mais a mais educado por um fidalgo s direitas1 um tal ,egas ,moniz1 portuguez dos quatro costados4 ,j se v que o aio no lhe ensinou a revoltar-se contra sua me1 e at devo dizer que so verdadeiras patranhas muitas das cousas que a esse respeito se contam4 ,por exemplo1 diz-se que o rapazote andava s bulhas com a me1 e que o rei de ,leo1 ,d4 ,affonso ,,vii1 viera em soccorro da tia contra o primo4 ,peta6 ,d4 ,affonso ,,vii veiu a ,portugal1 verdade1 mas foi para obrigar a infanta-rainha 7assim lhe chamavam7 e o filho e os fidalgos e todo o povo a reconhecer a sua suzerania4 ,apanhou o rapaz em ,guimares1 cercou-o1 e pl-o deveras em talas4 ,egas ,moniz foi ter com elle1 e disse-lhe que se fosse embora e que lhe empenhava a sua palavra que a sua suzerania seria reconhecida4 ,affonso ,,vii assim o fez1 e partiu d'ali contra ,d4 ,thereza1 que essa reconheceu-o immediatamente por seu senhor e suzerano4 ,mas ,d4 ,affonso ,henriques1 livre do primo1 pediu me que fizesse favor de lhe dar o governo a elle1 que sempre era mais portuguez que o conde de ,trava4 ,este disse rainha que no tivesse cuidado1 que elle iria dar uma duzia de palmatoadas no pequeno4 ,foram boas as palmatoadas6 ,em ,s4 ,mamede1 ao p de ,guimares1 e no anno de #aabh1 o conde gallego levou uma esfrega1 e teve de se pr a andar1 levando comsigo ,d4 ,thereza4 ,de frma que nem ,d4 ,affonso ,henriques prendeu a me1 nem fez cousa que se parecesse com isso4 ,quiz apenas governar1 porque tinha o direito de o fazer1 e porque os bares portuguezes estavam fartos de aturar o gallego4 ,e a vassallagem que promettera a ,d4 ,affonso ,,vii8 ,boa vae ella6 ,mesmo agora ,d4 ,affonso ,henriques pozera fra o gallego para se sujeitar ao de ,leo6 ,nem se pensou em tal4 ,mas ,egas ,moniz tinha dado a sua palavra1 e no queria que um patife de um estrangeiro dissesse que havia portuguezes desleaes4 ,no contou nada ao seu querido discipulo1 e foi at dos primeiros a aconselhar que se mantivesse a independencia1 mas agarrou em si1 na mulher e nos filhos1 e foram todos de corda ao pescoo ter com o rei de ,leo1 e dizer-lhe3 ,para resgatar a minha palavra1 s tenho a minha cabea e a dos meus6 ,ellas aqui esto6 ,o rei ficou assombrado d'este acto de lealdade e mandou-os embora com palavras de muito louvor4 --,homem6 isso agora parece-me asneira6 acudiu o ,z4 ,que diabo de culpa tinha elle que esse ,d4 ,affonso ,henriques no fizesse o que promettera8 --,nenhuma1 bem sei6 mas elle que ficra por fiador4 ,outro seria que dissesse3 ,eu quiz1 mas no pude4 ,elle foi mais franco e disse3 ,no pude e no quiz4 ,o interesse da nao oppunha-se a isso1 mas a minha vida ha de resgatar a minha palavra1 e no se fundar n'uma deslealdade a nova monarchia4 --,aquillo que eram homens6 murmurou o ,manuel da ,idanha4 --,espera que tu vaes ver o que era um homem4 ,este ,affonso ,henriques digo-te que foi mesmo fadado para fundador de reino4 ,no parava um instante4 ,no principio do governo1 andou sempre bulha com o primo1 e com os gallegos1 e tudo era ver se passava o ,minho2 mas um bello dia olhou para o sul1 e percebeu que para ali que havia muito que fazer4 ,os mouros comeavam a dar signal de si1 e a romper de novo por ali acima4 ,em #aaci1 ,affonso ,henriques vae s n'uma galopada at ao ,alemtejo1 derrota os mouros em ,ourique1 e volta para casa4 ,a respeito de ,ourique tem havido mosquitos por cordas4 ,diz-se que appareceu ,nosso ,senhor a ,d4 ,affonso1 que este foi ali acclamado rei pelos soldados1 que aquillo foi uma batalha formidavel1 etc4 ,eu c no me metto n'essas cousas4 ,que ,nosso ,senhor ,jesus ,christo apparecesse crucificado a ,d4 ,affonso ,henriques1 muito possivel1 ,deus pde fazer estes milagres1 sempre que lhe aprouver1 e milagre de ,deus foi a nossa historia toda4 ,sem a ajuda de ,nosso ,senhor mal podia este pequeno povo fazer o que fez4 ,que a batalha fosse muito importante1 no me parece1 pelo menos no teve consequencias2 ficou tudo como d'antes1 e o que se no pde dizer que o quartel general fosse em ,abrantes1 porque a ,abrantes ainda ns no tinhamos chegado2 que os soldados se lembrassem de acclamar ,d4 ,affonso ,henriques rei n'essa occasio tambem me parece historia4 ,sou capaz de apostar que rei j lhe chamavam ha muito tempo1 como chamavam rainha me2 de mais a mais1 esse titulo de rei1 que affirmava mais a nossa independencia1 onde se deveria dar era n'uma batalha contra os leonezes1 mas n'uma batalha contra os mouros1 que tanto se importavam que ,portugal fosse independente1 como que fosse vassallo de ,leo1 a quem tanto convinha que ,affonso ,henriques fosse rei como que fosse conde1 no se percebe4 ,diz-se tambem que foi nas crtes de ,lamego que o titulo se confirmou4 ,ora adeus6 ,crtes com clero1 nobreza e povo ainda c se no faziam4 ,e de mais1 quem diz isso parece que imagina que n'aquelle tempo se passavam as cousas como agora1 e que isto de fazer rei um conde soberano era negocio que se no podia praticar sem grandes ceremonias e ajuntamentos4 ,boas noites1 meus amigos4 ,oiam vocs o que succedia6 ,morria o rei de ,leo1 por exemplo1 e dividia os estados pelos filhos1 e aqui ficava sendo um rei da ,galliza1 o outro rei de ,leo e o outro de ,castella4 ,e depois juntavam-se os estados1 e j no havia reinos nem em ,galliza1 nem em ,castella1 depois tornavam-se a separar1 e assim andavam1 sem maior massada4 ,d4 ,affonso ,henriques fizera-se independente1 era o essencial1 depois comearam a chamal-o rei1 e rei se ficou chamando4 ,o que elle fez1 como era espertalho1 para garantir a conservao do reino1 foi declarar-se vassallo do papa1 e mandar-lhe pagar um pequeno tributo1 para que o pontifice lhe valesse4 ,a manha no era m2 n'aquelle tempo quem tinha por si a crte de ,roma tinha tudo4 ,mas o caso no era chamar-se uma pessoa rei1 era ter um reino que merecesse o nome1 e esse ,portugalsito1 que vinha apenas do ,minho at ao ,mondego1 para fallar a verdade1 no parecia l um grande reino4 ,e vae ,d4 ,affonso ,henriques disse ento com os seus botes3 ,toca a alargal-o6 ,ora o que faz um de vocs quando se v com uma terrola para seu grangeio8 ,cospe nas mos1 agarra na enchada1 comea a fossar o cho1 e ali est desde pela manh at noite4 ,d4 ,affonso ,henriques fez o mesmo1 cuspio nas manoplas1 arrancou do montante1 e elle ahi vae para a faina em que andou desde pela manh at noite1 quer dizer1 desde que lhe apontou o buo at que a morte pregou com elle na sepultura4 ,o montante era a sua enchada1 rapazes1 e1 a cada enchadada1 saa do cho sarraceno agora ,santarem1 depois ,lisboa4 ,ah6 meus amigos1 que vida6 ,aquillo era um lidar continuado6 ,elle casou com uma princeza de ,saboya1 a sr4 ,d4 ,mafalda1 mas estou em dizer que no foram muitas as noites em que dormio muito bem aconchegado com ella nos seus paos de ,coimbra4 ,alta noite l a elle tomar ,santarem1 de surpreza1 e outra vez constava-lhe que a uma gente do norte fazer guerra aos mouros na ,palestina1 para defender contra elles o sepulchro de ,christo1 e vae ,d4 ,affonso ,henriques a logo beira-mar ter com os homens1 e pedir-lhes que descanassem aqui um pedao1 e que o ajudassem ao mesmo tempo na sua tarefa de todos os dias4 ,elles no se fizeram rogar1 desembarcaram1 e d'ahi a pouco estava ,lisboa no poder dos nossos4 ,muitos d'elles por c ficaram1 porque ,d4 ,affonso ,henriques deu-lhes terras1 e at ha por ahi povoaes que ainda se chamam com os nomes d'elles1 por exemplo ,villa ,franca1 que como quem diz villa dos ,francos1 etc4 --,ento os de ,villa ,franca so estrangeiros8 perguntou o ,manuel da ,idanha4 --,qual carapua1 homem6 ,tu no te lembras da minha comparao do caldo8 ,no sal1 nem agua1 nem carne2 mas tem carne1 agua e sal4 ,a carne eram os godos1 a agua os luzitanos e os romanos o sal2 pois tambem no caldo se deita s vezes o seu raminho de hortel ou de segurelha1 que sempre lhe d assim um sabor mais cousas1 tal1 etc41 pois esses raminhos de segurelha e de hortel foram os estrangeiros1 que aqui vieram a ,portugal e por c se deixaram ficar4 ,vieram tambem contribuir para fazer o nosso bom caldo portuguez4 -- bem achado1 sim senhor1 observou a tia ,margarida4 --,pois assim mesmo que 4 ,ora j vocs vem que o pobre do ,d4 ,affonso no podia estar muito tempo socegado4 ,hoje tomava ,cintra1 amanh ,mafra1 no outro dia ,palmella1 no outro ,abrantes6 ,era um vivodemonio4 ,os mouros com elle andavam n'um sarilho4 ,por isso tambem tinham-lhe tomado um medo6 ,fallarem-lhes no ,ibn-,errik1 assim lhe chamavam elles na sua lingua1 como quem diz filho de ,henrique1 fallarem-lhes em ,ibn-,errik1 era o mesmo que fallarem-lhes no diabo4 ,e que gente que elle tinha6 homens como um ,gonalo ,mendes da ,maia1 o ,lidador1 que morreu combatendo1 e mais andava j pelos noventa annos1 e um que tomou ,evora1 ,giraldo sem ,pavor1 e outro que tomou ,beja1 cada qual por sua conta e risco4 ,gente levadinha da brca1 isso que fallar a verdade4 ,mas1 emfim1 meus amigos1 ainda que se diz pedra movedia no cria bolor1 sempre d o caruncho n'uma pessoa1 por mais que ella se mexa e trabalhe4 ,d4 ,affonso envelheceu1 mas antes d'isso j deitra um filho que era o seu retrato1 valente como elle1 e homem de grande talento1 ,d4 ,sancho1 que foi depois rei4 ,podia morrer descanado ,d4 ,affonso ,henriques1 deixava a sua espada em boas mos e a sua cora em boa cabea4 ,e com essa consolao morreu em #aahe el-rei ,d4 ,affonso ,henriques1 depois de ter no s tornado o reino independente1 mas de o ter alargado at ao meio do ,alemtejo1 e principalmente de ter tomado ,lisboa que era1 como diz o outro1 a menina dos olhos dos arabes1 a cidade sem a qual no se podia fazer c para estas bandas cousa que geito tivesse4 ,ah6 meus amigos1 se algum de vocs fr alguma vez a ,coimbra1 e entrar na igreja de ,santa ,cruz1 suba at capella mr1 e olhe para os dois tumulos que ali se vem1 pergunte qual o de ,d4 ,affonso ,henriques1 e depois ajoelhe diante d'elles1 porque1 com seiscentos diabos1 se ns hoje no somos para ahi uns gallegos e uns andaluzes1 se dmos que fallar no mundo1 e praticmos cousas que fazem com que uma pessoa tenha orgulho de se chamar portuguez1 oh6 com a brca1 a elle que o devemos1 porque1 como l diz o outro1 de pequenino se torce o pepino1 e este reino de ,portugal era bem pequerrucho ainda1 quando esse homem de ferro levou a sua vida inteira a costumal-o a fazer cousas grandes4 ,e o bom do ,joo da ,agualva limpou o suor1 que lhe escorria pela testa com o enthusiasmo que o inflammava4 ,os seus companheiros escutavam-n'o silenciosos1 e j no faziam interrupes nem observaes4 ,estavam deveras interessados com a narrativa4 --,meus amigos1 continuou o ,joo da ,agualva1 no governo como na lavoura ha tempo para tudo1 agora cava-se e depois semea-se4 ,primeiro compra-se a terra e depois que se amanha4 ,pois assim foi em ,portugal2 ,d4 ,affonso ,henriques ou ,d4 ,affonso ,i conquistra1 ,d4 ,sancho tratou de povoar4 ,por isso a historia chamou conquistador ao primeiro e povoador ao segundo2 e olhem que isso no quer dizer que ,d4 ,sancho no fosse tambem um guerreiro de truz4 ,t carocho6 ,j na vida do pae elle dera que fallar4 ,apenas o pae morreu1 comeou elle a namorar uma terra do ,algarve1 que hoje est bem decada1 mas que n'esse tempo era1 por assim dizer1 a ,lisboa l do sul--,silves4 ,no se lhe mettia dente1 porm1 com facilidade4 ,para ir l por terra1 era custoso como o demonio1 para ir por mar1 de saber1 meus rapazes1 que o sr4 ,d4 ,sancho ,i ainda no se lembrra de comprar nem a fragata ,d4 ,fernando1 nem esse navio com que andam por ahi sempre os jornaes aos tombos1 e a que uns chamam o ,pimpo e os outros o ,vasco da ,gama4 ,uma gargalhada geral mostrou que os bons dos ouvintes tinham apanhado facilmente o chiste do jovial anachronismo do narrador4 --,mas1 meus amigos1 isto de ,portugal ficar no caminho da ,palestina para os christos que vinham l das terras do norte1 foi uma verdadeira pechincha4 ,descanavam aqui e sempre havia por c algum biquinho de obra4 ,foi o que succedeu tambem d'esta vez4 ,d4 ,sancho apanhou uma frota de cruzados444 --,novos8 perguntou o ,z4 --,novos eram elles1 que no costumavam vir para a guerra os carecas como tu2 mas de saber que se chamavam cruzados aos christos que tinham ido tirar o sepulchro de ,christo das mos dos infieis1 e que depois o defendiam4 ,d4 ,sancho apanhou pois uma frota de cruzados1 e disse-lhes d'esta maneira3 --,vocemecs que me podiam fazer um favor4 --,se estiver na nossa mo6444 --,l isso est4 simplesmente acompanhar-me ali a baixo a ,silves1 e ajudar-me a intimar mandado de despejo aos mouros que l esto dentro4 ,eu fico com a cidade1 e os senhores levam as riquezas que se apanharem4 --,v de feio4 ,e foi4 ,tomou-se ,silves1 tanto mais que lhes ficava na estrada1 e no tinham de torcer caminho4 ,mas ,d4 ,sancho no poude continuar com essas funanatas1 porque os mouros c da peninsula1 que comeavam a estar assim esmorecidos1 receberam de repente uns reforos da ,moirama1 e444 no lhes digo nada1 vieram outra vez por ahi acima que parecia que tornava a haver invaso4 ,foi uma torrente que levou tudo adiante de si4 ,o ,tejo tornou a ser a fronteira de ,portugal1 e apenas no ,alemtejo uma terra ou outra surgia ainda1 como uma ilha1 com a bandeira portugueza1 d'entre as ondas da mourisma4 ,ento ,d4 ,sancho pensou que primeiro que tudo era necessario tratar do que era seu1 e comeou n'uma lida abenoada3 elle mandou vir gente do norte da ,europa para povoar os nossos campos desertos1 elle edificou1 elle fez castellos1 elle cuidou emfim de tudo1 e no se esqueceu tambem de mostrar aos bispos que tinha muita contemplao por elles1 emquanto se limitavam s suas rezas1 mas que lhes no permittia metter o nariz assim de muito perto nos negocios do estado4 ,a final1 este bom rei morreu1 menos velho que o pae1 em #abab4 ,tinha sido casado com uma princeza chamada ,d4 ,dulce1 filha do conde de ,barcelona4 ,de frma que aqui temos pois j duas rainhas de ,portugal1 ,d4 ,mafalda e ,d4 ,dulce4 ,o filho mais velho de ,d4 ,sancho1 que veiu a ser rei depois d'elle1 no se parecia muito1 valha a verdade1 nem com o pae1 nem com o av1 mas olhem que nem por isso foi menos util c ao nosso paiz4 o que eu digo4 ,cada qual tem a sua tarefa4 ,uns cavam1 outros semeam1 outros pem fra os pardaes e arrancam o joio1 que podem dar cabo da ceara4 ,foi esta a tarefa de ,d4 ,affonso ,,ii4 ,ora vem perfeitamente que1 se este ,portugal to pequeno se comeasse a dividir1 pedao para aqui1 pedao para acol1 a-se tudo quanto ,martha fiou4 ,d4 ,sancho1 que tivera uma sucia de filhos1 pensra mais em os deixar bem arranjados do que em assegurar a conservao do reino4 ,por isso no testamento era umas mos rotas4 ,esta e aquella villa para o senhor infante fulano1 esta e aquella cidade para sicrano1 e terras para este1 e terras para aquelle4 ,d4 ,affonso ,,ii arrebitou a venta1 e disse d'este modo3 ,ento vamos a saber1 e eu com que fico8 ,e ahi comea bulha com as irms e com os fidalgos4 ,andava tudo em polvorosa com elle4 ,os fidalgos1 por exemplo1 tinham recebido de ,d4 ,affonso e de ,d4 ,sancho esta ou aquella terra1 mas am-se fazendo finos1 e por sua conta e risco am apanhando mais alguma1 os frades ento nunca chegaram cabeceira de um moribundo que no apanhassem algumas terras de bom rendimento4 ,isto assim no pde ser1 berrava ,d4 ,affonso ,,ii1 s duas por tres fico a olhar ao signal4 ,e elle ahi vae por essas provincias fra1 a obrigar os fidalgos a pr para ali os titulos das suas propriedades1 declarando que no valiam seno os que elle confirmasse1 e foi a isso que se chamou confirmao4 ,ao mesmo tempo prohibia s corporaes religiosas que tivessem mais terras do que as que tinham4 ,emquanto ao testamento de ,d4 ,sancho ,i1 cumpriu s o que lhe parecia bom1 e1 como as irms refilassem1 houve pancadaria a menos de real4 --,ento1 por esse andar1 os mouros deviam ter vida folgada com elle8 observou o ,francisco ,artilheiro4 --,l isso verdade1 e tanto assim que1 quando se tomou ,alcacer do ,sal1 os cruzados1 que nos ajudaram1 e que nunca pozeram a vista em cima do soberano1 imaginaram que era uma rainha que governava em ,portugal2 mas1 meus amigos1 olhem que o nosso paiz no lhe deve menos por isso4 ,se as infantas comeam a puxar para um lado1 os fidalgos a puxar para o outro1 e ainda os frades a arrancar tambem as terras1 n'um abrir e fechar d'olhos tinhamos para ahi vinte reinos1 e adeus ,portugal4 ,mas o gordanchudo do ,affonso ,,ii1 apesar de se no importar para nada com os mouros1 tinha cabellinho na venta2 e por isso os frades foram prohibidos de ter mais terras1 as infantas tiveram de pr para ali as cidades que o pae lhes tinha deixado1 porque ,d4 ,affonso ,,ii disse-lhes que a respeito de cora em ,portugal no havia seno uma1 e finalmente os fidalgos tiveram de receber d'elle as terras mas por favor e merc real4 ,de frma que1 a #be de maro de #abbc1 quando morreu apenas com trinta e seis annos de idade1 ,portugal era pequeno1 mas estava todo na mo do rei1 o que j era grande faanha4 --,e o filho foi pelo mesmo caminho1 sr4 ,joo8 perguntou o ,manuel da ,idanha4 --,ora1 meu amigo1 eu te vou dizer o que succedeu ao filho1 e por aqui tu vers se o que eu acabo de dizer no verdade1 e se no ha na historia exemplos para tudo4 ,o filho era creana1 quando subiu ao throno1 por conseguinte foi necessario haver regencia4 ,chamava-se ,sancho o pequenote1 ,sancho ,,ii1 por alcunha o ,capello1 porque em creana andara com um capuz de frade1 l por promessa da me1 ou cousa assim4 ,quem ficou com o governo foram os ministros do pae1 e1 ainda que eram homens de truz1 sempre lhes faltava a auctoridade que tinha um rei4 ,de frma que toda aquella nobreza e fradaria1 quando se viu assim solta1 livre da mo de ferro de ,d4 ,affonso ,,ii1 comeou a alvorotar-se1 e os ministros1 para os terem quietos1 am dando o que elles pediam4 ,as infantas apanharam as cidades1 os frades foram juntando terras s que j tinham1 e parece que o rei andava umas vezes nas mos de uns1 outras vezes nas mos de outros4 ,pouco se sabe d'aquelle tempo4 ,ia pelo reino todo uma confuso de seiscentos demonios4 ,o que certo que1 quando ,d4 ,sancho ,,ii chegou maioridade1 estava j to costumado a no ser rei que no soube puxar pelos seus direitos4 ,e no era que elle fosse fraco4 ,pois no6 pelo contrario6 ,era da raa do av1 no estava bem seno a cavallo e com os mouros de volta4 ,tomou uma boa parte do ,alemtejo e do ,algarve1 mas fidalgos e frades esses faziam o que queriam e sobrava-lhes tempo4 ,vem vocs8 ,para uma pessoa governar no basta ser um valento4 s vezes um porta-machado1 com umas barbaas por ahi alem1 anda em bolandas nas mos de um creanola1 outras vezes uma fraca figura faz andar um regimento ali direitinho que nem um fuso4 ,d4 ,affonso no queria nada com os mouros1 o que o no impedia de governar como um homem2 para ,d4 ,sancho as batalhas eram o po nosso de cada dia1 e em ,portugal todos governavam menos elle4 ,cousas da vida6 ,como os fidalgos faziam o que lhes dava na cabea1 e os frades tambem1 e os bispos a mesma cousa1 parecia que deviam estar todos muito satisfeitos4 ,mas no succedia assim4 ,os bispos queixavam-se dos fidalgos1 estes queixavam-se dos frades1 e todos do rei1 os frades porque no reprimia os bispos1 os bispos porque no tinha mo nos fidalgos1 os fidalgos porque no puxava as orelhas ao clero4 ,quando elle saltava nos mouros1 ainda as cousas no corriam mal4 ,a fidalguia gostava d'aquillo1 am todos atrs do rei1 e no se pensava em mais nada4 ,mas1 quando uma hespanholita1 chamada ,d4 ,mecia ,lopes de ,haro1 caiu em graa ao rei1 que casou com ella1 e que passou os dias a namorar os olhos pretos da rainha1 l se foi tudo quanto ,martha fiou4 ,a desordem excedeu todos os limites1 e os bispos foram ter com o papa a fim de lhe pedirem que tirasse a cora a ,d4 ,sancho ,,ii4 ,o papa1 que era ,innocencio ,,iv1 pulou de contente com o pedido4 ,era o mesmo que virem-lhe dizer que era elle quem dava e tirava as coras n'este mundo1 e que vinha a ser portanto o rei dos reis4 ,estava em ,frana n'esse tempo um irmo de ,d4 ,sancho ,,ii1 chamado ,d4 ,affonso1 que sara de ,portugal para ir correr terras1 encontrra em ,frana uma condessa de ,bolonha1 viuva1 e j durazia1 ao que parece1 que gostou d'elle e com elle casou1 levando-lhe o condado em dote4 ,ora o tal condado era uma especie de reino1 sujeito ao rei de ,frana1 que n'esse tempo era o rei santo que elles tiveram1 a saber ,s4 ,luiz4 --,s4 ,luiz rei de ,frana1 interrompeu a ,margarida1 uma igreja que fica ali para as bandas do ,rocio4 --,pois uma igreja e foi um rei1 tia ,margarida1 respondeu o ,joo de ,agualva1 como ,santa ,izabel uma igreja que fica ali para as bandas da ,estrella1 o que a no impediu de ser tambem uma rainha e rainha de ,portugal4 --,isso verdade6 confirmou a tia ,margarida4 --,pois ento1 como lhes a dizendo1 reinava ,s4 ,luiz em ,frana1 e ,d4 ,affonso1 seu vassallo1 por ser conde de ,bolonha1 fra com elle guerra1 e dra provas de ser homem desembaraado4 ,lembraram-se d'elle para rei1 e ,d4 ,affonso1 que era ambicioso1 acceitou4 ,os bispos e os fidalgos disseram comsigo que um rei feito por elles havia de ser um creado que tivessem ali no throno1 e o papa entendeu tambem que aquillo era senhor mandar1 preto obedecer4 ,combinou-se tudo4 ,d4 ,affonso prometteu quanto quizeram e ahi vae elle caminho de ,portugal1 fingindo que a para a ,terra ,santa4 ,desembarca e principia a guerra civil4 ,tambem se no sabe muito do modo como as cousas se passaram4 ,parece que foi uma guerra levada do diabo como so sempre as guerras civis1 queimaram-se villas e cidades1 arrasaram-se muitas cearas1 ficou muita gente na miseria1 e o pobre ,d4 ,sancho viu-se abandonado por todos1 dizem at que pela mulher1 que fra1 a final de contas1 o motivo de todas aquellas cousas4 ,houve s um ou outro que se lhe mostrou fiel4 ,d4 ,sancho teve de sar do nosso paiz1 e foi para ,hespanha1 onde morreu em ,toledo apenas com trinta e sete annos4 --,pobre do homem6 acudiu compassiva a tia ,margarida4 ,ento que mal tinha elle feito quella gente toda8 --,era um rei fraco1 e1 como se costuma dizer1 no era nem para si nem para os outros4 ,at a mulher no fez caso d'elle1 porque as mulheres so assim3 em estando uma pessoa embasbacada a olhar para ellas1 no fazem caso nenhum1 e s vezes de quem gostam de quem lhes chega um calor ao corpo1 como o outro que diz4 --,vae-te excommungado1 bradou indignada a tia ,margarida4 ,se um homem me batesse1 eu at parece que era capaz de lhe arrancar os olhos4 --,pois sim1 tia ,margarida6 no digo menos d'isso4 ,mas a rainha ,d4 ,mecia no era do mesmo parecer1 e pagou bem as pieguices de ,d4 ,sancho6444 ,s de dois fidalgos se conta que se mostraram fieis ao desgraado rei4 ,um foi o alcaide de ,celorico1 que at dizem que fez uma partida com graa4 ,estava-o cercando ,d4 ,affonso1 e elle j no tinha nem uma migalha de po1 n'isto passa uma aguia por cima da praa com uma truta no bico1 e deixa-a cair dentro da villa4 ,o alcaide1 em vez de a comer1 manda-a cosinhar muito bem1 e envia-a de presente aos cercadores4 ,d4 ,affonso1 vendo que na praa havia petiscos d'aquelles1 entendeu de si1 para si que estava perdendo o tempo e o feitio1 e foi-se embora4 ,pde ser que isto seja patranha1 mas o que verdadeiro1 sem tirar nem pr1 o caso de ,martim de ,freitas4 ,esse era alcaide de ,coimbra1 foi cercado tambem1 no se rendeu4 ,disseram-lhe que j ,d4 ,sancho morrera1 e que por conseguinte era ,d4 ,affonso o seu natural successor4 ,no acreditou4 ,affirmaram-lhe que morrera em ,toledo4 ,pediu para ir ver4 ,deram-lhe um salvo conducto1 e ,martim de ,freitas1 mettendo na algibeira as chaves de ,coimbra1 foi de passeio at ,toledo4 ,mostraram-lhe o tumulo do rei1 mandou-o abrir2 mostraram-lhe o caixo1 quiz ver o corpo2 e ao ver emfim o pobre cadaver do seu rei1 que assim morrera aos trinta e sete annos1 longe da sua terra e longe dos seus1 ajoelhou e poz as chaves da cidade nas mos do rei que lh'as entregra2 depois1 tirou-as d'essas mos j frias que as no podiam segurar1 e partiu para ,coimbra1 entregando-as ao novo rei1 que louvou muito a aco4 --,e tinha raso para isso1 tornou a tia ,margarida1 que estava sendo agora a interruptora1 mas com o tal rei novo que eu no engrao nada4 ,olhem que irmo6 ,sempre tinha uns figados6 --,no era muito boa rez1 no1 tia ,margarida1 mas ento n'este mundo no so s as boas pessoas que servem4 ,que ,d4 ,affonso se importava tanto com a familia como eu me importo com a familia do imperador da ,china1 o que no tem questo1 mas que foi um grande rei1 isso tambem verdade4 --,era fresco o tal rei1 que assim fazia guerra ao irmo sem mais nem menos6 --,ha mais exemplos d'isso1 tia ,margarida1 e no vo elles to longe que uma pessoa se no possa lembrar4 ,mas olhe que no param ahi as maldades de ,d4 ,affonso4 ,tambem no fez caso da mulher1 a tal condessa de ,bolonha1 que nunca foi capaz de pr p em ,portugal1 e casou1 em vida d'ella1 com uma filha do rei de ,hespanha4 --,e ainda voc o gaba1 sr4 ,joo8 perguntou a tia ,margarida4 ,sabe o que eu lhe digo8 ,parece-me que voc to bom como elle6 --,olhe1 tia ,margarida1 no me rogue voc nunca outra praga1 que l com essa no me hei de eu dar mal4 ,o que lhe disse que o sr4 ,d4 ,affonso ,,iii foi um dos reis que fizeram mais bem ao pobre povo1 e sabe vocemec porque8 ,porque era homem de cabea1 e o que succedera com elle no tinha cado em cesto roto4 ,elle disse comsigo2 ,estes patifes d'estes fidalgos e d'estes bispos so capazes de me fazer a mim o mesmo que fizeram a meu irmo4 ,ora1 eu ssinho no posso com elles4 ,a quem me hei de encostar8 ,olhou em torno de si e vio o povo1 o povo em quem ninguem fallava1 e que era a final de contas quem pagava as custas dos barulhos entre os grandes1 o povo que pagava tributos a toda a gente1 e que mesmo quando vivia em seus concelhos governando-se pelos seus foraes1 que eram para assim dizer as suas leis1 mesmo ento era ralado pela fidalguia4 ,e ,affonso ,,iii disse comsigo3 ,ora ahi est quem me serve4 ,e desata a fazer concelhos1 e1 quando reuniu crtes que at ahi eram s de fidalgos e padres1 chamou tambem procuradores do povo1 e favoreceu o mais que poude o seu negocio1 e deu-lhes socego e cousas e tal1 de frma que depois poude dar para baixo nos prelados1 que berravam pelos contractos que tinha diabo1 mas ,d4 ,affonso ,,iii1 que era finorio1 abanou-lhes as orelhas4 ,e que os papas tinham deposto no s o rei ,d4 ,sancho ,,ii1 mas tambem um imperador da ,allemanha1 de modo que aos chefes dos estados j a cheirando a chamusco1 e principiaram a fazer parede contra o papa4 ,assim os bispos1 que levavam tapona de ,d4 ,affonso ,,iii1 am a ,roma fazer queixas ao papa1 e o papa naturalmente respondia-lhes contando-lhes uma fabula que lhes vou contar a vocs tambem4 --,conte l sr4 ,joo da ,agualva1 exclamou o ,manel da ,idanha1 ainda que eu1 a dizer a verdade1 no sei l muito bem o que venha a ser isso de fava ou fabula ou o que 4 --,fabula assim uma historia em que os animaes fallam como se fossem gente1 e pelo que elles dizem tira a gente444 sim444 como diz o outro pelos domingos se tiram os dias santos444 ,eu l1 a estas explicaes1 no se pde dizer que seja um barra1 mas em fim1 em eu contando o caso1 logo vos apercebem4 -- isso mesmo1 tio ,joo1 conte l1 disse o ,bartholomeu4 --,uma vez as rs foram ter com ,deus ,nosso ,senhor e pediram-lhe um rei1 e ,deus ,nosso ,senhor1 que estava de mar1 no quiz abusar das pobresinhas1 e atirou-lhes para o charco um cepo2 mas o cepo no fazia nada1 andava tona da agua1 para aqui e para acol1 as rs no lhe tinham respeito nenhum1 e saltavam n'elle1 qual debaixo qual de cima1 e o cepo sempre um paz d'alma1 que tanto valia terem rei como no o terem4 ,vae ento as rs voltaram a ,deus ,nosso ,senhor1 e disseram-lhe d'esta maneira3 ,d-nos ,vossa ,divindade um rei que se veja1 um rei que nos governe4--,pois ento ahi vae um rei como vocs querem1 respondeu ,nosso ,senhor1 e atirou-lhes para o charco uma serpente1 e a serpente1 a primeira cousa que fez1 foi engulir as primeiras vassallas que lhe pareceram mais gordas1 e depois outras e outras1 de frma que as pobres rs j se no atreviam nem sequer a coaxar para que sua magestade no desse com ellas4 ,percebem vocs agora porque que o papa podia contar esta historia aos bispos que am ter com elle8 --,percebo eu1 acudiu logo o ,manel da ,idanha4 que elles no descanaram emquanto no pozeram fra um rei que era um paz d'alma1 um cepo1 o ,d4 ,sancho ,,ii1 e foram buscar outro rei que era uma serpente e que deu cabo d'elles que foi um regalo4 --,ora1 tal qual1 s ,manel4 ,com gente assim que eu me entendo4 ,d4 ,affonso ,,iii bem se pde dizer que era uma serpente1 porque as serpentes so manhosas1 e elle tinha manha a valer4 ,mostrou-o em tudo1 at no modo como se assenhoreou do ,algarve1 que era s o que faltava para ,portugal chegar ao mar pelo lado do sul4 ,tomou-o aos mouros1 e isso foi obra de pouco tempo2 mas o rei de ,castella comeou a berrar que o ,algarve lhe devia pertencer a elle4 ,d4 ,affonso ,,iii nunca lhe disse o contrario1 mas foi arrastando a entrega1 e depois aproveitando tudo1 de frma que s duas por tres estava senhor do ,algarve1 e1 quando ,d4 ,affonso ,,iii morreu1 que foi a #af de fevereiro de #abgi1 estava ,portugal completo e seguro1 e1 visto que chegmos ao fim d'esta primeira parte1 parece-me que o melhor irmos dormir1 que para o outro domingo continuaremos4 --,mas s ,joo1 disse o ,manel da ,idanha1 j agora1 faa favor1 no deixe ir a gente embora1 sem nos explicar uma cousa4 ,vocemec diz que o rei1 para esmurrar as ventas aos bispos mais aos fidalgos1 comeou a fazer concelhos por d c aquella palha1 e l isso que eu no percebo muito bem4 ,ento que diabo tinham os fidalgos com o haver ou o no haver concelhos8 --,pois tem raso1 s ,manel da ,idanha1 e bom que essas cousas fiquem explicadas1 porque a mim parece-me c no meu modo de ver que o que nos importa a ns1 que somos do povo1 no tanto saber as batalhas que se deram1 e mais os reis que houve2 o que nos importa saber como que viviam os nossos paes1 e como se governavam e cousas e tal4 ,ora pois1 saibam vocs que muitos dos nossos paes eram a bem dizer escravos1 no como os do tempo dos romanos que podiam ser vendidos como uns negros1 mas faziam parte das terras que cultivavam1 e com ellas passavam de dono para dono4 ,isto foi melhorando1 e os servos passaram a ser gente livre1 mas sem ter terras suas2 pagavam foros e foros pesados1 os senhores das terras eram os reis1 os nobres1 os bispos e os mosteiros4 ,as terras dos reis chamavam-se terras da cora1 as dos fidalgos e as da igreja coutos1 honras e behetrias4 ,ora os fidalgos1 que s tinham obrigao de servir o rei na guerra e no pagavam mais nada1 ou por herana de seus paes1 ou por doaes dos reis em recompensa dos seus servios1 am mettendo em si o paiz todo1 j se v de embrulhada com os padres2 e os reis pouco tinham de seu1 porque1 demais a mais1 fidalgos1 bispos e conventos apanhavam tudo quanto podiam1 o que se lhes dava e o que se lhes no dava4 ,por isso ,d4 ,affonso fez as taes inquiries1 quer dizer1 obrigou todos a porem para ali os seus titulos1 para se saber se tinham as terras com direito ou sem elle1 estabeleceu mais as famosas confirmaes que punham a fidalguia sempre na dependencia da cora1 porque cada novo rei confirmava ou no confirmava as doaes dos outros1 e finalmente prohibiu aos conventos que arranjassem mais terras4 ,e vae o povo o que fazia8 ,sempre que se podia livrar dos fidalgos e dos padres por qualquer modo e feitio1 formava-se um concelho4 ,ento continuavam a pagar tributo1 e serviam nas guerras1 mas no estavam sujeitos a ninguem1 governavam-se elles por si1 e tinham as terras muito suas4 ,ora1 como os reis que os podiam ajudar a ver-se livres da fidalguia1 chegavam-se para elles1 e os reis1 que tinham nos concelhos gente que tambem a guerra e que lhes pagava tributos1 encostavam-se para esse lado1 para terem quem lhes valesse quando os bares ou os bispos se faziam finos4 ,aqui tens tu explicado pela rama como cada concelho1 que se formava1 era ao mesmo tempo um asylo de liberdade para o povo e um auxiliar para o rei contra as ameaas dos fidalgos4 --,muito obrigado1 s ,joo da ,agualva1 tornou o ,manel2 mas sempre lhe digo que quem no sabe como quem no v4 ,ora quem me havera de dizer que esta historia de ter uma terra1 um pelourinho no meio da praa1 era de tanta vantagem c para o povo6 ,pois at domingo1 e tomra eu que passasse depressa a semana porque divertimentos como este que ha muito tempo a gente no apanha4 ,,quarto ,,ser,o ,d4 ,diniz4--,a universidade de ,coimbra4--,os ,templarios4--,santa ,isabel4--,d4 ,afonso ,,iv4--,a batalha do ,salado4--,morte de ,ignez de ,castro4--,d4 ,pedro ,i4--,d4 ,fernando ,i4--,leonor ,telles4--,estado de ,portugal no fim do reinado de ,d4 ,fernando4 --,meus amigos1 principiou o ,joo da ,agualva1 corriam os annos1 e l por esse mundo de ,christo am todos abrindo os olhos4 ,os romanos1 como lhes disse1 eram um povo que sabia o nome aos bois4 ,elles faziam estradas1 elles faziam edificios que ainda hoje1 arruinados1 deixam ficar uma pessoa embasbacada1 elles tinham escolas1 o diabo6 ,mas1 depois1 vieram os barbaros dos bosques da ,allemanha e da ,russia1 e zas1 tras1 catatras1 l se foi tudo pela agua abaixo4 ,por muito tempo no se pensou seno em pancadaria4 ,tudo era gente rude1 os reis no sabiam ler nem escrever1 os povos fallavam uma lingua assaralhopada que nem era latina1 nem deixava de o ser4 ,mas a pouco e pouco foram-se aclarando as cousas1 foi havendo estudos1 e ,d4 ,diniz1 que subiu ao throno1 depois da morte de ,d4 ,affonso ,,iii1 era j um sabicho4 ,elle fazia os seus versos de p quebrado1 que a gente hoje quasi que no entende1 mas que eram j escriptos n'uma lingua com termos1 elle emfim vio que havia escolas por esse mundo onde se ensinava tudo o que ento se sabia1 e quiz tambem ter uma que foi a universidade de ,coimbra4 ,depois tratou de fazer do reino alguma cousa com geito4 ,j no tinha que pensar em mouros1 e ento pensou na lavoura1 pensou na marinha1 pensou em tudo o diabo do homem6 ,mandou vir capites de navios1 de ,italia1 para ensinarem os nossos1 e ajudou os navegantes do ,porto1 que sempre foram gente desembaraada1 a crear uma especie de companhia de seguros1 e no se descuidou tambem de dar para baixo na nobreza e nos padres para elles se no fazerem finos1 e dava-lhes de modo que elles no tinham raso de queixa1 porque era sempre com justia4 ,ora1 por exemplo1 d'antes havia uma especie de frades que se chamavam freires militares1 que eram1 como quem diz1 frades e soldados ao mesmo tempo4 ,em vez de fazerem voto de rezar e de jejuar1 faziam voto mas era de dar bordoada nos mouros4 ,havia umas poucas de ordens n'esse gosto1 a ordem dos ,templarios1 a de ,s4 ,thiago1 a de ,aviz e outras4 ,ora1 como de ver1 esses templarios1 por exemplo1 que se fartavam de tomar terras aos mouros1 com algumas haviam de ficar para si4 ,e depois tinham doaes1 emfim eram ricos a valer4 ,o que acontecia por c1 tambem acontecia l por fra4 ,succedeu1 pois1 que um rei de ,frana e um papa acharam excellente apanhar para si essas riquezas todas1 e acabaram com a ordem dos ,templarios em toda a parte2 mas ,d4 ,diniz1 que era um homem serio1 no esteve pelos ajustes1 e entendeu que seria um roubo tirar aos homens o que elles tinham ganho custa do seu sangue1 e ento1 como no havia de desobedecer ao papa1 abolio a ordem dos ,templarios1 mas passou todos os bens para outra que pediu ao papa que creasse e a que chamou ordem de ,christo4 -- sr4 ,joo1 perguntou o ,francisco ,artilheiro1 esse ,d4 ,diniz no era marido da rainha ,santa ,isabel8 --,era sim1 rapaz1 e j vou fallar n'essa rainha1 que foi tambem uma das benos de ,portugal n'esse tempo4 ,era filha do rei de ,arago1 e bem se pde dizer que aquella que foi uma verdadeira santa4 ,pobre senhora6 ,no lhe faltaram desgostos1 no4 ,primeiro houve grande bulha entre o marido e um cunhado1 ,d4 ,affonso ,sanches1 que embirrou em que lhe pertencia a cora1 apesar de ser mais novo2 depois1 e isso foi o peor1 o filho1 que veio a ser ,d4 ,affonso ,,iv1 revoltou-se contra o pae1 e porque8 ,porque el-rei ,d4 ,diniz1 que era frecheiro1 e que se fartou de ter filhos bastardos1 parecia que olhava mais por elles do que pelos proprios filhos do matrimonio4 ,imaginem o desgosto da rainha6 ,primeiro porque emfim no havia de gostar muito de ver o marido sempre ao lar com esta e com aquella a arranjar filhos por fra de casa1 e depois por ver assim a guerra accesa entre seu marido e seu filho4 ,e ainda por cima o rei desconfiou que ella a de accordo com o filho1 e chegou at a tratal-a mal1 e a mandal-a sar da crte4 ,pobre senhora6 aquillo era o que ali estava4 ,ella tudo supportou com resignao--as infidelidades e as injustias do marido1 s o que queria era ver tudo em paz4 ,e sempre o conseguio4 ,tanto pediu1 tanto chorou1 que o filho e o pae vieram s boas4 ,mas d'ahi a pouco torna a haver intrigas1 e o ,d4 ,affonso1 que era um vivo demonio1 torna pancadaria com o pae4 ,pois senhores1 a batalha estava para ser aqui ao p de ,lisboa1 no ,campo ,grande2 mas quando j comeavam lambada1 apparece no meio d'elles a boa rainha1 que foi mesmo o anjo da paz1 e depois que ella appareceu ninguem mais se atreveu a levantar uma lana4 ,oh6 rapazes6 digo-lhes que at me parece que no era necessario que o papa a fizesse santa para que o povo a adorasse6 ,pois ento se aquella no fosse santa quem que o havia de ser8 ,dizem que mudava o ouro em rosas1 e rosas em ouro4 ,isso creio eu1 que aquellas bentas mos haviam de mudar em flores tudo em que tocassem1 porque eram1 como o outro que diz1 mos puras e boas1 como a aragem de maio6 ,mas milagres maiores fazia ella ainda1 porque as lagrimas que chorava em segredo caam depois sobre a cabea do pai e do filho como orvalho de paz e como chuva de amor6 ,sim6 ,sim6 continuou o bom do ,joo da ,agualva1 com voz tremula1 e meio a chorar1 digam l vocs que ella no mudava tudo em que tocava em rosas1 quando agora mesmo1 que diabo6 s de fallar n'ella1 parece que at as palavras na minha bca se esto mudando em flores6 --,ai6 a minha rica ,santa ,isabel6 exclamou a tia ,margarida1 pondo as mos1 n'um enlevo4 ,coitadinha da minha rica santa que foi logo casada com um homem to mau6 --,no era mau1 no senhora1 tornou o ,joo da ,agualva1 foi at um dos melhores reis que ns tivemos1 mas como elle s vezes l escorregava o seu pedao1 e nem sempre tratou a santa como ella merecia ser tratada1 bastou isso para que o povo comeasse a inventar cousas1 que elle que era um sovina1 um desconfiado1 um unhas de fome1 e at os pintores1 quando fazem o quadro do milagre das rosas1 pem-n'o com uma carantonha de metter medo1 que ninguem dir que est ali o rei poeta1 o rei a quem chamavam o pae do povo1 o rei que no quiz roubar os templarios1 o rei que fundou a universidade de ,coimbra1 o rei que tanto se desvelou pelo bem do paiz6 ,e que as injustias1 por mais pequenas que sejam1 sempre vem a pagar-se1 e ,d4 ,diniz1 esses peccados que teve1 pagou-os bem caro1 primeiro com a revolta de seu filho1 depois com a injustia do futuro1 e agora vo vocs ver como o filho tambem pagou o que fizera ao pae1 porque em #acbe morreu el-rei ,d4 ,diniz e subiu ao throno seu filho ,d4 ,affonso ,,iv1 a quem chamaram o ,bravo4 --,ora vamos l a ver o que fez esse senhor1 disse uma voz4 --,d4 ,affonso ,,iv1 meus amigos1 tinha muito boas qualidades4 ,era1 por exemplo1 um homem de muito bons costumes1 e foi isso at que o levou a praticar uma aco444 emfim1 depois fallaremos4 ,era homem serio1 mas arrebatado e vingativo4 ,a primeira cousa que fez1 assim que subiu ao throno1 foi vingar-se dos irmos1 por cuja causa tivera as bulhas com o pai4 ,d'ahi guerra4 ,quem acudiu8 ,a rainha ,santa ,isabel4 ,casou uma filha com o rei de ,castella1 ,affonso ,,xi4 ,este1 que era do feitio de ,d4 ,diniz1 comeou a largar a mulher e a metter-se com uma tal ,d4 ,leonor de ,gusman4 ,d4 ,affonso ,,iv1 que ficra embirrando deveras com esses arranjos depois das turras com o pai1 comeou a criar m vontade ao genro1 e zas1 toma que te dou eu1 ao primeiro pretexto que teve1 ahi comeam as bulhas4 ,foi uma guerra de c c ra c1 que no prestou para nada1 mas que sempre fazia mal ao povo4 ,no mais seguiu risca o exemplo do pae4 ,tratou do povo1 teve os fidalgos muito na mo1 mais os padres tambem4 ,e ento com esses no foi l s por causa das terras a que deitavam a unha1 foi tambem por causa dos maus costumes1 porque elles gostavam de passar vida airada e outras cousas que ,d4 ,affonso ,,iv lhes no levou a bem4 ,por isso apanharam uma vez uma rabecada1 n'uma carta que ,d4 ,affonso escreveu ao papa1 que foi de ficarem de cara a uma banda4 --,bem feito6 acudiu a tia ,margarida4 ,esse rei sim6 esse que me quadra4 ,bem se v que era filho da rainha ,santa ,isabel6 --,espere l1 tia ,margarida1 no falle antes de tempo que1 como diz o outro1 at ao lavar dos cestos vindima4 ,houve no reinado de ,d4 ,affonso ,,iv duas cousas famosas3 primeiro a batalha do ,salado1 depois a morte de ,d4 ,ignez de ,castro4 --,foi com os hespanhoes a batalha do ,salado8 --,no homem1 foi dada at para os ajudar4 ,j lhes disse1 meus amigos1 que ns desde o reinado de ,d4 ,affonso ,,iii tinhamos posto os mouros na rua4 ,mas os hespanhoes ainda no tinham conseguido o mesmo1 os mouros estavam reduzidos apenas ao reino de ,granada1 mas sempre isso era alguma cousa4 ,ora agora ali em ,marrocos estava1 como sabem1 a moirama toda4 ,imaginem que um bello dia o tal miramolim de ,marrocos1 ou como diabo se chamava elle1 desaba em ,hespanha com o poder do mundo e junta-se ao rei de ,granada para darem cabo do rei de ,castella4 ,era este ,d4 ,affonso ,,xi1 genro do nosso ,d4 ,affonso ,,iv4 ,aterrado com o perigo1 pediu soccorro ao sogro1 apesar de estar mal com elle2 mas o nosso rei1 homem ajuizado1 vio que a occasio no era para dize tu direi eu1 que no era s ,castella que estava em perigo1 estava em perigo a ,hespanha toda2 se ,affonso ,,xi levasse uma tareia e perdesse algumas provincias ficavam aqui os mouros de raiz1 e tinha de se comear outra vez a pl-os fra4 ,por isso no esperou por mais nada1 ajuntou quanta gente poude1 e foi em soccorro do genro4 ,o nosso rei era homem de pulso1 os nossos soldados tambem eram pimpes4 ,o soccorro no foi nada mau4 ,na batalha do ,salado os mouros levaram uma sova de primeira ordem1 e nunca mais os de ,marrocos vieram c metter o nariz d'este lado do mar4 ,d4 ,affonso ,,iv voltou para a sua terra sem ter querido acceitar cousa nenhuma da grande preza que fizeram4 --,e isso de ,d4 ,ignez de ,castro o que foi1 sr4 ,joo da ,agualva8 perguntou a tia ,margarida4 ,no foi essa ,ignez de ,castro que esteve aqui em ,bellas1 que at ali na quinta do marquez ha uma arvore a que chamam de ,ignez de ,castro8 --,ora adeus1 tia ,margarida6 esteve agora em ,bellas6 quer dizer1 eu1 como no andei com ella por toda a parte1 no sei se por c passaria alguma vez1 mas onde viveu principalmente foi em ,coimbra4 ,era uma hespanhola esta ,ignez de ,castro1 linda como os amores1 loura como o sol1 e com um pescoo to bonito1 que lhe chamavam o collo de gara4 ,veio para ,portugal como dama da infanta ,d4 ,constana que foi mulher do principe ,d4 ,pedro1 filho de ,d4 ,affonso ,,iv1 mas o principe parece que gostou mais da dama que da mulher4 ,tristes amores foram aquelles1 rapazes6 ,ella tinha pelo seu ,pedro um fatacaz l de dentro1 que estou em dizer que mais gostaria ella de que elle fosse um pastor de cabras do que filho de um rei4 ,a princeza ,d4 ,constana morreu1 e para isso no deixaria de concorrer a paixo do marido1 que1 por mais que elle a quizesse esconder1 rebentava por todos os lados4 ,coitada da princeza6 tudo fez para arredar o marido d'aquelles mal-aventurados amores4 ,mas ento6 vo l fugir ao seu destino6 ,pediu a ,ignez de ,castro que