of public domain material from ,google ,book ,search7 ,,bibliotheca ,,de ,,algibeira ,,noites ,,de ,,insomnia ,,offerecidas ,a ,,quem ,n,o ,p,,de ,,dormir ,,por ,camillo ,castello ,branco ,,publica,o ,,mensal ,n4 #ab--;,,dezembro ,,livraria ,,internacional ,,de ,,ernesto ,,chardron #if1 ,largo dos ,clerigos1 #ih ,,porto ,,eugenio ,,chardron #d1 ,largo de ,s4 ,francisco1 #d ,,braga #ahgd ,,porto ,,typographia ,,de ,,antonio ,,jos ,,da ,,silva ,,teixeira #fb--,rua da ,cancella ,velha--#fb #ahgd ,,bibliotheca ,,de ,,algibeira ,,noites ,,de ,,insomnia ,,summario ,o que eram frades--,quem desterrou ,jos de ,seabra da ,silva8--,d4 ,joo #d4 e as regateiras--,fielding--,mania e hypocondria--,aos diplomatas descontentes--,bibliographia--,o ultimo carrasco1 pelo exc4mo snr4 visconde de ,ouguella--,o horror da demencia--,restaurao de um documento historico valioso--,a dana--,fim ,o ,,que ,,eram ,,frades ,houve-os de santa vida1 que prgaram o evangelho dos bons exemplos1 e deixaram na terra vestigios do martyrio--o grande martyrio do corao abafado e morto na estamenha do habito2 e d'esses alguns deixaram livros divinos1 desde o pensamento at linguagem4 ,ganharam assim duas eternidades luzentissimas3 a do seio de ,deus1 e a beno dos que1 n'este mundo to outro e to estrondeado do caboucar do progresso1 alta noite1 os estudam lampada solitaria do seu ermosinho1 onde sorri a paz1 porque a inveja l no entra4 ,houve-os1 tambem1 frades funestos que escavaram com pulso sacrilego a sepultura dos bons no atascadeiro da politica2 e a politica1 na hora em que pde arpoal-os1 na torrente dos seus enxurros1 atirou-os1 bons e maus1 ao monturo das instituies podres e pestilenciosas4 ,o descredito das ordens monasticas quasi coevo da sua instituio4 ,os santos padres1 os concilios1 as communas1 os poderes civis lavraram desde os primeiros seculos protestos formidaveis contra as religies alheias do primitivo espirito do seu instituto4 ,a volta do seculo ,,xvii1 os mosteiros em ,portugal1 desatados do vinculo da humildade1 e cegos da sua opulencia e authoridade no animo dos principes1 haviam tocado o cairel da voragem4 ,e logo que1 depois da perda de ,d4 ,sebastio1 a guerra civil fermentou nos bandos faccionarios dos pretensores ao throno1 e a cora resvalou da fronte do cardeal-rei1 a fradaria sahiu dos seus cenobios1 e saltou para as praas e arraiaes arrancando a espada do talabarte que cingia o habito4 ,reportando-se aos indisciplinados frades d'esse tempo1 referem as historias que1 no anno #aehj1 se passou um escandaloso motim no mosteiro dos ,jeronymos de ,belem4 ,rebello da ,silva repete assim o caso com as particularidades noticiadas por ,conestagio3 ,os monges do mosteiro de ,belem1 da ordem de ,s4 ,jeronymo1 vendo o reino sem monarcha1 as justias sem respeito1 e os abusos sem castigo1 intentaram tambem prevalecer-se da desgraa do tempo para vingarem antigas queixas4 ,usando dos poderes de principe e da authoridade ecclesiastica de legado pontificio1 e violando a regra e observancia monastica1 o cardeal ,d4 ,henrique tinha arrogado a si a nomeao dos prelados da casa4 ,pareceu apropriada aos padres a conjunctura para sacudirem o jugo2 e juntos em communidade foram bater porta da cella de fr4 ,manoel de ,evora1 que exercia as funces de provincial4 ,abriu-lhes1 sobresaltou-se1 e acabou de cahir das nuvens1 quando lhe disseram que se demittisse logo1 porque no tendo sido eleito em capitulo1 era nulla a sua jurisdico1 competindo-lhes a elles prover1 e designarem por suffragio quem os havia de governar4 ,resistiu2 altercaram2 lanou-lhes em rosto a demasia e a desobediencia1 clamaram2 negou-se positivamente a consentir1 e viu-se de repente maltratado das mos dos subditos1 preso e encarcerado em um celleiro4 ,achou modo de avisar os parentes1 uniram-se e supplicaram ao nuncio1 ,alexandre ,frumento1 que se interpozesse1 obrigando os frades a soltarem e reconhecerem o seu prelado4 ,responderam com soberba1 que o nuncio no era seu juiz4 ,foi necessario recorrer ao brao secular4 ,informados de motim to escandaloso e offensivo da humildade religiosa s abas da capital1 os governadores do reino mandaram aos ministros da cidade1 que fossem executar a sentena apostolica acompanhados de tres bandeiras de soldados4 ,a resistencia dos padres no diminuiu4 ,cerraram as portas do mosteiro1 deixaram as da igreja abertas1 e de dentro das grades do cro na capella-mr respondiam1 cantando os officios divinos1 s advertencias e admoestaes dos magistrados4 ,por fim a paciencia exhauriu-se2 a tropa entrou no templo1 e arrombou a grade do cro1 que era de pau4 ,seguiu-se um verdadeiro alvoroto2 os guardas forcejando por prender os monges2 estes esquivando-se em tropel1 ou a um e um1 e oppondo as armas espirituaes s temporaes1 bullas1 crucifixos1 ceriaes1 tocheiros1 monitorias e excommunhes ao pulso vigoroso dos perseguidores4 ,a final1 cercados e rendidos1 foram quasi arrastados em triumpho pelos vencedores ao celleiro aonde jazia o provincial captivo1 e para maior desgosto tiveram de lhe beijar a mo em publico e de ajoelhar aos seus ps como subditos arrependidos4 ,entretanto no se submetteram sem o protesto de que cediam constrangidos pela fora1 e de que appellariam do nuncio de ,roma4 ,at aqui o distincto historiador4 ,porm1 outras causas que vou contar motivaram a insurreio dos monges contra o seu prelado4 ,eu no me assombrarei se o leitor me atalhar o enthusiasmo1 com que pretendo illustral-o1 dizendo-me no arrugar da sobrancelha que se dispensa de saber profundamente as causas que amotinaram uns frades ha duzentos e noventa e quatro annos4 ,todavia1 em menoscabo dos meus creditos de escriptor futil1 insto no esclarecimento d'este episodio de abastardamento do heroico ,portugal1 que ,luiz de ,cames cantra4 ,o documento1 que vou publicar e nos alumia o escuro caso1 nunca esteve em mo dos que escreveram a historia4 ,d4 ,christovo de ,moura no perdia lano de remover estorvos usurpao de ,philippe ,,ii4 ,acudia prompto com a corrupo onde quer que palpitasse corao portuguez4 ,se a peonha do ouro no vingava ulcerar as consciencias1 empregava a persuaso dos direitos de ,philippe1 mediante a eloquencia de jurisconsultos castelhanos e nacionaes4 ,sabia o confidente do rei de ,hespanha que a maioria dos mosteiros pendia ao duque de ,bragana1 ou ao prior do ,crato2 e1 entre os mosteiros mais temiveis na propaganda a favor de monarcha portuguez1 estremava-se1 quando o cardeal-rei falleceu1 o convento do ,belem4 ,urgia-lhe1 pois1 influir no espirito d'aquelles monges com a eloquencia de vares authorisados1 que submettessem lei e justia as demasias peccaminosas de um patriotismo incongruente com a legitima soberania4 ,vieram de ,castella dous frades bem apropositados ao intento2 e1 como fossem da mesma ordem1 hospedaram-se em ,belem4 ,o cardeal ,d4 ,henrique morrera no ultimo de janeiro de #aehj1 e j a #aj de fevereiro os dous frades castelhanos colhiam na rede da sua rhetorica o cardume das consciencias dos frades ,jeronymos1 a occultas do prelado fr4 ,manoel de ,evora1 cujo affecto aos ,braganas era inflexivel4 ,no obstante o segredo com que os commissarios de ,d4 ,christovo de ,moura corrompiam o mosteiro1 fr4 ,manoel de ,evora deu tento da perfidia1 e intimou a sahida aos frades forasteiros4 ,no lhe obedeceram1 animados rebeldia pela contumaz defeza da communidade4 ,o prelado desobedecido deu conta do estranho successo aos governadores do reino1 que demoravam em ,almeirim4 ,os cinco governadores1 eleitos pelo defunto cardeal1 immediatamente ordenaram a expulso dos dous monges castelhanos1 em um aviso que eu possuo autographo1 escripto por mo do arcebispo de ,lisboa1 e assignado pelos seus quatro collegas ,d4 ,joo ,mascarenhas1 ,francisco de ,s1 ,d4 ,joo ,tello de ,menezes1 e ,diogo ,lopes de ,sousa4 ,a carta do seguinte theor4 ,nem lhe altero a orthographia nem a parcimonia da pontuao3 ,os guovernadores e defensores destes ,reynos e senhorios1 fazemos saber a vos ,reverendo padre presidente do conuento de nossa sra de ,belem da ord de sa ,jeronimo1 que a ese conuento sa cheguados dous frades da vosa orde castilhanos1 e pello que delles se tem entendido e do seu yntento1 na conuem quietaa destes ,reynos estar n'elles1 pello que tanto que vos esta for dada lhes mandareys c obedienia1 ou da maneira que vos pareer1 e isto mais eficazmente se possa comseguir que demtro em dois dias se saya fora da cidade e seu termo1 e demtro de oyto se saya fora do ,reyno1 porque na o fazendo e sendo n'elle achados sera castigados como merecer1 e avisareis a todas as cassas da vossa orde que ymdo a elas ter estes frades com tena de fazer mays detena que os ditos oyto dias os na recolha nem aguasalh e o faa a saber ao corregedor da comarca ou juiz de fora do lugar omde estiver para niso proceder da maneira que o poder fazer e que volo faa loguo a saber1 de que tambem nos avysareis e do mays que delles tiuerdes emtendido por que asy conu4 ,scryta em almeir a #af de fevereiro de #ehj4 ,arcebispo de ,lisboa4 ,d4 ,joo ,mascarenhas4 ,francisco de ,s4 ,d4 ,joo ,tello de ,menezes4 ,diogo ,lopes de ,souza#a4 ,tirantes o arcebispo e ,d4 ,joo ,tello de ,menezes1 os governadores signatarios d'esta ordem1 poucos mezes depois eram escravos submissos de ,christovo de ,moura2 ainda assim1 justo presumir que em fevereiro de #aehj1 expedindo to severa ordem contra os emissarios de ,philippe ,,ii1 mantinham ainda a honrada energia digna d'aquelle ,d4 ,joo de ,mascarenhas--o defensor de ,dio6 ,como quer que fosse1 a ordem da regencia transmittida pelo prelado aos seus conventuaes1 produziu a rebellio descripta por ,rebello da ,silva1 de pag4 #cfa a #cfc do tomo ,,ii da ,historia de ,portugal4 ,se o leitor quizer marginar o seu exemplar com o resumo d'esta noticia tem preenchido a lacuna2 e1 se por curiosidade1 quizer vr o documento justificativo1 mostrar-lh'o-hei com outro mais valioso de que vou dar-lhe traslado4 ,havia n'aquelle tempo um grande fidalgo chamado ,d4 ,pedro da ,cunha1 antigo governador de ,ceuta1 general das gals que defendiam a costa do ,algarve1 e capito-mr do reino quando ,d4 ,sebastio passou a ,africa4 ,este era pai do celebrado arcebispo ,d4 ,rodrigo da ,cunha4 ,o ancio1 to querido de ,d4 ,joo ,,iii1 e respeitado do infeliz de ,alcacer-kibir1 foi ainda bemquisto do cardeal at hora em que se manifestou contra ,castella2 e1 governando as armas em ,lisboa1 ameaou repellir das suas muralhas o rei estrangeiro1 se ,d4 ,henrique deixasse a cora portugueza ao castelhano4 ,os governadores1 nomeados no testamento do cardeal1 veneravam ,d4 ,pedro da ,cunha1 e solicitavam-lhe o beneplacito1 indo ao encontro da sua vontade com mercs e promessas de maiores galardes4 ,porm1 no modo como o faziam1 transluzia-se o muito respeito que lhe tinham1 e o tino com que se esquivavam a melindrar-lhe a dignidade4 o que se v de uma carta original que ,diogo ,lopes de ,sousa lhe envia1 desde ,almeirim1 aos #bc de abril de #aeha4 ,a copia textual4 ,veja-se como escrevia um dos homens illustres d'aquelle tempo1 o regedor das justias1 e governador da casa do ,porto1 o antepassado que to grande parte foi no luzimento e nos haveres dos condes de ,miranda1 dos marquezes de ,arronches e dos duques de ,lafes4 ,e tamanho varo escrevia assim3 ,ser4 ,oje sbado receby de v4 m4 e loguo madey#b pedir a bastio#c dias a portaria1 madoume#d esa dos dosemtos mil reis de tema que ma do#e a v4 m4 a dos cem mil reis que hada ver cadano#f lhe madarei loguo ou quado v4 m4 qua#g mandar fazer o padra dos dosentos mil reis antam se far a provisa deste cemto que hadaver quadano o que poso afirmar a v4 m4 he que esta postos os sers g4dors #h a sirviremno nacomenda e emtodo o mais que nelles forem como v4 m4 uer pois eu eyde ser o solicitador4 ,tiuemos aguora requado de ,castella4 ,el,rey aimda esta em seu opinio1 tornamos aguora a repliquar1 queira deus que aproveite1 elle vemse a merida#i que he ja perto de nos1 bem podera v4 m4 ouuir o ,uasques#aj para o acomselhar1 posto que o que v4 m4 fez foy como portuguez antigo1 por que nos mordnos ua qua grades velhaquarias#aa1 temos emleitos#ab dom dioguo de ,sousa e martin guomsalues da camara a fazer as armadas e fartar este cleriguo de neguocio por que sempre diz que se no faz nada#ac4 ,o criado de v4 m4 no tenho visto1 deue#ad de estar no degredo com diogo da fomsequa#ae1 bem sinto estar ainda a cidade desa maneira1 querer noso sr dar lhe saude1 eu trabalharey por auer#af a quimta de luis de saldanha se o filho aquy uier#ag noso ser sua muito ilustre p4ca #ah guarde ainda por mtos anos e acresemte3 dalmeirim a xxjjj de abril ,diogo ,lopes de ,sousa1 ,g4or ,sobrescripto3 ,ao muytto illustre ser o sr dom pedro da ,cunha capito mor da cidade de ,lisboa meu snr4 ,d4 ,pedro da ,cunha governava as armas de ,lisboa1 quando ,d4 ,antonio1 j acclamado rei1 alli foi1 e deixou-o entrar4 ,no temos provas de que os louros do ancio colhidos na ,africa se tingissem no sangue da batalha de ,alcantara4 ,sabemos que elle expirou nos carceres da torre de ,belem1 legando a seus filhos odio figadal a ,castella4 ,d4 ,rodrigo vingou-o2 e mais heroicamente o haveria vingado1 se no recebesse como prelado do ,porto1 ,braga e ,lisboa as mitras da mo dos ,philippes4 ,de ,d4 ,pedro da ,cunha dizia o prior do ,crato1 na sua carta a ,gregorio ,,xiii3 444 ,mas as cs de ,d4 ,pedro da ,cunha foram acaso mais veneradas8 ,quem desconhece como aquella honrada velhice acabou amargurada1 no querendo nem podendo sobreviver aos affrontamentos do vencedor1 depois de to dilatada e gloriosa carreira principiada em ,ceuta8444 #a ,no sou exacto