from the ,google ,print project47 ,o ,,inferno ,,augusto ,,callet ,o ,,inferno ,,trasladado ,,para ,,portuguez ,e ,,precedido ,,de ,,uma ,,advertencia ,,por ,,camillo ,,castello ,,branco ,,porto ,,typographia ,,da ,,livraria ,,nacional #b1 ,rua do ,laranjal1 #bb #ahga ,,advertencia ,,do ,,traductor ,n'este memoravel anno de #ahga1 o sacerdocio militante da christandade lusitana subiu aos baluartes mais desamparados1 aos pulpitos de grande parte do reino1 e desembestou certeiras frchadas ao rosto da impiedade4 ,no pulpito da egreja de ,s4 ,martinho de ,cedofeita1 d'esta cidade do ,porto1--que no a mais peccadora1 porque a menos ociosa1--discorreu apostolicamente um padre italiano1 que eu no ouvi4 ,no fui ouvil-o1 porque j tenho muitissimos annos e bastante leitura para conhecer que direitos tem ,deus e o proximo ao meu amor4 ,no o fui ouvir pela mesma razo que evito alguns livros prohibidos1 receoso de que elles estremeam os alicerces da minha f4 ,no fui ouvil-o1 emfim1 porque ha um sermo que eu sei de cr1 e repito quando tenho sde de f1 ancias de misericordia1 tibiezas de esperana3 o sermo da montanha1 prgado aos pobres por nosso ,senhor ,jesus ,christo4 ,este sermo ainda meus filhos o no sabem2 mas ho de aprendel-o quando as primeiras lagrimas lhes tiverem delido as manchas escuras do intendimento4 preciso ter chorado para comprehender a bem-aventurana dos que choram4 ,jesus ,christo1 se houvesse dito aquellas divinas palavras aos felizes1 no seria intendido no apostolado1 nem seguido na vida1 nem chorado na morte1 nem confessado no martyrio4 ,levantei1 pois1 o pequenino e fragil oratorio das minhas preces humildes sobre a confiana do divino ,pae2 e1 se em minha alma sinto o desejo de no ter nascido para dres deseguaes ao alento de cada homem1 reconheo que o oratorio do peccador est tanto vista de ,deus que o anjo da paciencia abre as suas luzentissimas azas sobre os meus abysmos escuros4 ,ora eu sei de triste experiencia que os discursos do missionario em ,portugal me desataviam o espirito das vestes graves com que costumo entrar nos templos4 ,na minha mocidade estudei grammatica1 fui examinado em logica1 decorei a inutilissima cousa chamada rhetorica1 cursei muito pela rama algumas aulas de theologia2 finalmente1 poli quanto pude a razo para que se espelhassem n'ella os preceitos e conceitos dos oradores sagrados4 ,pois acontecia que todos aquelles predicados1 desde a grammatica de ,lobato at theologia do bispo de ,leo1 c no meu interior despiam a casaca e a dalmacia venerandas1 para galhofarem d'uns certos padres que se imaginavam favorecidos da infuso scientifica1 uma s vez milagrosamente concedida pelo ,espirito ,santo aos santissimos ignorantes do ,cenaculo4 ,arguiam-me de indiscreto os bons amigos que me ouviam deplorar a decadencia da oratoria sacra1 justificando o proposito pelos resultados1 a unco do prgador pelo soluar do auditorio1 a fertilidade da palavra pela emenda das culpas4 ,o soluar do auditorio era to acceitavel e prestadio como as lagrimas no theatro1 que denotam1 quando muito1 coraes sensiveis2 aquillo1 porm1 de emenda das culpas que vinha desconceituar a argumentao dos meus amigos4 ,as culpas6 o desconcerto da vida1 a irreverencia a ,deus1 o desamor ao proximo1 as intranhas descaroadas do rico1 a rebellio cubiosa do pobre1 a mo que se esquiva em levantar da lagem o orpho--estas e outras ms fibras do corao humano poder retemperal-as a consciencia illustrada2 mas a consciencia espavorida pelo medo dos castigos eternos1 essa no4 ,e os missionarios1 que ludibriavam a minha devoo ou curiosidade1 demonstravam a preciso de sermos continentes1 sobrios1 humildes1 caritativos1 christos emfim1 para no sermos eternamente refervidos no lago de sulphur candente4 ,eu nunca ouvi dizer na casa da orao que a providencial justia tem o seu tribunal em meio dos vivos2 que o vicio deshonra1 infama1 e tolhe o goso dos bens d'esta vida2 que a repulso do delinquente um castigo2 que a sociedade pune primeiro que a lei2 e que1 se a justia dos codigos algumas vezes erra1 a justia complexa da opinio publica mantm a disciplina do supplicio1 invisivel mas exulcerante na consciencia do culpado4 ,nunca ouvi missionario que me parecesse mais illustrado que a maioria dos seus ouvintes1 nem vi espectaculo onde reluzissem mais vivos e tristes reflexos da edade-media4 ,historias horrendas e s vezes esqualidas de castigos infernaes2 immerses em caldeiras rubidas das lavaredas2 corpos espedaados por drages e logo recompostos para nova e eterna dilacerao2 imborcaes de peonha na bcca dos gulosos2 amplexos de serpentes escamosas de brazas n'aquelles que lubricamente deleitaram os corpos n'este mundo3 era isto1 no era o penetrante pejo do vicio que chamava aos olhos do auditorio as lagrimas restauradoras4 ,mas1 ao fechar da misso1 o peito oppresso do peccador atterrado desafogava-se na esperana de illudir o diabo com uma confisso geral e um profundo pesar na hora da morte1 visto que o missionario promettia o co aos que1 nos ultimos instantes1 se sentissem vivamente magoados de terem sido perversos4 ,o co6 ,e que promette o padre aos justos1 aos que desde a juventude at decrepidez apenas prevaricaram venialmente8 o co4 ,e aos apostolos que vo fogueira offerecendo ao divino martyr o tributo de suas agonias8 o co4 ,o co para o facinora contricto no ultimo momento1 e o co para o santo de toda a vida6 ,o co para o martyr e o co para o algoz que houve remorso de o haver matado6 f1 revrbero de ,deus1 estarias apagada1 se no fosses divina6 ,em compensao1 porm1 que profusa prodigalidade de infernos alm-tumulo6 ,infernos legendarios1 imitaes do grego1 do egypcio1 do indostanico1 todos os infernos1 excepto o verdadeiro--o inferno d'esta vida1 a corrente do remorso ao pelourinho da consciencia1 e a desgraa implacavel ainda para os que no tm consciencia nem remorso4 ,pois esta doce e misericordiosa alliana de ,jesus com os attribulados1 com os frageis por compleio e por mal dirigidos na mocidade1 comporta em si a hypothese de ,satanaz1 que nos espia o ensejo favoravel e nos faz cambap s suas voragens8 ,comprehendem acaso que ,deus se no amerceie de homens fraquissimos1 vencidos por um gigante que no coube no co8 ,no vm que ,lucifer se atreveu com o ,creador1 e1 depois de vencido1 teve por homenagem o reinado de um mundo1 e o generalato de legies immensas1 todas a manobrarem na terra para vencerem444 a quem8 um descendente de ,ado1 do logrado do ,eden1 ,ado1 que tinha em si a plenitude da fora1 da sciencia2 a fora do corpo ainda aquecido da mo de ,deus2 a fora da alma iriada dos reflexos do seu ,creador6 ,e o homem1 debilitado pelo attrito de seis mil annos1 que querem que elle seja8 ,porque lhe decretam a elle--ao fraco--o inferno1 se ,deus apenas condemnou o forte a viver do suor do seu rosto8 ,estas e outras meditaes1 dignas de que ,deus m'as perde1 se a palavra no friza bem com a lisa inteno1 me preoccupavam1 quando li este livro de ,callet1 com certo medo de violar o meu salutar costume de no lr livros prohibidos1 tirante os uteis1 os desenfastiados e principalmente os instructivos4 ,o auctor1 comquanto excommungado1 usou a christ bem-querena de prevenir-me de que a sua obra estava condemnada4 ,decidi logo que o livro no seria de todo mau4 ,e1 depois que o li1 reflexionei que os cardeaes seriam mais discretos esquivando-se a dar voga a escriptos que andariam menos procurados sem a chancella da prohibio4 ,a mim me quer parecer que o ,inferno de ,callet sahiria com fros de orthodoxo da assembla dos primitivos christos1 quero dizer1 dos seguidores de ,jesus ,christo anteriores quella pestilencial sciencia chamada ,theologia3 tal a pureza1 luz1 amor e christianissimo espirito que ungem as paginas d'este consolativo livro4 ,augmenta-lhe o valor o encontrar-se com os missionarios portuguezes1 cada vez mais attidos rhetorica ardente do inferno1 como se elles e ouvintes no houvessem dado ainda um passo desde que dia1 desde que a razo fez pazes com a f illustrada4 to verdade que este systema de moralisar nada aproveita1 quanto certo que nas aldeias1 onde mais trovejam as ameaas do missionario1 encontrareis o demonio da corrupo fazendo tregeitos ao padre s portas das cabanas1 onde o vicio avulta mais esqualido com a hediondez dos seus farrapos4 ,no melhorareis a sociedade a prgar4 ,e todavia1 serodios apostolos1 na vossa sinceridade1 creio eu1 por no ter grande confiana na vossa illustrao1 e me ser muito custoso suspeitar que sois hypocritas4 ,ora lde este livro que se vos offerece em portuguez correntio1 e dizei1 se1 apagado o inferno1 no ser possivel accender pharol mais humano e mais divino pelo qual se norteie a posteridade da peccadora ,eva1 esta immensa familia d'hoje1 estygmatisada seis mil annos antes6 ,julho de #ahga4 ,camillo ,castello ,branco4 ,,prefacio ,,da ,,segunda ,,edi,o ,aos #bj de ,junho de #ahfb a sagrada congregao do ,index condemnou em ,roma este livro cerca do inferno4 ,caridosamente advirto a leitoras e leitores que temos aqui fructo prohibido4 ,perguntam-me o que vem a ser a congregao do ,index8 ,eis-aqui o pouco que sei d'isso3 o papa ,paulo ,,iii publicou em #aeci um catalogo de livros cuja leitura prohibiu aos fieis sob pena de excommunho4 ,este catalogo1 chamado ,index1 foi approvado pelo concilio de ,trento1 enriquecido de numerosos artigos1 e por elle1 antes de dissolver-se1 recommendado a ,pio ,,iv4 ,o papa ,sixto ,v1 que no tinha vagar para lr1 creou1 mais tarde1 uma commisso permanente de cardeaes encarregada de examinar e condemnar livros4 ,esta commisso de cardeaes o que se chama a sagrada congregao do ,index4 ,convm saber que ,paulo ,,iii1 velho amigo de ,alexandre ,,vi1 e tanto1 como elle1 muito desacreditado por seus vicios1 desmembrou dos dominios de ,s4 ,pedro as cidades e territorios de ,parma e ,placena que elle deu com plena soberania1 e com titulo de ducado1 a ,pedro ,luiz ,farnezio1 um dos seus filhos naturaes4 ,este tal fundou a inquisio1 instituiu a ordem dos capuchinhos1 exercitou a astrologia1 fomentou e applaudiu a carnificina dos vandezes4 ,no discuto similhantes actos2 recordo-os porque elles se ligam mesma ida que creou o ,index4 ,pio ,,iv1 a rogo dos ,jesuitas1 acrescentou algumas contas ao rozario1 augmentando-lhe as virtudes2 fez estrangular o cardeal ,caraffa1 sobrinho do seu predecessor ,paulo ,,iv2 fez decapitar o duque de ,palliano1 irmo d'aquelle cardeal1 e outros muitos personagens cujas cabeas ensanguentadas1 por sua ordem1 foram expostas sobre a porta do castello de ,s4 ,angelo2 abafou o processo instaurado em ,espanha contra o clero accusado de libertinagem2 mas em compensao accendeu por toda a parte a guerra contra os herejes4 ,accuzam-no de haver beneficiado mais a sua familia que ao povo romano4 ,eu por mim no lhe contesto as virtudes1 e menos ainda a orthodoxia4 ,na famosa bulla de #bd de ,abril de #aefd declarou excommungados1 ipso facto1 quem quer que no futuro imprimisse1 vendesse ou lesse algumas das obras inscriptas no ,index pelo concilio ou por elle mesmo2 e bem assim quem1 no as tendo lido1 as emprestasse ao visinho1 ou1 sem as ler ou communicar a alguem1 as fechasse na sua bibliotheca ou n'algum esconderijo da sua casa4 ,urgia1 pois1 queimar os livros prohibidos quem quizesse evadir-se excommunho1 e em seguida condemnao eterna4 ,como no podesse queimar os auctores1 ,pio ,,iv desforrava-se fazendo-lhes queimar as obras4 ,a vida de ,sixto ,v bastantemente conhecida1 no tem que vr com a de ,s4 ,pedro2 mas sobejavam-lhe intelligencia e indole sufficientes ao exercicio do poder absoluto4 ,era manhoso e cruel este grande papa1 cujo systema de governar compendiou em duas palavras3 po e po4 ,dispensam-se pois os povos de pensar1 como coisa perigosa3 bastante que elles no morram de fome e que tremam sempre diante do algoz4 ,depois erijam-se obeliscos e edifiquem-se templos4 ,este papa mandava decapitar os padecentes debaixo das suas janellas1 antes de sentar-se meza1 dizendo que isto lhe abria o appetite4 ,as cabeas dos suppliciados1 que elle expunha e deixava apodrecer aos olhos dos caminhantes1 ameaavam de peste a cidade4 ,apezar dos juizes1 fez enforcar um mancebo de #af annos por haver resistido aos quadrilheiros que o prenderam4 ,ordenou que cortassem as mos e que traspassassem a lingua d'um auctor epigrammatico4 ,excommungou a rainha ,isabel1 desquitando a nao do juramento de fidelidade2 excommungou o rei de ,navarra1 o principe de ,cond e o rei de ,frana1 exaltando at ao delirio o fanatismo dos partidarios da ,liga2 e depois do assassinio do desgraado ,henrique ,,iii1 elogiou em pleno consistorio ,jacques ,clement1 comparando-o a ,judith e ,eleazar1 debeis mas fieis instrumentos do ,deus dos combates4 ,e como signal sensibilissimo de sua terna solicitude pela salvao das almas1 restabeleceu ao mesmo tempo o santo officio e cumulou de indulgencias a confraria do ,santo ,cordo4 ,era proprio d'este grande e devoto papa continuar a guerra declarada por seus predecessores razo humana e liberdade da consciencia1 instituindo de par com o santo officio a congregao do ,index4 ,no cuideis1 porm1 que os livros condemnados por esta congregao fossem lidos pelo papa ou sequer pelos cardeaes encarregados d'isso4 ,por via de regra os cardeaes nada lem4 laia de ,sixto ,v1 encarregavam outros d'esse officio4 volta da congregao do ,index formigavam monges e obscuros theologos de toda a parte1 chamados consultores1 a quem incumbia o encargo quasi sempre fastidioso de lr obras novas4 ,as formidaveis sentenas do ,index1 mediante as quaes uma familia inteira era excommungada e condemnada1 promanavam do relatorio d'estes consultores3 tal era a sorte de quem recusasse queimar um cartapacio jansenista1 herana de av piedosa1 ou as ,maximas dos ,santos de ,fnelon1 ou os ,pensamentos de ,pascal1 ou as ,reflexes moraes de ,quesnel1 embora approvadas pelo cardeal de ,noailes1 arcebispo de ,pariz1 ou a ,theologia de padre ,lequeux--primeira edio--ou a ,philosophia de ,cousin4 ,pelo que me toca1 julguei que o inferno uma concepo immoral1 profunda e forosamente immoral pelas razes que adduzi4 ,tambem mostrei1 a diversas luzes1 o perigo de similhante crena para o genero humano4 ,por isso fui condemnado em ,roma4 ,optimamente6 ,agora exijo que me respondam4 ,graves e leaes so as minhas objees3 o decreto do ,index as deixou subsistir em todo o seu vigor4 ,quando a soberania temporal do papa1 que no dogma1 deixar de absorver os esforos todos dos defensores da f1 espero que elles tenham vagar de cuidar no inferno1 que um dogma1 e dogma tanto em perigo e to vacillante--fiquem-no sabendo--como o throno de ,paulo ,,iii1 de ,pio ,,iv1 e ,pio ,v4 ,,introduc,o ,,dogmas ,,hebraicos crena anterior prgao de ,christo1 quanto ao texto1 mas diversa do espirito do ,evangelho1 a eternidade das penas4 ,prende esta crena com outros dogmas rabbinicos1 to obscuros quanto descaridosos1 que a ,egreja nascente adoptou e que ainda hoje formam o essencial da theologia christ4 ,podemos reduzir aquelles dogmas a cinco1 consubstanciados todos no ,inferno4 ,vem a ser3 a ,rebellio de ,satan1 o ,castigo de ,satan1 o ,paraiso terreal1 a ,maldio dos homens1 o ,povo de ,deus4 ,no intento esquadrinhar o sentido philosophico de taes dogmas3 tal canceira1 superflua para leitores instruidos1 seria insipida e inutil para os ignorantes4 ,que ,satanaz1 inferno1 peccado original1 etc41 sejam ou no horrendos symbolos do antigo pantheismo asiatico1--expresso viva d'um systema de methaphysica mais terrivel que especioso1 onde liberdade e mal se confundem1 e o nada divinisado tem consciencia de si1 e ,deus quasi deixa de ser--questes so essas proprias de academias4 ,taes dogmas para mim so o que letra significam2 sei d'elles o que nos ensinam2 vejo-os como nos mandam vl-os1 como a multido os v1 coisas reaes1 pessoas verdadeiras1 e no chimeras4 ,considero-os pois sob a frma com que elles1 ha muitos seculos1 influem no genero humano3 e no ha mais seguro modo de lhes apreciar o valor moral4 ,entremos na exposio1 clara quanta fr possivel1 d'estes dogmas mysteriosos4 ,i ,rebellio de ,satanaz ,a historia de ,satanaz no se encontra na ,biblia nem no ,evangelho4 ,passou tradicionalmente da synagoga ,egreja4 ,no ,thalmud e nos ,padres que vem escripta4 ,satanaz era um anjo--como quem diz um espirito incorporeo1 um spro de ,deus4 ,pureza1 fora e beno eram o principio e constituio de sua essencia4 ,estava elle no ceo resguardado de exemplos e conselhos maus4 ,creado para o bem alli vivia em condies em que no possivel conjecturar-lhe intenes ms1 contemplando ,deus rosto a rosto1 actuando e reclinando-se em seu seio1 testemunha intelligente d'aquella superlativa sabedoria1 bondade e omnipotencia que transpe espao e tempo4 ,infelizmente ,satanaz era livre e peccou4 obra sua o mal que antes d'elle no existia4 ,concebeu-o elle1 e--caso estranho6--produziu-o alli mesmo no ceo1 em meio dos resplendores increados1 e eternas bem-aventuranas1 e depois quiz-lhe como a seu1 e propagou-o por entre os anjos4 ,este peccado1 alis inqualificavel1 visto que lhe no conhecemos a especie1 1 como vou demonstrar1 o verdadeiro peccado original4 a primitiva e inexhaurivel fonte de dores do genero humano1 posto que ainda no houvesse genero humano na desconhecida poca em que elle perturbou o co4 ,todos os transtornos do universo1 mal physico e mal moral1 aquelle peccado que os explica4 ,saibamos como ,satanaz foi castigado4 ,,ii ,o ,inferno ,deus no quiz anniquilar ,satanaz nem perdoar-lhe4 ,creou o inferno1 e precipitou-o l com os seus cumplices4 ,fogo1 frio1 esvahimentos de fome1 tedios da saciedade1 golpes de ferro1 trances de agonia1 inveja1 remorsos1 tudo isso no basta a dar-nos muito em sombra ida dos tormentos d'aquelle abysmo4 ,cora-lhe o horror no ser ahi conhecida a morte4 ,se a morte l podesse entrar1 a esperana iria com ella1 deixando entrever o nada como acabamento de to enormes penas4 ,se1 porm1 foi recusada a ,satanaz esta miseravel consolao1 goza-se de outra em desforra4 ,deus1 que o reduziu desesperao1 deixou-lhe a faculdade de o molestar1 atravessando-se-lhe nos intentos1 contrariando-lhe as leis1 multiplicando e perpetuando o mal por toda a parte1 salvante o ceo4 o inferno o senhorio de ,satanaz2 mas no cabe l4 -lhe toda a creao campo franco para a sua malfeitora actividade4 ,verdade que leva comsigo1 onde quer que v1 a sua immortal tristeza1 e1 pelo tanto1 toda a parte lhe inferno4 ,no obstante1 incomprehensivel que elle de l sahisse1 se lhe no fosse algum hediondo regalo n'isso de fazer tudo quanto quer1 excepto o bem--poder singular que ,deus lhe concedeu1 e elle exercita incansavelmente1 seu prazer unico1 necessidade propria da sua desgraa1 e que hade durar tanto como elle4 ,tal o castigo de ,satanaz4 ,crime e castigo so por egual espantosos e inintelligiveis4 ,agora1 vejamos o que d'ahi resulta4 ,,iii ,paraiso terreal ,no segundo e terceiro capitulos do ,genesis1 refere ,moyss a creao e queda do homem4 ,esta breve passagem foi diffusamente glossada por hebreus e padres da ,egreja1 e raro haver quem a no haja ouvido explicar do pulpito1 como eu brevissimamente a vou explicar1 acrescentando-lhe reflexes minhas4 ,ado e sua companheira tinham recebido no ,eden uma lei moral simplissima e muito clara3 era-lhes licito saborear todos os fructos d'aquella manso de delicias1 tirante o fructo d'uma s arvore3 feito isto1 a sua felicidade seria perfeita4 ,conta-se que elles estavam alli mais innocentes que os recemnascidos e ao mesmo tempo mais instruidos que os ancios d'hoje em dia4 ,obedecia-lhes a natureza e elles comprehendiam-lhe a voz4 ,cuidados nenhuns1 nenhumas lagrimas1 primavera eterna1 e a mocidade immorredoira em todo o seu ser4 ,deus folgava descer-se do ceo para n'elles contemplar a sua viva imagem2 e ento lhes mostrava seu rosto e lhes fallava4 ,entretanto ,satanaz foi esperal-os debaixo da arvore da ,sciencia1 cujo fructo lhes fez comer4 ,no se corromperam per si mesmos como ,satanaz2 mas eram livres e o tentador estava alli4 ,quem tinha seduzido os anjos como deixaria de seduzil-os a elles8 ,que consideraes o reteriam8 ,no receia ,deus por que ,deus lhe no pde aggravar o supplicio1 pois que esse supplicio eterno1 e o inexprimivel horror de tal castigo consiste na eternidade d'elle4 ,pelo que respeita piedade1 sentimento que ,satanaz no conhece1 pois que ,deus lh'a no mostrou a elle1 o primeiro de todos os seres que a necessitra4 semelhana das outras creaturas1 tem smente aquillo que recebe2 e o que brilha em si no o amor divino1 a divina colera que o conserva devorando-o4 ,quaes foram as consequencias da queda8 ,,iv ,a maldio ,no aceitou ,deus as desculpas de ,ado e ,eva4 ,de tal modo o irritou a desobediencia1 que1 no auge da sua ira1 amaldioou-os e com elles a terra que os continha3 dupla maldio que abrange alma e corpo1 espirito e materia1 eternidade e tempo--o homem todo na intimidade de seu ser immortal e nas condies exteriores da sua existencia transitoria4 ,de feito1 foi ,ado condemnado morte4 ,o corpo reverteu ao p e a alma cahiu no inferno4 ,esperando1 porm1 este ultimo castigo1 foi-lhe forado soffrer outro n'este mundo4 ,cahiu sob o poder de ,satan4 ,os miraculosos conhecimentos1 que elle tinha1 perdeu-os para sempre4 ,repulso do ,eden1 nada sabia do que tinha sabido n'aquelle lugar2 e1 como a terra tambem se havia transformado1 caminhava elle inexperiente atravez dos estorvos d'uma vida nova4 ,precises1 lavor ingrato1 enfermidades1 padecimentos de toda a natureza1 desconfianas1 medos1 saudades inuteis1 desejos inquietos acompanhavam o vagabundo par4 ,satanaz seguia-os1 julgando-os ainda bastante felizes sobre a terra maldita1 onde1 se elle no fosse1 o soffrimento seria expiao1 e a morte resgate4 ,penetremos mais dentro n'este mysterio1 e consideremos com os theologos quaes foram e ainda so hoje as deploraveis consequencias d'aquelles successos4 ,v ,consequencias da maldio ,os filhos de ,ado que ainda no eram nascidos no momento da culpa1 e os filhos de seus filhos at derradeira gerao foram condemnados com elle1 como se tivessem peccado4 ,comprehende-se que elles no fossem melhores que seus pais3 peiores que elles se tornaram4 ,o mais velho d'esses reprobos matou seu irmo1 e a impiedade humana foi crescendo at ao diluvio para recomear1 ao sahir da arca1 durante o somno de ,no4 ,uma tal punio no podia gerar outros effeitos4 ,considerai que nascemos aviltados1 pervertidos1 embriagados do vinho que outros beberam1 escravos d'um poder occulto e maligno1 odiados de ,deus1 odiando a ,deus1 s bastantemente livres para praticar maldades e merecer por isso novos castigos2 incapazes todavia de praticar o bem4 ,est ,satanaz no manancial onde bebemos a vida2 est nas fontes que a nutrem1 no seio de nossa me e no seu leito2 a si nos attre1 encorporando-se na luz1 na agua1 nos alimentos1 no ar que respiramos1 na voz que nos encanta o ouvido1 na fragrancia que as auras nos trazem1 no amigo que nos abre os braos4 ,comnosco se identifica e nos enche de seus cavilosos e insaciaveis appetites4 ,de fra chama-nos com uma doce voz1 e com um interno aguilho nos espora para onde nos chama4 ,ento nos cerca1 invade-nos1 possue-nos1 e isto no ainda seno parte do nosso castigo4 ,o inverno que nos engorgita os membros1 a fome que nos prostra1 a trovoada que arrebata as sementeiras1 a febre paludosa que nos mata os filhos1 as foras que se vo quando a experiencia chega1 estes flagellos todos da natureza contra ns desenfreados1 estas necessidades inexoraveis1 amargas privaes1 e exulcerantes desenganos so tambem parte do nosso castigo4 ,mas ainda no tudo3 a nossa insanavel ignorancia1 orgulho1 fraqueza1 toda a corrupo do nosso ser parte integrante do mesmo castigo1 no do peccado original1 cumpre notar1 mas do castigo1 pois que a transmisso do peccado original j de si um castigo4 ,e no pra aqui a maldio2 pelo contrario1 quando ella se nos mostra mais terrivel n'este estado a que nos reduziu1 manietados pelas cadeias que nos forjou1 porque as culpas que resultam d'esta corrupo natura e involuntaria que um castigo1 d'esta possesso diabolica que um castigo1 e de tantas dores accumuladas que so castigo--taes culpas chamam sobre ns outros castigos4 ,qualquer lapso reprehensivel2 o menor deslize espiado e marcado2 o minimo murmurio uma offensa4 ,taes so1 consoante a theologia dos hebreus1 adoptada e assignada pelos padres1 as relaes do homem com ,deus e de ,deus com o homem4 ,detestam-se4 ,desde a sahida do ,eden que se digladiam em duello sem fim1 posto que desigual4 ,um primeiro crime gerou a colera divina2 mas do primeiro acto da colera divina surtiram outros crimes1 os quaes geraram novas coleras1 e continuamente1 em face um do outro1 a colera e o crime se fecundam e reproduzem sem descanso4 ,os homens n'esta lucta so incansaveis como ,deus1 e1 posto que trespassados e sanguinolentos e esmagados1 ameaam e conspiram ainda4 ,de semelhante espectaculo no ha nome condigno6 ,est o odio por toda a parte1 na terra1 no inferno1 no ceo1 nas creaturas e no ,creador4 ,accrescentemos que o que melhor se comprehende neste systema a rebellio do homem1 porquanto a nossa sorte mais miseravel que a sorte de ,ado1 e cem vezes mais miseravel que a de ,satanaz4 ,mas faz-se mister esclarecer este ponto1 antes de passar alm4 ,,vi ,comparao da nossa sorte com a de ,ado e de ,satanaz ,em verdade nenhuma similhana temos com os habitantes do paraiso terreal2 no lhes herdamos o saber adquirido sem trabalho1 nem a pureza1 nem a liberdade1 que se agitava a bel-prazer em um to vasto circulo1 tendo um s limite perfeitamente distincto2 nem to pouco lhes herdamos a tranquilla felicidade4 ,para ns tudo trevas1 servido1 limite1 trabalho e dr4 ,apezar do peccado1 outra vantagem nos levavam4 ,puniu-os ,deus d'uma maneira que nos espanta2 mas puniu-os pelo mal que propriamente fizeram4 ,comnosco no assim4 ,primeiramente1 aquelles actos1 que ,deus to severamente castigou n'elles1 continuam-se em ns1 que no temos conhecimento d'elles seno por este proseguimento vingativo2 depois1 sem attender nossa infermidade nativa1 nos faz elle expiar nossas proprias faltas com tamanho rigor como se as ns tivessemos commettido na liberdade1 na sciencia1 e nos jubilos do ,eden4 ,se podeis1 comparae agora a sorte do homem n'este mundo maldito de ,satanaz no ceo2 e os peccados d'aquella creatura debil1 ignorante1 decahida1 envolta em carne e sangue1 cercada de precipicios e trevas1 criminosa porque nasceu1 e em perigo porque vive2--comparae isto1 se podeis1 ao inexplicavel peccado do anjo4 ,similhana no ha ahi nenhuma4 ,entre ns e aquelle espirito bemaventurado vae a differena de noite a dia1 e entre a sua culpa e a nossa a distancia da terra ao ceo4 ,sem embargo disso1 as penas so iguaes4 ,espera-nos o mesmo inferno4 ,a unica desegualdade que se nota n'este logar de soffrimento que o homem ahi ser a eterna victima1 e ,satanaz o eterno algoz4 evidentissimo que a mesma a pena applicada a seres que prevaricaram em to oppostas condies de actividade4 ,esta pena infinita s tem relao com o poder infinito do juiz offendido2 no tem alguma com as faculdades diversamente limitadas dos culpados1 e augmenta de gravidade medida que desce sobre peccadores d'uma natureza mais fragil1 de ,satanaz sobre ,ado1 de ,ado sobre a sua posteridade4 ,quando procuramos n'isto a justia1 dizem-nos que ella ahi est1 mas escondida4 ,oh6 sim1 meu ,deus6 ,bem escondida1 e a razo tambem1 e a piedade tambem6 ,,vii ,o povo de ,deus ,entretanto parece que a piedade se manifesta na formao do povo de ,deus1 e em verdade ahi se denota1 mas como excepo1 privilegio e favor4 ,havia no ,egypto uma raa de escravos2 toma-os ,deus pela mo1 e atravez de mil obstaculos os leva ao paiz de ,chanaan2 d-lhes leis1 ministros e prophetas2 illustra-os1 defende-os1 castiga-os1 restaura-os1 disputando a ,satanaz1 com successivos milagres1 essa nesga de terra onde quer ser adorado4 ,no obstante1 estas revelaens e sobrenatural assistencia no impedem que os judeus idolatrem1 que se prostituam1 que usurem e se precipitem numerosissimos em todas as voragens do mal4 ,por aqui se avalie a desgraa dos povos que occupavam o resto da terra e a quem faltavam taes soccorros4 ,pezava n'elles sem contrapezo o peccado original4 ,os que a maior grau de perfeio tinham levado artes e sciencias estavam to remotos da verdade como o selvagem mais embrutecido4 ,no porque uns ou outros fossem atheus--pelo contrario1 em seus soffrimentos1 levantavam olhos ao ceo2 mas como procuravam a divindade nas estrellas1 nas altas montanhas1 no concavo dos bosques1 e nas mil imagens compostas de materia impura1 debalde rogavam1 e inutilmente sacrificavam4 ,salvante a de ,moyss1 todas as religies eram engodo de ,satanaz e conductoras d'almas ao inferno1 similhantes s lumieiras que as hordas assalteadoras accendem beira das restingas1 durante as noites tempestuosos1 afim de que os navegantes se percam4 ,e ,deus abandonava os gentios sua ignorancia2 detestava-os em tanto extremo que prohibia o seu povo de os tratar1 sobretudo de misturar ao d'elles o seu sangue1 excepto nas batalhas4 ,occasionado o ensejo1 era obra piedosa exterminal-os2 mas attrahil-os ao seu corao1 era1 em todos os lances1 um acto abominavel1 por maneira que o leproso de ,jerusalem recearia manchar-se1 se recebesse na sua enxerga infecta a mais pura donzella de ,sidon4 ,tal substancialmente o ultimo dogma que nos convm estudar4 certo que elle nos revela a bondade de ,deus2 mas similhana de pallida restea de luz em espessa treva4 ,o que nos ella esclarece um ponto imperceptivel do espao4 ,est meio velada no ponto onde brilha1 e tanto ahi1 como no restante do mundo1 razo e justia de ,deus jazem de todo em todo escurecidas4 ,sobre a terra foi ,jacob o unico justo8 ,se houve mais1 porque no fez ,deus alliana com elles e seus descendentes8 ,por que adoptou smente os judeus1 por que liberalisou a estes luzes que negou aos outros8 ,se lhe aprazia dar humanidade cabida e obcecada pelo peccado meios de salvao1 porque abenoou o sangue e a carne de um s homem1 amaldioando o sangue e a carne dos mais homens8 ,se isto verdade1 fora nos exclamar com os theologos3--,razo impenetravel6 ,impenetravel justia6--,sendo que tudo isto essencialmente diverge das idas que podemos formar da pura razo e da verdadeira justia4 ,a lei do genero humano1 em toda esta historia1 a lei ditada pela colera1 e1 ainda quando a bondade ahi reluz1 d ares de um capricho4 ,os primeiros christos1 judeus de origem1 no adoptaram menos estas idas por mais avessas que fundamentalmente sejam1 no s revelao interior1 s luzes da consciencia1 mas tambem a tudo que mais luminoso do ensino de seu divino mestre nos transmittiram4 ,a ,egreja1 dilatando-se fra de ,jerusalem1 conservou o sinete da sua educao rabbinica#a1 permanecendo meio judaica4 ,no mudou um til aos dogmas sombrios e crueis da synagoga1 mas transformou o dogma do povo de ,deus2 ampliou-o espiritualisando-o1 sem tirar ainda assim clemencia divina1 como logo veremos1 aquella mystica e excepcional indole que tinha entre os judeus4 ,admittiu os gentios ao beneficio das graas de que ,moyss os excluira1 e tornou judeus1 mediante o baptismo1 os que de sangue o no eram4 ,ao mesmo tempo1 repulsou do seu gremio os que s por sangue eram judeus1 e o no eram por baptismo1 formando1 com tal excluso1 outro povo de ,deus1 e ficando o antigo a representar a figura carnal do novo4 ,em summa1 a ,egreja moldurou quanto em si coube1 o espirito christo nas frmas antigas1 que ella sempre venerava e considerava expressamente feitas para o receber4 ,consoante a parabola1 envasilhou o vinho novo no tonel velho1 onde ferve at estalar as aduelas2 cuidado1 porm1 que a velha vasilha pde fender-se2 o vinho contheudo o sangue de ,christo2 e o genero humano1 em prol de quem tal sangue ha manado1 no deixar que uma gotta se perca4 ,ha pouco disse eu que a egreja1 adoptando as crenas da ,juda1 no havia modificado a indole estranha e excepcional que taes crenas argem bondade de ,deus4 ,por egual razo deixou ella condensarem-se as mesmas trevas sobre a sua justia4 facil demonstral-o4 #a ,no concilio feito pelos apostolos em ,jerusalem1 questionou-se sobre se se devia circumcidar os judeus4 ,muitos pensaram que esta operao fosse indispensavel salvao1 por isso que ,moyss a ordenra2 ,paulo e ,bernab no foram d'esta opinio2 a duvida1 porm1 era tamanha que sahiram deputados para ,jerusalem1 afim de combinarem com os apostolos e os padres4 ,o concilio discutiu longo tempo4 ,pedro fallou de harmonia com ,paulo2 mas as duvidas subsistiram4 ,thiago fallou por sua vez1 no invocando a palavra de ,christo1 mas repetindo algumas palavras dos antigos prophetas2 o que fechou a pendencia4 ,decidiram que a circumciso era desnecessaria salvao4 ,todavia1 logo adiante1 ,paulo1 que contribuira para este accordo1 circumcidou ,timotheo1 em razo de estarem judeus n'aquelle logar1 e saberem que seu pae era gentio4 ,vid4 ,actos dos ,ap41 cap4 ,,xv e ,,xvi4 ,,viii ,a egreja e o novo povo de ,deus ,hoje em dia faz-se mister nascer em paiz catholico para ainda se crr na possibilidade de no ir infallivelmente ao inferno4 ,contra o espirito do mal inda l se encontra aquella miraculosa assistencia que outr'ora protegia apenas o districto no grande do ,oriente4 ,alargou-se o territorio da clemencia1 mas ainda assim no mede a quarta parte do globo4 ,alm d'isso entre os novos1 do mesmo modo como entre os antigos judeus1 perdem-se muitos1 porque ,satanaz est sempre comnosco1 na carne de ,ado1 e a maldio sobranceia-nos sempre4 ,se o baptismo destre esta maldio1 no o faz completamente1 salvo quando o baptisado morre ao sahir do baptisterio2 seno1 nem nos dispensa das penas eternas1 nem nos arranca das prezas da necessidade das affeies1 das tentaes1 dos enganos innumeros que so os effeitos temporaes da maldio4 ,cresce1 pobre creana1 e se podes1 cerra os ouvidos s alegres cantilenas da tua ama2 foge s caricias de tua me e a todas as seduces que j te rodeiam4 ,no toques no bello fructo que a tua fome anceia4 ,na tua edade1 sem que o saibas1 j ,satanaz te falla2 na bebida e na comida esto venenos d'elle2 com o mal te familiarisas1 e perdida est a innocencia baptismal4 ,feito o primeiro peccado1 desluziu-se a graa2 a maldio meia delida revive inteira2 a ,egreja vem ainda com outros mysteriosos meios em nosso auxilio2 porm1 como n'este mundo no ha destruir attraco e inclinao e a liberdade do mal1 muitos dos seus filhos se perdem1 apesar d'ella1 e para1 melhor o dizer1 em seus braos4 ,attendendo aos perigos a que esto sujeitos ainda os filhos da luz n'esses paizes favorecidos1 considere-se em que estado de desesperao vivem os filhos das trevas1 isto a maxima parte do genero humano4 ,em mil milhes de homens1 pouco mais ou menos1 que actualmente soffrem na terra1 o mais que pde haver duzentos milhes de catholicos4 ,o remanescente vive sem confisso1 e o maior numero sem baptismo1 na ignorancia ou no odio da ,egreja1 e d'aqui vo como vieram sob o poder de ,satanaz4 ,tem elles culpa8 ,nasceram no abysmo e longe de soccorros4 ,familia1 tribu1 cidade1 patria1 protectores naturaes1 primeiros guias1 ultimos amigos1 lies1 exemplos1 leis e costumes1 tudo os engana4 ,quem que pde escolher o seu bero8 ,pois a nossa salvao pde depender de circumstancias e successos que no dependem de ns8 ,a nossa raso corrompida absolve-os2 o velho ,ado encontra sempre alguma desculpa ao peccado2 mas a f essa no4 ,a f decreta a reprovao final dos gentios1 dos infieis1 dos hereticos e at a reprovao final e eterna d'um grandissimo numero de catholicos2 cr n'isto como no peccado original1 como na hereditariedade do crime e do castigo1 bem como na graa da salvao--coisas correlativas e de todo o ponto inseparaveis4 ,adora em silencio todas estas apparentes iniquidades1 convicta de que ellas so smente apparentes1 e que um dia vir em que os proprios gentios ho de confessar que ,deus fez bem amaldioando-os3 to profundamente justo1 equitativo e rasoavel na essencia aquillo que exteriormente to pouco 4 ,no ha pois duvidar que milhes de milhes de creaturas humanas esto no inferno4 ,as almas despenham-se ahi de todos os lados1 densas e rapidas como a chuva1 chuva que dura ha mais de seis mil annos1 e no acabar nunca4 ,todos ns temos no inferno uma immensa familia3 todos os nossos antepassados pagos1 durante quatro mil annos1 e ,deus sabe quantos avs christos6 ,os parentes e amigos de quem nos apartamos a chorar1 o que fazem ir adiante de ns2 os netos d'elles e os nossos1 pela maior parte1 l vo ter comnosco1 e para to horrivel fim que ns nos reproduzimos4 ,,ix ,como se prova a verdade dos dogmas hebraicos1 e com especialidade a eternidade das penas ,todos estes dogmas esto ligados2 porm1 quando surge uma duvida1 no basta um para demonstrar o outro4 ,prvem-nos que ,satanaz foi expulso do co1 e o homem do ,eden2 e1 quando o tiverem provado1 nem por isso lhes cabe o direito de concluir que ,deus nunca perdoar a ,satanaz nem aos homens4 ,um castigo que tira aos pacientes a esperana1 e ao divino juiz a piedade1 mais incomprehensivel ainda que a