,library of ,portugal 7,biblioteca ,nacional de ,portugal747 99,nota de editor399 ,devido quantidade de erros tipogrficos existentes neste texto1 foram tomadas vrias decises quanto verso final4 ,em caso de dvida1 a grafia foi mantida de acordo com o original4 ,no final deste livro encontrar a lista de erros corrigidos4 ,rita ,farinha 7,mar4 #bjjh7 ,,nova ,,academia ,,de ,,pintura ,,dedicada ,s ,,senhoras ,,portuguezas ,que amo ou se applico ao estudo das ,bellas ,artes4 4444las ,mugeres quando ,talves1 applicar se han visto ,a las ,letras1 o las ,artes1 ,los ,hombres han excedido4 ,,lisboa3 ,,na ,,impress,o ,,regia4 ,,anno #ahag4 ,com ,licena4 ,,proemio4 ,quando vou discorrer sobre a ,arte da ,pintura1 parece que deveria comear pelo seu elogio2 mas no o farei1 por me parecer cousa superflua1 e bem sabida de todos3 observarei smente1 que a ,arte por si s1 inda que fosse levada a hum alto gro de perfeio1 no poderia fazer illustre1 e estimavel aquelle que tivesse o odioso1 ou ridiculo comportamento de hum ,brouwer1#a de hum ,aleixo ,transpadano1#b ou de hum ,bufalmaco2#c mas se pelo contrario1 algum soubesse ajuntar honra1 e virtude os talentos de ,rafael1 de ,corregio1 ou de outro grande ,pintor1 estas raras qualidades assim reunidas1 constituirio 7diz ,richardson7 hum mortal cujo esplendor poderia luzir mito1 mesmo em hum mundo ainda melhor de que este4 ,na ,poesia no se admittem medianias2 mas na ,pintura ha tantas e taes difficuldades a vencer1 que ,o ,pintor de segunda ou terceira classe merece o mesmo gro de estimao que hum homem de primeira ordem em qualquer outra ,faculdade4 ,mas se esta scientifica ,arte1 pela sua belleza e profundidade1 tem sido digna da applicao de muitos homens da mais alta esphera1 no deixa ella tambem1 de ser igualmente propria1 ou talvez mais propria ainda1 para as ,senhoras2 principalmente naquelles casos em que so mais necessarias a graa1 e a delicadeza3 assim1 tem feito as ,naes conhecedoras o maior apreo das obras da ,sirani1 da ,sophonisba1 da ,rosalba1 e de muitas outras1 cujos nomes fazem tanta honra ao bello ,sexo1 como s suas patrias4 ,a ,musica he huma arte angelica1 e pode entreter deliciosamente qualquer ,senhora1 huma ou duas horas cada dia2 a leitura a divertir tres ou quatro2 mas a ,pintura faz parecer pequenos os maiores dias de ,junho1 e torna amavel e apetecivel a mesma solido3 he huma arte no s imitadora de toda a ,natureza1 mas tambem creadora2 arte emfim1 que sympathisa grandemente com a vivacidade das pessoas espirituosas1 e discretas1 muitas das quaes desejo saber pintar1 e nem sempre o conseguem2 ou por viverem em terras aonde no ha quem as ensine1 ou por se limitarem nas lies a huma pratica mui superficial4 ,a ,pratica he de absoluta necessidade1 e por ella se deve no s comear1 mas avanar muito1 sem nunca a perder de vista2 porm ha huma baliza1 alm da qual seno podem fazer ulteriores progressos sem estudar a fundamento os preceitos theoricos4 ,os ,poetas1 e ,oradores tem as suas regras fundamentaes1 escritas por bons ,authores2 ns tambem temos as nossas3 o numero dos ,escriptores que as trato he muito grande2 os idiomas em que correm impressas so mui diversos2 e he assaz difficultoso poder fazer dellas huma sufficiente colleco2 e quando se fizesse serviria talvez1 mais para confundir a mente de hum principiante1 que para a illustrar4 ,ha em taes livros muitas cousas inuteis1 e outras que parecem1 ou so contradictorias2 por tanto he preciso escolher1 resumir1 e concordar3 he o que ns procurmos fazer nesta pequena obra1 extrahindo de muitas flores1 como fazem as abelhas1 s o balsamo que he proprio para compor o mel2 pondo de parte quanto nos pareceo improprio1 ou desnecessario4 ,a ,praxe1 como dissemos1 he indispensavel aos ,artistas2 mas a theoria he indispensavel perfeio da mesma pratica4 ,ella nos manifesta em pouco tempo as descobertas de muitos seculos4 ,desde que os restaudores da ,arte comero a fazer alguns progressos1 cuidro logo em ir estabelecendo1 como maximas fundamentaes1 as verdades que foro descobrindo2 e para que ellas fossem bem apuradas e debatidas1 antes de se adoptarem1 e bem interpretadas depois de estabelecidas1 fundro ,academias1 compostas dos mais sabios ,artistas daquelles tempos2 e s especulaes mais e mais apuradas dos seus ,academicos1 he que se deve a perfeio a que chegou a ,arte no tempo de ,raphael3 e como a doutrina da nossa nova ,academia he derivada1 e recopilada das doutrinas de todas ellas1 no ser fra de proposito dizer de passagem alguma cousa a respeito das mais notaveis4 ,tendo-se perdido a ,arte1 nos seculos que as invases dos ,godos fizero barbaros1 e infelices1 s em ,constantinopla1 aonde elles no entrro1 se conservou huma sombra della1 que no seculo ,,xi4 comeou a diffundir-se pela ,italia4 ,pelos annos #ajjj foro alguns daquelles chamados ,pintores1 fazer de ,mosaico1 o coro da ,igreja de ,santa ,miniata em ,florena3 por #ajgb1 sendo ,doge de ,veneza1 ,domingos ,contarino1 foro outros ,gregos de ,constantinopla ornar tambem de ,mosaico a igreja de ,s4 ,marcos3 hum seculo depois o ,abbade ,joaquim fez pintar sobre a porta do ,thesouro1 como por inspirao1 os retratos de ,s4 ,francisco1 e ,s4 ,domingos1 que ainda no ero