no traslado das assignaturas1 porque difficilmente as perceberia quem no tiver lidado1 com a calligraphia e abreviaturas d'aquelle tempo4 excepo do arcebispo1 os outros governadores so imaginosos nos garabulhos a termos de no se perceberem4 ,por exemplo3 ,d4 ,joo ,mascarenhas1 assigna3 dfmozs4 ,e ,francisco de ,s3 ffranisq de,s4 ,d4 ,joo ,tello de ,menezes1 escreve3 ,tello4 m4 ,e ,diogo ,lopes de ,sousa3 ,gd4 lop2 sus4 ,na orla da carta est o sello das armas reaes4 ,sobrescripto3 ,por os governadores4 ,ao presidente do conuento de nossa sor de ,belem da orde de ,s4 ,jeronimo4 #b ,mandei4 #c ,sebastio4 #d ,mandou-me4 #e ,mando4 #f ,que ha de haver cada anno4 #g ,c4 #h ,governadores4 #i ,merida4 #aj ,bem podra v4 m4ce ouvir o ,vasques para o aconselhar4 ,este ,vasques1 inculcado por ,diogo ,lopes de ,sousa1 era um jurisconsulto hespanhol1 de nome ,rodrigo ,vasques de ,arse1 que juntamente com outro jurisconsulto1 doutor ,molina1 tinham vindo de ,castella com ,christovo de ,moura1 como vogaes da junta consultiva nos negocios de ,portugal1 para explicarem aos fidalgos portuguezes juridicamente a legitimidade de ,philippe ,,ii4 ,o governador1 que j estava aconselhado1 recommendava ao indeciso ,d4 ,pedro da ,cunha que ouvisse o ,vasques4 ,o velho fidalgo1 bem que recebesse o padro da tena1 com certeza no comeu a tena nem attendeu ao ,vasques4 #aa ,porque nos modernos vo c grandes velhacarias4 #ab ,temos eleitos4 #ac ,diogo ,lopes trata ,martim ,gonalves da ,camara de clerigo de negocio4 ,rev no apdo o odio secreto que tinha ao jesuita inimigo de ,castella4 ,o escrivo da puridade de ,d4 ,sebastio at certo ponto1 remiu parte dos seus delictos na opposio poderosa e pertinaz que contrapoz ao usurpador4 ,o ,diogo de ,sousa1 ahi nomeado1 havia sido general da armada de ,d4 ,sebastio na desastrosa batalha4 #ad ,deve4 #ae ,foi um corregedor muito affeioado a ,d4 ,antonio1 e perseguido logo que o prior foi desterrado4 #af ,haver4 #ag ,vier4 #ah ,pessoa4 ,,quem ,,desterrou ,,jos ,,de ,,seabra ,,da ,,silva8 ,o desterro de ,jos de ,seabra segredo1 ao que parece1 inaveriguavel4 ,os indagadores mais versados e praticos nos archivos das secretarias1 os proprios descendentes d'aquelle eminente estadista1 os mais affeitos a lapidar e esclarecer os fuzis da cadeia historica oxydados pela aco dos seculos ou obscurecidos por tradies erroneas1 nenhuns conseguiram alumiar este assim nubloso quanto importantissimo successo da historia1 to achegada do nosso seculo4 ,a tradio viu de diversas maneiras o facto1 e parece que todas as pontarias desacertou4 ,disseram uns que ,jos de ,seabra1 ajudante do marquez de ,pombal1 no ministerio1 facultra aos bispos a confirmao nas ordens sacras1 com independencia do beneplacito regio2 e d'ahi a demisso e o desterro1 por arbitrio ou conselho do marquez1 affrontado por tal concesso4 ,querem outros1 manchando a honra de ,jos de ,seabra1 que demisso precedessem extorses1 concusses e litteralmente roubos praticados com a resalva dos altos cargos que exercia4 ,opinam alguns que elle descobrira a ,d4 ,maria ,i o proposito de a esbulharem da successo da cora seu pai de accordo com o ministro valido4 ,outros1 em fim1 alludem a segredos de estado que sinceramente ignoram1 por isso mesmo que eram segredos4 ,estes so os mais discretos4 ,o snr4 ,pinheiro ,chagas1 apoiado em uma honrosa e critica defeza que o snr4 ,antonio ,coutinho ,pereira de ,seabra e ,sousa1 bisneto do estadista arguido1 publicou1 em #ahfh1 respondendo s arguies do snr4 ,soriano--indelicada e perfunctoriamente expendidas contra o ministro degredado--refuta as conjecturas das atoardas1 e deixa insoluvel a duvida4 ,se alguma hypothese pde aclarar a vereda de ulteriores investigaes1 a que attribue ao cardeal da ,cunha a desgraa de ,jos de ,seabra da ,silva4 ,quasi se evidenceia que o marquez de ,pombal foi mero1 e1 com certeza1 forado executor das ordens do rei4 ,da considerao que ,pombal guardra pelo desterrado1 nos testemunha a ordem que elle mesmo transmittiu ao governador de ,angola1 mandando repatriar ,jos de ,seabra1 quando ,d4 ,jos ,i vivo ainda1 mas j prostrado de mortal doena1 perdera a energia rancorosa que tempesta nas almas ruins at ao despegar da vida4 ,esse decreto1 assignado por ,martinho de ,mello e ,castro1 foi expedido em #ae de dezembro de #aggf4 ,no principio de outubro de #aggg chegou ao presidio das ,pedras ,negras1 onde estava o desterrado1 a ordem de embarque4 ,em #bj de dezembro sahiu de ,loanda ,jos de ,seabra4 ,deteve-se na ,bahia1 d'onde1 em #f de fevereiro de #aggh1 escreveu a seguinte carta inedita ao ministro ,martinho de ,mello e ,castro3 ,ill4mo e exc4mo snr4 ,devendo a v4 exc4 a expedio das benignissimas ordens de ,s4 ,m4 que ,deus guarde1 que me pozeram na liberdade de sahir de ,africa1 e de passar ao reino1 me persuado que tambem a tinha para significar a v4 exc4 a minha sincera1 e fiel gratido pela parte que v4 exc4 teve n'esse beneficio1 o maior que eu podia receber na minha situao2 segurando a v4 exc41 que n'isto encerro os limites da minha liberdade1 sem me adiantar a escrever a minha mulher1 nem a meu irmo1 que sei ha poucos dias1 que ainda vivem4 ,no principio de outubro chegou ao presidio das ,pedras a minha redempo3 preparei-me como melhor pude para chegar nos fins de novembro a ,loanda1 d'onde parti em #bj de dezembro1 depois de pagar o devido tributo da carneirada1 com que esta cidade hospeda aos mais robustos1 e aportei a esta ,bahia com quarenta dias de viagem4 ,a necessidade de roborar um pouco as foras1 e de me prover de quasi todo o preciso para me transportar com menor incommodidade1 me far demorar aqui mais dias1 do que desejo1 ainda considerando a vantagem de salvar o inverno nas costas de ,portugal4 ,tanto que ahi chegar ha de v4 exc4 sabel-o1 e desejra eu que v4 exc4 quizesse mandar-me insinuar a bordo o modo1 tempo1 e lugar do meu desembarque2 porque a experiencia me tem ensinado muito minha custa1 que tinha habilidade para errar todos os passos1 que governo pela minha m cabea4 ,depois de desembarcar aonde1 quando1 e para o lugar que v4 exc4 me ha de ordenar1 continuarei a minha peregrinao1 como devo1 at o lugar1 onde ella teve principio4 ,permitta-me v4 exc4 que eu lhe confesse entretanto que a debilidade da minha philosophia1 pela dureza do meu corao1 e por falta da christandade1 que a devia vigorisar1 no me deu at agora a conformidade que eu devia ter para me ser menos sensivel a desgraa de ser representado ao meu soberano1 e meu bemfeitor1 como o mais infame1 e o mais abominavel ingrato1 e como tal despedido ignominiosamente do real servio1 separado da minha triste familia1 encerrado em uma priso2 d'ella tirado para ser tranportado ao ,rio de ,janeiro1 e d'ahi a ,loanda1 e de ,loanda ao presidio das ,pedras3 levando para supplemento da falta quasi total de tudo as severas ordens1 de que s vi a execuo na parte que se dirigia a ser tido por morto na ,europa1 e empestado na ,africa3 e tudo isto sem sentena nem processo1 porque no tive audiencia ao menos para se me dizer a culpa4 ,se todos os meus successos fossem restrictos a ser despedido do servio1 e mandado retirar para minha casa1 nada diria2 porque me havia de parecer extraordinario que um monarcha necessitasse de mandar fazer uma demanda para despedir de seu servio um criado1 que se lhe representasse ou mau1 ou inutil1 ou desagradavel3 mas as demonstraes contra mim passaram muito adiante com o fatal esquecimento de me dar audiencia quem quer que se empenhou em me fazer to famoso delinquente na real presena4 ,releve v4 exc4 este desafogo na substancia e no modo1 porque at me falta ha quatro annos o uso de fallar e de escrever1 mas no falta o desejo efficaz de me justificar1 sem saber de que1 para viver o tempo1 que me resta1 satisfeito1 e descanado com o antigo conhecimento confirmado por custosas experiencias e serias reflexes1 de no prestar para outra cousa1 e menos para as em que fui mettido violentamente1 e contra a minha vontade nos tempos passados4 ,e ultimamente1 exc4mo snr41 cheguei at aqui1 e ainda vacillo1 se ser atrevimento rogar a v4 exc4 que por mim 7que no posso ter essa felicidade7 queira beijar a mo a ,s4 ,m4 pela piedade1 e clemencia1 que commigo usou1 permittindo-me que eu veja ainda ao menos a minha patria e familia4 ,se isso poder ser1 eu o confio do antigo favor que devo a v4 exc41 e1 se no podr ser1 eu sei que v4 exc4 mesmo ha de desculpar n'esta occasio a um africano rude e grosseiro1 que no quer certamente retribuir offensas e atrevimentos por beneficios4 pessoa de v4 exc4 guarde ,deus muitos annos4 ,bahia de ,todos os ,santos1 #f de fevereiro de #aggh4 ,ill4mo e exc4mo snr4 ,martinho de ,mello e ,castro4 ,de v4 exc4 maior venerador e criado1 mais fiel obrigado ,,jos ,,de ,,seabra ,,da ,,silva4 ,lida esta carta1 que no elucida o mysterio1 dir-se-ha que o proprio ,jos de ,seabra ignorava o crime que lhe assacra o aleivoso a quem o rei prestra credito4 ,observe-se que esta ignorancia1 se fosse dissimulada1 seria tambem indecorosa2 e1 sobre tudo1 offensiva do ministro ,mello e ,castro1 que no podia ignorar os delictos do homem destinado a ser seu collega no ministerio4 ,como quer que fosse1 a memoria do ministro de ,d4 ,maria ,i est illibada4 ,o motor dos seus infortunios insondavel4 ,estes segredos1 vulgares nos governos despoticos1 se deixam laivos de infamia1 na memoria dos monarchas4 ,d4 ,,jo,o ,,iv ,e ,,as ,,regateiras ,o que elle tinha sobre tudo era o talento dos solertes velhacos4 ,primeiramente requestou com meiguices os fidalgos que1 depois de afagados1 o acclamaram4 ,assentado1 mas no seguro1 no throno1 cerceou a confiana aos fidalgos1 e fez-se o idolo da canalha a fim de estribar-se n'ella1 quando a nobreza irritada se bandeasse novamente com ,hespanha4 ,assim lh'o aconselhra o seu ministro ,lucena1 em #afda2 e1 n'esse mesmo anno1 a plebe rodeou o rei ameaado pelos nobres1 e applaudiu o supplicio dos marquez de ,villa ,real1 duque de ,caminha1 conde de ,armamar1 ,d4 ,agostinho ,manoel e outros4 ,francisco de ,lucena1 que emprestra o cutelo para a degolao dos traidores1 foi mais tarde convicto de perfidia e degolado4 ,as cidads que mais se estremaram na celeuma das praas contra os conspiradores1 foram as regateiras da ,ribeira1 capitaneadas por uma virago mulata1 de alcunha a ,maranh4 ,esta mulher privava muito com o rei4 ,d4 ,joo ,,iv mandava parar o coche1 quando a encontrava1 dava-lhe a mo1 e detinha-se em risonha palestra com a regateira4 ,assim o conta o diplomata ,d4 ,luiz da ,cunha ao principe1 que depois foi ,jos ,i1 em carta que corre impressa3 ,o snr4 ,d4 ,joo ,,iv444 mandava entrar no estribo do seu coche a celebre ,maranh que dominava todas as regateiras da ,ribeira para se fazer mais popular1 pois costumamos dizer que a voz do povo a voz de ,deus1 o que nem sempre se verifica4 ,outra regateira1 no menos notavel em seu real beneplacito1 chamava-se ,brigida d',alfama4 ,no dia #a de dezembro de #afdj foi ella quem de envolta com os petintaes levou de rojo o cadaver de ,miguel de ,vasconcellos4 ,brigida1 quando soube que o marquez de ,villa ,real e seus cumplices eram presos por traidores1 pediu a qualquer poeta cesareo que lhe escrevesse cousa que ella pozesse nas regias mos do seu soberano4 ,o poeta1 provavelmente1 trocando versos pelas colladas de ,brigida d',alfama1 escreveu uma ,silva1 com que a regateira se foi ao pao mui aforurada1 e logrou1 sem demora1 entregar a ,d4 ,joo ,,iv4 ,eis a ,silva3 ,fra descompostura de grande atrevimento 7rei1 que o mereceis ser de mil imperios71 sem ter prima tonsura do poetico assento to cheio de grandezas e mysterios1 n'esta tosca ,ribeira cantar de vs a musa regateira4 ,mas amor1 que perdido nos estanques passados em que vendia carne aos tres estados quiz1 por vr se melhora de partido1 ser cego de papeis1 e a mim por musa1 que com sciencia infusa1 com quarta1 ou gorgoleta entre nos contubernios de poeta4 ,amor pois que abona estas dces reliquias de capona1 que ,brigida comea a entoar subida na tripea1 por no ser o ,bandarra1 que cantou cysne1 o que aprendeu cigarra4 ,chegue-se pois a bordo com juizo pernialto1 para critiquizar1 qualquer figura1 que aqui no canta tordo1 nem melro1 que em contralto esperdia seu mal pela espessura4 ,no ha aqui ruisenhor no bosque frio1 magano de assobio1 e entre dces avenas ramilhete com voz1 harpa com penas2 as minhas cantilenas accentos so mais graves do solidario inquisidor das aves1 que authorisado canta compassos de guela por garganta1 hymnos noite fria1 que viuva do dia em anaguas se veste bordadas de ouro sobre azul celeste4 ,mas entremos no thema e este breve intervallo sirva de frontispicio do libello4 ,escondida postema em troiano cavallo para tornar ,lisboa um ,mongibello tinha a perfidia grega de negra inveja1 e de malicia cega1 mas l de cima a intelligencia boa1 que ampara vossa authentica pessoa quebrou as armadilhas s torpes sevandilhas que bichinhos da terra gigantes contra o co sonhavam guerra2 e descobrindo o lusitano zelo a ponta do novello poz a cousa em estado que quem vinha por l1 foi tosquiado4 ,a mim no me destouca a primaz alimaria#ah1 que era astuta serpente2 nem a cabea louca da poesia varia do marquezote simples1 e innocente2 nem os mais inimigos1 que da coca tocados da esperana v de altos estados deram com o cabedal por esses trigos4 ,tu s s que me matas1 ,cochambre em sapatas#bj1 tu1 que aguia real com louco assombro praticavas com o sol hombro por hombro e inquinaste a lysia bizarria de tua to vidrada fidalguia em affrontoso thalamo ferindo pactos com ,baea1 e ,alamo#ba4 ,quando por sorte1 