fragilidade dos anjos3 por consequencia1 um tal castigo carece de ser justificado por pessoas eguaes1 seno melhores4 ,estes antigos mysterios no derivam um do outro naturalmente2 e1 seja qual for o castigo que ,deus reserve em sua justia s prevaricaes das creaturas livres1 certo que ns o soffreriamos1 ainda que ,satanaz e ,ado no tivessem peccado4 ,a principal questo saber se este castigo ser eterno1 e a tal respeito a corrupo original1 a reversibilidade das culpas1 o poder do tentador augmentam nossas duvidas em vez de diminuil-as4 ,o que ahi ha para ns no so provas1 so objeces4 ,o inferno poder ainda sem isso no satisfazer nossa razo2 mas no a offender tanto4 urgente1 pois1 provar que elle existe4 ,prova-se pela revelao1 isto 1 pelas escripturas santas e pela auctoridade da ,egreja1 interprete infallivel d'ellas4 ,porm revelao biblica e infalibilidade de ,egreja so j de si outros dogmas a favor dos quaes se escrevem todos os dias grossos volumes2 e seria desviar-me grandemente do meu assumpto suscitando aqui similhante discusso4 ,o pouco que a tal respeito hei de dizer vem no appendice que est no fim d'esta obra1 sendo tanto para o leitor como para mim grande a pressa que temos de sahir d'este labyrintho de mysterios4 ,investigo provas d'outra ordem1 mais especiaes1 mais directas1 mais apontadas ao bom senso1 ao corao1 intelligencia1 e que se prestam facilmente a ser entendidas e livremente discutidas4 ,se taes provas no existissem1 no emprehenderia eu similhante trabalho2 mas sustenta-se que existem1 e em todas as apologias so invocadas como auxiliares das provas sobrenaturaes1 e do ensinamento da ,egreja1 argumentos puramente philosophicos1 dos quaes parece que a f mesmamente est carecida4 ,dir-se-hia de vontade a respeito do inferno1 o que ,voltaire disse de ,deus3 que se elle no existisse1 mister seria invental-o4 ,pois que podemos em verdade provar a existencia de ,deus pela necessidade moral d'esta crena1 pelo mesmo theor se intenta provar a existencia do inferno perpetuo3 intenta-se fazer d'isto uma necessidade moral to clara e evidente1 quanto evidente e clara a necessidade moral da crena em ,deus1 e usual fundamentar tal raciocinio sobre o testemunho de todos os povos1 que tanto importa a tradio chamada universal4 ,a mim me basta a primeira prova2 d'ella pende a meu vr a questo capital4 ,se o inferno1 ou smente a ida do inferno moralmente util1 existe o inferno1 necessario1 e divino4 ,porm1 como quer que a evidencia d'esta utilidade no seja dogma1 assiste-nos o direito de examinar com plena liberdade4 ,tal a tarefa que me impuz4 ,a tradio universal de que tratarei depois1 apenas a primeira face do problema4 ,o ,,inferno ,,parte ,,primeira ,o ,,inferno ,,considerado ,,qu,m ,,da ,,campa1 ,,ou ,o ,,homem ,e ,a ,,sociedade ,,em ,,presen,a ,,do ,,inferno ,,capitulo ,,primeiro ,,tradi,,es ,i ,a tradio universal a prova do inferno8 ,quando nos querem fazer comprehender a necessidade da revelao christ1 esforam-se em requintar phrases aviltantes1 para bem caracterisar o estado do mundo sob os reinados de ,augusto e ,tiberio4 ,no peo que se suavisem as pinturas4 ,todavia1 se se tracta de nos incutir algum antigo dogma hebraico tenebrosissimo1 repellentissimo1 tal como o peccado original1 a malicia dos diabos1 o eternal inferno1 ento vr como esse genero humano to vilescido se transfigura subitamente em oraculo4 ,claro que a moral se lhe varrra de todo2 mas a theologia ficou4 ,eil-os a cavar no lodaal das supersties orientaes1 as mais putridas de quantas ahi houve1 e querem entrever n'ellas uns certos vestigios de l se haver conhecido ,ado e ,no4 ,se se trata simplesmente do inferno1 isso ento acha-se em toda a parte4 ,um paria vagabundo1 um pago abjecto1 um negro1 um hottentote tremente em face d'um fetiche1 eis as testemunhas1 os consultados1 os doutores4 mais que certo que taes miseraveis haviam perdido as noes todas do bem2 dormiam com as servas e at com as irms2 vendiam na feira as filhas e s vezes as mes2 profanavam os hospedes2 eram ladres1 eram antropophagos2 adoravam pedras1 serpentes1 sapos1 e1 peor que tudo1 homens1 facinoras ensanguentados2 mas criam no inferno4 ,claro de consciencia no lampejava n'elles s um2 no estremavam raia entre virtude e vicio2 e1 posto que taes distinces lhes houvessem sido reveladas1 tinham-nas esquecido4 ,vde1 porm1 o prodigio3 quanto ahi havia incomprehensivel para ns e ainda mais para elles2 tudo que transcende a alada da experiencia2 tudo quanto a simples razo no pde revelar--tudo1 em fim1 que1 pelo conseguinte1 mais facilmente se desluz da memoria1 oh6 tudo isso lhes ficou na lembrana6 ,que argumento a pr do inferno6 ,quem ousa impugnar verdade to de fundamento provada8 ,cafres1 ,papus1 ,saabs1 ,bushmans creram no inferno6 ,patages1 ,muskogis1 ,algonquinos1 ,chipperrais1 ,sioux creram no inferno6 ,hunos1 ,alanos1 ,ostrogodos1 ,gepidas1 ,vandalos creram no inferno6 ,tambem creram n'isso ,cananeos1 ,philisteos1 ,ninivitas e ,babylonios6 ,sodoma e ,gomorra tambem6 ,sardanapalo1 ,balthazar1 ,herodiada1 ,cleopatra1 ,nero1 ,attila1 ,gengiskho1 ,tamerlo creram tambem no inferno6 ,querem prova mais concludente8 ,eu no sei se semelhante demonstrao do inferno bem feita para edificar uma assembla de fieis2 receio muito que os incredulos se riam4 ,quer-me parecer que1 se tentassem insinuar-nos reverencia a tal dogma1 deveriam contentar-se com dizer-nos que aquellas raas degeneradas1 aquellas naes estupidas1 aquellas hordas faccinoras1 aquelles sacerdotes embaidores1 aquelles reis devassos1 em fim1 todos esses selvagens e monstros1 nem criam na eternidade das penas1 nem d'isso tinham vislumbres4 ,tal argumento1 se fundado fosse1 figurar-se-hia melhor que nenhum4 ,presumir-se-hia que esses homens1 se tivessem mo e perante os olhos barreira tal1 no se infamariam tanto4 ,mas1 da laia que elles so1 darem-no'l-os como crentes no inferno1 mandar-nos descrer4 ,horrorisa-nos a immortalidade d'elles4 ,vo l trazer taes arbitros para uma questo de altissimo interesse moral6 ,dizeis que elles creram no inferno8 ,oh ,deus meu6 por isso mesmo talvez que elles to mal comprehendiam a justia1 e tal vida viveram6 ,,ii ,explicao natural das tradies pags cerca do inferno ,que monta recorrer a revelaes miraculosas8 facilima coisa explicar naturalmente as tradies pags cerca do inferno4 ,este social estado que conhecemos1 no qual o direito de cada um definido por lei1 e protegido por fora publica1 no o primitivo estado do genero humano4 ,no principio1 a unica sociedade foi a familia1 e1 por extenso1 a tribu4 ,cada homem se protegia a si1 e sahia em desaffronta propria2 parentes e servos bandeavam-se na pendencia1 e a menor tentativa contra o direito privado espadanava ondas de sangue4 ,n'esses remotos tempos1 vingana e justia eram uma s cousa4 ,ora1 verdade que a vingana procede do sentimento de justia1 mas ultrapassa a justia sempre1 porque egoista1 cega1 orgulhosa1 colerica1 no mede1 no se compadece1 d mal por mal1 e usurariamente o d4 ,a mais antiga das leis judaicas1 a lei cruel de talio1 foi lei misericordiosa2 abalisou as retaliaes2 cabea por cabea1 olho por olho1 dente por dente1 e mais nada4 ,a vingana queria mais3 arrancava os dois olhos1 e no se saciava4 ,na ,thracia1 em ,grecia e ,roma1 nas ,gallias1 na ,germania1 em toda a terra houve tempo em que os inimigos captivos eram sacrificados aos deoses1 e estrangulados pelos sacerdotes do altar4 ,os que o ferro poupava eram ainda mais dignos de compaixo3 condemnavam-os escravido com a sua posteridade--ao trabalhar sem proveito1 e miseria infinita4 ,entre as familias1 tribus e raas ardiam odios hereditarios2 pagava o innocente pelo culpado1 porque era commum dever o assassinal-o4 ,e tudo isto se figurava justo1 e hoje ainda entre as naes christs1 aqui e alli1 subsistem vestigios d'estes antigos costumes4 ,se insistem em que os pagos conheciam o peccado original1 a maldio do genero humano e as penas eternas1 fora confessar que elles1 segundo procediam1 procuravam incitar a justia divina4 ,que melhor modelo lhes sahiria a ponto8 ,para lhes condemnar o procedimento mister conceder que elles de ,deus e da sua justia apenas tinham falsa ida4 ,phantasiavam ,deus sua similhana1 vingativo1 descaroado4 ,d'ahi1 a ida das raas malditas1 dos crimes e castigos hereditarios4 ,d'ahi os pavorosos sonhos do inferno sem fim1 dos mos abrazados e espedaados vivos1 dos algozes enfurecidos sobre as suas pras immortaes1 o chorar incessante1 o suspirar sem echo1 e os engenhosos supplicios todos do ,naraka1 indostamio inferno que ainda flammeja1 e do ,amenthi1 egypcio1 e do ,tartaro grego1 antigos infernos j agora apagados e que ha tantos seculos no mettem medo a ninguem4 ,,iii ,como o sacerdocio perpetuou estas tradies ,a par e passo que a humanidade se illustra1 vemos adoarem-se por toda a parte as leis e os costumes2 as religies1 porm1 essas no3 antes querem morrer que mudar2 conservam como deposito precioso e inviolavel doutrinas antiquadas sem parentesco com as idas e as necessidades das sociedades novas4 ,continuam a prgar aos povos policiados deoses ferozes4 ,faz-se mister um dia arrancar ao cutello sagrado as victimas humanas4 ,na ,gallia foi foroso derruir as ras e immolar os sacerdotes para acabar com os sacrificios abominaveis4 ,d ,moyss aos judeus a lei de talio1 mas reserva a ,jehovah a vingana1 como os poetas gregos a reservavam a ,jupiter4 ,querem homens bons e um ,deus cruel1 homens justos1 e um ,deus iniquo2 e1 sendo isto repugnante1 fazem da justia divina um mysterio1 com a declarao de que o no podemos perceber4 ,prga ,jesus exclusivamente a caridade1 e morre em um madeiro perdoando a seus algozes4 ,tratam de conciliar a sua doutrina com os rabbinos1 e logo nos figuram um ,deus de duas faces3 a doce face do ,christo que contempla a terra1 e no inverso d'esta face augusta e ungida de lagrimas1 a face irritada de ,jehovah1 o ,deus exterminador1 o ,deus inexoravel que persegue os filhos pelos crimes dos paes4 ,,iv ,exemplo de um povo que permanece fiel a todas as suas antigas tradies a tradio a memoria do genero humano4 ,cumpre no menosprezal-a conta das verdades que ella propaga2 todavia no devemos escutal-a de joelhos1 feio de oraculo1 por causa dos erros que a deturpam atravez de todas as edades e naes4 ,que nos faz a ns que os antigos crssem nas penas eternas8 ,no ser isso que as tornar eternas1 se ellas o no so4 ,mais antiga que todas as opinies dos homens a bondade de ,deus2 e as verdades moraes bem como as physicas dispensam o nosso consentimento para subsistirem4 ,pois no girava a terra quando a julgavam immovel8 ,no era odiosa a escravido quando a julgavam justa8 ,ha na profundeza do ceo estrellas que nossos paes no viram e ns vemos2 e ha outras cuja luz no alcanamos e nossos netos vero brilhar4 ,cumpre ver o ceo com os nossos olhos1 e no com a vista dos que j so mortos4 ,no seria blasphemia crr n'um ,deus vingador1 quando em seu proprio corao o homem no tinha discriminado entre justia e vingana1 e por isso a ,deus se concediam sentimentos e aces que n'este mundo eram honrosos4 ,attribuir-lhe1 porm1 aces que passariam por injustas1 se commettidas fossem1 seria arrogar-se o homem direitos de fazer-se melhor que ,deus2 e fra verdadeira impiedade imaginar um ,deus tal que envergonharia quem o imitasse4 ,o passado l vai4 ,os antigos deram suas contas2 ns temos de dar as nossas4 ,quando um caminheiro ce na estrada1 quem se levanta cxo elle e no seu pai4 ,qualquer crime que perpetreis servos-ha imputado a vs4 ,desquitar os homens1 em nome das tradies1 da responsabilidade da sua f1 seria remil-os da responsabilidade das suas obras4 ,ha quatro mil annos que os hindostanicos so escravos dos mesmos prejuizos1 acorrentados nas mesmas castas1 vinculados s mesmas praticas1 rojando e palpando no mesmo circulo d'erro e miserias1 similhana dos seus condemnados1 no dedalo tenebroso e sem sahida do seu inferno4 ,n'aquellas regies morre o homem na condio em que nasceu3 representa servilmente seu j morto pai1 pensando e operando como elle4 1 quanto menos pde ser1 pessoa distincta e nova2 -lhe quasi inutil a razo2 a memoria lhe basta2 nem a consciencia vive em 'si2 est fra nas tradies oraes ou escriptas que reverenceia cegamente1 porque antes de vir ao mundo j eram veneradas4 ,se ha verdade o que essas tradies dizem2 bem1 o que ellas ordenam2 mal1 o que ellas prohibem4 ,investigar para que8 ,que mais quer elle8 ,bello reclinatorio para a preguia6 ,excellente desculpa para vicios6 ,valente obstaculo para virtudes6 ,uma das glorias de ,christo1 um dos espinhos da sua cora santa1 foi contrapr o direito da consciencia individual tyrannia das opinies1 tradies e escripturas judaicas4 ,ensinou-nos elle a sobrepr o juiz intimo sobranceiro a todos os juizes da terra1 e responsabilisou perante ,deus o homem por seus actos1 ao mesmo passo que os responsabilisou por seus pensamentos e sua f4 ,v ,effeito d'estas tradies na edade media ,as tradies judaicas e pags consubstanciavam-se profundamente na edade media1 acerbando-lhes as suas leis penaes com supplicios e torturas4 ,as prises no tinham ar nem luz2 o adorno das masmorras era palha podre1 po e agua4 ,havia prises subterraneas1 tumulos onde o homem entrava vivo e no sahia mais4 ,at os mosteiros as tinham4 ,o furto era punido com a morte2 a morte punia a transgresso da lei sobre a caa4 ,em cada encruzilhada uma forca4 ,para os hereges fogueiras4 ,e frequentemente uma familia inteira era castigada pelo crime do chefe1 bens confiscados1 casa arrazada1 o nome proscripto4 ,nada digo sobre a servido1 degradao hereditaria1 especie de mancha original e quasi universal em cada paiz1 horrenda reliquia da escravido antiga1 e das supersties do ,oriente4 ,havia crena na efficacia d'aquelles horrendos castigos4 ,e seriam por isso menos raros os crimes8 ,o terror governava o mundo4 ,e seria o mundo melhor governado8 ,ia n'isso a antiguidade das tradies4 ,dava-vos pena que ellas se abolissem8 ,quem ha ahi saudoso das torturas1 masmorras1 confiscaes1 fogueiras1 escravido8 ,e quem ousaria pedir1 por interesse da justia e da moralidade1 o restabelecimento das instituies da edade media8 ,,vi ,como a sociedade christ se desvia progressivamente d'aquellas antigas tradies ,no ha muito que ns ainda tinhamos o nosso inferno3 eram as gals onde as condies peioravam4 ,destruiram-nas1 e crearam as colonias penitenciarias4 ,antes de ns1 se deram bem com isso os inglezes4 ,d'aquelle antigo inferno terreal1 paraizo em comparao do outro1 resta-nos como terrivel vestigio a perpetuidade do castigo para certos culpados4 ,quiz o homem copiar o antigo ,deus das vinganas1 e infligir aos seus similhantes penas infinitas1 tendo elle apenas um dia de seu4 ,taes penas se acham nos nossos codigos4 ,a sabedoria humana to limitada como o seu poder4 ,mas1 apezar de limitadissima1 admiravel6 ,com que arte a sociedade concilia os mais oppostos deveres--a proteco aos justos1 e at a proteco aos culpados que ella extrema dos justos6 ,no os esquece nas suas prises1 no renunciou ao direito de perdo2 no desentranhou de si o sentimento da piedade4 ,sobre essa paragem de miserias est sempre fixo um olhar de d1 e attento um ouvido que escuta os gritos do arrependimento4 ,e acaso se enfraquece por amor d'isso a lei penal8 ,e se o perdo salva um d'esses prezos que a justia ferira com perpetua pena1 cuidaes que esse acto robustea o mal1 e d nas prizes ou fra d'ellas um exemplo funesto8 ,ainda mais3 a sociedade amnistia algumas vezes propriamente o crime1 derroga a sentena do juiz e restitue o criminoso em todos os direitos do innocente4 ,os crimes que ella amnistia quaes so8 ,os mais ultrajadores de sua authoridade1 das suas leis1 do seu repouso e existencia3 amnistia os crimes de lesa-magestade1 e contenta-se com perdoar os outros4 ,este o espirito das legislaes novas em toda a christandade1 nas quaes a misericordia se abraa com a justia4 ,inferno que nunca muda s o theologico4 sempre o inferno da edade media1 inferno de judeus e pagos1 os mesmos supplicios1 os mesmos gritos1 a mesma impiedade crescente1 os mesmos horrores4 ,no querem que ,deus tenha o direito de perdoar no outro mundo4 ,c em baixo pde fazel-o1 se lhe apraz1 como qualquer rei da terra4 ,mas l no seu reino no ha perdo nem amnistia6 ,colera infinita6 ,vingana perpetua6 ,inexoravel furor6 ,tal 1 consoante o pintam1 o ,rei dos ceos4 ,ditosos os povos cujos principes se no modelam por elle6 ,quem quizer encontrar hoje imitadores do ,deus terrivel dos antigos1 ha de ir procural-os no novo mundo e entre as tribus negras da ,africa1 e nas hordas barbarescas da ,asia4 ,a sociedade christ1 com maravilhoso instincto1 sequestrou-se d'essas idas de outra edade2 e1 com os olhos postos na cruz1 prosegue e anhela realisar em suas instituies e leis um ideal menos imperfeito da soberana justia4 ,,capitulo ,,segundo ,a ,f ,,nova ,i ,pater noster ,chamamos a ,deus nosso pae e nos consideramos seus filhos4 ,um pae condemnaria seus filhos a supplicios eternos8 ,que a questo seja de ingratos e desobedientes1 de rebeldes e de mos1 embora3 ,deus ,deus1 e ns somos homens4 ,o mais sabio ancio n'este mundo perante o ,pae celestial o que diante d'esse velho mortal1 curvado ao pezo dos annos1 uma criancinha no bero4 ,perante o ,pae do ceo somos todos crianas balbuciantes que apenas caminhamos com andadeiras4 ,e a comparao ainda muitissimo ambiciosa6 ,ha mais proporo entre o menino que balbucia e os maximos doutores theologos1 do que entre os maximos doutores em theologia e o eterno ,pai4 ,cobertos de seus circumspectos barretes1 aquelles doutores tartamudam1 gaguejam1 balbuciam freneticamente1 no se entendem a si proprios1 descambam a cada passo1 e movem compaixo1 se os compararmos a ,deus4 ,dado que elles ainda durassem e crescessem em saber1 ao mesmo passo que envelhecessem1 nem por isso deixariam de estar como em perpetua infancia confrontados com ,aquelle que tudo sabe1 porque infinito em sabedoria1 em poder e bondade4 ,mas1 d'outra frma1 a criancinha hontem nascida podeis j affoitamente comparal-a quelles graves doutores2 um doutor que se aleita e entra em dentio3 alguns dias mais1 e vl-a-heis defender these e supplantar os professores4 ,comprehendeis1 pois1 que1 se o velho doutor em theologia fosse pae1 mettesse o filho em um carcere cheio de serpentes e ahi o deixasse para sempre8 ,qualquer que houvesse sido a culpa do menino1 julgareis justo e discreto similhante castigo8 ,no vos pareceria o mestre mais louco do que o discipulo1 e o pae peior que o filho8 ,o vosso primeiro empenho no seria pr o algoz no logar da victima8 ,no se levantaria toda a sociedade contra esse sabio sem corao8 ,nossas leis1 nossos tribunaes consentil-o-hiam8 ,ah6 castigos1 sim1 mas castigos que corrijam1 e o perdo a final3 eis o que justia de pae4 ,no entendemos outra4 ,ao chefe de familia no se consente poder arbitrario sobre os seus3 a esposa tem direitos2 tem-os o filho1 o servo1 protegidos pela sociedade1 que para esse fim especialmente se constituiu4 ,se isto repugna s antigas tradies1 nem por isso menos racional1 equitativo e moral4 ,ainda assim1 por mais que fizesse este doutor atroz1 seria menos cruel que o ,deus prgado por elle4 ,se a morte no viesse rapidamente arrancar-lhe a victima1 o officio de algoz canal-o-hia4 difficil de supportar1 ainda mesmo a um mau pai1 o aspecto das torturas que elle exercita na pobre creatura que gerou4 ,no corao humano tudo mudavel1 tanto o amor1 como1 por feliz compensao1 o odio4 ,um principe morovingiano1 chamado ,charmne1 revoltou-se contra ,clotario2 ,clotario fez queimar vivos seu filho1 a nora e os netos2 mas diz a historia que elle se arrependra4 ,se tal supplicio durasse uma semana smente1 de certo elle os teria salvado4 ,que bom pai6 ,que excellente rei6 ,que amavel este ,clotario de par com o ,deus que nos pintam6 ,este ,deus quer que pensemos no inferno1 mas no que se morra ahi2 imitao do algoz das prizes feudaes1 deixa viver os pacientes torturando-os e disvela-se em lhes protrahir a agonia6 ,manda-os soffrer1 ouve-os gemer durante a eternidade1 e procede sua vingana1 sem fechar olhos1 sem tapar ouvidos1 e por isso mesmo que n'elle reconhecemos no um homem variavel1 mas o que elle 1 um ,deus4 ,deus dos antigos1 ,bel1 ,teutates1 ,pluto1 ,eolin1 seja qual fr teu nome1 ,deus das batalhas1 ,deus do gladio1 ,deus dos fortes1 guerreiro feroz1 senhor irascivel1 juiz sem entranhas1 ,deus dos eternos rancores1 tu no s o meu ,deus6 ,o ,deus que adoro1 o unico e verdadeiro ,deus1 o melhor dos ,paes2 apezar das minhas culpas1 no me trata como inimigo nem como escravo2 conhece melhor a minha fraqueza do que eu a sua fora2 e1 at quando me castiga1 no esquece que foi elle quem me creou e que eu sou seu filho4 ,,ii ,o purgatorio o purgatorio o logar incognito em que os mortos esperam1 soffrendo1 o perdo das culpas commettidas na terra4 ,ha ahi o chorar e o padecer2 mas no se amaldia ,deus3 bemdiz-se4 ,os soffrimentos ahi supportados so salutares porque se comprehende a justia d'elles2 e corrigem porque a esperana no anniquillada4 ,se tal logar existe1 de que serve o inferno8 ,deixar dizer que a eternidade que apavora e refra o peccador4 ,o peccador no sabe o que seja a eternidade2 porque impossivel absolutamente formar-se uma clara ida do que seja isso4 ,se recuamos perante ns um pouco que seja as balisas do tempo1 a nossa imaginao e razo se perdem2 e cahimos nas prezas das mesmas angustias que sentiriamos1 se vissemos a verdadeira eternidade4 ,para que o homem se aterre lhe basta imaginar o soffrimento de que capaz a sua natural sensibilidade1 e qual o podem comprehender as faculdades do seu entendimento4 ,para que iremos mais longe8 ,no bastante ameaar os maus com castigos proporcionados s suas faltas1 durante um espao de tempo desconhecido ou incalculavel n'este mundo8 ,o que fr mais do que isto inintelligivel4 ,para l d'estes limites1 a ameaa nada importa2 a alma est refarta de justia1 oppressa de terror1 extenuada de padecer1 dobra-se1 ce1 aniquilla-se1 adora1 supplica perdo1 no pde comprehender seno a piedade1 est surda e insensivel a tudo o mais4 ,o remate da justia para ns o perdo2 e1 se n'essas extremas alturas onde a imaginao pde chegar1 e onde o peccado roja gemente1 se em vez de perdo1 nos mostraes o odio ainda flamejante1 l vai tudo3 o terror tocou o apogeu2 turva-se a razo1 ida de justia e de bondade tudo se desfaz2 a alma1 que cahira crente1 levanta-se atheista4 ,se o tal inferno existe1 no outro mundo coisa comprehensivel ha uma s2 o blasfemar dos condemnados4 ,mas se tal inferno existe1 de que serve o purgatorio8 ,pois os protestantes no o aboliram discretamente8 ,para os que podem crr em tal inferno1 que cem mil annos de purgatorio8 ,este acaba e o inferno no2 seculos e milhes de seculos de penitencia no se contam1 esquecem-se4 ,em vista d'este sinistro inferno em que a misericordia desconhecida1 inutil o soffrimento1 e a justia um enigma1 o purgatorio um paraizo4 ,quem nos dera a certeza de l ir6 que os castigos ahi soffridos1 por mais demorados e rigorosos que sejam1 no ha temel-os3 desejam-se4 ,por maneira que o mais terrivel castigo que imaginar se pde1 o mais equitativo e rasoavel1 deixa de impressionar as almas pervertidas pelo espectaculo d'uma punio sem siso nem justia apparentes4 ,as pobres almas aterradas1 aturdidas1 estupefactas so impellidas involuntariamente a offender a ,deus de dois modos2 primeiro temendo-lhe a vingana1 segundo no lhe temendo a justia4 ,a ida dos castigos inefficazes e dres infructiferas1 por muito monstruosa1 odiosa e falsa que seja1 se humanamente a consideramos1 torna inutil a ida dos castigos poderosos e dres salutares1 por muito bella1 clara1 natural e divina que ella seja4 ,,iii ,necessidade do purgatorio ,quem quer que sejaes1 senhor ou servo1 rico ou pobre1 esposo ou pai1 viuva ou noiva1 no negueis as expiaes da vida futura4 ,no conheceis maus em prosperidade1 cercados de respeitos1 inaccessiveis lei1 e que se deitam e levantam sem remorsos8 ,no conheceis innocentes opprimidos1 ancios abandonados1 orphos desbalisados1 pessoas honradas cuja vida toda padecer e que nenhuma lei feita ou por fazer defenderia de homens ingratos e perversos8 ,se sois feliz hoje1 sl-o-heis amanh8 ,convencei-vos de que negar a vida futura1 seria o mesmo que negar a immortalidade da alma1 e logo sua liberdade e responsabilidade2 e1 por consequencia1 o mesmo seria negar virtude1 direito1 ,providencia1 e constituir este baixo mundo um verdadeiro inferno1 um sonho1 um pesadlo1 onde tudo seria horror e abominao1 excepto o nada1 tudo injusto1 excepto o crime victorioso1 tudo absurdo1 excepto a inveja1 o egoismo1 a violencia1 e a astucia que se roja4 ,ah6 crde na vida futura1 com suas expiaes e recompensas4 ,e1 se ha quem exclua do ceo a piedade1 no vades vs1 por uma irracional desforra1 excluir tambem do ceo a justia4 ,,iv ,mysterios ,no nos accusem os theologos de negarmos acintemente os mysterios4 ,os theologos referem o que vae no inferno como se tivessem por l viajado4 ,pelo que elles dizem paiz dos mais conhecidos3 sabe-se o caminho1 quaes so os seus productos1 e qual o modo de viver dos seus moradores1 bem como a origem1 nomes e a gerarchia dos principes que l reinam4 ,em outro capitulo estudaremos as edificantes descripes que fazem d'elle j physica1 j moralmente4 cerca do purgatorio tem havido mais prudencia quasi nada se sabe do que la se passa3 portanto mais mysterioso que o inferno4 ,todavia1 sem impedimento de ser mysterioso1 que differena6 ,quanto mais profundamos a eternidade penal1 menos se acredita2 ao invez1 quanto mais pensamos no purgatorio1 mais nos sentimos compellidos a crl-o4 o inferno mysterioso como o diabo1 como a noite1 como a contradico1 a confuso e o chaos4 o purgatorio mysterioso como ,deus1 como a alma1 como a consciencia1 como a vida1 como a luz que nos alumia1 como a materia impenetravel1 como toda a natureza1 como a verdade1 como tudo o que existe e de que ns apenas conhecemos em sombra a existencia e apenas percebemos atravez de um veo1 mas o bastante para no poder duvidar4 elle to certo como tudo o mais do mundo2 assenta no intimo de nossa alma sobre as mesmas bases da moral1 do direito1 do dever1 do respeito a outrem1 piedade1 liberdade1 amor1 e sentimento do infinito4 por tanto o purgatorio1 quanto razo1 o verdadeiro mysterio da justia divina1 assim como a ,incarnao e a ,paixo1 quanto f1 so o mysterio do ,amor divino2--mysterio de justia que1 de mais a mais1 se concilia maravilhosamente com aquelles mysterios d'amor1 dos quaes o inferno perpetuo seria a negao4 ,muitissimo nos espanta que os protestantes o no vissem4 ,quando tinham que escolher entre dous dogmas inconciliaveis1 um velho e outro novo1 sacrificaram1 tanto em nome do ,evangelho como da razo1 um dos dois que mais se harmonisava com as leis da razo e a moral do ,evangelho4 ,v ,o paraiso ,os protestantes no conhecem termo medio entre paraiso e inferno2 os catholicos1 porm1 acreditam-no1 e segundo elles o purgatorio ceo nubloso e triste1 inferno onde se ora e espera1 e que deve acabar4 ,infelizmente os catholicos no enviam todos os mortos ao purgatorio1 crendo que se pde transpor aquelle meio entre ceo e inferno1 sem ainda l pr o p4 similhana dos protestantes1 ensinam que muitas almas1 apenas despidas do seu involucro mortal1 so despenhadas para sempre no eterno abysmo1 ao passo que outras almas1 logo que despedem da terra1 alam-se direitas ao paraiso4 ,ensinam tambem1 uns e outros1 que o mais abominavel patife1 convertido ultima hora1 pde morrer contente3 eil-o vai absolvido como o bom ladro2 no tem mais que fechar os olhos e acordar entre os anjinhos4 isto possivel8 isto verdadeiro8 ,que pois o paraiso1 e que ida fazemos d'elle8 ,pois que6 verei eu do seio da bemaventurana1 e na inalteravel tranquillidade dos justos1 verei sem remorso e sem afflico1 encadearem-se a meus ps1 j na terra1 j no inferno1 as tristes consequencias das minhas iniquidades8 ,nas minhas noites de libertinagem1 matei2 durante o somno de homens que valiam mais do que eu1 assassinei um avro para o roubar1 um amigo da minha infancia para entrar no seu leito1 uma mulher que eu havia seduzido e que morreu beijando-me as mos1 pensando em mim1 a louca1 mais do que em ,deus6 ,d'entre elles os peores que eu feri eram innocentes comparados comigo1 e eil-os mortos intempestivamente1 sem terem tempo de se arrependerem2 eil-os engolphados na gehenna1 com o corao roido pelo verme que no morre1 gementes1 chorosos1 amaldioando-me2 e eu1 seu assassino2 eu1 peccador envelhecido na impiedade e agraciado por um milagre1 louvarei ,deus eternamente1 por me haver feito instrumento da condemnao d'aquellas pobres almas6 ,com as minhas delapidaes1 reduzi miseria e a todas as tentaes da miseria1 e a todos os desvios da desesperao aquella familia que l vejo em baixo3 o irmo vende a irm1 a irm vende a sobrinha1 o pae vende os seus juramentos1 os seus amigos1 o seu paiz2 a me arranca-se os cabellos2 todos choram1 todos soffrem1 todos me accusam1 e os seus gemidos chegam at mim2 e eu hei de vr imperturbavel1 sem remorsos1 sem dr1 aquelles fructos de meus crimes1 aquellas ulceras1 aquelles prantos1 aquelles opprobrios1 aquellas perfidias1 aquelles escandalos em que eu tenho parte2 e1 pois que ,deus se apiedou de mim1 eu no terei piedade dos outros1 e o que na terra me affligia1 quando eu agonisava1 no me ha de affligir depois da minha morte4 ,este deploravel espectaculo1 bem visivel a meus olhos1 no impedir que eu me saboreie na felicidade dos escolhidos2 convencer-me-hei que vae n'isso o influxo dos designios do ,altissimo1 e que o homem1 faa o que fizer1 no tem que vr com o resultado das suas obras2 e em vez de bater no peito a cada sobresalto dos meus proprios crimes1 a cada repercusso das minhas proprias blasphemias1 a cada reflorecer das venenosas sementes--vestigio unico que eu deixei da minha passagem na terra--vestirei a alva tunica1 e beberei na taa dos anjos1 das virgens1 dos heroes1 e dos martyres1 como se eu fosse um d'elles4 ,na verdade uma egregia doutrina esta da justificao do peccador1 pelo reconhecimento e pezar de suas culpas2 levada porm quelle grau1 similhante doutrina to incomprehensivel como a do inferno4 ,de uma demasia nasceu outra3 n'uma parte encareceram a justia2 na outra exaggeraram a piedade4 ,comtudo1 entre o castigo infinito por um s peccado1 e o immediato perdo apezar de mil peccados1 havia o que quer que fosse que parece desconhecer-se3 a justia sem colera1 a misericordia sem pusillanimidade4 ,salvam-nos como nos condemnam1 com pouco custo ordinariamente1 pois que se com facilidade nos abrem as portas do inferno1 com a mesma nos abrem as do paraiso4 ,considerem entretanto o purgatorio1 no como meio entre o paraiso e o inferno1 mas entre a terra e o ceo1 ponto que certas almas atravessam rapidamente e quasi sem soffrer1 e onde outros so condemnados a padecimentos mais ou menos extensos e variadissimos1 consoante a natureza de suas culpas1 e disposio no ultimo momento4 ,este purgatorio com as suas penas indefinidas1 proporcionaes1 rigorosas1 purificantes1 e1 cedo ou tarde1 coroadas pelo perdo1 no seria um freio moral mais rijo que o medo das penas eternas1 temperado pela esperana da misericordia na ultima hora1 e pela reforma de vida na ultima edade8 ,convenho que no haveria medo de ser condemnado sem remisso2 assim 2 mas tambem ninguem presumiria de fugir ao castigo com um momento de contrico1 depois d'uma longa cadeia de crimes4 ,d'esta arte1 ,deus mostraria melhor o que 1 justo1 mas no cruel2 bom1 em vez de tolerante4 ,que mal lhe viria d'ahi8 ,commisravos o lastimavel ancio coberto do sangue das extorses e o tyranno abjecto que sopesou e corrompeu milhares de homens2 tendes d'elles piedade1 quando morrem chorando8 tendes razo2 mas apiedae-vos tambem de suas victimas ainda palpitantes1 d'essas creanas que elles definharam e ceifaram em flor1 e que vs condemnaes4 ,piedade e justia para todos4 ,no desespereis os que vagarosamente caminham sobre os abrolhos da penitencia1 mas no lhes encurteis a escada para os subir ao ceo4 ,sabei que na outra vida se chora amargamente o mal feito ao proximo que n'este mundo nos sobrevive1 as desordens que se motivaram1 as existencias que se transtornaram1 as quedas moraes que se occasionaram1 e que o arrependimento na hora extrema1 posto que grandemente salutar1 apenas o principio1 e no o fim1 das expiaes d'uma vida culpada4 de crer que na ,biblia e nos padres da ,igreja isto se no encontre escripto2 mas est escripto nas consciencias4 ,limpem os oculos e leiam4 ,,capitulo ,,terceiro ,,os ,,fructos ,,do ,,inferno ,i ,o bem 7,,bem ,,negativo1 ,,monges1 ,,anachoretas1 ,,etc47 ,se a morte vos sobresalta antes da penitencia1 diz-se que sois condemnado por erro de espirito1 por fraqueza dos sentidos1 por um lance d'olhos1 por um desejo culposo1 e condemnado1 sem esperana1 tanto como se houvesseis sido um ladro calejado1 um parricida1 um atheu4 ,l vos est esperando o ,senhor da vida2 e ahi ides enredado em vosso peccado como ave cahida no lao4 ,e tudo se acabou2 tudo1 sem que os vossos longos servios ao genero humano contrabalancem o peccado final6 ,se1 no entanto1 comparaes tudo que se ha mister fazer para ganhar o ceo ao pouco que basta para cahir no inferno1 sereis forado a reconhecer que as probabilidades so dissimilhantes1 e que o mais certo1 faa-se o que se fizer1 a condemnao4 ,d'onde procede nas imaginaes vivas a dominante preoccupao de evitar o inferno2 e d'ahi1 pelo conseguinte1 e desde os primeiros seculos1 uma especie de singulares virtudes1 mais espantosas que bellas1 mais extravagantes que insinuativas3 virtudes falsas1 sem utilidade do proximo1 bem que os theologos no'l-as inculquem por ideal da perfeio christ4 ,tal o retiro ao deserto1 a renunciao propria1 o morrer antecipado1 o fugir combates da vida1 o desquite de deveres da familia e da cidade1 a ociosidade contemplativa e penitente1 a macerao1 o jejum1 o perpetuo silencio1 a insulao1 o odio ao mundo1 a orao entre quatro paredes4 1 tambem1 a santificao do celibato1 como se a fecundidade dos sexos houvesse sido amaldioada1 como se fosse culpa continuar a filiao de ,ado1 e virtude esterilisar em si os embries da vida humana4 ,e certo que1 admittido o inferno1 e a queda original1 e o ensinamento que lhe anda annexo1 que outra concluso se colhe8 ,multiplicar os homens1 para que8 para multiplicar os peccados8 ,se to duvidosa a salvao6 ,se a condemnao to facil6 ,para que nos enlaaremos orla d'um abysmo onde o esposo pde despenhar-se com a esposa e o pae com os filhos8 ,bastantissimos mentecaptos se casam1 e povoam terra e inferno de desgraados4 ,no seria melhor deixar acabar o mundo8 ,bemaventurados os celibatarios6 ,os sabios so os reclusos1 os anachoretas1 os eremitas4 ,so como os viajantes que1 em navio a pique1 desamparam os companheiros1 e salvam-se a nado4 ,cuidam s do seu salvamento2 cada qual por si2 soccorrer o irmo tem o risco de naufragio4 ,fazei como elles1 navegantes2 deixae no navio em sossbro mercadorias1 thesouros1 e vossas mulheres1 e mes1 e vossos filhos1 e fazei-vos ao largo3 recresce a borrasca2 rasga-se a vela2 quem poder salve-se4 ,bemditos sejam pois esses foragidos do mundo1 mortos ao mundo e seus modelos1 ,simeo sobre a columna1 ,joo no muladar1 esses desvariados todos macillentos1 sujos1 comidos de insectos4 ,grande vantagem levam3 no tem que vr com a terra1 e j esto meios mettidos no ceo3 o diabo j mal os pde aprezar4 ,no 1 todavia1 a perfeio dos ascetas aquella que o ,filho do homem nos exemplificou4 ,trinta e tres annos habitou ,elle a terra1 e quarenta dias smente ermou no deserto1 no para nos l attrahir2 mas1 a meu vr1 para nos distancear1 pois que foi no deserto1 e ahi tam smente1 que o espirito das trevas o tentou4 ,anteriormente havia ,elle vivido trinta annos com a sua familia2 e viveu o restante entre peccadores4 para notar que nas suas modestas occupaes1 sob o colmado do carpinteiro1 e mais tarde nos campos1 nas cidades1 nas tavernas1 em meio do povo que ensinou1 curou e nutriu1 no ousou o diabo tental-o6 ,mal imita ,christo quem foge o mundo que ,elle procurava4 ,o sepultar-se um homem nos antros1 a jejuar e a rezar por longo tempo1 o sequestro da sociedade1 o silencio1 corpos macerados mal enroupados em pelles1 exorcismos furiosos1 luctas no vacuo1 intrepidez baldada1 e tantissimos outros piedosos desatinos no recordam exemplos do ,salvador1 mas sim as aberraes dos sectarios do oriente4 ,no pde ser isto a perfeio que ,jesus veio ensinar aos homens2 que tal chamada perfeio muitissimos seculos antes d',elle j era conhecida dos pagos idolatras1 que tinham seus corybantes e vestaes1 e bem assim dos judeus1 mormente dos ,essenios que a tinham aprendido dos magos da ,chalda4 ,tal perfeio praticavam-a na ,india fanaticos sem numero1 cuja raa ainda subsiste4 ,importamo'l-a dos mesmos paizes que nos mandaram a doutrina dos anjos rebeldes e a da reprovao dos homens--doutrinas cujo natural fructo tal casta perfeio4 ,se o ideal da perfeio humana fosse isto1 inutil seria o