conhecidos3 os ,annaes de ,sena fazem meno de alguns estatutos da ,arte no seculo ,,xiii42 mas huma das mais antigas sociedades de ,artistas1 foi a dos ,padres ,gaudentes1 em ,florena1 no fim do mesmo seculo2 muitos dos quaes bordavo1 escrevio bem1 miniavo1 e pintavo4 ,gioto1 no principio do seculo ,,xiv4 fundou a primeira ,academia das tres ,artes1 em ,florena2 e ,jacomo ,casentino concorreo muito para se erigir a ,irmandade de ,s4 ,lucas em ,santa ,maria a ,nova4 ,a ,pintura fazia progressos2 e quando as ,artes sobem1 os discipulos excedem os mestres3 ,thaddeo ,gaddi excedeo seu mestre ,gioto1 no colorido1 e nas expresses3 ,paulo ,ucllo fez grandes progressos na perspectiva3 ,pedro ,cavallini1 e ,fr4 ,joo ,angelico dero hum r muito devoto s ,santas ,imagens3#d o ,massolino#e deu grande nobreza s figuras1 e huma certa vida aos olhos2 mas o seu discipulo ,massacio excedeu-o tanto1 quanto elle havia excedido os outros2 porque deu muita fora de relevo1 muita correco1 graa1 e bellas attitudes s personagens que pintava2 e pde-se dizer que abrio o templo da ,immortalidade a ,miguel ,angelo1 e a ,raphael4 ,loureno de ,medicis estabeleceo no seu ,palacio1 e ,jardim1 huma destas ,universidades1 ou ,academias1 bem provida de preciosos ,cartes1 desenhos1 quadros1 e estatuas2 e dava premios1 e penses aos estudantes mais aproveitados4 ,dalli sahio o ,buonarota1 o ,torrigiani1 o ,ghirlandro1 e outros sabios4 ,fr4 ,joo ,angelo1 que era bom ,escultor1 obteve o beneplacito1 e a proteco do ,gro ,duque1 para se restabelecer a antiga ,academia1 e a ,irmandade de ,s4 ,lucas1 j quasi extinctas1 no ,convento dos ,anjos1 e depois em ,s4 ,loureno4 ,em quanto isto se passava em ,italia1 tambem se fundro iguaes estabelecimentos quem dos seus montes1 taes como o de ,antuerpia1 o de ,nuremberg1 o de ,bruxellas1 etc42 sendo hum dos mais antigos o de ,bruges1 aonde ,joo ,van-,eych no seculo ,,xiv4 inventou a pintura a oleo4 ,no principio do seculo ,,xvi4 erigio em ,roma1 o divino ,raphael1 a mais douta ,universidade da ,pintura que viro os modernos2 mas durou pouco tempo2 porque faltou o ,reitor della em #aebj1 e os alumnos todos se dispersro1 sete annos depois1 quando o exercito do ,condestavel ,carlos de ,borbon saqueou aquella ,capital3 porm ,gregorio ,,xiii1 fundou outra1 em considerao do ,musiano1 e do ,zucaro1 que a dotro4 ,os seus ,academicos edificro o ,templo de ,s4 ,lucas1 e ,santa ,martinha1 hum dos mais bellos e mais sumptuosos de ,roma1 pelos desenhos do famoso ,pintor ,pedro de ,cortona2 o qual lhe deixou #bjjjjj cruzados para se construir o ,altar mr1 de bronzes e marmores finos1 e se lhe erigir hum mausolo4#f ,o ,painel da dita ,capella mr1 o qual representa ,s4 ,lucas retratando ,nossa ,senhora1 he de ,raphael4 ,pela ,lombardia fez a ,arte grandes progressos1 e teve boas ,academias em ,milo1 ,veneza1 ,mdena1 ,parma1 ,bolonha1 etc4 ,a dos ,caraches foi a mais clebre1 pela quantidade de grandes homens que della sahio4 ,alli se estudavo as tres ,artes1 a gravura1 a perspectiva1 e a anatomia3 era provda de esqueletos1 manequins1 gessos originaes1 vestidos1 armas1 arnezes1 etc4 ,alli se distribuio lugares1 empregos1 e premios1 tudo debaixo da direco de ,luiz ,carache4 ,depois desta houve tambem em ,bolonha a do ,guido1 que teve #bjj discipulos1 a do ,albani1 a do ,pasinelli1 a do ,conde ,cignani1 as do ,conde e do ,senador ,ghisiliere1 e outras muitas2 mas como todas ero de particulares1 depressa se extinguio4 ,em ,julho de #agjf1 juntro-se #hj ou #ij ,pintores 7entre os quaes1 diz ,zanoti1 havia alguns que tinho o seu merecimento7 na ,galeria do ,conde ,fava1 que sabia pintar1 e tinha boa colleco de pinturas1 a fim de buscarem meios para reprimir a ousadia de certos artigiani intrusos1 que abusando da illimitada liberdade da ,pintura1 em hum paiz aonde no havia ,academia1 se incumbio da direco de grandes emprezas1 e reduzio os habeis artistas a huma abjecta servido4 ,o resultado foi que o dito ,conde1 o ,general ,marsili1 e ,carlos ,maratti obtivero do ,papa ,clemente ,,xi41 que se estabelecesse a desejada ,academia de ,pintura1 e fosse alojada1 com a ,filosofia1 no ,palacio do ,instituto de ,bolonha1 debaixo da ,proteco de ,santa ,catharina de ,vigri1 religiosa de ,s4 ,domingos1 e ,pintora ,bolonheza4 ,os ,authores ,francezes fallo em desenhos seus1 feitos penna no seculo ,,xii41 com estylo nada inferior ao que depois usou ,cimabue3#g e nos tempos de ,gioto1 tinho j muitos daquelles que alli se chamo barbouilleurs1 formado huma corporao1 mecanica sim1 mas muito privilegiada pelo ,parlamento2 e em virtude dos seus privilegios ousro incommodar os grandes ,pintores1 que apparecero no tempo de ,luiz ,,xiv4 ,estes1 indignados contra a sua audacia1 fundro a ,academia ,real de ,pintura1 e ,esculptura1 que em #affc foi dotada com #d libras annuaes2 mas ,luiz ,,xvi4 lhe condeo #aj4 ,mr4 ,urry1 director das obras ,reaes1 em #agcg1 inventou o chamado ,salo2 lugar aonde de dois em dois annos1 os ,artistas expem ao ,publico as melhores obras que vo fazendo2 cousa que foi mui vantajosa ,arte4 ,no lhe foro menos uteis os que se chamo quadros de ,maio3 os ,ourives comero em #addi a offerecer a ,nossa ,senhora com grande solemnidade1 hum ramo verde1 