ou erro da vinha quasi morta as velhas cepas1 a maleza occulta1 medicina o ferro3 umas1 justificada a fouce corta1 outras1 prudente o enxado sepulta1 e trocando-lhe a frma a vinha assim reforma pai de familias destro4 ,toma o ginete um sestro1 degenera em sendeiro das leis da fidalguia da sua paternal cavallaria prudente o cavalleiro cobre com atafaes torpes1 e feios o que havia de ornar jaez e arreios4 ,no sois de engenho tardo1 entendei-me o remoque1 que bernardo4 ,o franco1 que do carro da deusa da batalha as avenas agora modifica2 o inglez bizarro com toda a mais canalha que aos altares de ,marte se dedica a vr este interlunho todos esto com os olhos como punho4 ,se podaes esta parra julgaro que se anima vosso valor para fazer vindima1 se a deixaes solta1 e se desgarra dir vosso adversario1 que possuis o reino por precario4 ,n'este transe1 senhor1 n'esta apertura ser fraqueza a minha piedade1 pouco valor a magnanimidade1 e falta de poder qualquer brandura4 ,pese tudo a prudencia a ouro fio entenda-me che p1 que me entend'io4 ,no sei se o mesmo1 se outro vate patriota1 escreveu e distribuiu primorosamente calligraphados alguns exemplares da seguinte poesia--to sanguinaria quanto boal--quando ainda fumegavam no cadafalso do ,rocio os cadaveres dos conjurados1 cujo supplicio pedira ,brigida de ,alfama3 ,s ,,mortes ,,de ,d4 ,,luiz ,,de ,,menezes1 ,,marquez ,,de ,,villa ,,real1 ,,de ,d4 ,,miguel ,,de ,,noronha1 ,,duque ,,de ,,caminha1 ,,de ,,ruy ,,de ,,mattos ,,de ,,noronha1 ,,conde ,,de ,,armamar1 ,,de ,d4 ,,agostinho ,,manoel1 ,,os ,,quaes ,,mandou ,,degolar ,,na ,,pra,a ,,do ,,rocio1 ,,el-,,rei ,d4 ,,jo,o ,o ,,iv1 ,e ,,mais ,,tres1 ,e ,,um ,,bae,a1 ,,arrastados1 ,,enforcados1 ,e ,,esquartejados ,,todos ,,por ,,traidores1 ,,hoje #bi ,,de ,,agosto ,,de #afda4 ,ao marquez de ,villa ,real ,senhor marquez1 eu quizera1 7testemunha me ,jesus7 de vos trocar o capuz por sda de primavera2 mas vossa condio fera teve a culpa d'este mal2 que havieis de ser leal apesar de mil traies1 quem tem to nobres brazes como os de ,villa ,real4 ,ao duque de ,caminha ,e vs1 duque1 porque no podreis isto fazer1 mudando de parecer1 pois do marquez a teno era smente traio3 e j que mal attentado e com to pouco cuidado vos quizestes derrotar1 para tudo se acabar1 soffrei o ser degolado4 ,ao conde de ,armamar ,em theatro ho de parar vinte e dous annos de idade1 e de ,braga a falsidade faz a taes transes chegar#bb6 ,mas se o conde de ,armamar olhra para seu tio no dia de nosso brio que jogava o esconder1 nunca viera a perder em tal pea tal feitio#bc4 ,a ,d4 ,agostinho ,manoel ,um ,manifesto fizeste que foi manifesto a todos1 e agora com baixos modos a tudo contradisseste4 ,outro tambem compozeste quando estiveste na crte2 e1 por no seguir o norte com que por c navegaste1 por indiscreto1 ficaste tambem manifesto morte#bd4 ,ao mesmo ,e j que de tal maneira te quizeste manifestar1 sabe-te determinar n'esta hora derradeira3 no sendo tal a cegueira com que at agora viveste1 se no que compozeste te mostraste declarado1 hoje que s degolado sente o mal que te fizeste4 ,ao perro do ,baea ,habito de ,christo a vs8#be ,maldito seja o judeu que l na crte o vendeu tal como vossos avs6 ,padecei tormento atroz1 neto de uma cominheira3 porque me dava canceira quem no era a ,deus fiel que escapasse de um cordel1 escapando da fogueira4 ,a opulencia de ,pedro de ,baea provinha-lhe da senhora com quem casra4 ,os trinta mil cruzados no lh'os aceitaram a troco da vida2 mas l foram depois1 em nome da lei1 buscal-os ao casal da viuva4 ,reduzida a penuria extrema1 esta mulher fugiu para a ,hollanda1 onde morreu soccorrida por parentes que eram hebreus4 #ai ,d4 ,sebastio de ,mattos1 arcebispo de ,braga4 #bj ,talvez ,d4 ,agostinho ,manoel de ,vasconcellos4 #ba ,jorge ,gomes ,alamo1 e um filho1 que entraram no ,limoeiro1 onde foram atormentados1 e nada revelaram4 ,os historiadores no se occupam em lhes averiguar o destino4 #bb ,este conde era sobrinho do arcebispo de ,braga4 #bc ,no dia da acclamao do duque de ,bragana1 o arcebispo de ,braga correu perigo de ser assassinado como amigo de ,castella4 ,e1 no obstante as demonstraes hostis d'este prelado1 ,d4 ,joo ,,iv chamou-o ao seu conselho1 afastando alguns fidalgos que jogaram a cabea1 tirando-o da cobarde inercia de ,villa ,viosa4 #bd ,d4 ,agostinho ,manoel de ,vasconcellos1 alm de outras obras estimadas1 escreveu3 ,manifesto na acclamao d'el-rei ,d4 ,joo ,,iv1 #afda4 extravagante cousa que publicasse um livro to a favor de quem1 no mesmo anno1 o mandou degolar como inimigo4 #be ,pedro de ,baea1 mercador muito rico1 era cavalleiro do habito de ,christo4 ,foi este o que melhormente pareceu comprehender a abjeco dos seus inimigos1 offerecendo trinta mil cruzados pela vida4 ,elle sabia que o av do rei1 e os avs dos seus juizes se tinham vendido por menos a ,philippe ,,ii4 ,,fielding ,quatro mezes antes de morrer1 o visconde de ,almeida ,garrett1 passeando em ,lisboa1 no cemiterio dos inglezes1 com ,francisco ,gomes de ,amorim1 fallou assim ao seu extremoso amigo1 defronte da inscripo tumular do romancista britannico ,henri ,fielding3 ,no leia isso que tudo mentira2 a unica verdade que ahi est o nome de ,henrique ,fielding1 e ninguem o sabe ou no se lembram d'elle4 ,pois foi um grande nome6 ,walter ,scott chama a ,fielding o pai do romance inglez e la ,harpe disse que o ,tom ,jones o primeiro romance do mundo4 ,apesar de tudo esta enorme tumba de pedra encerra um punhado de cinzas que foram consideradas em quanto as animava uma multido de paixes revoltas6444 agora444 quem sabe que ellas esto ahi8 ,o que o epitaphio no diz que ,henrique ,fielding viver eternamente no ,tom ,jones1 como ,squire ,western4 ,o que tambem no diz esse estupido epitaphio que nem a ,inglaterra nem ninguem se lembrou da viuva nem dos filhos d'este homem illustre1 que morreram ignorados1 depois talvez de terem vivido como mendigos entre homens poderosos de estado que foram condiscipulos e se diziam amigos de seu pai444 ,ah6 mundo enganador6444#bf ,tristissimo lance1 se os filhos de to estremecido pai mendigaram6 ,eram criancinhas quando elle morreu em ,lisboa1 no anno de #aged4 ,forado pela enfermidade a procurar o clima de ,portugal1 sahiu d'entre as caricias e lagrimas da esposa e filhos no dia #bd de junho de #aged4 ,a carta1 que elle escreveu n'esse mesmo dia1 e a ultima que deixou sentida e chorada na terra natal1 dizia assim3 ,hoje quarta-feira1 #bd de junho de #aged1 nasceu o sol mais triste que eu vi em minha vida1 e me j achou acordado na minha casa de ,fordhook4 ,cogitava eu que1 luz d'esse sol1 veria1 pela derradeira vez1 e diria o ultimo adeus1 aos objectos queridos que eu amava com a ternura de mi4 ,no me tinham ainda callejado as doutrinas da philosophia que me ensinra a supportar a dr e desprezar a morte4 ,em tal situao1 no podendo vencer a natureza1 deixei-me vencer d'ella1 que me subjugou como se eu fosse a mais fragil mulher4 ,pretextando consolar-me1 induziu-me a ir gozar oito horas na companhia das minhas criancinhas1 e com certeza1 o que ahi soffri n'esse curto espao excedeu todos os padecimentos da minha enfermidade4 ,ao meio dia fui pontualmente avisado de que me esperava a carroa4 ,abracei os meus filhos um por cada vez1 e embarquei no carro com alguma resoluo4 ,minha mulher que procedera com o verdadeiro heroismo de um philosopho1 dado que seja ao mesmo tempo mi extremosa1 seguiu-me com a filha mais velha4 ,alguns amigos me acompanharam1 e outros se despediram de mim1 elogiando a minha coragem com louvores mui pouco merecidos4 ,e no viu mais aquelle sol triste que se espelhra nas lagrimas de seus filhos6 ,que importava o co1 e o sol1 e a fragrancia de ,portugal quelle doente excruciado na solido de ,lisboa1 por saudades dos seus1 atormentadas pela desesperana de voltar a vl-os6 ,se lhe no seria mais suave a morte1 rodeado dos filhos1 e com a mo j morta e ainda quente nos labios d'elles6 ,pouco mais de tres mezes viveu4 ,expirou quando as folhas despegaram e fremiram seccas no cho1 revolvidas pelo nordeste1 aquella toada sinistra que faz pensar no gemer final dos moribundos a quem as primeiras nevoas congelaram o sangue no corao4 ,o seu ultimo dia foi o oitavo de outubro de #aged4 ,tinha quarenta e oito annos4 ,no alcancei noticia do destino que tiveram os filhos de ,fielding4 ,pobres sei eu que ficaram1 porque seu pai1 dado que os amasse muito1 ou lhes no grangeou1 ou era j tarde quando lhes quiz grangear o patrimonio4 ,fielding achou-se uma vez com #a3ejj libras1 e uma propriedade que rendia #bjj1 no condado de ,derby4 ,montou carruagem1 phantasiou librs de cres claras1 que se renovavam de mez em mez1 hospitalidade de principe1 lautos banquetes1 saraus1 caadas1 a mais fidalga e desastrada imprevidencia1 consoante s tradies de seu av o conde de ,denbigh1 e de seu pai o general ,edmundo ,fielding4 ,no trajecto de tres annos1 no tinha um palmo de terra1 nem um schilling do patrimonio de sua primeira mulher4 ,depois1 aceitou o lugar de juiz de paz1 especie de commissario subalterno de policia4 ,collocado em circumstancias proprias ao intento1 comeou a estudar as ladroeiras e a perseguir os ladres4 ,no entanto1 escrevia novellas2 e1 gravando em eterno bronze o ,tom ,jones1 creou o romance em ,inglaterra4 ,se a experiencia lhe fosse mestra e inspiradora1 poderia1 como escriptor1 reparar as perdas de fidalgo4 ,tom ,jones foi pago por #gjj libras1 e ,amelia por #a3jjj4 s alegrias da gloria do ouro1 seguiram de perto os rebates da morte4 ,a vida estava gasta nos proprios desperdicios4 ,a alma1 no maximo esplendor das suas faculdades1 requeria corao vigoroso onde fecundasse as grandes aspiraes4 ,como prova da sua immortalidade1 o corpo deperecia1 os pulmes deslaavam-se1 e ella entre as regies infinitas e as tristezas do quasi moribundo1 lampejava ainda os derradeiros clares da ,viagem a ,lisboa1 em que ,fielding chorou e sorriu1 mesclando aos impetos da satyra os mais desconsolados quebrantos da amargura4 ,quando fordes ao cemiterio dos ,cyprestes1 attentai n'aquelle tumulo1 pensai em tudo que triste2 mas no lhe rezeis pela alma1 que essa est irremissivelmente condemnada4 ,henrique ,fielding no era dos nossos1 no era catholico4 ,que pena6 #bf ,archivo ,pittoresco1 tom4 ,,iii1 pag4 #adj4 ,,mania ,e ,,hypocondria ,certo maniaco imaginava que tinha morrido1 e rogava aos parentes e amigos que o enterrassem1 porque o seu corpo comeava a apodrecer4 ,tres vezes1 dentro d'um anno1 o atacou semelhante mania4 ,amortalharam-no1 e fingiram que o levavam ao cemiterio2 porm1 no caminho1 estavam uns homens pactuados com os parentes espera do sahimento2 e1 quando a tumba ia passando1 comearam a dizer em voz alta3 --,ora graas a ,deus1 que morreu finalmente aquelle velhaco1 aquelle biltre1 aquelle perversissimo scelerado6 ,o maniaco1 ouvindo os insultos1 irou-se grandemente1 e respondeu3 --,canalhes6 se eu estivesse vivo1 castigar-vos-hia a bengaladas1 para vos ensinar a no ter m lingua2 infelizmente estou morto2 e os mortos no se vingam4 ,replicaram os homens que no lhe tinham medo1 e desafiaram-no renovando as injurias4 ,ento o maniaco1 erguendo-se de golpe1 desembaraou-se da mortalha1 e correu atraz dos homens1 que o receberam a murros1 e tantos lhes pregaram na cabea que lhe pozeram fra de l a ida que o atormentava4 ,o doente recolheu-se a casa bastante contuso2 mas curado2 e1 porque havia tres dias que jejuava1 comeu tripa frra4 ,este caso1 e outro da mesma seriedade1 vem referidos em um livro scientifico e mui circumspecto ultimamente publicado em ,frana4 a ,hygiene das dres1 por mr4 ,a4 ,dobay4 ,os francezes1 ao mesmo tempo que nos illustram1 alegram a gente com estas passagens que no so vulgares entre os maniacos portuguezes4 99 99 99 99 99 ,um hypocondriaco farto e rico imaginou-se doentissimo1 e resolveu nunca sahir do seu quarto4 ,dormia1 comia e bebia como se quer2 mas soffria horrorosamente por todo o corpo2 devia morrer de morte affrontosa2 estava ulcerado e gangrenado2 pedia que o no atormentassem1 etc4 ,fez quanto pde para se curar2 consultou os somnambulos mais acreditados2 encarapuou-se com um barrete encerado2 tomou banhos egypcios1 e poz sobre o estomago uma cataplasma egypcia3 tudo inutil4 ,depois experimentou o racahout1 a revalenta1 a mostarda branca1 com igual resultado4 ,a mostarda branca1 que cura toda a gente1 fez-lhe mal a elle4 ,por ultimo1 e em recurso extremo1 tomou preparados de ferro1 de cobre1 de ouro1 bezoartos orientaes1 o cachund chinez1 o talekamapala dos selvagens americanos1 e nada de novo4 ,sempre doentissimo4 ,recorreu escova electrica1 ao restaurador da vida4 ,tudo em vo4 ,parece incrivel uma cousa to verdadeira6 ,a conversao d'este sujeito versa sempre sobre o mesmo assumpto3 a sua molestia4 ,se alguem consegue distrahil-o por momentos1 esquece-se o homem dos seus atrozes flagicios4 ,indo o medico visital-o uma manh1 queixava-se elle de que no podia estender a perna direita2 e1 para mostrar a difficuldade que sentia1 estendia a perna4 --,ento o senhor que mais quer8--perguntou o medico4 --,valha-me ,deus1 queria fazer isto6--e levantava a perna com a maior presteza e facilidade4 ,o medico desatou s gargalhaadas2 e o doente1 cahindo em si1 riu-se-tambem4 ,esta aventura distrahiu-o1 e poz cobro s lamurias4 ,d'outra vez1 queixava-se ao medico de falta de appetite 7comia como quatro71 e de se estar marasmando4 ,ora1 o homem tinha to boas cres e to proeminente abdomen que o medico no pde suster o riso4 ,o doentinho1 affrontado pela galhofa do medico1 pediu explicaes4 --,antes de lastimar-se1 olhe para