fosse madrinha de um filho que ella teve1 porque n'esse tempo haver amores entre compadre e comadre quasi que era maior peccado que havel-os entre irmos4 ,nada6 aquillo era como um fogo valente que tanto mais se accende quanto mais agua lhe deitam4 ,em fim1 morreu a princeza1 e ,d4 ,pedro e ,d4 ,ignez ficaram vontade1 porque at ahi tinham guardado respeito pobre senhora4 ,casariam8 ,d4 ,pedro assim o jurou depois1 mas eu estou em dizer que no1 porque para casarem era necessaria dispensa grada1 que o papa no daria assim sem mais nem menos e com tanto segredo como o principe quereria4 ,mas1 ou casassem ou no1 certo que tiveram tres filhos1 e que o principe ,d4 ,pedro no queria saber de mais nada seno da sua loura ,ignez4 ,d4 ,affonso ,,iv no viu isso com bons olhos4 ,sabem como elle era4 ,vivia s para a sua mulher1 queria tudo em boa ordem1 e no gostava d'essas fraquezas4 ,os fidalgos tambem no gostavam1 mas esses por outras rases4 ,tinha ,d4 ,ignez muita parentella1 e diziam comsigo que1 apenas ,d4 ,affonso ,,iv fechasse os olhos1 eram os ,castros que davam as cartas em ,portugal4 ,comearam a ferver as intrigas1 e chegaram a aconselhar o rei que1 visto que no havia foras humanas que arrancassem ,d4 ,pedro sua ,ignez1 o melhor era darem cabo d'ella4 ,d4 ,affonso ,,iv torceu o nariz1 mas l por dentro estava em braza4 ,ora1 imaginem vocs6 ,d4 ,affonso1 no principio da sua vida1 tivera os maiores desgostos por causa dos bastardos de seu pae4 ,tambem o tinham feito de fel e vinagre os amores de seu genro com ,d4 ,leonor de ,gusman4 ,morria pelo neto1 um rapazinho bonito como a aurora1 que tinha de ser depois ,d4 ,fernando o ,formoso4 ,lembrou-se das amarguras que viriam a causar ao rapazito os filhos da amante querida1 que talvez at lhe roubassem a cora4 ,subiu-lhe a mostarda ao nariz com a teima do filho1 e deu ordem aos seus tres conselheiros1 ,alvaro ,gonalves1 ,diogo ,lopes ,pacheco e ,pedro ,coelho para que o livrassem de ,d4 ,ignez4 ,ahi vo todos at ,coimbra1 onde estava muito socegada a triste da rapariga4 ,ella1 apenas suspeitou do caso1 veiu com os filhos lanar-se aos ps do rei4 ,o pobre ,d4 ,affonso enterneceu-se1 mas os conselheiros que viram o caso mal parado4 ,se elle perda1 disseram comsigo1 ns que pagamos as favas4 ,no esperaram que ,d4 ,affonso resolvesse as cousas de outro modo4 ,foram-se pequena1 e1 emquanto o diabo esfrega um olho1 ferraram com ella no outro mundo6 --,ai que malvados6 bradaram todos4 --,isso eram1 tornou o ,joo da ,agualva4 ,sim6 que eu no desculpo ,d4 ,pedro1 nem a desculpo a ella4 ,se uma mulher1 s porque gosta de um homem1 no est l com mais ceremonias e passa a viver com elle1 sem a beno do padre1 aonde ir isto parar8 mas tambem matal-a sem mais nem menos1 matal-a no meio dos seus filhos1 matar uma pobre menina1 que no fazia seno chorar1 ah6 s uns malvados eram capazes de fazer similhante cousa4 ,por isso tambem1 vem vocs8 ,d4 ,affonso foi um bom rei1 um homem de bons costumes1 um valente1 tudo quanto quizerem1 mas a final de contas perguntem ahi a um pequeno3--,quem era ,d1 ,affonso ,,iv8 ,cuidam que elle que lhes responde3 ,era um bom rei1 isto1 aquillo e aquell'outro4 ,no1 senhores1 diz logo3 ,foi o rei que matou ,ignez de ,castro4 ,e como assassino que a gente o conhece1 e no seu manto real no se v o sangue das batalhas1 v-se mas o sangue de ,ignez6 ,e esta8 ,se a no matassem1 o que dizia a historia8 ,foi a amante de um rei4 ,olhem que gloria6 ,e assim8 ,todos choram por ella1 como a tia ,margarida1 que est ali a limpar os olhos com a ponta do seu avental4 --,e o que fez ,d4 ,pedro8 perguntou o ,manuel da ,idanha4 --,o que fez ,d4 ,pedro8 ,ah6 com os diabos6 ,imaginem6 ,elle ainda tinha peior genio que o pae4 ,apenas soube do que succedera1 aquillo parecia um leo ferido4 ,saltou logo para o campo em som de guerra1 e ,d4 ,affonso pagou o que fizera ao pae1 porque teve tambem o filho revoltado contra si4 ,correu muito sangue por esse reino1 at que emfim se fez a paz1 mas ,d4 ,affonso ,,iv pouco tempo sobreviveu1 morrendo em #acei1 dois annos depois da morte de ,ignez4 --,subio ao throno ,d4 ,pedro1 no verdade8 perguntou com muito interesse o ,manuel da ,idanha4 -- verdade que sim1 e1 meus amigos1 ento que se viu o amor l de dentro que elle tinha sua ,ignez4 ,apenas subio ao throno1 os assassinos da ,castro safaram-se para ,hespanha1 mas ,d4 ,pedro l fez o seu negocio com o rei de ,castella1 de frma que apanhou os criminosos1 menos um1 ,diogo ,lopes1 que conseguiu fugir4 ,assim que os teve em seu poder1 fez-lhes torturas4 ,a um mandou arrancar o corao pelo peito e a outro pelas costas4 --,credo6 exclamou a tia ,margarida4 --,por isso lhe chamavam ,d4 ,pedro o ,cruel1 assim como tambem lhe deram o nome de ,d4 ,pedro o ,justiceiro4 ,justia fez elle1 porque bradava aos cus a morte de ,d4 ,jgnez1 mas uma crueldade assim de se porem a uma pessoa os cabellos em p6 ,que mais querem8 ,d4 ,pedro parece que no pensava n'outra cousa seno na sua ,ignez1 elle trasladou-a1 com um estado nunca visto1 de ,coimbra para ,alcobaa1 onde lhe mandara fazer um tumulo que era mesmo uma lindeza4 ,elle declarou que tinha casado com ella1 e at se diz que a sentou1 depois de morta1 no throno1 e mandou que todos lhe beijassem a mo4 ,mas isso parece-me patranha1 ainda que ,d4 ,pedro era capaz d'essas extravagancias e de muitas mais4 ,porque effectivamente1 meus amigos1 parece que elle tinha endoidecido com a morte de ,d4 ,ignez4 ,tinha assim de repente umas furias que era livrar quem estivesse diante4 ,era justiceiro1 verdade1 mas fazia justia doida e bruta4 ,outras vezes entrava por essa ,lisboa dentro a danar1 muito contente da sua vida4 ,governava bem1 no ha duvida1 punia pelo povo1 abaixava a pra aos bispos1 conservava o reino em paz1 e juntava bom dinheiro nos cofres para uma occasio de apuros1 mas era ao mesmo tempo umas mos rotas com os fidalgos1 que tornaram a fazer-se finos1 como se viu depois4 ,foi em #acfg que ,d4 ,pedro morreu1 e logo subiu ao throno ,d4 ,fernando1 a quem chamavam o ,formoso1 de bonito que era4 ,l que elle tinha telha1 isso que no padece duvida1 porque nunca se viu uma ventoinha assim4 ,aquillo era mesmo um gallo de torre de igreja4 ,primeiro deu-lhe na tonta o querer ser rei de ,castella1 de mais a mais no tendo geito nenhum para a guerra1 e no gostando de batalhas4 ,d'ahi1 o que resultou8 ,gastou o que tinha1 levou pasada de crear bicho1 e teve de fazer as pazes4 ,mas vejam vocs que cabecinha6 ,quando fez guerra a ,castella1 alliou-se com o ,arago1 mandou-lhe para l bom dinheiro1 e prometteu casar com a filha do rei1 que se chamava ,d4 ,leonor4 ,faz as pazes com o de ,castella1 e1 sem se lembrar j do primeiro casamento1 promette casar com a filha do rei castelhano1 que tambem se chamava ,leonor4 ,o de ,arago no fez caso1 metteu o dinheiro portuguez1 que l tinha1 nas algibeiras1 e nunca mais deu contas4 ,mas o peor no isso1 o peor que ,d4 ,fernando tambem no casou com ,d4 ,leonor de ,castella1 porque n'este meio tempo namorou-se de uma dama do pao1 chamada ,d4 ,leonor ,telles1 e desposou-a6 ,ao menos n'uma cousa era elle constante1 que no saa das ,leonores4 ,esta ,leonor ,telles foi o que se chama uma mulher de truz1 bonita como as que o so1 manhosa como a serpente1 e dando1 como a nossa me ,eva1 o cavaquinho pelo fructo prohibido4 ,quando casou com ,d4 ,fernando j era casada com um ,d4 ,joo ,loureno da ,cunha1 mas lembrou-se ultima hora de que ainda eram parentes1 e o rei arranjou do papa que desfizesse o casamento4 ,joo ,loureno da ,cunha deu graas ao cu por se ver livre da mulher que estava para lh'a pregar mesmo na menina do olho1 e ,d4 ,fernando levou ,d4 ,leonor ,telles para casa4 ,mas o povo que no esteve pelos autos e gritou e berrou e fez tumulto1 tanto que el-rei safou-se de ,lisboa4 ,houve mosquitos por cordas por esse reino todo1 e a final acabou tudo em paz4 ,d4 ,leonor ficou sendo rainha1 os de ,lisboa apanharam para o seu tabaco e ,d4 ,fernando no tardou a levar a paga4 ,o rei de ,castella achou que ,d4 ,fernando o tratara com tal ou qual sem-ceremonia1 e quiz-lhe dar uma lio de bem viver4 ,veio a ,portugal1 chegou a ,lisboa1 entrou por ahi dentro1 fez um estrago de seiscentos demonios1 e dava cabo da capital se ,d4 ,fernando lhe no vem pedir pazes1 que1 j se v1 custaram caras4 ,aqui ficmos finalmente em socego1 e ento ,d4 ,fernando parecia outro homem4 ,sabia governar aquelle rapazote1 quando as mulheres lhe no faziam andar a cabea roda1 ou quando se no lembrava de ter outros reinos4 ,era economico e arranjado4 ,sabia pr as cousas no seu logar4 ,foi elle que cercou ,lisboa de fortificaes1 que depois no serviram de pouco ao seu successor4 ,mas1 coitado1 acertra mal1 em todos os sentidos1 com a tal ,d4 ,leonor ,telles1 que era mesmo o demonio em pessoa2 quando se enfastiou d'elle1 tomou amores com um gallego que vivia em ,portugal1 chamado conde ,andeiro4 ,el-rei1 entretanto1 metteu-se outra vez em guerras com ,castella1 e pediu auxilio aos inglezes4 ,oh6 rapazes1 que tristes tempos foram aquelles6 ,a vida do pao era um desaforo4 ,estava ali aquella mulher1 aquella444 no sei que diga1 a pr na cabea a cora da rainha ,santa ,isabel1 a cora que no podra pr nos seus cabellos louros a pobre ,ignez de ,castro1 que1 apesar de todos os pezares1 era mil vezes mais capaz do que essa rainha de contrabando1 que andou de um para outro1 sem vergonha de qualidade nenhuma6 ,e ainda por cima era malvada6 vingativa6 e para ella a vida de um homem valia tanto444 como444 a honra do marido1 que o mais que se pde dizer6 ,o povo desgraado1 porque tudo se juntava4 ,as guerras com ,castella sempre infelizes6 os inglezes1 como sempre1 apesar de amigos1 muito peores do que se fossem inimigos4 ,os fidalgos de ,castella1 que tinham tomado o partido de ,d4 ,fernando1 tratados aqui grande6 e ainda por cima ,d4 ,fernando sem ter filhos1 e com a filha unica j casada com ,d4 ,joo ,i de ,castella4 ,d4 ,fernando1 apesar da sua cegueira1 j a percebendo as cousas1 e tinha l por dentro um desgosto que o ralava4 ,tambem em #achc1 tendo apenas trinta e oito annos de idade1 esticou a canella1 depois de um reinado que podia ter sido muito proveitoso1 e que assim foi uma desgraa para todos4 ,e eu tambem me vou chegando para a cama1 no sem lhes dizer que houvera mudana completa no modo de viver da nossa gente n'estes ultimos reinados4 ,os fidalgos tinham levado para baixo1 e estavam j em grande parte1 por assim dizer1 s sopas dos reis4 ,os concelhos do povo tinham-se feito fortes1 e batiam o p fidalguia1 e ao clero1 principalmente1 nas crtes1 em que entravam4 ,o resultado de tudo isso o que vocs ho de ver de hoje a oito dias4 ,,quinto ,,ser,o ,interregno4--,regencia de ,leonor ,telles4--,morte do conde ,andeiro4--,o cerco de ,lisboa4--,nuno ,alvares ,pereira e ,joo das ,regras4--,as crtes de ,coimbra4--,d4 ,joo ,i4--,a batalha de ,aljubarrota4--,os filhos de ,d4 ,joo ,i4--,tomada de ,ceuta4--,os descobrimentos4--,d4 ,duarte4--,expedio de ,tanger4--,menoridade de ,d4 ,affonso ,v4--,o infante ,d4 ,pedro4--,batalha de ,alfarrobeira4--,tomada das praas africanas4--,guerras com ,hespanha4--,batalha de ,toro4--,ida de ,d4 ,affonso ,v a ,frana4--,continuao dos descobrimentos4 --,meus amigos1 disse o ,joo da ,agualva no outro domingo1 o que eu agora vou contar ha de parecer assim a vocs grande patranha1 e a todos pareceria se no houvesse tantas provas da verdade4 caso de uma pessoa ficar pasmada ver o que fez este paiz s1 ao canto do mundo1 pequeno como 4 ,oiam1 pois1 rapazes1 com atteno4 ,apenas morreu el-rei ,d4 ,fernando1 tratou logo ,d4 ,leonor ,telles de fazer proclamar rainha de ,portugal a sua filha ,d4 ,beatriz1 que era uma pequenota casada com o rei de ,castella ,d4 ,joo ,i1 e ao mesmo tempo fez-se regente4 ,o povo1 que no queria ser castelhano1 ou hespanhol como hoje diriamos1 nem que o matassem1 comeou a levantar-se por toda a parte4 ,mas o que faltava era um chefe4 ,os filhos de ,d4 ,ignez de ,castro andavam fugidos por fra de ,portugal1 um por isto1 outro por aquillo1 mas quem estava em ,lisboa era um rapaz muito sympathico1 filho bastardo de el-rei ,d4 ,pedro1 que este fizera mestre de ,aviz1 e a quem ,d4 ,leonor ,telles sempre tivera muito odio4 ,a elle se dirigiram4 ,o mestre vio que no havia remedio seno fazer o que o povo queria4 ,toma logo a sua resoluo1 vae ao pao e mata elle mesmo o conde ,andeiro1 pe-se frente do povo de ,lisboa1 pe no meio da rua ,d4 ,leonor ,telles1 e proclama-se defensor do reino4 ,o povo toma todo1 sem excepo1 o seu partido1 e por todas as provincias2 mas uma grande parte dos fidalgos foram para o rei de ,castella4 ,entre os que ficaram figurava um rapaz sympathico tambem1 valente como as armas1 leal como a sua espada1 amigo intimo e dedicado do mestre de ,aviz1 ,nuno ,alvares ,pereira4 ,sabedor do que se passava1 desce a ,portugal o rei de ,castella com um exercito poderoso2 mas pra deante de ,lisboa j fortificada4 ,os lisboetas1 commandados pelo mestre de ,aviz1 defenderam-se como homens1 e o rei de ,castella teve de se pr na pireza2 entretanto ,nuno ,alvares ,pereira1 que estava no ,alemtejo1 ganhava a batalha dos ,atoleiros1 e comeava a estabelecer um systema de guerra que havia de dar muito de si4 ,como os concelhos estavam todos com o mestre de ,aviz1 a fora do exercito era principalmente infanteria4 ,pois ,nuno ,alvares ,pereira aproveitou isso para ensinar os nossos a combaterem a p4 ,formava uma especie de quadrado1 ou como que se chama1 com os seus soldados1 quadrado onde a cavallaria fidalga vinha sempre despedaar-se4 --,ah6 se elles calavam bayoneta1 observou o ,francisco ,artilheiro1 no entrava l para dentro nem um cavallaria s que fosse4 --,no calavam bayoneta1 respondeu o ,joo da ,agualva1 porque era cousa que ento no havia1 mas fincavam as lanas no cho1 e fossem l entrar com elles4 ,acabado o cerco de ,lisboa1 reuniram-se os dois amigos1 e foram conquistar todas as terras de ,portugal em que os fidalgos tinham levantado a bandeira de ,castella4 ,ao mesmo tempo reuniram-se crtes em ,coimbra1 para se escolher um rei4 ,ahi teve ,d4 ,joo ,i outro amigo1 advogado de mo cheia1 fino como um coral1 chamado ,joo das ,regras1 que foi quem lhe fez ganhar a eleio4 ,assim1 o mestre de ,aviz tinha a felicidade de ter dois amigos particulares que o serviam excellentemente1 e cada um segundo o seu officio4 ,para cousas de penna e parlenda ,joo das ,regras1 para batalhas e mais bordoada correspondente ,nuno ,alvares ,pereira4 --,mas ento as crtes que escolheram quem havia de ser rei8 perguntou o ,manuel da ,idanha4 --,tal e qual4 --,e eram crtes como as de agora8 acrescentou o ,bartholomeu4 --,no1 senhor1 havia os tres braos1 como ento se dizia1 clero1 nobreza e povo4 ,os bispos e os conventos mandavam os seus escolhidos1 os fidalgos mandavam os seus e o povo tambem1 quer dizer cada concelho mandava o seu procurador4 ,antes de ,d4 ,affonso ,,iii1 am s os padres e os fidalgos1 depois que o povo tambem comeou a figurar n'essas festas2 mas n'estas crtes1 que se reuniram em ,coimbra1 como muitos fidalgos estavam mettidos com o rei de ,castella1 pde-se dizer que foi o povo quem escolheu1 e que o mestre de ,aviz1 isto 1 ,d4 ,joo ,i1 foi verdadeiramente o eleito do povo4 --,e ahi lhe valeu o ,joo das ,regras8 acudiu o ,manoel da ,idanha4 --,isso mesmo1 porque l para fallar no havia outro como elle4 ,mas d'ahi a pouco tornou-se necessario fallar outra lingua1 a lingua das espadas1 e n'essa1 quem lia de cadeira era ,nuno ,alvares1 que o novo rei fez logo condestavel4 ,os castelhanos1 que tinham ido de cara banda1 voltaram carga1 e d'essa vez com um exercito immenso1 porque o ,d4 ,joo ,i de l tinha resolvido acabar de todo com o ,d4 ,joo ,i de c4 ,antes de vir o rei com toda a sua fidalguia1 j um corpo hespanhol tinha entrado pela ,beira dentro1 mas em ,trancoso levou uma tareia de primeira ordem4 ,no se emendaram e disseram comsigo3 ,agora que vo ser ellas4 ,a fallar a verdade tinham raso4 ,d4 ,joo ,i de ,portugal teria1 quando muito1 uns oito ou nove mil homens1 ,d4 ,joo ,i de ,castella no tinha menos de trinta mil1 e alem d'isso trazia comsigo peas de artilheria que era a primeira vez que se viam em ,portugal4 ,encontraram-se os dois exercitos em ,aljubarrota1 que fica entre ,alcobaa e ,leiria1 a #ad de agosto de #ache1 grande dia1 rapazes6 ,eu no sei que diabo tinham os nossos1 mas parece que os animava um esforo sobrenatural4 ,e elles no eram nenhuns fracalhes1 os castelhanos1 era tudo gente valente e destemida1 mas os nossos estavam todos resolvidos a morrer ali mesmo4 ,depois tinham cabos de guerra que sabiam da poda1 emquanto os de l eram valentes1 e mais nada4 ,de l1 eram tudo fidalgos muito bem montados1 com as suas espadas a luzir ao sol2 de c1 gente do povo1 soldados de p1 mas que todos queriam ser portuguezes com o seu rei que elles tinham feito1 e que tambem com elles queria vencer ou morrer4 ,e por isso ,nuno ,alvares dizia3 ,rapaziada1 p terra6 e zs6 lanas no cho1 e venha para c a fidalguia castelhana1 mais os traidores portuguezes que se uniram ao estrangeiro4 ,e no dizer que no houvesse fidalgos tambem de c4 ,oh6 se os havia1 e dos bons e dos melhores1 porque eram todos os que tinham preferido morrer com um rei portuguez a receber do estrangeiro honras e castellos1 gente briosa e valente1 e aventurosa1 que combatia pelo seu rei1 e pela sua dama1 e pela sua honra e pela sua patria4 ,tambem1 no lhes digo nada1 nunca levaram os hespanhoes to formidavel refrega4 ,por muito tempo lhes ficou lembrada1 e o rei1 que fugio a toda a brida para ,santarem e de ,santarem para a sua terra1 no se podia consolar de similhante desastre4 ,d4 ,joo ,i mandou fazer1 no sitio da batalha1 uma igreja e um convento maravilhoso1 a igreja e o convento da ,batalha1 para agradecer a ,deus a sua victoria1--e raso tinha para isso1 porque foi ,deus decerto quem deu aos portuguezes o esforo e a galhardia que ento mostraram1 que1 eu1 meus amigos1 no sou dos que acreditam que ,deus se mette n'estes barulhos dos homens1 mas quando um povo combate pela sua terra1 que como quem diz quando um filho combate pela sua me1 ento1 meus amigos1 ha uma cousa c dentro em ns1 que vem a ser a consciencia a bradar-nos que ,deus1 que a justia e a bondade1 ha de querer a victoria do que justo e do que bom4 --,e a padeira de ,aljubarrota1 sr4 ,joo da ,agualva8 perguntou o ,francisco ,artilheiro4 --,deixemo-nos l de padeiras4 ,eu no sou muito amigo de mulheres que se mettem n'estas danas4 ,a padeira era melhor que amassasse po4 ,se verdade o que se diz1 quando os castelhanos j am de rota batida1 a padeira foi-lhes no encalo e deu cabo de sete com a p do forno4 ,olhem que grande faanha3 matar quem vae fugindo6 ,aquillo era mulher de faca e calhau1 e eu toro sempre o nariz a essa gentinha4 ,vamos adiante4 ,a batalha de ,aljubarrota decidio a sorte de ,portugal4 ,ainda durou a guerra muito tempo1 ainda o condestavel deu nova tareia nos hespanhoes em ,valverde1 mas a verdade que estava tudo acabado4 ,d4 ,joo ,i governou ento com socego1 casou com uma senhora ingleza muito virtuosa e muito boa1 ,d4 ,philippa de ,lencastre1 teve muitos filhos que educou muito bem1 e que foram todos homens de saber e alguns d'elles grandes homens1 chamou muitas vezes as crtes para ouvir o que ellas tinham que lhe dizer cerca dos negocios do ,estado1 e governou to bem1 que se lhe chama1 com toda a justia1 o rei da ,boa ,memoria4 ,j em idade adiantada1 trinta annos depois da batalha de ,aljubarrota1 sentiu ,d4 ,joo ,i um appetite de tentar alguma empreza grande4 ,quem o metteu n'isso foram os filhos1 tudo rapazes decididos que andavam mortos por se metter n'alguma cousa que lhes dsse gloria4 ,o que haviam de fazer8 ,foram-se aos mouros4 ,passaram o estreito1 e tomaram ,ceuta que fica ali mesmo defronte de ,gibraltar4 ,vem vocs8 ,aquillo era uma raa que no podia estar quieta4 ,emquanto jogavam as cristas com os visinhos1 a tudo bem1 mas depois8 ,os aragonezes viravam-se para ,italia1 os castelhanos l tinham os mouros granads1 ns o que tinhamos8 ,os mouros de ,marrocos e as ondas do ,oceano4 ,pois foram as ondas e os mouros que pagaram as favas4 ,d4 ,joo ,i tomou ,ceuta1 e ,d4 ,henrique1 seu filho1 deliberou tomar o desconhecido4 -- sr4 ,joo1 exclamou o ,francisco ,artilheiro1 devo confessar que l isso que eu no percebo muito bem4 --,pois eu te explico1 rapaz4 ,julgava-se d'antes que do outro lado do mar no havia cousa nenhuma1 ou antes que as ondas l para longe eram um verdadeiro inferno ou um paraizo tambem1 porque uns diziam que tudo para alem eram ilhas de santos e jardins do cu1 e outros que eram ilhas do diabo e terras de maldio2 que havia umas estatuas encantadas que no deixavam passar ninguem1 e um mar de pez que engolia os navios4 ,ora vocs ho de saber que pde uma pessoa ser muito valente1 e ter medo de almas do outro mundo1 e de feitios e do diabo4 ,ali est o ,francisco ,artilheiro1 que1 quando foi na expedio ,africa1 se atirou ao ,bonga como gato a bofes1 que capaz de varrer uma feira1 e que1 se lhe disserem que v de noite ao palacio do marquez1 l ao corredor onde dizem que falla a voz do ,roque444 --,tarrenego6 exclamou o ,francisco ,artilheiro1 um homem para um homem1 mas l uma alma do outro mundo6444 --,ora ahi est6 era o que acontecia aos soldados de ,d4 ,joo ,i4 ,com mouros e castelhanos tudo o que quizessem1 mas com as aventesmas do mar444 arreda6 ,pois imaginem vocs se ,d4 ,henrique no fez um milagre conseguindo que os marinheiros do ,algarve1 porque elle1 desde que poz o fito em querer saber o que o mar escondia1 foi-se estabelecer em ,sagres1 mesmo na ponta do cabo de ,s4 ,vicente1 conseguindo que os marinheiros do ,algarve se mettessem s ondas1 sem medo de phantasmas1 nem de avejes4 ,e foram aquelles valentes1 que fizeram to grande no mundo este paiz to pequeno1 e partiram por esses mares fra1 sem saber o que por l havia1 