christianismo2 pois que j os brahmanes a tinham ensinado dous mil annos antes do presepio1 e os bouddhistas a tinham realisado mil annos antes dos monges da ,thebaida4 certissimo que os bouddhistas no visam exactamente ao mesmo scpo que os monges catholicos3 aquelles buscam em suas austeridades a morte absoluta1 a destruio de sua personalidade1 o serem absorvidos no ser universal1 ao mesmo tempo que os monges1 se renunciam ao seu eu neste mundo1 para o retomarem n'outra vida4 1 comtudo1 egualmente certo que1 sem embargo da diversidade dos fins1 vigora em ambas as seitas um principio commum1 sendo que por identicas vias e praticas procuram a eterna bemaventurana uns1 e outros o perpetuo dormir1 a eterna insensibilidade4 ,s de per si o desejo do ceo no bastaria a inspirar a uns o mesmo proceder que inspira aos outros o desejo da anniquilao3 pelo que1 no o desejo1 seno o medo que pova os desertos4 ,os bouddhistas1 por egual com os christos transviados1 temem os soffrimentos infindos1 os males sempre a renascer1 se n'este mundo no attingirem a vida perfeita2 e tanto para elles como para os nossos monges1 vida perfeita o absterem-se da vida1 a virgindade1 o jejum1 a penitencia1 a soledade1 o extasis1 o antecipar a morte1 um complexo de estereis virtudes1 no filhas do amor1 seno do mdo4 ,tal 1 na sua mais elevada expresso1 o bem que a crena do inferno produz n'esta vida4 ,causa espanto que os protestantes hajam conservado este dogma6 1 porm1 mais para espantar que elles1 ao mesmo tempo que o conservam1 destruam os mosteiros e inpugnem o celibato4 ,no ha ahi imaginar maior inconsequencia6 ,a primitiva ,igreja1 que elles pretendem resurgir1 cria sem duvida nas penas eternas1 isto mais que muito verdadeiro2 mas pelo menos1 operava em conformidade com sua f4 ,n'aquelle tempo1 os esposos1 ainda em vigorosa mocidade1 guardavam continencia1 sob pena de peccarem1 durante o advento e quaresma1 e nas festas e dias de jejum1 pouco mais ou menos tres quartas partes do anno4 ,d'elles alguns1 para maior perfeio1 no usavam nunca os direitos conjugaes1 e envelheciam sob o tecto nupcial1 em voluntario celibato1 denegando-se as frias caricias que o irmo faz a sua irm4 ,os ricos empobreciam-se1 despojando-se espontaneamente de seus haveres1 e os pobres lidavam para viver1 mas descuidosos de amontoar1 nem como previdencias para a velhice e infermidade1 nem para legarem a filhos4 ,conta-se que desadoravam empregos publicos1 e evitavam1 como escolhos da alma1 as emprezas lucrativas nomeadamente as commerciaes4 ,nunca espectaculos1 nem jogos1 nem dansas1 nem folias4 ,sobriedade extrema1 vestidos nem apontados nem de preo1 jejuns em barda1 orar dia e noite1 lucta incessante e pertinaz contra a natureza4 ,o seu distinctivo de christos era aquelle4 ,uma leve falta1 acareava-lhes a excommunho2 e1 antes de absoltos1 eram experimentados em seu arrependimento1 por espao de mezes e annos1 quando o no eram at morrerem4 ,em quanto durava a penitencia1 eram apontados1 no s nos templos1 durante os mysterios1 seno tambem no exterior e nas relaes da vida civil2 e1 por cima de ninguem os querer sua meza1 at as esmolas lhes regeitavam4 ,diz com raso ,fleury que a vida dos nossos monges regulares corre parlhas com a do commum dos fieis da ,igreja nascente1 cuja continuao #b4 ,e accrescenta#c que j entre aquelles fieis havia ascetas d'ambos os sexos vivendo reclusos4 ,eram os mais perfeitos1 e exemplares4 ,taes ascetas1 verdadeiros ascendentes dos monges contemplativos1 trappistas1 cartuchos1 carmelitas1 claristas1 etc41 esforavam-se por imitar a vida de ,joo ,baptista no deserto e a de ,elias no ,carmelo4 ,curavam elles pois1 como j dissemos1 uma perfeio diversa da de ,jesus3 anhelavam a perfeio negativa1 qual os judeus e os orientaes a preconisavam2 judaisavam sem darem d'isso tento1 e os christos seus imitadores continuavam inadvertidamente a tradio1 no j de ,jesus1 mas de ,joo ,baptista e ,elias1 tradio congruentissima com o inferno4 ,j no tempo das perseguies era povoada a ,thebaida2 no tinha ento a ,igreja um tecto debaixo do ceo2 e s depois que principiou a erguer templos que edificou mosteiros1 sua primeira obra depois que sahiu das catacumbas4 pois evidentissimo1 em que peze aos protestantes1 que o catholicismo no se apartou do espirito dos tempos apostolicos1 nem das praticas de ento1 e que a vida monachal detestada por elles1 ainda hoje em dia o que outr'ora foi1 a mais bella flor1 e o mais mimoso fructo dos dogmas hebraicos1 que elles to piedosamente tem conservado4 #b ,costumes dos israelitas e christos1 tom4 ,,ii1 cap4 #ec4 #c ,costumes dos israelitas e christos1 cap4 #bf4--;,citei esta excellente obra por que ella manuseada por todos1 e facilima de consultar4 ,de mais a mais1 depara-nos a indicao das fontes onde o auctor bebeu1 dispensando-nos assim de as indicarmos n'este livro4 ,,ii ,a carmelita ou o ideal da perfeio theologica4 ,comvosco admiro as religiosas que1 sob diversos nomes e com diversos habitos1 assistem ao genero humano1 tanto com suas oraes1 com o seu trabalho quotidiano1 com toda a celeridade de seus ps1 com toda a agilidade de suas mos1 como com todas as foras de seu ser4 ,credes que no possivel seguir mais do que ellas os divinos vestigios do ,salvador4 ,ah6 quanto vos enganaes6 ,quanto so baixas e eivadas de heresia as vossas idas6 ,a perfeio no consiste na vida activa e benefica das irms da caridade2 onde ella est1 segundo o ensinamento dos theologos1 na vida contemplativa4 ,se procuraes1 senhora1 o modlo para vs e vossos filhos1 encontral-o-eis na carmelita1 com preferencia irm da caridade4 ,aquella morreu para o mundo1 jaz no seu cubiculo como em um tumulo4 ,v quem quizer agasalhar orphos1 ensinar ignorantes1 restaurar peccadores1 curar doentes1 ensinar officios a servos1 dar voz a mudos4 ,affronte quem quizer o contagio de nossos vicios6 ,quem quizer que cure a nossa lepra6 ,esses cuidados vulgares no os quer a carmelita para si4 ,aos ps do altar1 com os braos levantados ao ,senhor1 o seu posto4 ,no se bulir d'alli1 ainda que todo o paiz arda ensanguentado4 ,no lhe digaes3 vosso irmo est a morrer2 vossos sobrinhos vos esto chamando4 ,no lhe digaes3 arde a peste na cidade2 vossa porta est a maca4 ,ha muito que ella concebeu tedio do mundo2 no lhes leveis novas d'elle1 que perturbarieis o seu socego4 ,quanto menos ella se inquieta d'essas transitorias miserias1 mais os theologos a admiram4 ,n'isso mesmo1--crl-o-eis8-- que est1 segundo elles1 a sua superioridade sobre a irm da caridade1 cujo corao virginal arfa como corao de me ao grito da criancinha#d4 ,a carmelita no pensa1 nem tem que pensar seno em sua propria salvao1 e tal pensar um manancial das commoes que unicamente lhe so permittidas4 ,bem que ella viva dez1 vinte1 cincoenta annos sob o veo1 far todos os dias1 mesma hora e da mesma maneira1 a mesma coisa sem poder por seu arbitrio alterar-lhe o minimo4 ,so-lhe pautados os movimentos1 e contados os passos4 ,em todo o curso de sua vida no ha a menor surpreza1 o minimo abalo1 o imprevisto1 a menor liberdade1 ou elevao espontanea das faculdades moraes4 ,esto definidas e immutaveis as suas relaes com todas as coisas animadas ou inanimadas que a cercam3 no se afeioa1 no escolhe1 no se decide4 -lhe prohibido ganhar affecto a coisas e a pessoas4 ,a abelha mais livre do que ella em sua colmeia1 e menos inflexivel que as regras monasticas o instincto que a dirige4 ,uma communidade de freiras parece-se a um povo de automatos e no a um enxame de seres viventes4 ,e essa que a condio pela qual a harmonia subsiste4 ,n'estas sociedades contra natureza1 prudente que a natureza seja algemada2 pois1 se lhe dessem folga1 ella se revoltaria2 e por tanto foroso esmagar a liberdade como cautela para que a licena no vingue4 pois a carmelita em todos os seus actos mera machina4 ,tem alma para obedecer e trabalhar na sua interior perfeio1 destruindo em si1 cada vez mais1 vontades1 desejos1 e individualidade at s raizes4 ,onde est a lucta est a vida4 ,n'esse immutavel centro1 solitario e silencioso1 onde se caminha sem mudar de piso1 passa a adolescencia sem curiosidade1 e a velhice sem experiencia nem memoria4 ,ahi nada se renova2 o dia que chega nada promette2 o dia que finda nada deixa2 a vida um livro1 cujas paginas em vo se folham3 sobre essas paginas brancas ha uma s phrase1 do comeo ao fim1 sempre a mesma3 pensa em ti1 pensa na eternidade4 ,ahi vem agora com que espancar o tedio do mosteiro4 mingoa de grandes e formidaveis combates do lar domestico e da sociedade1 isto 1 da vida real qual ,deus a fez1 a ociosa carmelita pugna heroicamente contra sua razo1 contra seus sentidos1 imaginao1 e faculdades inactivas4 ,cr resistir ao diabo1 resistindo necessidade de operar1 de amar1 de saber1 e ser util3 estafa em puerilidades a sua virtude4 ,se durante o officio1 uma mosca lhe pousa no nariz1 um caso1 uma provao4 ,se est distrahida1 assalteam-na remorsos2 se impaciente1 vai confessar-se d'isso4 ,uma pulga outro inimigo terrivel1 outra occasio de grande queda ou de grande victoria6 ,um alfinete mal pregado1 um vo descomposto1 uma lembrana1 um gemido1 um pensamento clandestino1 o rastilho d'um rato atraz do armario1 um ,ave esquecido1 cathastrophe6 remorso6 ruina de ,sio6 prantos de ,job6 brados de ,rachel6 transportes de ,jeremias6 ,qualquer bagatella a alvoroa como materia de peccado mortal2 qualquer futilidade lhe avulta com propores monstruosas2 pesa gros de areia1 e mede os atomos4 ,pois se ella conseguiu esquecer sua familia1 seu paiz e o mundo1 no a cuideis completamente impassivel como se vos figura3 o que ella fez foi concentrar em si e para si o amor e piedade que nega aos outros4 ,idolatra-se1 no ao modo dos sybaritas1 mas por um theor que1 posto no seja sensual1 no menos egoista3 absorve-se em contemplao de sua alma2 no proprio corao preenche o vacuo de familia e de amigos1 e de quantas creaturas de l expulsou4 ,contempla-se ssinha1 entre o inferno e o co1 a tremer perante um tal espectaculo1 e sempre fluctuando entre estes abysmos1 ora nas alturas1 ora nas profundezas1 passa de um delirio a outro1 e das palpitaes do terror ao extase dos seraphins4 ,eu por mim no sei se ,deus sorri a taes futilidades1 a tal vida que no viver1 e a tal morte que no morrer2 mas os theologos affirmam que n'isto que a perfeio consiste4 ,e foroso concordar que elles tem razo1 se ha inferno4 ,se ha inferno1 a irm da caridade imprudente1 e ns1 os admiradores d'ella1 somos sandeus4 ,o sequestro mais rigoroso a consequencia legitima1 natural1 necessaria e fatal d'este dogma selvagem4 ,o alicerce1 a porta e o tecto do mosteiro aquelle dogma1 que desata as sociedades naturaes e viventes avinculadas pelo amor2 elle o occulto liame d'aquellas sociedades de automatos que no permaneceriam um dia1 nem hora1 nem momento1 se tal dogma fosse proscripto4 ,sem inferno1 a vida claustral no se percebe2 com inferno1 no ha imaginal-a mais a ponto1 e obrigatorio confessar que1 de feito1 a perfeio est n'ella1 visto que a razo est com ella4 ,no obstante1 filhos do seculo1 no renuncieis afogadilho de seculo1 que vol-o prohibem os theologos4 ,ficai entre peccadores1 no foco das tentaes1 dos escandalos1 dos erros1 e das ciladas que vos tramam4 ,razoavel coisa seria fugir para o porto seguro que vos offerecem2 mas no vades2 continuae a navegar entre restingas1 merc dos tufes1 aos clares dos relampagos4 ,o convento no vos quadra2 porque no foi feito para muitos4 ,entendo1 direis1 que o convento se abriu para os entes mais debeis1 para os incapazes no s de ajudar a outrem1 mas tambem da mesma mente se salvarem1 sem se arriscarem s tempestades4 ,faz-se mister s almas frageis e justamente timidas o estreito cenobio do claustro1 a proteco das gradarias1 a escravido1 as regras1 o vo sobre os olhos1 a mordaa nos labios2 sem o que se perderiam4 ,em quanto os valentes combatem1 vo ellas esconder-se longe do inimigo4 ,no seu caminho se arrastam gemebundos alguns fugitivos1 fallidos de animo1 cahidos por terra1 feridos de suas proprias armas1 e quem sabe se alguns heroes alanciados no corao6 ,entendo1 direis1 que o claustro o refugio dos pusillanimes1 o porto dos naufragados1 o hospital dos infermos1 e aqui se mostra a apparente razo porque nem toda a gente l pde entrar4 ,est enganado o duro leitor1 que nada percebe dos mysterios theologicos4 ,saiba pois que o claustro o asylo dos fortes2 e que s l so recebidos os athletas a primor1 mais puros e intrepidos1 a flr da juventude christ4 ,no soffre a menor duvida que mil vezes mais de perigo a sociedade onde os soccorros so muito menos do que os retiros abenoados4 ,que nos faz isso6 ,de logar abrigado e onde a graa superabunda que os poucos so repulsos1 com quanto1 ao primeiro intuito1 nos parea creado para elles2 ao mesmo tempo que do baluarte das luctas angustiosas se retiram os fortes1 com quanto parea tambem este o seu logar proprio4 ,os coxos1 os cegos e os inermes so postos na lia sanguinosa2 os mais aguerridos soldados enclaustram-se4 ,espantem-se e riam-se1 que a coisa assim2 e1 seno1 perguntem-no ,sorbonna4 ,e assim preciso que seja1 pois que a perfeita vida a claustral1 que1 no entender dos theologos1 vem a ser a mais avssa s inclinaes de nossa natureza viciosa1 e1 por conseguinte1 a de mais difficil observancia2 mas1 porque impraticavel na sociedade1 no se lhe dispensa de ser exemplo sociedade2 e1 sem presumpes de l chegar1 devemos propender para ella continuamente1 visto que estamos tanto mais beira do inferno quanto longe d'aquella vida perfeita4 ,que se hade fazer1 pois8 ,eis o problema4 ,cada qual tem no mosteiro um trilho feito1 e o futuro certo1 portanto est quite de cuidados que fra d'ahi seguem a pobreza1 o trabalho1 e at a riqueza1 alm das responsabilidades que a toda a hora pendem dos actos de uma vontade livre1 n'um viver sempre fluctuante4 ,no mosteiro tudo exemplos edificantes2 e1 posto que seja defezo ahi grangear um amigo1 em compensao no se adquirem inimigos4 ,nem impeos1 nem disputas1 nem conflictos1 males que a liberdade produz1 sendo que a servido lhes esmaga os embries4 ,no exterior tudo recolhimento1 paz1 ordem1 silencio1 e esforo2 perturbaes1 se as ha l1 vem do intimo e do recondito do nosso ser4 ,o unico inimigo que ahi ha que recear o diabo1 tal invisivel e impalpavel adversario que todos trazem comsigo1 fracos e fortes1 mundanos e frades2 porm tal inimigo perde no claustro boa parte das suas prerogativas2 porque alli no est elle como em sua casa1 e no seu reino3 so-lhe menos os ministros1 os vassallos1 e os recursos4 ,o recluso1 afra a pessoal energia de que dotado e lhe assignala a vocao1 topa ahi de todos os lados conselhos e amparos2 e como quer que tenha em frente aquelle unico inimigo1 soccorre-se de mil auxilios1 que faltam ao homem do seculo1 e1 mo grado a sua fraqueza original1 vence-os4 ,que fazemos pois n'este misero mundo em que a infermidade nos algema8 ,ha aqui o rir1 o chorar1 o renhir1 o disputar1 o abraar-mo-nos1 o odiarmo-nos1 perseguirmo-nos1 e o aniquillar-se o homem contra homem3 uma reluctancia sem fim1 e sem regra1 um retinir de espadas1 um estrondear de martellos1 de carros1 de machinas1 de cantares1 de gemidos1 um chos1 uma desordem1 da qual a clausura no poderia dar-nos sombra de ida4 ,aqui1 so mil os objectos em que a alma anda repartida2 as diminutas foras que temos dispersam-se4 ,acol o inimigo identificado comnosco1 traz escolta de auxiliares1 e a lucta interna de que ninguem se izempta1 complica-se com as luctas externas e inevitaveis4 ,cada homem tem de bater-se com uma legio4 ,quantos cuidados6 ,quantos deveres6 ,quantas incertezas e anciedades6 ,quantas encruzilhadas sem nome1 sem pharol1 sem sahida6 ,que poeiras1 e que sombras6 ,considerae aquella me de familia a quem encareceis as virtudes da carmelita4 pobre1 todos os seus parentes so pobres1 os filhinhos rotos1 famintos1 quasi sempre doentes1 o marido alquebrado do trabalho1 ou que1 desanimando1 se envileceu e a espanca1 um patro1 um proprietario1 credores1 mestres1 amos1 amigos1 e que amigos6 conselheiros1 mas conselheiros de ,job6 ,se tal me rica1 tem uma casa que reger1 creados a dirigir1 os quaes nem fizeram voto de pobreza1 nem de obediencia2 filhos a educar1 sagrados interesses que defender1 relaes que receber1 um marido a contentar1 quer seja honrado ou no1 quer seja piedoso ou impio4 ,com vontade ou sem ella est continuamente a braos com as paixes alheias1 com caprichos1 interesses1 vontades e affectos contrarios2 de continuo em face de circumstancias imprevistas1 casos litigiosos e incertos1 onde lhe foroso resolver-se quando qualquer resoluo perigosa1 no o sendo menos os perigos1 se se absteem4 preciso que ella1 se quer salvar-se1 seja a um tempo economica e caritativa2 communicativa1 mas discreta2 umas vezes branda1 e outras inflexivel2 expedita1 mas reflexiva2 previdente1 mas conformada a todos os sobresaltos da fortuna2 que viva ao mesmo tempo em si1 e nos outros1 para si1 e para todos3 misso indefinivel1 cheia de contrastes1 de atravancos1 de cruzes1 mais ardua e mais difficil que a misso da freira4 ,digam embora que esta me de familia tem na sua miseria satisfaes1 tranquillidade e jubilos que no goza a carmelita3 depende isso de saber se os jubilos de que fallam so comparaveis s dres que a freira ignora4 ,de mais1 esqueceis que esses prazeres so um engodo e que se prendem n'elle sem o conhecer1 e se prendem tambem quando o conhecem4 ,a saciedade1 o desgosto1 e o cansao so as naturaes barreiras da voluptuosidade4 ,chegar at ahi a mulher christ8 ,no o permitta ,deus4 ,at onde ir8 ponto mathematico que separa o peccado do prazer licito2 e1 quando o limite se procura1 onde fica elle j8 ,raras vezes estamos a ss com a serpente como ,eva no ,eden1 e a freira na cella4 mesa e em toda a parte ha quem vos distraia1 seduza e arraste2 bebemos sem sde2 est a bocca repleta1 mas os olhos famintos2 o gozo que satisfaz a preciso aguilha o desejo4 ,quem houver de parar a tempo na ladeira onde o aventurarmo-nos permittido1 ha de ter mil vezes mais vigilancia1 cuidado e poder sobre si1 do que lhe seria preciso para l no pr o p4 ,conceder alguma coisa natureza contiar o fogo que quizeramos extinguir2 alimentar o leo que desejaramos estrangular4 ,das delicias menos carnaes1 toucador1 conversao1 emprego de teres e do tempo1 ainda mais desconhecido o limite1 maior a liberdade1 e mais temivel a responsabilidade4 ,no me fallem de umas satisfaes mentirosas que o terror empeonha quando se pensa n'ellas1 e que o inferno cora1 quando se no pensa no inferno4 ,por certo que duro1 mas o mais prudente regeital-as4 ,a absteno uma lei simples1 clara1 e breve3 bastante que haja coragem para a praticar sobretudo nos votos conventuaes4 ,a freira1 com o andar do tempo1 afaz-se lucta2 curva-se ao jugo2 os sentidos privados de excitaes amortecem1 at que1 por fim1 a coragem se torna to inutil quanto lhe foi em todo o tempo inutil o espirito de proceder4 ,mas1 se a lucta intima se prolongasse1 a freira para evitar os desvios e as fugitivas rebeldias do corpo e da vontade1 careceria de ter at ao seu derradeiro suspiro o inferno diante dos olhos1 o cilicio na cintura1 e o terror na alma4 ,assim 1 mas que importa8 ,comparado aos soffrimentos de uma me1 o que o cilicio de uma virgem8 ,quem ousar comparar essas duas existencias8 ,comparar receios pessoaes com receios generosos8 ,combates sem testemunhas a combates exemplares8 ,trabalhos infructiferos a fecundos suores8 ,e fallando sisudamente1 e na melhor f1 se uma d'essas duas pessoas devesse copiar a outra1 no de certo a me que deveria servir de modelo8 ,a irm da caridade no j de si me8 ,e a esposa de ,jos que trouxe em seu seio1 e nutriu com seu leite o ,filho do ,homem1 e ao p da cruz lhe recebeu o ultimo alento1 no foi ella1 em sua amargura1 a me adoptiva de ,joo1 o amigo d',aquelle por quem chorava8 ,que jactancia essa ento d'um desprendimento de affectos e vontades8 ,para que querem insinuar em nossos lares taes inquietaes1 terrores e escrupulos1 unicas occupaes do claustro8 ,e para que 1 em nome do ceo1 sobrecarregar de jejuns e abstinencias a jornaleira1 a camponeza1 a me1 que j vacillam sob o fardo do padecer e trabalhar8 ,v-se que theologia e bom siso so coisas infelizmente contradictorias4 ,v-se que seria preciso abolir o inferno para que depois viesse a renuncia das maceraes1 terrores e falso ideal que um claro entendimento reprova4 ,mas porque no se apaga o inferno8 ,extincto elle1 brilharia o purgatorio com luz mais viva e salutar4 ,o inferno que faz odiosa a liberdade1 rebaixando-a e vilecendo-a2 o purgatorio volve-a estimavel1 realando-lhe bellezas1 dignidade e grandeza1 sem lhe dissimular os perigos e as penas4 ,quem cr no castigo eterno1 enterra o talento para que o ,senhor lhe no toque4 ,quem melhor conhece o ,senhor e sua justia faz render cinco talentos em casa do banqueiro1 arriscando-se a perdel-os4 ,o purgatorio actualmente de que vos serve8 ,dizem que a pobre carmelita se abalana a l arder milhares de annos1 por causa de algum secreto estremecimento do seu corpo que ella tanto disciplinou2 por causa do captivo espirito que to enfreado trazia1 ou1 emfim1 conta do corao generoso1 cujas pulsaes tantas vezes abafra4 ,o purgatorio deve aterrar principalmente a freira e os que vivem como ella2 ora os mundanos no tem razo de se affligirem1 antes devem consolar-se1 pensando n'aquelle logar de supplicio4 ,a ns1 filhos do seculo1 no nos racionalmente permittido aspirar quella dolorosa felicidade1 que castigo dos sanctos e o seu primeiro galardo ao mesmo tempo4 ,em vez1 porm1 de o desejar1 e desejar em vo1 como ns o temeriamos1 se elle fosse a unica estancia em que se cumprisse a justia de ,deus6 ,que mudana se faria em tudo d'este mundo6 ,a perfeio e a salvao no estaria na ociosidade em joelhos1 no terror em orao1 no fugir ao proximo1 no entregarmo-nos a algumas privaes e dres corporaes1 arbitrariamente substituidas s dres e sacrificios de uma vida proveitosa4 ,ento se entenderia que ha dous modos de abusar de nossas faculdades1 uma que est no desprezo d'ellas1 com receio de as usar inconvenientemente2 outra que consiste em nos servirmos d'ellas indiscretamente e ao avesso das intenes da ,providencia que nol-as deu4 ,a doutrina do ,evangelho no doutrina de absteno2 doutrina de aco3 causa porque o purgatorio lhe quadra melhor que o ,evangelho4 ,carecemos menos de frades que de christos4 ,se o inferno refreia o mal1 tambem impede o bem4 ,a ameaa seria salutar2 mas ella faz mais que ameaar1 empedra como a cabea de ,meduza quem a encara a fito4 ,tende a supprir com uma especie de passibilidade estupida a livre e intelligente actividade da alma4 ,no derime o egoismo1 exalta-o a mais no poder1 e tal exaltao devidamente localisada no deserto1 n'uma gruta1 no claustro1 medonha de vr-se no seio das familias4 #d ,elles comparam as irms da caridade quella mulher de ,bethania chamada ,martha1 a qual1 vendo entrar ,jesus em sua casa1 se deu pressa em lhe servir a ceia2 e comparam a carmelita ,magdalena que1 em vez de ajudar ,martha nas suas diligencias1 lavava e perfumava os ps do divino hospede1 enxugando-os com os seus cabellos4 ,diz porm o ,evangelho que ,jesus estava meza quando ,magdalena lhe abraou e ungiu de lagrimas os ps4 ,no ha palavra na relao dos apostolos1 d'onde possamos colher que melhor orar pelos famintos do que alimental-os4 ,o contrario que l se diz2 e quando ,jesus nos faz assistir de antemo ao julgamento do dia final1 exclama3 tive fome1 e vs me alimentastes2 tive frio1 e me vestistes4 ,a scena de ,bethania1 e o louvor dado a ,magdalena1 no desluz o claro ensino do ,evangelho4 ,este episodio prova smente que no basta alimentar os pobres1 mas que tambem mister instruil-os como filhos de ,deus1 os melhores amigos de ,jesus1 e sua visivel imagem na terra3 o que rigorosamente fazem as irms da caridade1 e no fazem as contemplativas4 ,,iii ,discurso de uma mulher de sociedade que havia tocado a perfectibilidade theologica ,de que serve amar-se a gente n'este mundo8 ,acaso nascemos uns para os outros8 ,somos apenas companheiros de viagem que uma eventualidade ajuntou por momentos1 mas que breve se ho de apartar1 e talvez para sempre4 ,prestemo-nos de passagem alguns servios1 mas por amor de ,deus1 sem nos ligarmos reciprocamente4 ,por que ha de a gente amar-se8 ,vs que me ouvis1 sabeis quem sou8 ,e eu que vos fallo sei quem vs sois8 ,tendes um ar angelical1 meu irmo1 mas o interior de vossa alma no o vejo2 o semblante do homem enganador2 a sua lingua atraioada1 as suas proprias virtudes so perfidas4 ,n'este mundo tudo armadilha e mentira4 ,que demencia o amar1 quando1 com certeza1 ninguem pde fiar-se d'outrem6 ,que injustia querer um que o amem1 quando nem a si mesmo se conhece alguem1 e a cada hora se altera o genio1 e ninguem pde fiar mais da durao de seus sentimentos que da durao de sua vida6 ,viajamos mascarados1 s conhecidos de ,deus1 mas to occultos a ns mesmos quanto aos outros4 ,a que propendemos8 ,mal o sabemos1 to fluctuante a nossa razo4 ,se melhor nos conhecessemos1 a maior parte de ns se mutuaria rancores2 em vez1 porm1 de se odiarem1 os homens se entre-buscam no seio das trevas1 attrahidos pelo mysterio que os innubla1 e que devra1 se elles fossem discretos1 afugental-os uns dos outros4 ,ah6 no nos amemos1 no nos amemos6 ,ai d'aquelle que d seus amores creatura6 ,ai dos que se amam sobre a terra6 sombra que abraa a sombra1 o nada que se une ao nada4 ,amavel s o bem3 o restante detestavel4 ,meu pai1 honro-te e sirvo-te1 por que vai n'isso um dever meu1 e porque podes ser1 sem que eu o saiba1 um santo2 amar-te1 porm1 no posso1 porque1 se n'este instante morresses1 ninguem me certificaria de que ,deus te perdora4 ,eu devo amar em ti1 smente o bem occulto que ahi pde estar1 e o amo em ti como nas outras creaturas1 sem predileco por alguma2 porque esse bem occulto no provm d'ellas2 e1 se em ti existe--o que eu no sei1 mas muito desejo--no procede de ti4 ,no te julgo1 meu pai4 ,se eu escutasse o sangue1 creio que te amaria at culpado1 unicamente porque s meu pai1 e eu me lembro de ter dormido em teus braos4 ,mas estes momentos da natureza corrompida j eu venci4 ,nada me s4 ,tracto da minha salvao servindo-te e honorificando-te2 mas amar-te seria perder-me1 por que amar o homem em si mesmo amar o peccado4 ,na outra vida no ha maridos1 nem esposas1 nem paes1 nem filhos1 nem familia4 ,pais e filhos1 mes e filhas1 irmos e irms sero separados no dia do juizo1 desatados todos os vinculos4 ,no amemos ninguem1 ninguem6 ,j pde ser que o inferno se esteja escancarando para aquelle que amarmos1 e quem sabe se ns no cahiremos l tambem empurrados pelo nosso amor8 ,nada de sentimentos cegos2 nada de sentimentos corruptores4 ,a ternura do homem um disfarce de odio2 e mais valera que elle nos odiasse francamente4 ,no amemos ninguem6 ninguem6 ,pde ser que por ao p de ns andem condemnados1 cujos nomes ignoramos4 ,no amemos alguem1 que nos no v sahir algum reprobo4 ,sou tua serva1 meu esposo2 servir-te-hei1 obedecer-te-hei2 e para te agradar o dever me forar a cumprir o que me pedires do corao1 que no teu4 ,so doentes os nossos filhos8 ,por que te assustas8 ,so hospedes que te foram confiados1 e que tu deves esperar vr irem-se ao primeiro aceno de quem t'os mandou4 ,eu que os trouxe no seio e os criei1 vel-os-hei ir1 sem lagrimas4 ,quem sabe onde iro quando nos deixarem8 ,cumpria que lhes vissemos o fundo d'alma para os amarmos4 ,praza a ,deus que elles morram na sua divina graa6 o meu mais ardente voto2 e1 se mais alm eu fosse1 a minha ternura seria fraqueza4 ,se elles vo ao co1 hei de eu chorar-lhe tamanha dita6 ,e se so condemnados4444 ,no amemos ninguem1 ninguem1 nem os nossos filhos sequer6 ,familia temos s uma3 ,deus com os seus anjos1 e confessores e santos4 ,tudo mais no merece uma lagrima nem um sorriso4 ,roguemos1 por tanto1 uns pelos outros1 filhos do peccado1 mas nada de nos amarmos4 ,,iv ,discurso de um mundano1 aps bastos estudos cerca da perfeio theologica ,em continuo pavor do inferno viveram os santos3 oraes1 jejuns1 cilicios1 meditar nas escripturas1 vigilias ao p da cruz1 benos de pobres soccorridos por elles1 perpetua immolao1 indigencia de cella1 ninhos de palha1 alimento a po e agua1 nem com tudo isto socegavam4 ,viviam como anjos1 e temiam4 ,tremiam guerreiros1 padres1 doutores1 pontifices--,mauricio frente da sua legio2 ,gregorio1 o ,grande1 sob a tiara2 ,agostinho1 no pulpito2 ,jeronymo1 em suas estudiosas viagens2 ,antonio e ,pacomio no reconcavo das penedias4 ,noites alvoroadas de pavor passava ,thereza no claustro4 ,nem a innocencia da vida1 nem a adoravel castidade das almas1 nem a tunica immaculada1 nem as mos impollutas1 nem o acerbo arrependimento dos penitentes1 com o rosto sulcado de lagrimas1 nada1 nada lhes aquietava o medo da colera divina4 ,redobravam cada dia austeridades e sacrificios1 persuadidos de que no mereciam a misericordia que to precisa lhes era4 ,ah6 se a alma s assim se salva1 perdidos estamos todos1 meus amigos6 ,bem ouo o theologo que nos diz3 ,no assim2 a salvao ganha-se com menores trabalhos4 ,deus no exige que todos os seus filhos sejam egualmente perfeitos4 ,mas ao theologo respondo3 ,ests perdido como ns1 tu e tambem os teus mestres1 e os teus discipulos1 estaes perdidos todos4 ,os exemplos que nos cumpre seguir so os dos santos1 no so os vossos4 ,mostrae-nos na ,legenda um s santo que subisse ao co pelo caminho commodo que descobristes4 ,debalde hei buscado1 com fim de o imitar1 um homem meio santo e meio peccador1 servindo ,deus e o mundo1 temendo1 como eu1 a miseria1 a dr1 as humilhaes1 condescendente comsigo proprio1 almejando viver no corao de outra creatura1 chorando sobre as illuses esmaecidas como ,pedro sobre o seu peccado4 ,no encontrei tal homem4 ,o mais que vi foi milagres de stoicismo1 maridos que deixavam as mulheres1 mulheres que deixavam os maridos1 filhos que fugiam ao abrigo dos paes1 ricos que todos seus haveres dispendiam1 bispos que fallavam verdade aos reis da terra1 custa da vida at2 ninguem que se contentasse de cumprir no rigor da palavra os preceitos de ,deus e da ,egreja2 por toda a parte almas ardentes de zelo super-natural1 tendo apenas de humanas os incanaveis escrupulos1 os inquietos terrores2 justos sem socego1 penitentes sem repouso1 virgens lagrimosas e anachoretas angustiados4 ,vs1 porm1 que vos quereis salvar e salvar-nos com menos custo2 vs1 que viveis regalados em quanto o ,christo mendiga vossa porta2 vs que tendes riquezas ao sol e riquezas sombra1 quando na vossa parochia tantas familias laboriosas carecem do mais urgente2 vs1 que cubiaes a estola1 a mura ou mitra2 e achaes nas ,escripturas louvores para outrem1 alm de ,deus1 oh6 quanto differentes sois d'aquelles heroes christos cujas imagens campam nos nossos altares6 ,sois o que somos3 haveis mais pavor das praticas dos santos que do proprio inferno2 espanta-vos e desespera-vos a perfeio d'elles2 a pesar vosso1 amaes o que elles aborreciam1 e aborreceis o que elles amavam2 as vossas virtudes so mesmamente humanas1 taes quaes as nossas1 que no vem do alto1 que se enroscam nos nossos vicios e nos acorrentam ao demonio4 ,ai6 que perdidos estamos1 meus amigos6 ,que lucramos em fechar os olhos8 ,estamos todos condemnados6 ,que monta o desprezo proprio pregoado pelos labios1 se no intimo do corao tendes a propria estima sempre desvelada8 ,que aproveitam as momentaneas converses1 seguidas de quedas mais desastrosas8 ,que vos fazem certas privaes associadas a tanto regalos8 ,em verdade vos digo que estamos perdidos6 ,ora pois1 se assim 1 se o abysmo est aberto e o cahir irremediavel1 cerremos os olhos e no cogitemos mais em tal4 ,entre o co inacessivel e o inferno d'onde no ha mais sahir1 resta-nos um momento s3 gozemol-o1 meus amigos4 ,que isto de estar a gente a empeonhar1 com terrores vos1 prazeres1 to raros quo fugitivos8 ,no pensemos no que ser2 pensar n'isso e desesperar a mesma coisa3 desesperar de entrar no co1 e desesperar de sahir do inferno4 ,saboreemos o presente4 ,vivamos terrenamente3 aqui ha creaturas ridentes que nos alegram1 fragrancias que nos deliciam1 e licores que atrophiam a memoria4 ,quem ahi o sandeu que falla em inferno8 ,no ha inferno1 minha me6 ,conclue em paz os teus dias extremos4 ,no contristes com vises pavorosas essas creancinhas que te escutam1 e que talvez falleam antes de ns4 ,ride1 meus filhinhos3 a vida vos ser breve e repleta de miserias1 quando crescerdes4 ,eu desejo1 senhora1 que a minha casa seja manso de jubilos e no de tedios3 quero ser amado pelo que sou e no por caridade2 quero ser obedecido amorosamente e no com submisso de escrava2 alis1 buscarei quem me ame1 e me corresponda4 ,engrinalda-te de rosas1 minha bella6 ,no ha inferno1 e o paraizo tem-l'o ahi mo4 ,enche-me o copo1 e dorme placidamente nos meus joelhos4 ,amar6 amemo'-nos1 at morte2 que da morte para alm comea o odio6 ,ah6 que bizarra inveno no foi esta do inferno6 ,um abysmo para onde naturalmente nos inclinamos1 attrahidos1 impellidos por quanto ha1 cahidos em fim1 e depois1 o abysmo444 fechado para sempre6 ,oh6 primorosa perspectiva para que faamos da terra uma estancia de delicias peccaminosas6 ,v ,o rebanho ,se no fosse preciso crr na eternidade do inferno1 e no pequeno numero dos escolhidos1 e na inevitavel condemnao da maior parte dos homens1 eu odiaria como vs os prazeres da vida2 o sermo de ,jesus na montanha se me figuraria mais bello e intelligivel2 eu entenderia a felicidade das lagrimas1 as delicias da pobreza e a doura de todos os sacrificios4 ,quando1 porm1 se me diz que no bastante haver chorado e soffrido muito n'este mundo para ganhar o perdo divino2 quando se me diz que nada vale affrontar a ira dos tyrannos1 defendendo1 a verdade que os fere1 ou o direito que elles avexam2 quando me dizem que nada monta morrer no patibulo pela liberdade da patria ou no campo da batalha pela sua independencia2 quando me dizem no importa nada envelhecer na miseria por haver preferido a honra s honras1 o estudo opulencia1 o trabalho aos prazeres2 quando me dizem que tudo isto fumo1 que estas dores1 esta coragem1 privaes1 heroica vida1 heroica morte1 no podem resgatar minha alma d'um peccado mortal1 e aos olhos de ,deus no valem o cilicio d'um frade1 ou a confisso de um salteador agonisante2 ah6 confesso que1 ao dizerem-me estas cousas em todos os pulpitos christos1 no entendo o sermo da montanha1 e pelo contrario comeo a comprehender os prazeres d'esta vida4 ,vdes aquelles pescadores que em fragil barquinha vo arrostar as ondas do oceano1 e vogar1 por dias1 semanas e mezes1 longe da praia1 merc das tempestades para ganharem1 custa de mil perigos1 o po de seus filhos8 ,vdes aquelles telhadores na aresta do vigamento8 aquelles mineiros sepultados nas entranhas da terra1 longe dos raios beneficos do sol8 ,vdes o lavrador curvado sobre o sulco8 o pallido tecelo diante das machinas devoradoras8 tanto operario sem nome avergado ao pezo de um trabalho ingrato e sem descano8 ,pois a maior parte d'aquelles condemnada1 por modo que os seus soffrimentos n'esta vida so preludios dos que l os esperam na outra4 ,aquella me que no pde vestir seus filhos1 e que relana olhares invejosos ao palacio visinho1 onde os cavallos medram mais fartos que os filhinhos d'ella2--aquelles mendigos que vagamundam nos campos2 os orphos que se recolhem aos hospitaes2 os soldados que marcham para as fronteiras2 os proscriptos esquecidos no solo estrangeiro1 condemnados1 quasi todos condemnados1 meu ,deus6 ,um repleto conego1 risonho e bochechudo1 sem familia nem cuidados1 repastando-se quatro vezes por dia1 mas sem escandalisar ninguem1 baixando a vista em presena das mulheres1 pontual nos officios1 est mais visinho do co que todos aquelles desgraados2 e mais perto ainda do co est um sancto anachoreta4 ,chorar1 soffrer1 trabalhar no nada4 ,se choram1 no choram as suas culpas1 a miseria dos filhos2 se trabalham no por penitencia1 mas sim para grangear commodidades4 ,lagrimas de ,babylonia1 diz ,s4 ,agostinho4 ,avidos suores1 vs angustias6 ,muitos seculos ha que d'est'arte se lhes explica o sermo da montanha1 e elles nem o comprehendem nem jmais o entendero4 bem de ver que no vivem maneira dos santos legendarios1 nem dos conegos prebendados4 ,os que sabem lr pouco lem1 falta de tempo4 ,muitos no vo egreja1 e os que l vo sahem como entraram4 ,so profundamente ignorantes4 ,a dura necessidade dobrou-lhes a cabea sobre o torro que regam com o seu suor2 e a natureza1 que lhes brada das entranhas da terra1 diz-lhes cousas que elles percebem mais a preceito que os sermes4 ,o estridor e o vapor das materias da sua obragem cega-os e ensurdece-os4 ,no sentem fome nem sde da palavra divina1 qual lh'a ensinavam algum dia4 ,digam-lhes que um eremita vae melhor do que elles1 por que abandonou officio1 casa e parentes1 e todo se vagou salvao da alma1 e que ha vinte ou trinta annos resa1 jejua e se disciplina1 dizei-lhes isto que elles vos desfecharo uma gargalhada2 mas1 se ao mesmo tempo passar um soldado de bigodes brancos1 ou algum recruta aleijado em ,africa