a sua barriga--disse o medico4 -- verdade6--disse pasmadamente o enfermo-- verdade6 eu no tinha reparado4 ,e ou por estar convencido ou por imitao1 riu-se tambem com o medico4 ,este livro da ,hygiene das dres no dos mais imprestaveis no catalogo da bibliotheca medica4 ,ha molestias nervopathicas que se modificam pela exploso das lagrimas1 outras pelo espirro1 e algumas pelas convulses do riso4 ,,aos ,,diplomatas ,,descontentes ,se suas excellencias1 os senhores secretarios e addidos de ministros e embaixadores se queixam da parcimonia dos seus ordenados--e accusam de mesquinhos os governos1 indifferentes ao esplendor dos enviados que representam este ,portugal1 to pomposamente representado em tempos antigos--bem sei eu onde elles podem1 se quizerem1 colher as provas de liberalidade dos governos absolutos com que confundam a sovinaria dos governos liberaes4 ,um diplomata1 que brilhou nos tempos prosperos1 e me lembra1 como exemplo1 ,duarte ,ribeiro de ,macedo4 ,dizem d'elle os biographos1 e particularmente ,jos ,maria da ,costa e ,silva1 que nunca enviado portuguez a ,paris to grandes honras recebeu na crte de ,luiz ,,xiv4 ,nove annos alli residiu o solerte diplomata1 ganhando de dia para dia a considerao de ,portugal e os gabos dos ministros com quem lidou4 ,em #affh nol-o descreve ,costa e ,silva melhorado na florente carreira1 j como enviado ordinario4 ,no nos diz que ordenados ,duarte ,ribeiro recebe1 nem que luxos estadeia na crte de ,frana2 mas do contexto de duas cartas suas e ineditas1 facil nos conjecturar o despendio1 o fausto1 a ostentao quasi reprehensivel d'aquelle representante1 se o no quizerem desculpar por elle ser algum tanto poeta4 ,os periodos1 que vo lr-se1 devem pruir de inveja os espiritos descontentes dos senhores secretarios1 addidos1 e enviados de hoje em dia2 conformem-se no entanto1 confrontando o ,portugal de ,duarte ,ribeiro de ,macedo com o ,portugal dos que hoje em dia o representam1 a jantarem em restaurantes de #b francos por cabea4 ,vejamos as scintillaes de estylo de um enviado ordinario na embriagante atmosphera de ,paris que o aureolava com as suas delicias4 ,as cartas datadas em #affi e #afgj so adereadas ao regedor das justias1 ,d4 ,rodrigo de ,menezes4 444444 ,dir-lhe-hei a v4 s4 como passo ha quatro mezes4 ,jeronymo ,jos da ,costa me assistiu dous1 mas porque a tardana dos provimentos o fazia desconfiar1 no quiz valer-me d'elle1 e pedi #a3jjj francos ao conde de ,s4 ,comberg1 dizendo-lhe que era para um emprego meu4 ,no me atrevi a escrever que achava este recurso1 para que no dsse causa a maior descuido4 ,j esto pagos estes dous credores2 mas no estou livre de cuidar que recahirei no mesmo achaque4 ,creia v4 s4 que no sei como acerto a servir sua alteza#bg sempre entre os temores de que me ha de faltar o necessario para o servir no mez que vem1 se me acaba o provimento4 ,verjus levou carta minha para o snr4 conde da ,torre4 ,o que n'ella pedia era que sua alteza me mandasse pagar ou recolher1 e confesso a v4 s4 que no posso servir com taes faltas4 ,se eu disser a v4 s4 o que me tem custado os portes de ,madrid1 ,hollanda e ,inglaterra ha v4 s4 de se admirar6 ,sua alteza1 pela merc que me faz1 a qualquer carta minha manda logo acudir3 a falta est da parte dos executores das suas ordens444 etc4 ,se este periodo no deixa bem definida a situao brilhante do enviado ordinario1 ha outro mais explicito3 444 ,eu me acho em tal estado que pedi um dia d'estes dez dobres emprestados4 ,no ultimo de fevereiro se me acabaram as mezadas1 e entro em quarto mez de empenho4 ,at a carne para comer me trazem fiada444 ,tire-me v4 s4 d'aqui ainda que seja custa da liberdade4 ,d'estas e outras cartas reveladoras de opulencia1 de alegria1 e patriotica vaidade no servio de ,portugal que os biographos deprehenderam que o desembargador ,duarte ,ribeiro1 enviado ordinario a ,paris1 alli fra recebido com grandes honrarias 7diz ,costa e ,silva7 poucas vezes tributadas a ministros estrangeiros1 e tantas e tamanhas que at fiavam d'elle a carne os magarefes parisienses4 ,e1 como prova de que a sua abastana no era fineza1 mas sim obrigao da patria que lh'a dava1 acrescenta o biographo que ,duarte ,ribeiro1 no longo prazo de nove annos que se demorou em ,frana1 no exercido d'esta misso importante1 promoveu com todo o zelo e sagacidade de que era dotado os interesses e vantagens da nao que representava4 ,da comparao da opulencia de ,duarte ,ribeiro com a pobreza dos diplomatas do nosso tempo1 infere-se que elle comia vacca fiada porque era um inepto1 ao passo que os seus successores no officio andam por l saturados de trufas porque sabem manter perspicacissimamente o equilibrio internacional4 #bg ,d4 ,pedro1 o regente1 irmo de ,affonso ,,vi4 ,,bibliographia 7,,padre ,,senna ,,freitas--,,francisco ,,gomes ,d',,amorim7 ,,padre ,,senna ,,freitas1 ,no ,presbyterio e no ,templo1 vol4 ,,ii4 ,livraria ,internacional4 ,porto1 #ahgd4 #h4 #cdd pag4--,a presteza no apparecimento do segundo tomo1 correspondeu affectuosa curiosidade que o primeiro suscitou com raro exito4 ,o relevante merito dos artigos subpostos ao titulo ,,no ,,presbyterio1 confirma-se e consubstancia-se nos trechos pareneticos1 e nos discursos em assemblas catholicas4 ,avantajam-se os dotes do escriptor na descripo do ,brazil sertanejo1 onde se lhe acrisolou a vocao nos maviosos1 bem que duros sacrificios to ardentemente commettidos com o alegre rosto da confiana em ,deus4 ,dos donaires e graas da elocuo do snr4 padre ,senna ,freitas nos dispensamos de repetir justissimos louvores4 ,que se recommende um livro1 quando a indolencia publica o no procurou1 esse o dever corrente da boa critica1 e o timbre da leal camaradagem n'esta milicia das letras2 porm1 depois que a sanco indeclinavel do senso publico formou conceito do escriptor1 a repetio do elogio superfluidade1 seno aggravo do leitor que muito bem pde sentir-se de que o ousem ensinar a conhecer as excellencias da obra inculcada4 ,farei to smente algumas breves reflexes substancia d'este livro4 ,nas prgaes feitas pelo operoso sacerdote nos sertes do ,cear e ,bahia1 posto que se esteja revelando que o missionario forcejou por atemperar-se razo pouco alumiada dos seus ouvintes1 os conceitos resaltam na eloquencia1 e o letrado alliga-se elegantemente ao doutrinario sempre na esphera d'uma illustrada theologia4 ,se o snr4 padre ,senna ,freitas tivesse a peito acommodar-se tosca percepo do seu auditorio1 contava-lhe casos com que lhe apavorasse a credulidade1 prodigios1 intervenes ultra-naturaes na regio dos vicios ordinarios1 a diplomacia infesta do demonio trajando humana1 e os requintes da virtude do homem trajando divina4 ,os discursos d'este discreto missionario no se afeiam d'essas deformidades to bastas nas misses que pelas nossas aldeias espancam o dce anjo das santissimas verdades de ,jesus ,christo4 ,por onde se v que o snr4 ,senna ,freitas1 conformemente a um grande mestre de oratoria sagrada1 fez como suas as advertencias do sapientissimo e religiosissimo ,cenaculo3 444,quanta ser a culpa do prgador que omittir a propria illustrao para que1 faltando-lhe esta1 passe a entreter a credulidade do povo em acontecimentos1 reclamados pela verdade8 ,deixar o protestante de lanar mo d'esta ignorancia para pretender salvar o seu injusto improperio contra os bons usos da nossa igreja8 ,o ouvinte illustrado no radica no fundo de sua alma1 a respeito do prgador1 um conceito de homem inhabil8 ,conceito na verdade opposto quanto possivel reputao que deve ter quem quizer persuadir#bh4 ,n'estes discursos1 e mais largamente nos que o snr4 ,senna ,freitas proferiu nas assemblas catholicas do ,porto e de ,braga1 ha passagens de acurada eloquencia que o descostume em taes occasies poderia acoimar de nimiamente litterarias e destoantes do lugar e do auditorio4 ,seria injusto o reparo4 ,o estylo espalmado no rigorosamente um signal de predestinao4 ,quintiliano pde entrar no templo com o orador christo sem catechese nem baptismo4 ,s4 ,joo ,chrysostomo formou o seu estylo na leitura dos versos de ,aristophanes2 e o citado arcebispo de ,evora recommenda aos alumnos da arte concionatoria que leiam os poemas de ,s de ,miranda1 promiscuamente com os mais selectos pagos1 sem levantar mo dos ,,ss4 ,padres4 ,ora1 a mim se me figura que os lanos em que o espirito do snr4 ,senna ,freitas mais esplende so os que mais contenciosos parecem no seu austero apostolado4 ,e talvez por isso que elles mais se ataviam do fasto das locues bem feitas4 ,quero fallar do seu azedume contra os romances que no viu rubricados por alguns nomes de boa fama1 e aureolados dos suppositicios nimbos dos bemaventurados4 ,eu de mim direi que tenho escripto muitos romances maus1 por mal urdidos ou mal escriptos2 mas1 se licito comparar grandezas com insignificancias1 sou a pensar que nem as novellas do conselheiro ,rodrigues de ,bastos levaram ninguem ao paraiso1 nem as minhas abysmaram no barathro pessoa que as lsse4 ,o que no affirmo se algum dos meus editores foi1 mediante ellas levado444 gloria--que com certeza no a melhor ascenso que elles1 editores1 ho de agradecer-nos4 ,o snr4 ,senna ,freitas pde dar-me de suspeito em materia que tanto por casa ou pela roupa me toca4 ,no me queixarei1 em quanto me for licito e airoso defender as pessoas que o severo escriptor deplora sujeitas contaminao dos maus romances4 ,no1 meu amigo4 ,as novellas1 que adoam a peonha das paixes peccaminosas1 quem as l8 ,toda a gente1 excepo das pessoas rigorosamente religiosas que parecem temer-se do contagio1 como se a consciencia do dever lhes no fosse bastante cordo sanitario contra a infeco das idas dissolventes4 ,ha tantissimas damas de irreprehensivel estylo de vida que1 na sua mocidade1 releram aquellas despeitoradas folias de ,paulo de ,kock6 ,ha ahi tanta senhora de boa nota que l os ,romances para homens6 ,creio e sei que ha romances protervos quanto s infamias que tecem o enredo2 mas ainda no vi algum em que as torpezas sejam aconselhadas pelo author como saluberrimas e honorificas4 ,diga-se o que por diversos modos est repetido3 os maus costumes so os primogenitos de ,ado1 e mais antigos que as novellas4 ,a grande bibliotheca dos maus livros que estragaram o genero humano estava dentro da ma ou do pcego que ,eva trincou4 ,pde ser que os romancistas desmoralisados1 se os ha1 sejam os pomareiros da arvore maldita2 mas o certo que hoje em dia1 as descendentes da ,eva paradisiaca1 se o pomo lhes trava1 depuram os labios nas faces dces de seus filhos1 e de sobra sabem que no com tal fruta que se enganam os modernos ,ades4 ,estes reparos no desdouram as fortes e convictas idas do snr4 ,senna ,freitas cerca da imprensa jornalistica e das litteraturas dramatica e romantica4 ,o illustre sacerdote est no seu posto1 e o sustenta com a maxima dignidade e superior talento4 99 99 99 99 99 ,como no sei quando terei to bom azo de apontar a um assumpto que1 de seu1 me occorre n'este momento1 pedirei aqui ao primeiro orador da tribuna sagrada em ,portugal1 o snr4 conego bracharense ,joaquim ,alves ,matheus que publique as suas oraes ineditas4 ,se o divulgal-as redundasse meramente em gloria sua propria1 no iria eu ferir com phrases de vulgar lisonja a modestia d'aquelle professor illustre2 porm1 se o proveito d'essa publicao reverte em lio para prgadores1 em deleite para crentes1 e secreto abalo para incredulos1 a absteno do snr4 ,alves ,matheus menos louvavel1 e por nenhuma maneira conforme aos deveres que se alligam ao seu ministerio4 ,o talento de quem converte em luz da alma o que outros obscurecem nas paginas dos livros santos1 mais de ns1 os vacillantes orla dos abysmos1 que dos bemquistos da alta inspirao1 e dos que1 velejando nos escarceus da vida1 tem no co a estrella do seu norte1 e na terra a dupla ancora da f e da sciencia4 ,alves ,matheus o mais correcto e elevado orador que ainda ouvi4 ,conhece todas as vozes que sam dentro da alma4 ,d o terrivel estremecer do enthusiasmo no arrobamento das idas grandes1 e vibra as palavras gementes que abrem o dulcissimo espirar das lagrimas4 99 99 99 99 99 ,,theatro ,,de ,,francisco ,,gomes ,,de ,,amorim1 socio da academia real das sciencias de ,lisboa4 ,o cedro vermelho4 #ahgd4 #b tomos4--,so livros de recreio e estudo estes dous que comprehendem o drama e as notas relativas4 ,o snr4 ,gomes de ,amorim empenhou poderosas faculdades de observao nos accessorios com que nos pova a phantasia1 a fim de que no tecido dramatico fuljam os fios reflexres da luz local4 ,o drama seria j excellente sem as notas2 com ellas reala de valia1 porque nos ensina particularidades que o poeta photographou1 e o historiador desdenharia4 ,se tanto lavor e tamanha paciencia de consultao houvessem de ser embebidos no artificio do drama1 e descurados como alheios da scena1 o consciencioso escriptor teria a triste desilluso de se haver canado cata de leitores idoneos e juizes competentes do seu trabalho4 ,o ,cedro vermelho1 assignalado entre os mais applaudidos dramas que recordam noites gloriosas do theatro normal1 pertence escla das peripecias fortes e commoventes4 ,impunham-se assombrosos aquelles lances de viver desconhecido do serto da ,america4 ,francisco ,gomes de ,amorim chegra1 poucos annos antes1 d'essas paragens1 por onde havia passado o portuguez aventureiro1 o mercador1 o chatim2 mas por onde1 desde que o jesuita fra esponjado da civilisao do indio1 nunca mais passra o talento observador4 ,por fortuna da arte e desfortuna do artista1 ,gomes de ,amorim identificra-se aos costumes das raas1 tactera-lhes de perto o selvagismo1 no tanto por