e sempre a tremer da perdio da vida e da perdio da alma1 e foram1 e encontraram a ,madeira e encontraram os ,aores1 e ,gil ,eanes dobrou o cabo ,bojador1 que era onde diziam que estavam as taes estatuas encantadas1 e1 como no encontrou estatuas nenhumas1 l foi tudo atraz d'elle1 e1 de repente1 ,portugal poude desenrolar diante do mundo um outro mundo ignorado1 a costa da ,africa toda1 com os seus grandes rios1 os seus bosques verdes1 o seu povo de pretos1 como eu vi1 n'um theatro de ,lisboa1 desenrolar-se diante da plata pasmada um panno pintado com cidades e quintas e ilhas e rios1 que era de uma pessoa ficar de boca aberta4 ,ah6 meus amigos1 podem agora no fazer caso de ns1 e podemos ns tambem dizer mal de ns mesmos1 mas um povo que assim se atreve a arcar com o que mette medo aos mais valentes1 e abre aos outros as portas de um mundo maravilhoso1 um grande povo1 digam l o que disserem4 --,e ,d4 ,joo ,i que fez tudo isso8 perguntou o ,manuel da ,idanha4 --,no foi elle1 mas foi o filho1 ,d4 ,henrique1 que era um sabio1 e que a seu pae deveu a educao que recebera2 e o grande rei1 que salvra ,portugal do estrangeiro1 teve a gloria1 antes de morrer em #adcc1 de ver comeada essa obra que havia de tornar para sempre grande no mundo o seu nome e o nome de ,portugal4 ,succedeu-lhe seu filho1 ,d4 ,duarte1 a quem chamaram o ,eloquente1 pelo bem que fallava e que escrevia1 porque tambem fazia livros como o rei ,d4 ,diniz1 e livros muito bem feitos4 ,coitado6 no merecia a sorte que teve4 ,os irmos1 ,d4 ,henrique e ,d4 ,fernando1 quizeram continuar a obra do pae1 e foram tomar ,tanger4 ,no o conseguiram1 perderam muita gente1 e para se salvar o exercito das garras dos mouros1 teve de ficar preso na ,moirama o infante ,d4 ,fernando4 ,para o livrar era necessario entregar ,ceuta1 mas o infante ,d4 ,fernando1 que bem mereceu o nome de ,santo que lhe pozeram1 no quiz nunca ouvir fallar em similhante cousa1 e preferiu morrer atormentado nas masmorras de ,fez a consentir que dessem por elle aos mouros uma terra1 que tanto sangue nos custra4 ,tudo isto foram desgostos grandes para o pobre ,d4 ,duarte1 que morreu1 depois de cinco annos de reinado1 em #adch1 da peste que ento assolou o reino1 porque no houve desgraa que n'esse tempo no acontecesse4 ,succedeu-lhe um filho pequeno que tinha1 e que foi ,d4 ,affonso ,v1 e1 como ,d4 ,duarte era muito amigo da mulher1 foi a ella que nomeou regente4 ,ora1 na verdade1 tendo o pequeno uns poucos de tios que seriam todos grandes reis1 como ,d4 ,pedro1 ,d4 ,henrique e mesmo ,d4 ,joo1 dar a regencia a uma mulher1 e de mais a mais hespanhola1 era tolice grada1 por isso o povo no gostou1 e as crtes convidaram ,d4 ,pedro a tomar conta da regencia4 ,a rainha1 que era levada da brca1 e que nunca podra ver os cunhados1 deu pulo de cora com esta resoluo1 a que foi obrigada a ceder1 e1 com o partido que tinha1 agitou o reino de tal maneira1 que ,d4 ,pedro no teve remedio seno tomar providencias1 e uma d'ellas foi tirar o filho rainha1 porque o pequeno estava sendo nas mos d'ella um instrumento de revolta4 ,a final1 a rainha foi para ,hespanha1 mas eu estou convencido1 rapazes1 que o odio que ,d4 ,affonso ,v sempre teve ao tio veio d'ahi4 ,ora imaginem vocs6 ,d4 ,affonso era uma creana n'esse tempo1 agarrado me como so todas as creanas2 no percebia cousa nenhuma de politica nem de meia politica1 viu-se arrancado dos braos da sua mamsinha1 que se agarrava a elle a chorar1 e arrancado por quem8 ,por seu tio4 ,depois1 quando fosse maior1 podia reconhecer que o tio era o que se podia chamar um grande homem1 que lhe tinha governado o reino como ninguem seria capaz de o governar1 que era to pouco amigo de vaidades1 que nem quizera que lhe fizessem uma estatua1 mas o rancor da creana nunca se foi embora4 ,pois o tio1 apenas elle chegou maioridade1 logo lhe entregou o governo1 sem a mais pequena demora1 e foi viver para ,coimbra com o maior socego4 ,apesar de tudo isso1 e apesar de ser muito amigo da mulher que era filha de ,d4 ,pedro1 o rei tal odio tinha ao tio e ao sogro que deu ouvidos a todas as intrigas dos inimigos d'elle1 e principalmente s do primeiro duque de ,bragana1 seu tio tambem1 filho bastardo de ,d4 ,joo ,i2 chegou o duque a levantar tropas para ir contra o pobre ,d4 ,pedro1 que1 espicaado e ralado por todas as frmas1 teve de tratar da sua defeza4 ,emquanto o duque de ,bragana levantava tropas por sua conta e risco1 achava o rei isso muito bem feito2 apenas o infante ,d4 ,pedro juntou alguns soldados para no atravessar esse reino ao desamparo1 logo ,d4 ,affonso ,v entendeu que era caso de rebeldia e traio1 e marchou contra elle4 ,na ,alfarrobeira1 ali ao p de ,alverca1 se encontraram as tropas de um e as tropas do outro4 ,no houve batalha1 mas travaram-se de rases os soldados1 e1 quando mal se precatavam1 achou-se tudo embrulhado na bulha1 e l morreu o pobre do infante ,d4 ,pedro1 to sabio1 to bom1 to justiceiro4 ,quem ouvir isto1 ha de dizer que ,d4 ,affonso ,v era um malvado1 pois no era2 cabea de vento sim1 nunca houve outra igual6 ,sympathico e bondoso1 um mos-rotas1 principalmente para os fidalgos que apanhavam d'elle quanto queriam1 enthusiasmava-se todo por cousas que j no importavam a ninguem1 e quiz at fazer uma cruzada contra os turcos4 ,os outros principes christos no estiveram pelos autos1 e vae elle ento voltou-se contra os mouros da ,africa1 e certo que juntou a ,ceuta as praas de ,tanger1 ,arzilla e ,alcacer ,ceguer4 ,por isso lhe chamaram o ,africano4 ,emfim1 bom seria que nunca tivesse pensado n'outra cousa1 mas deu-lhe na veneta querer tambem ser rei de ,hespanha1 e1 quando l houve grande bulha para se saber quem havia de succeder ao rei que morrera1 se havia de ser ,d4 ,isabel que era irm1 se ,d4 ,joanna que era filha1 o nosso ,d4 ,affonso1 apezar de j no ser novo1 casou com esta1 que vinha a ser tambem sua sobrinha1 ao passo que ,d4 ,fernando de ,arago casava com a outra4 ,d'ahi veio uma guerra levada dos demonios2 mas1 a final1 ,d4 ,affonso deu a batalha de ,toro1 que ficou indecisa1 mas foi o mesmo que se a perdesse1 porque no poude continuar a guerra4 ,de que se ha de lembrar ento o nosso ,d4 ,affonso ,v8 ,de ir em pessoa pedir soccorro ao rei ,luiz ,,xi de ,frana1 que era o mais manhoso de todos os principes1 e que no fazia nada sem interesse4 ,luiz ,,xi andou a cassoar com elle1 at que ,d4 ,affonso ,v mandou dizer ao filho1 que ficra a governar o reino1 que subisse ao throno1 porque elle abdicava1 e a para a ,terra ,santa2 mas depois muda de tenes1 e1 quando j ninguem o esperava1 apparece em ,portugal4 ,o filho que no quiz saber de mais nada2 entregou-lhe logo a cora1 que ,d4 ,affonso acceitou1 morrendo quatro annos depois1 em #adca4 -- sr4 ,joo1 interrompeu o ,bartholomeu1 e essa historia de descobrir terras novas tinha parado8 --,qual tinha parado1 homem6 ,emquanto ,d4 ,henrique viveu1 e s expirou em #adfj1 quando j ,d4 ,affonso ,v era homem1 no pensou n'outra cousa2 todos os annos se a descobrindo mais alguma poro da ,africa1 e j no havia quem acreditasse em carapetes de estatuas4 ,os portuguezes1 o que faziam era sempre seguir para baixo1 at ver se topavam com a ,india1 ou ento se davam com um rei que diziam que era christo1 e a quem chamavam o ,prestes ,joo das ,indias4 --,e quem era esse rei8 perguntou o ,manuel4 --,eu depois lhes digo1 rapazes1 agora no me fallem mo4 ,o que certo que estava j descoberta uma boa poro da ,africa1 e j por l se fazia muito bom negocio1 tanto que ,d4 ,affonso ,v1 que andava embrulhado com outras cousas1 e que no podia cuidar dos descobrimentos como o tio1 arrendou o commercio da costa da ,mina a um tal ,ferno ,gomes1 com a condio d'elle continuar a descobrir terras4 ,felizmente1 quem a subir ao throno era um rei de outra laia1 que tinha lume no olho1 e que havia de levar as cousas pelo rumo que devia de ser1 para gloria do nosso paiz4 ,foi ,d4 ,joo ,,ii esse rei1 e com raso lhe chamaram o principe perfeito1 porque no houve nenhum que entendesse to bem do seu officio2 mas1 antes de fallar n'elle1 meus amigos1 deixem-me vocs explicar-lhes o que que se tinha passado no tempo d'esses tres primeiros reis da dynastia que se chamou de ,aviz4 ,viram vocs como os reis se encostaram ao povo para dar cabo da nobreza e do clero1 e como lhe deram fora para que os fidalgos e padres se no fizessem finos4 ,por isso tambem se pde dizer que foi o povo quem fez rei ,d4 ,joo ,i1 e este nunca se esqueceu d'isso4 ,comtudo1 padres e fidalgos1 continuavam a ser muito poderosos1 e1 se ,d4 ,duarte1 com a lei chamada mental1 e o infante ,d4 ,pedro lhes tinham dado para baixo1 ,d4 ,affonso ,v quasi que desfizera tudo1 porque com elle no havia parente pobre1 dava aos fidalgos o que elles queriam1 e com raso dizia o filho que seu pae o deixra rei das estradas de ,portugal1 o que1 valha a verdade1 no devia ser um grande reino4 ,ora agora acontecia tambem o seguinte3 que o povo1 nas crtes1 estava sendo mais um servo do rei do que outra cousa4 ,j no podia dizer aos reis3 ,toma l1 d c4 ,j no era cada concelho que mandava um procurador1 juntavam-se uns poucos de procuradores para mandar um deputado a que chamavam definidor1 e o rei sempre os podia ter mais na sua mo do que turbamulta dos antigos procuradores4 ,alem d'isso1 os doutores1 o que aprendiam nas escolas eram as leis de ,roma1 o direito romano1 e ahi o que se dizia era que o rei podia fazer o que quizesse4 ,o que resultava8 ,resultava que o clero e a nobreza haviam de levar para baixo1 mas que o povo depois444 esperasse pela pancada4 o que vocs sabero para o domingo que vem1 porque a tia ,margarida est a car com somno1 e eu no quero que digam de mim1 como de alguns prgadores1 que sou bom para quem anda com falta de dormir4 ,,sexto ,,ser,o ,d4 ,joo ,,ii4--,as crtes de vora4--,morte do duque de ,bragana4--,morte do duque de ,vizeu4--,continuao dos descobrimentos4--,o cabo da ,boa ,esperana4--,christovo ,colombo4--,entrada dos judeus4--,morte do principe ,d4 ,affonso4--,d4 ,manuel4--,descobrimento da ,india e do ,brazil4--,os conquistadores da ,india4--,ferno de ,magalhes4--,d4 ,joo ,,iii4--,a inquisio e os jesuitas4--,decadencia do nosso dominio na ,india4--,d4 ,sebastio4--,a batalha de ,alcacer-,kibir4--,d4 ,henrique1 o cardeal-rei4--,a successo do throno4--,d4 ,antonio1 prior do ,crato4--,batalha de ,alcantara4--,perda da independencia3--,causas da decadencia de ,portugal4 --,estou morto por saber1 porque que chamaram a ,d4 ,joo ,,ii o principe perfeito1 principiou o ,manuel da ,idanha no domingo immediato1 quando estiveram todos sentados roda da lareira1 porque1 emfim1 vocemec j nos fallou n'uns poucos de reis de quem se no pde dizer mal3 ,d4 ,diniz1 por exemplo1 ,d4 ,joo ,i1 etc4 --,eu te digo1 rapaz1 porque no houve nenhum que percebesse to bem o seu tempo1 nem soubesse to bem como que se governa4 ,era homem de cabellinho na venta1 mas s dava cabo de quem lhe fazia transtornar os seus planos1 era valente como os que o so1 mas1 depois de ser rei1 nunca mais foi guerra4 ,calculava tudo1 combinava tudo1 e1 como quem joga bem a bisca1 sabia de cr os trunfos1 e o que queria era marcar bons pontos1 dsse l por onde dsse4 ,subiu ao throno1 na firme resoluo de acabar com os privilegios da nobreza e do clero4 ,para isso1 como de costume1 serviu-se do povo4 ,chamou crtes a ,evora1 ahi entendeu-se com os procuradores do povo para elles se queixarem dos fidalgos4 ,ento o rei pe-se no seu logar1 e toca a deitar abaixo privilegios4 ,se vocs querem ver o que berraria6 ,o primeiro que se levantou foi o duque de ,bragana1 e esse ento metteu-se com os castelhanos4 ,d4 ,joo ,,ii no esteve com ceremonias1 mandou-lhe cortar a cabea4 ,o duque de ,vizeu1 seu proprio primo e cunhado1 fez-se tambem chefe de conspirao4 ,o mesmo rei deu cabo d'elle com uma boa punhalada1 e depois foi tudo raso com o diabo do homem4 ,prendia uns1 desterrava outros1 mandava matar este1 confiscava os bens quelle444 um inferno4 --,ento por isso que era principe perfeito8 perguntou a tia ,margarida indignada4 -- mulhersinha1 espere l4 ,diz o proverbio3 cada terra com seu uso1 cada roca com seu fuso4 ,pois eu digo tambem3 cada tempo com os seus costumes4 ,o tempo d'elle no era como o nosso4 ,hoje matar um homem 1 com raso1 uma cousa por ahi alem4 ,n'aquelle tempo parecia a todos perfeitamente natural que se castigassem com a morte1 mesmo punhalada1 todas as conspiraes4 ,ora ,d4 ,joo ,,ii s escapou por milagre a muitas que houve contra elle4 ,mas ,d4 ,joo ,,ii no era homem que se assustasse4 ,estreiara-se em ,arzilla1 ao lado de seu pae1 e logo mostrra um grande esforo2 na refrega de ,toro1 em ,hespanha1 foi elle quem ganhou a batalha pelo seu lado1 emquanto o pae a perdia pelo outro4 ,nas conspiraes1 que se faziam contra elle1 mostrou sempre uma coragem por ahi alem1 mas tambem no perdoava nenhuma4 ,e tanto fez1 tanto fez1 que a final todas as cabeas se abaixaram1 e quem ficou governando a valer e devras foi elle4 ,eu no lhes digo1 rapazes1 que approvo todas aquellas crueldades1 e que acho bonito que ,d4 ,joo ,,ii matasse sem d nem piedade at os parentes4 ,conheo que era preciso ter cabellos no corao para fazer o que elle fez1 mas que querem vocs8 sina que nunca se fizeram as grandes mudanas politicas sem correr muito sangue4 ,dizia aquelle engenheiro francez1 que aqui esteve em ,bellas na obra da agua1 quando s vezes se punha a conversar commigo3 ,joo1 no se faz omeleta sem se quebrar ovos4 ,e dizia bem4 ,aquillo entre ,d4 ,joo ,,ii e a nobreza era guerra de morte4 ,atiravam cabea2 eu bem sei que era mais bonito perdoar4 ,mas1 meus amigos1 perdoar aos seus inimigos s o fez ,nosso ,senhor ,jesus ,christo1 e isso bastava para que todos conhecessem que elle era ,deus e no homem4 ,em todo o caso1 rapazes1 sempre lhes quero confessar que1 para gostar deveras de ,d4 ,joo ,,ii1 preciso de desviar os olhos d'aquella sangueira toda1 e ver o que elle fez por outro lado4 ,ah6 que rei aquelle1 rapazes6 ,nos descobrimentos foi um segundo infante ,d4 ,henrique1 porque no foi s dizer aos pilotos3 ,vo vocs andando por ahi abaixo1 e quando toparem a ,india mandem c um recado4 ,no1 senhores6 ,agarrou em dois judeus que eram homens de sabena1 e mandou-os por terra ao ,egypto1 para que fossem do ,egypto ver se topavam a ,india e se sabiam como que se podia l ir ter por mar4 ,foram estes ,pedro da ,covilh e ,affonso de ,paiva4 ,ao mesmo tempo no deixra de mandar navios pela ,africa abaixo4 ,um sujeito1 chamado ,bartholomeu ,dias1 tanto andou1 tanto andou sempre com a terra esquerda1 at que um bello dia1 por mais que tocasse esquerda1 no via seno agua3 ,mau1 disse elle comsigo1 o diabo da costa virou de rumo4 ,vira elle tambem e d com a terra que a para cima em vez de ir para baixo como at ahi4 ,eu cheguei ao fim da ,africa1 disse comsigo o ,bartholomeu ,dias1 eu passei algum cabo sem dar por isso4 ,e1 j todo contente1 queria ir seguindo para diante a ver onde iria dar comsigo4 ,mas a marinhagem estava canada e quiz por fora voltar para traz4 ,no houve remedio1 e volta effectivamente deram com o tal cabo que vinha a ser a ponta da ,africa1 e apanharam tantos temporaes que ,bartholomeu ,dias chamou a esse cabo1 cabo ,tormentorio2 mas1 quando chegou a ,lisboa e contou a ,d4 ,joo ,,ii o que succedera1 este1 que logo percebeu que estava dado o grande passo na descoberta da ,india1 no quiz para tamanha descoberta um nome de mau agouro1 e mudou ao cabo ,tormentorio o nome em cabo da ,boa ,esperana1 como quem diz3 ,agora sim1 agora que me parece que vamos por estrada direita4 ,ora ho de vocs saber1 rapazes1 que por esta occasio vivia em ,portugal um sujeito genovez chamado ,christovo ,colombo1 que era homem entendido em cousas de mar1 e que se occupava tambem muito de descobrimentos de terras e tal etc4 ,foi at por isso que elle veio para ,portugal1 porque isto aqui era a forja1 onde1 para assim dizer1 se fabricavam terras novas1 e todos os que se enthusiasmavam com essas cousas vinham para c assoprar aos folles4 ,christovo ,colombo estivera na ,madeira1 ouvira fallar em signaes de terra para os lados do pr do sol1 e comera a embirrar que1 indo atraz do sol1 havia de esbarrar com a ,india4 ,fallou n'isso a ,d4 ,joo ,,ii1 este consultou os sabios1 e os sabios desataram a rir4 ,colombo ento foi-se embora e comeou a offerecer os seus servios a quem lhe dsse uma casca de noz2 acceitou-os a ,hespanha1 depois de massar muito o pobre do homem4 ,christovo ,colombo partiu seguindo sempre para o occidente1 e a final deu com uma terra povoada de selvagens1 que vinha a ser nem mais nem menos do que a ,america1 emfim um mundo inteiro muito maior que a ,europa toda4 ,ora1 tudo isso podia ter vindo para ns1 e no nos fazia mal nenhum1 se ,d4 ,joo ,,ii no ce na asneira de no acreditar no ,colombo1 que todos sabiam que era um homem esperto1 e de lhe no querer dar dois ou tres navios para tentar a sua descoberta1 elle que tinha navios a rodo por esses portos todos6 --,sim6 l isso6 acudiu o ,manuel da ,idanha coando na cabea4 ,vocemec diz que o homem era to espertalho1 mas essa parece-me de cabo de esquadra6 --,achas1 meu palerma8 ,diz um proverbio3 ,quem adivinha vae para a casinha4 ,e eu j te mostro que outro qualquer1 no caso de ,d4 ,joo ,,ii1 fazia o mesmo4 ,tu imaginas que ,christovo ,colombo chegou ao p de ,d4 ,joo ,,ii e lhe disse3 ,saiba ,vossa ,alteza 7que ento ainda se no dava magestade aos reis7 saiba ,vossa ,alteza que ali defronte dos ,aores est um paiz muito rico1 onde ha muito ouro1 e muita prata e muitos diamantes1 e1 se ,vossa ,alteza quizer1 eu chego ali n'um instante e c lh'o trago8 ,ests tu muito enganado4 ,o proprio ,colombo nem sabia que havia ali similhante paiz4 ,toda a sua mania era que1 sendo a terra redonda1 e n'isso tinha elle raso1 indo uma pessoa para o occidente1 havia de dar volta e chegar ao oriente4 ,mas o que elle no sabia que a terra era to grande como lhe sau2 e1 se no lhe apparece a ,america1 o homem via-se grego1 e ainda tinha de comer muito po antes de arribar1 onde elle queria ir1 tanto que provavelmente no levava no poro farinha que lhe chegasse4 ,ora agora1 pensem vocs tambem1 rapazes1 no seguinte3 ,havia um bom par de annos que ,portugal andava a teimar em seguir pela ,africa abaixo procura da ,india4 ,teimou1 teimou1 at que a final chegou ao fim da ,africa1 e percebeu que a terra seguia para cima1 e a com toda a certeza parar ,india4 ,e exactamente quando se consegue o que se procurava havia tanto tempo1 quando se descobre o cabo da ,boa ,esperana1 quando se tem a certeza de que se encontrou o caminho da ,india1 que vem um sujeito ter com o rei de ,portugal1 que est todo alegre com a descoberta1 e dizer-lhe3 ,faa favor de apagar tudo isso1 e de comear outra vez a procurar a ,india por outro lado4 ,o rei1 claro1 mandou-o pentear macacos4 ,ora agora confesso tambem que se no pe assim no meio da rua um homem como ,christovo ,colombo4 ,procurar a ,india pelo occidente no impedia que se continuasse a procurar pelo caminho que at ahi se seguira1 e ns j tinhamos topado tanta terra que no esperavamos1 que no era cousa do outro mundo que fossem mais duas caravellas a ,deus e ventura ver o que o mar dava de si4 ,emfim no se fez isso2 os hespanhoes ficaram com a ,america1 e principiaram ao desafio comnosco n'isso de descobrimentos1 tanto que foi necessario que o papa dividisse entre elles os novos mundos ao meio1 dizendo3 ,para aqui descobrem os hespanhoes1 e para aqui descobrem os portuguezes1 o que fazia com que um rei de ,frana dissesse depois3 ,ora sempre eu queria ver o artigo do testamento do pai ,ado que deixou a terra aos hespanhoes e aos portuguezes6 ,todos se riram1 e o ,joo da ,agualva continuou3 --,muito mais provas de juizo deu el-rei ,d4 ,joo ,,ii1 e felizes seriamos ns se os reis que se seguiram fossem como elle4 ,na ,africa1 tratou de chamar a si os pretos1 de os mandar baptisar1 mas s boas1 e de fazer por ali fortalezas para se assenhorear do commercio4 ,na ,europa ento houve uma cousa que mostra que elle sabia ser rei4 ,os soberanos de ,hespanha1 todos devotos1 mandaram pr fra do seu paiz os judeus1 que eram1 como foram sempre1 uma raa trabalhadeira e esperta1 que se enriquecia e a enriquecendo a terra onde vivia4 ,mas a rainha de ,hespanha1 l por beaterios tolos1 no os quiz consentir no seu reino1 e intimou-lhes mandado de despejo4 ,sempre quero que vocs me digam porque8 ,porque tinham crucificado ,jesus ,christo8 ,mas isso foram uns malandrins de ,jerusalem1 e nem os filhos tinham culpa do que os paes fizeram1 e at os paes de muitos d'elles talvez nem em ,jerusalem estivessem n'esse tempo4 ,porque no acreditavam na religio christ8 ,o peor era para elles4 ,pois se no se pde salvar quem no for christo1 no outro mundo torceriam a orelha1 e no era necessario j n'este mundo ir-lhes torcendo pescoo4 ,porque no comiam toucinho8 ,tanto melhor para os bons christos1 que sempre ficava mais barata a carne de porco4 ,mas fossem l dizer estas cousas n'aquelle tempo aos reis catholicos6 ,corria uma pessoa risco de ir parar a uma fogueira4 ,d4 ,joo ,,ii riu-se da devoo dos visinhos1 recebeu os judeus na sua terra1 e tirou proveito do caso1 obrigando-os1 em troca do asylo que lhes dava1 a pagar-lhe um bom tributo4 ,elles estavam com a corda na garganta1 pagaram com lingua de palmo1 ainda que isso lhes havia de custar1 porque sempre foram sovinas4 ,mas1 como diz o outro1 para judeu1 judeu e meio4 --,olhe l1 sr4 ,joo de ,agualva1 e ento quem diz que a inquisio c em ,portugal queimava os judeus8 perguntou o ,manuel da ,idanha4 --,l chegaremos1 sr4 ,manuel da ,idanha1 l chegaremos4 ,no ha s muitas ,marias na terra1 ha tambem muitos ,joes1 e ns ento tivemos seis1 cada um do seu feitio4 ,tudo se paga1 meus amigos1 e um homem pde ser principe perfeito2 quando ultraja a lei de ,deus1 derramando o sangue de seus irmos1 ha de o pagar com lagrimas que tambem so sangue