ou ,italia1 ou algum repatriado do desterro1 em vesperas de para l voltar1 se a occasio o exigir1 elles o saudaro respeitosamente4 ,que apparea um velho sem occupao1 uma viuva com filhos maltrapidos1 e elles se fintaro para soccorrl-os4 ,contae-lhes casos de bemfazer e lanos de gratido1 vl-os-heis commovidos4 ,as virtudes d'esses infelizes so1 para assim dizer1 selvaticas1 probidade orgulhosa1 amizades humanas1 mas apuradas at abnegao1 instinctos lucidos do que grande e formoso1 mas formoso e grande pela craveira das coisas d'este mundo4 ,de par com isto ha falhas1 e at crimes4 ,impacientam-se1 praguejam1 largam a redea aos desejos1 porque1 no seu modo de pensar1 se no ganham1 tambem no perdem4 ,vivem beira das charruas1 das crtes1 das forjas1 e nas abegoarias4 ,este viver influe-lhes na linguagem e nos costumes4 ,no tm alma que se ale longo tempo e ao alto sem que as azas lhe falleam3 que pezam n'ella os cuidados terrestres4 ,ventilam problemas que no podem resolver4 ,desconsolados do seu destino1 perguntam porque ha ricos e pobres1 e porque1 no outro mundo1 sero condemnados1 depois de tanto haverem trabalhado e gemido n'este8 ,o inferno no os apavora muito mais que a morte4 ,affizeram-se desde a infancia vaga ida de que ho de ser condemnados1 seguindo a trilha commum da vida2 todavia1 apezar do proposito feito1 nem por isso um terrivel pezo deixa de lhes aggravar o fardo das dres quotidianas4 ,o sino que dobra1 o sahimento que passa1 o doente que vae para o hospital1 o pedreiro que cae da parede1 o obreiro apertado entre o encaixe de uma roda e triturado nos dentes d'ella1 os terraplenadores sotterrados nas saibreiras aluidas1 os marinheiros comidos pelas vagas1 o typho que devasta um bairro inteiro de operarios1 mulheres sem maridos1 paes sem filhos1 filhos sem mes1 tudo isto por vezes lhes relembra o ,deus rancoroso que lhes prgam1 e as surprezas da morte1 e os perigos de sua precaria existencia1 e com as miserias que findam outras que principiam1 para nunca mais acabarem4 ,este povo assim como um rebanho que se leva ao matadouro1 aguilhoado pelos pastores1 lacerado pelos ces1 atormentado pelas moscas1 canado1 sanguento1 sequioso1 abatido1 estupido4 ,compadecei-vos1 pois1 d'esses que nunca vos daro bons ermites4 ,no ha1 por ventura1 um ideal mais aceitavel e ao mesmo tempo mais puro que lhe mostreis8 ,no ha seno esse a que aspira o ente sem familia1 sem ligaes e cuidados d'este mundo8 ,se1 ao menos1 podesseis annunciar-lhes a justia de ,deus sem os assombrar6 ,no so j de si que farte mysteriosas e raladoras as dres d'esta vida8 ,no ser de mais rematal-as com o terribilissimo mysterio do inferno8 ,pois se tendes a certeza que sero condemnados no trem de vida que levam1 deixae-os respirar1 e beber1 e rir e danar1 em quanto o animo e tempo lhes no faltam2 que a desesperao poder leval-os a peores excessos4 pobre genero humano6 ,ser preciso que o ,christo desa segunda vez do co para te instruir1 e que outra vez seja vindo e crucificado para salvar-te8 ,,capitulo ,,quarto ,,outros ,,fructos ,,do ,,inferno ,o mal que produz o inferno4--,incredulidade1 desalento1 desesperao ,esquadrinhando o bem que procede do inferno1 j divisamos o mal que produz4 ,bem negativo e limitadissimo2 mal positivo mas profundo1 extensissimo1 apenas por em quanto entre-vimos4 ,faz-se mister examinal-o mais pelo miudo4 ,no perderemos o tempo4 facto incontestavel que a maior parte dos homens se occupa menos de co e inferno que das precises1 interesses1 prazeres e dres da terra4 ,a ,egreja o confessa admirada e lacrimosa4 ,por que se admira8 ,que remedio seno ser assim8 ,pois acaso pde toda a gente retirar-se ao deserto8 ,pois todo o encanto da vida se apagou8 ,os direitos da natureza foram abolidos8 ,na sociedade cuja moral se funda sobre o medo das penas eternas1 todo movimento paralysaria1 se instinctivamente1 e por necessidade de viver1 no viesse o esquecimento d'esse tremendo futuro4 ,a esperana do ceo no bastaria a contrabalanar os effeitos de tal susto1 mormente quando nos affianam que a porta do ceo estreita1 e que o inferno tem milhares de portas sempre abertas4 medida que esta crena se incutir nas turbas1 assim ellas ho de lidar por esquecel-a1 abafando-a no seio1 sem querer sequer meditar n'isso4 ,quanto mais pura1 exigente1 austera e angelica fr a vossa moral1 tanto mais impraticavel vol-a ho de considerar2 e1 se a fundamentaes no inferno1 fechar-se-ho os ouvidos ao vosso apostolado1 e ninguem querer sequer aproximar-se d'aquella perfeio immaculada1 que smente florece em estufas claustraes1 que se desbota ao leve bafejo do homem1 e s est ao alcance de ociosos4 ,se no inferno to smente fossem castigados certos crimes monstruosos e excepcionaes1 mas claramente definidos1 taes como o assassinio1 o incesto1 o estupro1 poder-se-hia ainda examinar a justia de to exorbitante penalidade3 ao menos cada qual sabia quando lhe era applicada a pena4 ,porm1 se vo s chammas eternas o avro1 o gloto1 o preguioso1 o prodigo1 o orgulhoso1 o invejoso1 o impaciente1 o maledico1 o voluptuoso1 o incontinente1 o ambicioso1 o calumniador1 o usurario1 o mentiroso1 o hypocrita1 o lisongeiro1 o ingrato1 o philosophante1 o rebelde1 etc41 etc41 etc41 congela-se o sangue nas veias2 ninguem ousa vender1 comprar1 emprestar1 traficar1 fallar1 pensar1 beber1 comer1 respirar2 por quanto1 quem sabe onde comea a avareza8 o orgulho8 e a lisonja1 reverendissimos senhores1 onde comea a lisonja8 e a usura8 e os limites da temperana quem os abalisou8 ,occasies1 tentaes e perigos em tudo6 ,a questo no saber se ahi ha crimes hediondos e puniveis3 ninguem nega que os haja2--o que se tracta de saber se racional e discreto1 e se os bons costumes lucram1 que nos ameacem com eternos castigos1 por peccados que mal podem definir-se4 ,quem ha ahi isempto de seu tanto ou qu de orgulho8 ,quem se presume bastante sobrio1 bastante comedido nos prazeres licitos1 menos egoista em suas legitimas affeies1 menos desinteressado em seus lavores e mercantilismo1 bastante paciente nos revezes e resignado nas desgraas8 ,quem se cr assaz justo1 caritativo e perfeito8 ,ao parecer dos theologos1 uma tal presumpo seria peccado capital1 at nos conventos1 at para os anachoretas envelhecidos em abstinencias e oraes4 ,ninguem sabe ao certo o momento1 o ponto em que um acto licito descahe no illicito2 que dse de alimento quadra sua saude1 e onde no rico principia o superfluo1 que o necessario do pobre4 ,para que vem seis pratos meza8 ,se um basta1 para que so dois8 ,a regra onde est8 ,cautela6 esse copo que chegaes aos beios risonhos1 em vez de vos apagar a sde1 vae abrazar-vos em sde eterna4 ,cautela6 ,theologo nenhum poder dizer-vos exactamente o que vos cumpre dar1 o que vos cumpre no dar2 e o caso que1 se vos enganaes com tal incerteza1 folga o diabo4 ,um padre da ,egreja1 um papa1 um santo1 ,gregorio o ,grande1 no disse que ,deus nos arguiria de peccados que antes de morrer no conhecemos8 ,estas e outras mais terriveis cousas podeis lr no ,quotidiano do ,christo1 livro approvado e recommendado por todos os bispos1 e que anda em mos de creancinhas4 ,portanto1 verdadeiras ha s duas cousas3 a condemnao1 se nos enganamos1 e a absteno para nos no enganarmos4 ,mas a absteno no viver4 ,viver a actividade inteira1 incessante1 e arriscada a peccar4 lei do genero humano viver e perpetuar-se4 ,no nega1 mas esquece os dogmas oppressores que lhe pesam na alma1 e a cada passo lhe apontam aberto um alapo do inferno4 ,vivem os homens n'uma especie de indifferena religiosa que os avilta1 movidos unicamente por suas paixes1 e apenas enfreados pela justia temporal4 ,fra com isso do futuro6 fra com remorsos6 ,fechemos olhos a todos os clares1 e os ouvidos a todos os rumores do outro mundo1 e concentremos n'este a nossa inteira vida1 todos os desejos e pensamentos4 effeito imprevisto1 porm real1 d'esta medonha crena induzir ao materialismo1 no theorico1 mas pratico1 a maior parte dos que no leva ao ascetismo3 attasca na lama os que no transvia nas nuvens2 faz que se rojem durante o dia breve da existencia1 grandes e pequenos4 ,os philosophos accusados d'este miseravel estado das almas1 esto innocentissimos3 no ha em tudo isso faisca de philosophia2 raciocinio coisa que ahi no vislumbra4 ,o instincto que desde tempos esquecidos1 e no de ha pouco1 nos propendeu quelle cego materialismo3 a necessidade de arrostarmos com uma crena mortifera2 a vida que resalta d'entre as mos desvairadas que intentam comprimil-a1 e d'este desbordar de toda a frma surdem os excessos4 ,j no lhes abasta esquecerem o inferno4 ,quem o esquece so os fracos2 os fortes vo mais alm3 escarnecem-no4 ,anda j por ahi o diabo cantado1 e do mesmo feitio o inferno1 e o co com os seus moradores4 ,e de taes canes vendem-se tantos exemplares como dos ,canticos de ,s4 ,sulpicio3 antiquissima impiedade1 de que ha vestigios1 no s na ,grecia pag1 mas tambem nas fabulas da edade mdia1 e at nas paredes das vetustas cathedraes onde os artistas zombeteiros esculpiram1 ha mais de seiscentos annos1 o ,inferno de ,branger4 ,a ironia mascarava-se ento com tregeitos beatificos2 o impudor1 porm1 no se disfarava nem se constrangia4 ,os lamuriantes da edade mdia talvez digam que1 apezar das galhofas audazmente esculpidas nos portaes e cros das egrejas1 esses antigos imaginarios criam no inferno1 e que1 no leito da morte1 no foliavam1 tremiam2 que os fabulistas tambem tremiam1 e que os castellos e castells1 plebe e burguezia1 quantos se haviam regalado com as taes caricaturas1 tremiam tambem4 ,sim1 meu ,deus1 verdade4 ,mas circumvagae a vista1 e dizei-nos se1 a tal respeito1 a sociedade mudou4 ,a mesma educao religiosa no produz continuamente identicos phenomenos8 ,acreditam no inferno os epicuristas1 os trampolineiros1 os usurarios1 os prodigos e os ladres1 os famintos e os repletos1 os invejosos e os ingratos1 os indifferentes e os chasqueadores8 ,no intimo da alma guardam elles as supersties das amas3 que farte o denotam na vida1 e principalmente na morte4 ,em quanto so moos1 ageis1 febris de saude e esperana1 repulsam uma crena que lhes tornaria maldita a mocidade1 a saude1 a fora1 a razo de todas as dadivas do co4 ,quando caducam1 infermam e agonisam1 espantam-se de haver ardido em desejos que j no tem1 e haver motejado praticas que se lhes agora figuram facilimas4 chegada ento a hora e situao conveniente para intender a moral do inferno1 que a privao em tudo e por tudo1--a morte na vida4 ,singular crena que no infra o maior numero de homens1 quando o freio lhes mais preciso2 e quando o retl-os j inutil1 e mais necessaria lhes seria a esperana1 ento1 entrada da sepultura1 lhes sahe espantadora6 ,levado por ella vae o anachoreta ao suicidio1 e o mundano ao embrutecimento4 ,esteril em verdadeiros dons1 fertil em verdadeiros males1 a crena no inferno bestialisa1 desalenta1 desespera1 endurece4 ,melhor esquecel-o maneira das turbas1 que pensar demasiado n'ella1 que tanto monta sentir vertigens1 sentir estontecida a cabea roda d'esse abysmo que vos attrahe e sorve4 ,mais algum prazer ou menos1 defendido ou no1 que faz8 ,l no inferno no estaremos melhor nem peormente2 a eternidade no ter hora menos ou hora mais4 ,constrangermo-nos para qu8 ,no ha termo medio entre o bem e o mal absolutos4 ,tudo que humano mau3 foroso ser anjo ou demonio3 seja-se diabo1 que mais comezinho4 ,vde-me uns frades1 padres1 devotos1 freiras1 que a desanimao avassalou3 no ha peores peccadores2 rolam cada vez mais ao fundo1 e vo-se consolando com as delicias que topam na sua queda4 ,um peccado de menos1 que na conta que ho de dar8 ,chegados a tal extremidade1 qualquer boa aco lhes ser v4 ,como no podessem abster-se de tudo1 os desgraados j agora no se abstem de nada4 ,esta desesperada crena precipita-os abaixo do homem4 ,d'ahi tem surdido mais libertinos que ermites1 mais blasphemos que santos1 mais loucos que ajuizados2 e1 em verdade1 mister que o christianismo entranhe vivacissimos embries1 esplendorosissimas luzes1 e poderosissimas verdades para resistir1 como ha resistido1 influencia de taes doutrinas4 ,tirae-nos1 por favor1 esse inferno to fatal aos que o recordam como aos que o esquecem4 verdade que teremos menos monges com o purgatorio2 mas teremos mais christos4 ,no purgatorio ser util pensar1 comprehender-lhe a justia1 e sentir-se o homem melhor1 ainda a pesar seu2 se facil sacudir o jugo de uma revelao sobrenatural e inintelligivel1 por mais beneficente que ser possa1 no facil desprendermo-nos de idas excellentes e razoaveis1 por mais importunas que nos sejam4 ,,capitulo ,,quinto ,,os ,,cinco ,,grupos ,diviso da sociedade em cinco grupos ,examinemos as coisas mais beira4 ,a sociedade no toda formada de uma pea4 ,divide-se naturalmente em differentes grupos no discutir de seus interesses em este e no outro mundo4 ,religiosa e moralmente observada1 podmos dividil-a em cinco grupos4 #a4 ,o grupo dos philosophos1 ou livres-pensantes como hoje se chamam--sugeitos que systematicamente regeitam a revelao1 e por consequencia o inferno sem fim2 todavia1 desinteresseiros1 estudiosos1 graves e tractaveis com honra e confiana4 #b4 ,longe d'estes a infinita distancia1 e sem sombra de liga com os philosophos1 est o grupo dos biltres professos1 individuos relaxados1 bandidos convictos1 corruptos1 desesperados4 #c4 ,entre aquelle grupo de espiritos selectos e o das almas depravadas1 mas entre si equidistantes1 est o grupo immenso e indecomponivel dos indifferentes1 dos tibios1 dos duvidosos1 dos espiritos futeis1 dos espiritos inertes1 dos espiritos acanhados1 dos fura-vidas1 dos pachorrentos--turba sem piedade nem philosophia1 sem prtica de casta alguma1 vivendo de seu trabalho1 das suas rendas ou officios1 mais ou menos descanados--guardas nacionaes1 jurados1 eleitores1 conselheiros de districto1 e o mais4 ,estes so uns christos que s vo egreja quando ha enterro1 casamento ou baptisado1 ou ainda em dias de ,te ,deum1 quando a posio official os obriga4 #d4 ,ao lado e um tanto superior a este1 est o grupo menos numeroso dos devotos2 no dos hypocritas1 que se ha de classificar no dos patifes1 mas dos esforados em praticar e que praticam1 assim1 mas com desinteresse1 os mandamentos de ,deus e da egreja4 ,estes vo missa nos domingos1 confessam-se s vezes1 e do do seu gremio as irmandades e as confrarias4 #e4 ,finalmente1 o admiravel grupo dos justos1 dos perfeitos christos1 dos santos1 dos continuadores e verdadeiros imitadores da vida de ,jesus4 ,vejamos se o dogma das penas eternas aproveita s pessoas que formam aquelles differentes grupos4 ,i ,o grupo dos philosophos ,os philosophos crem em ,deus1 crem na liberdade e immortalidade da alma1 na justia1 em todas as noes moraes derivativas d'aquellas primaciaes verdades4 ,em revelaes sobrehumanas que no acreditam4 ,ora1 ameaas de inferno convertero tal gente8 ,de quantos mysterios regeitam1 o inferno o mais incrivel2 e tanto que irrita a propria f1 que1 s abdicando o uso da razo1 se submette4 ,dos philosophos no ha que esperar similhante sacrificio4 ,se o dogma do purgatorio vos aproxima d'elles1 o inferno1 barreira que vos separa de tudo que raciocina1 alonga-os de vs4 ,,ii ,o grupo dos corruptos ,que lucram as pessoas de bem que esses patifes creiam no inferno8 ,est com isso a sociedade mais segura8 ,e tal crena de que lhes serve a elles8 ,o que os incommoda no o diabo1 a policia2 inquieta-os mais o degredo que o inferno4 ,v l6--dizem elles--venha o inferno que no nos ha de faltar boa camaradagem6 ,quantas pessoas toparemos l d'umas que n'este mundo se empavonavam todas1 e no queriam rossar-se por ns6 ,havemos de vl-os l1 mais apoquentados e castigados do que ns1 esses patetas condemnados por pensamentos e palavras1 por coisa nenhuma4 ,quanto pessoa d'elles1 tanto monta como a nossa1 pois que ho de ser to condemnados como ns4 ,no ha dois infernos1 parceiros2 ha um4 ,l nos esbarraremos com capitalistas1 com fidalgos1 com duquezas1 com comicas4 ,andaremos ilharga dos juizes1 dos quadrilheiros1 dos escrives1 dos jurados e melhor ainda--viva a patuscada6--com deputados1 com camaristas reaes1 com bispos1 com abbadessas1 com principes e princezas1 reis e rainhas4 ,venha o inferno6 tentador l ir com tal sucia4 ,tal o raciocinio dos desalmados e a influencia que tem sobre elles aquella extravagante justia1 que nenhuma proporo gradua entre delictos e crimes1 condemnando para sempre quem peccou uma hora1 e o scelerado de toda a vida4 ,,iii ,o grupo dos indifferentes1 etc4 ,estas pessoas cuidam em ser felizes com o auxilio da honestidade2 pelo qu1 se abstem do mal que o codigo define4 ,pelo que respeita aos sete peccados mortaes1 no se preoccupam d'isso4 ,dizer que todos sejam invejosos1 avarentos1 luxuriosos1 e o mais1 seria mentir4 ,n'esse innumeravel grupo abundam negociantes honrados1 meninas castas1 esposas fieis1 pobres sem inveja1 ignorantes modestos1 ricos bemfazejos1 e muitas abelhas para cada zango2 mas perfeito ahi no ha ninguem2 ninguem ahi vive em graa2 o melhor do rancho aquelle a quem ,deus1 no dia do juizo1 s accusar de ter violado sem escrupulo todos os mandamentos da ,egreja4 ,mas1 com esse s peccado na consciencia1 o melhor do rancho ser condemnado4 ,se o roubo e o homicidio so raros n'essa assembla1 no procede isso do medo do inferno4 ,ahi bastante motivo para condemnao uma folha de papel escripta1 um sim apenas balbuciado e ouvido1 um lance d'olhos1 uma flor murcha1 e essa1 onde entra amor--amor no peccado1 meu ,deus6-- de todas as condemnaes a que mais piedade desperta4 ,porm1 n'esse immenso circulo1 onde tudo pecca1 cada qual se condemna sua vontade3 um por fastio2 outro por vaidade1 este por curioso1 aquelle por pusillanime2 condemna-se um por um casal1 outro por uma venera1 por um acepipe1 por um prato de lentilhas1 por um penacho1 por uma fitinha1 por um trapo1 por trinta contos1 por trinta reis4 ,condemna-se este a trabalhar1 aquelle a passear1 um a comer1 outro a jejuar1 a ler1 a dansar1 a palestrar1 a meditar1 a vestir1 a despir1 desde a aurora at ao escurecer1 desde a noite at ao dia1 todos se condemnam a bel-prazer4 ,distinguem-se l os peccados que ,deus pune indistinctamente4 ,permittem-se os que ,deus castiga at com eternas penas1 quando elle s quem pune2 recua-se1 porm1 dos que ,deus castiga e a sociedade tambem4 ,no se diga pois que o inferno atalha os crimes dos indifferentes4 ,tambem ahi manifestamente esteril similhante crena4 ,o que se teme o vigia1 a patrulha1 o commissario da policia1 essas personificaes vulgares1 mas terriveis da opinio e da lei4 ,temem-se as algemas1 o carcereiro1 a masmorra1 e ainda mais mistura com os scelerados4 ,por muito dura e inevitavel que se figure1 a pena material no os conter sempre quando a paixo os espora4 ,do mesmo modo que affrontam o inferno1 affrontariam a cada e at a forca1 se a forca estivesse s escuras2 porm a vergonha1 o estrondo da queda1 para o maior numero a pena intoleravel4 ,seriam capazes de desafiar carrascos e diabos2 e no ousariam encarar o desprezo do amigo1 do visinho1 do estranho1 do transeunte1 do mendigo2 no lhes faz grande mossa a ignominia diante de sua me ou de seus filhos1 e tremem de se vr baralhados com creaturas devassas que so mos sem repugnancia1 e medram no mal como em seu nativo elemento4 ,ha d'elles1 porm1 que se forram ao mal1 contidos por sentimento ainda mais nobre que o medo da opinio4 ,esquivam-se1 no do peccado mortal1 mas do maleficio que a sociedade civil pune ou reprova3 afasta-os d'isso com asco um natural sentimento1 sem esforo4 ,educao e habitos fortaleceram esses bons instinctos4 ,no so perfeitos1 mas so probos1 sinceros1 generosos1 capazes de grandes sacrificios occasionalmente4 ,com certos deveres nunca especulam4 ,denotam que a si se respeitam1 que a propria estima se lhes faz precisa1 ainda mais que a da sociedade1 facil de transviar-se4 ,e bem que no sejam philosophos nem devotos1 sentem vivamente a dignidade de seu ser4 certo que este sentir lhes seria mais delicado e firme1 se abrangessem as perspectivas da vida futura1 em vez de concentrar-se c2 mas foroso aceitar os indifferentes quaes so2 e tanto entre os peores como entre os melhores1 a vida futura no movel nem empo3 uma coisa esquecida4 ,,iv ,o grupo dos devotos ,ser medo do inferno que impede os devotos de matar1 de roubar1 de se retoiarem1 como javardos1 no lamaal dos sentidos8 ,crer-se-ha que elles de per si sejam insensiveis honra1 ao opprobio1 e aos mais freios moraes e nobres estimulos que regulam a ordem e andamento das sociedades temporaes8 ,ririam elles das gals e at da forca8 ,seriam elles1 em verdade1 infames da ultima ral1 se no receassem a condemnao8 ,se ha ahi tal raa de christos1 confesso que eu no confiaria d'elles nada1 nem a minha bolsa1 nem minha mulher1 nem o meu segredo1 nem eu mesmo adormeceria socegado entre elles4 ,d'um scelerado a um devoto d'esta laia a distancia to curta que os meus pobres olhos no na enxergam4 ,dizem que ha uns pessimos soldados que1 vista do inimigo1 olham para traz e s marcham para a frente com a bayoneta nos rins4 ,e1 se os no vigiaes1 eil-os que desertam2 e1 at quando se batem1 albergam a perfidia no corao4 ,pois bem3 aquelles devotos so peores que os soldados tredos1 por que destemem os homens e os juizos humanos1 e os supplicios que os homens inventaram4 ,o que elles smente receiam o fogo eterno1 uma pena qual se foge mediante a confisso4 ,ageitado o ensejo1 roubam-vos1 atraioam-vos1 matam-vos1 com a certeza de serem absolvidos occultamente1 por uma ma culp4 ,desgraadamente certo que a crena no inferno ha gerado monstros assim2 a europa barbara tem milhares d'elles2 ha bastantes para l dos montes1 e bem pde ser que mesmo c2 seno vejam aquelle devoto padre1 cuja historia as gazetas contaram ha pouco3 era um padre que matava todos os seus filhos no bero para se forrar ao incommodo de os crear2 mas provavel que os baptisasse1 com o receio de que se perdessem4 ,eu de mim no quero chamar christos1 nem sequer homens1 a taes feras4 ,deus nos livre de encontrar similhantes christos em uma serra por noite de luar4 ,a honestidade d'estes meus devotos custa-lhes pouco2 so creaturinhas que podem ver a felicidade dos outros sem sentirem cocegas de lh'a empalmar2 no roubam nem matam por que a forca os embaraa1 e a opinio dos homens ainda mais2 pessoas1 em fim1 que tem mais mdo ao crime que aos castigos correspondentes4 ,taes so os meus devotos4 ,devotos denomino eu todos os leigos que no duvidam1 nem so indifferentes1 nem se esquecem de ir missa1 nem deixam de confessar-se ao menos uma vez cada anno4 verdade que eu no os incampo a ninguem como anginhos j cosinhados para a canonisao4 ,se elles no andassem por igrejas com tanta regularidade1 no sei bem como estremal-os1 quanto ao seu proceder1 do bando dos indifferentes4 ,no so elles os derradeiros a informar-se d'onde sopra o vento1 onde aquece o sol1 e onde est o idolo do dia para o saudarem1 nem tambem so os ultimos a apedrejar o idolo da vespera4 ,quantas villanias sobre-douradas e quantas villanias bem nuas e patentes lhes no attrahem as barretadas1 e os cumprimenteiros sorrisos6 ,como elles se curvam deante do que desprezam6 ,que impio acatamento prestam fora1 e at1 com medo de se enganarem1 s apparencias da fora6 ,que vulgares mexericos1 que vulgares ambiezinhas1 que exemplarissimas ingratides6 ,no os accuseis de hypocritas1 que elles so sinceros1 no fazem momices1 vo s procisses com a melhor boa f1 assistem s festas do ,mez de ,maria1 tem rosario1 agnus-,dei1 e penduram no pescoo medalhinhas de cinco reis carregadas de indulgencias4 ,e1 assim mesmo apezar da sua boa f em medalhas1 bonito vl-os1 em sua casa1 evitar o escandalo com melhor exito1 e mais vigilancia que o peccado4 ,e nem assim o evitam4 ,se sois curiosos1 apanhai-m'os no ultimo degro da escada1 ahi por perto do altar3 vereis o conego s ms com o deo2 o sineiro bate na mulher2 o sacristo tem m lingua2 um juiz de irmandade casa a filha violentada com um velho1 e d cabo d'ella2 outro1 sobre-meza1 faz-se truo de chalaas de ebrio2 e de natureza tal1 que a mulher por certas razes no admitte em casa creadas que no tenham edade e figura bastante canonicas1 capazes de edificarem um mosteiro de bernardos2 l est um que rico1 mas economico1 e d'isso esto os pobres tristemente convencidos4 ,ora1 a esses peccados habituaes ajuntem1 se quizerem1 os peccados de occasio1 e digam-me como se distinguem1 por suas obras1 o commum dos indifferentes do commum dos devotos4 ,quereis subir ao primeiro degro da escada8 ,luiz ,,xi era devoto2 ,diana de ,poitiers era devota2 ,brantme devoto era2 tambem era devota aquella regente de ,frana que empregava as suas damas a seduzir1 quero dizer1 a converter os jovens huguenots e os velhos tambem4 ,todo o seculo ,,xvii foi devoto1 incluindo os cavalleiros farolas1 os bandidos1 os abbades galans e os abbades demoniacos1 os avros e os glotes1 os orgulhosos e os abjectos1 as marquezas adulteras e os duques medianeiros1 os magistrados venaes e as princezas aventureiras4 ,todos esses tinham bancada na egreja1 iam aos sermes e discutiam ardentes sobre a materia da graa4 ,os amantes arrufavam-se na quaresma e faziam as pazes depois de ,pascoa4 ,madame de ,montespan1 na crte1 cuidava em salvar-se1 e ninguem quizesse obrigal-a a comer1 sexta feira1 uma aza de borracho2 o que ella ento comia era salmo1 lagostins1 esperregado e pastelinhos de leite4 ,madame de ,svign1 uma das mais honestas e amaveis senhoras d'aquelle tempo1 tambem devota1 lia os ,contos de ,la ,fontaine1 e ficava-se a rir com elles e mais a filha4 ,o inferno era como se nada fosse n'essas coisas4 ,quem desgraadamente pensava muito n'elle1 enterrava-se no claustro1 como ,mr4 de ,ranc e ,m4elle de ,la ,vallire2 mas1 pelo ordinario1 havia pouco quem se debruasse a espreitar o tal abysmo2 e quem se desse a esses exames sahia impertinente1 misanthropo e jansenista4 ,fallava-se do inferno2 mas sem reflectir grande coisa2 encaravam-no pela casca4 ,o grande caso era rir1 cortejar o rei1 agradar a todos1 inclusiv a ,deus1 dando-lhe a vr com infinita habilidade1 espectaculos de devoo1 de jogo1 de ambio e444 do mais4 ,o tempo e as revolues que tantas mudanas tem feito1 no mudaram o corao humano4 ,os devotos no so tantos como d'antes1 mas so da mesma estfa1 e tanto montam estes como os outros1 vistos a vulto4 ,relaxao extrema em fidalgos e populaa2 sde ardentissima de enriquecer2 sordidissimos orgulhos2 amores desatinados2 paixes eriadas de remordentes espiritos e blandiciadas de prazeres6 ,deus me defenda de calumniar peccadores a cheirarem ao incenso das igrejas6 ,bourdaloue1 que os conhecia1 e os demais prgadores assim antigos que modernos1 disseram d'elles mais mal do que eu4 ,o que sei que o medo no faz bons aquelles que o bem1 s de per si1 no convida4 ,o pejo do peccado poder restaurar os cahidos2 mas o medo1 depois do peccado1 de todo o ponto inutil4 ,no esqueamos1 porm1 que ha devotos quasi irreprehensiveis1 os quaes1 sem serem heroes nem se destinarem a tanto1 cumprem1 sem desfallecer1 a modesta misso que lhes quadra sobre a terra4 ,so bemfazejos em pequena escala2 restringem-se a pouco mais de sua casa2 quanto muito1 chegam at visinhana2 e1 se por vezes1 a mo caridosa ultrapassa estes limites proveitosamente1 de novo se retrahe ao seu limite1 onde est a maior formosura e grandeza de sua misso4 ,estes devotos no se distinguem dos outros por grande assuidade nos templos2 o que os differenca o serem esmoleres2 e mais visivelmente se estremam por se absterem do mal4 ,no so rixosos nem maldizentes3 tem ainda mais caridade na lingua do que nas mos1 por que ella os serve com inexhauriveis riquezas4 ,d'aquelles peccados mortaes que a sociedade chama fraquezas1 e em que diariamente as pessoas piedosas resvalam sem morrerem d'isso1 fogem elles como d'um grande delicto4 ,amam a verdade1 a ordem1 a continencia1 o pudor1 a sobriedade1 como vs amais a justia4 ,e1 comquanto no descream do eterno fogo1 a luz que os guia no esplende do inferno1 vem de cima2 no ceo que elles a buscam em seu peregrinar2 e assim vo alentados pela esperana e no pelo medo4 ,v ,o grupo dos santos ,chegados somos aos bemfeitores dos homens1 verdadeiros imitadores de ,jesus1 entes mortaes mais proximos da perfeio1 as irms da caridade1 os padres virtuosos1 quantos se consagram a servir pobres1 infermos1 ignorantes2 quantos sacrificam1 no esterilmente1 mas s nossas precises1 seus teres1 belleza1 juventude1 affeies domesticas1 vigor1 saude1 esperanas e quantas venturas terrenas ahi ha4 ,bem sei que todos esses crem no inferno2 mas no so regidos por tal crena2 nada tem que vr o seu proceder com ella2 temem-se de offender ,deus1 no por que ,deus vingativo1 mas antes por que ,deus perda2 e esta crena verdadeiramente salutar uma das mais affectivas maneiras de amar4 ,se o temor leva ao deserto1 o amor conduz aos homens2 se o temor se fecha chave para dentro de grades1 o amor quer sempre abertas as portas4 ,quem envia ao martyrio os missionarios o amor2 quem d me a orphos1 filhas aos ancios1 irms aos soldados feridos1 mestres aos aldeos1 amigos aos penitentes1 tutores aos innocentes1 guias aos transviados1 o amor4 ,todo bem feito n'este mundo o amor que o faz2 e este amor1 que transborda da alma dos santos1 em si mesmo haure sua fecundidade e bemfazeja energia4 ,permittam-me uma hypothese4 ,d-se que um ,concilio ecumenico se ajunta manh1 e declara1 depois de haver invocado o ,espirito ,santo1 que o inferno no perpetuo1 e que a palavra eternidade1 applicada ao castigo dos peccadores1 significa to smente pena de infinita durao4 ,que ha de seguir-se a similhante proclamao8 ,imaginam que a irm da caridade se retira logo do grabato do infermo1 e se engolpha nas suas delicias mundanaes8 ,pensam que o benedictino1 sacudindo o p dos livros1 se precipita na ,bolsa8 ,que o joven lazarista1 repatriando-se de regies remotas1 venderia o cajado e o breviario para ir ao theatro8 ,imaginam de boa f que as irms da caridade se acabariam para logo8 ,se pensam isto1 que ida formam dessas bonissimas almas que os anjos e os homens admiram8 ,consoante ao vosso modo de as julgar1 a irm da caridade diria3 ,ah6 ,deus no implacavel8 ,ento fui louca em amal-o4 ,deus no condemna irremissivelmente os peccadores8 ,louca fui em servil-o4 ,pois que6 n'aquella bemaventurada eternidade1 que eu tanto anhelava1 no hei de ouvir os gritos da raiva e o estridor dos dentes dos condemnados8 ,que d'ento dos encantos do paraiso8 ,meninos1 procurem quem os eduque2 ancios1 procurem quem os alimente4 ,orphosinhos desamparados1 vs pensaveis que ns eramos vossas mes e irms2 cuidaveis que vos amavamos por causa de vosso infortunio1 e por vos termos em conta de membros soffredores de ,jesus ,christo1 nosso modlo e nosso ,deus4 ,desenganai-vos6 desenganai-vos6 ,no era por amor que vos amparavamos1 era por medo que vos serviamos como lividas escravas1 covardemente flexiveis a todos os caprichos de um senhor imperioso4 ,mas agora1 visto dizerem-nos que o inferno acaba1 buscai quem vos ame e sirva4 ,cada qual por si4 ,acabou-se o medo2 nada de mais sacrificios4 ,abaixo1 tunicas de burel2 abaixo1 veos que nos escondieis volupias da terra1 mas no as dres1 abaixo6 ,a pureza no enlevo que nos contenha2 gemidos de pobres no nos engodam2 queremos ter vez na taa do peccado2 bebamos1 que a vida curta e o inferno ha de acabar4 ,no ha conjunctura em que eu ousasse attribuir similhante linguagem s irms da caridade4 ,nunca6 ainda quando1 em um nefasto dia1 fosse abolido o dogma salutar da justia divina2 ainda quando pregoassem que tudo acaba no cemiterio1 e que a sanco da moral est nos gosos e dres deste mundo1 as irms da caridade no fallariam assim4 ,se um concilio sahisse com aquellas decises1 regulal-o-hiam ellas4 ,como que o dogma do purgatorio1 com seus flagellos de durao ignorada1 sempre consoantes natureza e circumstancias do peccado1 s luzes e costumes do peccador1--como que este dogma to racional1 certo1 mysterioso e terrivel1 poderia enfraquecer a virtude1 e a virtude principalmente d'aquellas almas livres1 viris e modestas1 nas quaes o amor tem mais dominio que o medo8 ,crde-me que isso um demasiado aviltar a lama humana1 que mostraes no conhecer2 crde-me4 ,se a ,igreja manh proclamasse a temporalidade das penas1 nenhuma irm da caridade deslisaria da sua fileira1 nem um verdadeiro sacerdote abandonaria a sua grei1 nem algum missionario acharia o ,evangelho desataviado de excellencias que ensinar aos selvagens1 nem a cruz radiaria menos1 nem a palma dos martyres seria menos de invejar4 ,vr-se-hia1 ao invez e instantaneamente1 encherem-se todas as igrejas1 e justos e peccadores reunidos ao p do altar1 em um mesmo consenso de aco de graas1 cantarem do fundo da alma3 ,te-,deum1 laudamus1 in te1 ,domine1 speravi2 non confundebar in ternum4 ,,fim ,,da ,,primeira ,,parte4 ,,segunda ,,parte ,o ,,inferno ,,considerado ,l,m-,,tumulo1 ,,os ,,condemnados ,,na ,,presen,a ,,de ,,deus1 ,,na ,,presen,a ,,dos ,,santos1 ,e ,,na ,,presen,a ,,dos ,,homens4 ,,capitulo ,,primeiro ,o ,,inferno ,,de ,,plat,o ,at agora consideramos o inferno smente em relao aos resultados moraes que a crena de sua existencia tem produzido1 produz e produzir sempre n'este mundo4 ,j demonstramos que esta crena1 fatal a quantos se compenetram d'ella1 inerte para os demais3 inutil aos verdadeiros virtuosos1 por que no tem que ver com o bem que praticam1 e tambem ao mal que no fazem2 inutil aos devotos e indifferentes1 por que no os estorva de commetter basta dse de peccados mortaes2 e pelo que toca aos peccados que no commettem1 tal absteno explica-se em louvor d'elles1 por motivos totalmente independentes das penas infernaes2 inutil para os philosophos1 visto que estes a no acceitam2 1 emfim1 inutil aos scelerados1 por que os no impede de ser scelerados2 e1 de mais a mais concorre1 umas vezes1 a precipital-os no crime1 outras a empedernil-os na perversidade4 ,falta agora considerar o inferno1 no em referencia terra1 mas pelo que elle em si1 qual os padres1 doutores e mysticos o pintaram1 isto 1 nas suas relaes com ,deus1 com os predestinados e com os reprobos4 ,mas1 antes d'isso1 cumpre-nos dizer alguma coisa das opinies de ,plato cerca da justia divina e do inferno4 ,ser isto1 a um tempo1 entrar no assumpto1 e responder aos theologos que1 mingua de razes1 invocam de vontade1 n'esta materia1 a auctoridade de ,ovidio1 de ,horacio1 de ,lucrecio1 de ,virgilio1 de ,hesiodo1 de ,orpheo1 e d'outros escriptores de costumes sobre modo extravagantes que1 a tal respeito1 repetiram as idas do antigo paganismo e nada mais4 ,a opinio de ,plato1 que elles mais acintemente allegam1 deriva da mesma fonte2 mas1 alumiada pela indole e pura vida d'aquelle philosopho1 ostenta-se mais respeitavel e seductora4 mister1 no dizer de ,plato1 que um castigo seja razoavel para ser justo2 e para que seja razoavel1 uma de duas clausulas precisa3 ou que o castigo aproveite ao castigado1 ou s testemunhas d'elle4 ,partindo d'este principio1 ,plato no prodigalisa1 feio dos nossos theologos1 as penas eternas1 por quanto1 a seu parecer1 falta n'ellas a grande virtude das penas temporarias4 ,so estas1 em verdade1 dobradamente prestadias1 pois que ao mesmo tempo corrigem o culpado e admoestam os espectadores2 pelo contrario1 as outras no corrigem o culpado e podem apenas admoestar os vivos que as conhecem3 logo so menos prestantes e universaes e completas2 falta-lhes aquella bemfazeja efficacia com que os deuses folgam de dulcificar as obras da sua justia2 digamol-o em pouco3 so menos divinas4 ,eis-ahi porque ,plato avro das penas eternas e perdoa ao maximo numero de peccadores1 descontando-lhes os gemidos1 lavando-os e purificando-os em suas proprias lagrimas1 excepo dos oppressores dos povos1 de seus cumplices e louvaminheiros que expressamente exclue da lei commum4 ,para estes elle durissimo2 eternisa-lhes as dores2 todavia1 os deuses no podem ser accusados por isso de inutilmente rigorosos4 ,de feito1 se a tyrannia o maior dos crimes1 e o unico expiavel1 porque a liberdade1 que ella anniquila1 o maior bem que os deuses nos doaram1 unico impossivel de substituir2 porque1 na sociedade escravisada1 cessam os prazeres honestos1 a verdadeira gloria1 sabedoria e virtudes4 ,tal o senso intimo do castigo excepcional que ,plato applica aos tyrannos4 ,bastantemente est explicado a superioridade do terrivel castigo2 mas o que no se explica a razo da sua perpetuidade4 ,plato suppunha-o eterno porque no sabia1 como ns1 que a humanidade tem que percorrer no tempo um circulo limitado1 e que este universo ha de acabar4 ,eternisava elle1 por tanto1 o supplicio dos tyrannos1 por suppr que o seu exemplo devia ser eternamente util na terra4 ,no ha outra maneira de lhe justificar o inferno no seu systema4 ,foi1 porm1 esta justificao do inferno destruida por ,christo1 o qual nos annunciou que todo o genero humano 1 como cada homem1 um passageiro na terra1 e que um dia vir em que esta esphera que habitamos1 e estes astros que nos alumiam1 se sumiro no espao como a poeira que o vento da noite espalha4 ,quem utilisaria com o supplicio