seduces de curioso quanto pelo imperioso estimulo da necessidade4 ,as lagrimas represadas talvez lhe abrissem no corao os traos que ahi ficaram como thesouro de lembranas1--e quem sabe se de saudades para elle e para tantos cujas illuses vo morrendo com o sol poente de cada novo dia6 ,o drama1 executado por aquelles artistas apaixonados de ha dezoito annos1 logrou arrancar da sua atrophia um publico sopitado pela toada das xacaras1 e pela melopa dengoza das castells1 e raivas sacrilegas d'uns amadores quasi todos sarracenos1 consoante a praxe dos dramaturgos archi-romanticos4 ,tasso1 que aceitra a parte do indio ,loureno1 como quem crescia para as empresas arduas e se apoucava nas trivialidades de gal de vaudeville1 arrebatava o auditorio1 e o auditorio arrebatava-o nos braos1 desde o palco ao seu camarim4 ,houve n'aquelles remotos dias correntes galvanicas entre o actor e a sala4 ,a paixo coruscava no olhar d'aquelles interpretes a quem ,epiphanio ensinra as fulguraes do terror1 e1 sobre tudo1 a expresso da intelligencia4 ,eu no direi que a arte de hoje arraste crepes ou esteja fria como o marmore de ,gil ,vicente na cupula do seu templo4 ,no3 o que simplesmente receio que o amaneirado1 o arbitrario1 que ahi chamam crear caractres1 o pseudo-naturalismo dos actores mais em voga nos vo desencantando das illuses e amortecendo o enthusiasmo n'aquelles lances que--segundo a praxe comica--faziam levantar o povo4 ,tenho recordaes d'esse tempo1 e algumas prendem com o ,cedro vermelho de ,gomes de ,amorim4 ,ao rell-o1 como quem folheia paginas em que se traaram impresses da mocidade1 tive o prazer de renoval-as admirando-as ainda1 e marginando as muitas passagens em que resalta um bom engenho1 e um optimo escriptor4 ,o segundo tomo prestadio subsidio para quem1 deleitando-se1 quizer1 em poucas horas1 colher noticias repartidas por tantissimos volumes4 obra de grande merito1 e sl-o-hia de grande fortuna em outro paiz4 ,emendmo-nos4 ,sejamos dignos dos talentos que honram a nossa terra4 #bh ,memorias historicas do ministerio no pulpito1 pag4 #aii e seg4 ,,excellentissimos ,,senhores ,hoje que todos temos excellencia1 bom indagar se a no temos1 e no mau resignar-se a gente com os dictames do ,direito ,publico a fim de no attentarmos contra a vida de quem nos favorecer com a senhoria4 ,por no principiar de mui remotas eras1 comearemos pela lei extravagante de ,filippe ,,ii1 de #ae de setembro de #aeig4 ,ahi se manda que rei e rainha hajam tratamento de magestade4 7,bem sabem que1 at ao tempo do rei ,d4 ,sebastio1 era alteza74 ,a referida lei ordena que os duques1 marquezes e parentes da casa real1 quando fallassem do rei1 dissessem3 ,el-rei meu senhor e que os outros menos graduados1 dissessem3 ,el-rei nosso ,senhor4 ,a differena entre singular e plural do pronome possessivo no se percebe4 ,segundo a mesma lei1 os principes e infantes eram tratados de alteza2 mas quem dizia simplesmente sua alteza1 individualisava o successor da cora4 ,excellencia era para os filhos dos infantes e duques de ,bragana4 ,os outros duques1 marquezes1 condes e bispos tinham uma reles senhoria2 porm1 se os bispos fossem estrangeiros1 haviam de acommodar-se com um vossa reverendissima4 ,d4 ,joo ,v fez outra lei em #bi de janeiro de #agci4 ,confirma a de ,filippe ,,ii quanto s pessoas reaes2 manda1 porm1 que se d excellencia a todos os grandes ecclesiasticos e seculares--duques1 marquezes1 condes1 arcebispos e bispos4 ,d'estes ultimos so exceptuados os estrangeiros4 ,os presidentes dos tribunaes tambem recebem excellencia em quanto esto na sde da judicatura4 ,os generaes e vice-reis gozam o mesmo fro4 ,viscondes1 bares1 governadores de praas1 reitores da universidade1 priores d'ordens militares de ,aviz e ,palmella1 moos do pao1 etc4 uma senhoria secca4 ,desde que me entendo s encontrei um homem que obedecesse rigorosamente a esta lei4 ,foi um d'estes dias1 o encontro1 em uma carruagem da via ferrea4 ,era um relojoeiro do ,porto1 homem de annos largos1 cara aberta e antiga4 ,quando se dirigia ao snr4 conde da ,graciosa1 dava-lhe excellencia2 ao snr4 visconde de ,sanches de ,baena1 dava-lhe senhoria2 e a mim1 para ser coherente1 no me dava nada4 ,um sujeito que regula to acertado com as leis dos tratamentos deve correr igual pontualidade com os seus relogios4 ,mas elle no sabia que eu1 desde #ahfb1 sou marquez1 agraciado por sua magestade negra1 ,d4 ,jacintha ,i1 rainha do ,congo1 muito minha senhora e ama1 que ,deus conserve4 ,alm d'isso o alvar de #bj de junho de #agfd manda dar senhoria a mais alguem2 por exemplo3 ao abbade de ,alcobaa e ao seu substituto4 ,o relojoeiro1 para quem a extinco das ordens religiosas no era novidade1 nem equivocando-se com a minha presena prelaticia1 me confundiu com o geral dos bernardos6 ,seja como fr1 convm que as pessoas vezadas excellencia se apercebam de conformidade para o caso possivel de se encontrarem com o citado relojoeiro severo em tratamentos4 ,o ,,ultimo ,,carrasco ,,ii ,v4 exc4 sabe de certo por pessoas doutas e tementes a ,deus1 que eu sou um grandissimo impio1 peiorado agora com minha nesga de petroleiro4 ,a4 ,,herculano4 ,devo aqui contar ao leitor como conheci o carrasco#bi4 4444444444444444444444444444444444444444 44444444444444444444444444444444 4444444444444444444444444444444444444444 44444444444444444444444444444444 4444444444444444444444444444444444444444 44444444444444444444444444444444 4444444444444444444444444444444444444444 44444444444444444444444444444444 ,,iii ,elle 7l'histoire7 enseigne qu'une me pse infiniment plus qu'un royaume1 un empire1 un systme d'tats1 parfois plus que le genre humain4 ,de quel droit8 du droit de ,luther1 qui1 d'un ,non dit au pape1 l',eglise1 l',empire1 enlve la moiti de l',europe4 ,du droit de ,cristophe ,colomb1 qui dment et ,rome et les sicles1 les conciles1 la tradition4 ,du droit de ,copernic1 qui1 contre les doctes et les peuples1 mprisant la fois l'instinct et la science1 les sens mme et le tmoignage des yeux1 subordonna l'observation la ,raison1 et seul vainquit l'humanit4 ,,michelet4 ,levantei-me cedo para esperar o carrasco4 ,luiz o ,negro nascera no lugar de ,capelludos d',aguiar1 freguezia de ,s4 ,joo ,baptista1 e comarca de ,villa ,pouca de ,aguiar1 a sete de maio de mil oitocentos e seis4 ,entravamos1 ento1 n'uma das mais dolorosas pocas da nossa historia moderna4 ,adejavam por sobre a peninsula as aguias do imperio1 e rasgando o vo iam penetrar nas nossas fronteiras4 ,queria o ambicioso da ,corsega1 como um dos conquistadores do paiz da aurora1 aoutar as vagas indomitas e enfurecidas do oceano nas extremas do occidente4 ,napoleo ia decretar1 no seu olympo de ,fontainebleau1 que a dynastia de ,bragana cessra de reinar1 e sentia-se j1 pelo silencio da noite1 o ruido pavoroso da marcha compassada dos legionarios das ,gallias4 ,se os ,braganas1 como os patricios da velha ,roma1 tivessem esperado o ,brenno moderno1 sentados nas cadeiras curues1 na omnipotencia augusta do ,lacio6444 ,no esperaram6 ,fugiram apavorados e444 nervosos1 para alm do ,atlantico4 ,deus lhes perde4 ,chego a crr--o ,eterno se amerceie de mim se erro--que esta absurda e ephemera conquista foi a alvorada da liberdade em ,portugal4 ,receio pouco que me alcunhem1 agora1 de jacobino ou afrancezado4 ,o anathema actual macla1 fere e extermina smente1 n'estas horas d'angustia afflictiva e demorada para toda a democracia europa1 os alcunhados defensores1 aqui1 da fuso iberica e do cantonalismo peninsular4 ,para todos os outros heresiarchas ha perdo nos amplos recintos da politica orthodoxa4 ,os ,mac-,mahons e ,serranos nasceram para edificao das monarchias4 ,substituiram os ,lafayettes e ,monks de todos os tempos4 ,para serem apedrejados e expostos s ignaras vaias da multido temos ns ,victor ,hugo e ,garibaldi no nosso seculo4 ,christo1 em ,jerusalem1 antes de suppliciado1 percorreu as ruas vergando sob o lenho do seu proprio supplicio4 ,assim seja--at que o verbo esplendido da democracia surja como luzeiro da redempo da humanidade4 ,os phariseus de todas as pocas teem sempre uma accusao adrede1 para extinguirem a luz da alma nos homens do futuro4 antiquissima e vetusta usana injuriar os espiritos elevados e prescientes de todos os tempos1 infamando-os com os epithetos1 que o seculo detesta e abomina1 para os crucificar1 sem dr nem piedade1 e entregal-os1 depois1 irriso da gentalha1 e execrao immorredoura dos vindouros4 esta a lenda de ,christna e de ,bouddha no ,oriente1 de ,socrates em ,athenas1 dos ,gracchos e de ,spartaco em ,roma1 de ,christo e dos apostolos em ,jerusalem1 de ,joo ,huss e de ,jeronymo de ,praga na ,allemanha1 de ,savonarola em ,florena1 e de todos os reformadores da humanidade--desde ,abel1 se aceitamos o mytho biblico1 at ao ultimo pastor das ,cevennas1 e at ao derradeiro ,karl ,marx das sociedades modernas4 ,convem estudar a poca em que nasceu o carrasco4 ,depois o ouviremos4 ,os tres estados eram a base da nossa organisao politica e social3 clero1 nobreza e povo4 ,todavia1 elementos preponderantes eram os dous primeiros4 ,vivia e medrava o povo como machina4 ,trabalhava1 suava e mourejava para alimentar e enriquecer o sacerdocio e a nobreza4 ,nas horas de perigo1 no momento das grandes luctas apparecia como comparsa1 enfileirava-se nos cros das supremas tragedias1 e morria na obscuridade de legio1 no completo desprezo da sua insignificancia4 ,acclamava o mestre de ,aviz1 cahia desconhecido e ignorado nos areaes d',africa1 passava desapercebido1 para as chronicas1 nos galees da ,india1 e nos recontros e batalhas figurava pela fora numerica1 como hoje se designam nos mappas de brigada as foras vivas de qualquer regimento ou batalho4 ,afra estes lances era a plebe1 era a villanagem1 era a m do povo1 era a peonagem1 era o numero4 ,na vida campestre emparelhava com o boi1 dormia ao lado do rebanho1 inventariava-se entre as alfaias da officina rural--era a fora empregada no impulso da enxada1 era o guia do arado1 era1 finalmente1 a machina1 que desbravava a charneca1 que enxugava o pal1 que roava o matagal basto e espesso1 que ,semeava o terreno lavrado pelo seu esforo1 e que1 mais tarde1 colhia e arrecadava o fructo4 ,na sociedade urbana era o operario--mal ensinado1 parcamente retribuido1 entregue a si e aos seus proprios e escassos recursos1 sem lio1 sem exemplos1 sem estimulos1 sem auxilio1 e sem mercado vasto e animado para os productos da sua industria4 ,o commercio de grosso tracto1 monopolisado entre algumas dezenas de capitalistas e armadores1 vivia fra da aco productiva do paiz1 como n'um eden de bemaventurana1 onde a entrada era vedada a profanos4 ,desde a casa da ,india at casa dos vinte e quatro era longa a historia das prerogativas e privilegios de classe n'esta nao algemada--exclusivismo absurdo da mais inexperiente e ignara administrao politica1 economica e social4 ,e o povo vivia assim--submisso e reverente--porque as misericordias1 irmandades1 e ordens monasticas de todas as categorias e religies adoavam a miseria publica com o caldeiro da sopa fradesca1 generosamente offerecido na portaria do mosteiro4 ,ensinava-se oficialmente um povo inteiro a ser mendigo4 ,era esta a vida economica e social de toda a peninsula4 ,decretava-se a mendicidade como dogma4 ,eram o pauperismo1 a ociosidade e a degradao humana nobilitados pela ,igreja4 ,e nos amplos e lageados claustros e escadarias do cenobio havia aula publica de abjeco1 de humildade ignobil1 de torpe vagabundagem e de crimes at4 ,o fanatismo religioso nunca desadorou a ,calabria1 a ,floresta negra1 e a ,serra-,morena4 ,que o digam as offertas s madonas de ,italia4 ,viviamos assim4 ,e por isso os nossos monarchas se appellidavam fidelissimos perante a curia do ,vaticano1 e gozava de pragmaticas rituaes a ,igreja lusitana1 que s eram permittidas na s apostolica de ,roma4 ,com as fogueiras da inquisio e a esmola aviltante1 distribuida no peristylo do templo1 alcanramos tudo3 destruiramos e aniquilramos a raa heroica da peninsula ibrica4 ,louvado seja ,deus6 ,a expulso de judeus e mouros1 a fogueira inextinguivel do catholicismo1 e a esmola aviltante e hypocrita d'um clero hediondo1 devasso e fanatico1 assemelhava-nos1 na torpeza1 no aviltamento1 e no cretinismo da frma s colnias jesuiticas do ,paraguay4 ,a semelhana das evolues communaes1 que1 pouco a pouco1 foram erguendo e levantando o poderoso collo da burguezia em toda a ,europa--quiz o marquez de ,pombal1 nos vastos designios da sua potente administrao1 crear e estabelecer1 aqui1 a classe mdia4 ,baldado empenho4 ,a morte do ministro valido de ,d4 ,jos ,i deixou1 em profunda anemia1 o vigoroso e energico elemento social1 que elle intentra crear4 ,expulsramos os sarracenos to tarde1 organisramo-nos1 como nao1 em poca to proxima1 que sem termos soffrido os vexames do feudalismo1 no cremos1 tambem1 a classe1 que mais arcou com elle1 e que o assoberbou e venceu4 ,temos sido sempre o echo remoto e longiquo das luctas sociaes1 politicas e economicas da ,europa4 ,ao passo que a communa1 originada no municipio romano1 sahia das trevas da meia idade1 depois das cruzadas e das luctas feudaes dos grandes vassallos1 caminhando tenazmente por entre os recifes dos direitos senhoriaes e do poder real at chegar1 em ,frana1 revoluo de #aghi1 e affirmava1 sem mais contestao possivel1 os legitimos direitos do terceiro estado--entre ns a burguezia1 a classe mdia foi sempre uma creao ephempra1 uma entidade sem solidez nem significao valiosa1 e tanto assim que1 depois das luctas constitucionaes1 quando triumpharam alguns dos principios liberaes1 pouco a pouco1 a parte