s vezes4 ,tinha ,d4 ,joo ,,ii um filho chamado ,affonso1 a quem queria como s meninas dos seus olhos4 ,casra com a filha dos reis de ,hespanha1 e as festas com que se celebrou o casamento tinham sido das mais pomposas4 ,morreu1 e morreu de um desastre4 ,quem pde imaginar a dr d'aquelle pae6 ,chorou esse homem de ferro1 que tantas lagrimas tambem fizera derramar1 chorou lagrimas de sangue1 do sangue do seu corao1 e1 l nas horas mortas da noite1 quando estivesse ssinho a pensar no filho1 havia de ver muitas vezes os espectros d'aquelles que matra sem ter piedade da orphandade de seus filhos1 como ,deus no tivera tambem compaixo da orphandade da sua alma4 ,morreu quatro annos depois1 em #adie1 sem poder deixar a cora a um filho seu1 porque debalde quizera legitimar um bastardo que tinha1 e assim1 altos juizos de ,deus6 quem lhe havia de succeder1 e no s isso1 quem havia de colher para si a gloria de realisar a conquista da ,india1 que ,d4 ,joo ,,ii to cuidadosamente preparava8 ,um irmo d'aquelle duque de ,vizeu1 que elle assassinra1 ,d4 ,manuel1 o ,afortunado4 ,afortunado ou ,venturoso lhe chamou a historia1 e com raso1 porque no teve seno bamburrice1 o que no quer dizer que fosse um palerma1 e que no tivesse mesmo bastante tino1 mas fazia tanta differena de ,d4 ,joo ,,ii como uma larangeira de um carvalho4 ,encontrou a papinha feita4 ,estavam preparados os navios para a descoberta da ,india1 poz frente d'elles ,vasco da ,gama1 e em #adig chegava ,vasco da ,gama ,india1 que era o paiz mais rico d'esse tempo4 ,mandou atraz d'elle ,pedro ,alvares ,cabral1 este chega-se mais para o occidente do que devia ser1 e esbarra com o ,brazil em #aejj2 bom6 ,pe ambos de parte1 que l ingrato como aquelle no havia nenhum1 e manda para a ,india uma esquadra1 onde a ,duarte ,pacheco1 homem que parece mesmo um d'aquelles sujeitos da antiguidade1 que eram meios homens1 meios deuses1 e de quem se contam muitas patranhas1 que foram excedidas pelas verdades d'este nosso patricio4 ,querem vocs saber8 ,na ,india havia muitos reis1 como ainda hoje ha1 apesar que esto agora todos sujeitos aos inglezes4 ,vasco da ,gama tinha chegado a uma terra chamada ,calicut1 onde residiam muitos mouros1 que eram quem fazia n'esse tempo o negocio todo da ,india4 ,viram a bolsa em perigo1 e no descanaram emquanto no pozeram ao rei de ,calicut de mal com os portuguezes4 ,palavra puxa palavra1 elle matou-nos um homem1 apanhou uma lio mestra1 e de vingana em vingana ficmos inimigos para sempre4 ,mas havia outro rei1 o rei de ,cochim1 que era e foi sempre nosso amigo4 ,d'ahi1 barulho entre os dois4 ,como o rei de ,calicut era muito mais poderoso1 esperou que no estivessem l navios nossos1 e1 sabendo que tinha ficado apenas ,duarte ,pacheco e mais uns cincoenta portuguezes1 disse comsigo3 ,agora que tu m'as pagas4 ,e arranjou um exercito forte1 e marchou contra o pobre rei1 nosso amigo4 ,os soldados de ,cochim tinham medo que se pellavam1 e fugiam que era um louvar a ,deus2 mas ,duarte ,pacheco1 mais os seus cincoenta homens1 com a sua habilidade e a sua valentia1 conseguiu tomar o passo ao de ,calicut1 e dar-lhe tareias monumentaes4 rapazes1 pois uma pessoa no se hade s vezes ufanar de ser portuguez8 ,quando que se viu uma cousa assim8 ,meia duzia de gatos bastaram para dar cabo de exercitos immensos6 ,eu bem sei que era a disciplina1 que eram as armas1 que era tambem a fraqueza d'aquelles bananas1 que o sol da ,india faz uns mollengas1 mas era necessario que fossem de ao e de ferro1 em vez de ser de carne e osso1 esses valentes que assim viam1 sem descorar1 marchar contra elles um exercito formidavel6 ,era necessario que se tivessem disposto a morrer para no deixarem que fosse pisada aos ps a bandeira de ,portugal6 ,e1 a final de contas1 por muito molles que os outros fossem1 sempre eram mil contra um1 e1 com certeza1 nenhum dos nossos pensava que saria com vida de similhante combate4 ,depois aces d'essas eram mais faceis1 no s porque os nossos j tinham tomado confiana em si1 e sentiam-se capazes de levar aos pontaps quantos indios houvesse na ,india1 mas tambem porque elles tinham-nos tomado medo2 mas isso tudo a quem o devemos seno a ,duarte ,pacheco8 ,pois1 meus amigos1 imaginam vocs que ,duarte ,pacheco foi feito governador da ,india1 ou teve algum titulo1 ou alguma recompensa grande8 ,qual carapua6 ,d4 ,manuel nem mais pensou n'elle1 e era to feliz que logo encontrou para ser primeiro vice-rei da ,india um homem como ,d4 ,francisco de ,almeida1 que em toda a parte do mundo seria digno de exercer os primeiros logares4 ,com effeito1 ,d4 ,manuel1 que primeiro quizera apenas que os seus seus navios viessem carregados de mercadorias da ,india1 que depois c se vendiam na ,europa1 entendeu que devia tomar raizes1 e encarregou ,d4 ,francisco de ,almeida de governar os portuguezes que por l estivessem1 fundando ao mesmo tempo fortalezas4 ,d4 ,francisco de ,almeida entendia1 porm1 e no deixava de ter raso1 que ,portugal era um paiz muito pequeno para estar assim a mandar soldados para a ,india1 e o que elle queria era ser senhor do mar para que ninguem mais ali podesse fazer negocio4 ,emquanto s teve os indios pela pra am as cousas bem1 mas os turcos1 que viam diminuir os seus rendimentos com o novo caminho das ,indias1 comearam a metter-se na dana1 e os turcos no eram tropa fandanga1 eram gente de quem tremia a ,europa4 ,tambem1 quando se encontraram primeiro com os portuguezes1 levaram a melhor e at mataram um filho de ,d4 ,francisco de ,almeida1 que o vice-rei adorava4 ,foi a sua perdio1 porque ,d4 ,francisco de ,almeida no descanou emquanto no vingou a morte do seu estremecido ,loureno4 ,os turcos levaram uma sova de primeira qualidade1 e na ,india ficou-se sabendo de uma vez para sempre que casta de homens eram os portuguezes4 ,pois1 rapazes1 parecia que d'esta vez ,d4 ,manuel se daria por muito feliz em ter no ,oriente um homem como ,d4 ,francisco de ,almeida1 que tinha posto os indios a po e laranja1 e dado uma esfrega tal nos turcos que se no atreveram por muito tempo a tornar ,india4 ,enganam-se4 ,apenas acabou o seu tempo1 foi chamado a ,portugal1 e naturalmente el-rei nem pensaria mais n'elle1 ainda que no tivesse morrido no caminho4 ,mas continuava a ser to feliz que encontrou1 para substituir ,d4 ,francisco de ,almeida1 um homem que ainda valia mais do que elle1 porque era o grande ,affonso de ,albuquerque4 ,ah6 meus amigos1 apparecem de vez em quando no mundo uns homens1 que so capazes de revolver a terra1 como os ,napolees e outros assim1 ,affonso de ,albuquerque foi um d'esses4 ,a respeito das cousas da ,india no pensava como ,d4 ,francisco de ,almeida1 mas no era porque visse as cousas de outro modo1 era porque achra maneira de as concertar4 ,sim1 elle bem sabia que ,portugal no podia estar a encher a ,india de soldados1 mas o que elle queria era que os ,indios se misturassem com os portuguezes1 e1 para o conseguir1 ao passo que era cruel com os mouros1 com os indios era to bom e to justo que1 depois da sua morte1 am elles resar ao seu tumulo1 como quem vae resar ao tumulo de um santo4 ,escolheu elle tres pontos1 em que estabeleceu1 para assim dizer1 os seus quarteis generaes1 e todos muito bem escolhidos3 ,ormuz1 ao p da ,persia2 ,goa1 no meio da ,india2 ,malaca1 para os lados da ,china e das ilhas a que se chamava das ,especiarias ou das ,molucas4 ,primeiro tomou ,goa1 depois ,malaca que tinha dente de coelho1 porque os malaios so levadinhos da brca1 depois ,ormuz1 e1 quando acabou de fazer tudo isto1 estava j demittido1 e sabendo que a ser nomeado para o seu logar o seu peor inimigo6 ,morreu com esse desgosto4 ,tambem d'essa vez tinha-se acabado o fornecimento de grandes homens1 e os dois ultimos governadores da ,india1 no tempo de ,d4 ,manuel1 no foram l grande cousa1 mas tambem no estragaram nada4 ,aquillo ento a n'um sino4 ,os portuguezes espalhavam-se por toda a parte1 de um lado chegavam ,china1 do outro ,persia1 do outro s ,molucas1 do outro a ,cambaya4 ,tinham fortalezas por toda a parte2 elles recebiam a boa canella de ,ceylo1 o bom cravo das ,molucas1 a boa pimenta da ,india1 os bons cavallos da ,persia1 as sedas da ,china1 o incenso da ,arabia1 os diamantes de ,golconda1 e traziam estas riquezas todas para a ,europa e vinham aqui a ,lisboa1 que estava sempre cheia de navios1 os hollandezes e os inglezes comprar tudo isto para o vender por esse mundo4 ,do ,brazil no se fazia caso porque nem valia a pena2 na ,africa sempre se am tomando praas1 que era para n'aquellas constantes guerras com os mouros se exercitar a fidalguia1 que depois fazia o diabo a quatro na ,india4 ,emfim1 quando ,d4 ,manuel mandou ao papa uma embaixada com presentes vindos de todas as suas conquistas1 ,roma ficou embasbacada1 e no se fallava em todo esse mundo seno na grandeza de ,portugal4 ,bons tempos1 meus amigos1 mas que duraram pouco6 ,no reino1 ,d4 ,manuel logo mostrou que1 se no era tolo1 tambem no tinha o entendimento de ,d4 ,joo ,,ii4 ,poz fra os judeus2 verdade que depois1 quando em ,lisboa o povo fez uma matana nos que tinham ficado a titulo de se terem convertido1 mostrou-se muito zangado e castigou a cidade4 ,grande no foi elle1 mas viu-se cercado de gente que o fez grande1 e teve a esperteza de os saber conhecer4 ,depois1 punha-os de parte com a maior facilidade1 mas atinava com elles2 s no percebeu o que podia esperar de ,ferno de ,magalhes1 que1 zangando-se com uma picardia que lhe fez1 passou para ,hespanha1 e assim nos deixou ficar sem a gloria de termos sido ns os primeiros que deram volta ao mundo1 como fizeram os hespanhoes commandados pelo tal ,ferno de ,magalhes1 porque isso1 n'aquelle tempo1 no havia por esses mares uma onda que no marulhasse em portuguez444 --,em portuguez porque8 perguntou o ,francisco ,artilheiro4 ,eu nunca percebi o que ellas diziam4 --,ento que tem a cabea to dura como tu1 porque foi sempre o portuguez a primeira lingua que ouviram1 e at l para a terra dos bacalhaus1 para o norte1 onde faz um frio de rachar1 l mesmo foi ,gaspar ,cortereal que primeiro descobriu a ,terra ,nova4 ,emfim1 meus amigos1 depois de ter casado tres vezes1 e sempre com princezas hespanholas1 morreu em #aeba el-rei ,d4 ,manuel1 e1 verdade verdade1 com elle se pde dizer que morreu a grandeza de ,portugal4 ,succedeu-lhe o filho ,d4 ,joo ,,iii1 que era o beato mais beato que tem vindo a este mundo4 ,d4 ,manuel j l tinha as suas manias1 mas1 como eu lhes contei1 quando os de ,lisboa desataram a matar os judeus1 ou antes os christaos novos1 deu-lhes com o basta4 ,d4 ,joo ,,iii1 esse1 no descanou emquanto no metteu em ,portugal a inquisio4 ,o papa no queria1 fazia-se rogado1 e ,d4 ,joo ,,iii que insistiu com elle para apanhar essa prenda4 ,chegou a gastar rios de dinheiro para o conseguir66 ,ora1 realmente1 metter c um tribunal que1 apenas um sujeito se esquecia de ir missa1 ferrava com elle na cadeia1 quando no era na fogueira1 s lembrava a ,d4 ,joo ,,iii4 ,at os estrangeiros fugiam1 e ento o resto dos judeus1 que ainda por c havia1 e que por amor nossa terra se tinham feito christos1 com medo da inquisio1 se foram safando logo que poderam4 ,e1 no contente com isso1 introduziu tambem a companhia de ,jesus1 que era uma ordem nova de frades mais disciplinados que um regimento1 e que tinham jurado ser elles que haviam de governar o mundo4 ,ora1 l para prgar aos herejes1 e aos gentios da ,india1 e aos selvagens do ,brazil1 eram muito bons1 porque no recuavam nem diante da morte1 e houve jesuitas1 como ,s4 ,francisco ,xavier1 que no ficaram a dever nada aos doze apostolos2 mas em ,portugal mettiam-se em toda a parte3 elles ensinavam1 elles confessavam1 e estou em dizer que no podia ser bom4 ,eu no sou contra os padres1 nem contra a religio1 pelo contrario1 mas tambem no se ho de metter em tudo4 ,ora vejam vocs como havia de viver um dos nossos avs d'esses tempos6 ,os jesuitas a apertarem-lhe o freio1 e ao mais pequeno desmando1 zs1 fogueira da inquisio com elle4 ,at se fizeram macambuzios os pobres homens1 que eram at ahi gente alegre4 ,no se podia escrever cousa nenhuma1 que no viessem logo os jesuitas3 ,corte-se isto porque parece contra a religio1 no se represente aquillo porque se faz troa a um frade1 e porque torna e porque deixa4 ,o que certo1 meu amigos1 que1 emquanto l por fra se andava para diante1 e se faziam invenes1 e se estudava1 ns no passavamos da cepa torta1 e o mal que isso fez vo vocs vl-o4 ,na ,india parecia que a tudo muito bem1 mas via-se que no podia durar muito4 ,valentes eram os nossos1 mas1 em vez de fazerem o que ,albuquerque queria1 em vez de accommodarem os ,indios1 e de se porem s boas com elles1 no senhor1 faziam crueldades que era uma cousa por demais1 e o que queriam era apanhar dinheiro4 ,passavam o tempo1 ora em guerra com o rei de ,calicut1 ora com o rei de ,cambaya1 ora com o rei de ,achem1 ora com o rei de ,bintam1 ora com o rei de ,kandy1 ora com todos ao mesmo tempo4 ,isto no era vida4 ,obravam prodigios de valor1 isso verdade1 como por exemplo nos dois cercos de ,diu1 em que ,antonio da ,silveira e ,d4 ,joo de ,mascarenhas se defenderam de um modo maravilhoso1 mas1 fora de dar cutiladas1 o brao a canando1 e o paiz estava esfalfado4 ,no havia nem um instante de socego4 ,se apparecia um governador como ,d4 ,joo de ,castro1 o da ,penha ,verde de ,cintra1 que era honradissimo e justiceiro1 os outros no pensavam seno em roubar4 ,j se pegavam uns com os outros1 como fez ,lopo ,vaz de ,sampaio com ,pedro ,mascarenhas1 e quando ,d4 ,joo ,,iii1 o ,piedoso1 como lhe chamaram os frades1 morreu em #aeeg1 todos previam que isto a para baixo4 ,o filho mais velho de ,d4 ,joo ,,iii morrera ainda em vida do pae1 e quem lhe succedeu foi um neto1 creana de cinco annos1 que tinha o nome de ,d4 ,sebastio4 ,ficou regente a av1 senhora de bastante juizo1 que governou bem1 mas que em #aefb teve de ceder a regencia ao cunhado1 o cardeal ,d4 ,henrique1 todo dominado pelos jesuitas1 e que cercou de padres o principe4 ,o que resultou d'ahi8 ,resultou que ,d4 ,sebastio1 que gostava de guerras e batalhas1 fez-se ao mesmo tempo beato4 ,parecia um d'aquelles antigos frades militares1 que tinham concorrido tanto para expulsar os mouros de ,portugal4 ,no quiz casar1 e at fugia das mulheres4 ,no pensava seno em dar cabo dos mouros4 ,ora1 se ns que j tinhamos tanto trabalho para nos sustentarmos na ,india1 que framos obrigados a largar umas poucas de praas na ,africa1 que tinhamos precisado de um grande esforo para salvar ,mazago1 cercada pelos mouros1 nos mettiamos em grandes guerras com elles1 aonde iria isto parar6 ,pois foi o que succedeu4 ,na ,india o trabalho era cada vez maior2 um governador1 chamado ,d4 ,constantino de ,bragana1 parente da casa real1 fizera por l grandes cousas1 mas pouco tempo depois juntavam-se quasi todos os reis da ,india e vinham sobre ns4 ,o que nos valeu foi termos um novo ,affonso de ,albuquerque1 um general de mo cheia1 ,d4 ,luiz de ,athayde1 que a tudo acudiu e tudo salvou2 mas vocs bem vem que isto no podia continuar assim4 ,quando as cousas estavam n'este bonito estado1 quando ns tinhamos s costas a ,india1 o ,brazil para que ,d4 ,joo ,,iii principira a olhar1 onde precisvamos de nos defender contra os aventureiros francezes que achavam a terra a seu gosto1 de que se ha de lembrar el-rei ,d4 ,sebastio8 ,de ir conquistar ,marrocos6 ,eu j tenho ouvido dizer que mais valia termos conquistado ,marrocos1 que nos ficava porta1 do que irmos ,india que ficava to longe4 ,pois sim1 mas o que era necessario era escolher4 ,ou uma cousa ou outra4 ,mas ,d4 ,sebastio1 com aquella embrulhada1 que elle tinha na cabea1 de idas religiosas e de idas guerreiras1 no attendia a cousa nenhuma1 nem fazia calculos nenhuns4 ,o que elle queria era dar lambada nos mouros1 e1 apesar dos conselhos de toda a gente1 levanta um pequeno exercito1 e para o levantar custou-lhe1 porque j no havia braos no paiz444 co'a breca1 que elles no chegavam para tudo6 e abala-se para a ,africa a pretexto de ir soccorrer um principe mouro que tinha sido expulso do throno por seu tio6 ,ah6 meus amigos1 aquillo era mesmo um doido que ali a4 ,a gente gosta de ver um rapaz que tem o sangue na guelra1 e que se atira para diante1 embora faa asneira1 mas que ,d4 ,sebastio estava perfeitamente maluco4 ,era maluquice a empreza1 foi maluquice o modo como a preparou1 foi maluquice o modo como a dirigiu4 ,parecia que ,deus1 por umas poucas de vezes1 o quizera salvar1 e elle sempre a atirar comsigo de cabea para baixo4 ,emfim1 no dia #d de agosto de #aegh1 deu-se a batalha moda de seiscentos diabos1 porque nem houve commando1 nem houve nada4 ,d4 ,sebastio atirou-se aos mouros e no quiz saber de exercito1 nem de cousa nenhuma4 ,emquanto poude dar cutilada1 deu4 ,a flor da fidalguia portugueza ali morreu1 a que no morreu ficou prisioneira4 ,os soldados fugiram1 uns por aqui outros por ali1 e1 quando a noticia chegou ao reino1 imaginem que afflico6 ,no se perdera s um rei1 perdera-se a cora1 porque no havia herdeiros1 e quem subiu ao throno foi o velho cardeal ,d4 ,henrique1 tio av do fallecido1 que nunca fra esperto e que estava ento meio apatetado4 ,ainda houve quem dissesse que ,d4 ,sebastio no morrera1 porque ninguem o vira car morto1 e o cadaver que appareceu1 e que se disse que era d'elle1 estava to desfigurado que se no podia conhecer4 ,assim l ficou ,d4 ,henrique a governar1 mas para que8 ,todos sabiam que a cora era herana que no tardava4 ,quem a havia de apanhar8 ,quem tinha direito verdadeiro era a duqueza de ,bragana1 por ser filha de um irmo de ,d4 ,joo ,,iii1 ,d4 ,duarte2 quem era mais sympathico ao povo era ,d4 ,antonio1 filho bastardo de outro irmo de ,d4 ,joo ,,iii1 ,d4 ,luiz2 quem tinha mais fora era ,d4 ,filippe ,,ii1 rei de ,hespanha1 filho de uma irm de ,d4 ,joo ,,iii1 ,d4 ,isabel4 ,ainda havia outros que se diziam herdeiros1 mas entre aquelles tres que a lucta era sria4 ,ferviam as intrigas4 ,d4 ,filippe tinha em ,portugal um embaixador1 e at por signal era portuguez1 ,d4 ,christovo de ,moura1 que comprava todos quantos se queriam vender1 e bem parvos eram os que no am ao mercado4 ,as crtes1 chamadas por ,d4 ,henrique para decidir a questo1 estavam j to pouco costumadas a metter o seu bedelho n'essas questes1 que disseram ao rei que decidisse como quizesse1 apesar de berrar muito contra isso um portuguez s direitas1 procurador de ,lisboa1 e que se chamava ,phebo ,moniz4 ,o rei no decidiu cousa alguma4 ,morreu em #aehj1 e deixou o quartel general em ,abrantes1 tudo como d'antes4 ,nomeou governadores do reino uns sujeitos que se tinham j vendido aos hespanhoes1 e que de certo am escolher ,d4 ,filippe ,,ii4 ,mas1 como se demorassem1 este no esteve para os aturar1 e mandou-nos c um exercito commandado pelo duque de ,alba4 ,vendo os hespanhoes1 o povo virou-se para ,d4 ,antonio1 prior do ,crato e bastardo do infante ,d4 ,luiz1 e acclamou-o rei4 ,valente era elle1 mas no era mais nada4 ,quiz resistir aos hespanhoes com um punhado de gente que nunca pegra em armas4 ,batido em ,alcantara1 s portas de ,lisboa1 depois de algumas horas de combate1 fugiu para o ,minho1 por onde andou escondido1 at que poude safar-se para o estrangeiro4 ,filippe ,,ii entrou socegadamente em ,lisboa1 e era uma vez a independencia de ,portugal4 --,o que6 estavamos hespanhoes8 perguntou furioso o ,bartholomeu4 --,estavamos hespanhoes1 sim1 meu amigo1 e eu te vou explicar como que tinhamos chegado a isso em to pouco tempo4 ,em primeiro logar1 creio que j sabem que ,d4 ,joo ,,ii abaixra a pra de todo nobreza1 e d'ahi por diante os fidalgos ficaram sendo simplesmente criados do pao4 ,o povo ajudra o rei a fazer essa obra necessaria1 mas o rei1 apenas se viu servido1 deu-lhe para baixo1 e el-rei ,d4 ,manuel comeou a dizer que os foraes1 que eram as leis por que se governavam os concelhos1 no estavam muito claros1 e para os aclarar1 reformou-os1 quer dizer1 deu cabo d'elles4 ,em crtes j se no fallava seno de longe a longe4 ,d'antes1 pelo menos1 para se lanarem tributos novos1 sempre se reuniam as crtes4 ,d4 ,manuel no quiz que ellas se incommodassem por to pouco1 e1 para lhes poupar trabalho1 comeou elle a deitar os tributos por sua conta4 ,ora isto muito bom1 emquanto as cousas vo correndo bem4 ,o rei tem ali o seu povo manso como um leo domesticado1 com as unhas cortadas e os dentes limados1 mas1 quando vem as occasies1 o povo mette o rabinho nas pernas e no tuge nem muge4 ,para mais ajuda1 a inquisio concorria para terem todos pouca vontade de se mexer4 ,os jesuitas1 que tanto podiam fazer pela influencia que possuiam1 no se importaram para nada com isso4 ,frades como elles eram1 muito ligados entre si1 e muito escravos do seu geral que estava em ,roma1 no tinham patria1 a sua patria era a ,companhia4 ,depois1 vocs bem vem que o reino no podia deixar de estar sem foras4 ,era um sar de gente todos os annos para a ,africa1 para a ,india1 para o ,brazil1 que era uma cousa por demais4 ,no meio de tantas riquezas o paiz achava-se pobre4 ,havia muita gente rica e vadia1 mas no havia lavoura1 no havia fabricas1 no havia nada1 o dinheiro entrava por um lado para sar pelo outro4 ,demais a mais tudo era pandiga rasgada4 ,os portuguezes vinham do ,oriente descanar das suas fadigas4 ,tinham escravos para o servio1 passavam os dias na amante vadiagem4 ,no ha cousa que mais deite a perder os homens4 ,por isso ,d4 ,filippe e o seu embaixador ,christovo de ,moura encontraram tudo podre4 ,ho de vocs dizer3 ,pois ento1 s porque um rei morreu1 e s porque se perdeu um exercito1 que no era grande cousa1 perdeu-se ,portugal8 assim mesmo4 ,faltou o rei1 faltou tudo1 porque o povo nem j sabia de si1 e as crtes1 quando no havia quem mandasse alguma cousa1 nem sabiam o que haviam de fazer4 ,soldados portuguezes1 os bons1 estavam na ,india1 e no bastavam2 os que tinham voltado no pensavam seno na pandiga4 ,tudo