a que chamavo o ,maio3 depois1 juntro aos ramos certas maquinetas2 e por fins1 desde #afcj comero a offerecer cada anno1 hum painel1 feito sempre por algum dos melhores ,pintores da ,frana4 ,luiz ,,xv4 estabeleceo o grande ,concurso da ,academia ,real em ,pars1 sendo o premio dos vencedores1 a sustentao em ,roma 7aonde tem outra ,academia7 por tempo de quatro annos1 para se aperfeioarem4 ,na ,hespanha fundro-se tambem varias ,academias2 mas a mais famosa foi a de ,sevilha1 aberta por ,morilho em #affj4 ,a de ,madrid estabeleceo-se muito mais tarde pelas dissenses dos mesmos ,artistas4 ,o partido dos menos habeis1 que era muito maior1 triumphou por mais de #abj annos1 at o de #agdd2 tempo em que ,philippe ,v4 mandou absolutamente que se fundasse4 ,fernando ,,vi41 dois annos depois1 a dotou em #ab pezos2 e exaltou-a extraordinariamente1 e aos seus professores4 ,inda que estas mimosas ,artes sejo mui pouco fecundas nos climas frios1 tem-se estabelecido as suas ,academias na ,dinamarca1 na ,russia1 e por todo o ,norte da ,europa4 ,os ,pintores ,inglezes tambem se associro em ,s4 ,martin's-lane em #agej1 a fim de deitarem os fundamentos n'huma especie de ,academia3 dez annos depois conviero em fazer huma exhibio publica das suas melhores obras1 em hum salo similhante ao de ,frana1 aonde se entraria por dinheiro4 ,em #fe obtivero o beneplacito ,regio para se estabelecerem2 e em #fh teve a ,sociedade o titulo de ,academia ,real das tres ,artes4 ,o dote era o producto das exhibies2 mas como nos primeiros annos no chegasse para as despezas1 supprio o bolsinho ,real a falta de #de cruzados4 ,os ,artistas expem venda1 ou censura pblica1 naquelle ,salo1 as obras que querem2 e os curiosos que as pertendem ver1 pago pela entrada hum xelim cada hum3 estas entradas produziro #ac a #ad cruzados annuaes at o anno #aggi2 mas no seguinte1 que foi o primeiro da exhibio em ,somerset-,palace1 subio a receita a #bg cruzados2 e dalli at o anno de #if andou sempre por #bb a #bc de sorte que excedendo a receita a despeza1 comprou a ,academia huma boa propriedade1 e applicou os seus rendimentos em beneficio dos ,artistas precisados4 ,este estabelecimento1 soffreo tambem1 como todos os mais1 grandes opposies2 porque os no admittidos em a nova ,academia1 fundro outra2 e outra exhibio2 mas como no tinho grande credito1 tudo desappareceo em pouco tempo4 ,de todas estas1 e outras famosas ,eschlas1 he que deriva a ,doutrina1 que em compendio vamos ensinar nesta nova ,academia3 mas antes de comear as lies1 he preciso dar s nossas illustres ,academicas huma idea verdadeira da ,arte4 ,a ,pintura pde ser considerada de duas sortes1 ou como natural1 ou como artificial4 ,a ,pintura natural he aquella que naturalmente se imprime na retina dos nossos olhos2 e dalli1 pelos nervos opticos1 se communica alma2 e a ,pintura artificial1 he a imitao da ,pintura natural4 ,a esta imitao1 se he bem feita1 chama-se ,verdade4 ,a ,verdade na ,pintura1 ou he simples1 ou ideal1 ou composta de huma e outra3 ,verdade simples he a imitao exacta da ,pintura natural1 tal como ella se estampa dentro dos nossos olhos1 com todas as suas bellezas1 e defeitos3 ,verdade ideal1 he a imitao daquellas imagens1 que se nos represento na imaginao3 ,verdade mixta he a imitao da ,pintura natural1 emendada nos seus defeitos1 pelos modelos de perfeio que o grande ,artista concebe na sua mente4 ,esta verdade mixta1 ou composta1 he a que se acha nas obras de ,raphael1 e de outros grandes homens2 mas principalmente no ,antigo4#h ,os que estudo a ,arte devem1 primeiro que tudo1 adquirir a pratica da verdade simples1 costumando-se a imitar perfeitamente tudo quanto se apresentar diante dos seus olhos2 mas podem1 e devem faze-lo de sorte que em virtude da boa escolha dos objectos1 achem tambem nos seus exemplares a verdade composta4 ,as ,pinturas do ,carache no palacio ,farnesio1 e as de ,raphael no ,vaticano so as duas grandes eschlas de ,desenho4 ,a terceira1 e no menos importante para os que esto mais adiantados1 he a das boas estatuas antigas3 os que no puderem estudar pelos originaes1 basta que estudem por exactissimas copias4 ,a ,pintura comprehende tudo quanto se pde ver1 e imaginar2 e como he to vasta1 divide-se em muitas partes1 e em muitos generos4 ,os generos1 so3 #a4o o ,historico1 ou 7como os authores lhe chamo7 o grande ,genero3 #b4o o dos ,retratos3 #c4o o das ,batalhas3 #d4o o das ,bambochatas3 #e4o o das ,paizagens e ,perspectivas3 #f4o o das ,marinhas3 #g4o o dos ,animaes3 #h4o o das cousas inanimadas1 como flores1 fructos1 ornatos1 quadraturas1 etc4 ,as partes de que se compe a ,pintura1 so3 a ,inveno2 a ,expresso2 a ,distribuio1 ou ,disposio2 o ,desenho2 o ,colorido2 o ,clar'escuro2 o ,estylo1 ou ,pincel2 a ,graa2 a ,grandeza2 o bello ,ideal2 etc4 etc43 mas todas estas partes se podem reunir debaixo de tres principaes chefes1 que vem a ser3 ,composio1 ,desenho1 e ,colorido4 ,na ordem dos estudos praticos1 comea-se pelo ,desenho2 mas na ordem da doutrina theorica principia-se pela ,composio1 por ser a primeira cousa que o pintor habil tem a fazer quando quer comear o seu painel2 motivo porque principiaremos tambem por esta parte o nosso compendio4 ,,nova ,,academia ,,de ,,pintura ,,primeira ,,parte4 ,composio4 ,crear1 ou para dizer melhor1 reproduzir de novo as obras do ,creador2 renovar e perpetuar sobre hum painel os feitos heroicos1 os acontecimentos memoraveis1 he o mais nobre emprego do genio pitoresco4 ,dispr as idas em huma bella ordem1 apresenta-las debaixo d'hum aspecto luminoso1 he o grande primor da arte4 ,desta duplicada operao1 da ,arte1 e do ,genio1 nasce a ,composio4 ,os pensamentos so os seus membros4 ,mas assim como os materiaes de hum edificio no o poderio formar1 se no estivesse cada hum no seu lugar2 assim as idas no representario bem huma passagem historica1 seno estivessem distribuidas na composio do quadro1 com sabia economia1 e com reflexo magistral4 ,a composio divide-se em ,inveno1 e ,disposio4 ,,sec,o ,i4a ,inveno4 ,a inveno he a combinao dos pensamentos que concorrem para a composio de qualquer assumpto3 he huma ,musa que sendo dotada de todas as bellas qualidades das suas irms1 as ,musas das ,bellas letras1 e inspirada pelo espirito de ,apolo1 vem por isso mesmo a ser mais elevada1 e a resplandecer com mais viva flamma3 he hum talento natural que se no adquire pelo estudo1 nem pela pratica2 porque a fonte das invenes est na faculdade imaginativa1 e requer tres cousas1 imaginao1 prudencia1 erudio4 ,no ha regras para a ,inveno1 porque a arte de imaginar no se communica2 mas podem haver conselhos uteis4 ,racine1 quando compunha as suas tragedias fazia todos os esforos para entrar nos sentimentos que queria dar a ,hippolito1 a ,phedra1 a ,athalia1 e a ,esther4 ,a ,inveno he a poesia da ,pintura1 e a parte mais propria para descobrir o talento do artista3 ella desenvolve a primeira ida de toda a obra2 e o ,pintor no a deve perder de vista at a ultima pincelada4 ,no basta que elle encha hum painel com muitas e boas figuras1 se estas no servirem todas para explicar o principal objecto2 e se a totalidade da obra no declarar logo ao espectador qual he o assumpto de que se trata2 preparando1 e dispondo a mente de quem v a pintura1 para ser commovida com as expresses1 e affectos das figuras principaes3 sem o que1 de nada serviria dar-lhes expresses violentas e exaggeradas1 como fazem aquelles que querem affectar muito espirito4 ,o excesso1 ou affectao he a cousa mais nociva boa inveno4 ,a ,pintura sustenta-se1 assim como a ,poesia1 pela fabula1 e vive de fices2 cada virtude se transforma n'huma divindade3 ,minerva he a ,prudencia2 ,venus a formosura2 ,diana a castidade2 cho no he hum som1 he huma nympha2 o cabo das tormentas no he hum promontorio1 he o gigante ,adamastor4 ,assim o ,pintor1 e o ,poeta1 orno e elevo todas as cousas4 ,he tambem importante1 associar escolha dos objectos todas as circumstancias1 e todos os episodios1 que podem augmentar o seu interesse2 tendo porm muito cuidado em que os accessorios no prejudiquem em cousa alguma a aco principal4 ,as particularidades relativas ao costume devem ser exactamente observadas na ,inveno3 transportemo-nos em ida aos diversos paizes2 chamemos nossa imaginao os passados seculos2 occupemo-nos dos usos1 costumes1 e trajes de todas as personagens1 para no cahir-mos naquelles anachronismos1 que so capazes de tirar o merecimento ao quadro mais felizmente concebido1 e executado4 ,tudo o que se chama original he inventado2 mas nem tudo o que he inventado merece o titulo de original2 porque esta palavra no s d ida de inveno1 mas tambem de grande magisterio4 ,arrojar-se a inventar sem ter subido todos os degros da escada optica1 he querer precipitar-se4 ,alguns desfiguro s vezes os seus pensamentos querendo enriquece-los4 ,la o ,pintor muitas vezes a historia que ha de compr1 e quando estiver bem senhor della imagine as personagens3 faa o desenho interno na sua ida2 porque sem isso rascunhar muito1 e no far nada4 ,depois da composio mental1 querendo passar execuo da obra1 retire-se do tumulto2 porque entre rumores1 e estrpitos nada se far com acerto4 ,no pinte seno quando se sentir excitado por hum certo impulso2 porque a pezar das ,musas no se pde fazer obra louvavel4 ,a ,inveno requer muito fogo1 e muito genio2 e a ,disposio muita fleuma1 e prudencia3 e como estas cousas to oppostas raras vezes se combino1 por isso tem sido raros os grandes ,pintores4 ,he porm mais facil moderar o genio de fogo1 que escaldar o de gelo4 ,nem todos os pensamentos so proprios para formar huma intelligivel e elegante composio4 ,lucas ,jordo rejeitou as ,invenes dos sabios que por ordem de ,carlos ,,ii4 lhe davo assumptos ,theologicos para elle executar no ,escurial4 ,todos ero orthodoxos1 discretos1 eruditos2 mas no ero capazes de fazer por elles huma bella e pittoresca composio3 portanto deve-se escolher hum assumpto nobre1 e que seja susceptivel de bom colorido1 graa1 belleza1 instruco1 recreio1 etc43 escolhendo1 para o compor1 o mais bello de toda a ,natureza1 segundo o gosto dos antigos1 e dos modernos que melhor os soubero imitar4 ,a escolha das ,invenes deve ser analoga aos lugares que ellas vo ornar4 ,nas ,casas ,reaes convem as aces dos ,principes1 e dos grandes ,capites2 convm triumphos1 victorias1 e outros assumptos capazes de levantar o nosso espirito a pensamentos heroicos1 e a desejos de honra1 e de gloria4 ,o grande ,artista pde1 