mais opulenta1 mais rica1 mais dinheirosa d'essa creao ficticia ennobreceu-se1 afastou-se com desdem e desprezo da sua propria classe--se classe era--buscando no luzimento e esplendor das armarias e librs um marco divisorio1 que a separasse para todo o sempre dos seus irmos no trabalho4 ,e os grupos restantes1 menos abastados1 menos felizes1 e menos poderosos1 pelos haveres1 mergulharam1 por instincto1 educao e costumes1 no seio da plebe onde existem e jazem1 quaesquer que sejam as vaidades com que pretendam esconder esta communho de interesses1 habitos e sentimentos4 doloroso dizel-o1 mas embora3 aceitemos os acontecimentos como so4 ,a revoluo de #ahcb e #ahcc em ,portugal1 em presena da sciencia1 no s no foi uma revoluo social1 mas nem sequer foi uma profunda revoluo politica em todo o rigor do vocabulo4 ,foi uma guerra de successo a um throno contestado por dous irmos1 que se reputavam ambos legitimos1 cercados de partidarios com interesses e direitos offendidos1 e em que um dos pretendentes--o mais habil1 seno o mais feliz--soube crear sympathias heroicas e indestructiveis dedicaes1 appellando para a corrente das idas do seu seculo1 e alcanou captivar as almas generosas1 outorgando uma carta constitucional1 simulacro de liberdades1 que no prenderam nem limitaram--como o no tem feito--o exercicio constante e absoluto do poder e governo pessoal4 ,podem-me contestar uma to resumida e rapida exposio4 ,os factos1 porm1 no deixaro desmentir estas verdades4 ,nas luctas de #ahcc achava-se a nobreza antiga1 a nobreza de sangue dividida nos dous campos1 pelejando em fileiras diversas1 e por vezes inimiga no seio dos proprios solares4 ,todavia no era a diversidade de crenas1 nem a sinceridade das convices1 que a traziam1 assim1 desavinda e odienta4 ,era o egoismo dos interesses perdidos1 era o ciume do valimento ou o odio pelos desprezos da cora1 era o orgulho de preeminencias e prerogativas nas familias titulares1 eram as desconsideraes dos seus pares1 sentidas1 e cuidadosamente legadas1 que iam passando1 no mysterio dos tombos e cartorios1 com a successo dos vinculos por diversos reinados1 eram vinganas sumidas e occultas por entre os pergaminhos de raa1 e todas estas ruins paixes1 todas estas heranas em que o amor proprio e a soberba dos avs1 que se transmittia aos netos1 achou1 na lucta dos dous principes1 respiradouro por onde se expandisse e rebentasse a exploso4 ,foi assim4 ,como casta1 as crenas eram as mesmas4 ,se a palavra augusta de crena pde ter cabida onde se falla de orgulho inexoravel1 de implacaveis interesses1 e onde germina o desprezo inveterado e profundo por tudo e por todos1 que no descendem d'avs1 j nobilitados1 nos seculos undecimo e duodecimo da nossa modernissima monarchia4 ,os reis podem fazer nobres1 mas no teem poder para crear fidalgos4 ,estas palavras1 nascidas da orgulhosa colera d'um adversario puritano da frma politica actual1 explicam nobreza moderna--se ella sabe meditar--como so sinceros e affectuosos os afagos e blandicias com que a antiga aristocracia a trata e recebe4 ,fica escripto por uma vez3 o ultimo filho segundo d'uma casa secular1 ainda o mais empobrecido1 e o mais privado de intelligencia1 ser sempre estimado1 pela sua casta1 acima de todos os genios1 e de todas as illustraes do seu seculo4 ,foi a experiencia1 talvez1 d'estas justas consideraes1 que1 nos sales de ,luiz ,,xviii1 levou um dos mais illustres marechaes do imperio a dizer a um fidalgo do exercito de ,cond3 ,eu sou o meu proprio antepassado4 ,a nobreza antiga1 com excepes rarissimas de que me no occupo agora1 queria liberdades e garantias--queria2 mas exigia-as dentro do circulo da sua casta1 requeria-as para si e para os seus4 ,fra d'esta linha divisoria1 d'este limite sagrado s via a plebe4 ,direitos1 faculdades e poderes originavam-se no numero dos avs4 ,quem no tinha ascendentes conhecidos e nobilitados no era pessoa juridica1 no era homem3 vivia merc da misericordia infinita da nobreza4 ,triste situao era esta6 ,mas era assim4 ,rezam as lendas ou as chronicas1 que uma nobre dama da crte dos ,valois no escrupulisava despir-se diante dos seus lacaios1 segundo o dizer de ,brantme4 ,que importava a sensualidade da gentalha6 ,n'este esquecimento e desdem1 pela plebe1 vivia a aristocracia portugueza1 na contemplao de si mesma1 como o ,zeus dos indus na vasta cosmogonia do ,oriente4 ,o vulgo1 a populaa era a machina posta ao servio do fidalgo4 ,terminada a lucta da successo comearam a recuar1 nos seus esforos patrioticos1 muitos dos nobres1 que militavam nas fileiras populares4 ,era de prevr4 ,os factos consummados tinham mais fora do que todas as aspiraes1 e cegos desejos da nobreza--que se dizia liberal4 ,espiritos pouco previdentes1 por nenhuma frma habituados a estudos sociaes1 inexperientes em todos os actos da vida civil1 creados no desprezo e desconhecimento do trabalho1 que1 accumulado1 produz a riqueza publica1 esperavam encontrar1 na crte do imperador1 as tenas realengas1 obtidas1 pelos servios1 que s no so estereis para a lisonja1 imaginavam conservar1 como monopolio das suas casas solarengas1 os cargos hereditarios1 os empregos vitalicios1 as patentes no exercito1 sem habilitaes obrigadas para as exercer1 e os lugares privativos e rendosos em todas as ordens militares e religiosas4 ,a carta constitucional poderia tornar-se letra morta4 ,demais1 a nobreza no tivera tempo para estudar foraes1 nem cartas de alforria4 ,a aristocracia estava habituada a vr derogar leis do reino por provises regias4 ,para alguma cousa deviam servir os poderes magestaticos4 ,mas quando os acontecimentos vieram1 nos primeiros assomos d'enthusiasmo1 desmentir estas esperanas1 e deram comeo obra de destruio das velhas instituies1 em que andamos todos empenhados--foi1 ento1 que se descerrou a venda de olhos to poucos perspicazes1 e a nobreza viu1 com pasmo inaudito1 que suppondo-se ella1 s ella1 o engenheiro1 que dispra as catapultas1 empregadas pelas faces--era1 apenas1 a singela alavanca1 posta nas mos dos homens do povo1 e que estes apontavam e dirigiam a seu talante e sabor4 ,o clero1 na sua maioria1 na fora viva da sua organisao--esse1 no se deixou illudir4 ,s podia estar ao lado da reaco--e1 por isso1 esteve4 ,e medida que os factos se vo desenrolando1 que novas crenas e novas idas transformam as sociedades--o clero acompanha sempre os partidos retrogados1 senta-se junto do passado1 afaga-o1 anima-o1 protege-o1 defende-o1 por vezes alimenta-o1 e arrasta-o1 depois--at vertigem e ao delirio4 ,quando hirto e inanimado jaz como cadaver sepulta-o1 na indifferena do mais torpe egoismo1 e vem beira do circo1 onde se degladiam os homens1 que outr'ora foram irmos1 e que as leis do progresso j dividiram em bandos oppostos--busca1 ahi1 a phalange reaccionaria1 a que estacionou1 a que receou caminhar1 fascina-a1 pela mesma frma1 apodera-se d'ella1 envolve-a na infinita rede1 e nos tenebrosos tramas do seu sinistro mysticismo1 at que uma nova evoluo social1 por seu turno1 despedace este elo historico1 e o arremesse para a noite dos tempos4 por isso que o povo1 na grandeza dos seus instinctos1 e nos periodos solemnes das suas transformaes--quando as leis inexoraveis1 que regem a humanidade o impellem e obrigam fatalmente a caminhar--encontra-se s1 entregue s suas proprias foras1 e ao luzeiro do seu destino4 ,os chacaes1 as hyenas1 e os corvos vem1 depois1 pela calada da noite1 devorar1 no silencio das trevas1 os cadaveres dos que pereceram nos campos da peleja4 ,mais tarde aboliram-se as communidades religiosas1 annullaram-se as doaes dos bens da cora e ordens1 quebraram-se todos os privilegios e collocaes obrigadas na magistratura1 na ,igreja1 na administrao publica e no exercito1 cercearam-se os lugares do pao1 simplificaram-se as leis dos foraes1 abriram-se tribunaes communs para todos os cidados1 creou-se um systema uniforme de julgar1 acabando com as provises regias1 fros privativos1 e decises especiaes1 finalmente a nobreza conservou os titulos e os cargos honorarios1 mas ficou igualada em direitos e deveres a todos os outros homens4 ,o imperante perdera--pelo menos na apparencia--o moto proprio e a sciencia certa1 com que representava a divindade1 entregando aos poderes consignados1 na carta1 a harmonia da vida constitucional4 99 99 99 99 99 ,quando o relgio da cada dava nove horas1 entrava1 no meu quarto1 um fachina das salas do ,limoeiro com o manuscripto do carrasco4 ,elle no podia vir4 ,sentia os primeiros symptomas da enfermidade de que morreu4 ,escreveu-me um bilhete1 que ainda conservo4 ,dizia-me que viria1 mais tarde1 saber o que eu pensava da sua vida to dolorosa e to angustiada4 ,conservo o bilhete e o manuscripto4 ,vou confiar ao leitor os segredos d'alma d'esta existencia excruciante e afflictiva1 que pereceu no fundo d'uma enxovia4 ,,visconde ,,de ,,ouguella4 #bi ,este e outros capitulos viro a lume1 mais tarde1 quando a occasio fr opportuna4 ,o ,,horror ,,da ,,demencia ,rachel ,varnhagen1 insigne allem1 esposa do grande escriptor do seu appellido1 escrevendo a ,frederico de ,gentz1 dizia3 ,tres grandes cousas me horrorisam n'este mundo3 #a4 uma manada de touros bravos2 #b4 a plebe2 #c4 a demencia4 ,a demencia mais triste que horrorosa4 ,os que a padecem1 se soubessem a compaixo que inspiram1 seriam ainda mais desgraados1--se desgraados so os que no tem a consciencia de o serem4 ,d4 ,domingos de ,magalhes1 o arcebispo de ,mitylene1 morreu1 quando a fome voluntaria o acabou de matar4 ,no houve razes de amigos e de theologos que o movessem a tomar um pouco de alimento4 ,no dava explicao1 sequer insensata1 da sua rigorosa abstinencia2 mas1 entre os seus manuscriptos1 se nos depara tal qual luz1 consoante ella se pde desferir das profundas trevas4 ,diz assim um capitulo intitulado ,o ,impassivel3 ,a impassibilidade ha de ser a futura condio do homem santo que seria semelhante ao cadaver2 a natureza corrompida e degenerada a sde da dr e da molestia1 porque a sua sorte e futuro destino ser a maxima degenerao do ente1 ou a regenerao e renovao do servo1 que o ,senhor creou1 e collocou no paraiso4 ,existe na sciencia theologica um paralogismo1 que convm decifrar e resolver3 a cada passo ouvimos dizer que o homem mau no morre1 e que a sua sorte a morte eterna3 a questo est s na dico e na phrase2 uma amphibologia ou questo de palavras4 ,o homem mau no aceita a morte voluntaria para expiar a pena do peccado2 e1 como resiste ao decreto da divina misericordia e graa1 no morre para resuscitar1 no se regenera1 perverte-se e corrompe-se cada vez mais4 ,o homem santo mata o corpo natural para receber o eterno1 perde o maculado para conseguir o immaculado1 troca o barro pelo ouro1 e cora-se com o martyrio do sangue e do amor1 ou com o diuturno da penitencia e da santidade4 ,toda a vida humana deve ser um martyrio1 ou um aggregado de virtudes e de qualidades equivalentes4 ,o homem mau tenta conservar o fumo1 que o asphyxia no inferno1 no se mata nem resuscita1 perverte-se e degenera1 corrompe-se e materializa-se cada vez mais4 ,o primeiro homem morreu no paraiso1 mas conservou o cadaver da galvanisao eterna2 o segundo homem perde-se no exilio1 aonde morrem todos os que o preferem patria1 e renuncia-o s suas saudades1 amor e realeza4 ,o homem mau tem duas degeneraes3 a primeira materialisou-o1 a segunda ha de bestialisal-o a desfigural-o1 privar o ente de suas esperanas1 promessas1 e de toda a gloria1 fraternidade e bemaventurana eterna4 ,a regenerao faz o homem impassivel1 e opra muitas vezes em vida os seus beneficos e maravilhosos effeitos4 ,o paraiso ha de exaltar e acrisolar estas sublimes virtudes1 porque a humanidade santa ha de seguir at ao fim dos seculos e das geraes e conquistar pela divina misericordia todos os dotes sobrenaturaes dos corpos gloriosos4 ,o homem santo ser impassivel1 sem dr e sem temor1 superior natureza1 e semelhante aos anjos1 e comtudo pagar o seu tributo morte por uma diuturnidade de provas pela penitencia e pelos votos mais solemnes e agradaveis ao ,senhor1 e por todos os sacrificios que podem exagerar e exaltar a virtude do homem4 ,muitos santos conseguiram em vida alguns dotes de impassibilidade2 os authores pouco versados na sagrada theologia e nos seus arcanos1 ousam asseverar que a dr e a fome1 a morte e as tribulaes so consequencias necessarias da natureza humana por ser limitada1 contingente1 e passageira3 se dissessem1 que so consequencias immediatas da natureza degenerada1 e penas propostas pelo ,senhor ao reato1 do peccado original1 diriam a verdade1 e fallariam ou escreveriam com exactido1 com logica e coherencia de principios4 ,se bem me lembra1 ,antonio ,genuense cahiu no erro dos que mettem a fouce na seara alheia sem conhecimento de causa1 sendo em geral mui prudente e avisado4 ,s4 ,joo ,baptista no bebia vinho nem cerveja1 comia mel silvestre2 o ,stylita comia um bocado de po s aos domingos1 e permanecia sempre fixo1 immovel1 e levantado sobre a sua columna de dia e de noite1 de vero e de inverno1 annos e lustres por divino milagre4 ,s4 ,paulo ,eremita era sustentado por um corvo1 comia diariamente s o que a ave do agouro podia trazer no bico1 era um bolo do co3 os exemplos so innumeraveis3 todos provam que a humanidade santa ha de conseguir no paraiso at o fim a impassibilidade da dr e da fome2 porque no co no se come3 os maus soffrero lazeira e esuria no inferno1 porque o mundo est condemnado ao fogo e perdio4 ,estas verdades so dogmaticas2 os herejes negam todos os milagres do divino martyrologio da santidade2 obrigam-nos a fallar de ns3 quando chegar o tempo da maxima profanao