estava alluido na nao portugueza1 veio o empurro de ,alcacer-,kibir1 foi tudo abaixo1 e eu1 meus amigos1 no vou para baixo1 vou para cima que so horas de me ir chegando ao pouso4 ,domingo continuaremos1 porque j agora havemos de acabar1 que l dizer que eu tenho muita vontade de lhes contar a historia do que se passou no tempo dos ,filippes1 isso no tenho4 ,ento que ,portugal perdeu a esperana de se levantar4 ,,setimo ,,ser,o ,portugal durante o dominio hespanhol4--,filippe ,i4--,os falsos ,d4 ,sebastio4--,ultimos esforos do prior do ,crato4--,os inglezes e hollandezes no ultramar4--,a invencivel armada4--,d4 ,filippe ,,ii4--,perda e restaurao da ,bahia4--,filippe ,,iii4--,o conde-duque de ,olivares e os privilegios das provincias4--,perda de ,pernambuco4--,tumultos de ,evora4--,o duque de ,bragana4--,a conspirao dos fidalgos4--,revoluo de #a de dezembro de #afdj4 --,meus amigos1 disse o ,joo da ,agualva no domingo immediato1 demorei-me e o resultado foi apanhar uma constipao1 que ainda mal me deixa fallar4 ,no quiz comtudo deixar de vir para se no perder este bom costume dos domingos1 mas pouco tempo me demoro1 e no farei mais do que contar-lhes a historia do que passou ,portugal com o dominio dos hespanhoes4 ,se ns ao menos tivessemos passado para uma nao forte1 com vida e com sangue1 alguma cousa lucrariamos1 mas a ,hespanha estava peor do que ns4 ,parecia muito poderosa por fra1 mas s havia podrido l dentro4 ,depois andava em guerra com a ,europa toda1 e n'essa guerra nos embrulhou para nossa desgraa4 ,apesar dos pesares1 no cuidem vocs que tudo foram rosas para o nosso rei ,filippe ,i1 que era em ,hespanha ,filippe ,,ii4 ,elle veio com psinhos de l1 prometteu respeitar as liberdades portuguezas1 nunca nos dar por governadores seno portuguezes ou principes da familia real1 jurou quanto quizeram1 mas o povo no andava satisfeito1 e1 como no tinha a quem se encostar1 pensava em ,d4 ,sebastio1 o ,desejado1 como lhe chamam4 ,assim que apparecia um homem que tinha alguma parecena com o rei fallecido1 diziam logo que era elle1 de frma que os hespanhoes estavam sempre em sobresalto4 ,por isso o rei de ,penamacor e o rei da ,ericeira1 uns pobres homens que o povo embirrou em querer que fosse cada um d'elles ,d4 ,sebastio1 e que tomaram o caso a serio1 provocaram os seus tumultos1 sendo os da ,ericeira um poucochinho graves4 ,passados tempos1 ainda appareceram l fora1 em ,hespanha e em ,italia1 dois homens que diziam ser ,d4 ,sebastio1 e que lograram muita gente1 mas esses eram verdadeiros intrujes que nem mesmo pensavam seno em comer barba-longa1 custa dos freguezes4 ,o tal amor ao ,d4 ,sebastio foi-se pegando a ponto que comeou a formar-se uma seita que ainda ha pouco tempo durava1 a seita dos sebastianistas1 que acreditavam que ,d4 ,sebastio havia de apparecer n'um dia de nevoeiro para governar em ,portugal4 ,eu ainda conheci um sebastianista4 --,e eu tambem1 acudiu o ,bartholomeu4 --,j vem que no minto4 ,mas d'esse ,d4 ,sebastio no ha de vir mal ao mundo1 nem bem que o peor4 ,d4 ,antonio tambem trabalhava pela sua banda1 e1 como a ilha ,terceira o acclamra rei1 foi-se l metter e arranjou soccorro de ,frana1 mas os hespanhoes bateram a esquadra franceza1 e tomaram a ilha4 ,depois arranjou soccorros da rainha de ,inglaterra1 que mandou uma esquadra a ,lisboa1 mas os inglezes foram repellidos1 e ,d4 ,antonio1 descorooado de todo1 foi morrer a ,paris em #aeie4 ,mas querem vocs ver o que ns ganhmos com o estar juntos ,hespanha8 ,foi termos perna os inglezes e os hollandezes1 que principiaram a sacudir-nos da ,india1 e que ento aos nossos navios faziam guerra mortal4 ,ia tudo pela agua abaixo1 e1 para mais desventura1 ,filippe lembra-se de mandar contra a ,inglaterra uma esquadra immensa1 a que chamou a invencivel armada1 e que sau do porto de ,lisboa4 ,a armada perdeu-se e l se foram os nossos melhores navios4 ,filippe morria em #aeih1 e succedia-lhe ,filippe ,,ii aqui e ,,iii em ,hespanha4 ,se as cousas tinham ido mal at ahi1 ento foram peor4 ,a ,hespanha a a ,deus e ventura1 e ns atraz d'ella4 ,o governo hespanhol1 que mal cuidava de si1 no cuidava nada de ns4 ,os inglezes e os hollandezes tomavam-nos quasi tudo o que tinhamos na ,india1 e estes ultimos tambem se mettiam no ,brazil comnosco4 ,grandes faanhas ainda se faziam1 verdade1 e da ,bahia1 por exemplo1 foram os hollandezes expulsos1 mas1 quando ,filippe ,,ii morreu em #afba1 j o nosso poder no era nem a sombra do que tinha sido4 ,succedeu-lhe ,filippe ,,iii1 e esse tinha um primeiro ministro chamado conde-duque de ,olivares1 que imaginou que havia de acabar com os privilegios das provincias1 principalmente com os de ,portugal4 ,no pensava n'outra cousa1 de frma que deixava ir as colonias1 e no ,brazil j os hollandezes tinham tomado raizes1 e estavam senhores de ,pernambuco4 ,mas os portuguezes comearam a achar a brincadeira pesada e a refilar ao ,olivares4 ,em #afcg rebentou uma revolta em ,evora1 foi logo apagada1 mas com muito sangue4 ,peor para o caso4 ,os fidalgos1 que andavam tambem damnados1 principiavam a conversar com o duque de ,bragana1 ,d4 ,joo1 e a apalpal-o para ver se elle quereria a cora4 ,o duque no dizia nem que sim1 nem que no4 ,mas n'isto a ,catalunha1 que tambem no perdoava ao ,olivares a sem-ceremonia com que elle lhe queria tirar os seus antigos privilegios1 revolta-se4 ,boa occasio6 ,os fidalgos1 em ,lisboa1 sentiam-se cada vez mais dispostos a mandar os hespanhoes para o diabo4 ,o ,olivares no fazia seno desesperal-os e atial-os4 ,tinha-lhes dado por governador a duqueza de ,mantua1 e para secretario do governo um portuguez1 ,miguel de ,vasconcellos1 que era mais damnado contra os seus patricios do que se fosse hespanhol4 ,emquanto deixava perder as colonias portuguezas1 ,olivares levava os nossos fidalgos e os nossos soldados para as guerras de ,flandres e da ,catalunha4 ,lembra-se emfim de dar ordem ao duque de ,bragana para que v para ,madrid4 ,ento que j se no podia estar com pannos quentes4 ,os fidalgos dizem ao duque de ,bragana3 ,ou acceita a cora1 ou ns pomo-nos em republica4 ,o duque1 a final1 disse que sim4 ,com a brca6 aquillo foi um momento4 ,era um punhado de homens1 os que andavam assim a conspirar2 elles no sabiam se podiam contar com o povo1 nem se no podiam1 conspiravam s claras1 que parece que em ,lisboa todos sabiam da conspirao menos os hespanhoes2 reuniam-se umas vezes em casa de ,joo ,pinto ,ribeiro1 outras vezes em casa de ,d4 ,anto de ,almada1 no jardim4 ,no dia #a de dezembro de #afdj saem todos para o meio da rua4 ,eram quarenta1 pouco mais ou menos4 ,chegam ao pao1 matam o ,miguel de ,vasconcellos1 agarram na duqueza de ,mantua e fecham-n'a chave1 desarmam a guarda1 abrem as janellas1 e dizem a quem a passando3 ,viva o duque de ,bragana1 rei de ,portugal6 viva o sr4 ,d4 ,joo ,,iv6 ,o povo diz-lhes c de baixo3 ,viva6 e viva1 e viva6 e eram uma vez os hespanhoes1 e d'ahi a pedao estava tudo to socegado como se no tivesse havido cousa nenhuma1 e os hespanhoes tinham desapparecido2 e aqui tem vocs como se faz uma revoluo quando ella est na vontade de todos4 ,digo-lhes1 rapazes1 que este dia #a de dezembro consola uma pessoa4 ,parecia que o paiz no tinha feito seno acordar de um pesadello4 ,aquillo foi s saltar da cama abaixo1 e elle ahi estava de p1 todo pimpo como em outros tempos4 ,e sabem vocs porque isto foi8 porque as naes so como as espadas1 onde enrijam na bigorna4 ,,oitavo ,,ser,o ,unanimidade da revoluo4--,preparativos de resistencia4--,organisao militar do paiz4--,as allianas4--,relaes de ,portugal com a ,hollanda4--,restaurao de ,pernambuco e de ,angola1 e perda de ,ceylo4--,conspiraes contra ,d4 ,joo ,,iv4--,guerra da ,restaurao4--,batalhas de ,montijo e de ,telena4--,d4 ,affonso ,,vi4--,a sua educao e a sua indole4--,regencia da rainha ,d4 ,luiza4--,antonio ,conti4--,o conde de ,castello ,melhor4--,continuao da guerra4--,cerco de ,badajoz4--,batalha das ,linhas de ,elvas4--,paz entre a ,hespanha e a ,frana4--,campanhas de ,d4 ,joo de ,austria4--,schomberg4--,victorias do ,ameixial1 ,castello ,rodrigo e ,montes ,claros4--,planos do conde de ,castello ,melhor4--,intrigas do ,pao4--,casamento1 desthronamento e divorcio vergonhoso de ,d4 ,affonso ,,vi4--,regencia do infante ,d4 ,pedro4--,casamento com a cunhada4--,tratado de ,methwen4--,guerra da successo de ,hespanha4--,d4 ,joo ,v4--,as minas do ,brazil4--,desperdicios1 beaterio e immoralidades4 --,meus amigos1 principiou no outro domingo o ,joo da ,agualva1 e j ninguem o interrompia1 tal era o interesse com que todos seguiam a sua narrativa2 o que succedeu na capital1 succedeu no reino todo4 ,aquillo foi chegar a noticia do que se passava em ,lisboa1 e de um momento para o outro desappareciam os hespanhoes1 e tornava tudo a ser ,portugal4 ,poupmos-lhes muita despeza em correios1 porque logo souberam pelo primeiro que ,lisboa se tinha revoltado1 que tinha vencido1 que reinava em ,portugal ,d4 ,joo ,,iv1 e que a ,hespanha1 do ,minho para baixo e do ,caya para o occidente1 j no possuia nem um palmo de terra4 ,querem vocs saber como o conde-duque de ,olivares deu a noticia ao patro8 ,foi d'esta maneira3--,dou os parabens a ,vossa ,magestade2 acabam de lhe entrar uns poucos de milhes no bolso4--,como assim8 perguntou o rei que estava a jogar1 e que no desgostaria de que lhe saisse d'essa maneira a sorte grande de ,hespanha4--,porque o duque de ,bragana1 tornou o ministro1 acaba de se revoltar1 e de se fazer rei de ,portugal1 e1 como temos de lhe tirar os bens e de lhe cortar a cabea1 fica ,vossa ,magestade mais rico4 ,o rei no gostou muito d'esse modo de enriquecer1 e ainda olhou para os parceiros a ver se algum lhe dava quatro vintens pela herana4 ,nenhum cau n'essa4 ,isso era muito bom1 mas ,portugal que no vivia de cantigas4 ,a ,hespanha era ento ainda maior do que hoje 1 e1 se ella nos casse em cima1 estavamos promptos4 ,de que precisavamos ns8 ,de dinheiro1 de soldados e de allianas4 ,tratou-se logo de tudo4 ,dinheiro votaram as crtes quanto se quiz2 para arranjar soldados fez-se uma obra fina que nunca ninguem at ahi tinha feito1 e que foi pr toda a gente em armas4 ,e como8 dividiu-se o reino em tres linhas2 a primeira de soldados1 que se chamavam pagos1 a segunda de milicianos1 e a terceira1 que era a dos velhotes1 de ordenanas4 ,uns am guerra1 os outros ajudavam-nos em sendo preciso1 sando1 o menos que podesse ser1 dos seus sitios1 e finalmente os ultimos defendiam as suas terras1 porque isso1 atraz de um muro1 todos fazem figura4 ,digo-lhes1 rapazes1 que aquillo que foi uma ida1 e olhem que no nos serviu s ento1 tambem na guerra da peninsula foi o que nos valeu1 e1 aqui para ns1 no me parece que fizessem muito bem em deitar abaixo aquella historia4 ,estava j tudo costumado1 e quando vinha uma guerra1 saltava toda a gente para o meio da rua2 e olhem que isto de estar um homem dentro de casa1 de espingarda na mo1 d que fazer aos mais pintados4 ,e logo se viu4 ,emquanto a allianas tambem no faltaram2 verdade que no serviram de muito1 porque cada um cuidava de si4 ,a ,frana1 prompta1 o que ella queria era abaixar a pra ,hespanha1 mas1 como tambem l andava em guerra com os hespanhoes1 o mais que fez foi consentir que arranjassemos officiaes francezes pelo nosso dinheiro2 a ,inglaterra1 a mesma cousa1 muita festa para a festa1 mas andava embrulhada em guerras civs1 no mandou para c nem um navio4 ,ento a ,hollanda ainda foi peor1 isso444 recebeu o nosso embaixador de braos abertos1 poz luminarias1 achou que tinhamos feito muito bem1 mas1 quando o embaixador lhe disse3 ,ento agora que estamos amigos1 venham para c as nossas colonias1 que so nossas e no dos hespanhoes1 a ,hollanda exclamou3 ,as colonias6 ah6 sim6 ns somos to amigos d'ellas6 ,esto j acostumadas comnosco6 at tinhamos pena de as deixar4 ,e acrescentava o embaixador3 ,mas ento1 c'os diabos1 ao menos no nos tomem mais nenhuma4--,no tomamos1 dizia a ,hollanda1 isso nunca4 ,ora agora sabem vocs8 as colonias so como as cerejas4 ,o caso apanhar uma4 ,ah6 elle isso6 disseram os portuguezes comsigo1 pois ento vamos a ellas4 ,e1 zs1 rebenta uma revolta em ,pernambuco1 e os brazileiros a berrarem3 ,viva ,d4 ,joo ,,iv6 ,a ,hollanda chamou o nosso embaixador3 ,ento que diabo isso8 ns somos amigos e fazem-nos uma partida d'estas6--,patifes6 dizia o embaixador4 ,aquillo do sol6 esquenta-lhes a cabea1 e do por paus e por pedras4 ,mas1 aqui para ns1 se elles dizem3 ,viva ,d4 ,joo ,,iv1 no havemos de lhes ir dizer3 ,morra ,d4 ,joo ,,iv6 ,no nos ficava bem4--,pois sim1 mas digam-lhes que estejam quietos4--,pois isso dizemos ns4 ,e ,d4 ,joo ,,iv mandava para l armas e officiaes1 e dizia-lhes3 ,ahi vae isso1 que para vocs estarem quietos4 ,e em poucos annos estavamos senhores de ,pernambuco1 e os hollandezes na rua4 ,d'ahi a tempos1 ,salvador ,correia de ,s a a ,angola e punha fra os hollandezes que nos tinham tomado esse reino4--,ento isto que vem a ser8 bradaram os hollandezes1 ento os senhores vo de proposito do ,brazil a ,angola para nos sacudir6--,quem que fez isso8 perguntava o embaixador4--,salvador ,correia de ,s4--,sim6 pois estejam vocs descanados1 que lhe vamos j perguntar pelo correio1 que diabo de lembrana foi essa4 ,em vindo resposta c lh'a mandamos4 ,e a proposito1 sr4 ,hollanda1 vocs tomaram-nos ,ceylo8--,tommos ,ceylo1 mas que defeza6 ,antonio de ,sousa ,coutinho defendeu-se maravilhosamente4 ,os nossos generaes so todos accordes que nunca encontraram resistencia to desesperada6 ,quando escreverem para l1 mandem os nossos parabens ao sr4 ,antonio de ,sousa ,coutinho e recommendaes aos amigos4 ,e era assim que ns estvamos com a ,hollanda3 abraos na ,europa e lambada l por fra4 ,houve s duas crtes que no quizeram nunca reconhecer a independencia de ,portugal2 uma foi a crte de ,roma que estava toda nas mos dos hespanhoes1 e a outra a da ,allemanha1 cujo imperador era da mesma familia que a do rei ,filippe4 ,e fizeram-nos transtorno3 a primeira porque estvamos assim a modo excommungados1 a segunda por uma patifaria que praticou o imperador1 mandando prender sem mais nem menos o principe ,d4 ,duarte de ,bragana1 irmo de ,d4 ,joo ,,iv1 que andava por l na guerra contra os turcos1 e que tanta conta nos faria em ,portugal4 ,morreu na cadeia o pobre rapaz por causa de ns e da traio do tal imperador4 ,em ,portugal1 ao principio1 tinha ido tudo bem1 mas1 assim que passou aquelle primeiro fogo1 houve muitos que comearam a pensar no caso e que disseram comsigo3 ,isto foi uma grande asneira4 ,vem ahi os hespanhoes e do cabo de todos ns4 ,o melhor pormos as costas no seguro1 e1 antes que elles venham ter comnosco1 vamos ns ao encontro d'elles1 que sempre apanharemos alguma cousa4 ,e n'isto desatam a conspirar contra ,d4 ,joo ,,iv4 ,foram castigados cruelmente4 ,morreram muitos com a cabea cortada1 e mais nem todos eram culpados4 ,mas que querem vocs8 ,a mania de ,d4 ,joo ,,iv era que o no tomariam a srio como rei em ,madrid1 emquanto no mandasse cortar a cabea a alguem4 ,pois em primeiro logar visse bem a quem matava1 e em segundo logar eu sempre ouvi que os reis1 quando so mais reis1 quando perdam4 ,e1 alem d'isso1 os hespanhoes quando tomaram a srio ,d4 ,joo ,,iv no foi quando elle mandou cortar a cabea a fidalgos portuguezes1 mas quando os soldados portuguezes lhes comearam a esfregar as costas a elles4 ,l que os taes conspiradores tinham raso em estar com medo1 isso tinham1 porque parecia mesmo impossivel que ,portugal resistisse4 ,tambem o que nos valeu foi a asneira dos hespanhoes1 que nos primeiros dois annos no fizeram seno dar um rebate falso a uma praa1 atacar outra1 escaramuar aqui1 disparar uns tiros alem4 ,parecia que estavam incumbidos por ,d4 ,joo ,,iv de fazer andar os nossos soldados na recruta4 ,em #afdd que1 pela primeira vez1 fizeram assim movimento mais serio1 mas j tinhamos ento soldados velhos1 commandados por um bom general1 ,mathias de ,albuquerque1 e os amigos hespanhoes levaram a primeira sova mesmo l na sua terra1 em ,montijo2 em #afdf nova batalha em ,telena1 mas n'essa perdemos ns mais do que lucrmos1 ainda que os hespanhoes com isso nada ganharam tambem1 porque voltaram costumeira antiga4 ,emfim1 para encurtar rases1 quando ,d4 ,joo ,,iv morreu1 em #afef1 estavamos havia dezeseis annos n'aquella brincadeira1 hoje amos ns ,hespanha e apanhavamos gado1 manh vinham elles c e levavam-nos o nosso4 ,mas quem lucrava com isso8 ramos ns1 porque os nossos milicianos1 e as nossas ordenanas am-se costumando guerra1 e cada vez este bocadinho de ,portugal se a tornando para a ,hespanha mais duro de roer4 ,em #afef morreu pois ,d4 ,joo ,,iv1 como eu lhes disse1 e succedeu-lhe seu filho ,d4 ,affonso ,,vi1 a quem chamaram o ,victorioso1 como chamaram a ,d4 ,joo ,,iv o ,restaurador1 mas emfim a este com mais um bocadinho de raso4 ,d4 ,affonso ,,vi no era o filho mais velho1 mas o mais velho1 um rapazito que dava esperanas1 ,theodosio1 morrera em #afec4 ,d4 ,affonso ,,vi fra desde creana muito doente1 nunca podra aprender cousa nenhuma e tivera uma educao muito descuidada4 ,o seu gosto era brincar com os garotos que am para debaixo das janellas do pao1 e1 quando foi homem1 andava em pandigas pela cidade1 com uma roda de facinoras que faziam tudo o que queriam sombra d'elle1 a ponto que at havia mortes nas ruas de ,lisboa6 ,como ainda era pequeno quando seu pae morreu1 ficou regendo o reino sua me ,d4 ,luiza de ,gusmo1 uma hespanhola muito decidida1 que diziam at que fra quem mais concorrera para o marido acceitar a cora4 ,a regente l foi governando com acerto1 emquanto o rapazote andava ao lar com um tal ,antonio ,conti1 que lhe soubera conquistar a amisade4 ,a rainha um dia pegou n'esse ,antonio ,conti1 e ferrou com elle desterrado no ,brazil4 diabo que tal fizeste6 o pequeno zanga-se1 e1 quando o conde de ,castello ,melhor lhe disse que era bom que comeasse a governar por si1 porque tinha j chegado maioridade1 ,d4 ,affonso1 para pregar pirraa me1 acceitou2 eu no louvo o conde de ,castello ,melhor por ter aconselhado esta aco1 mas a verdade que ,d4 ,affonso ,,vi j estava em idade de governar1 e que1 se no podia dirigir os negocios1 sempre era melhor que por elle os dirigisse um homem como o conde de ,castello ,melhor1 que tinha uma excellente cachimonia1 do que a rainha1 que1 apezar de ser esperta1 sempre era senhora1 e por isso menos capaz de governar o reino em tempo de guerra4 ,bem conheo que ,d4 ,affonso ,,vi era um mau rei1 que no tinha juizo1 que se entregava a divertimentos indecentes e at criminosos1 mas uma qualidade tinha elle1 percebia perfeitamente que no sabia cuidar do reino1 e deixava o ,castello ,melhor fazer tudo quanto queria4 ,ora o ,castello ,melhor era uma das melhores cabeas que tem governado o nosso paiz1 como vocs vo ver1 porque bom que saibam o que se passra na guerra4 ,logo depois da morte de ,d4 ,joo ,,iv1 um general portuguez1 ,joo ,mendes de ,vasconcellos1 fizera grande asneira4 ,vendo que os hespanhoes andavam s a fazer fosquinhas1 disse comsigo3 ,no nos ho de conquistar1 e havemos de ser ns que os conquistaremos a elles4 ,junta um exercito magnifico1 e vae cercar ,badajoz4 ,ainda ali ganhmos uma batalha1 que foi a do ,forte de ,s4 ,miguel1 mas a final tivemos de levantar o cerco1 depois de havermos perdido inutilmente a flor dos nossos soldados4 ,ora o que succedeu8 ,foi que1 no anno seguinte1 quer dizer em #afei1 os hespanhoes1 picados com o nosso atrevimento1 saram da sua pachorra1 juntaram um exercito formidavel commandado pelo proprio ministro do rei1 ,d4 ,luiz de ,haro1 vieram sobre ,portugal e cercaram ,elvas4 ,a cousa esteve phosphorica1 porque os nossos melhores soldados tinham ficado estendidos diante de ,badajoz1 e andava isto por c muito desarranjado4 ,mas para alguma cousa haviam de servir os dezenove annos de guerra4 ,em primeiro logar ,elvas1 governada por ,d4 ,sancho ,manuel que foi depois conde de ,villa ,flor1 defendeu-se admiravelmente1 em segundo logar o conde de ,cantanhede1 depois marquez de ,marialva1 como no tinha outra gente1 reuniu um exercito quasi todo de milicianos e saltou nos hespanhoes que cercavam ,elvas4 ,foi no dia #ad de janeiro de #afei que se deu a batalha1 conhecida pelo nome de batalha das linhas de ,elvas1 e nunca os hespanhoes apanharam tamanha pilota4 ,os prisioneiros foram aos milhares1 artilheria1 bagagens1 tudo nos cao nas mos1 e o proprio ,d4 ,luiz de ,haro escapou-se por um fio4 ,tambem nunca mais nos perdoou aquella sova1 e1 quando n'esse mesmo anno foi fazer a paz com a ,frana1 deu aos francezes tudo quanto elles quizeram1 s com uma condio--a de se no fallar em ,portugal4 ,era patifaria grada do ministro francez1 um padre1 um tal cardeal ,mazarino1 porque as tareias que davamos nos hespanhoes tinham feito muita conta aos francezes4 ,mas o ,mazarino foi apanhando o que poude1 e pouco lhe importou mandar-nos fava4 ,vem vocs a situao em que ficmos4 ,quando comemos a guerra com a ,hespanha1 estava ella em guerra tambem com quasi toda a ,europa1 o que no era mau para ns4 ,em #afdh fez a paz com muitas naes1 e isso no foi l muito bom1 porm1 como a ,frana continuava em guerra1 e essa s por si dava mais que fazer ,hespanha do que todas as outras juntas1 ainda a cousa no a mal2 mas agora8 ,a ,frana fazia a paz1 quasi que se alliava com os hespanhoes1 porque o rei de ,frana1 ,luiz ,,xiv1 casava com uma princeza hespanhola1 e ns que ficavamos em campo1 com a ,hespanha s costas4 ,ella ainda esteve dois annos a apalpar-nos1 mas em #affb rompeu o fogo com alma4 ,poz um dos seus melhores generaes1 ,d4 ,joo de ,austria1 filho bastardo do rei1 frente dos seus exercitos1 e cau em cima de ns com todo o seu peso4 ,ora foi exactamente em #affb que entrou no poder o conde de ,castello ,melhor1 e foi sobre elle que desabou esse temporal desfeito4 ,nunca ,portugal se vira em to maus lenoes4 ,d4 ,joo de ,austria tomava praas sobre praas1 