dos condemnados1 quando as testemunhas1 em vez de fracos mortaes1 fossem santos impeccaveis8 ,o inferno dos theologos no 1 pois1 identico ao inferno de ,plato3 o de ,plato devia ser util sempre2 o dos theologos1 por fructificar um dia1 ficaria esteril para sempre4 ,essa esterilidade j lh'a ns presentimos4 ,indagamos a razo d'uns padecimentos improficuos victima1 ao juiz1 a todos4 ,o corao protesta contra tal crueldade sem intento e sem effeito4 ,cra a gente s de o crr4 ,como que o homem se sente melhor do que essa divindade absurda1 sedenta sempre de torturas1 ebria sempre de ira1 insensivel sempre1 peior que o abutre do ,prometheo1 que s vezes1 ao menos1 adormece sobre a preza4 ,s pensar n'isto gera o atheismo na alma4 ,erradamente1 pois1 se invoca1 em pr de similhantes castigos1 o testemunho de ,plato1 que se horrorisaria d'elles4 ,plato no condemnava o pobre pegureiro por algum roubo desconhecido ou tentativa malograda2 mas bem pde ser que elle condemnasse inflexivelmente ,s4 ,clotario1 ,s4 ,constantino e ,s4 ,carlos ,magno4 ,alm de que1 elle tinha1 para admittir um inferno sem fim1 razes que no temos2 e ns1 para o rejeitarmos1 temos razes que elle ignorava4 ,,capitulo ,,segundo ,opinio dos pagos sobre a situao e vista interior do inferno ,os antigos situavam o inferno no centro da terra que habitamos1 e pretendiam ter a este respeito pormenores muito satisfatorios4 ,os gregos e os romanos possuiam um mappa minucioso d'estas regies subterraneas1 a ponto de lhes conhecerem os rios1 taes como o lodoso ,cocyto1 o ardente ,phlegeton1 e o invadiavel ,acheronte2 sabiam at que havia l fetidas lagas1 em uma das quaes estava ,tantalo atascado at aos queixos sem poder apagar a sde2 sabiam d'uns bosques medonhos em que certas almas se lamuriavam1 debalde anciando o alvor do dia2 conheciam montanhas1 que outros condemnados1 perseguidos pelas furias1 em vo se esfalfavam por galgar4 ,contavam a historia de alguns desgraados assim1 e as particularidades do seu supplicio4 ,comtudo1 apezar da indole inteiramente physica d'aquelles diversos castigos1 diziam que os pacientes no tinham corpo1 que os mortos eram apenas sombras intangiveis1 bem que animadas1 e que o seu maximo tormento era no poderem jmais viver vida carnal luz do nosso sol4 ,isto contavam-no elles com toda a certeza1 fiados em pessoas que tinham descido ao ,tartaro1 e de l tinham voltado4 ,era conhecida a estrada por onde essas pessoas tinham viajado2 havia cavernas que os pastores conheciam1 poos d'onde sahiam vapores lethiferos e por onde se descia ao inferno4 ,no eram menos instruidos os egypcios4 ,em assumpto de horrores visiveis1 o ,amenthi havia emprestado ao ,tartaro pavorosos quadros4 ,n'este ,amenthi1 que1 segundo consta1 quer dizer paiz da noite1 esto o co de sete cabeas e outros deuses de feitios monstruosos4 ,ahi se encontra o ,acheronte e o seu batel1 os marneis e as aridas gndaras1 e todas as figuraes do mundo devastado4 ,tem setenta e cinco circulos1 e entrada de cada circulo um genio armado4 ,giram as almas d'um circulo n'outro1 algumas em frma humana1 outras com frmas immundas1 com cabeas de aves de rapina1 pellagem de fera1 e garras de reptil4 ,o pavimento sangue4 ,estrondeiam os gemidos4 ,pendem os condemnados dos ganchos maneira de carneiros no aougue1 ao passo que outros1 ainda palpitantes1 so mergulhados em caldeires ferventes4 ,uns vo fugindo1 com os braos estendidos1 e a cabea quasi separada do tronco1 outros levam nas proprias mos o corao que lhes arrancaram do peito que mostram lanhado4 ,conforme nos vamos aproximando das primitivas civilisaes1 e1 por consequencia1 do primitivo barbarismo1 mais o genero humano parece deliciar-se no repasto espectaculoso de seus proprios soffrimentos1 e o mundo invisivel para elle um espelho de augmento das miserias e torturas do mundo visivel4 ,cada povo se espelha na imagem que nos deixou de seu inferno1 com as suas idas moraes1 leis1 necessidades1 com seus costumes1 temperamento e clima4 ,nas serranias do ,thibet1 onde rapidamente se passa do mais rigoroso frio ao mais suffocante calor1 ensinam os lamas que o inferno1 situado em determinado logar da ,asia umas tantas legoas da superficie da terra1 formado de dezeseis circulos3 oito onde se arde1 oito onde se gela4 ,nas esplanadas da ,india1 onde no ha inverno1 e onde as populaes1 languidas de calor1 corruptas pelas liberalidades da terra1 apenas tem phantasia para inventar prazeres e supplicios1 dizem os brahmanes que certos sitios do ,naraka esto cheios de mosquitos1 de serpentes venenosas1 de escorpies horriveis1 de tigres1 de abutres e de todos os flagellos proprios d'aquellas regies ardentes2 e que os outros circulos so o theatro das mais requintadas torturas que ainda pde conceber a malicia d'um rajah arrojado4 ,ahi os glotes so condemnados a comer calhos asperrimos de puas agudas2 os luxuriosos so apertados nos braos de estatuas de ferro em braza4 ,contam pelo miudo todas as circumstancias d'estes infinitos martyrios1 e taes narrativas fariam impallidecer ,ixion sobre a sua roda1 ,sizipho debaixo do seu penedo4 ,sabem os hindostanicos pelos livros e pela tradio em que ponto da sua terra est situado o ,naraka e a que profundeza se encontra4 ,mas no podem os mortos encerrados ahi achar os limites e as portas d'aquelle inferno4 ,no inferno dos scandinavos1 chamado ,nifleim1 no ha fogo4 ,essas antigas naes do norte gostam tanto de calor1 que no poderam consideral-o um supplicio2 pelo que o seu inferno de neve1 onde ha o tiritar1 a fome1 a febre1 a velhice tremente1 as torrentes glaciaes1 as tempestades1 o uivar dos lobos1 o pavor que estaleja os dentes1 e os cobardes1 unicos condemnados que ahi vo4 ,concluamos esta historia1 que daria assumpto para um livro4 ,as reflexes moraes que ella suscita vo breve ser applicadas na descripo do nosso proprio inferno1 que na essencia no se distingue dos infernos pagos4 ,porm1 sendo elle procedente do inferno judaico1 paremos diante d'este4 ,,capitulo ,,terceiro ,opinio dos judeus cerca da vista interior do inferno4 ,sabido que o ,antigo ,testamento muito sobrio de revelaes do inferno4 ,com muito custo se rebuscaram n'elle alguns versiculos tendentes a estabelecer aquella crena entre os hebreus1 antes da destruio do primeiro templo4 ,os saduceos1 que juravam smente pela ,biblia1 negavam absolutamente a vida futura4 ,ora1 bastantes sabios tinham os saduceos em conta de melhores interpretes da ,biblia4 ,dizem elles que os judeus1 durante as tristezas do captiveiro1 souberam da bcca dos magos a immortalidade da alma e a sciencia demonologica4 ,todavia1 ,abraho era chaldeo2 os filhos de ,jacob haviam longo tempo estanciado no ,egypto2--isto d a crer que os seus descendentes deviam possuir1 antes de exilados em ,babylonia1 parte dos conhecimentos que os escripturistas registavam4 ,no exerciam os prophetas um ensino mystico1 e no conservava o povo tantas tradies grosseiras contemporaneas de ,moyss e talvez anteriores8 ,as passagens respigadas na escriptura e nomeadamente em ,isaias1 relativas ao inferno1 seriam inexplicaveis1 se no se lhe referissem2 mas seriam egualmente inexplicaveis se o povo no tivesse1 para intendel-as1 mais luz da que lhe do essas passagens4 ,estes trechos no encerram doutrina secreta dos prophetas1 respeito vida futura2 contm mais referencias que revelaes crena vulgar e formalissima do inferno4 ,o nome ,ghenna que l do paragem das expiaes futuras1 no era estrangeiro2 era o nome de um vale ao poente de ,jerusalem1 onde1 desde a origem de sua historia1 iam os hebreus adorar ,molock1 e sacrificar-lhe no fogo victimas humanas1 e1 s vezes1 seus proprios filhos4 ,n'este sitio1 tambem denominado ,trophet1 ou logar horrendo1 eram lanados os cadaveres dos justiados e os despojos dos animaes4 ,este valle maldito1 sagrado pela superstio aos deuses sanguinarios1 juncado de carnes putridas e ossadas alvejantes1 assombrado de larvas sinistras1 resonante de gemidos e rugidos1 converteu-se para os moradores da cidade santa1 no j em verdadeiro inferno1 mas no symbolo exterior e synonymo de inferno4 ,no inferno verdadeiro1 ardiam ,moloch e os seus idolatras na mesma fogueira2 os mos eram roidos pelos vermes2 e estes vermes eram immorredouros como as suas pras3--idas positivamente exprimidas por ,isaias1 cap4 ,,lxvi1 ultimo verso4 egualmente certo que os rabbinos e tambem o povo1 to pouco iniciados at ento andavam na mystica philosophia1 que1 se alguma vez discutiam1 davam azo a que os prophetas se rissem ou indignassem2 porm1 depois que os rabbinos e o povo se recolheram do captiveiro1 as suas noes eram mais amplas1 e talvez as mesmas que se escondiam nas esclas do ,carmelo e de ,galgala4 ,vamos vr quaes so as noes no contidas no ,antigo ,testamento1 mas traadas manifestamente no ,novo1 as quaes1 quando ,s4 ,paulo1 ,s4 ,mathias1 ,s4 ,joo e outros apostolos escreviam1 j se haviam derramado na ,judea1 quinhentos ou mais annos antes4 ,era dividido o ,scheol1 ou mundo futuro1 em duas regies1 que comprehendiam o paraiso e a ghenna4 ,a ghenna1 objecto d'este estudo1 era contada no numero das sete creaes anteriores ao nosso universo4 similhana do ,amenthi egypcio e do ,naraka indiatico1 era formada de diversos circulos1 mas s tinha sete1 correspondendo aos sete dias do ,genesis1 e aos sete ceos ou sete circulos do paraiso4 ,havia ghenna superior e ghenna inferior4 ,a superior abrangia os seis primeiros circulos3 era uma especie de purgatorio onde baixavam1 depois da morte1 os peccadores dignos de perdo3 uns ficavam no sexto1 outros no quinto1 outros no quarto circulo1 outros no primeiro1 conforme a gravidade ou leveza dos seus peccados4 ,trezentos e sessenta e cinco degros1 correspondentes aos trezentos e sessenta e cinco peccados assignalados pelos doutores1 formavam escaleiras d'um circulo a outro1 e em cada circulo era mister passar trezentos e sessenta e cinco dias4 ,porm1 os grandes criminosos1 abatidos sob o gravame de suas culpas1 atravessavam1 sem poder parar e com a rapidez de pedra arrojada por funda1 os seis primeiros circulos da spiral1 e cahiam no setimo1 no fundo abysmo1 na ghenna inferior1 d'onde no ha mais sahir4 frente de suas legies ahi os recebia ,samael1 e ento lhes comeava o perpetuo supplicio1 o insulto dos diabos1 a saudade da vida1 o fogo interno e externo1 o tormento da sde1 e a miragem cruelissima que scintilla aos olhos dos peregrinos agonisantes no deserto#e4 ,taes eram1 em resumo1 as opinies da synagoga cerca do inferno4 ,entretanto os essenios1 seita monastica celibataria que vivia em commum para espiritualmente se reproduzir1 professavam outra4 ,o inferno d'elles1 coisa notavel1 similhava ao dos monges thibetanos2 os soffrimentos ahi eram calor e frio1 e todas as intemperies das estaes em climas deseguaes4 ,agora vejamos o inferno dos nossos theologos4 #e ,o inferno mahometano copia do judaico1 mas copia singularmente alterada4 ,o anjo ,trakek quem l governa4 ,ha l chuva de peonha4 ,chama-se ,ghenna e divide-se em sete circulos4 ,porm1 exceptuado o primeiro circulo1 reservado exclusivamente para os musulmanos1 e o ultimo1 destinado aos hypocritas1 cada qual dos outros pertencente a cada uma das religies diversas que precederam o islamismo4 ,estes hereticos esto portanto em andares sobrepostos1 quasi por ordem de sua antiguidade3 os christos no segundo1 os judeus no terceiro1 os sabeos no quarto1 os guebros no quinto1 os idolatras no sexto4 ,d'estes seis ultimos ninguem sahe3 ahi o verdadeiro inferno2 mas o primeiro1 o circulo de honra dos crentes1 purgatorio1 no dizer dos doutores4 ,,capitulo ,,quarto ,o ,,inferno ,,dos ,,theologos ,,por ,,duas ,,faces ,,vamos ,,ver ,o ,,nosso ,,inferno2 ,,primeira ,a ,,material1 ,,depois ,a ,,moral ,i ,o inferno material ,so puros espiritos os demonios1 e tambem puros espiritos devem considerar-se os condemnados no inferno1 por quanto s a alma d'elles l desceu1 e os ossos restituidos terra se transformam continuamente em hervaaes1 plantas1 fructos1 mineraes1 liquidos1 desfigurando-se nas continuadas methamorphoses da materia4 ,tanto1 porm1 os condemnados como os santos ho-de resuscitar no dia final e reassumir para nunca mais o deixar um corpo carnal1 o mesmo corpo com o qual passaram entre os vivos4 ,a distinco d'uns a outros que os eleitos ho de resurgir em corpos purificados e radiosos1 e os condemnados em corpos poluidos e afeiados pela culpa4 ,e de ento ao diante no haver smente puros espiritos no inferno2 mas sim homens como ns4 por consequencia o inferno uma localidade physica1 geographica e material1 visto que ho de povoal-o creaturas terrestres1 dotadas de ps1 mos1 bcca1 lingua1 dentes1 orelhas1 olhos como os nossos1 veias com sangue1 e nervos sensiveis dor4 ,onde est situado este inferno8 ,alguns doutores situam-no nas entranhas da terra2 outros em certo planeta que eu no sei2 mas a questo nenhum concilio ainda a resolveu4 ,a este respeito tudo conjecturas2 o mais que se affirma que o inferno1 seja onde fr1 um mundo composto de elementos materiaes1 mas no tem sol1 nem lua1 nem estrellas1 e mais triste e inhospito1 e mais ermo de todo o germen e apparencia de bem1 do que todos os pontos inhabitaveis do mundo em que peccamos4 ,no se arriscam os discretos theologos a pintar1 similhana dos egypicos1 indostanicos1 e gregos1 o immenso horror d'essa manso2 limitam-se a dar-nos como amostra o pouco que a escriptura denuncia1 o lago de fogo1 e o enxofre do ,apocalypse1 e mais os vermes de ,isaias1 aquelles vermes eternamente enxameando sobre as carcaas de ,thophet1 e os demonios atormentando os homens que perverteram1 e os homens chorando e ringindo os dentes1 segundo a expresso dos evangelistas4 ,santo ,agostinho no concede que aquellas penas physicas sejam simples imagens das penas moraes2 contempla em um verdadeiro lago de enxofre vermes e serpentes verdadeiras encarniadas sobre todas as partes dos condemnados1 exacerbando com as suas mordeduras as ulceraes do fogo4 ,quer1 conforme um verso de ,s4 ,marcos1 que este estranho fogo1 posto que material como o nosso1 e actuando sobre corpos materiaes1 os conservar como o sal conserva a carne das victimas sempre sacrificadas e sempre viventes1 sentiro a dr d'aquelle fogo que queima sem destruir1 e lhes filtra aos musculos1 saturando-lhes os membros1 desde a medulla dos ossos e as pupillas dos olhos at as mais occultas e sensiveis fibras do seu ser4 ,se elles podessem submergir-se na cratera d'um vulco1 sentir-se-hiam ahi refrigerados e consolados4 ,d'esta arte fallam com toda a segurana os mais timidos1 os mais discretos e reservados theologos2 no negam1 porm1 que no inferno haja outros supplicios corporaes2 smente dizem que no tem d'elles um sufficiente conhecimento1 ou pelo menos to positivo como aquelle que receberam cerca do horrivel supplicio do fogo1 e do afflictivo supplicio dos vermes4 ,ha no entanto theologos mais audazes e illustrados que nos do descripes mais miudas1 variadas1 e completas do inferno2 e1 bem que no saibam em que local do espao tal inferno esteja1 consta-lhes que alguns santos o viram4 ,de certo que estes santos l no foram com a lyra em punho1 como ,orpheo1 ou com a espada na mo1 similhana de ,ulysses3 baixaram l arrebatados em espirito4 ,d'este numero ,santa ,thereza4 ,quem l a relao d'esta santa cuidar que no inferno ha cidades4 ,pelo menos l viu ella uma especie de viella longa e estreita como ha tantas nas cidades antigas2 entrou caminhando horrorisada sobre um terreno lamacento e fetido onde rastejavam reptis monstruosos2 mas foi retida em seu transito por uma parede que atravancava a viella2 e n'esta parede havia um nicho onde ,santa ,thereza se metteu sem saber como4 ,disse ella que este logar lhe estava destinado1 se abusasse emquanto viva das graas que ,deus difundia sobre a sua cella d',avila4 ,e1 bem que ella se anichasse com maravilhosa facilidade n'aquella guarita de pedra1 no podia nem assentar-se1 nem deitar-se1 nem estar de p1 nem safar-se2 que estas horriveis paredes1 apertando-a1 envolviam-na1 angustiavam-na1 como se fossem animadas4 ,parecia-lhe que a abafavam1 que a estrangulavam1 e ao mesmo tempo a estripavam e a faziam pedaos4 ,e sentia-se arder1 e no havia genero de afflio que no experimentasse4 ,esperana de soccorro1 nenhuma4 volta d'ella tudo escuro2 mas ainda assim1 atravez d'essas trevas1 entrevia1 com grande espanto1 a hedionda rua por onde tinha passado com toda a sua immunda visinhana3 espectaculo que lhe era to intoleravel como as intalladelas da priso4 ,ora isto de certo era apenas um cantinho do inferno4 ,outros viajantes espirituaes foram mais obsequiados4 ,houve tal que viu no inferno grandes cidades a arder1 ,babylonia e ,ninive1 e at ,roma1 com os seus palacios e templos abrazados1 e os habitantes acorrentados1 mercadejando no balco1 padres misturados com meretrizes nas salas dos festins1 hurrando nas suas poltronas d'onde no podiam arrancar-se1 e levando aos beios1 para apagar a sede1 copos que golphavam lavaredas2 validos em joelhos sobre almadraques ardentes1 com as mos postas1 e principes vertendo sobre elles devorante lava d'ouro fundido4 ,outros viram no inferno descampados sem limites1 cavados e semeados por lavradores famelicos4 ,e d'essas plantas fumegantes de suor1 como nenhum fructo vingasse1 os lavradores devoravam-se uns aos outros2 e1 depois1 tantos quantos tinham sido1 magros e famintos do mesmo modo1 dispersavam-se em bandos pelos horisontes fra em cata de terras mais ditosas1 e eram logo substituidos por outras colonias errantes de condemnados4 ,houve quem visse no inferno serranias cavadas de abysmos1 de florestas gementes1 poos sem agua1 fontes de lagrimas1 regatos de sangue1 turbilhes de neve em desertos de gelo1 barcos desesperados vogando em mar sem praia4 ,em fim l viram quanto os pagos tinham visto1 o reflexo lugubre da terra1 uma sombra incommensuravelmente augmentada de suas miserias1 os seus naturaes soffrimentos eternisados1 entrando n'isto masmorras1 forcas1 e os instrumentos de tortura que as nossas proprias mos forjaram4 ,ha com effeito l n'essas profundezas demonios que se fazem corporeos1 para mais a preceito atormentarem os homens em suas carnes4 ,uns tem azas de morcego1 pontas1 coiraas escamosas1 griphos e agudissimos dentes4 ,temol-os visto pintados1 armados de espadas1 de forcados1 de tenazes ardentes1 de serras1 de grelhas1 de folles1 de clavas1 empregando tudo isto durante a eternidade n'uma especie de aougue e cosinha da carne humana4 ,ha outros transformados em lees1 e viboras enormes1 arrastando as pras em solitarias cavernas4 ,alguns desfiguram-se em corvos para arrancar os olhos a certos padecentes1 em quanto outros se transformam em drages volateis1 e vo carregados d'almas sanguentas e lastimosas atravez de tenebrosos espaos1 e as precipitam no lago de enxofre4 ,alm se v nuvens de gafanhotos1 e de agigantados escorpies1 cuja vista arripia1 cujo cheiro enoja1 cujo menor contacto convulsiona4 ,acol esto os monstros polycephalos abrindo vorazes fauces1 sacudindo as crinas formadas de aspides1 triturando os condemnados entre os seus queixos sangrentos1 e vomitando-os logo mastigados1 mas ainda vivos1 porque so immortaes4 ,estes demonios de frma sensivel1 recordando to ao vivo os deoses do ,amenthi e do ,tartaro e os idolos que os phenicios1 os moabitas e outros gentios visinhos da ,judea adoravam1 estes demonios no funccionam toa2 cada qual tem seu officio e sua tarefa3 o mal que fazem no inferno corresponde ao mal que elles inspiraram e fizeram commetter n'este mundo4 ,so os condemnados punidos em todos os sentidos e orgos porque offenderam ,deus por todos os orgos e sentidos4 ,os comiles so punidos de certa maneira pelos demonios da intemperana1 e d'outra maneira os calaceiros pelos demonios da preguia1 e ainda d'outra maneira os lascivos pelos demonios da sensualidade2 em fim1 so tantas as maneiras quantas as variedades de peccar4 ,dizem que elles at na fogueira tero frio1 e no gelo se sentiro arder2 estaro vidos de descanso e irrequietos2 sempre com fome1 sempre com sede1 e mil vezes mais cansados que o escravo no fim do dia1 mais doentes que os moribundos1 mais lacerados1 mais escalavrados1 mais lazaros que os martyres1 e assim para todo o sempre4 ,nenhum demonio se desgosta nem desgostar jmais do seu terrivel officio2 n'esta parte so elles disciplinados a ponto1 e fidelissimos na execuo das ordens vingativas que receberam4 ,se no fosse isso1 que seria do inferno8 ,se os demonios tivessem rixas entre si ou se fatigassem1 os pacientes descansariam4 ,mas nem uns descansam1 nem os outros se desavm2 e posto que sejam mos e muitissimos1 os demonios harmonisam-se d'um cabo a outro do abysmo1 por tanta maneira que nunca na terra se viram naes mais submissas a seus principes1 exercitos mais doceis a seus generaes1 communidades fradescas mais obedientes a seus prelados4 ,nada se sabe da ral dos demonios1 d'essa canalha de espiritos villos que formam legies de vampiros1 de sapos1 de escorpies1 de corvos1 de hydras1 de salamandras e outra bicharia sem nome que constituem a zoologia das regies infernaes2 mas so conhecidos de nome muitos principes que commandam aquellas legies1 entre outros ,belphegor1 o demonio da luxuria1 ,abbaddon ou ,apollyon1 o demonio da carnificina1 ,beelzebuth1 o demonio dos desejos impuros1 ou o principe das moscas geradoras da podrido1 e ,mammou1 o demonio da avareza1 e ,moloch1 e ,belial1 e ,baalgad1 e ,astaroth1 e outros mais1 e sobre todos o chefe universal1 o sombrio archanjo que no co se chamava ,lucifer1 e no inferno se chama ,satan4 ,eis aqui1 em summa1 a ida que se nos d do inferno1 observado em sua natureza physica1 e nas penas corporaes que l se padecem4 ,lde os escriptos dos padres e antigos doutores1 interrogae as piedosas legendas1 examinae as esculpturas e paineis das nossas egrejas1 attentae o ouvido no que se diz em nossos pulpitos e sabereis muitas outras coisas4 ,,ii ,reflexes sobre as penas materiaes dos condemnados ,de qualquer modo que as figuremos1 e quando mesmo por piedade ou qualquer outra razo se reduzissem s aco do fogo1 estas penas materiaes no poderiam ser eternas1 porque1 se a alma immortal e pde soffrer sempre1 no succede o mesmo ao seu involtorio terrestre3 corpos de carne1 feio dos nossos1 so de seu natural incapazes de resistir a similhantes agentes de destruio4 um milagre a resurreio dos corpos2 mas faz-se mister um segundo milagre para dar a estes corpos mortaes1 j usados pelos transitorios attritos da vida1 e de mais a mais aniquillados1 a virtude de subsistir1 sem se dissolverem1 na fornalha onde metaes se evaporassem4 ,diga-se embora que a alma algoz de si mesma1 que ,deus a no persegue1 mas que a desampara pelo estado desgraado que ella escolheu3 isso ainda pde rigorosamente comprehender-se1 posto que o desamparo eterno d'um ser desvairado e padecente parea pouco conforme bondade do ,creador2 porm o que se diz da alma e das penas espirituaes no pde por modo algum ser dito a respeito dos corpos e das penas corporaes2 que para eternisar as penas corporaes no basta que ,deus retire a sua mo2 pelo contrario1 foroso que elle a mostre1 que intervenha1 que opere1 sem o que o corpo succumbiria4 ,conjecturaram1 pois1 os theologos que ,deus effectivamente opera1 em seguida resurreio1 o segundo milagre de que fallamos4 ,primeiro1 exhuma do sepulchro os corpos de argila que l se haviam desfeito2 tira-os taes quaes l tinham entrado com as suas nativas infermidades e as degradaes successivas da idade1 da doena e do vicio1 decrepitos1 infesados1 gotosos1 cheios de precises1 sensiveis ferroada d'uma abelha1 cobertos das maceraes que lhes fizeram o rossar da vida e da morte3 eis o primeiro milagre4 ,depois1 a estes corpos alquebrados1 prestes a reverter ao p d'onde surgiram1 inflige uma propriedade que no tinham3 a immortalidade1 o mesmo dom que n'um lance de colera1 ou1 se o quereis1 n'um lance de misericordia1 elle tinha subtrahido a ,ado quando o expulsou do ,eden3 eis o segundo milagre4 ,quando ,ado era immortal1 era invulneravel2 e1 quando cessou de ser invulneravel1 tornou-se mortal4 dr seguiu-se o morrer4 ,a resurreio1 portanto1 nem nos repe nas condies physicas do homem innocente1 nem nas condies physicas do homem culpado2 uma resurreio das nossas miserias smente2 mas com sobrecarga de novas miserias1 infinitamente mais horriveis2 1 at certo ponto1 uma verdadeira creao1 e mais maliciosa que imaginao alguma ainda concebeu4 ,dir-se-ha que ,deus reconsidera e varia1 quando accrescenta aos tormentos espirituaes dos peccadores tormentos corporaes de durao infinda1 e muda de repente as leis e as propriedades por elle prescriptas s composies da materia desde a origem d'ella4 ,resuscita carnes doentes e corruptas1 e1 atando com indesatavel n elementos que tendem a separar-se1 mantm e perpeta1 contra a ordem natural1 aquella podrido vivente1 que posta no fogo1 no para se depurar1 mas para ser conservada qual 1 sensivel1 padecente1 ardente e immortal4 ,por amor d'este milagre ,deus arvorado em um dos algozes do inferno2 por que1 se os condemnados s a si podem imputar seus males espirituaes1 tambem no tem a quem imputar os outros seno a ,deus4 ,j no era pouco abandonal-os1 depois de mortos1 tristeza1 ao remorso e a quantas agonias sente a alma que perdeu o bem supremo2 mas ha ahi peor3 ir ,deus1 no dizer dos theologos1 procural-os nas trevas do seu abysmo2 chamal-os-ha por instantes luz1 no para allivial-os1 mas sim para vestil-os d'um corpo horrido1 chammejante1 immorredouro1 e n'este acto os abandonar definitivamente4 ,mas no ser isso ainda abandono1 pois que co1 terra e inferno no subsistem seno por um acto permanente da divina vontade sempre activa4 fora1 ento1 que ,deus os tenha sempre de sua mo1 para obstar que o fogo se apague e os corpos se consumam1 a fim de que esses desgraados immortaes contribuam1 com a perennidade de seu supplicio1 edificao dos predestinados4 ,vem a ponto um episodio da historia da ,egreja1 que1 mo grado nosso1 nos veio lembrana4 ,seja-me permittido recordarvo-lo4 ,,iii ,os martyres de ,nero ,foi ,nero um poderoso imperador4 ,galardoava esplendidamente os escravos que o serviam2 e1 ao mesmo tempo1 incutia-lhes medo salutar com o seu systema de tratar inimigos4 ,queimando ,roma a fim de a reedificar mais formosa1 assacou o crime aos christos1 gente indocil que o no bajulava1 e cria em justia mais amavel que a d'elle1 e por esta e outras razes desagradava plebe idlatra4 ,o processo foi summario2 a sentena de morte1 e a execuo espantosas1 como vai vr-se4 ,embrearam-os de resina1 amarraram-os a postes de ferro1 cravados distantes entre si nos bellos jardins de ,sallustio1 onde eram celebrados ento os jogos nocturnos4 ,era j noite1 quando as portas foram abertas multido4 ,eis que sa o clangor das trombetas1 e logo os verdugos infileirados chegaram lume s tunicas dos christos4 ,callam-se as trombetas2 restrugem de todos os lados gritos estridentes4 ,a subitas1 arvores1 flres1 estatuas1 escadozes marmoreos1 tanques1 repuxos1 tudo resplandeceu4 ,chega ,cezar na sua carroa1 escoltado de vistosa crte1 derramando1 por sobre as turbas aterradas e jubilosas do seu sorriso1 ouro e perolas4 ,servem-se banquetes4 ,danam as filhas do oriente1 em quanto os tocadores de alaude e cantores confundem a dce melodia de seus concertos com os applausos do povo fiel e os derradeiros arrancos dos christos que vasquejavam em suas tunicas ardentes4 ,pouco durou aquelle instructivo espectaculo4 ,n'este mundo1 as festas mais bisarras so curtas4 ,felizmente para os martyres1 ,nero no era ,deus4 ,diz-se1 porm3 eil-os1 os confessores de ,christo apremiados1 volta de um ,deus que d ares de ,nero1 e como contemplando1 maneira do ,cezar1 em festa sem fim1 milhares de creaturas humanas1 estorcendo-se e clamando nas lavaredas1 tochas ullulantes1 fachos inextinguiveis1 testemunho asss consolativo da superioridade do rei do co sobre os regulos da terra4 ,haja paciencia1 que ainda falta o mais essencial4 ,aquellas penas corporaes so quasi nada4 ,repugnantissimas que ellas se nos figurem1 so essas1 ainda assim1 a menos repugnante cousa que o inferno encerra4 ,,iv ,o inferno espiritual ,em que meditam esses pobres entes atormentados8 ,que sentimentos os dominam8 ,que fazem elles1 durante as suas inexpremiveis torturas1 n'esse tempo illimitado em que os segundos so seculos1 e os seculos menos que segundos8 ,os theologos tem investigado estas cousas2 e1 presupposto perpetuo o inferno1 no ha dous modos de resolver aquellas perguntas4 ,uma breve reflexo vos dar a resposta que os theologos tem dado perfeitamente conforme a todas as tradies4 ,imaginai um lupanar de embriagados1 um hospital de loucos1 um covil de assassinos1 uma caverna de ladres1 um bordel immundo2 soltai ao mesmo tempo todos os moradores d'esses abominaveis logares1 e tereis uma optima pintura do inferno espiritual1 isto 1 o estado mental dos condemnados4 ,novos e velhos1 homens e mulheres1 embaralhados todos1 apostrophando1 jurando1 blasphemando1 eternamente ebrios1 eternamente vorazes1 eternamente lascivos1 eternamente invejosos e crueis1 eternamente impios1 eternamente sandeus4 ,como as sombras do ,tartaro1 choram o nosso sol1 as sombras1 as frescas ribeiras1 os pampanos dos nossos vinhedos1 e todos os prazeres sensuaes de que vidamente esto sequiosos e privados4 ,os demonios1 que os castigam por seus passados prazeres1 alimentam n'elles inuteis saudades1 e insensatos desejos1 dos quaes nada pde distrahil-os1 nem sequer as dres corporaes1 e agudissimas de que so atormentados todos os seus membros4 ,n'isto1 de mais a mais1 os demonios o que fazem executar as sentenas do soberano juiz--sentena promulgada no co1 pela qual so os reprobos intellectualmente torturados2 pois diz ,santo ,agostinho no seu ,commentario aos psalmos3 faz-se mister que tudo quanto deliciou os homens1 quando peccaram1 se converta em instrumento do ,senhor quando castiga4 ,o desejo saciado 1 pois1 punido com o desejo insaciavel4 ,no imaginem que no inferno haja uma s alma que deplore a sua innocencia baptismal1 e o co promettido que ella perdeu1 e a companhia dos anjos1 e a bemaventurana dos eleitos4 ,os precitos fogem de ,deus1 no o procuram2 viram-no no dia do juizo1 tem-no presente sempre nos tormentos que soffrem4 ,de certo os angustia estar to longe d'elle2 mas angustia de raiva que no tem nada que vr com as saudades e anceios do amor4 ,no pensem que entre as alegrias cuja perda l nos dilacera o corao1 estejam os castos prazeres do lar1 a pratica dos ancios1 as meiguices das creanas1 a ternura dos irmos1 a dce confiana dos amigos1 as consolaes do trabalho e as recompensas do estudo4 ,verdadeiras alegrias eram aquellas de certo para os peccadores2 mas os condemnados nem as desejam1 nem d'ellas se lembram2 abasta-lhes a sciencia que tem2 e1 pelo que toca s affeies terrestres1 mortas so todas3 resta-lhes o odio smente4 ,a me que est no inferno1 se tem um filho no paraizo1 abomina-o1 e elle a ella2 se o tem no inferno1 abomina-o tambem e correspondida por igual1 e1 se o tem vivo no mundo a choral-a1 da mesma sorte o abomina4 ,filhos1 pae1 marido1 irmos e irms1 amigos1 tudo lhe igualmente odioso4 ,o que os condemnados mais ardentemente desejam coisa que se beba e se coma1 e alm d'isso as delicias sensuaes e a bruteza do coito carnal4 ,so de tal sorte as suas disposies em meio de tantos soffrimentos que1 se um s d'esses condemnados podesse por um momento voltar vida1 escandalisaria um alcouce4 ,entretanto1 confessam a justia da condemnao que os fere2 mas para amaldioal-a2 e1 bem que no sejam atheus1 por que tal no podem ser em similhante lugar1 so mais scelerados1 ignobeis1 impudentes e perversos do que poderia sl-o uma nao de atheus4 ,uma nao de atheus1 no sendo composta de immortaes1 temer-se-hia do nada como d'um objecto de medo ou esperana1 e tiraria d'ahi certas regras de proceder que bastariam a tornal-a menos miseravel e brutal2 mas no inferno no ha que temer nem que esperar4 ,ha ahi um retouar-se na dr1 em horrendos sonhos1 que exulceram os appetites sem os satisfazer4 ,ahi tudo obscenidade1 egoismo1 opprobrio1 hediondez1 a humanidade disforme1 depravadissima1 impudentissima1 sem piedade1 sem consciencia4 ,a blasphemia a unica distinco que separa os condemnados das feras assanhadas1 e que os levanta algum tanto acima dos porcos1 dos lobos1 dos macacos1 dos toiros1 dos bodes e dos reptis4 logo a blasphemia o unico symptoma de razo que se lhes deixa1 a sua unica e ultima grandeza6 ,os irracionaes nem quando soffrem blasphemam3 a blasphemia um acto intellectual que n'este mundo degrada1 e no inferno exalta4 ,um condemnado que louvasse a ,deus seria um santo1 cujo supplicio cedo ou tarde acabaria2 mas1 sendo interminavel o supplicio d'elle e impossiveis os santos n'este abysmo1 o condemnado que no blasphemasse seria um bruto infecto4 portanto de justia que os faam blasphemar2 d'isso inferimos que elles tem alma2 e d'esse modo a mostram na unica maneira que podem2 e1 se no podem satisfazer a vil concupiscencia que os devora1 desforram-se saboreando a pleno peito o agro prazer de insultar o ,deus que os pune por to singular maneira4 ,v ,continuao do inferno espiritual ,havendo s o inferno1 j se v que n'esta infame companhia os theologos misturam1 como iguaes1 qualquer homem honrado que morra na incredulidade dos mysterios4 ,isto lhe basta para ser condemnado4 ,e com esse vae tambem a viuva pobre1 que1 em vez de ir egreja no domingo1 remenda os fatinhos das suas creanas3 tambem no preciso mais para ser condemnada4 ,tambem l vo1 conta de no jejuarem1 nossas mes e irms1 mulheres e filhos3 pois no bastante razo para ir ao inferno quem come um bocado de po com certo prazer8 ,este inferno1 povoado de patifes incorrigiveis1 uma escla3 ninguem ahi se corrige1 mas aprende cada qual a conhecer-se1 e j no pouco4 ,quem quer que ahi desce1 logo que ahi est1 igual aos devassos1 aos parricidas e aos traidores4 ,quem ahi se v to diverso do que se imaginava n'este mundo1 aterra-se de si proprio4 ,o bom que cada qual tinha em si quando vivia1 com a vida se desvaneceu2 e o mal que era apenas uma imperceptivel mancha1 lavrou como a gangrena1 de tal arte que alma e corpo tudo uma chaga4 ,que o homem se perdesse por um pomo ou por um imperio1 por um beijo ou por um homicidio1 o resultado o mesmo3 ninguem condemnado com attenuantes4 ,no procureis no inferno um companheiro menos corrompido do que os outros1 que se respeite ou que seja respeitavel por qualquer motivo2 coisa que l no ha2 ninguem conserva ahi vislumbre das qualidades que na terra se respeitam4 ,ou vades para a direita ou para a esquerda1 para cima ou para baixo1 girai em todas as direces d'esse abysmo1 que no achareis germen1 relampago1 sombra de virtude4 ,aquelles sabios cujas vigilias opulentaram os homens1 e no deixaram dinheiro com que os enterrassem2 aquelles philosophos estoicos1 legisladores1 magistrados1 guerreiros illustres1 e soldados obscuros mortos nas fronteiras2 aquelles rigidos protestantes que psalmodeavam nas lavaredas1 aquellas esposas extremosas1 e as noivas cuja sepultura juncada de rosas brancas--todos esses que no morreram em graa--de qualquer modo que pensassem e procedessem n'este mundo1 os seus costumes e pensamentos so forosamente os do outro4 ,os que lhe sabem a historia1 e os amaram e lamentam1 no ho de reconhecel-os4 ,eil-os preza de todos os vicios1 paixes1 e desejos dos condemnados4 ,grandes homens1 sabios heroes1 martyres1 mes veneradas1 donzellas castas1 artistas sobrios e modestos1 eil-os em cro de impios1 fallando como ebrios1 cynicos e assassinos4 ,abandonou-os ,deus todos a um tempo1 a um tempo os pune todos2 o mesmo ferro lhes abrasa os corpos e a mesma febre lhes alanceia as almas4 ,ahi est o inferno espiritual4 ,,vi ,da immortalidade das penas espirituais do inferno4 pois o inferno um mo logar1 trescalando ao vicio e ao crime4 ,os demonios1 guardas d'este mo logar1 e professos na corrupo1 usam do imperio que sobre os hospedes lhes permittido1 corrompendo-os incessantemente e sem lucta nem obstaculo4 propriedade d'elles a alma dos condemnados4 ,deus1 entregando-lh'a para que elles faam d'ella o que poderem1 no lh'a disputa e bastantemente sabe o que elles faro4 ,se as adies espirituaes dos condemnados fossem smente crueis1 seria isso bastante para nos auctorisar a duvidar da eternidade d'ellas2 mas1 alm de crueis1 impuras1 um direito1 at um dever negal-as4 certo que a natureza algumas vezes inflige ao homem esses impuros soffrimentos2 mas so transitorios3 uns morrem1 alguns curam-se1 e outros endoidecem3 outro genero de morte4 ,mas no inferno os furores sensuaes1 os appetites phreneticos no matam nem remedeiam1 no so venenos nem balsamos1 so penas sem fructo e sem fim4 ,que condemnao1 diz ,s4 ,bernardo1 a da vontade amarrada preciso de crr o mal e no crr o bem2 por tal modo que de qualquer maneira que se mova1 sempre criminosa e miseravelmente6 ,no ha de gozar jmais os prazeres culpaveis que deseja2 e as privaes que ella no quer as que ella ha de ter por toda a eternidade4 ,crr o mal e no crr o bem1 logo o resultado