humana1 o fiel regenerado beijar a mo que o sacrificar pelo martyrio1 e desejar com elevada ambio receber pessoalmente a sua cora em vez da outorga na communho e na sua geral misericordia2 o que se coroar pelos seus esforos1 e pelo odio da tyrannia ser mais ditoso e mais laureado3 a morte uma pena para o que recusa pagar a divida eterna2 o que paga voluntariamente expia pelo amor divino a maxima gravidade do castigo e consegue a sua impassibilidade3 o martyrio uma virtude de communho1 as suas provas sero cada vez mais faceis e mais suaves para os santos pela unio com ,deus4 ,no paraiso ser um sonho e um devaneio1 um magnetismo e uma transmigrao voluntaria4 ,a impassibilidade1 a virgindade1 a gerao espiritual1 o desejo e o voto do martyrio1 o jejum completo1 ou as aspiraes da abstinencia e da penitencia ho de ser frequentes e geraes1 admiraveis e sobrehumanas na divina providencia do paraiso3 convm persuadir estes desejos e esforos1 para que ninguem desanime1 ou recuse a reconquista da perfeio e da pureza por julgar impossivel ou difficil o transito1 ou aspero e intratavel o caminho que conduz ao summo bem4 ,eu tomei rap com excesso por espao de vinte annos1 por conselho de medicos1 e por habito1 gosto1 vicio ou paixo1 quando principiei em ,lisboa o culto soberano do sagrado lausperenne ao ,santissimo ,sacramento no anno de mil oitocentos e cincoenta e oito2 era eu s para o exaltar1 no tinha acolyto1 nem ministro1 dizia missa diaria1 adorava duas vezes por dia com treze luzes de cera sendo uma s de azeite1 rezava o officio divino1 escrevia1 trabalhava1 compunha1 e via-me na necessidade de vigiar de dia e de noite as luzes de cera e azeite que ardiam diante da divina magestade do ,santissimo1 e de lavar a casa da minha basilica2 e por isso dormi poucas horas1 e sempre vestido no decurso de dezeseis para dezesete mezes de continua e incessante adorao1 sem uma falta1 e deixei o uso do rap por decencia e reverencia at o dia de hoje sem quebra1 e sem perigo1 sem saudade e sem pezar4 ,minha mi mandou pr minha disposio um bote de rap no anno de #ahfj1 em ,villa ,pouca1 aonde eu j no adorava1 nem podia dizer missa3 o rap esteve na gaveta mais de um anno2 eu nunca mais abri o bote e padeci grandes dres de dentes1 que me determinaram a extrahir alguns a ferro2 quando fui ao ,porto offereceram-me rap1 eu no aceitei4 ,eu vivia parcamente1 mas a minha mesa sempre foi abundante e at lauta2 jejuava e comia carne nos dias permittidos1 o melhor peixe e guisados1 e todos os appetites que a boa mesa offerece3 eu no procurava os seus regalos1 mas no repellia nenhum dos permittidos3 agora fao penitencia1 e no como carne nem peixe ha mais de oito annos4 ,em #ahfj comi carne algum tempo em pequena quantidade1 mas logo a deixei e todo o peixe at agora3 passei mais de um anno s com um quartilho de leite por dia e com menos de quarenta reis de po1 e com um arratel de assucar chegava para treze dias at dezeseis4 ,nunca fui apaixonado do vinho1 mas no o repellia inteiramente2 agora no bebo vinho1 nem bebida espirituosa ha annos4 ,como por dia menos de #dj reis de po1 jejuo tres dias por semana1 s quartas1 sextas e sabbados1 e ha mais de tres annos ainda no faltei a esta disciplina de jejum nem nos dias de jornada4 ,nos outros dias tomo um caf com leite1 um vintem de po1 e uma quarta de assucar chega para cinco dias1 e diminuo a minha sopa que consta de uma dse de arroz com manteiga1 ou com azeite segundo o dia2 um arratel chega para cinco dias1 e s vezes para seis3 noite como um bocado de bra ou de po4 ,e com esta disciplina e regular dieta trabalho1 rezo1 escrevo e medito ha muitos annos sem descanar nem um dia e sem interromper o trabalho1 que executo de joelhos por divino milagre1 ha quantos annos8 ,as obras escriptas respondem por ns3 muitos dias de inverno principiei a trabalhar s duas horas da noite1 e continuei a minha tarefa at s duas horas dos seguintes1 empregando mais de dezoito horas no afo da escriptura4 ,escrevo e rezo sempre de joelhos1 e sustento-me n'esta reverente posio por mais de doze horas1 dias e mezes successivos haver um lustro1 por estar na divina presena4 ,a impassibilidade o presagio do paraiso4 ,lucifer e a sua maldita confuso e degenerao ha de receber a honra da morte e todas as dres que causou humanidade com o peccado original por haver seduzido nossos paes no paraiso das delicias4 ,nenhum peccado ficar sem pena eterna1 nenhuma dr ha de extinguir-se ou aniquilar-se1 perder-se1 ou evaporar-se3 o que causa da causa causa de todos os effeitos e consequencias4 ,a crueldade antiga em vez de matar os reis legitimos castrava-os1 tirava os olhos a outros ou punha mascaras de ferro3 a actual das seitas vendeu-me para me occultar a minha genealogia e direito1 e obrigou-me a seguir o estado ecclesiastico para me castrar3 os seus vicios foram mais impios do que os antigos1 e converteram-se contra os insanos4 ,eu seguia o estado ecclesiastico com amor1 e aprendi a defender o meu direito na poca propria e quando convinha3 sou mal por ser do paraiso4 ,toda a minha vida um milagre diuturno3 os monstros jmais poderam privar-me da existencia2 as suas conspiraes so incessantes1 geraes1 concentradas1 diabolicas e perfidas4 ,no dia dez estava para escrever a bulla quinta e no sabia sobre que havia de legislar3 abri ao acaso o sagrado concilio de ,trento1 sahiu a sesso vigesima segunda que falla em legados apostolicos1 que o objecto da referida bulla4 ,no dia oito resolvi metter sete folhas no caderno das leis1 e inclui por engano s seis folhas1 e chegaram e no cresceu o papel3 no dia nove metti as sete folhas1 e aconteceu o mesmo milagre3 todas as leis e bullas so originaes sem borro1 ou copia4 ,deixo o soberano titulo no alto da folha2 no dia nove aconteceu ficar em branco a lauda que precede a ultima bulla por defeito ou imperfeio do papel1 e foi razo para que no crescesse1 nem faltasse4 ,tenho quatro pennas de ave em exercicio de escriptura1 uma negra1 e escrevo o ,impassivel com esta3 no dia nove escrevi com as quatro pennas2 duas estavam j refugadas1 duas eram novas1 duas appareceram a um canto3 eu j mandei procurar mais pennas mas no apparecem venda3 escrevo1 com dous vintens d'estas pennas ha mais de quatro mezes1 e com dous vintens de tinta ha mais de meio anno1 e quebrou o vidro1 alis seria como a panella inexhaurivel de ,elias3 o resto da tinta est em um pires de porcelana que serve de tinteiro2 eu s tenho dous pires1 e duas chavenas4 ,no tempo da usurpao de ,d4 ,miguel uma senhora chamada ,rosa deu-me a effigie do tyranno1 eu dei-a em ,villa ,pouca a um homem affeioado tyrannia2 o marquez de ,lavradio deu-me uma veronica da ,santissima ,virgem ,immaculada em ,lisboa no anno de mil oitocentos e cincoenta e cinco1 eu dei-a em ,villa ,pouca a uma senhora chamada ,rosa4 ,visitei em ,bemfica1 como deputado da universidade de ,coimbra1 a supposta infanta ,d4 ,isabel ,maria1 a qual no me pagou a visita2 uma irm de ,eiris visitou-me em ,villa ,pouca1 eu fui a ,eiris1 e no a visitei4 ,fiz algumas visitas supposta imperatriz do ,brazil1 falsa duqueza de ,bragana a rogo e instancias de varios mordomos ou agentes da sua casa2 a cruel jmais ousou levantar os olhos para ns3 quem pagar ou satisfar estas dividas de amor e de reverencia8 ,depois que estou em ,chaves vi duas raposas mortas1 uma femea em ,santa ,maria ,magdalena1 um macho em ,santo ,amaro2 tenho duas vassouras1 fui servido desde o anno de mil oitocentos e sessenta por duas criadas mulatas1 uma em ,villa ,pouca1 irm do burro cruel1 outra nos banhos do lugar de ,caro ou de ,arcozelo3 fui servido por duas criadas filhas da viuva1 uma de ,montenegrelo1 outra de ,chaves1 aquella deu-me um guarda-chuva para a jornada que eu dei a esta1 e dei um leno de sda criada de ,montenegrelo3 j bati em duas1 uma fugiu e no levou4 ,hontem veio o homem do leite no momento em que eu acabava a orao da manh3 hoje repetiu o mesmo mysterio4 ,jos ,joaquim dos ,reis1 juiz de direito de ,lisboa1 condemnou a dez annos de degredo um energumeno que dizia missa e prgava sem ter ordens1 e denunciou-me a simonia que o abominavel patriarcha ,guilherme commetteu em ,roma3 n'aquelle tempo no havia em ,lisboa prelado legitimo2 eu argui o antipapa1 e declarei energumenos todos os seus tonsurados3 o falso padre gerou todos os actuaes1 mas a sua sorte ha de ser diversa3 os herejes amnistiaram o nefando1 no podem absolver os traficantes4 ,o perfido ,cassiomano fallou-me cinco vezes1 duas nas ,necessidades1 e uma em ,mafra1 so dous paos reaes1 outra no pao das escolas1 da universidade so dous paos de escolas3 porque ,mafra escola militar3 esteve commigo duas vezes na academia de ,lisboa1 no collegio dos ,nobres1 e no convento da academia1 so duas academias1 ou mais3 uma em ,coimbra outra em ,lisboa1 uma nos ,nobres1 outra no convento da academia das sciencias1 duas de ensino1 e duas normaes3 porque o militar goza d'esta categoria em relao s esclas do exercito1 duas em ,lisboa e duas fra de ,lisboa4 ,so cinco e seis vezes3 porque eu fallei uma vez ao monstro nos paos da universidade como provedor da misericrdia2 elle mandou-me um recado misericordia de ,chaves pelo ,antunes e pelo provedor4 ,o dualismo uma graa2 a perfidia uma abominao e um horror4 ,,restaura,o ,,de ,,um ,,documento ,,historico ,,valioso ,rebello da ,silva1 na sua ,historia de ,portugal1 reportou-se a um documento que o snr4 ,ferdinand ,denis encontrra na bibliotheca real de ,paris1 relativo historia dos motins sequentes perda de ,d4 ,sebastio1 e publicra no ,portugal pittoresco4 ,o nosso historiador no trasladou o documento1 com quanto fosse importante4 ,e ajuizadamente procedeu2 porque1 sendo elle verso do portuguez1 difficil seno impossivel seria revertel-o frma original4 ,poderia ,rebello da ,silva pedir o fiel traslado d'esse papel1 incluso no codice n4 #aj3bda1 e dal-o no corpo da sua historia1 como testemunho das velhas regalias populares nas crises grandes de ,portugal2 mas dependendo isso de esmeros1 pausas e minudencias que se descasam da indole peninsular1 o documento ficou desconhecido1 apesar da traduco do historiador francez4 ,e1 no obstante correr ahi uma verso miserrima do ,portugal pittoresco1 o documento alli reproduzido incute suspeitas de falso1 porque no tem1 no torneio e na phrase1 algum vestigio do dizer portuguez de #aegi4 ,e1 todavia1 no posso j duvidar que ,martim ,fernandes1 sapateiro1 e ,antonio ,pires1 oleiro1 no #a4 de junho de #aegi1 estando os fidalgos reunidos na igreja do ,carmo para jurarem fidelidade ao cardeal-rei ,d4 ,henrique1 entraram ruidosamente na assembla1 e proromperam pedindo que lhes ouvissem a falla que iam fazer em nome do povo de ,lisboa4 ,e no duvido1 porque sei o que foi a liberdade portugueza at que ,d4 ,joo ,,iv comeou de a jarretar feio do seu genio despota1 e porque tenho presente o discurso do mestre sapateiro1 escripto ainda no mesmo papel onde lh'o deram para o decorar4 ,e como bem cabido mostrar o original em face do retraduzido no ,portugal pittoresco1 sob palavra do snr4 ,ferdinand ,denis1 aqui os defronto1 e ponho como advertencia aos que aceitam1 sem critica1 a historia que nos vem de torna-viagem4 ,,original ,senhores4 ,temos sabido que algumas pessoas principaes e nobres descuidadas de suas obrigaes e honras fallam de fazer cousas contra o bem commum e seguridade d'estes reinos1 a que determinamos de acudir como bons portuguezes1 e lembrados do que fizeram os moradores d'esta cidade no tempo d'el-rei ,d4 ,joo ,i e d'outros reis1 por tanto pedimos a vm4ces como a cabeas e membros principaes d'esta republica que nos ajudem e que no percam sua honra e direito por parcialidades nem preitos particulares2 que sejam vm4ces certos que para uso e para defenso de nosso direito e castigo dos inquietos portuguezes estamos promptos com #bj3jjj homens d'esta cidade e seus termos1 os quaes ajuntaremos em duas horas sendo necessario1 e poremos fogo s casas dos que j agora comeam de fallar e tratar contra o bem commum e socego d'estes reinos1 o que no poremos em execuo em quanto esperamos castigo e remedio por outra via4 ,e pareceu-nos que deviamos de fazer esta lembrana n'este estado e nos outros dous para com mais seguridade tratarem todos do bem commum e quietao d'estes reinos sem receio de fora nem violencia nem outros medos cautelosos e prejudiciaes1 e para se no ouvir mais d'aqui por diante os que impossibilitam tudo sem lhe darem nem procurarem remedio1 os quaes todos se deviam e devem de haver por mais suspeitosos4 ,,vers,o ,senhores4 ,consta-nos que varias das principaes pessoas1 e alguns nobres1 esquecidos das obrigaes a que esto ligados1 e fazendo da honra pouco cabedal1 usam de uma linguagem1 e praticam actos contrarios segurana d'estes reinos4 ,como bons portuguezes estamos decididos a dar remedio a este mal1 porque nos lembramos do que fizeram os habitantes d'esta cidade no tempo de ,d4 ,joo ,i1 e no de outros monarchas4 ,rogamos a vossas senhorias1 como primeiras pessoas da republica1 que a ajudem a sustentar2 e que no percam a sua honra e direito1 dando orelhas parcialidade1 ou olhando a circumstancias particulares de alguns individuos4 ,podem vossas senhorias ficar certos de que para a defensa de nossos direitos1 e castigo dos portuguezes versateis1 estamos promptos a levantar-nos com #ae ou #bj3jjj homens d'esta cidade1 e seus arredores4 ,se fr necessario1 duas horas bastaro para os reunir1 e iremos incendiar as habitaes dos que comeam a fallar e a obrar contra o bem geral4 ,com tudo1 no recorreremos a taes meios em quanto tivermos esperana de obter remedio e castigo por