e na campanha do anno immediato1 #affc1 quasi que chegava s portas de ,lisboa4 ,mas o ministro fizera o diabo1 parece que at das pedras tinha feito soldados4 ,depois1 como ,mazarino era um finorio1 que no desgostava de jogar com pau de dois bicos1 ao passo que contentava a ,hespanha1 mandava-nos para c os officiaes que podia1 entre elles o conde de ,schomberg1 que era um general de mo cheia4 ,no commandou nunca em chefe1 porque os nossos no gostavam1 e tinham raso1 que elles j haviam dado provas de que no precisavam de tutores2 mas foi um excellente conselheiro4 ,o que certo1 meus amigos1 que1 em tres annos successivos1 em que os hespanhoes fizeram todos os esforos para dar cabo de ns1 levaram tres sovas mestras2 a primeira deu-lh'a em #affc o conde de ,villa ,flor na batalha do ,ameixial1 a segunda em #affd ,pedro ,jacques de ,magalhes na batalha de ,castello ,rodrigo1 a terceira em #affe na batalha de ,montes ,claros o marquez de ,marialva4 ,d'ahi por diante nunca os hespanhoes levantaram cabea1 e no pensaram mais em tomar conta outra vez de ,portugal4 ,ora o conde de ,castello ,melhor tinha uma grande ida2 dizia elle comsigo3 os hespanhoes levaram tanta pancadaria1 que1 se fazemos a paz com elles1 ficando ns simplesmente com o que tinhamos ao principio1 pde-se dizer que fomos logrados4 ,demais a mais ,portugal pequeno1 a ,hespanha grande2 em qualquer bulha que tivermos estamos de mau partido4 necessario fazer ,portugal maior e a ,hespanha mais pequena4 ,e toda a sua tineta era obrigar os hespanhoes a dar-nos a ,galliza4 ,e o que fazia elle ento8 ,encostava-se a ,luiz ,,xiv1 rei de ,frana1 que andava namorando umas provincias hespanholas l de ,flandres4 ,casava ,d4 ,affonso ,,vi com uma princeza franceza1 e dizia comsigo3 ,mais dia menos dia1 ,luiz ,,xiv pega-se com a ,hespanha4 ,ns vamos com elle4 ,a ,hespanha leva para o seu tabaco a valer4 ,elle fica com as provincias que quizer1 at com a ,flandres toda1 se isso lhe fizer conta1 e ns com a ,galliza1 e com mais alguma cousa se podr ser4 --,e era bem pensado1 sr4 ,joo da ,agualva1 observou o ,bartholomeu1 porque que no havia de ser nossa a ,galliza8 --,tens raso1 e j vs que1 se ns tivessemos a ,galliza tambem1 no estavamos sempre com medo de ser engulidos pelos visinhos4 ,mas que queres tu8 ,entretanto am grandes intrigas no pao4 ,a rainha1 que era uma princeza toda lir e toda costumada s janotices da crte de ,luiz ,,xiv1 achando-se casada com um homem que s se dava bem com moos de cavallaria1 e que de mais a mais era to doente que nem marido podia ser1 principiou a desgostar-se1 e ao mesmo tempo a agradar-se do infante ,d4 ,pedro1 rapaz desempennado1 que tambem no desgostava da francezita4 ,pensaram em se juntar e governar o paiz4 ,principiaram as intrigas4 ,tanto fizeram que conseguiram pr fra o conde de ,castello ,melhor4 ,desamparado1 o pobre ,d4 ,affonso ,,vi no tardou a ser expulso do throno1 e at o descasaram1 coitado6 ,foi necessario para isso um processo que uma vergonha1 e realmente no posso perceber como foi que uma rainha se deixou assim andar nas bcas do mundo6444 ,emfim1 o que certo que desterraram o pobre ,d4 ,affonso ,,vi1 mandando-o para a ilha ,terceira2 prenderam-n'o depois em ,cintra1 onde morreu1 e a rainha casou com o cunhado1 e este ficou a governar o reino4 ,eu j lhes disse1 rapazes1 que bem conheo os defeitos de ,d4 ,affonso ,,vi2 mas o pobre homem1 que era mesmo uma creana1 que se no importava para nada com a politica1 que tivera a fortuna de acertar com um bom ministro que governava por elle e governava bem1 no merecia que lhe fizessem similhante entrega6 ,mette d1 porque elle nem sabia defender-se1 andava ali como o menino nas mos das bruxas4 ,e o irmo1 que lhe tirra a cora1 e que lhe tirra a mulher1 nem ao menos lhe dava a sua liberdade1 nem lhe consentia que espairecesse4 ,tinha-o preso n'um quarto em ,cintra1 e ali o deixou morrer de aborrecimento e de desgosto1 a elle que nunca fizera mal a ninguem seno com as suas tolas rapaziadas6 ,emfim1 passemos adiante6 ,o que certo que isto succedeu em #affg1 e logo no anno seguinte de #affh fazia-se a paz com a ,hespanha1 sem lucro nenhum para ns1 porque nem ao menos apanhavamos a praa africana de ,ceuta1 que era to nossa1 por causa da qual morreu no captiveiro o infante santo1 e que em #afdj no conseguira livrar-se dos hespanhoes4 ,tanto se empenhra em governar o reino o sr4 ,d4 ,pedro ,,ii1 que desde #affg at #afhc1 anno em que morreu ,d4 ,affonso ,,vi1 s tomou o titulo de regente1 e a final de contas no fez seno tolices4 ,demais a mais algumas cousas boas que deixou fazer1 logo as desmanchou4 ,um ministro que elle teve1 o conde da ,ericeira1 quiz ver se fundava fabricas em ,portugal1 mas em #agjc um tratado com a ,inglaterra1 conhecido pelo nome de tratado de ,methwen1 que este era o nome do embaixador que o assignou1 deu cabo da nossa industria4 ,conservou-se em paz1 tanto que lhe deram o nome de ,pacifico1 e vae no fim do seu reinado mette-se sem mais nem menos na guerra da successo de ,hespanha1 favorecendo ,d4 ,carlos da casa de ,austria contra ,d4 ,filippe da casa de ,bourbon4 ,como tinhamos ento um excellente general1 que era o marquez das ,minas1 deu-nos este o gostinho de entrar victorioso em ,madrid1 e de proclamar ali ,d4 ,carlos rei de ,hespanha2 mas esse gostinho no tardmos a amargal-o1 porque1 morrendo ,d4 ,pedro ,,ii no dia #a de dezembro de #agjf1 logo no dia #be de abril de #agjg era o marquez das ,minas batido na batalha de ,almanza com graves perdas para ns1 tanto que at ao fim da guerra pde-se dizer que nunca mais levantmos cabea4 ,subio ao throno ,d4 ,joo ,v1 e eu1 para lhes dizer a verdade1 o que no posso perceber como ha historiadores que gabam aquelle rei4 ,c para mim foi um dos peores que ns tivemos4 ,possuia algumas qualidades que no eram de todo ms1 era porm o mesmo que se as no tivesse1 porque no pensava seno no beaterio1 e em obras grandes e magnificas1 que a maior parte das vezes para nada serviam4 ,logo por desgraa foi n'esse reinado que comearam a render rios e rios de dinheiro as minas do ,brazil1 e tudo era pouco para o rei que no cuidava seno de si e nada do reino4 ,por exemplo1 achou-se embrulhado com a ,hespanha e com a ,frana n'uma guerra que no seu tempo no foi seno desastrosa4 ,uns corsarios francezes deram-nos cabo do ,rio de ,janeiro e levaram-nos umas riquezas espantosas4 ,pois no encontrou aquelle homem uns poucos de navios para saltarem tambem nas colonias francezas1 ou para protegerem as nossas6 ,emfim6 se os no tinhamos1 paciencia6 ,mas d'ahi a pouco sau de ,lisboa uma excellente esquadra em soccorro do papa1 commandada pelo conde do ,rio ,grande1 esquadra que foi bater os turcos no cabo ,matapan6 ,ora vejam se ha um patarata assim6 ,annos depois1 por causa de uns insultos feitos em ,madrid ao nosso embaixador1 est para rebentar a guerra com a ,hespanha4 ,fazem-se preparativos1 e v-se que no temos nem exercito1 nem marinha4 ,de que tratou logo ,d4 ,joo ,v8 ,de comprar armamento8 ,qual historia6 ,de mandar fazer em ,paris1 para si1 uma barraca de campanha muito rica1 e to luxuosa que toda a gente a a ver66 ,no tinhamos estradas1 no tinhamos rios canalisados1 no tinhamos desentulhados os portos1 no tinhamos nada do que nos era necessario1 mas tinhamos aquella monstruosidade do convento de ,mafra que custou #abj milhes de cruzados1 que no serve para cousa nenhuma1 e que nem ao menos bonito4 ,dizem que gostava muito de imitar ,luiz ,,xiv1 mas o que me dizia o engenheiro francez que esteve aqui em ,bellas1 que ,luiz ,,xiv mandava ir sabios para ,frana1 dava penses aos sabios estrangeiros1 e este o que dava era dinheiro para igrejas1 e o que mandava vir era de ,roma bullas e capellas4 ,dizem que nunca deixou s naes estrangeiras pr p em ramo verde comnosco4 ,quem lhe valeu para isso foram os diplomatas que teve1 que nunca em ,portugal os houve to bons1 e tambem o ser to orgulhoso que a aos ares s com a ida de que mangavam com elle4 ,mas no mais no me fallem em ,d4 ,joo ,v1 que at me sobe o sangue cabea4 ,pois vocs conhecem cousa que mais indigne do que ir um homem ali para ,lisboa1 no campo da ,l1 ver os inquisidores queimarem gente de bem1 ou porque no gostavam de toucinho1 ou porque nem sempre am missa1 e depois montar a cavallo1 para se metter em ,odivellas na cella de uma freira e passar ali a noite8 ,eu digo que me chega a parecer nem sei o que uma malvadez assim4 ,morreu em #agej esse rei que no fez nada bom em ,portugal1 a no ser as ,aguas-,livres4 ,pouco mais dinheiro gastou que se podesse dizer que fosse bem gasto4 ,e digo-lhes que1 se vocs olharem para o paiz1 at lhes ha de fazer pena4 ,a nobreza j no se compunha seno simplesmente de criados do pao1 o clero immenso e corrompido enchia o reino com os seus padres e os seus conventos1 e conservava o povo n'uma ignorancia completa1 o povo1 miseravel1 vadio1 ou emigrava para o ,brazil1 ou pedia esmola s portarias dos conventos1 ou sentava-se ao sol4 ,tinhamos chegado ao mais baixo a que podiamos chegar4 ,felizmente1 quando uma nao desce a tal ponto1 sempre apparece alguem que a levante e esse1 eu1 para o outro domingo1 lhes direi quem foi4 ,por hoje basta4 ,quando fallo no sr4 ,d4 ,joo ,v1 o ,magnifico1 e penso no mal que elle fez ao paiz1 fico sempre macambusio1 e ento o melhor ir-me deitar4 ,,nono ,,ser,o ,d4 ,jos ,i4--,as transformaes sociaes4--,o marquez de ,pombal e a revoluo4--,terramoto de #a de novembro de #agee4--;,as grandes reformas de ,sebastio de ,carvalho4--,expulso dos jesuitas4--,reforma da universidade4--,reorganisao do exercito4--,agricultura4--,industria4--, inquisio4--,christos novos e christos velhos4--,politica estrangeira4--,energia com ,roma e com ,inglaterra4--,reconstruco de ,lisboa4--,estatua de ,d4 ,jos4--,attentado contra o rei4--,supplicio dos ,tavoras4--,d4 ,maria ,i4--,reaco contra as medidas do marquez de ,pombal4--,processo do grande ministro4--,pina ,manique1 ,francisco de ,almada4--,martinho de ,mello4--,loucura da rainha4--,regencia do principe ,d4 ,joo4--,a republica franceza4--,campanha do ,roussillon4--,campanha de #ahja4--,napoleo e o tratado de ,fontainebleau4--,fuga da familia real para o ,brazil4--,guerra peninsular4--,congresso de ,vienna4--,d4 ,joo ,,vi4--,conspirao de #ahag4--,revolta de ,pernambuco4--,revoluo de #ahbj4 ,ho de vocs notar1 rapazes1 observou o ,joo da ,agualva mal todos se sentaram no domingo seguinte em torno da lareira1 que1 em estando para haver uma grande mudana na sorte dos homens1 parece que todos1 sem o querer e sem o saber1 trabalham para essa mudana1 desejando fazer muitas vezes exactamente o contrario4 ,por exemplo1 lembram-se vocs que ali por #aejj que os reis se fizeram senhores absolutos1 porque acabaram com os privilegios da nobreza1 e com os foraes do povo4 ,quem que contribuiu para isso8 ,o povo1 que ajudou o rei a dar cabo dos nobres4 ,agora encaminha-se tudo para a liberdade e para a igualdade1 e quem que no nosso paiz vae concorrer mais para similhante cousa8 ,o marquez de ,pombal4 ,dir-me-ho vocs3 ,ento o marquez de ,pombal era algum liberalo por ahi alem como os de vinte8 ,qual historia6 ,era um tyranno e dos mais ferozes que nunca houve1 mas1 sem o querer e sem o saber1 ninguem mais do que elle trabalhou pela liberdade4 ,em primeiro logar ho de vocs saber que o rei ,d4 ,jos1 que subiu ao throno por morte de seu pae ,d4 ,joo ,v1 quasi que nem conhecia o marquez de ,pombal1 que j era homem dos seus cincoenta annos1 e que tinha andado por fra como embaixador1 ora em ,londres1 ora em ,vienna de ,austria1 onde casra com a filha de um figuro austriaco4 ,quem metteu empenhos para que elle fosse ministro foi a me de ,d4 ,jos1 ,d4 ,marianna se chamava ella1 archiduqueza de ,austria1 e por isso amiga da mulher do marquez1 que ento se chamava simplesmente ,sebastio ,jos de ,carvalho e ,mello4 ,era um ministro como os outros1 e o rei no fazia mais caso d'elle do que fazia dos seus collegas1 quando de repente acontece uma grande desgraa em ,lisboa1 que veio a ser o terramoto do dia #a de novembro de #agee4 ,a cidade foi quasi toda a terra1 morreram muitas mil pessoas1 outras ficaram a pedir esmola1 e sobretudo reinava um terror tamanho que ninguem sabia o que havia de fazer nem para onde se havia de virar4 ,o ,sebastio de ,carvalho no perdeu a tramontana4 ,toma elle a direco de tudo1 arranja sustento1 enforca s portas da cidade quantos ladres apanha1 porque isso ento era uma praga1 trata do desentulho1 e logo em seguida de reconstruir a cidade1 isto com uma actividade1 com um desembarao1 com um acerto1 que ,d4 ,jos disse comsigo3 ,temos homem6 ,d'ahi por diante quem governou foi elle1 e de uma pessoa pasmar ver o que fez4 ,at ahi os governos1 para fallar a verdade1 em quem menos pensavam era no povo e no paiz4 ,o dinheiro do estado no servia seno para elles fazerem o que lhes agradava1 e por felizes se podiam dar os povos quando lhes dava o capricho para cousas uteis4 ,sebastio ,jos de ,carvalho e ,mello tratou do paiz e mais nada4 ,ora de que que o paiz precisava8 ,precisava1 primeiro que tudo1 de acabar com as despezas no gosto das que fazia el-rei ,d4 ,joo ,v1 que era umas mos rotas com fidalgos e com igrejas4 ,precisava de poder pensar e estudar1 sem ser sempre debaixo da palmatoria dos frades e dos jesuitas4 ,precisava de acabar com a inquisio1 porque era uma vergonha que ainda se queimasse gente em ,portugal s porque no a missa4 ,precisava de ter exercito e de ter marinha4 ,precisava de ter industria4 ,precisava de ter lavoura4 ,e nada d'isto elle tinha4 ,sebastio de ,carvalho via estas cousas e disse comsigo3 ,mos obra4 ,ora digam-me vocs3 ,quando chegam a uma quintarola que compraram e vem tudo estragado3 os pardaes a darem cabo da fructa1 as cearas a morrerem sede1 a terra fraca por falta de estrume1 as hervas ruins a afogarem o trigo1 o que que fazem8 ,arregaam as mangas e dizem3 ,vamos a isto4 ,e sacham as hervas1 sem d nem piedade1 e saltam ao tiro nos pardaes at os prem fra1 e deitam estrume na terra1 e levam a agua da rega para as cearas1 e levantam os muros arrasados1 e enxotam os porcos que lhes vinham fossar nas batatas1 e sacodem as gallinhas que lhes depinicavam tudo1 e at vocs se riam se os accusassem de crueldade porque matavam os pardaes1 ou porque arrancavam e deitavam fra as hervas ruins4 ,pois ,sebastio ,jos de ,carvalho e ,mello tratou ,portugal exactamente como vocs tratariam a tal quintarola4 ,olhou para tudo e disse comsigo3 ,eh6 com os diabos1 como isto est4 ,no pao ha um bando de pardaes que d cabo da melhor fructa dos pomares da nao4 ,toca a enxotar os pardaes1 e1 como os pardaes refilaram1 saltou ao tiro n'elles4 ,as cearas da intelligencia1 que tambem so trigo porque do o po do espirito1 no podiam medrar porque os affogava por toda a parte o joio do jesuitismo4 ,toca a sachar os jesuitas4 ,os muros da quinta estavam arrasados1 quer dizer1 estavam as fronteiras a descoberto1 e em vez de haver fortes o que havia era igrejas1 e elle mandou fazer o forte da ,graa em ,elvas1 e poz o exercito a direito1 mandando vir para isso um militar estrangeiro1 o principe de ,lippe1 que era da escola de um rei da ,prussia que foi o primeiro militar do seu tempo4 ,no havia lavoura nem havia industria1 porque ninguem lhe dava a proteco da rega e do adubo1 e ,pombal deu-lhe tudo isso moda do seu tempo1 que elle tambem no podia adivinhar o que hoje se sabe4 ,elle reformou os estudos e a universidade1 elle fundou companhias e fabricas1 elle partiu os dentes inquisio1 elle poz fra os jesuitas1 elle tirou a censura dos livros aos padres1 elle acabou com distinces de christos-novos e christos-velhos1 e na ,india e no ,brazil acabou tambem com todas as tolices das raas1 elle arreganhou os dentes a ,roma1 e soube pr o papa no seu logar1 elle bateu o p ,hespanha1 elle fez-se respeitar da ,inglaterra1 elle acabou com os morgados pequenos que s faziam mal lavoura1 elle no deixou que entrassem para padres e frades todos quantos o queriam ser1 porque1 se as cousas continuassem assim1 s duas por tres no havia seno cabeas rapadas em ,portugal1 emfim1 meus amigos1 de uma pessoa pasmar ver que aquelle diabo de homem1 que ao mesmo tempo fazia de ,lisboa uma cidade nova e levantava uma estatua ao seu rei no ,terreiro do ,pao1 em tudo poz a mo1 tudo melhorou1 tudo reformou1 tudo arranjou1 e pde-se dizer que virou a nao de dentro para fra4 ,j se v que fez tudo isto com o posso1 quero e mando4 ,mas a quem que prestou verdadeiros servios8 ,foi liberdade1 porque tirou o povo da miseria e da ignorancia em que vivia1 porque o livrou de ter os jesuitas por tutores1 e assim o animou a cuidar dos seus direitos1 e o preparou para um bello dia reclamar a liberdade4 ,foi cruel1 bem sei1 no digo menos d'isso4 ,tratou os homens como se fossem pardaes1 e praticou mesmo barbaridades escusadas2 mas que diabo6 no sei que sina esta3 reforma grada sem muito sangue parece que no ha modo de se fazer2 uma vez so os reformadores que derramam o seu proprio sangue1 e ento que a reforma vem de ,deus1 como acontece com o christianismo2 outras vezes os reformadores derramam o sangue dos outros1 e ento que a reforma vem dos homens1 como aconteceu com a revoluo franceza2 porque l isso de regar as arvores do bem com o sangue das nossas proprias veias1 ,deus que o ensina1 que os homens s por si no so capazes de chegar a tanto4 -- sr4 ,joo1 exclamou o ,bartholomeu1 mas parece-me que tenho ouvido dizer que os ,tavoras1 o duque de ,aveiro e os mais fidalgos soffreram tormentos do diabo ali na praa de ,belem4 ,ora1 ainda que fosse necessario dar cabo d'elles1 acho que no era preciso atormental-os1 e que o marquez de ,pombal tinha na verdade cabellos no corao4 --,no digo menos d'isso1 ,bartholomeu1 mas ouve l uma cousa3 tu sabes porque que os fidalgos foram executados1 no sabes8 ,foi por darem uns tiros no rei4 ,elles queriam livrar-se do ministro1 o rei no largava o ministro1 cada vez se lhe agarrava mais1 como depois mostrou1 fazendo-o conde de ,oeiras e marquez de ,pombal1 e ento lembraram-se de dar cabo de ,d4 ,jos4 ,ora sabes tu como fra castigado em ,frana1 pouco tempo antes1 um homem que tinha querido matar o rei ,luiz ,,xv8 ,foi posto a tormentos1 depois nas feridas abertas deitaram-lhe chumbo a ferver1 e a final ataram-n'o aos rabos de quatro cavallos1 e esquartejaram-n'o4 ,e comtudo ninguem diz que ,luiz ,,xv tivesse cabellos no corao4 ,as cousas faziam-se assim no seu tempo1 no foi o marquez de ,pombal que as inventou4 ,ho de vocs dizer3 ,este diabo gaba sempre as tyrannias por toda a parte4 ,j defendeu ,d4 ,joo ,,ii1 agora defende o marquez de ,pombal4 ,eu no as louvo1 rapazes4 ,se vivesse n'esses tempos e podesse1 havia de berrar contra ellas2 mas c de longe1 vendo as cousas com socego1 digo que ninguem perfeito1 e que todos os homens tem1 como dizia o tal engenheiro francez que esteve em ,bellas1 os defeitos das suas qualidades4 ,ali est o ,francisco ,artilheiro que foi soldado3 havia de ter servido com muitos coroneis4 ,encontrou algum que fosse teso a valer e que ao mesmo tempo desatasse a chorar1 no tempo das varadas1 quando tinha de mandar chibatar algum soldado8 ,no pde ser4 ,estes pimpes que quebram todos os abusos1 que pem um joelho de ferro em cima de todas as revoltas1 fazem aos homens o mesmo que fazem s cousas1 e o dever de quem depois conta a historia perceber isso tudo1 e no estar a berrar contra aquelles que fizeram servios ao seu paiz1 s porque nem sempre paravam onde seria melhor que tivessem parado4 ,mas vamos ns ao resto da historia que d'aqui a pouco j as noites so mais pequenas1 e mal chega o tempo para dormir a quem tem de se levantar com o sol4 ,d4 ,jos morreu em #aggg1 e1 apenas elle fechou os olhos1 rebentou o odio que havia contra o grande ministro2 ninguem quiz l pensar no bem que elle tinha feito1 e todos clamaram contra as suas crueldades4 ,demais a mais quem succedia a ,d4 ,jos era sua filha a rainha ,d4 ,maria ,i1 muito beata1 embirrando muito com o marquez1 porque desconfiava que elle quizera fazer passar o throno para o filho d'ella1 um rapazito muito esperto1 chamado ,d4 ,jos2 e ento o rei a morrer hoje e o ministro a ser demittido manh4 ,no houve picardia que lhe no fizessem4 ,mandaram-n'o para a sua quinta do ,pombal1 e1 estando elle j doente e amargurado1 moeram-n'o com perguntas porque lhe armaram um processo4 ,se podessem desfazer tudo o que elle fizera1 desfaziam1 mas a final s soltaram os presos1 porque emquanto ao mais tiveram medo de dar bordoada no finado rei1 que a final de contas respondia pelos actos do ministro1 porque elle que assignava as ordens4 ,tiraram o retrato do marquez da memoria do ,terreiro do ,pao1 qu s em #ahcd se tornou a pr como era justo2 em vez do retrato pozeram as armas de ,lisboa que so um navio vla1 e foi ento que o marquez de ,pombal disse1 ao saber do caso3 ,ai6 ,portugal que vaes a vla6 ,bem quizera ,d4 ,maria ,i admittir os jesuitas outra vez1 mas no podia ser1 porque o marquez de ,pombal no s os expulsra de ,portugal1 mas fizera uma liga contra elles em toda a ,europa1 e conseguira que o papa ,clemente ,,xiv acabasse com a ,ordem4 ,muito trabalharam os parentes dos ,tavoras para conseguir que se dsse uma sentena a declarar que era peta o que se dissera a seu respeito1 e injusta a sentena que os condemnava2 mas a final no conseguiram isso1 porque a rainha percebeu que1 condemnando o marquez de ,pombal1 a quem condemnava era ao pae4 ,no mais tudo andou para traz1 a no ser na marinha1 que teve um bom ministro1 ,martinho de ,mello1 e n'isto de escolas que sempre se foram desenvolvendo4 ,houve alem d'isso dois homens que fizeram muito bem a ,lisboa e ao ,porto1 a saber1 o intendente da policia ,pina ,manique e o corregedor do ,porto ,francisco de ,almada4 que j se no podia deixar de cuidar de melhoramentos2 mas o que deu cabo de ns foi a birra que tivemos em nos metter na bulha