e deve ser grato aos beneficios que recebe da ,patria1 dos ,principes1 e dos grandes ,senhores3 e se ,virgilio immortalisou os ,romanos1 ,cames os ,portuguezes1 e ,homero os ,gregos2 tambem ,raphael teve poder para perpetuar a gloria de ,julio ,,ii41 e ,leo ,x42 ,lebrun a de ,luiz ,,xiv42 e o ,ticiano a de ,carlos ,v4 ,nos ,consistorios ecclesiasticos1 tem bom lugar a assembla dos ,filosofos1 ou o concilio dos ,theologos2 como fez ,raphael no palacio ,pontificio3 mas nos seculares1 no ser impropria a pintura do conselho dos ,gregos para a expedio de ,troya3 a de ,licurgo1 ,demosthenes1 etc4 ,nos templos claros pode-se pintar ,s4 ,joo prgando turba2 a absolvio da ,adultera2 a converso de ,s4 ,paulo2 e outras passagens alegres3 mas n'hum tribunal de ,justia ser a proposito representar o juizo de ,salomo2 aquelles que se dedicro morte por amor das leis2 e outros semelhantes4 ,nos jardins1 ao p das fontes1 no sero improprias as metamorphoses de ,acteon1 ,arethusa1 ,salmacis1 ,narciso1 e ,egeria2 mas entre os bosques ,hippomenes1 ,atalanta1 ,meleagro1 ,marsyas1 ,apollo2 os quatro tempos1 e os mezes do anno2 bailes de nynfas1 e satyros2 e tambem algumas perspectivas1 e paizagens1 com ,cephalo1 etc4 ,sobre as chamins das salas pintar-se-ha ,prometheu furtando o fogo do ,ceo1 ,hercules na pyra1 ,ascanio com a flamma nos cabellos1 ,vulcano1 ,phaetonte1 ,perillo1 ,scevola1 ,curcio1 ,meda1 ,ceres procurando a filha1 e outras4 ,os corredores ou galerias abertas1 sendo nobres como so as lojas de ,raphael1 ou o ,claustro do ,escurial1 podem ser enfeitados com elegantes ornatos1 e arabescos1 compostos de aves1 flores1 fructos1 medalhas de estuque1 paizagens1 perspectivas1 folhagens1 animaes1 insectos1 monstros1 figuras humanas1 e tudo quanto cria a ,natureza1 e a ida pde imaginar4 ,as galerias interiores1 bem pintadas1 so como preciosos volumes1 sempre abertos1 e escriptos em huma linguagem universal1 que todos entendem2 onde vemos descriptas as proezas de ,luiz ,,xiv42 a proteco efficaz que elle concedeo s ,artes e ,sciencias2 as aces de ,francisco ,i42 e tantas outras cousas nobres1 sublimes1 e interessantes1 executadas pelo ,rosso1 pelo ,primaticio1 pelo divino ,raphael1 por ,le ,brun1 por ,mignard1 e por muitos outros sapientissimos ,pintores4 ,rubens na ,galeria do palacio de ,luxemburgo1 edificado por ,maria de ,medicis1 tambem deixou em vinte e quatro paineis immortalisadada a vida daquella heroina4 ,no primeiro1 onde est representado o seu destino1 apparecem as tres parcas fiando os bellos dias da futura ,rainha1 debaixo dos auspicios de ,juno1 e de ,jupiter4 ,no segundo est ,lucina allumiando com a sua flamma as ,graas da ,princeza recem-nascida2 e deposita-a entre as mos da ,cidade de ,florena3 ,os ,destinos espalho sobre ella flores s mos cheias3 o signo de ,sagittario indica o tempo do seu nascimento3 o ,genio da felicidade1 deixando ver a coroa1 o sceptro1 e as flores de liz1 claramente manifesta que aquella menina nasce para ser ,rainha de ,frana4 ,a ,inveno dos outros quadros1 que he igualmente poetica1 e pittoresca1 contm3 a educao da ,rainha3 o ajuste do seu casamento com ,henrique ,,iv43 ,o casamento effectuado3 o desembarque da ,rainha em ,marselha3 a ,cidade de ,lyo1 que lhe sahe ao encontro3 o nascimento do ,delphim3 ,henrique ,,iv4 se dispe a partir para a guerra d',alemanha1 em soccorro dos ,marquezes de ,brandeburgo1 e de ,neuburgo3 coroao da ,rainha como ,regente3 ,apotheose de ,henrique ,,iv41 e ,regencia da ,rainha3 o seu governo3 viagem militar da ,rainha ,ponte de ,c1 para reprimir a guerra civil3 a troca das duas ,rainhas1 ,isabel de ,frana1 que casou com ,filippe ,,iv41 e ,anna de ,austria1 com ,luiz ,,xiii41 em #i de ,novembro de #afae3 felicidade da ,regencia3 maioridade de ,luiz ,,xiii43 fugida da ,rainha do ,castello de ,blois1 onde seu filho a tinha presa3 a ,rainha acceita a paz1 e a conclue com seu filho3 a mesma paz confirmada no ,ceo3 o tempo descobrindo a ,verdade4 ,alguns destes assumptos so assaz triviaes1 e parecem estereis2 mas o grande e fecundissimo ,genio de ,rubens soube achar para todos as mais bellas imagens1 que se podio desejar4 ,,sec,o ,,ii4a ,disposio4 ,a disposio he pr em boa ordem as idas achadas pelo genio da ,inveno1 a fim de compr com magisterio a scena de hum painel4 ,toda a composio he historica1 allegorica1 ou mixta3 a que he historica tem por objecto representar hum facto1 com as circumstancias allegadas pelos historiadores3 a que he allegrica relata os acontecimentos metaforicamente2 exprimindo debaixo d'hum vo figurado1 hum sentido diverso da expresso literal3 a mixta diz a verdade historica1 ornada ou corroborada com alguma agudeza da allegoria1 que lhe sirva de commento2 e sem a qual no se poderia entender bem o que se quiz dizer4 ,,artigo ,i4 ,da ,disposio relativa ao ,grande ,genero4 ,a ,inveno1 diz ,du ,fresnoy1 acha os convenientes objectos2 e a ,disposio os arranja2 mas a distribuio ha de fazer-se de sorte1 que o tom1 e a scena do quadro1 primeira vista1 inspirem a principal paixo no animo dos espectadores3 isto he1 que inspire alegria se o assumpto for alegre2 ou que infunda tristeza1 e horror1 se for triste1 e horroroso4 ,as composies sejo conforme os