outro modo4 ,talvez conviesse lembrar isto ao estado da nobreza1 assim como aos dous outros estados1 para que toda a assembla trate com plena segurana1 do bem commum1 e da tranquillidade d'estes reinos1 sem temor da fora1 violencia1 e de meios preventivos ou damnosos4 ,esperamos que mais se no attender voz dos que julgam tudo impossivel1 e que no querem dar nem procurar remedio a semelhantes males4 ,o traductor1 como se viu1 no lhe soffreu o melindre que os dous populares tratassem de vossas-mercs os fidalgos1 safados 7duas vezes7 cobarde ignominia de ,alcacer-quibir3 deu-lhes senhoria4 ,ah6 bom relojoeiro de pag4 #eg6 ,a ,,dan,a ,gemem os prelos desde que a moral geme nos bailes4 ,ha lendas medonhas1 casos que eriam os cabellos1 castigos infligidos a danarinos4 ,leiam na ,floresta do padre ,manoel ,bernardes a lenda dos ,bailarinos4 ,pois ainda ha passagens mais escandalosas e funestas1 por causa das danas2 mas j no ha quem as aprege com virtuosa ira4 ,no ha ninguem que1 ao outro dia de um baile1 clame na local ou no folhetim que um scelerado ousou inclinar-se ao ouvido da donzella com quem danava1 e dizer-lhe3 vr-te e amar-te foi obra de um momento4 ,sabem todos que as phrases assim ardentes queimam as senhoras2 mas ninguem prope que os estylistas d'esta fora sejam chamados ao commissariado2 ou que as damas sujeitas a ouvil-os se vistam de amiantho1 se ,deus as no fadou com a virtude incombustivel de salamandras4 ,verdade que o transigir com os maus costumes vem de longe4 ,temos o exemplo de exemplares vares a quem competia pr cobro aos bailes4 ,aqui tenho eu um ,tratado dos principaes fundamentos da dana1 publicado em #agfg1 pelo mestre d'aquella viciosa pantomima1 ,natal ,jacome ,bonem1 e licenciado pelo santo officio1 e pelo ordinario6 ,fr4 ,caetano de ,s4 ,jos1 eremita augustiniano1 doutor em theologia1 provincial da ordem1 etc41 foi o encarregado de censurar officialmente o manuscripto do ,tratado da dana4 ,se este frade estivesse no prumo da sua misso1 deixava-se cahir1 com todo peso de sua gravidade1 sobre o mestre ,natal1 e esborrachava-o e mais ao incendiario manuscripto4 ,com bastante pejo das fraquezas d'este proximo1 e para escarmento de futuros frades censores de futuras danas1 reproduzo a opinio de fr4 ,caetano de ,s4 ,jos3 ,no me envergonho em obsequio do meu estado confessar ingenuamente se no estendeu para a arte de dana nem ainda a curiosidade dos meus estudos3 sei que algumas especies d'esta mereceram no estabelecimento da disciplina ecclesiastica uma bem severa reprehenso e merecida prohibio fundada na solemne profisso que fazem os que pelo sacramento da regenerao se formam membros vivos de ,jesus ,christo e filhos espirituaes da santa ,igreja2 no ignoro tambem que outras tem o justo louvor com o exemplo de um rei santo como ,david1 danando na presena da arca do testamento4 ,se os preceitos da presente arte1 expostos na verdade com toda a modestia se ordenarem para o uso d'estas e outras de semelhante decencia e honestidade1 nem sero oppostos santidade dos costumes1 assim como o no so aos pontos essenciaes da nossa santa f4 o que posso informar1 etc4 ,ento que o que informou o frade8 ,parece dizer que1 se esta ,arte de dana leva em vista ensinar a bailar o sarambeque que o santo rei ,david danava adiante da arca1 ento sim1 publique-se o livreco2 mas1 se o author intenta regambolear as tibias de suas discipulas em gavotas1 cirandas e outros bailados lubricos1 n'esse caso o santo officio delibere o que lhe parecer4 ,ora eu j vi1 em ,braga1 danar o santo ,david4 ,era um cancan a s1 um requebro desnalgado1 um alar de perna bruta e rija que1 se apanhasse a arca1 daria com ella na cara do sol4 ,voltando ao livro do francez ,natal ,bonem1 acho n'elle excellentes preceitos de educao que seriam1 em substancia e frma1 bem cabidos n'um dos compendios do snr4 ,joo ,felix ,pereira4 ,o cap4 ,,vi1 por exemplo3 ,do modo que as senhoras devem andar1 e se deve apresentar4 7,v-se que era mais forte em dana que em grammatica74 ,ahi vai o capitulo na integra4 lyrico1 delicado e muito de aproveitar3 ,no duvido1 que se me accuse de ignorante1 e de indifferente1 ou de no saber ensinar1 seno aos homens2 seno mostrra zelo1 e atteno para a instruco do bello sexo3 ellas1 que so a alma da dana1 e que lhe do todo o brilhante1 que ella tem2 e parece que a natureza a reveste de mais graa2 porque sem a presena das senhoras a dana no est to animada2 so ellas as que fazem nascer este ardor1 e nobre emulao1 que se encontra entre ellas1 e em ns1 quando danamos ambos1 principalmente com aquellas1 que executam bem este nobre exercicio2 nada me parece mais agradavel em uma companhia1 que de vr danar duas pessoas de um e outro sexo com seriedade2 que de applausos1 e que de gostos para os circumstantes4 ,independentemente do que se tem dito em os capitulos precedentes1 que tco igualmente a um1 e a outro sexo8 as mesmas reflexes so necessarias para as senhoras1 ellas devem voltar os ps para fra1 estender os joelhos1 ainda que muitas pessoas pretendem1 que no se lhes conheam estes defeitos1 mas por tirar este engano1 principalmente para as senhoras moas1 que por desmazelo1 ou pouca curiosidade o no faam2 no quero seno o seu proprio voto1 que se ponham diante de um espelho de vestir1 e que ellas andem alguns passos1 observando o modo de bem andar1 que est escripto para os homens1 e se encontraro com outro ar1 e conhecero1 que de ter a cabea direita1 o corpo fica com maior firmeza1 e os joelhos estendidos1 os passos so mais seguros2 tenho feito uma reflexo1 que me parece muito justa sobre o modo de saber levar bem a cabea1 e que uma senhora por muito engraada1 que seja em seu modo de levar a cabea1 far julgar differentemente de si1 v4 g4 se ella a levar direita1 o corpo bem posto1 sem affectao se dir2 eis aqui uma senhora1 que tem um ar muito nobre2 e se se deixa ir com negligencia1 se lhe chamar preguiosa2 se a deixa cahir para diante2 bizonha1 e se a leva muito baixa1 de pensativa1 e de vergonhosa2 e outras muitas cousas1 que no escrevo por no ser proluxo3 desejo que todas as senhoras no faam o modo facil1 que se vem descrever1 para que no ciam em nenhum dos defeitos1 que tenho recitado4 ,para bem andar preciso ter a cabea direita1 os hombros baixos1 os braos retirados para traz1 acompanhando bem o corpo2 mas dobradas1 as suas mos uma em cima da outra1 com um leque na mo1 e principalmente sem affectao4 ,no escrevia em estylo apocalyptico4 99 99 99 99 99 ,este francez que tanto polira e lapidra o bruto diamante das damas lisbonenses da crte de ,d4 ,jos ,i1 tinha uma filha esbeltissima1 engraada de todos os amavios francezes1 e muito esquiva aos amores dos discipulos de seu pai1 at hora fatal em que o p1 n'um difficil passo de minuete com o deus frecheiro1 lhe escorregou em ladeira de flres1 e444 ella l vai com o conde-baro d',alvito embrenhar-se nas florestas de ,cintra4 ,o mestre de dana bravejou1 pediu vingana s leis1 ao direito internacional1 ao ministro omnipotente ,sebastio ,jos de ,carvalho4 ,o ministro e as justias sorriram1 sob capa1 do atribulado danarino4 ,o marquez de ,pombal1 esse ento era to caroavel de francezas1 que ainda1 aos #fj e tantos annos1 escrevia epistolas amatorias a uma1 que por signal lh'as rejeitava com phenomenal honestidade4 ,veja ,historia do reinado d'el-rei ,d4 ,jos1 pelo snr4 ,soriano1 tom4 ,,ii1 pag4 #fdi e seg4 ,natal ,jacome ,bonem sahiu de ,portugal1 e deixou a filha1 quando1 sobre a affronta1 se viu ridiculisado pelas seguintes coplas que os fidalgos enviavam uns aos outros3 ,,ao ,,roubo ,,de ,,uma ,,franceza ,,filha ,,do ,,mestre ,,dos ,,minuetes ,toda a terra falla e diz que roubra assim toa certo ,pris de ,lisboa uma ,helena de ,paris2 e que o rapto vingar quiz seu pai que todo se abraza por lhe levarem de casa1 ainda em pea1 a melhor joia2 mas1 porque no ardeu ,troya1 ficou o velho uma braza4 ,a ,pris lhe foi forosa esta eleio por estrella no s como grega bella1 mas como deusa formosa4 ,como a viu to carinhosa1 to bonita1 to astuta1 to gordita1 to enxuta1 ,pris lhe deu a ma e ella gosta da fruta4 ,etc4 ,o poema d'aqui por diante leva a crueza at ao despejo da phrase4 ,que tempo aquelle6 ,costumes de ouro6 ,roubava-se a filha a um forasteiro1 injuriava-se o pai com obscenas gargalhadas1 a vergasta da irriso obrigava-o a transpr as fronteiras com o corao despedaado6 ,reinava ,d4 ,jos ,i1 o amante da marqueza de ,tavora1 ento viuva1 e j consolada da perda do marido1 que o amante lhe mandra degolar e queimar no cadafalso de ,belem4 ,como este ,portugal floreceu n'aquelles dias6 ,o erario a trasbordar de milhes e os subterraneos de lagrimas6 ,comecei com danas e acabei com lagrimas4 no que as danas param ordinariamente4 ,ou ellas no fossem inveno do diabo1 como diz o meu oratoriano ,bernardes4 ,,fim ,o n4 #ab finalisa a serie das ,,noites ,,de ,,insomnia4 ,o favor publico esquivou-se a proteger esta empresa4 ,parte dos artigos publicados desagradou maioria dos subscriptores queixosos do rano de cousas antigas com que eu pejava as paginas de uns livrinhos mais acommodados ao recreio que instruco de alguns leitores mais ou menos ignorantes1 se os ha4 ,verdade que eu no tinha promettido #ajj paginas futeis e risonhas por mez4 ,l est no #a4 numero um proemio claro e modesto4 ,afoutamente me desvaneo de no haver deslisado do programma a que me obriguei4 ,esta serie de livrinhos--escrevi eu--ha de ser uma cada com elos de bronze rijos e toscos1 e elos de pechisbeque flammantes e quebradios4 ,o bronze a poro prestadia do opusculo1 etc4 ,enganei-me4 ,as paginas arguidas de enfadonhas me pareciam a mim as melhores e mais estimaveis1 se os que as leram as ignoravam2 todavia1 se eu dei como novidade em historia o que era j notorio ao leitor enfastiado1 o seu tedio natural e racional4 ,porm1 se me replicam dizendo que se dispensam de saber as pulvereas velharias que eu lhes contei1 augmenta a justia do seu queixume2 porque ninguem deve directa ou indirectamente offender a ignorancia de outrem4 ,pelo qu1 a todos peo desculpa1 e a meu favor entremetto a illustre pessoa que me induziu a salvar da obscuridade lances da historia e dos costumes portuguezes1 que se me prefiguraram prestantes na concatenao de factos1 desligados por mingua de documentos desconhecidos4 ,o mestre venerando que me moveu a no ser de todo em todo frivolo nas ,,noites ,,de ,,insomnia chamou-se n'este mundo ,d4 frei ,manoel do ,cenaculo2 e as palavras que me seduziram esto impressas e rezam assim3444 ,mil occorrencias funestas tem precipitado em um abysmo de perda profunda1 escura1 irrevogavel os trabalhos litterarios1 e ainda a simples memoria de muitos vares sabios4 ,abateram esses miseraveis tempos as foras da curiosidade1 que poderia hoje augmentar a estimao da bibliotheca lusitana1 escondendo e perdendo as nossas noticias4 ,este o defeito de que ainda hoje se pde formar uma justa queixa1 e que fazem ignorados na verdade innumeraveis documentos1 capazes de acrescentar a dignidade nossa historia4 ,isto tambem o que me excita e commove a rogar instantemente aos meus patriotas por tudo quanto capaz e digno de no se desattender sem affronta1 que se animem a publicar quanto nos faa gloria1 e a mostrarem cada vez mais illustre a face dos nossos annos antigos4 ,o douto prelado no conhecia os seus patriotas1 e eu1 que to arredado vivo d'elles1 ainda os conhecia menos4 ,na minha pequenissima livraria ha muitos ineditos cuja publicidade no seria despecienda aos porvindouros historiographos4 ,ahi ficam4 ,meus filhos1 se tiverem juizo1 e armarem benemerencia dos seus conterraneos1 que os vendam a peso4 ,no obstante1 alguns publicistas receberam benignamente as ,,noites4 ,entre esses1 reala com particular authoridade e voto o snr4 ,antonio ,augusto ,teixeira de ,vasconcellos1 protector caroavel e affectivo de quantos n'este paiz grangeam po ou gloria nas lidas litterarias4 ,sei quanto me cumpre descontar no merito da obra elogiada1 cortando tambem pela demasiada benevolencia do escriptor eminente2 mas1 cerceado o que ahi houve de favor1 ainda me sobeja muito para gratido e ufania4 ,ao snr4 visconde de ,ouguella agradeo com mais sentimento que expresses as paginas formosissimas que interpoz n'estes opusculos4 ,o ,,carrasco1 apenas comeado1 se aqui fosse concluido1 viria a dar crescido valor a esta colleco2 entretanto1 muito grato me ter excitado a curiosidade das pessoas intelligentes para que o visconde de ,ouguella se obrigue a escrever e publicar um dos livros mais assignalados de independencia austera e sentimentos generosos1 que ho de ter galardo1 quando os que pelejaram sob o labaro da justia forem chamados a testemunhar no pleito que segue o seu arrastado processo entre opprimidos e oppressores4 99 99 99 99 99 ,ao despedir-me dos poucos subscriptores que me apertam a mo com estima e por ventura com saudade1 vou fazer-lhes uma revelao que pde desairar a minha vaidade de escriptor1 mas que muito faz em honra do editor das ,noites4 ,elle soube que a opinio publica desmentia1 dormindo1 o titulo da obra4 ,sabia que a insistencia na publicao lhe era prejudicial e desesperanada de tardio reembolso4 ,em fim1 pagava despendiosamente e silencioso a minha dce illuso de cuidar que entre ,ponson e ,escrich haveria lugar para estas brochuras nas estantes ou nas canastras de tanta gente que sahiu triumphal e erudictamente do seu exame de instruco primaria4 ,meu prezado snr4 ,ernesto ,chardron1 obrigado sua rara e fina delicadeza6 ,se as ,noites lhe foram ms1 eu d'este leito de rheumatismo lh'as envio boas e do corao4 ,,fim ,,do #ab4 ,e ,,ultimo ,,numero