contra a republica franceza4 ,isso1 fallar em ,portugal nas idas novas1 era o mesmo que fallar no diabo1 e ,d4 ,maria ,i1 em vez de tratar da sua vida1 seguio o caminho de ,d4 ,joo ,v4 ,este a-se metter com os turcos que lhe no faziam mal nenhum1 ,d4 ,maria ,i foi-se metter com a republica franceza1 que estava l to longe e que nada tinha com ,portugal4 ,o que resultou d'aqui que mandmos uma diviso ao ,russilho a ajudar os hespanhoes1 e uma esquadra a ,toulon a ajudar os inglezes4 ,a diviso do ,russilho portou-se o que se chama bem1 mas depois8 ,a ,hespanha fez a paz com a ,frana1 e ns ficmos a olhar ao signal1 a ,inglaterra mettia-nos na dana1 e depois punha-se de palanque4 ,tivemos de andar a pedir a paz republica franceza1 quasi de joelhos1 e o ,napoleo1 que j n'esse tempo comeava a governar em ,frana1 e que nos tinha jurado pela pelle1 teve a habilidade de audar a ,hespanha contra ns1 resultando d'ahi a guerra de #ahja4 ,foi uma guerra vergonhosa4 ,tinhamos o exercito escangalhado1 no fizemos seno levar bordoada1 e1 para alcanarmos paz1 tivemos de pagar bom dinheiro1 e de dar aos hespanhoes ,olivena que nunca mais apanhmos4 ,de nada nos valeram todas as humilhaes4 ,em #ahjg1 ,napoleo1 que j era imperador1 e que andava n'uma lucta de morte com a ,inglaterra1 quiz que fechassemos os portos aos nossos antigos alliados4 ,andmos a hesitar1 at que ,napoleo1 que no gostava de perder tempo1 declara que a casa de ,bragana deixra de reinar1 e mette-nos c dentro um exercito commandado pelo ,junot4 ,a familia real no teve seno tempo de fazer as malas e de partir para o ,brazil1 por conselho dos inglezes4 ,devo-lhes dizer uma cousa3 a rainha ,d4 ,maria ,i endoidecera havia muito tempo1 e quem governava em seu nome como principe regente desde #agib1 era o principe ,d4 ,joo1 seu filho mais velho1 porque aquelle ,d4 ,jos1 de quem lhes fallei1 e que dava tantas esperanas1 tinha morrido em #aghh4 ,imaginem vocs como ficaria o povo com esta partida1 e agora que o caso de se lhe chamar partida4 ,abandonado pela familia real1 viu o ,junot tomar conta do governo1 agarrar no exercito portuguez1 que no tinha ordem para resistir1 e mandal-o para ,frana servir no exercito de ,napoleo1 lanar contribuies pesadas como o diabo1 e emfim tratar isto como terra conquistada4 ,e1 para maior vergonha1 ,junot invadira o paiz1 no corao do inverno1 com meia duzia de gatos1 e entrra em ,lisboa frente de quatro soldados estropiados e esfarrapados4 ,a vergonha de todas estas humilhaes comeou a fazer ferver o sangue aos portuguezes1 e um bello dia rebentou a revolta no ,porto4 ,foi como quem diz um rastilho de polvora4 ,desde o ,minho at ao ,algarve1 no houve terra em que se no pegasse em armas contra os francezes4 ,o ,junot mandou as suas tropas esmagar as revoltas1 e os francezes fizeram ento cousas do arco da velha1 mataram1 roubaram1 queimaram444 --,ah6 pae do cu6 exclamou a tia ,margarida1 eu era bem pequenina ento1 havia de ter sete ou oito annos1 mas lembra-me do que minha me me contava4 ,havia um que ella chamava o ,maneta1 que isso parece que era o diabo em pessoa4 --,era o general ,loison1 que no tinha um brao4 ,em ,evora fez elle o demonio1 mas1 por mais que fizessem1 no conseguiam acabar com a revolta4 ,era pobre gente do povo1 sem armas1 sem disciplina1 sem chefe1 que assim se levantava contra os francezes1 e estes davam-lhe para baixo facilmente1 mas a gente levava aqui em ,bellas1 levantava-se em ,cintra1 am os francezes a ,cintra1 levantavam-se os de ,bellas4 ,demais a mais1 cada qual faz a guerra como pde4 ,l em batalha no podiam os nossos medir-se com os soldados de ,napoleo4 ,o que faziam8 ,davam-lhes caa2 em os apanhando separados1 carga para cima d'elles4 ,era facada1 era paulada1 era tiro de bacamarte1 era o que podia ser1 com os diabos6 que um povo como uma pessoa1 quando o querem pisar aos ps1 defende-se com unhas e dentes4 ,mas n'isto os inglezes1 que andavam tca de ver se podiam sar da sua ilha e desembarcar n'algum sitio onde podessem incommodar ,napoleo1 assim que viram que ,portugal estava revoltado1 desembarcaram aqui um exercito commandado por um sugeito chamado ,wellington1 que1 se no era to bom general como ,napoleo1 pelo menos parece-me que ainda seria mais feliz do que elle4 ,o ,junot1 que no passava de ser um valento1 foi batido pelos inglezes na ,rolia e ,vimeiro1 onde os nossos1 j se v1 tambem combateram ao lado das fardas vermelhas1 que 1 como vocs sabem1 o uniforme inglez1 e1 para se safar de ,portugal1 teve de capitular4 verdade que o patife apanhou uma capitulao1 que a no podia ter melhor se fosse elle que houvesse dado a tunda nos inglezes4 ,levou-nos tudo o que nos tinha roubado1 e nem se fallou nos nossos soldados que l andaram1 contra vontade sua1 a servir no exercito de ,napoleo4 -- sr4 ,joo1 acudiu o ,manuel da ,idanha1 vocemec ha de desculpar uma pergunta1 mas parece-me que ninguem pde vir por terra de ,frana a ,portugal1 sem passar pela ,hespanha1 no verdade8 -- sim1 rapaz2 mas que queres tu dizer com isso8 --,quero dizer que no percebo como foi que o ,junot c veio4 ,ento os hespanhoes deixaram-n'o passar8 --,fizeram mais alguma cousa1 vieram com elle1 porque n'esse tempo estavam ainda muito manos com os francezes1 tanto que repartiram entre si ,portugal como quem reparte um melo1 uma talhada para este1 outra talhada para aquelle1 etc4 ,mas o ,napoleo surripiou aos hespanhoes a sua familia real1 e fez rei de ,hespanha um seu irmo chamado ,jos1 de frma que1 quando ns nos revoltmos1 revoltaram-se elles tambem1 e comemos uns e outros lambada aos francezes4 ,entretanto c se arranjra um governo2 tratou elle de organisar o exercito1 que ainda era moda de #afdj1 e que s precisava de um general como o principe de ,lippe para ficar uma joia4 ,esse general appareceu1 foi um inglez chamado ,beresford1 que n'um abrir e fechar de olhos poz tudo a direito4 ,o que certo1 meus amigos1 que na guerra da ,peninsula1 que durou seis annos1 os nossos soldados1 combatendo ao lado dos soldados inglezes1 passavam por ser to bons como elles e talvez melhores4 ,j se v que tinha sido necessario virem muitos officiaes inglezes para os nossos regimentos1 porque a officialidade portugueza estava toda dispersa1 uns tinham ido para ,frana1 outros para o ,brazil1 e outros1 diga-se a verdade1 no prestavam para nada4 -- sr4 ,joo1 d licena que lhe faa uma pergunta8 interrompeu de novo o ,manuel da ,idanha4 --,faze1 rapaz1 podra6 ,pois ento para que estou eu aqui8 --,porque que se chamou a essa guerra a guerra da ,peninsula8 --,no te disse eu1 rapaz1 no principio d'esta conversa1 que ,portugal e a ,hespanha juntos formavam uma peninsula1 quer dizer quasi uma ilha1 porque a crca o mar por toda a parte menos por um lado1 que onde pega com a ,frana pelos ,pyrenus8 --,disse1 sim senhor4 --,e no te acabei de dizer que1 quando nos revoltmos contra ,napoleo1 revoltaram-se tambem os hespanhoes1 e que desatmos uns e outros pancada aos francezes8 --,tambem verdade4 --,pois ento ahi tens tu3 a guerra era de ,hespanha e de ,portugal1 por conseguinte era a guerra da ,peninsula4 --,ora tambem quero fazer uma pergunta1 disse a tia ,margarida4 --,pois ento1 tia ,margarida6 ,era o que faltava era que as mulheres no tivessem a palavra4 --,o que voc precisava era de um puxo de orelhas1 mas emfim l vae a pergunta4 ,eu1 sempre que minha me fallava n'essas cousas1 ouvia-lhe dizer que os francezes eram muito maus1 mas que os inglezes talvez ainda fossem peores4 ,ora voc diz que os inglezes vieram ajudar-nos444 --,dizia muito bem a sua me1 tia ,margarida1 mas eu tambem no digo mal4 ,soldados inglezes sempre foram abrutados1 principalmente em estando com o vinho4 ,nunca vieram a ,portugal seno ajudar-nos1 e nunca tambem c vieram que no ficasse tudo a berrar contra elles4 ,olhem no tempo de ,d4 ,fernando4 ,parece-me que lhes contei que1 vindo elles combater ao nosso lado contra os hespanhoes1 fizeram o que o demonio no fez4 ,e1 agora que j respondi s suas perguntas1 vou continuar a minha historia4 ,o ,junot foi posto fra em #ahjh1 os inglezes ento viraram-se contra os francezes que estavam na ,hespanha1 e metteram-se pela ,galliza dentro1 mas o ,soult1 apanhando-os l1 deu-lhes uma tareia formidavel1 e depois veio sobre ,portugal e entrou no ,porto4 ,a gente do ,porto1 a fugir dos francezes1 metteu-se na ponte de barcas que ento havia sobre o ,douro1 para passar para o outro lado2 a ponte abateu e morreram milhares de pessoas4 --,ah6 bem sei6 interrompeu a tia ,margarida1 diz que foi o dia de juizo4 --,ora se foi6 os francezes pararam no ,porto1 mas ns e os inglezes fomo-nos a elles d'ahi a tempo e pozemol-os fra4 ,o ,napoleo1 embirrando com o caso1 mandou um exercito commandado pelo marechal ,massna1 um dos seus melhores generaes1 com ordem de atirar o ,wellington ao mar2 mas o ,wellington1 que era homem avisado1 e que no gostava de tomar banhos de choque1 aproveitra o tempo a arranjar as linhas de ,torres ,vedras1 de traz das quaes se metteu4 ,o ,massna bateu com as ventas nas linhas1 vio que no podia fazer nada1 foi-se embora1 e ns logo atraz d'elle4 ,para encurtar rases1 em quatro annos de campanha1 fomos a pouco e pouco empurrando os francezes pela ,hespanha fra1 em #ahad entrmos em ,frana de embrulhada1 e1 como os russos1 os austriacos e os prussianos tambem entraram por outro lado1 levando o ,napoleo adiante de si1 cau aquella caranguejola toda1 o ,napoleo teve de dar a sua demisso de imperador1 e ns ficmos livres dos francezes4 ,dois annos depois1 em #ahaf1 morreu a rainha ,d4 ,maria ,i no ,brazil1 sem que ninguem1 por assim dizer1 dsse por isso4 ,o principe regente tomou o nome de ,d4 ,joo ,,vi e continuou tudo como at ahi4 ,entretanto em ,portugal estava tudo descontente4 ,o povo levantra-se contra os francezes por sua conta e risco1 e parecia-lhe historia que o rei1 que fugira1 continuasse a no fazer caso nenhum d'elle4 ,em ,hespanha tinham-se reunido crtes e arranjra-se uma constituio pela qual se acabava com o poder absoluto dos reis4 ,em ,portugal1 se no se fizera o mesmo1 no fra por falta de vontade1 mas os inglezes no deixavam4 ,todos percebiam1 porm1 que se no podia voltar antiga1 como se no se tivesse passado cousa nenhuma no intervallo4 ,por outro lado a teima do rei em ficar no ,brazil j nos a fazendo chegar a mostarda ao nariz1 tanto mais que1 ao passo que havia por c muita miseria1 estava sempre a ir dinheiro para o ,brazil1 e no s dinheiro mas tropa tambem1 porque ,d4 ,joo ,,vi1 em #ahag1 lembrra-se de juntar ,montevideu ao ,brazil1 como se o ,brazil ainda fosse pequeno1 aproveitando para isso a revolta das colonias hespanholas4 ,emfim1 a conservao de ,beresford e dos coroneis inglezes no quadro do exercito portuguez incommodava os nossos officiaes1 e descontentava a nao4 ,em #ahag1 descobre-se ainda por cima uma conspirao liberal1 do como implicado n'ella1 com provas de c c r c1 um general muito estimado1 ,gomes ,freire de ,andrade1 de quem diziam que ,beresford tinha ciumes1 e enforcam-n'o4 ,tudo isto a fazendo ferver o sangue aos portuguezes1 e1 quando em #ahbj comeou a haver revolues liberaes por toda a parte1 rebenta tambem uma revoluo liberal no ,porto1 espalha-se logo por todo o reino1 chega a ,lisboa1 e pega-se ao ,brazil4 ,d4 ,joo ,,vi obrigado a acceital-a1 e a vir para ,portugal1 a mandar embora os officiaes inglezes1 e a assignar uma constituio que as crtes fizeram2 mas os governos l de fra1 e logo os mais poderosos1 acharam perigoso que se tornasse a fallar em liberdade e constituies1 e decidiram que viesse um exercito francez pr a mordaa na boca aos liberaes da ,hespanha1 emquanto um exercito austriaco a fazer o mesmo aos da ,italia4 ,apenas c chegou a noticia1 os amigos do absolutismo1 que tinham por chefe o infante ,d4 ,miguel1 segundo filho do rei1 levam este para ,villa ,franca1 e deitam abaixo a constituio4 ,mas o que a fez car no foram elles1 foram os passos dos soldados francezes que j a essas horas andavam por ,hespanha4 ,entretanto o ,brazil1 onde ficra governando o principe ,d4 ,pedro1 que era o filho mais velho do rei1 fazia-se independente4 ,antes d'elle tinham feito o mesmo as colonias visinhas que pertenciam ,hespanha1 e cincoenta annos antes as que pertenciam ,inglaterra4 ,no ,brazil j houvera duas tentativas de revolta1 e ambas tinham sido afogadas em sangue1 uma em #aghi1 outra em #ahag4 ,a final venceram4 ,accusam muito ,d4 ,pedro de se ter feito imperador do ,brazil1 e de se haver revoltado contra seu pae4 ,elle no se revoltou1 mas s podia fazer uma de duas cousas1 ou ir com os brazileiros1 ou pr-se no andar da rua4 ,ento esses figures imaginavam que um paiz rico1 grande e forte1 est agora para receber ordens de outro mais pequeno1 ou maior que elle seja1 e que fica de mais a mais do outro lado do mar8 ,ora1 historias da vida6 e no se queixem d'isso4 ordem das cousas4 ,as colonias so como os filhos4 ,a gente educa-os1 trata-os1 deixa-os ir crescendo4 ,quando so maiores emancipam-se4 ,e ninguem tem que estranhar4 ,foi o que aconteceu com o ,brazil4 ,estava maior1 emancipou-se4 ,perdemos o ,brazil em #ahbe1 em #ahbf morreu ,d4 ,joo ,,vi4 ,os seus ultimos dias foram amargurados4 ,tivera guerra com o filho mais velho que se revoltra com o ,brazil2 estivera para ser desthronado pelo filho mais novo1 ,d4 ,miguel1 que o chegra a prender na ,bemposta1 e que elle depois tivera que mandar para fra do reino2 a mulher1 ,d4 ,carlota ,joaquina1 que estava sempre s turras com elle1 nunca lhe dra seno desgostos4 ,falleceu ralado o pobre do rei1 que era uma excellente pessoa1 amigo de tomar o seu rap com socego1 e que para sua desgraa governra no tempo da revoluo franceza1 no tempo de ,napoleo1 e no tempo da revoluo de #ahbj4 ,e ha de a gente acreditar no rifo3 ,d ,deus o frio conforme a roupa4 ,e1 como eu tambem estou com frio1 rapazes1 vou at casa procura de roupa1 e no proximo domingo acabaremos com isto4 ,,decimo ,,ser,o ,historia contemporanea4--,d4 ,pedro ,,iv4--,a ,carta ,constitucional4--,regencia da infanta ,d4 ,izabel ,maria4--,d4 ,miguel1 rei absoluto4--,sublevao do ,porto4--,emigrao4--,a ilha ,terceira4--,o conde de ,villa ,flor4--,perseguio aos liberaes4--,a esquadra franceza no ,tejo4--,d4 ,pedro ,,iv pe-se frente dos liberaes4--,desembarque no ,mindello4--,crco do ,porto4--,expedio do ,algarve4--,batalha do ,cabo de ,s4 ,vicente4--,entrada das tropas do duque da ,terceira em ,lisboa1 a #bd de julho4--,crco de ,lisboa4--,batalhas de ,asseiceira e ,almoster4--,conveno de ,evora ,monte4--,reinado de ,d4 ,maria ,,ii4--,revoluo de ,setembro4--,constituio de #ahch4--,restaurao da ,carta4--,a ,maria da ,fonte4--,a ,junta do ,porto4--,a interveno estrangeira4--,a ,regenerao4--,reinado de ,d4 ,pedro ,v4--,a febre amarella4--,reinado de ,d4 ,luiz4--,concluso4 --,vocs percebem1 meus amigos1 principiou o ,joo da ,agualva1 que1 tendo de lhes contar agora acontecimentos em que tomou parte muita gente que ainda est viva e s1 e no querendo offender ninguem1 no posso estar com muitas reflexes4 ,quem succedeu a ,d4 ,joo ,,vi foi ,d4 ,pedro ,,iv1 j ento imperador do ,brazil4 ,este1 que era um principe que percebia as cousas1 vio bem que o nosso tempo j no era tempo para absolutismos1 e antes quiz dar elle uma constituio do que ir o povo arrancar-lh'a4 ,mandou portanto para ,portugal a ,carta1 dizendo ao mesmo tempo que abdicava em sua filha ,d4 ,maria1 a qual havia de casar com seu tio o infante ,d4 ,miguel1 e1 emquanto ,d4 ,miguel no voltava para ,portugal1 nomeou regente a infanta ,d4 ,izabel ,maria1 que vocs haviam de conhecer muito bem4 --,ora se conhecemos6 morava ali em ,bemfica6 --,tal qual6 morreu ha cousa de tres ou quatro annos4 ,a ,carta ,constitucional ficou sendo lei do reino1 apezar de algumas revoltas1 mas o infante ,d4 ,miguel1 apenas chegou a ,lisboa em #ahbh1 fecha as crtes1 atira com a ,carta de pernas ao ar e faz-se proclamar rei absoluto4 ,a guarnio do ,porto no est pelos ajustes1 e revolta-se1 mas tem de fugir para ,hespanha4 ,tudo o que eram liberaes1 e que poderam safar-se1 emigraram uns para ,frana1 outros para ,inglaterra4 ,mas o que certo que o povo todo estava com ,d4 ,miguel4 ,porque8 ,como pde haver um povo que no goste de liberdade8 ,vo l explical-o6 ,os padres e os frades estavam quasi todos ao lado de ,d4 ,miguel1 e levavam comsigo muita gente4 ,mas a ilha ,terceira no esteve pelos autos1 e no acceitou o absolutismo4 ,apenas isso constou1 correram os emigrados para essa ilha1 o conde de ,villa ,flor tomou conta do governo1 e ali resistio s esquadras de ,d4 ,miguel4 ,este1 entretanto1 com o devido respeito1 fazia tolices gradas1 e a maior era perseguir os liberaes a ferro e fogo4 ,a forca estava sempre armada1 as prises sempre atulhadas1 e os caceteiros no deixavam ninguem socegado4 ,isto de fazer martyres o diabo4 ,para a arvore da liberdade no ha rega como o sangue dos seus filhos4 ,ora1 alm d'isso1 emquanto o governo francez se mostrava pouco amigo da liberdade1 tinha ,d4 ,miguel as sympathias da ,frana1 mas depois da revoluo de #ahcj aconteceu o contrario4 ,o governo de ,d4 ,miguel cau na asneira de perseguir uns francezes4 ,d'ahi resultou vir uma esquadra franceza ao ,tejo e levar os navios que ahi estavam4 ,ao mesmo tempo ,d4 ,pedro1 que tivera os seus dares e tomares com os brazileiros1 abdicou a cora imperial do ,brazil1 e veio tomar o commando dos defensores de sua filha4 ,pe-se frente d'elles1 que no eram muitos1 eram #g3ejj1 desembarca no ,mindello a #h de julho de #ahcb1 mette-se no ,porto1 e ahi resiste mais de um anno aos soldados de ,d4 ,miguel1 que eram muito valentes1 mas mal commandados4 ,envia ao ,algarve em #ahcc meia duzia de gatos1 debaixo das ordens do conde de ,villa ,flor1 j ento duque da ,terceira1 n'uma pequena esquadra1 que primeiro fra commandada por um inglez chamado ,sertorius1 que ainda vive1 e que o estava sendo por outro inglez chamado ,napier4 ,este desembarca o duque da ,terceira no ,algarve2 depois vae-se esquadra miguelista e derrota-a no cabo de ,s4 ,vicente4 ,o duque da ,terceira marcha sobre ,lisboa1 bate na cova da ,piedade os miguelistas1 commandados pelo ,telles ,jordo1 que tinha sido um tyranno para os presos liberaes1 e que ali morreu1 e entrou em ,lisboa no dia #bd de julho de #ahcc4 ,d4 ,pedro vem para ,lisboa que os miguelistas cercam4 ,elle e os seus dois marechaes1 duques da ,terceira e de ,saldanha1 obrigam os miguelistas a retirar para ,santarem4 ,depois o duque de ,saldanha por um lado bate os miguelistas em ,almoster1 o duque da ,terceira por outro bate-os na ,asseiceira1 e ,d4 ,miguel assigna a #be de maio de #ahcd a conveno de ,evora ,monte1 pela qual o seu exercito depunha as armas1 e elle abandonava ,portugal4 ,como se esperasse unicamente o fim da sua empreza para terminar tambem a sua vida1 ,d4 ,pedro ,,iv veiu aqui morrer a ,queluz no dia #bd de setembro de #ahcd4 ,podem para ahi pensar d'elle o que quizerem1 meus amigos1 mas o homem que1 tendo nascido no throno1 passou a sua vida a regeitar coras1 e a combater1 como um soldado valente1 pela liberdade dos povos1 merece bem as tres estatuas que no ,porto1 em ,lisboa e no ,rio de ,janeiro1 mostram que1 ao menos depois da sua morte1 no foram ingratos com elle os portuguezes e os brazileiros4 ,succedia-lhe a senhora ,d4 ,maria ,,ii1 que viveu bem pouco tempo1 e teve uma vida bem atormentada4 ,logo em #ahcf um partido1 que queria mais liberdades que as da ,carta fez a revoluo de setembro1 e em #ahch veiu uma nova constituio4 ,contra ella se fazem muitas revoltas1 at que em janeiro de #ahdb ,costa ,cabral1 depois conde de ,thomar1 deita abaixo a constituio de #ahch1 e pe outra vez a ,carta de p4 ,governou elle muito tempo1 mas1 diga-se a verdade1 um poucochinho bruta4 ,d'ahi vieram mais revolues1 e a maior de todas que foi a da ,maria da ,fonte1 em #ahdf1 em que metade do reino obedecia ,junta do ,porto1 e a outra metade ao governo nomeado pela rainha4 ,batidos em ,val-,passos1 em ,torres ,vedras1 e no ,alto do ,viso1 os patulas1 como se chamava aos partidarios da junta1 so obrigados a depor as armas pelos inglezes e pelos hespanhoes que mandaram uns uma esquadra1 os outros um exercito para restabelecerem aqui o socego4 ,mas no fundo estava tudo em braza1 e quando em #ahea o duque de ,saldanha se levantou contra o conde1 hoje marquez de ,thomar1 foi tudo atraz d'elle4 ,reuniram-se crtes que introduziram umas mudanas na ,carta1 e d'ahi por diante nunca mais houve revoltas de considerao4 ,pegaram os governos a fazer estradas e caminhos de ferro1 e l de partidos que eu no entendo4 ,em #ahec morria a senhora ,d4 ,maria ,,ii1 considerada por todos como uma santa senhora1 e uma santa me1 e succedeu-lhe seu filho1 o senhor ,d4 ,pedro ,v1 sendo regente nos primeiros dois annos o senhor ,d4 ,fernando que vocs todos conhecem4 ,o sr4 ,d4 ,pedro ,v era uma joia1 como sabem4 ,quando em #aheg veio a febre amarella a ,lisboa1 andou elle pelos hospitaes1 a consolar os doentes1 e a dar coragem e exemplo a todos4 ,tambem quando em #ahei morreu a boa rainha ,estephania1 sua mulher no houve portuguez que a no chorasse com elle1 e quando em #ahfa morreu elle tambem quasi de repente1 com os seus dois irmos1 o senhor ,d4 ,fernando e o senhor ,d4 ,joo1 a dr do povo foi tamanha que chegou a haver tumultos1 porque at se desconfiava que aquillo no fosse natural4 ,subio ao throno o senhor ,d4 ,luiz que hoje reina1 e aqui portanto acaba a historia4 ,sempre direi1 com tudo1 que no so muitos os paizes por esse mundo onde os povos ainda hoje chorem pelos reis1 e que isso vem de serem os nossos to amigos da liberdade como so e tem sido1 graas a ,deus4 ,e aqui1 meus amigos1 acabo a minha tarefa2 o que eu desejo1 rapazes1 que vocs achem que no os massou muito o pobre do ,joo da ,agualva1 e que entendam que empregaram melhor o seu tempo a ouvir as minhas historias1 do que a beber decilitros na taverna do ,funileiro4 ,,fim