textos dos bons escriptores1 e segundo os tempos1 costumes1 e naes3 a licena que ,horacio concede aos pintores1 e aos poetas1 deve ter os limites1 que elle mesmo prescreve2 nada de sonhos1 ou delirios extravagantes4 ,aquelles que quizerem fazer progressos na ,pintura historica1 devero familiarisar-se com os livros1 que podem elevar as suas idas2 para1 nos seus vos1 no se servirem de alheias azas1 de que no conheo bem o uso1 nem a fora4 ,quando se escolherem as attitudes das figuras1 devem-se prever os effeitos e harmonia das luzes1 e cores2 para collocar tudo de hum modo natural1 e vantajoso1 e rejeitar o que pde fazer confuso3 imitando a tragedia1 irm da pintura1 a qual emprega todas as foras da sua arte onde recahe o forte da aco4 ,para o ,heroe1 e para as principaes figuras1 escolh-se attitudes cujos membros sejo grandiosos1 amplos1 e desiguaes nas suas posituras2 de maneira que os de diante contrastem com os de traz1 e todos sejo balanceados1 ou equilibrados no seu centro commum4 ,a principal figura apparea no meio do quadro1 debaixo da mais viva luz1 tendo alguma cousa notavel que a distinga de todas as outras2 nem seja affrontada por alguma dellas4 ,os gruppos sejo separados por hum vacuo1 para no fazerem confuso2 evitando nelles repeties de fysionomias1 e movimentos2 ou tendencia para a mesma parte4 ,entre varias figuras de frente esteja tambem alguma de lado1 ou de costas3 advirta-se que o pezo da composio no penda para hum s lado4 ,evite-se o grande numero de figuras2 mas se o assumpto o pedir1 attenda-se primeiramente harmonia do todo1 e depois se cuidar em cada objecto2 cedendo o interesse de cada hum em particular ao bem commum de todos4 ,as figuras1 que estiverem atraz de outras1 no tero graa se os movimentos das mos no forem perfeitamente de acrdo com as expresses dos semblantes4 ,evitem-se os escoros1 as aces violentas1 ou pouco naturaes1 e tudo quanto for desagradavel vista2 como linhas parallelas1 ou figuras geometricas1 que pela sua regularidade fao mo effeito nas composies2 porque a boa composio he huma bella desordem4 ,no vos sujeiteis tanto ,natureza1 que no possais fazer cousa alguma sem a ter diante dos olhos2 nem a abandoneis de modo1 que tudo pinteis de pratica1 porque hum tal costume seria huma libertinagem anti-pittoresca4 ,quando o quadro tiver huma s figura1 dever ella ser bellissima1 e realada com vivas cores4 ,as roupagens devem ter simplicidade1 e natureza2 tendo sempre atteno s qualidades das pessoas que as vestem3 as dos ,senadores sejo amplas2 as das donzellas leves1 e suaves2 as dos rusticos grossas e estreitas4 ,para encadear as luzes1 he preciso s vezes1 relevar algumas dobras sobre espaos mais profundos4 ,as divisas das virtudes1 ou distinctivos das sciencias2 os instrumentos de guerra1 e dos sacrificios1 pela sua nobreza1 concorrem muito para o ornato das figuras2 mas o ouro1 e as joias sejo raros4 ,fuja-se dos ornamentos gticos2 porque so outros tantos monstros produzidos nos seculos infelices4 ,as paizagens1 ou architecturas nos fundos dos quadros1 sejo executadas segundo o costume e natureza do seculo1 nao1 ou paiz da scena4 ,he mui difficil exprimir bem as paixes d'alma2 nem ellas podem ser naturaes seno nas pessoas verdadeiramente apaixonadas3 he onde o ,artista as deve estudar4 ,fazei o maior esforo para dar a tudo muita graa1 e muita nobreza2 mas este dom dimana antes do ,ceo1 que dos estudos4 ,leonardo de ,vinci tambem nos deixou muitos1 e optimos documentos sobre a ,composio4 ,quando souberdes1 diz elle1 esboar bem huma figura por todos os lados1 aprendei a compr2 e comeai por dois combatentes de igual valor1 desenhando-os em varios aspectos1 e em differentes attitudes2 depois fazei o valente brigando com hum cobarde1 tudo bem estudado3 e aproveita-te das manchas casuaes das paredes1 e dos marmores1 que representem frmas de batalhas1 e de outras cousas4 ,estes acasos suggerem muitas invenes fertil imaginao4 ,depois de conheceres bem as partes de cada membro1 e a totalidade dos corpos inteiros1 nota1 e observa com diligencia os seus particulares movimentos2 mas de modo que as gentes no entendo que as observas1 para que no mudem de affectos3 assim podes estudar a clera1 a ira1 a dor1 a admirao1 etc42 e tudo apontars no livro de memoria1 feito de papel gessado1 com ponteiro de prata2 e depois o tirars a limpo para ser o teu mestre nas composies4 ,faze as figuras de modo1 que entendamos pelas suas mos1 olhos1 sobrolhos1 e por todos os gstos do corpo1 o que nos querem dizer2 como fario os mudos1 ou os pantomimos para se explicarem3 attendendo porm mais ou menos gravidade das pessoas que fallo1 e natureza das cousas que nos dizem4 ,o ,principe1 ou o sabio1 tenho differena das gentes vulgares2 com tanto1 que os tristes sempre pareo mais ou menos tristes1 e os alegres alegres4 ,nos gruppos misturem-se objectos de todas as sortes2 mulheres1 homens1 moos1 velhos1 animaes1 arvores1 montanhas1 edificios1 etc41 etc42 observando com tudo1 que os membros e gstos d'hum velho sejo de velho1 e os de hum moo sejo de moo3 os dos gordos ou magros2 preguiosos ou diligentes1 sejo como convem a cada hum4 ,no se misturem muitos rapazes com muitos velhos1 nem moos com meninos1 nem mulheres com