d'aquella condemnao4 ,por sentena do juiz1 e de que juiz6 que l eternamente se anceiam impudicos prazeres1 ao mesmo passo que o espirito soffre a privao dos sentidos4 ,montesquieu1 que1 a fallar verdade1 no era padre da ,igreja nem monge1 formava outra ida da natureza moral das penas destinadas a servir de sanco aos accordos da justia da terra propriamente4 ,lde no ,espirito das leis certo capitulo intitulado3 ,da violao do pudr1 no castigo dos crimes4 ,assim comea o capitulo3 ,ha regras de pudr observadas em quasi todas as naes do mundo3 absurdo seria violal-as no castigo dos crimes1 o qual deve sempre ter em vista o restabelecimento da ordem4 ,ainda que ,montesquieu m'o no dissesse1 a cousa evidente por si4 ,satrapas em delirio1 ,cezares devassos1 tyrannos corruptissimos1 pde ser que alguma vez enviassem uma rapariga desobediente mas honesta a um bordel1 e que1 ajuntando calculadamente a indecencia ao castigo1 convertessem a excitao dos sentidos em supplicio legal1 deshonrando a lei para deshonrar o inimigo4 ,em todos os paizes civilisados castiga-se para restabelecer a ordem material e a moral quanto pde ser4 ,cuida-se em esquivar o culpado s seduces que o perderam2 impedem-no de ser nocivo a si e aos outros2 privam-no de satisfazer as paixes1 no com o intento de lh'as irritar1 mas de enfraquecel-as2 sequestram-no da companhia das pessoas de bem1 no para que as odeie1 mas para que as chore2 deseja-se que a sua maior afllico consista em havel-as offendido1 e que o arrependimento o rehabilite para tornar ao seio d'ellas2 protegem-no contra a injuria2 enviam-lhe a visita de caridade que o instrue1 consola e s vezes restaura4 ,estas converses so raras certamente2 quasi todas as nossas prises so infectas2 ahi a soledade corrompe2 e a promiscuidade contagiosa4 ,sabem-no os legisladores1 e os juizes tambem4 ,no se diz1 porm1 que assim o querem juizes e legisladores8 ,e1 na verdade1 querem-no assim68 ,que se nos depara ahi seno o stygma da imperfeio das nossas obras1 e a pequenez de recursos em comparao dos desejos8 ,mas nem por isso nos sentimos descrer dos intimos anhelos que nos incitam a buscar nas penas meio de restaurar a ordem perturbada1 onde quer que seja1 e at na alma do criminoso4 ,o que a mesma imperfeio nos aconselha que prosigam sem descanso no intento1 que ser completamente realisado no mundo em que a justia perfeita1 e o poder do principe igual sua justia4 ,no nos mostrem1 pois1 no inferno1 uma gal immensa1 repleta de impudentes scelerados1 porque vos ser perguntado se ,deus no pde1 mais que os homens1 vencer coraes rebeldes1 ou se mais lhe praz exercitar sua omnipotencia a perpetuar um feio espectaculo que ns1 philosophos e christos1 bem quizeramos que fosse banido4 ,esta concepo do inferno1 to ignobil quanto atroz1 data visivelmente de tempos barbaros1 em que a vida physica afogava a moral1 e a justia no transparecia aos olhos propriamente do sabio seno atravez da nuvem sanguinosa da vingana4 ,punir eternamente o vicio com o vicio1 a immoralidade com a immoralidade6 que projecto6 e1 na execuo d'elle1 que prodigio6 ,pois no basta justiar o homem no corpo8 ,ser preciso que o avro1 durante a tortura1 arda de saudades dos thesouros que tantos cuidados lhe custaram e tantas dres grangearam8 ,ha de o comilo1 deitado sobre grelhas em brasa estar a pensar sempre na cosinha e na garrafeira8 ,o voluptuoso1 comido de chammas e de bichos1 ha de estar sempre a lagrimar pelas parceiras8 ,acham isto possivel8 ,sendo assim1 no inferno sabe-se melhor do que na terra o que valem riquezas1 prazeres1 divisas1 veneras1 medalhas1 sceptro e arminhos4 ,ahi1 ser-se-ha1 de facto1 blasphemo1 e intencionalmente devasso1 adultero1 usurario1 despota1 valido1 mas tudo isto sobre brasas8 ,havemos de confessar que o local no dos melhores para taes desejos1 e que s por milagre1 em tal sitio e por muito tempo1 possa haver similhantes delirios4 ,ora ahi vedes que se attribue a ,deus o milagre de fixar a alma dos condemnados sobre impuras imagens1 immobilisando-as em appetites que o offendem4 o peccado eternisado1 e eternisado por ,deus4 ,no cabe a responsabilidade d'isso aos condemnados4 ,no os accuseis2 lamentai-os2 que esses infelizes no so viciosos de vontade propria3 a lei que os obriga4 ,,vii ,ultimas consideraes cerca do inferno theologico ,affirmam os theologos que a liberdade um mero accidente da nossa vida mortal1 e que1 alm da campa1 se perde1 tomando-nol-a ,deus que nol-a dera1 e quebrando entre nossas mos1 no momento da morte1 aquelle instrumento de nossas provaes4 ,os justos so esbulhados d'ella para permanecerem justos1 e os mos tambem para ficarem mos4 ,diz-se que ,satan prevaricou por que era livre2 e1 depois da queda de ,satan1 no co no houve mais creaturas livres1 nem to pouco no inferno1 onde o proprio archanjo est acorrentado ao peccado4 ,no so1 por isso1 livres os condemnados4 ,pensam1 amam1 desejam2 mas no lhes concedido meditar1 amar e querer seno maldades4 ,soffrem e sabem o porqu2 mas no podem aproveitar-se do que sabem e do que soffrem4 ,conhecem os seus crimes2 porm1 no se arrependem1 porque o arrependimento um bem1 e o bem no podem elles sentil-o4 ,se peccam sempre1 que a tanto so obrigados por sentena4 ,conservam razo e sentidos2 mas consciencia no a tem1 no discernem entre justo e injusto2 no so senhores de seus actos2 soffrem avassalados pelos sentidos1 apezar da razo4 ,esta escravido absoluta1 irremediavel e eterna1 explica superabundantemente a immoralidade e o odioso de suas penas4 ,pois se de todo em todo lhes impossivel a converso1 inutil e deshumano o castigo corporal que os tortura4 ,se no fosse a perpetuidade d'esta escravido1 seriam intelligiveis a fome1 a sede1 o lago de sulphur1 a cama d'espinhos1 o cavalete1 a roda1 os tractos a fogo e ferro4 ,v d'exemplo3 eis aqui um criminoso impenitente1 que ha folgado com os soffrimentos alheios e calcado todas as leis da terra4 ,morre4 ,acabou-se tudo para elle8 ,no4 ,que v1 n'outro mundo1 saber sua custa o que dr1 e que piedade merecem os que soffrem4 ,deus bastante poderoso para o castigar a ponto de o fazer bradar por misericordia2 justo que o no poupe2 exige-o a humanidade1 com a condio de que esse peccador castigado seja ainda homem1 isto 1 um ser no s intelligente e sensivel1 mas livre1 e1 por consequencia1 susceptivel de emenda4 ,mas1 se antes de o ferir1 lhe tira o recurso do arrependimento2 se1 em vez do homem1 o que temos vista um mero bruto sobrenatural1 monstruoso1 ignobil1 a quem a dr nada ensina1 e a razo nada presta1 mo por necessidade1 torturado1 sangrento1 nojoso1 gemente444 ah6 quem falla ahi de justia8 desfaam por piedade esse monstro2 basta de padecer2 logo que lhe tirastes a liberdade1 restituida lhe foi a innocencia4 ,quando uma creana brinca beira de um poo1 e cahe apezar dos avisos da me1 a pobre me no respira em quanto a no salva2 corre logo sem attender desobediencia1 porque a v mais carecida do soccorro quanto maior o perigo2 para castigo lhe basta a quda4 ,que diriam os theologos1 se aquella me1 em vez de tirar do poo o filho1 lhe fosse quebrar braos e pernas1 e cobril-o de pedras8 ,o que elles theologos imaginam que ,deus faz1 aquillo mesmo4 ,aviltam-no quanto podem4 ,,capitulo ,,quinto ,,sursum ,,corda ,i ,fujamos d'este lamaal4 ,lavemos ps1 mos1 cabea e vestidos4 ,cauterisemos os beios com um carvo acceso4 ,demonios1 chammas impuras1 espiritos malfeitores1 odios1 vinganas1 carnificinas1 ferozes alegrias1 estupidos terrores1 sonhos do homem primitivo adormecido em antro ourela de lagas turbidas1 com o estomago regorgitado de carnes sanguentas1 com a mo sobre a clava1 e a alma ainda fremente das paixes do dia2 mystagogia antiga2 sapiencia idolatra2 delirios renovados dos barbaros orientaes e occidentaes2 confuso acervo de subtilezas methaphysicas e torpes fabulas e aspiraes1 sublimes e baixos erros1 inferno velho e inferno novo1 palacios oscillantes edificados com ruinas1 ,naraka1 ,amenthi1 ,tartaro e ,ghenna1 sumi-vos6 ,o tempo avana2 j dia2 a calhandra j cantou1 vamos serra vr o repontar do sol4 ,acima1 ainda mais para o alto1 subamos s espigas da montanha1 onde o ar mais sadio e o horisonte mais amplo4 ,azas1 azas6 vamos admirar o sol que regenera a vida e a fecundidade da terra1 e a todo o ser a sua vera frma1 e aos homens1 que desperta do somno fundo1 a consciencia de si mesmos e o sentimento das realidades que o rodeam4 ,mais ao alto6 ,mais ainda6 azas1 azas1 minha alma6 ,voemos at origem da luz1 de que este pallido sol apenas sombra6 ,,ii ,deus uno1 com infinita variedade de attributos1 cuja manifestao lhe no lesa a unidade4 ,conhecemol-o n'este mundo por f unicamente1 porque o no vemos qual 1 e no temos d'elle1 em nossos coraes1 seno uma imagem imperfeita1 e1 para assim dizer1 mutilada4 ,por tanto1 aquelle sagrado nome exprime o que sabemos realmente1 mas tambem o que no sabemos1 e o que saberemos de ,deus1 no dia derradeiro4 ,encerra ,deus todas as perfeies1 cujo complexo1 de que apenas concebemos parte minima1 o mysterio que adoramos atravez d'um vo1 que a morte levantar1 assim para santos como para pecadores4 ,sem duvida que os mais obdurados peccadores ho de vr ,deus2 e ho de vr no smente alguns attributos seus1 mas todos2 no ho de vr smente a sua eternidade1 por quanto a eternidade est em ,deus1 mas a eternidade no ,deus2 no ho de vr smente a sua justia e infinita omnipotencia1 por quanto a justia infinita e omnipotencia so em ,deus1 mas no constituem toda a sua essencia2 no ho de vr smente a sua justia1 por quanto a justia est em ,deus2 mas s ou unida ao poder eterno a justia no ,deus3 seno seriam tantos os deuses quantos so os attributos e virtudes distinctas na unidade divina4 ,quando os peccadores virem ,deus1 ento ho de vr quanto ha em ,deus1 sua bondade1 misericordia e justia2 vel-o-ho a toda a luz1 d'um s lance de olhos1 por que tudo o que a nossa lingua separa inseparavel em ,deus2 e1 se elle retrahisse dos peccadores um s resplendor de sua face1 ficaria sendo o ,deus abscondito que a nossa f adora1 e no o ,deus visivel perante o qual toda a incredulidade se dissipa4 ,pelo que1 ao mesmo tempo que sua justia encher de medo as almas1 a sua bondade as consolar mediante a confiana e arrependimento4 ,,iii ,grandes e pequenos1 doutos e ignorantes1 todos os peccadores sero castigados1 cada qual medida de suas culpas4 ,nenhuma ser esquecida2 mas1 por isso mesmo1 todas as virtudes sero lembradas4 ,ao pessimo peccador que em sua vida teve um bom sentimento1 um bom desejo sequer1 isto lhe ser como torcida ainda fumegante a qual o sopro de ,deus accender em flamma4 ,o pouquinho bem que praticou lhe ser contado1 at ao ceitil1 at ao pucaro de agua dado ao caminheiro1 at ao gro de paino dado avezinha1 at ao movimento do dedo mendinho em que a creana vacillante se amparou1 at ao olhar compadecido psto na face do attribulado4 ,estas so as unicas aces que elle quereria recomear e multiplicar n'esta vida1 se lhe fosse dado aqui voltar1 por que esse o sagrado lao que o une ainda1 posto que de longe1 assembla dos justos2 e o mal que fez1 esse ainda subsiste1 mas s na dr que sente de havl-o feito1 e no arrependimento com que o recorda4 ,prazeres torpes1 revezados de inquietaes amargas no os cubia4 ,deplora o ceo1 e no a terra4 ,smente saudades do ceo pdem enternecer a lagrimas entes racionaes1 desempeados das trevas d'este mundo4 ,,iv ,os mortos que ,deus pune viram a ,deus1 e1 a um tempo1 se sentiram attrahidos para elle1 e repulsos e como repuxados para longe pelo iman de seus peccados4 ,abriu-se o abysmo e cahiram1 mas com a vista sempre fita n'aquella ineffavel luz que lhe foge1 e os braos estendidos para o ,deus misericordioso que os exila temporariamente por causa de suas offensas4 ,cahem levando comsigo a indelevel memoria d'aquella formosura e sabedoria infinitas que s instantaneamente viram1 e ao baquearem-se1 exclamam3 ,havei piedade de mim6 ,os mortos que ,deus castiga viram ,deus2 e para logo o amaram1 que impossivel vl-o sem o amar4 ,viram-o e esqueceram a terra2 viram-o1 e arderam em sede inextinguivel de tornar a vl-o e possuil-o4 ,verdadeiro castigo6 ,expiao dolorosa1 mas efficaz6 ,ardentes lagrimas1 mas salutares1 que o amor derrama1 e o amor enxugar4 ,v ,blasphemar que 8 negar ,deus ou algum dos seus divinos attributos ou alguma das eternas e infinitas propriedades do seu ser4 ,negar-lhe a existencia blasphemia2 negar-lhe o poder blasphemia2 negar-lhe a immensidade1 a eternidade ou a sabedoria blasphemia4 ,a blasphemia somente praticavel n'estas regies de duvida e mysterio em que ,deus escassamente se deixa entrever atravez d'um veo4 ,mas o veo cahiu na presena dos mortos4 ,os cegos viram2 os paralyticos andaram2 os mudos fallaram4 ,confessam todos que ,deus existe1 que eterno e poderoso e justo4 ,negar-lhe a justia como poderiam elles1 se sentem at ao amago de seu ser a claridade ardente e purificante8 ,e1 se no podem negal-a1 como ousariam affrontal-a8 ,mas1 se querem que elles blasphemem1 digam-nos qual das perfeies divinas elles negaro8 ,ai6 aos theologos aprouve que os condemnados negassem a que mais valiosa lhes seria4 ,os condemnados negaro a bondade de ,deus2 injuriando-o de mo1 de cruel1 de implacavel1 de escarnecedor de suas agonias1 de vingativo1 de carrasco1 e no juiz4 ,isto1 com effeito1 que blasphemar4 ,mas estes impios discursos no os vociferam os mortos castigados por ,deus2 sois vs1 scribas e doutores1 que lh'os inventastes2 e o que a isso vos levou foi o imaginardes um inferno perpetuo1 e1 pelo tanto1 o effeito que o castigo esteril devia produzir sobre soffredores immortaes4 ,entrai mentalmente n'essa catacumba infecta1 tomai por instantes o logar das victimas1 e ousai fallar em bondade de ,deus4 ,no acreditareis em tal4 ,mo grado vosso1 a blasphemia vos fugir da bcca4 ,os primeiros blasphemadores so1 logo1 os inventores d'aquelle imaginario supplicio4 maneira dos idolatras1 fraccionaram ,deus1 extremando entre justia e bondade--attributos indistintos4 ,de modo que essas presumidas blasphemias do inferno so smente um ecco das que esbravejaram nas almas d'elles1 ao contemplarem a sua obra4 ,,vi ,deus justia e misericordia conjuncta e indivisivelmente4 ,nos actos da sua justia ha sempre um fundamento de misericordia2 e1 nos actos em que smente a sua misericordia reala1 ha um fundamento de justia4 offendel-o dizer que misericordioso sem justia para uns1 e justiceiro sem misericordia para outros4 ,isto falso quanto ao tempo e quanto eternidade4 justo ,deus com os justos coroando-os1 por que se a salvao d'estes fosse gratuita e mera complacencia particular1 favor e no recompensa1 o castigo dos peccadores seria iniquo4 ,na gloria1 pois1 dos bemaventurados reina tanta justia quanta misericordia4 ,mas1 se ,deus1 no outro mundo1 justo para os eleitos1 por que no ha de ser misericordioso com os peccadores8 ,mostrais-me a sua misericordia no ceo2 e eu tambem l vejo a sua justia4 ,mostrais-me a sua justia no inferno1 e eu tambem l procuro a sua misericordia4 ,,vii ,a condemnao do vosso inferno est na necessidade logica e invisivel que l obriga a offender e amaldioar ,deus4 isso possivel8 ,deus quer ser injuriado eternamente8 ,no querer antes ser adorado e abenoado por todas as creaturas8 ,adoram-no os santos em jubilo1 e os mortos1 que pune1 adoram-no em penas1 por que sabem que ellas ho de ter fim4 ,seja-me testemunha o ,evangelho4 ,,capitulo ,,sexto ,a parabola do rico avarento ,lux in tenebris4 ,lde no ,evangelho de ,s4 ,lucas1 capitulo ,,xvi1 a parabola do rico avarento4 ,do fundo do inferno1 o rico avarento levanta a voz para seu pae ,abraho3 ,compadece-te de mim1 e manda c a ,lazaro1 para que molhe em agua a ponta do seu dedo1 a fim de me refrescar a lingua4 ,lazaro no se bole1 em quanto o patriarcha lembra ao padecente a pena de talio2 cabe agora ao opulento mendigar1 e ao pobre fartar-se4 ,o rico avarento baixou os olhos1 e no pediu mais agua3 resignou-se1 no murmurou1 no blasphemou1 renunciou a gottinha d'agua como renuncira as vestes purpureas e as regalias da meza4 ,todavia1 ainda outra vez se dirigiu ao pae ,abraho3 ,eu te rogo que o mandes a casa de meu pae1 pois que tenho cinco irmos1 para que lhes d testemunho1 no succeda virem tambem elles parar a este logar de tormento4 ,e ,abraho lhe disse3 ,elles l tem ,moyss e os prophetas3 ouam-os4 ,ainda assim1 o padecente insiste3 ,mas1 se algum morto l fr1 elles faro penitencia4 ,ahi est mudada no s a fortuna do rico avarento1 mas o corao tambem4 ,eil-o humilde1 supplicante1 submisso4 ,recebe as recusas sem irar-se2 e1 em meio de suas dres1 lembra-se enternecido de cinco irmos que deixou na terra4 ,no lhes inveja os haveres2 pelo contrario1 quer incutir-lhes caridade1 e s por amor d'elles importuna o seu ascendente ,abraho4 ,porm1 ,lazaro e ,abraho sahem-lhe to rijos como elle tinha sido para com as dres alheias4 ,o tal ,lazaro1 cujas chagas os ces lambiam1 tornou-se menos piedoso com o proximo do que haviam sido com elle os ces4 ,refocila-se nas delicias do ceo1 como o rico avarento se refocilra nas da terra1 e esqueceu o que era penar1 e o que se deve a quem pede4 ,no tocante ao patriarcha1 esse1 em vez de consolar o neto supplicante1 desespera-o2 e1 a segunda vez que o desgraado ousa pedir-lhe um milagre de bondade1 no para si1 mas para os irmos1 que lhe responde o outro8 ,responde seccamente que os irmos l tem as escripturas to dignas de credito como os mortos1 pelo menos4 ,admiravel1 mas1 para theologos1 incomprehensivel parabola6 ,eis aqui o inferno converso1 repso1 enternecido1 o rico avro deplorativo e caridoso1 e por cima1 um ceo de bronze1 uns santos descaroados4 ,este no o inferno judaico1 christo2 mas o paraiso esse que judaico1 e no christo4 ,,capitulo ,,setimo ,terra1 inferno1 ceo4 ,,desvirtuar ,o ,,inferno ,,desvirtuar ,a ,,terra ,e ,o ,,ceo4 ,n,o ,,outro ,o ,,sentido ,,latente ,,da ,,parabola ,,de ,,lazaro ,i ,,terra ,as affeies d'esta vida continuam na outra4 ,mesmamente no ceo1 a ,virgem ,me de ,christo4 ,todos esperam reconhecer1 alm-tumulo1 as pessoas que na terra estremeceram4 ,reconhecer-se-ho os esposos1 pois que ho de reconhecer os filhos4 ,esta esperana a maior consolao d'esta vida1 e uma das foras que nos attrahem para o ceo4 ,mas o perpetuo inferno nos escurece aquella esperana e nos esfria os mais santos affectos4 ,eis um pae de familia que morre subitamente ou de violenta morte1 ou na sua cama1 sem padre1 sem sacramentos1 ao cabo de uma vida devota4 ,imaginem a incerteza da viuva e dos orphos quanto salvao d'esse ente que os amou1 educou1 nutriu1 instruiu e consolou4 ,se ha coisa verdadeira no ensino dos theologos1 podemos apostar mil contra um que este homem cahiu no inferno para sempre4 ,que afflico para acrescentar s angustias d'aquella familia6 ,se elles tivessem a certeza de amar um peccador penitente1 a quem rogos e boas obras podessem levar refrigerio1 que supplicas1 que piedosas obras no fariam6 ,mas amar um condemnado6 suffragar um condemnado6 amarrarem-se memoria de um condemnado6 guardar-lhe as reliquias1 as cartas1 o retrato6 ,choral-o1 suspirar por ir vl-o6 ,de repente1 morrer para odial-o6 ,saber1 e pensar estas coisas6 ,seja embora uma duvida2 duvida que gela a orao no peito2 quebra o animo para o bem-proceder2 espanca a piedade do lar2 e aconselha o estontecer-se e esquecer-se um homem--coisa to natural ao mundano egoismo--2 ou ento1 o outro egoismo feroz e sombrio do frade que immola sua propria salvao todos os affectos humanos4 ,,ii ,ceo ,haver no ceo familias que se encontrem2 mas tambem no ceo haver orphos eternos1 e viuvas eternas1 e mes eternamente sem filhos4 ,se isto motivo para amarguras1 ahi est o agro das douras do ceo2 mas1 se motivo para alegrias1 que horriveis alegrias6 ,o rico avarento do ,evangelho seria em verdade melhor do que os eleitos4 ,sem duvida1 mais caridade haveria no inferno que no ceo4 ,,capitulo ,,oitavo ,,historia ,,de ,,um ,,sonho ,i ,ganhou um medico1 cabeceira de um pobre1 doena mortal4 ,chegou to depressa a morte que no lhe deu tempo de chamar o padre4 ,chegou o padre1 quando elle era j morto4 ,circumvagou os olhos pelos assistentes1 disse que o chamaram tarde1 e sahiu dando aos hombros4 ,as poucas palavras e o gesto impressionaram vivamente a viuva1 que se quedou a pensar n'aquillo todo dia4 ,,ii ,e eu velava sombra do funebre leito4 ,a viuva estava ali orando1 soluando1 e sempre preoccupada1 a pezar seu1 com as palavras do padre4 ,a intervallos1 olhava ella para mim chorando1 invocava-me como testemunha da virtude de seu marido1 e dizia-me com anciedade3 ,no se salvar elle8--,no duvide1 senhora--dizia-lhe eu2 porm tristemente eu via que as minhas respostas a no socegavam4 ,ao cahir da tarde1 como ella desde a vespera no comesse nem dormisse1 fiz que seu filhinho lhe offerecesse algum alimento4 ,debalde se esforou por engulir4 ,ento pediu um livro de oraes4 ,abriu ao acaso um que lhe deram1 esperando achar ali algum alivio1 que no achou2 pelo contrario1 com a leitura cresceu-lhe a inquietao4 ,vi-lhe ento no rosto uns tregeitos involuntarios1 e um crispar de mos1 e por fim um grito e logo cahiu desmaiada nos braos de quem a levou d'ali4 ,,iii ,apanhei o livro cahido de suas mos4 ,denominava-se ,quotidiano do christo1 e facilmente conheci nas paginas avincadas as passagens que ella tinha lido3 eram os ,pensamentos christos para todos os dias do mez1 pelo padre ,bouhours1 da companhia de ,jesus4 ,tinha ella desmaiado quando lia no quinto dia uma meditao cerca do ,juizo final4 ,acontece sempre que o ferido ao cahir bate sempre na chaga4 ,alguns trechos do capitulo1 cujas margens estavam laceradas1 diziam assim3 ,quo terrivel o dia da ira do ,senhor6 ,os justos escassamente sero havidos como taes3 que ser dos peccadores8 ,que sentena pde esperar o peccador impenitente de um ,deus inexoravel8 ,oh6 que terribilissima sentena6 ,ide1 malditos1 arder em fogo eterno6 ,ai6 onde iro1 ,senhor1 esses desgraados que amaldioaes8 ,para que ponto do mundo quereis que se afastem1 distanciando-se de vs8 ,onde que est paragem to funesta8 ,,sexto ,,dia ,o ,,inferno ,i4 ,que horror ganhariamos ao inferno1 se podessemos ouvir os lamentaveis gritos dos condemnados6 ,suspiram1 gemem1 urram como bestas-feras em meio de lavaredas4 ,accusam-se de seus peccados1 chorando-se1 detestando-os2 mas ,,tarde4 ,o chorar no lhes faz seno augmentar o ardor do fogo que os queima sem consumil-os4 ,penitencia dos condemnados6 quanto s rigorosa1 e inutil6 ,,ii4 ,no vr ,deus nunca1 arder em fogo de que o nosso apenas sombra2 soffrer ao mesmo tempo quantos males ha ahi1 sem allivio1 sem repouso2 sempre com os olhos postos nos demonios1 sempre com o corao raivoso e desesperado1 que vida6 ,,iii4 ,esses desgraados enfuriam-se por terem desprezado tantas occasies de salvarem-se4 ,o recordarem os prazeres passados -lhes um de seus mais penosos tormentos2 mas o tormento superior a todos a lembrana de terem1 por sua culpa1 perdido ,deus4#f ,pobre mulher6--disse eu entre mim lendo aquelle capitulo--vr seu marido1 to bom homem1 alcunhado de besta-fera6 ,e topar em livro de piedade1 onde procurava consolar-se1 esta cruel sentena que de manh ouvira da bcca d'um sacerdote3 ,,muito ,,tarde6444 ,quiz fechar o livro2 mas o titulo do ,dia seguinte1 impresso em versaletes1 susteve-me4 ,,setimo ,,dia ,,da ,,eternidade ,,das ,,penas ,,do ,,inferno ,i4 ,poder ir mais adiante a clera de ,deus que castiga prazeres que to pouco duram com supplicios sem fim8 ,que desgraa no isto6 ,no bastar que os males d'um condemnado sejam extremos8 foroso que sejam eternos8 ,uma picada de alfinete mal bem leve2 todavia1 se este mal durasse sempre1 tornar-se-hia insupportavel4 ,ora1 os tormentos do inferno que sero8 ,,ii4 eternidade6 ,quando um condemnado podesse derramar lagrimas bastantes para fazerem quantos mares e rios tem o mundo1 ainda que vertesse uma s lagrima em cada seculo1 elle no estaria mais adiantado1 depois de tantos milhes d'annos1 como quando comeou a penar4 ,ser-lhe-ha foroso recomear como se no tivesse nada padecido2 e1 quando tiver recomeado tantas vezes quantos so os gros de areia nas praias1 os atomos no ar e as folhas nos bosques1 nada d'isso lhe ser contado4 ,,iii4 ,no s por toda a eternidade os condemnados soffrero2 mas1 a cada instante1 soffrem a eternidade inteira4 ,est-lhes sempre vista a eternidade2 em todas as dres se lhes ca a eternidade4 ,as penas infinitas continuamente lhes esto no espirito4 ,cruel ida6 deploravel situao6 ,arder por uma eternidade6 chorar eternamente6 ,raivar sem fim6 ,esta meditao corresponde ao ,setimo dia1 que aquelle em que o ,senhor entrou em descanso para admirar suas obras4 #f ,o padre ,bouhours foi um solerte engenho1 bastante mundanal1 que distillava a frio no seu gabinete aquella rhetorica medonha1 cuja leitura1 se lhe dessem valor serio1 seria capaz de fazer abortar uma mulher gravida4 ,acintemente abastarda elle n'este livro a verdadeira doutrina cerca do inferno1 doutrina em que se aprende que os condemnados amam o peccado1 pois que amar o peccado odiar ,deus2 conhecendo1 porm1 a desmoralisao de tal pena1 o padre ,bouhours presume que os condemnados abominam o peccado1 mas que os seus olhos se abriram j tarde1 por maneira que substitue pena immoral1 mas apparentemente justa1 uma pena de apparencia moral1 mas para isso mesmo horrivelmente iniqua1 por que detestar o peccado amar o que ha mais avsso ao peccado1 isto 1 a virtude1 ou1 mais ao claro1 ,deus4 ,segue-se que ,deus deixaria infernados os que o amam e se arrependem de o haver offendido4 ,n'outro capitulo da mesma obra o mesmo padre de parecer que os condemnados no podem amar ,deus4 ,mas1 se elles no amam o bem nem o mal1 nada amam2 e ento que vem a ser as penas espirituaes8 ,que soffrem8 por que soffrem8 por que se afflijem do perdimento d'um bem que no amam8 e por que os afflige a perda dos prazeres que abominam8 ,tudo isso dispra n'um apontoado de sandices4 ,,iv ,acabava eu de lr1 agitado1 aquella pagina1 quando a viuva recuperou os sentidos2 mas quasi mentecapta4 ,exclamava ella que tinha a certeza de seu marido ter sido condemnado1 por que no acreditava em tudo que a egreja ensinava1 e morrra sem confisso2 accrescentava que o marido era bom para ella e para todos2 que1 ainda mesmo que a houvesse offendido1 lhe perdoava pelo muito que elle estava padecendo1 e que desejava ir juntar-se-lhe e consolal-o no inferno4 ,fallava em matar-se para mais depressa o vr2 e1 dizendo isto1 aconchegava o filho do seio1 sorria-lhe1 beijava-o convulsivamente1 em duvida se devia matal-o2 por quanto1 dizia ella1 o menino iria ao paraizo1 se morresse ento2 e no se veriam mais1 desejando ella leval-o ao pae4 ,assim que ouvi os gritos1 sahi do quarto mortuario para soccorrer1 se fosse preciso1 aquella afflicta gente1 sobrecarregada com outra desgraa4 ,cercamos a joven viuva1 vigiando angustiosamente os seus menores movimentos1 por medo de que ella no praticasse algum acto de desesperao1 de que dera mostras4 ,quizemos tirar-lhe o filho2 mas ella dava ares de querer afogal-o antes que lh'o tirassem4 ,parecia j mais tranquilla que todos ns4 ,desfigurou-se-lhe cadavericamente o semblante2 os olhos porm brilhavam1 e o sorrir tinha um ar celestial4 ,fallava sem cessar do marido1 e do prazer que ella teria em acompanhal-o no soffrimento4 ,a me ajoelhou-se diante d'ella1 que a levantou amorosamente1 rogando-lhe que no pedisse a ,deus pela sua alma4 ,conseguimos em fim separal-a do filho1 e levamol-os um apoz outro1 elle j adormecido1 e ella luctando comnosco1 desgrenhada e rota4 ,seguiram-na os parentes1 e eu fiquei ssinho beira do cadaver4 ,v ,bem desejava eu tambem sar3 carecia de distrahir-me4 ,piedade1 clera1 f1 duvida1 terror1 mil contrarios sentimentos me agitavam1 dos quaes eu no podia defender-me ao p do esquife1 e depois de similhante espectaculo6 ,encostei-me banca onde estava deitado sobre uma alva coberta um crucifixo de marfim1 e1 contemplando aquella divina imagem1 recolhi-me no mais intimo retrahimento d'alma4 ,perguntava eu a mim mesmo1 com o corao apertado1 o que devia crer-se da vida e morte de ,christo1 e se era certo que elle descesse do co1 como se dizia1 para assombrar os justos1 desesperar os peccadores1 e conturbar a razo dos fracos4 ,e a mim me quiz parecer que ,jesus estava ali1 e pensei vl-o chorar1 e que uma de suas lagrimas resvalou sobre o ,quotidiano do christo1 e tudo que eu havia lido n'aquelle livro subitamente se desfez4 ,estava ainda comtudo a minha alma perturbada4 ,interroguei o ,christo4 ,no me respondeu4 ,ento entrei em duvida se eu estava adormecido ou desperto4 ,vi--seria sonho8--um oceano de trevas alcantilar-se volta de mim1 e no seio d'essa escurido immensa lampejava um frouxo raio de luz4 ,e esta luz saia das fendas de um sepulchro1 e ,jesus estava deitado vivo n'esse sepulchro4 ,eu quiz levantar a pedra que o cobria1 mas uns verdugos envoltos em trevas me deceparam as mos2 eu quiz balbuciar1 e arrancaram-me a lingua2 e assim mutilado1 cego e mudo senti-me arrebatado e precipitado s entranhas de um abysmo1 e comprehendi que estava no inferno4 ,o meu unico soffrimento ahi era a cegueira1 e a espectativa anciadissima dos supplicios que me esperavam4 ,e1 como s tivesse ouvidos para entender1 escutei1 e comprehendi o seguinte4 ,,vi ,ao principio ouvi um rumorejar estranho1 que rolava prolongando-se ao travez dos espaos infinitos1 e depois decrescia at ao ciciar da folhagem que a brisa da tarde acaricia1 e por fim augmentava em estridor at exceder o roncar das vagas cavadas pela borrasca4 ,estas comparaes tiradas da terra no do ida da tristeza1 do pungente e solemne d'aquelle immenso rugir de seres sem nome que eu no podia vr e ouvir gemer4 ,de toda a parte1 suspiros1 brados1 soluos1 gritos exhorativos1 mas tudo distincto1 conglobando-se sem confundir-se1 e formando um brado unisono4 ,debaixo do sol no ha ahi espectaculo to variado como o prantear d'aquellas almas1 ressoando em choro universal quasi claro ainda1 e mais afflictivo4 ,ao ouvir estes estrondos figurava-se-me que o sangue me escorria dos pulsos cortados1 e o suor da fronte1 e as lagrimas dos olhos1 e tanto eu como tudo em redor soffriamos e supplicavamos4 ,,vii ,e uma voz exclamava3 ,oh6 quanto eu soffro1 ,deus meu6 ,isto no ter fim8 ,vs1 ,senhor1 que me atirastes ignorante a um mundo escuro1 no me julgaes1 apoz tantos seculos1 bastante castigado dos meus desvios d'um dia8 ,e outra voz exclamava3 ,quando os meus peccados aqui me abysmaram1 vossa mo1 ,deus1 me amparava1 e me ampara ainda2 e1 assim mesmo1 em logar de diminuir1 o meu supplicio augmenta4 ,soffro com quantos de longe molestei3 tenho fome com os que eu poderia fartar2 tenho frio com os que eu poderia vestir2 peza sobre mim a cada hora e cada vez mais esmagadora a carga de males que fiz pezar sobre outros4 ,multiplicaram-se as minhas offensas como a herva sobre a minha campa esquecida1 e as minhas feridas sangram sempre1 e as minhas chagas lavram sem cessar4 ,isto justo1 meu ,deus6 ,poderia eu ser feliz no co1 se visse o effeito de minhas obras8 ,em quanto fructifica a arvore fatal que plantei na terra1 puni-me1 ,senhor6 ,mas no me tireis a esperana6 ,o pouquinho bem que fiz na vida no germinar nem cobrir1 se o permittirdes1 os vestigios das minhas iniquidades8 ,oh6 quando nenhum ente vivo1 n'algum logar do mundo1 j no podr imputar-me seus soffrimentos1 tende ento piedade de mim1 meu ,deus6 ,e todas as almas peccadoras1 unindo-se em um brado de misericordia1 repetiram juntas1 l das reconditas profundezas3 ,tende piedade de mim6 ,tende piedade de mim6 ,esta supplica em commum era a um tempo to suave e dilacerante que eu imaginei que o ceo se abriria4 ,mas a noite que me envolvia espessou-se mais glacial2 e o abysmo emmudeceu2 e1 apoz um instante de esperana1 continuou a lamentar-se1 correndo como o oceano nas fragarias da costa4 ,ai6 ai6--conclamavam os gritos que se extinguiam soluando-- surdo o co6 surdo o co6 ,nunca6 nunca6--diziam outras vozes--,nunca6 nunca6 ,meu ,deus1 que resposta dr6 ,nunca6 nunca6 ,descanai1 filhos6--bradou um condemnado1 que se me figurou1 no tom de voz1 ser um dos patriarchas do abysmo--,no profirais essa palavra horrida4 ,ahi sa em vossos pobres seios um ecco das maldies da terra1 e no palavra descida do co4 ,ha mais de mil annos que padeo1 e oro1 e escuto o co1 e no ouo a resposta4 ,oremos1 oremos sempre6 ,e o ancio entoou um cantico2 e1 ao primeiro versiculo1 parou e debulhou-se em lagrimas4 ,ai6--ressoavam ao longe milhes de almas gementes--,ai6 o co surdo6 o co surdo6 ,n'este lance1 uma voz sobrelevou a todas1 dizendo3--,ensinai-nos1 ao menos1 ,senhor1 a utilidade dos padecimentos4 ,se nos perdoasseis1 acaso a vossa gloria padeceria com isso8 ,a felicidade dos justos soffreria diminuio8 ,revoltar-se-hiam elles contra vs8 ,logo que as creaturas entraram vossa presena1 no se lhes acrisolaram os sentimentos de piedade8 ,o padre que me estendia a mo quando era mortal e sujeito ao peccado1 a esposa que eu amava1 a me que me gerou1 os amigos que me trahiram e aos quaes perdoei1 os pobres que soccorri1 e uma filha ingrata e amada a quem eu daria a comer o meu corao em ancias de fome1 nem essa1 ninguem vos intercede por mim8 ,hontem oravam elles quando eu me rejubilava nas culpas2 pranteavam-me vivo e oravam por mim2 e hoje esquecem-me1 pendem para o crime1 fogem da dr2 o amor a quem soffre e geme sentimento ephemero1 que vai mal para entes bemaventurados4 ,e a voz que fallava assim ergueu-se ainda para amaldioar1 mas falleceu-lhe a fora1 e maneira do vagalho que rossa a nuvem rugindo1 subita recaiu e expirou em prolongado gemido4 ,mas logo um brado novo retumba mais estridente ainda1 e1 eu1 ouvindo-o1 no distinguia se era orao1 se blasphemia4 ,e bradava3--,creio na vossa justia1 meu ,deus2 mas deixai-me crr na vossa misericordia4 ,no ella to infinita como a vossa justia8 ,no eterna8 ,se me perdoaveis quando eu estava na terra1 porque no me perdoais aqui8 ,se eu sou o mesmo peccador1 no sois vs o mesmo ,deus8 ,e1 se a morte me mudou1 pde a morte d'um ente como eu mudar a vossa immutavel natureza8 ,cansou-se acaso a vossa bondade8 ,exhauriu-se8 ,sois vs susceptivel de cansao8 ,e1 se alguma de vossas virtudes transitoria1 de circumstancia e occasional1 foroso que seja a bondade1 aquella ineffavel bondade que ns ignorantemente consideravamos l em cima a mesma essencial e inalteravel virtude vossa6 ,se assim --proseguiu a voz desesperada--anniquilai-me1 ,deus ,omnipotente6 ,esta existencia inutil2 sou de mais no universo4 ,que lucraes com as minhas dres8 ,tendes preciso d'ellas8 ,retomai esta vida de que sem duvida abusei1 e esta intelligencia que perverti2 apagai em mim esta luz1 visto que principiam a rasgar-se os veos que a escurentavam4 ,tirai-me a lembrana do co1 a ancia de ser feliz1 a necessidade d'amar1 a necessidade de saber2 tirai-me1 sobre tudo1 por piedade1 o sentimento da justia1 porque eu no sou ,deus1 e a vossa justia um mysterio1 e contra minha vontade1 a blasphemarei4 ,deixai-me morrer1 ,deus6 ,deixai morrer quem soffre6 ,matai o peccado incuravel e a dr esteril1 a fim de que na creao no haja um s atomo que no palpite de reconhecimento e alegria1 ao ouvir o vosso nome santissimo4 ,e um clamor horrendo abafou a voz que fallava2 e1 d'um angulo a outro do abysmo1 todas as almas em tortura escabujavam1 rogando a ,deus que as deixasse morrer4 ,e pediam a morte como os famintos mendigam po2 chamavam-na com os gritos da mulher em angustias de parto do seu primogenito1 com a dr da victima na fogueira1 com o rugido da lea que perdeu os cachorros1 com o balido do cordeirinho que procura a me4 ,e eu tambem a chamava1 e me pareceu vl-a aproximar-se1 e beijei-lhe a mo glacial2 e1 quando me sentia morrer1 despertei4 ,,capitulo ,,nono ,,judas ,,iscariote ,i ,eu escolheria d'entre os condemnados o mais desprezivel1 se no inferno existisse um miseravel maior do que ,judas4 ,este vivia na amisade de ,jesus2 ninguem lhe conhecia mais de perto a innocencia2 e1 como elle fosse o particular distribuidor das esmolas 7,joo1 c4 #ac1 v4 #bi71 ninguem lhe conhecia melhor a bondade4 ,no obstante1 vendeu-o2 e1 depois de o atraioar1 voltou1 ceou com elle1 e1 ao escurecer1 guiou os soldados que o prenderam2 e1 como os soldados o no conhecessem1 deu-lhes signal1 abraando-o4 ,eis aqui o crime circumstanciado4 ,premeditao1 cubia1 villeza1 tem de tudo4 ,judas vende o mestre e o amigo1 o sabio e o justo4 ,vende-o sem colera1 sem paixo1 por bom dinheiro de contado1 como venderia na feira um jumento ou um boi4 ,sabe que desejam matal-o2 no importa6 vende-o4 ,e que ser depois da ,me de ,jesus8 e dos doentes que elle curava8 e dos ignorantes que ensinava8 ,ah6 que tem ,judas com as lagrimas de me e com a ignorancia e lastimas do povo8 ,negociou com todas essas dores como mercadejou com a amisade1 com a sabedoria1 com a innocencia1 com tudo que ahi ha divinal n'este mundo4 ,embolsou o preo2 e1 a fallar verdade1 nem os phariseus nem elle avaliaram cara a mercancia3 trinta dinheiros6 dez vezes menos que a libra dos perfumes de ,magdalena4 ,,ii ,um dos primeiros