homens1 se a historia o no pedir4 ,faze poucos velhos1 porque os velhos so mais raros2 e separa-os dos moos1 de cujo genio no gosto2 e onde no ha uniformidade de costumes1 falta a amizade1 e esta falta motiva a separao3 mas se o assumpto for de conselho prudente1 fao-se poucos moos1 porque no gosto de bons conselhos4 ,se hum fallar a muitos1 em materia persuasiva1 sejo os seus gstos apropriados mesma materia2 mas1 se tratar de cousa demonstrativa1 tome com dois dedos da mo direita hum da esquerda1 tendo os dois menores fechados3 a boca esteja hum tanto aberta para parecer que falla2 e o rosto voltado para o povo4 ,se estiver assentado1 parea que se eleva hum pouco1 direito1 e com a cabea inclinada para diante2 mas se estiver em p1 tenha algum tanto o peito e a cabea inclinados para o povo2 o qual povo tacito e attento olhe para o orador com actos admirativos4 ,se fizeres huma s figura1 para evitar a critica da ignorancia1 foge no s do escoro total1 mas tambem dos parciaes2 porm na multido1 e principalmente em batalhas1 faze-os de todos os modos4 ,as cousas que fizeres n'hum quadro1 no as repitas em outro4 ,faze tudo contraposto3 o feio ao bello1 o fraco ao forte1 o velho ao moo4 ,observa o decro2 isto he1 a conveniencia da attitude1 vestido1 sitio1 e as demais circumstancias das cousas que queres representar3 hum ,rei tenha o r magestoso1 e esteja n'huma scena bem ornada2 e os circumstantes estejo com reverencia e admirao3 mas nos assumptos baixos seja tudo pelo contrario4 ,as attitudes de hum menino1 de hum velho1 de hum moo1 e de huma mulher1 sejo todas diversas1 e apropriadas1 cada huma ao seu actor4 ,o ,cavalleiro ,sir ,josu ,reynolds1 grande ,pintor de retratos1 e tambem de historia1 do ultimo seculo1 ensinava aos seus discipulos que se em hum quadro de historia entrassem alguns retratos1 devia ser de sorte que no parecessem retratos4 ,hum pintor retratista1 lhes dizia elle1 que quer fazer algum quadro de historia1 e no est bem costumado1 entra insensivelmente nas minucias1 e d hum certo r de retratos s suas cabeas1 como fazio os pintores gthicos1 antes que as grandes idas fossem bem entendidas1 e praticadas4 ,hum pintor historico pinta o homem em geral2 o retratista imita hum particular1 e por consequencia defeictuoso modelo3 por tanto1 a pratica habitual em algum dos ramos menos elevados da ,arte1 pde ser hum obstaculo para possuir perfeitamente o mais sublime4 ,a variedade he huma das cousas mais recommendadas pelos authores3 com tudo1 dizia ,claudio ,coelho1 e dizia bem que estando j todas as bellas attitudes achadas1 e executadas pelos melhores artistas1 nem por isso deveriamos escolher as ms1 para evitar as repeties4 ,gerardo ,lairesse1 chamado por antonomasia o ,raphael ,hollandez1 diz que o ,artista1 para bem compr1 deve ter a mo prompta1 e obediente2 boa memoria1 e bem exercitada2 juizo so1 e cultivado4 ,quando occorrerem boas idas1 no se demre a execuo2 para evitar o pesar do esquecimento4 ,em hum lugar tranquillo traaremos o plano1 e o horisonte do painel1 e marcaremos com linhas os lugares1 e as grandezas1 que devem ter as figuras1 e os outros objectos1 que occuparem o primeiro e o segundo pavimento4 ,recomearemos depois pela figura principal1 considerando qual he a paixo que lhe compete1 a attitude que deve ter1 e o que devem fazer as outras2 se voo1 se correm1 se ando1 ou se esto quietas2 como recebem a luz2 de que sorte devem contrapr1 e destacar2 e tudo isto se delinear sobre outro papel4 ,comearemos terceira vez a examinar quaes corpos devem ser ns1 ou vestidos2 quaes tero nobre caracter2 quaes commum2 para depois passar eleio das cres locaes4 ,o ,pintor no deve ser plagiario2 nem contentar-se com ser menos que ,raphael4 ,faa-se hum esquisso1 bosquejo1 ou rascunho da historia que se quer tratar2 e depois leo-se os melhores historiadores1 que sobre ella escrevero3 e aponte-se no esquisso o que tiver esquecido4 ,note-se depois o paiz1 o mez1 e a hora em que se passou a aco1 para abrir1 ou apertar mais a luz1 e enriquecer o fundo4 ,o fim da aco deve-se collocar no primeiro pavimento1 e o principio della nos longes4 ,indicai tudo no esquisso1 e tornai a ler vinte vezes o vosso assumpto4 ,cada dia pela manh imaginai que sois algum dos actores1 e que estaes transportado ao lugar da scena3 marcai logo os gruppos1 e as attitudes2 escrevendo o nome de cada personagem4 ,ponde o here no centro do quadro1 e em lugar superior4 ,o maior defeito que pde ter hum painel1 he o de no deixar ver logo qual he o assumpto que representa4 ,se hum orador que quizesse louvar ,alexandre1 empregasse as mais bellas figuras da ,rhetorica para elogiar o ,bucfalo1 seria bem mo compositor4 ,de ordinario ha no quadro tres pavimentos3 no primeiro1 que he luminoso1 esto os principaes heroes2 o segundo he sombrio2 no terceiro1 outra vez claro1 estaro os objectos menos importantes3 colloquem-se as grandes figuras atraz das pequenas3 a luz opponha-se sombra1 ou ao menos cr sombria4 ,isto feito1 fazei novo esquisso3 desenhai os ns do natural1 e as roupas de manequins1 o mais acabado que fr possivel1 dando a cada objecto particular a mesma luz geral de todo o quadro1 e os mesmos pontos de vista1 e de distancia4 ,os desenhos1 e estampas