effeitos da perfidia de ,judas foi a defeco dos apostolos4 ,em vez de seguirem o ,mestre1 falsamente accusado de sacrilego e seductor1 dispersaram-se3 ,thiago1 ,simo1 ,thadeu1 que elle chamava seus irmos1 ,joo1 o seu amigo dilecto1 todos por egual covardes1 no cuidaram seno em salvar-se4 ,conheces este homem8 perguntaram a ,pedro4--,no1--diz ,pedro1 o chefe1 o mais corajoso de todos--no o conheo4--,renegou-o trez vezes2 trez vezes mentiu2 trez vezes testemunhou de falso em face dos accusadores3 depois1 chorou na escurido1 e calou-se4 ,todos deixaram injuriar1 calumniar1 chibatar e morrer ,jesus1 sem erguerem brado em sua defeza e duvidando que fosse ,deus1 duvidando-lhe da misso1 das promessas2 bem que1 para grande opprobrio d'elles1 certos de sua amisade1 pureza de vida1 e excellencia da moral4 ,para se reanimarem foi preciso o milagre que o pae ,abraho recusou ao rico avarento2 nada menos que resuscitarem os mortos1 e que propriamente ,jesus sasse do sepulchro1 e que elles o vissem1 e conversassem e comessem em sua companhia1 e que ,thom lhe tocasse as chagas4 ,desde ento que prgaram com inabalavel f a divindade de ,jesus4 ,,iii ,o peccado dos apostolos1 n'esta lamentavel historia da ,paixo1 1 na essencia1 egual ao de ,judas1 bem que no tanto odioso4 ,faltou-lhes a todos a f2 porm1 sendo a f um dom sobrenatural1 no devemos arguil-os desabridamente porque no receberam o dom4 ,o que do seu proceder nos irrita deixarem ir at final1 sem publico protesto1 a obra de ,judas2 que abandonassem o innocente amigo que os outros tinham vendido2 que no dissessem a ,pilato ou ,herodes3 ,no6 este homem no sedicioso2 quer que se d a ,cezar o que de ,cezar1 e a ,deus o que de ,deus2 paz1 desinteresse1 e caridade so a sua doutrinao4 ,isto bem o sabiam elles1 e no o disseram1 e deviam tl-o dito1 sem medo1 e no abafarem1 como fizeram1 o grito da consciencia4 ,este que o crime dos apostolos1 crime natural1 como o de ,judas4 ,bem se deixa vr que1 se ,judas vendeu o seu ,deus1 no pensava elle que vendia ,deus3 vendeu-o sem vl-o1 sem reconhecl-o divino4 ,o que elle a sabidas vendeu e quiz vender era um homem1 pelo mesmo theor que os apostolos desampararam e quizeram desamparar um homem1 mas o melhor e mais sabio homem1 e o mais carinhoso amigo4 ,vender ,deus6 renegar ,deus6 isso crivel quando se cr em ,deus8 ,tal crime1 fora de disparatado1 ficaria impune1 como acto de sandice6 ,judas foi ingrato1 ladro1 egoista1 traidor doble1 fallacioso1 assassino2 tudo isso foi e mais ainda2 mas o certo que1 no intimo de seu corao1 ,judas no se julgava deicida4 ,,iv ,por mais infame que haja sido1 ,judas no o era tanto que no comprehendesse a torpeza do seu acto4 ,tanto a comprehendeu que no se pde afazer sua villania2 e1 em quanto os apostolos se escondiam1 foi elle--dolorosissimo acto6--confessar sua perfidia no templo1 e restituir o dinheiro aos compradores1 dizendo3 ,vendi o sangue do innocente4 ,mas ninguem se desata do seu remorso1 como de um dinheiro que encrava espinhos na consciencia2 e1 na bcca de um traidor1 o testimunho a favor da innocencia perde muito de sua efficacia4 ,sentiu-o vivissimamente ,judas quando1 apoz confessar-se do crime1 os phariseus lhe responderam3 ,que se nos d d'isso8 ,l te avm4 ,sau ento do templo1 convicto de que no estava em sua mo sustar as consequencias do seu crime1 corrido1 desesperado1 indo ao encontro da morte que merecra1 mas que ninguem lhe dava1 para que a sua penitencia fosse maior n'este mundo4 ,v ,vida de opprobrio e remorsos expiao4 ,judas deveria viver4 ,porque se matou8 ,se elle cresse na divindade de ,jesus1 no se mataria1 pois que1 matando-se1 a entregar-se nas mos d',aquelle que atraiora4 ,por que se matou8 ,o suicidio nada remedeia1 e tira da contemplao dos homens o salutar espectaculo d'um criminoso contricto4 ,procurava elle anniquilar-se8 ,a anniquilao ser-lhe-hia doce refugio3 o nada no pena4 ,ora certo que ninguem disse que ,judas fosse atheu4 ,se elle descrsse de ,deus e da vida futura1 como explicar-lhe os remorsos8 ,que crime1 quando se cr que tudo acaba comnosco8 ,se no cresse em ,deus1 ,judas guardaria os trinta dinheiros4 ,que temia elle8 ,como cumplices de seu crime tinha todo ,israel1 os padres que o corromperam1 os senadores1 ,pilato1 ,caiphs1 e a crte de ,herodes1 e os proprios apostolos que negaram a victima4 ,ento por que se matou8 ,,vi ,no suicidio de ,judas ha terrivel mysterio2 mas tambem1 n'este mysterio1 ha relance luminoso1 e vem a ser que ,judas1 depois de confessar a perfidia1 na face dos tentadores1 calcando o ouro recebido1 vagando loucamente pelas ruas de ,jerusalem1 valia tanto pelo menos como o senado judaico que continuava deliberando friamente a morte do justo1 como ,pilato que lavava as mos1 como ,herodes e sua crte que riam de tudo1 e como os covardes amigos cujo testemunho1 n'aquella conjunctura1 seria muito mais importante que o d'elle4 ,tal monstro revertido a homem1 de si mesmo horrorisado1 saiu da cidade1 entrou aos campos por onde tantas vezes estancra com o affavel ,mestre1 viu-se indigno de apertar a mo d'um amigo1 porque havia trahido o mais fiel de todos2 viu-se indigno de piedade por que a no tivera2 e1 por fim1 desejou acabar4 ,nunca tinha sentido como ento1 nem quando ouvia ,christo1 o nada das riquezas1 a vaidade do mundo1 o desgosto dos prazeres1 o horror dos vicios que os seguem4 ,oh6 se elle podesse retroceder1 delir de sua vida aquella nodoa de sangue1 sacudir o pezo que lhe abafava o corao1 quo diverso do que fra no seria6 ,como agora se lhe figurava formosa a innocencia6 ,como as tentaes lhe pareciam boas de subjugar6 ,ah6 se elle podesse quebrar as prises de ,jesus1 e banhar-lhe os ps com suas lagrimas6 ,se podesse offerecer a vida a trco da que o povo a sacrificar6 ,com que prazer se deitaria na cruz1 e ahi morreria em paz1 se lhe fosse dado perdo de seu crime com tal condio6444 ,mas1 ao longe1 estrugia a grita da multido enfuriada1 bradando3 ,crucifica-o6 ,escutava o tropel dos cavallos1 o retinir das armas1 e a pancada do martello que cravava os pregos nas mos bemfazejas do amigo que elle vendra4 ,iriaram-se-lhe os cabellos1 reumou-lhe suor glacial ao rosto1 mal se tinha nas pernas como ebrio1 sentia retrahir-se-lhe o cho debaixo dos ps4 ,oh6 como ,jesus padecia6 ,mas ,judas padecia mais1 porque soffria como criminoso1 e no como justo4 ,os soffrimentos de ,judas excedem todo o confronto4 ,no ha ahi agonia que lhes compareis4 ,em um dia1 n'uma hora soffreu mais do que cem annos de penitencia no deserto1 cem annos de vergonhas e supplicios entre os homens4 ,a sua alma era uma fornalha em chammas4 ,os caminhos abrolhavam-lhe espinhos dilacerantes debaixo dos ps4 ,com os proprios dentes lacerava os beios4 ,o sangue estura-lhe nas veias4 ,aquelle viver j no era vida de homem4 ,nem fome nem sede o espertavam do lethargo horrendo4 ,fulgurava-lhe um s sentimento3 o horror do seu crime4 ,o que elle levava pelos campos alm era um cadaver j insensivel dr2 e esse vil cadaver o que elle estrangulou pendente da arvore4 ,fez mal4 ,melhor lhe fra morrer ajoelhando1 supplicando misericordia4 ,ah6 acaso sabemos como elle morreu8 ,por ventura1 a dr refinada at aquelle extremo no ser a mais eloquente supplica8 ,quem o sabe n'este mundo8 ,,vii ,seja1 porm6 ,prosiga elle na outra vida o medonho supplicio que tentou abreviar6 ,que esse incomportavel castigo redobre de hora a hora1 de anno a anno1 de seculo a seculo4 justo4 ,amen6 amen6 ,conte-se e publique-se em todas as linguas da terra que ha dezoito seculos ,judas trahiu o ,filho do homem1 seu bemfeitor1 seu amigo e mestre1 e que o seu castigo dura ainda4 ,maldito seja elle e todos os seus similhantes6 ,maldito seja de pobres e ricos1 dos filhos e das mes6 ,padres de ,jesus ,christo1 levai esta nova a todas as choas e palacios2 dizei-a a grandes e pequenos1 aos que balanceam thuribulos1 e aos que floream gladios1 aos que julgam a terra e aos que so julgados6 ,ai dos hypocritas6 ai dos ingratos6 ai dos homens de duas linguas e duas caras6 ai dos servos e dos irmos tredos6 ai dos que antepem a amisade justia1 e vendem sua alma ao sanhedrin1 e contam as suas moedas em quanto o innocente atormentado4 ,dizei isto a toda a terra1 padres de ,jesus ,christo1 que no haver ahi palavra que vos impugne4 ,sim6 ,no ha ahi crueza de morte1 e mormente voluntaria morte que expie tamanho crime4 ,judas soffre ha dois mil annos1 e d'aqui a quatro mil soffrer ainda1 e em quanto o genero humano no terminar a sua peregrinao terrestre1 viver em supplicio recrescente de tormentos inauditos4 ,,viii ,entretanto1 meu ,deus1 este mundo de provaes1 segundo dissestes e tudo o confirma1 ha de acabar4 ,e1 quando este mundo fr destruido e renovado1 quando j no houver sol1 nem beros1 nem sepulchros1 nem geraes de peccadores1 no perdoareis ento a ,judas8 ,quando elle apparecer vossa presena no dia do juizo1 depois de tantos seculos de indescriptiveis dres1 no vos lembrareis de que elle foi vosso amigo8 ,dar-se-ha caso que ,pedro1 esquecido da sua culpa e do perdo que a disfarou1 diga ainda outra vez3 ,no conheo este homem8 ,joo1 ,matheus1 ,thom e ,thiago1 voltaro o rosto indignado1 como se no houvessem tambem peccado e duvidado8 ,no vos dir o cro inteiro dos apostolos3 ,senhor1 apiedai-vos d'elle4 ,sem a vossa graa1 o que no teriamos feito ns8 ,apiedai-vos d'elle1 ,senhor6--diro todos os bemaventurados--que elle1 sem o saber1 foi o instrumento e a victima da salvao dos homens4 ,feliz culpa6 dizia ,santo ,agostinho do peccado de ,ado1 feliz culpa que grangeou para o genero humano situao melhor que a do ,eden4 ,feliz tambem1 meu ,deus1 a culpa de ,judas1 pois era mister que1 em cumprimento de vossos decretos1 fosseis trahido por um dos vossos amigos4 ,horrendo1 mas inevitavel crime1 predicto muito antes pelos prophetas2 crime salutar1 introito mysterioso da paixo2 crime que foi amaldioado e devia sl-o1 mas que hoje devemos perdoar e bemdizer1 por quanto1 sem tal crime1 dce ,jesus1 nem vs terieis morrido1 nem o mundo estaria resgatado4 ,apiedai-vos1 pois1 de ,judas6 ,commiserem-vos seus remorsos1 tormentos e lagrimas6 ,compadea-vos a cegueira d'elle6 bem de crr que fechais os olhos da alma aos culpados e esta milagrosa cegueira com que os affligis j per si um castigo4 ,mas tambem os castigareis por peccados e erros commettidos com vossa licena1 no seio d'aquellas vingadoras trevas que derramastes no seu caminho8 ,no1 no1 meu ,deus1 vs o dissestes4 ,lembrai-vos de vossas derradeiras palavras na cruz redemptora1 quando pedieis a vosso ,pae perdo para os algozes1 para os sacerdotes que vos haviam comprado1 para o amigo desleal que vos tinha vendido1 para o soldado cruel que vos cuspiu na face1 para o povo desvairado que vos injuriava no supplicio3 ,perdoai-lhes1 pae1 que elles no sabem o que fazem6 ,e vosso ,pae1 que tudo vos concede1 perdoou-lhes o sacrilegio1 a blasphemia1 e tudo quanto em seu crime entendia com a vossa abscondita divindade2 perdoou-lhes o que a justia e caridade querem que se perdoe aos insensatos e aos cegos1 e a quantos no sabem o que fazem4 ,o que ficou sobre elles pezando o peccado contra a humanidade1 por que bem conheciam os peccadores a sua culpa no momento em que a commetteram4 ,meu ,deus1 perdoai-lhes6 ,pedevol-o o genero humano ensinado por vossas lies e exemplos1 e resgatado por vosso sangue4 ,,capitulo ,,decimo ,concluso em frma de parabola ,o pae de familia dizia aos seus servos3 ,ide aos meus celleiros2 tomai a flr do gro que eu mesmo escolhi e ensaquei parte em saco novo1 e ide semear o meu campo4 ,no lhe mistureis o gro do saco velho2 porque esse embriaga o homem e no o alimenta1 e s para os cevados bom4 ,cumpriram os servos as ordens do amo2 deixaram1 porm1 por descuido1 cahir no saco novo os gros malfazejos que o amo havia separado1 e1 logo que se misturaram1 no poderam extremal-os1 e cegamente os atiraram uma para os sulcos4 ,chegado o estio1 um caminheiro que passava admirou a belleza das espigas que medravam na seara1 mas reconheceu entre as espigas as plantas nocivas4 ,arrancava elle discretamente as que haviam germinado at beira da estrada1 quando os servos1 armados de pos1 correram a prohibir-lhe que tocasse na seara que era de seu amo4 ,perguntou-lhes o caminheiro onde estava o amo1 e soube d'elles que era fallecido1 mas lhes recommendra que vigiassem a messe preparada para seus filhos4 ,o caminheiro1 ouvida tal resposta1 contristou-se1 e lhes fez vr a differena que havia entre o joio e o trigo4 ,e disse-lhes3 ,acautelai-vos de os mandar juntos ao moinho1 e no faais po que no seja de puro fermento4 ,os servos1 no obstante1 persuadidos da sabedoria do amo e do cumprimento fiel s ordens recebidas1 desconfiaram do caminhante1 e de seus proprios olhos at1 quando lhes apontava a differena das duas plantas4 ,se isto joio1 diziam1 no fmos ns que o fizemos rebentar4 ,certo que no--disse o passageiro--no fostes vs quem fez germinar o trigo nem o joio1 nem communicastes a cada um dos dois sua diversa virtude1 nem to pouco lh'as podereis tirar2 mas1 se no sois quem os fez crescer1 fostes vs quem os semeou1 depois de misturar os gros que o pae de familia havia cuidadosamente separado4 ,se amais os filhos de vosso amo1 fazei o que elle faria3 no lhes deis a comer po que empeonha1 porque d'elle adoecero1 e outros ho de morrer4 ,turbaram-se grandemente os servos com tal discurso4 ,um disse entre si3 ,pde ser que o homem tenha razo3 aqui ha plantas que no parecem eguaes2 e acertado no desprezar bons avisos1 venham d'onde vierem1 porque1 um dia1 quem sabe se nos sero pedidas contas8 ,outros1 no entanto1 diziam3 ,este homem pde ser um impostor4 ,quem sabe d'onde vem ou para onde vai8 ,quem lhe deu direito de nos ensinar8 ,e porque no hemos de dar d'este po aos filhos de nosso amo8 ,ns comeremos tambem d'elle4 ,dizendo isto1 abaixaram-se a apanhar pedras1 e remessaram-as contra o caminheiro que se affastou4 ,,appendice ,,capitulo ,,primeiro ,,provas ,,mysticas ,,do ,,inferno ,i ,da auctoridade da ,biblia ,ninguem nega que a ,biblia contm brilhantes verdades2 mas essas brilhantes verdades no nos encantam por estarem na ,biblia2 em qualquer parte onde as vissemos1 as amariamos por seu natural resplendor4 ,da natureza d'ellas1 as encontrais nos escriptos dos antigos sabios4 ,so taes verdades como a noiva dos ,cantares3 a sua belleza toda sua1 e no reflexa1 e todo seu imperio lhes promana da formosura4 ,porm1 a ,biblia tambem encerra pensamentos que1 pomposamente vestidos1 nos tocam o espirito por inverso modo4 ,quanto mais os examinamos tanto mais os regeitamos4 ,afra a visinhana1 nada tem commum com as sympathicas verdades1 entre as quaes se nos deparam4 -nos1 todavia1 prohibido de as distinguir1 e confiar em uns com desconfiana d'outros2 dizem-nos que tudo verdadeiro1 e verdadeiro com o mesmissimo titulo1 no porque sejam umas cousas mais ou menos persuasivas que outras1 mas porque se acham escriptas n'aquelle livro4 ,dispensam-nos de procurar na ,biblia o cunho interior que ,deus gravou na verdade para que a reconheamos4 ,caracteres naturaes e distinctivos do erro podem guiar-nos em tudo2 mas na ,biblia no4 ,n'outros livros facultativo discernir o justo do injusto2 para o qu temos regras certissimas1 e instrumentos agudissimos2 mas peccado querer julgar a ,biblia4 ,cumpre-nos1 lendo-a1 desconfiar do nosso corao1 do nosso espirito1 de tudo1 salvo d'ella4 ,assiste-nos o direito de dizer1 como ,plato que ,homero ultraja a divina magestade1 quando mistura o ,olympo com as paixes humanas2 porm1 quando a ,biblia glorifica a perfidia de ,jahel1 e a cavillao de ,judith1 e o roubo e carnificina dos chananeos1 e faz collaborar ,deus em tantas traies e morticinios1 no nos permittido o duvidar4 ,se ,isaias nos figura o ,salvador de ,israel calcando o povo como o vinhateiro esmaga a uva no lagar1 foliando sobre elle e sacudindo com selvagem alegria os seus vestidos aspergidos de sangue1 no seu1 mas dos homens1 devemos dizer3 ,amen6 eis aqui o bom pastor1 o cordeiro de ,deus1 a mansa victima do ,calvario1 o ,christo na sua gloria6 ,e quando o psalmista comparar o ,senhor a um homem embriagado do vinho que lhe redobra as foras e lhe faz expedir pavorosos gritos1 devemos sem escrupulo responder3 ,assim seja6 ,claro que nenhum de ns quereria similhar-se ao vindimador sanguinolento nem ao guerreiro ebrio2 ninguem ousaria assim fallar de ,atila recolhido tenda1 com receio de ser ouvido2 mas similhantes confrontos que envileceriam ,jupiter e offenderiam o rei dos hunos1 prodigalisal-os-hemos ao nosso ,deus1 em seu templo1 attendendo a que os prophetas sabiam melhor do que ns quaes so os elogios que lhe prazem4 ,taes sujeitos nada diziam do seu chefe3 tudo que escreviam era o espirito santo que lh'o ditava1 desde os successos at s expresses significativas d'elles4 ,ora ahi est por que tudo sagrado quanto a ,biblia contm1 e por que tal pensamento1 que n'outro livro trescalaria a impiedade1 1 na ,biblia1 uma adoravel coisa4 ,ha n'isso mysterio no menos profundo que o do inferno1 se tentarmos esclarecel-o2 e tal mysterio1 com que se quer demonstrar outro1 promove discusses que o catholicismo impugnou sempre1 servindo-se d'isso como arma contra os protestantes4 ,o catholicismo diz aos protestantes3 ,como sabeis que a ,biblia divina8 ,conhecestes ,moyss8 ,quando ,deus lhe fallou do cimo da montanha1 estaveis presente8 ,passastes a p enxuto o mar vermelho1 ou bebestes agua da rocha de ,horeb8 ,quem vos affirmou que aquelle homem era propheta8 ,que provas vedes na ,biblia de que no toda ella obra de homens8 ,milagres8 ,outros livros os contam1 e vos fazem rir4 ,verdades8 ,outros livros as encerram sem que as imputeis ao ,espirito ,santo4 ,obscuridades8 ,coisa naturalissima1 sendo tantas em todos os auctores1 e nos vossos no menos4 ,quem sois vs1 para que vos acreditemos1 quando nos affirmaes inverosimilhanas8 ,no vos conhecemos4 ,que cauo nos dais8 ,sois inspirados8 ,fazeis milagres8 ,vejamol-os4 ,no basta dizer3 a ,biblia divina2 mister proval-o irrefutavelmente4 ,o numero dos vossos partidarios no faz nada questo4 ,o livro dos ,vedas1 que se gosa do foro de divino na ,asia1 to antigo como a ,biblia1 e no tem menos sequazes4 ,se a ,deus aprouvesse1 communicar-se aos homens por meios naturaes1 como dizeis1 fal-o-hia por lances de bondade1 com o fim de os unir1 como filhos do mesmo pae1 por que1 a par e passo que melhor se conhece ,deus1 mais se conhecem a caridade e justia4 ,como pois que tantas naes1 presumindo possuirem taes oraculos1 em vez de viverem unidas1 luctam discordes1 erigindo altar contra altar1 injuriando-se1 perseguindo-se1 e votando-se reciprocamente s chammas eternas6 ,o que as divide as obscuridades da ,biblia2 no as verdades naturaes que l se vos deparam4 ,quem alumiar a escureza em que dizeis est ,deus involto1 e no seio da qual os homens se dilaceram1 desprezando naturaes e luminosissimas verdades8 ,os judeus entendem as prophecias diversamente do vosso parecer2 e1 to de boa f as interpretam1 que sustentam a sua opinio em desterros1 carceres1 fogueiras1 durante seculos1 fugindo1 e deixando rasto de sangue por toda a parte do mundo4 ,qual seita protestante no arrancou da espada contra a sua irm8 ,todas tem tido martyres e verdugos4 ,isso no nos parece prova da divindade da ,biblia4 ,nem sequer lhe podereis provar a authenticidade4 ,os originaes d'esse livro miraculoso onde param8 ,perderam-se1 comeu-os a traa1 como succede por tempo a tudo que obra de homens4 ,poro consideravel d'esse antigo monumento acabou s mos dos hebreus1 depositarios d'elle4 ,o que nos resta so reliquias4 ,se capitulos inteiros1 de que apenas sabemos os titulos1 j no existem1 quem vos auctorisa a pensar que os capitulos subsistentes no foram alterados8 ,estariam elles a melhor resguardo8 ,por quem8 ,por que8 ,e como8 ,quem os copiou8 ,quem os traduziu8 ,quem abona a fidelidade de tantos copistas1 e a intelligencia e sciencia dos traductores8 ,por que signaes se conhece qual a melhor entre as copias antigas1 e entre as differentes copias antigas8 ,em qual traduco confiaremos entre tantas diversas8 ,reportar-nos-hemos ao livreiro1 ao impressor1 ou ao editor8 ,a quem8 ,a mortos desconhecidos1 a vivos ignorantes1 ou a sabios sem misso e cuja sciencia nos ainda problematica8 ,pois que venha ahi quem quizer1 e mostrando um papel rabiscado exclame3 eis-aqui a palavra de ,deus6 ,e sem mais nem menos ponha-se a gente de joelhos6 vista d'isso ninguem pde ser accusado de idolatria4 ,se no tendes mo outras provas da authenticidade e divindade da ,biblia1 todo o homem cordato regeitar a ,biblia1 sem salvar o ,novo ,testamento4 ,o christianismo foi prgado antes da redaco dos evangelhos1 s multides que no sabiam ler4 ,quando essas prgaes comearam a correr escriptas1 os evangelhos eram aos cardumes2 appareceram logo cincoenta attribuidos aos apostolos e aos discipulos de ,jesus4 ,quem se entenderia n'este chos8 ,quem poderia decidir que o evangelho de ,thiago no era de ,thiago1 e que o evangelho de ,joo era de ,joo8 ,quem poderia discriminar entre o verdadeiro e o falso8 ,entre o de ,deus e o dos homens8 ,quem poderia discernir e acreditar a boa copia entre as copias falsificadas de ,joo8 ,a coisa no era de si to luminosa que podessemos aceital-a hoje em dia4 ,no quarto seculo1 bem perto dos tempos apostolicos1 esta questo enleava gravissimos doutores1 um dos quaes1 testemunha de taes incertezas1 ,santo ,agostinho1 dizia que elle sem o testemunho da ,egreja no prestaria f ao verdadeiro evangelho4 ,no achava elle portanto nos escriptos de ,joo1 de ,lucas1 de ,marcos1 de ,matheus e de ,paulo a prova intrinseca da sua divindade2 com mais forte razo no acharia a mesma prova intrinseca nos escriptos de ,moyss1 de ,samuel1 de ,esdras e outros prophetas4 ,se eu no debilitei1 resumindo-as1 as razes com que os catholicos intentam reconduzir ao seu gremio as seitas dissidentes1 expuz tudo o que tinha a expor sobre a primeira prova mystica do inferno1 extrahida das ,escripturas4 ,passemos segunda prova que o testemunho da ,egreja4 ,,ii ,da auctoridade da ,egreja ,diz-nos a ,egreja catholica que preciso crr o que ella nos ensina como se ,deus nos fallasse4 ,quando nos annuncia que todos ns peccamos antes de nascer1 e que a ,virgem1 me de ,christo1 nasceu sem peccado--o que se no acha no evangelho--devemos acredital-o como se o evangelho o dissesse4 ,a ,egreja supre o silencio das escripturas1 interpreta os textos1 umas vezes prende-se letra1 outras descobre um entendimento occulto que s ella v1 o unico verdadeiro4 ,como possue1 com a ,biblia1 a tradio oral dos patriarchas1 dos prophetas e dos apostolos1 a nova synagoga contina no tempo e no espao a immortal cada1 guardando1 diz ella1 o dom de prophecia e o dom dos milagres4 ,a ,egreja catholica mais que a imagem de ,jesus ,christo3 est consubstanciada n'elle como sua esposa4 ,testemunha do passado1 luz do presente e do futuro1 legislador infallivel1 juiz sem appellao1 devemos consideral-a sempre como viva incarnao do ,verbo eterno4 ,seria a ,biblia um livro duvidoso em seu texto1 se ella no asseverasse a autenticidade d'elle1 e duvidoso em seu espirito se no recebesse a misso de o explicar aos homens4 ,de modo que toda a auctoridade n'este mundo1 j a da razo1 j a dos livros sagrados1 sme-se absorvida na soberana auctoridade d'ella4 ,esta segunda prova do inferno de natureza analoga primeira3 mysterio4 ,exponho-o sem o discutir4 ,mas os protestantes discutem-no2 negam-o1 reprovam-o em nome dos prophetas e dos apostolos1 e milhares e centenas de milhares d'elles affrontariam a fome1 o frio1 a penuria1 o exilio1 os carceres1 a tortura ordinaria e extraordinaria1 o poder de ,cezar e toda a casta de supplicios1 com o denodo dos primitivos martyres1 antes de vergar o joelho ante a ,egreja--o que elles qualificariam de idolatria4 ,no posso abster-me de relatar algumas de suas objeces1 as quaes1 bem que sejam foradas sobrenaturalmente com versiculos do ,apocalypse ou das ,vises de ,isaias1 nem por isso me parecem menos debeis4 ,temos1 dizem1 um facil meio de nos certificarmos da infallibilidade da ,egreja4 ,perguntai-lhe o que deve fazer-se em frequentes circumstancias da vida1 quando os mais doutos homens se bandeam em dous ou tres arraiaes1 dizendo uns3 deve fazer-se isto2 no1--dizem outros--isso pessimo--2 e os terceiros sustentam que no se deve fazer nada1 ainda que a inaco parea aos outros criminosa4 ,pelo facto de nos prohibirem actos manifestamente culposos aos olhos da razo1 j prohibidos por lei natural1 pelo decalogo e pelos philosophos1 isso no convence que possuam luzes milagrosas para regerem almas4 ,o que queremos que nos guiem no lance em que os outros conductores nos abandonam1 nos pontos em que elles se desavm1 em que se calam2 emfim1 na conjunctura em que os homens tem grande interesse em conhecer a verdade que se lhes occulta4 ,venha a ,egreja n'um d'estes casos4 ,no affrontemos com os casuistas multido de problemas onde o nosso partido seria grande2 busquemos antes1 nas relaes da vida civil1 um s d'esses factos duvidosos1 sobre os quaes a sabedoria humana est indecisa4 ,v de exemplo o emprestar a juro1 e exponhamos primeiro a questo muito pelo alto4 ,deve emprestar um homem ao seu visinho1 dinheiro ou qualquer outro valor1 gratuitamente8 1 pelo contrario1 licito haver parte dos lucros da quantia cujo uso se permitte1 por tempo marcado1 ao visinho8 ,como principio1 ninguem condemna o emprestimo gratuito1 o qual1 maneira da esmola1 um acto de liberalidade muito para louvar-se1 mas que seria nocivo1 sendo praticado sem discernimento4 ,todavia1 alguns philosophos1 e modernamente alguns caudilhos das seitas communistas1 defendem que o emprestimo gratuito o unico bem consoante equidade natural1 e que a minima usura roubo4 ,estes philosophos tem sido arregimentados na peor especie de utopistas4 ,toda a gente sisuda recusa considerar a gratuidade do emprestimo como obrigao moral4 ,tal preceito usurparia mediania econmica os meios de valer ao indigente laborioso2 o pae de familias no arriscaria as migalhas penosamente poupadas1 se o no acorooasse esperana d'um beneficio adequado ao servio que presta e aos perigos que corre4 ,os que nada tem cariam1 por conseguinte1 em mais apertada dependencia dos que tem tudo profusamente4 ,nas modernas sociedades1 similhante preceito multiplicaria os invejosos1 multiplicando os avarentos4 ,feriria de esterilidade o campo da viuva1 estagnaria o movimento da industria e commercio1 e1 pelo tanto1 o desenvolvimento da riqueza e vantagens moraes que ella proporciona4 ,o emprestimo a juro logo geralmente admittido como justo e fertil em toda a especie de prosperos resultados4 ,mas surdem para logo novos obstaculos4 ,deve-se limitar a taxa do juro que o devedor pede ao crdor8 ,como se ho de avaliar os prejuizos do devedor1 e os lucros conjecturaes do crdor8 ,ha nada mais hypothetico e variavel6 ,que differena entre a qualidade e os productos de duas terras convisinhas1 entre tal e tal mister1 entre a capacidade d'este e a d'aquelle6 ,o juro legal1 s vezes pequenissimo1 casos haver em que seja pezado2 mas1 como legal1 pezar com todo seu pezo sobre os que menos lh'o podem supportar4 ,ser elle at motivo a encarecerem os generos1 e redundar em incommodo e vexame4 ,tal 1 quando menos1 a opinio de celeberrimos philosophos4 ,mas deve-se1 como elles querem1 deixar livre plenamente a vontade dos contrahentes8 ,cuidar-se-ha que tudo isto mera questo de economia politica3 no verdade4 ,aqui1 mais que tudo1 militam questes moraes complicadas e de alto melindre1 de interesse quotidiano e universal1 questes que enliam elevadissimos espiritos1 e sobre as quaes devemos1 por isso1 interrogar a ,egreja4 ,se consultamos os canones dos concilios1 e nomeadamente os de ,nicea1 d',arles1 de ,carthago e de ,elvira1 achamos que a ,egreja condemna1 em theoria1 o emprestimo a juro4 ,na pratica1 porm1 tolera-o4 ,no insistamos na contradico4 ,se permittido o emprestimo a juro1 quaes so as condies8 ,tem alguem direito de fixar o beneficio do devedor8 ,quem 8 ,o ,estado8 ,se o ,estado que fixa a taxa do juro1 o ,estado quem definitivamente decide do que ,deus concede e do que ,deus prohibe1 do que e do que no peccado1 e por tanto a lei divina varia com a phantasia da lei4 ,se no o ,estado1 o uso da terra8 ,ha nada mais injusto e irregular8 ,que principio cumpre adoptar8 ,onde est o direito8 ,onde o abuso8 ,que da regra8 ,no ha nenhuma8 ,no ha4 ,a tal respeito tamanha a desordem entre os theologos como entre os estadistas1 e philosophos1 e economistas e jurisconsultos1 e entre os confessores e penitentes4 ,varia em cada diocese a jurisprudencia3 no vamos to longe2 varia em cada parochia4 ,mudai de confessor1 e vereis que o mesmo facto1 cercado das mesmas circumstancias1 muda o nome3 peccado mortal1 injustia1 expoliao no confessionario direita1 acto licito no confessionario esquerda1 debaixo do mesmo campanario1 em nossas opinies1 e o seu facho milagroso vasqueja ao p do mesmo altar4 ,um parocho vos condemna e outro vos salva4 ,parece pois que a infallibilidade ecclesiastica aleijada n'esta questo vital em que os ricos a invocam para tranquillisarem suas consciencias1 e os pobres para satisfazerem as necessidade do corpo e as da alma1 porque elles pedem de emprestimo para trabalhar1 para nutrir os filhos1 educal-os1 casal-os1 auxiliar os seus parentes velhos1 e sepultal-os1 e para isso mister que achem quem lhes empreste4 ,quanto a materia politica1 reinam as mesmas contradices e incertezas dos negocios civis4 ,ha factos criminosos perante a razo1 e todavia so absolvidos e at glorificados por uma parte do clero1 sem excepo dos bispos1 ao mesmo tempo que uma outra parte da cleresia os condemna a meia voz2 mas de modo que a ouam4 ,a carnificina chamada de ,saint ,barthlemy foi approvada em ,roma e celebrada em quasi todos os pulpitos4 ,a revocao do edito de ,nantes foi approvada pelo ,papa e pela maioria dos bispos4 ,sobejar-nos-hiam exemplos1 se os quizessemos1 sem ir to longe4 ,por outro lado1 ha factos legitimos1 heroicos1 louvaveis1 perante a razo1 e esses so malsinados e condemnados como crimes por parte do clero1 sem excepo dos bispos1 ao mesmo passo que outra parte do clero os approva1 e s vezes tem parte n'elles4 ,e tambem do clero ha poro que se abstem de julgar taes actos4 ,as ultimas insurreies da ,polonia e ,italia nos do exemplo recente e ainda sanguinolento4 ,aquillo que um ,papa censurou1 e outro ,papa stygmatisou1 outros padres applaudiram1 alentaram e abenoaram6 ,estas diversidades de opinies sobre successos to graves1 e culpaveis1 se o so1 to admiraveis pelo contrario1 se no so culpaveis1 manifestam-se no secreto do tribunal da penitencia como nos escriptos e actos publicos4 ,o confessor de ,carlos ,,ix considerou d',orther subdito rebelde porque recusou ser assassino4 ,o bispo de ,abranches talvez negasse a absolvio ao confessor de ,carlos ,,ix4 ,tal italiano1 injuriado por um frade1 seria festejado pelo seu cura4 ,de maneira que vista d'uma auctoridade moral infallivel1 bastantes catholicos1 testemunhas d'este espectaculo1 vendo para onde ,roma pende1 perguntam amargamente se em verdade os povos tem direitos1 e meios de fazerem respeitar os seus direitos2 se a desobediencia ao rei s permittida em materia de dogma2 se a liberdade1 o trabalho do pensamento1 da escripta e da voz no merecem ser defendidos1 comtanto que vos deixem a liberdade de rezar2 se ha outra patria alm da ,egreja2 se o servilismo1 j cgo1 j illustrado1 no a principal virtude civica2 se1 emfim1 n'este mundo o belprazer dos poderosos no a suprema justia4 ,estas e muitas outras perguntas tem sido contradictoriamente respondidas pela ,egreja1 que no sabe melhor que ns onde esto bem e mal1 virtude e crime1 em conjecturas solemnes e frequentes1 nas quaes bem e mal1 virtude e crime avultam a propores enormes4 ,a ,egreja hesita comnosco1 duvida comnosco1 bandeia-se e apaga-se quando entra nas veredas obscuras em que o genero humano forado a entrar1 as quaes inevitavelmente conduzem ao co ou ao inferno4 ,a ,egreja sabe que a ,virgem foi concebida sem peccado2 conhece a gerarchia dos anjos2 dogmatisa onde a incerteza seria talvez prudente1 e a ignorancia saudavel2 porm1 se procuramos regras de proceder1 esteio e guia nos tempos difficeis em que parece que a infallibilidade vai resplandecer1 activar-se e resolver a questo1 a ,egreja perturba-se1 balbucia1 contradiz-se e desampara-nos discrio4 ,como ento que ella prova a sua infallibilidade8 ,prohibe-nos de esquadrinhar na ,biblia as regras da nossa f1 allegando que a ,biblia livro inintelligivel para ns4 ,e1 se lhe pedimos a razo d'isto1 abre o livro que incessantemente lemos1 esse mesmo livro cuja authenticidade e sentido s ella garante e explica4 ahi que ella pretende mostrar-nos a prova que lhe pedimos2 mas ns sustentamos que ahi no ha tal prova4 ,alm d'isso1 se mister crr primeiro na ,egreja quem houver de crr nas ,escripturas e entendel-as1 que argumento esse8 ,pde qualquer1 em um processo1 invocar contra o seu adversario um documento de que elle s se constitue interprete e juiz8 ,contente-se pois a ,egreja em affirmar que infallivel1 mas abstenha-se de o provar4 ,eu por mim no creio4 ,a infallibilidade um attributo incommunicavel de ,deus como a eternidade e a omnipotencia4 ,se o ,papa e os bispos fossem infalliveis1 no bastaria respeital-os1 seria mister adoral-os4 ,disso nos defenda ,deus6 ,so homens como ns4 ,e1 quando o ,espirito ,santo nos illustra1 somos como similhantes aos candelabros do templo1 e1 sem o querer1 confundimos a nossa sombra com a luz que dardejamos em redor4 ,assim fallam os protestantes4 ,no digo que taes discursos sejam concludentes3 no me compete a mim julgal-os2 mas d'este capitulo e do anterior inferimos uma concluso cuja justia creio que ninguem contesta4 ,,iii ,concluso do que fica dito ,a concluso que eu desejaria tirar do que fica dito que a ,biblia e a ,egreja1 estas duas auctoridades que se invocam em favor das penas eternas1 no tem o mesmo valor no conceito de toda a gente4 ,um protestante renegaria o inferno1 apezar dos anathemas dos ,concilios1 se a ,escriptura lh'o no annunciasse2 mas um catholico renegaria o inferno1 apezar da lucidez dos textos biblicos1 se aprouvesse ,egreja attribuir quelles textos1 segundo o parecer de ,origenes1 um sentido visivelmente conforme justia e bondade de ,deus4 ,tanto em ,genebra como em ,roma cr-se no inferno2 mas por diversas razes2 e o que parece argumento decisivo para metade dos christos1 no tm a mesma efficacia para a outra metade4 ,conformam-se sobre a verdade d'um prodigio1 recusando de ambas as partes uma das duas testemunhas que o affirmam2 os de ,genebra considerando a ,egreja um professorado do erro2 os de ,roma sustentando que a ,biblia desencaminha aquelles que exclusivamente se fiam n'ella4 ,,capitulo ,,segundo ,resposta a uma objeco ,fallei da multido dos condemnados1 e tirei d'esse facto1 contra a eternidade das penas1 inferencia que me parece valiosa4 certo que a maioria dos homens seja condemnada8 ,os fieis1 que estudaram este assumpto em livros modernamente escriptos1 crem que no1 e vos dizem que os philosophos maliciosamente assacaram aquella opinio aos seus adversarios para os tornar odiosos4 ,no duvidam que ha inferno2 no os inquieta a natureza do supplicio1 mas sim a quantidade dos suppliciados4 ,mil1 cem mil1 um milho d'almas a padecerem eternamente parece-lhes coisa muito de crr-se1 moralissima1 certissima4 ,no pde suppr-se que o inferno esteja vasio2 alis melhor seria supprimil-o4 ,um milho ou alguns milhes d'almas1 se ,deus as abandona1 tambem ellas abandonam a ,deus2 bastante para exemplo1 bastante para justia2 porm metade do genero humano e mais de metade1 excesso1 monstruoso3 no se cr4 ,no isso1 quer-nos parecer1 a boa nova que celebraram ha mil e oito centos annos os magos e os pastores nos caminhos de ,bethelem4 ,mas os velhos dogmas de ,israel por tal arte andam baralhados com as verdades christs1 e tanto a primitiva ,egreja com elles se identificou formando um corpo doutrinal1 que um homem instruido no pde hoje1 sem risco de heresia1 tentar separal-as4 ,sem embargo1 opera-se no seio do christianismo um singular trabalho1 de que o clero no d tento1 bem que a iniciativa de ha muito proceda d'elle mesmo4 ,este trabalho de que as obras de ,sanchez1 de ,escobar1 do padre ,annat1 do padre ,lmoine1 e d'outros casuistas1 to agramente invectivados por ,pascal1 eram apenas indicios1 tende a neutralisar cada vez mais a aco n'outro tempo to vigorosa dos elementos hebraicos do christianimo4 ,sentimentos1 que debalde quereriamos suffocar1 rompem luz2 o corao reclama1 bem que timidamente1 seus direitos2 a consciencia1 constrangida debaixo do pezo de abafadoras tradies1 no repulsa1 mas a tremer levanta do peito o fardo1 como para respirar4 ,verdade que ainda nos pregam os velhos mysterios da synagoga2 mas1 ao mesmo tempo1 cuidam em dissimular-lhes as consesequencias logicas relativas vida futura1 e--notabilissimo caso6--no insistem nas consequencias praticas1 no tocante vida presente4 ,este ultimo facto1 muito significativo1 provm dos casuistas4 ,foram elles quem primeiro quiz achanar aos homens a estrada do co4 ,como no soubessem conciliar as necessidades da vida terrestre com as da f1 e no ousassem embarrar pelo inferno1 com medo de torriscar os dedos1 derruiram audazmente a moral4 ,graas lhes sejam dadas1 que isto de peccados mortaes est por um fio6 ,o assassino1 mal lavou as mos1 e o perjuro mal lavou a lingua1 so admittidos ao sagrado banquete1 ,o pulpito continua a fuzilar trovoadas minacissimas2 ainda ,isaias e ,s4 ,paulo a bradarem2 mas1 no tribunal da penitencia1 os coriscos apagam-se2 quem confessa o tolerante padre ,lmoine1 que perfeitamente percebe que uma duqueza1 uma capitalista1 uma burgueza opulenta no podem viver de favas1 nem trajar de serguilha1 nem dormir no taboado1 nem imitar sequer de longe a perfeio negativa das santas reclusas1 cujas virtudes andam celebradas nos pulpitos4 ,descobrir1 porm1 no complexo dos actos dos homens1 o limite exacto do dever1 isso desvario3 ou prohibir1 ou permittir tudo quando se renuncia e dirigir verdadeiramente as peccadoras mundanas para o antigo ideal da abstinencia ascetica4 ,o theatro1 o baile1 os hombros ns1 a maledicencia1 as prodigalidades do luxo1 a parcimonia das esmolas1 a lisonja1 a ambio1 a cupidez1 a ingratido1 as desavenas1 tudo passa1 tudo venial1 nada impede da desobriga4 ,nem o juiz nem o penitente conhecem regra4 ,o mais virtuoso e austero padre pde ser integerrimo no pulpito2 mas1 no confessionario1 treme1 receia afugentar a alma que o procura2 lembra-lhe o ,bom ,pastor1 o co promettido ao ladro que se accusa1 o perdo da adultera1 e involuntariamente contribue a facilitar as quedas1 e as reincidencias1 facilitando a expiao4 ,pois os primitivos christos no tinham ouvido fallar do bom ladro1 e da mulher adultera1 e da parabola do ,bom ,pastor8 ,comparem com a disciplina de hoje a de ento que eu j referi4 ,se o padre ,lmoine lesse nas catacumbas um capitulo da ,devoo commoda1 o congresso de fieis e martyres surgiria em pezo contra tal innovador1 e o bispo excommungal-o-hia4 ,tenho minhas duvidas que o proprio ,s4 ,francisco de ,salles o tractasse bem4 que os primitivos christos nunca perdiam d'olho ,satanaz1 peccado original1 inferno1 e conformavam o seu procedimento1 no a tal artigo de f ageitada a dar alentos esperana1 mas ao complexo tremendo da doutrina que aprendiam4 ,a harmonia que primordialmente se deu entre a disciplina da ,egreja e as crenas da ,egreja1 est por tanto desde muito desacorde4 ,port-,royal tentou afinal-a4 ,foi esse o segredo da sua lucta com os casuistas mas os casuistas venceram4 ,a contenda acabou4 ,meditemos agora nas consequencias logicas dos nossos dogmas1 relativos outra vida1 dos esforos que debalde se envidam para lhes amaciar as asperezas e edulcorar-lhes o travor1 com medo de que lhes no atirem fra copo e remedio4 ,em louvor dos theologos modernos1 declaro que poucos ha que possam encarar impassiveis a multido de pagos e hereges que regorgita do inferno--multido que sem intercadencia augmenta com muitos milhares d'almas cada dia1 muitos milhares cada anno4 ,elles1 pois1 escondem as vinganas divinas1 em vez de nol-as mostrarem1 no seu trilho aterrador maneira dos antigos4 ,quando cuidam em nos animar1 tambem elles se animam em seus proprios quebrantamentos1 sentindo que a piedade desborda e arrasta a f2 e no s a piedade1 mas tambem a justia4 ,s4 ,thomaz de ,aquino1 incapaz de ceder unicamente piedade1 estacou diante d'esse problema de justia1 e diligenciou1 a seu modo1 resolvl-o1 por feio que podesse1 sem offensa da f1 contemporisar com a sua razo4 ,imaginou um justo fra da ,egreja1 ignorando as verdades salvadoras1 e predestinado ao inferno por culpa de sua ignorancia4 ,ora um anjo celestial1 quando este justo agonisava1 desceu a revelar-lhe a verdade1 dando-lhe assim entrada na ,egreja por uma porta falsa1 e mantendo por este theor milagrosamente a inteireza dos dogmas4 ,pouco importava a ,s4 ,thomaz1 to grande e inflexivel logico1 salvar as regras explicitamente formuladas pelos concilios2 e1 se taes regras podiam ferir a justia1 l estavam os anjos para concilial-as4 ,o que elle queria era salvar os gentios4 ,mas1 hoje em dia1 os theologos avantajam-se a ,s4 ,thomaz4 ,j no ha recorrer a milagre4 ,dizem que1 se entre infieis1 e at entre os hereticos1 ha pessoas honestas1 ,deus bem as v3 essas pertencem ,egreja1 no corporal1 mas espiritualmente2 creem implicitamente as verdades que ignoram1 e basta isso3 so catholicos l do seu feitio4 pois prohibido condemnar a esmo gentios e hereges1 cegos innocentes1 virtuosos transviados1 erros invenciveis#g4 ,j se diz que ninguem condemnado1 tirante os mos1 qualquer que seja a religio que professem4 ,bella a linguagem1 mas tambem evidentemente illusoria2 por onde vamos vr que tal piedade1 bem que sincera1 no pde aproveitar a alguem4 ,vs no condemnais todos os gentios nem todos os hereges2 verdade4 ,os dogmas que nos ensinais que os condemnam4 ,ora1 se1 acaso1 os cinco dogmas tirados do judaismo fossem falsos1 bem sabemos que no estava em vossa alada condemnar1 ainda que o quizesseis1 um s idolatra1 por peor que houvesse sido2 mas1 ao invez1 se taes dogmas so verdadeiros1 tambem sabemos que no cabe em vossa alada salvar um s gentio nem um s herege1 ainda que o quizesseis4 ,mais3 em virtude de taes dogmas1 de f que o homem nasce mo1 e que o crime que lhe mancha o bero1 explica1 mas no lhe justifica os erros da vida4 ,irroga-se culpa a quem se liga religio de sua familia e patria1 quando tal religio no a genuina4 ,se assim no fosse1 vde bem que melhor seria ter nascido sarraceno que catholico2 que um turco salvar-se-hia procurando de boa f1 como os patriarchas1 prazeres que a ns nos perdem para sempre2 e o maximo das benos seria nascer e morrer selvagem1 n'alguma ilha incognita1 longe dos formidaveis clares que nos privam de desculpar com a ignorancia os nossos peccados4 ,fossem embora salvas alguns milhares de creaturas apenas entre os billies d'ellas que morrem em peccado original1 uma duzia s que fosse1 seria que farte para argumentar que ha salvao fra da ,egreja1 e sem algum dos soccorros extraordinarios de que ella dispe4 ,estes theologos tolerantes no reparam que inutilisam a revelao1 que despojam a ,egreja das chaves do co1 ou1 pelo menos1 indiciam que ha chaves em duplicado para l entrar1 e que judeu1 musulmano1 lutherano1 philosopho1 todo homem honrado tem uma chave4 ,a opinio assim pelo claro no ousariam elles exhibil-a1 e1 a bem dizer1 tudo aquillo no opinio sua2 1 melhor ainda1 expanso de alma que aspira verdade e justia2 protesto da humanidade christ contra o judaismo1 protesto mais revelante por no ser voluntario1 nem saber-se a si mesmo comprehender4 ,o raciocinio no o essencial do protesto1 como em ,s4 ,thomaz d',aquino2 quasi que no parte em taes discursos1 pois que os discursadores no concluem como deviam1 se raciocinam2 e no podem fundamentar a sua argumentao sobre ensino authentico da egreja#h4 mister1 por desgraa1 renunciar orthodoxia ou condemnar despiedosamente mais de tres quartos do genero humano4 ,o justo1 estranho ,egreja1 a quem nos prohibem de offerecer a mo1 no existe aos olhos da f3 um phantasma que avulta vossa piedade4 ,se ha ignorancia involuntaria e invencivel1 no a do idiota8 ,ora ahi est6 o idiota1 o cretino1 o aborto sem olhos nem ouvidos peccaram no ventre materno1 peccaram mortalmente1 e s pelo baptismo conseguiro justificar-se4 ,como ento que ha de subtrahir-se s tentaes e s sincadilhas de que tanto a custo se escapam os filhos da ,egreja1 um ente egualmente viciado em sua natureza1 mas mais livre1 se envelheceu sem revelao e sacramentos8 ,onde ganhar elle amor ao bem e vigor para pratical-o8 ,tal hypothese heresia por atacado2 s poderemos aceital-a como excepo milagrosa2 e1 n'essa qualidade1 no vingaria dulcificar o sentir que esperta em nossa alma o perpetuo inferno1 onde1 ha seis mil annos1 se vo acamando as geraes humanas4 #g ,veja entre outras obras os ,estudos a respeito do ,christianismo por ,nicolas1 tom4 ,,iii1 c4 #ad4 ,este livro foi approvado1 louvado e recommendado pela auctoridade ecclesiastica1 e nomeadamente por ,mons4 ,cardeal ,donnet1 ,arceb4 de ,bordeaux4 ,o padre ,lacordaire protegeu-o assignaladamente1 considerando-o a mais completa e melhor apologia da f catholica4 #h ,este ensino multiplicou-se com diversos aspectos3 peccado original2 necessidade do baptismo2 ha uma s f e um s baptismo2 fra da egreja no ha salvao2 necessidade dos sacramentos da penitencia1 de confirmao1 etc41 como auxiliares de nossas enfermidades1 depois do baptismo1 necessidade e conjunctamente insufficiencia da prgao e da leitura2 inefficacia das boas obras sem os sacramentos2 manhas e poderio de ,satan2 impossibilidade de viver e morrer em estado de graa fra da ,egreja que a dispenseira das graas1 etc41 etc4 ,encheriam um volume os decretos1 promulgados quelle intento1 e os anathemas fulminados contra quem houvesse dito ou viesse a dizer o contrario d'esses decretos4 ,,capitulo ,,terceiro ,,da ,,descida ,,de ,,christo ,,aos ,,infernos ,descendit ad ,inferos2 terti die resurrexit mortuis2 ascendit ad coelos1 sedet ad dexteram ,patris1 ind venturus est judicare vivos et mortuos4 ,credo in ,spiritum sanctum1 in sanctam ,ecclesiam catholicam et apostolicam1 in communionem sanctorum1 in remissionem peccatorum1 carnis ressurrectionem et vitam ternam4 ,amen4 7,symb4 apostolorum74 ,i ,o ,filho do homem1 expedindo sobre a cruz sua vida mortal1 desceu aos infernos4 ,no o ,evangelho que o refere2 um documento no menos venerado1 o qual1 com o ,pater e ,ave1 parte das oraes que a ,egreja ensina aos seus filhos3 documento1 ao que parece1 anterior redaco dos ,evangelhos e resumo da f apostolica3 o ,credo4#i ,jesus morto vai annunciar aos mortos a boa nova3 ,satanaz vencido1 os peccadores resgatados1 o co aberto aos que oram1 aos que choram1 aos que soffrem4 ,para estes exclusivamente que seu sangue aspergiu o cho do calvario4 ,jesus no dispensa da penitencia os que morreram culpados2 mas d-lhes a esperana que as antigas crenas deixavam luzir na terra smente1 e apagavam no tumulo4 ,sei de sobra que os theologos querem que o inferno1 visitado por ,christo1 no seja o verdadeiro inferno2 mas sim o limbo1 o purgatorio1 os seis primeiros circulos da ,ghenna1 e no o ultimo4 ,esta distinco1 porm1 no est no ,credo4 ,o inferno ahi diz-se com todas as letras1 e1 mais pelo claro1 os infernos1 como quem indistinctamente diz todos os logares de soffrimento onde podem penar os mortos4 ,desceu aos infernos1 diz o ,credo1 e ao terceiro dia resurgiu dos mortos4 ,quem eram esses mortos com quem ,jesus passou trez dias8 ,a interpretao natural --todos os homens que1 desde o principio do mundo1 haviam desparecido de sobre a terra2 no s patriarchas e prophetas1 seno todos os judeus2 no s todos os judeus1 mas todos os gentios4 ,eis aqui1 entendidas ao natural1 o que dizem as palavras3 ,desceu aos infernos1 e habitou trez dias com os mortos4 ,quereis dar quellas palavras uma accepo espiritual8 ,temos ainda mais4 luz na questo4 ,os mortos espirituaes so os condemnados1 os que eram considerados em perpetua privao dos resplendores eternos4 ,no so os prophetas1 os patriarchas1 os eleitos1 os santos1 nem ainda alguns d'esses que por peccados haviam merecido as penas temporarias1 por que no estavam espiritualmente mas s carnalmente mortos1 crendo1 esperando1 amando1 vivendo4 ,seja qual for a interpretao adoptada1 leva-nos a concluir o inverso do que os theologos affirmam4 ,do citado trecho do ,credo colhe-se que ,jesus desceu1 no s ao limbo1 mas tambem ao inferno1 no s aos patriarchas que esperavam sua vinda1--explicao acanhada e violenta dos hebreus conversos e dos christos judaisantes--mas aos mortos de todos os tempos e paizes1 aos peccadores que a lei antiga e antigas crenas haviam ferido de morte espiritual1 eterna1 incuravel1 da verdadeira morte4 ,o ,redemptor1 o ,crucificado1 o ,messias visitou-os1 mostrou-se-lhes1 e elles rejubilaram ao verem-no e choraram lagrimas d'amor d'aquelles olhos aridos4 ,jesus no destruiu o inferno2 converteu-o em purgatorio4 ,do inferno judaico e gentilico fez o inferno christo1 inferno que corrige1 inferno onde ha o chorar sem blasphemar1 onde ha o soffrer sem desesperana nem rancores4 ,outras luzes pde dar o symbolo dos apostolos s almas piedosas4 ,mais abaixo1 diz3 ,creio na vida eterna mas no diz3 ,creio na morte eterna4 ,este horrivel dogma no se l no credo apostolico4 ,se ahi se falla em infernos para nos ensinar que ,jesus ,christo l foi1 e de l sahiu1 mas como devia sahir1 vivo1 glorioso1 triumphante e bemdito4 ,diz finalmente o ,credo que ,christo subiu ao co1 onde est sentado dextra do ,padre1 d'onde vir a julgar vivos e mortos4 ,quaes vivos8 os justos8 ,quaes mortos8 os peccadores1 os ultimos povoadores da terra e os antigos habitantes d'aquellas tenebrosas manses onde a esperana radiou com o ,christo quando tudo foi consummado na ,cruz8 ,no possivel que uma s palavra tenha dois sentidos com to breve intervallo4 ,quereis que os mortos d'entre os quaes resurgiu ao fim do terceiro dia sejam os antigos reprobos8 ,tambem eu quero4 ,quereis antes inferir de taes palavras que os nossos avs judeus e os pagos1 quantos ento eram mortos1 viveriam1 n'outra parte1 jubilosos ou suppliciados8 ,tambem eu quero4 ,adoptai um sentido1 ou outro1 ou ambos juntamente1 que a mim no se me d d'isso4 ,o que ha de sempre forosamente reconhecer-se que a phrase representa a mesma ida significada uma ou duas linhas abaixo4 ,ser1 conseguintemente1 preciso confessar que os mortos visitados por ,christo so os mesmos que elle vir julgar quando julgar os vivos4 ,direi pois logo que na descida aos infernos1 ,jesus morou trez dias no entre os justos esperanados1 mas entre os condemnados desesperao para os ungir de seu sangue1 consolal-os e salval-os4 ,e1 seno1 para que os visitou8 ,faz-se mister prescindir de entender qualquer palavra divina ou humana1 se do ,credo se colhe o dogma das penas eternas4 ,no est l3 o contrario que est4 ,o veneravel texto mil vezes mais luminoso que todas as glosas dos doutores4 #i ,conta-se que os apostolos1 antes de se apartarem para levar aos gentios a boa nova1 trez annos pouco mais ou menos depois da morte do divino ,mestre1 se reuniram e compozeram o ,credo1 elenco das verdades cujo ensino lhes fra confiado4 ,o ,evangelho ainda no corria escripto4 ,s depois da separao1 que foi composto o de ,s4 ,matheus1 que antecede a todos4 ,o symbolo da f apostolica tambem no andava escripto2 mas ensinava-se de cr aos fieis1 e por isso longo tempo se conservou na ,egreja1 bem como a tradio egualmente oral da sua origem4 ,,ii ,viveu ,origenes quasi coevo dos tempos apostolicos4 ,toda a gente ouviu fallar da santidade de seu viver1 pureza de costumes1 alento nas perseguies1 vasta sabedoria e raro engenho4 ,pois ainda assim1 aquelle insigne doutor1 e illustre confessor de ,christo1 negava as penas eternas4 ,acaso receberia elle a verdadeira tradio dos apostolos1 ou1 fora de reflectir1 atinra com a genuina accepo do ,evangelho8 ,no sei4 ,todavia confesso envergonhadamente que ainda no li as poucas obras restantes que to assignalado sujeito escreveu sobre tal materia4 ,o que mais sei que foi condemnado1 muito tempo depois que morreu1 por um edito do imperador ,justiniano1 e anathematisado1 com a poro da obra relativa s penas eternas1 por o concilio ecumenico de ,constantinopla1 anno #eec4aj ,no se deram os bispos canceira de provar que elle era ruim logico2 declararam-o herege1 que era mais summario1 e por contagem de votos4 muito para notar que o primeiro concilio ecumenico de ,nicea1 anno #cbe1 e o segundo de ,constantinopla1 anno #cha1 se abstivessem de decidir sobre a doutrina de ,origenes1 ainda nova e florecentissima1 e conta d'isso mais funesta1 se por ventura escondesse perigo4 ,divergiam sobre o assumpto as opinies dos padres d'aquelle tempo8 ,recusariam no se conciliarem8 ,a questo confundil-os-hia8 ,inclino-me a crer que sim4 ,o mais notavel documento que os dois concilios nos deixaram1 denota indeciso de natureza a um tempo estranha e evidentissima3 uma profisso de f muito particularisada1 a mesma que hoje se enta aos domingos na missa cantada nas egrejas do oriente e occidente4 ,o concilio de ,nicea1 ao redigir o symbolo da sua f1 desenvolveu em certos pontos o symbolo dos apostolos2 mas1 quanto ao mais1 abreviou aquelle antigo symbolo1 e o que mais espanta a suppresso completa do descendimento aos infernos4 ,o concilio de ,constantinopla1 adoptando o symbolo de ,nicea1 aperfeioou-o1 e additou-lhe alguns artigos1 mas no lhe repoz a descida aos infernos4 ,que quer dizer esta eliminao8 ,desceu ou no desceu ,christo aos infernos8 ,se desceu1 por que o no dizem8 ,acham que insignificante o caso8 ,no merecer a pena relembral-o8 ,felizmente o symbolo dos apostolos subsiste1 e os de ,nicea e ,constantinopla no vingaro desluzil-o4 #aj ,no anno #cba1 ,origenes foi denunciado ao ,concilio de ,alexandria1 e interdicto do sacerdocio4 ,s4 ,jeronymo attribue esta condemnao a ciumes e invejas que inspirava a eloquencia de ,origenes aos ,padres reunidos n'aquelle ,concilio4 ,,capitulo ,,quarto ,,advertencia ,,final ,i ,as idas que empreguei no discurso d'esta obra andam por tantos livros disseminadas1 e prgadas de tantos pulpitos1 e to notorias e populares1 que me no temo de que m'as neguem4 ,diligenciei exprimir claramente os dogmas1 preceitos1 maximas1 opinies sempre admittidas nas faculdades de theologia1 nos seminarios e conventos3 era acto de boa f e tambem de prudencia2 que toda minha argumentao claudicaria1 se eu attribuisse aos propugnadores do inferno linguagem que no fosse a d'elles4 ,fui eu quem inventou a queda de ,satan1 o poder e maleficios da corte infernal1 o peccado do ,eden1 e a maldio dos homens8 ,fui eu quem encerrou no claustro o ideal da perfeio christ8 ,fui o auctor das sentenas desesperadoras fulminadas contra o mundo e contra os affectos e luzes naturaes1 contra o bom siso e contra a vida8 ,inventei eu as devotas reflexes1 azadas para mirrar os coraes das mes e dos filhos1 e uns pensamentos afogueados que calcinam o cerebro como o alcool1 embrutecendo uns1 e desvairando outros em devaneios melancolicos8 culpa minha se o inferno parece coisa atroz8 ,no suavisei eu em vez de encarecer as pinturas conhecidas8 ,se immoral1 estava a meu cargo mudar-lhe a condio8 ,attribui eu ao padre ,bohours palavras alheias1 ou a ,s4 ,bernardo coisa que elle no dissesse8 verdade que eu muitas vezes poderia auctorisar-me com textos1 e dizer em grego ou latim1 ou italiano ou allemo1 em nome d'outrem1 o que expuz a meu modo4 ,mas que tinha eu a ganhar com esse systema8 ,nenhuma das idas que discuti pertence nominalmente a este ou quelle theologo2 junta ou separadamente todas lhes pertencem3 dominio commum4 ,seria apoucar e abater a questo conferir a uma crena tradicional visos de opinio particular4 ,acato a virtude1 admiro o engenho1 onde quer que os encontro1 at nos mesmos que me ameaam com as penas eternas2 no mal-quero por tanto a ,s4 ,gregorio1 nem a ,s4 ,jeronymo1 nem ao padre ,nicole1 nem a algum theologo morto ou vivo4 ,no me estive a quebrar lanas com personagens mais ou menos eminentes3 que so apenas eccos de doutrinas que vogaram muito antes d'elles4 ,se eu tivesse em cada pagina citado um doutor1 julgar-se-hia que os outros doutores1 no mencionados1 depunham contra mim4 ,no aconteceu isso a ,pascal8 ,nomeia elle as suas testemunhas1 transcreve-lhes litteralmente as proposies1 e vos remette ao volume e pagina d'onde as trasladou2 pois responderam-lhe que se as proposies que elle combate esto nos livros d'onde as copiou1 a culpa dos auctores1 e no da companhia que os instruiu4 ,claro est que eu tenho por mim auctoridades muito mais embaraosas que os padres ,petau1 ,penterau1 ,hurtado1 ,bille1 ,sanchez1 ,suarez1 ,escobard1 ,bauny1 ,molina1 ,reginaldo1 ,tannero1 ,filicitius e ,azor4 ,tenho-as numerosissimas1 a ponto de a mim mesmo me embaraarem4 ,qual hei de escolher entre tantas8 ,que mais vale uma do que outra8 ,um capuchinho canonizado vale ou no vale um papa no canonizado1 mas fallando ex-cathedr8 ,e de mais um s auctor1 por extremo que fosse o gro de sua respeitabilidade1 bastaria a tapar a bcca aos altercadores8 ,quantos textos seria preciso adduzir para authenticar certas phrases alcunhadas de perigosas1 levianas1 absurdas e escandalosas8 ,quantos padres1 papas1 bispos e doutores teria eu de dispr em batalha a meu favor8 ,confesso que no sei4 ,fui1 pois1 sobrio em citaes1 no por mingua do assumpto1 mas antes por excesso4 ,convenam-se de que no ha linha n'este livro qual eu no podesse cerzir1 se me aprouvesse1 paginas inteiras1 seno volumes de annotaes justificativas1 hauridas nas fontes mais puras1 mais frequentadas e veneradas4 ,similhante lavor1 porm1 ainda que eu o compendiasse essencia do debate1 cansaria a paciencia dos leitores1 que se dispensam de to barbaro apparato para saberem ao que devem atter-se do que lhe ensinaram desde o bero4 ,mas as provas de memoria as sabem2 sobejam-lhes nas suas livrarias2 no carecem de folhear concilios1 obras de santos padres1 bullarios1 constituies de bispados1 revelaes de ,santa ,catharina1 ,santa ,thereza1 e outras bem-aventuradas2 no se lhes faz preciso consultar ,bossuet1 ,bourdaloue1 ,massillon1 nem outros illustrissimos oraculos que nem sempre nos esto mo4 ,mais boas de encontrar so as minhas provas3 acham-se nos labios e nos ouvidos das creanas que estudam o cathecismo2 acham-se em mos de nossas irms1 esposas1 e mes1 na sua ,imitao1 no ,quotidiano christo1 no ,combate espiritual1 na ,vida dos ,santos1 no ,livro d'ouro1 no ,pensai-o-bem1 e em milhares de livrinhos d'este jaez1 approvados pelos bispos e universalmente manuseados4 ,os paladinos do inferno1 se os houvesse1 no ousariam1 talvez1 atacar as passagens d'este livro1 de antemo atalaiadas d'uma guarnio formidavel de batinas1 de chapeos vermelhos e de barretes2 mas quem sabe se atacariam como abastardados1 alterados1 e erroneos os trechos que eu desprecavidamente no defendesse8 ,em tal caso1 nada me valeria amontoar notas4 ,se m'as pedirem1 eu lh'as darei em quantidade que lhes parea de mais4 ,convenho1 se quizerem1 em incommodar com ellas os adversarios2 mas to smente os adversarios2 quanto ao publico1 a minha inteno no adormecl-o2 antes eu quizera acordal-o1 esclarecl-o e agradar-lhe4 ,mal andaria eu se1 a proposito de taes polemicas1 sacudia aos olhos dos leitores a poeira dos meus livros traados6 ,,ii ,se no podem accusar-me de m f na exposio dos principios que tentei impugnar1 no faltar quem me accuse de mo juiz em tudo o mais4 ,estejam certos que no ficar aqui4 ,o inferno tem seus devotos que no sacrificam s ,graas1 mas s ,eumenides4 ,bem os ouo gritar3 impio6 incredulo6 ignorante6 detestavel pensador6 monstro6 scelerado6 por que o no prendem1 e mandam s gals6 ,ousar descrer das penas eternas6 ,que faz o ministerio publico8 ,onde est o carrasco8 ,em ,frana j no h lenha para uma fogueira8 ,votamos pelo inferno1 queremos que os nossos paes e os nossos filhos sejam condemnados4 ,ao fogo com os selvagens1 idolatras musulmanos1 judeus1 indianos1 herejes6 ,ao fogo com os peccadores recalcitrantes6 fogo eterno com os philosophos impenitentes6 ,no nos esbulhem d'esta amavel crena4 ,que havia de ser da moral8 ,queremos inferno e diabo1 a maldio e o mal4 ,se muita gente se condemna1 peior isso1 mas a culpa d'ella4 ,que ardam para sempre6 vontade de ,deus4 ,o teu debil sopro1 ruim pensador1 no apagar as chammas salutares que no corrigem os mortos1 que pouco emendam os vivos1 mas fazem tremer as freiras nas suas cellas e alegrar os santos no paraiso4 ,viva o inferno6 ,se se elle apagasse1 haviamos de accendl-o com os teus livros4 ,queremos o inferno e seus supplicios1 embora l vamos cahir com as nossas mes e com as creancinhas que riem no collo d'ellas4 ,sem inferno no ha f1 nem ,egreja1 nem religio1 nem lei1 nem familia1 nem moralidade1 no ha nada4 ,conservemos o inferno6 absurdo8 mais um motivo4 ,crdo quia absurdum4 ,parece-te isto injusto1 incredulo1 impio1 perverso que no queres acreditar que ,deus creasse tantos entes fracos para perdel-os sem misso6 ,imprudente6 que ousas escutar a tua consciencia1 quando a tradio falla6 ,malvado6 corao de pedra que no ds dinheiro ao ,papa para lhe redourar a thiara e vais dal-o a pobres e proscriptos1 e ests ahi a lastimar os billies de creaturas que povoam o abysmo4 sandeu6 miseravel6 ,algum proveito colhes atacando verdades to uteis4 s como os malfeitores que quebram os lampees4 ,se assim vais1 arrasars os carceres4 bem de vr1 l tens as tuas razes para querer destruir o inferno2 se fosses de melhor casta havias de crr n'elle4 ,,iii ,advogados do inferno1 que sabeis a tal respeito8 ,sereis acaso mais innocentes do que eu8 verdade que sou peccador4 ,se todavia as minhas aces e as vossas fossem pezadas1 talvez eu podesse estar a respeito do futuro to tranquillo como vs4 ,mas ,deus no me ha de comparar comvosco para absolver-me ou condemnar-me3 ser com o modlo de perfeio que eu tenho no espirito1 e que eu devra ter copiado no decurso de minha vida4 ,no pratiquei--de mais o sei--todo o bem que podia2 condescendi com fraquezas que vs1 por ventura1 no conhecestes2 mas talvez que eu1 sem que o soubesseis1 me esforasse e vencesse nos conflictos em que succumbistes4 ,eu no vos julgo1 crentes no inferno1 que encaraes sem impallidecer2 eu1 porm1 que no creio no vosso inferno1 no posso sem pavor meditar no julgamento divino4 ,no desespero na bondade de ,deus1 mas creio em sua justia1 e nutro viventissimo sentimento da perfeio evangelica1 e por isso mesmo sinto grandissimo pezar de minhas culpas1 e no me considero isento de expiao4 ,oxal que eu podesse dar de mim melhor testemunho6 ,podesse eu chegar mais confiadamente ao tribunal do soberano juiz6 ,tivesse eu to socegado o espirito como inculcais o vosso1 ou to puro como vs imaginais que o tendes6 ,quem me dera ser santo1 no aos meus proprios olhos1 como dir-se-ha que sois aos vossos1 mas aos olhos das pessoas de bem e das multides4 ,ento impugnaria eu a eternidade das penas1 no j com melhores razes1 nem com argumentos de mais justia1 mas com a auctoridade que uma vida santa e reconhecida como tal imprime na palavra humana4 ,ha ahi quem se no renda ao vigor de um discurso1 e se docilise virtude ou ao renome de quem discorre4 ,no discutamos1 pois1 a minha vida1 que eu no tenho que entender com a vossa4 ,em meu soccorro valho-me unicamente do raciocinio2 desadoro outro prestigio1 e no me dobro a outro poder4 ,refutai-me1 se podeis1 com razes to claras como as minhas2 mas deixemo-nos de insinuaes calumniosas2 nada de injurias4 ,isso que prova8 ,quando fosse verdade que todos sois pessoas virtuosas que vo direitas ao paraizo1 e que eu sou mo1 e o peor dos homens1 sde francos1 seria isso prova de que eu argumento mal1 e vs argumentais bem8 ,inferirieis d'ahi o que quer que seja contra a infinita misericordia de ,deus8 ,a isto que preciso responder1 senhores4 ,eu por mim digo que a dr1 n'este e no outro mundo1 meio de expiao2 digo que a dr1 n'este e no outro mundo1 acara a piedade2 digo que o castigo mais justo deve ter fim1 e que o perdo o fim1 a cora1 a perfeio e explendor das obras da justia2 que um castigo infindo seria um castigo desarrasoado1 sem escopo1 sem moralidade1 inutil ao culpado1 s testemunhas e ao juiz2--um acto de colera1 de odio e furor--um feito sombrio e sinistro como transportes de demencia incuravel4 ,digo que tal crena mal cimentada1 e assim funesta em este mundo1 como odiosa no outro2 que nem o mal nem o castigo so eternos2 que eterno s o bem1 a omnipotencia1 a bondade1 a justia e misericordia de ,deus1 e que estas coisas1 que separais1 so inseparaveis em ,deus4 ,digo1 conforme a ,s4 ,paulo1 que ceo e terra ho de passar2 que a f ha de passar tambem1 e tambem ha de passar a ,esperana1 e que tudo ha de acabar1 salvante a ,caridade4 ,que vos parece isto8 que redargus8 ,ser-vos-ha mister mudar a propriedade das palavras1 crear linguagem nova1 dirimir as leis da razo1 e cuidar em extinguir tanto em vs como nos outros as vivas luzes da consciencia1 se quereis impugnar estas proposies4 ,,iv ,mas ninguem pde desluzir de seu espirito o reflexo que ahi lampeja a verdadeira luz1 se uma vez a entre-viu4 ,quando houverdes lido este livro1 ser-vos-ha aprasivel fechar os olhos1 e injuriar-me2 no obstante1 sentir-vos-heis alumiados1 crentes na verdade a vosso pezar2 e1 embora o negueis1 a vs mesmos que mentis4 ,negal-o-heis com a bcca2 mas no com a consciencia4 ,v ,espero resignadamente as insolencias4 ,se m'as no disserem alto1 dil-as-ho baixinho4 ,este livro ir ao ,index1 e tal1 que o no tiver lido1 se julgar abundantemente auctorisado a prohibil-o aos outros1 como livro pernicioso4 ,vedar-se-ha ao peccador inveterado1 contentissimo de sua recente converso1 de buscar aqui motivos para ser mais humilde2 vedar-se-ha viuva lagrimosa de procurar consolar-se n'esta leitura4 ,divulgar-se-ha que este livro tio do inferno1 que queima os dedos que lhe tocam4 ,e ha de haver muito quem o diga na melhor boa f4 ,a ,egreja no alenta curiosidades de espirito4 ,porqu8 ,de que se teme8 ,profunde-se cada vez mais a moral de ,christo2 que ella nos irradiar cada vez mais formosa1 mais salutar e verdadeira4 ,por si mesma se justifica2 dispensa preges2 nos labios d'um menino inflora-se to bella como nos discursos d'um sabio4 ,as leis moraes no so arbitrarias2 no so caprichos divinos nem tenebrosos decretos cuja sabedoria se esconde nossa intelligencia4 ,so perfeitamente adequadas nossa natureza e necessidades4 ,no ha uma s1 cuja inobservancia no surta graves desordens2 uma s que no proteja a dignidade humana1 a liberdade1 o direito1 o debil contra o forte1 o innocente contra o cavilloso4 ,so freio de paixes1 luz e regras das aces publicas ou clandestinas1 particulares ou collectivas1 condio que influe no desenvolvimento de nossas faculdades1 cauo de nosso repouso1 e complexamente de todos os nossos actos4 ,a ,egreja1 n'este ponto1 desconhece a sua fora1 se a discusso a intimida2 mas1 por outro lado1 cumpre confessar que ella desconheceria sua fraqueza1 se tolerasse discusso de certos dogmas1 e em particular do dogma das penas eternas4 ,se quer que haja crena no inferno com f egual crena da redempo2 se quer a mesma f para a colera sem fim e para o amor illimitado1 imponha silencio a respeito de tudo1 que prudente4 ,mas d'essa imposio de silencio o resultado este3 ,,vi ,resulta que os fieis creiam cegamente coisas profundamente contradictorias--a verdade radiosa e o erro inintelligivel1 ,deus e inferno4 ,tambem resulta que as multides sempre a multiplicarem-se rejeitem cegamente o inferno1 e com o inferno os mais idoneos dictames da moral1 indiscretamente sumidos n'esse abysmo4 ,imaginam uns que a mesma voz que ensina uma injustia no pde ensinar uma verdade2 imaginam outros que a mesma voz que ensina consoladoras verdades1 no pde ensinar erros4 ,a m educao1 que1 no rodar de muitos seculos1 lhes deram1 torna-os a todos egualmente incapazes de discernir o que falso do que verdadeiro1 na mesma ida3 encaram-na a vulto1 qual lh'a offerecem1 e ou a guardam ou rejeitam ta1 verdade e mentira de mistura1 porque ambas as idas esto identificadas em uma no espirito d'elles4 ,todavia todos os partidos so mos1 e nenhum pde1 relativamente questo presente1 socegar a alma4 ,ainda no encontrei fiel que se me confessasse impassivel ao horror das penas eternas1 quando pensava n'isso4 ,e tambem no encontrareis incredulo que no haja confusamente sentido a preciso de sobreviver a si proprio1 e no haja suspirado pela justia do co1 vendo as iniquidades da terra4 ,a verdade falla assim ao corao de todo homem1 alvoroando-o at que elle a comprehenda4 ,o fiel diz de si para comsigo3 ,deus cruel2 mas1 reportando-se ,egreja1 cuida que as inspiraes de sua consciencia so suggestes diabolicas1 e vai aterrado rezar diante da cruz um acto de f em um ,deus sem misericordia4 ,pelo contrario1 o incredulo diz entre si3 ,deus existe2 os mos sero castigados2 e1 se em seguida se aturde e apaga no intimo aquelle presentimento lucido da justia divina1 porque lhe esto sempre figurando o brazido inextinguivel e as atrocidades sem fim que enterneceriam tigres e fariam chorar as pedras sobre o destino dos condemnados4 ,,vii ,tal hoje em dia o estado das almas relativamente a um dos mais importantes dogmas da religio4 ,f cega1 incredulidade cega1 f que acceita um ,deus vingativo e exclue do co a piedade1 incredulidade que busca um ,deus compadecido1 e1 por que no acha piedade no co1 exclue de l a justia4 ,e entre estes dois bandos de almas atormentadas1 est uma corporao docente1 que se inculca infallivel1 mas que1 no intento de proteger sua infalibilidade1 anathematisa a razo humana e excommunga a consciencia4 ,,viii ,eu tenho tido parte nas angustias da f que1 at de olhos fechados1 conhece que a transviam2 e1 se1 mais tarde1 abre os olhos afeitos escurido1 como os de ,saul deslumbrado1 nada v1 e caminha s apalpadellas4 ,so passados esses dias de turvao2 mas talvez n'este livro negrejem vestigios d'elles4 ,no achareis n'esta obra um tratado methodico cujas partes se encadeiam e deduzem logicamente1 desde a primeira at ultima pagina4 ,em questo1 a um tempo1 to complexa e excitante1 ser-me-hia custoso sujeitar-me aos vagares do methodo4 ,a tal qual ordem que trava as peas d'este escripto1 vem como compendiada no assentamento das reflexes e meditaes que a formam4 ,ninguem melhor do que eu sabe quanta deficiencia desvalia o escripto4 ,no importa4 ,eu1 por mim1 rodeei o alcaar de ,satan2 e1 se lhe no puz cerco segundo as regras da arte1 no lhe deixei parede nem pedra que no soffresse algum abalo4 ,no se faz mister tempestade para lh'o baquear3 um leve spro o far cahir4 ,,fim ,,indice ,pag4 ,advertencia do traductor ,v ,prefacio da segunda edio ,,xiii ,,introduc,o ,dogmas hebraicos #a ,i--,rebellio de ,satanaz #b ,,ii--,o inferno #c ,,iii--,paraizo terreal #e ,,iv--,a maldio #f ,v--,consequencias da maldio #g ,,vi--,comparao da nossa sorte com a de ,ado e de ,satanaz #aj ,,vii--,o povo de ,deus #aa ,,viii--,a egreja e o novo povo de ,deus #ae ,,ix--,como se prova a verdade dos dogmas hebraicos1 e com especialidade a eternidade das penas #ah ,,parte ,,primeira ,tradies ,capit4 ,i--,a tradio universal a prova do inferno8 #ba ,,ii--,explicao natural das tradies pags cerca do inferno #bd ,,iii--,como o sacerdocio perpetuou estas tradies #bf ,,iv--,exemplo de um povo que permaneceu fiel a todas as suas antigas tradies #bg ,v--,effeito d'estas tradies na edade media #bi ,,vi--,como a sociedade christ se desvia progressivamente d'aquellas antigas tradies #cj ,capit4 ,,ii--,a f nova #cc ,i--,pater noster #cc ,,ii--,o purgatorio #cf ,,iii--,necessidade do purgatorio #ch ,,iv--,mysterios #ci ,v--,o paraizo #da ,capit4 ,,iii--,os fructos do inferno #df ,i--,o bem #df ,,ii--,a carmelita ou o ideal da perfeio theologica #ec ,,iii--,discurso d'uma mulher de sociedade que havia tocado a perfectibilidade theologica #ff ,,iv--,discurso d'um mundano1 apoz bastos estudos cerca da perfeio theologica #fi ,v--,o rebanho #gc ,capit4 ,,iv--,outros fructos do inferno #gi ,i--,o mal #gi ,capit4 ,v--,os cinco grupos #hg ,i--,o grupo dos philosophos #hi ,,ii--,o grupo dos corruptos #hi ,,iii--,o grupo dos indifferentes #ia ,,iv--,o grupo dos devotos #ic ,v--,o grupo dos santos #ii ,,segunda ,,parte ,o inferno considerado alm-tumulo1 os condemnados na presena de ,deus1 na presena dos santos1 e na presena dos homens ,capit4 ,i--,o inferno de ,plato #ajc ,capit4 ,,ii--,opinio dos pagos sobre a situao e vista interior do inferno #ajh ,capit4 ,,iii--,opinio dos judeus cerca da vista interior do inferno #aab ,capit4 ,,iv--,o inferno dos theologos #aag ,i--,o inferno material #aag ,,ii--,reflexes sobre as penas materiaes dos condemnados #abe ,,iii--,os martyres de ,nero #abh ,,iv--,o inferno espiritual #acj ,v--,continuao #acd ,,vi--,da immortalidade das penas espirituaes do inferno #acf ,,vii--,ultimas consideraes cerca do inferno theologico #adj ,capit4 ,v--,sursum corda #adc ,capit4 ,,vi--,a parabola do rico avarento #aea ,capit4 ,,vii--,terra1 inferno1 co #aed ,i--,terra #aed ,,ii--,ceo #aee ,capit4 ,,viii--,historia d'um sonho #aeg ,capit4 ,,ix--,judas ,iscariote #agj ,capit4 ,x--,concluso em frma de parabola #aha ,,appendice ,capit4 ,i--,provas mysticas do inferno #ahe ,i--,da auctoridade da ,biblia #ahe ,,ii--,da auctoridade da ,egreja #aia ,,iii--,concluso do que fica dito #aii ,capit4 ,,ii--,resposta a uma objeco #bja ,capit4 ,,iii--,descida de ,christo aos infernos #baj ,capit4 ,,iv--,advertencia final #baf ,n4 #dbc--,porto3 ,typographia da livraria ,nacional1 ,laranjal1 #b a #bb--ahga ,erros corrigidos ,pg4 no original correco #ab divindidade divindade #ab todas as religes eram todas as religies eram #aii ,espirto ,santo ,espirito ,santo #bae particuralisada particularisada #bag pupulares populares