so utilissimos para ver1 e examinar como os grandes mestres soubero fecundar1 e enriquecer os assumptos1 que parecio mais estereis1 e pobres4 ,o assumpto heroico deve ser nobre1 e grave2 o jocoso engraado2 as bambochatas carregadas4 ,em hum grande concurso devem haver diversas frmas de corpos1 e varias propores4 ,a paixo do here faz nascer muitas3 quando hum ,filosofo discorre1 os discipulos attendem4 ,deve-se imaginar1 e indicar em cada actor1 a aco precedente1 a actual1 e a consequente4 ,pinte-se o que he honesto1 e capaz de inspirar virtude2 e fuja-se do que for lascivo1 e cruel4 ,entre os bons escriptores da ,arte tem ,joo ,paulo ,lomazo hum dos primeiros lugares2 e l-se nos seus escriptos que o famoso ,leonardo de ,vinci querendo pintar em hum painel muitas figuras rusticas1 e alegres1 convidou huns poucos de camponezes engraados2 e em quanto elles comio e bebio foi-lhes contando as cousas mais loucas e ridiculas do mundo2 de modo tal que os fez rir desatinadamente3 elle observou tudo2 e pintando-os depois com os mesmos gstos e attitudes1 provocava tanto a riso a pintura1 como os mesmos originaes4 ,passando depois aos preceitos1 diz4 ,o movimento interno he motivado pelas paixes da alma2 e o movimento externo1 que exactamente lhe corresponde1 faz conhecer que paixes so3 por elle se conhece o que est triste ou alegre1 morto ou vivo2 por elle se distinguem o louco e o sabio2 o humilde1 e o soberbo4 ,o conhecimento deste movimento he tido na ,arte por cousa mui difficil1 e estimado como hum dom celeste3 este he o furor pictorico com que deve nascer o ,pintor2 mas este furor ou enthusiasmo ha de ter huma medida tal1 que no toque no fogo da impaciencia1 nem no gelo da extrema regularidade4 ,os movimentos naturaes so engraados1 e os contrafeitos so desengraados2 mas as mesmas paixes fazem effeitos varios em diversas pessoas segundo os seus temperamentos3 os movimentos do melancolico1 que he trreo1 sero pendentes e acanhados2 mas o colerico todo se retorce1 como o fogo de que he composto4 ,todo o corpo concorre para a expresso das paixes2 mas principalmente os olhos1 que so como as janellas da alma3 elles mostro o prazer1 o abatimento1 o enfado1 a severidade1 a amenidade1 a colera1 a admirao1 etc4 etc4 ,depois dos olhos e do rosto1 as mos so as servas1 e as interpretes da alma3 os seus infinitos movimentos explico o desejo1 a esperana1 a supplica1 o horror1 os ameaos1 e tantas outras cousas3 com as mos tememos1 perguntamos1 approvamos1 recusamos1 duvidamos2 e podemos concluir que assim como as mos supprem nos mudos a falta da voz articulada1 tambem no devem contribuir pouco para fallar huma linguagem muda1 qual a da ,pintura4 ,no se pdem dar regras precisas para exprimir todas as paixes1 e para as variar sempre2 porque a obra seria infinita4 ,quintiliano he de parecer que1 a pesar da sua difficuldade1 pde-se achar hum caminho que nos conduza a esta parte importantissima da ,pintura1 e da ,rhetorica2 e que este caminho he1 como j dissemos1 o estudo da ,natureza4 ,o ,domenichino1 que foi optimo nas expresses1 estudava-as diante do espelho1 depois de entrar elle mesmo nas paixes que queria imitar4 ,horacio he tambem de parecer que os movimentos se exprimiro muito melhor1 e sero mais naturaes1 se o ,poeta1 7ou ,pintor1 que neste caso he o mesmo7 imaginar que se acha no mesmo estado1 em que se deverio achar as pessoas verdadeiramente apaixonadas4 ,he preciso1 diz tambem ,quintiliano1 que sejamos os primeiros a sentir huma paixo1 se quizermos commover os coraes alheios3 mas como8 ,formando-se fantasmas1 e imagens das cousas ausentes1 como se effectivamente as tivessemos diante dos olhos2 e aquelle que conceber mais vivamente aquellas imagens1 exprimir melhor as paixes4 ,entre os mais celebres escriptores da ,arte ha hum ,portuguez1 de quem os estrangeiros se tem aproveitado1 e ns apenas conhecemos3 he ,francisco de ,hollanda1 que foi ,pintor d',el-,rei ,d4 ,joo ,,iii4 ,queixava-se elle1 no seu livro1 de que em ,portugal no se dava a devida estimao ,pintura1 por culpa talvez dos ,pintores1 que se contentavo s com a mantena1 ou no sabio exerce-la com primor4 ,para remediar em parte aquelles inconvenientes1 aponta algumas advertencias1 e faz discretas observaes4 ,o ,pintor para ser perfeito ha de ter1 diz elle1 o genio dentro em si mesmo1 como a semente tem o fructo4 ,na puericia o deixar ver2 na adolescencia exceder os outros1 e sonhar com pinturas4 ,deve ter espirito magnanimo2 porque sem elle nunca far obras sublimes3 ha de estudar muito o ,antigo para a grande inveno1 graa1 decro2 e escolher do melhor o optimo1 sem confuso2 ha de evitar os grandes defeitos1 7que os pequenos passo bem7 e fazer os erros com o maior acrto possivel4 ,a nobreza1 e propria casa da ,pintura he saber reunir bem a natureza dispersa1 e rejeitar o que no convem2 e se esta escolha for bem feita1 ter feito com isso a melhor parte da obra4 ,antes de comear a empreza ha de ter a ida da obra1 como vista em sonho1 e pintada na fantasia4 ,as figuras no occupem confusamente toda a taboa2 mas fiquem intervallos para darem despejo e clareza obra2 e para os olhos dos espectadores descanarem4 ,as attitudes sejo graves e modestas2 e que humas figuras no damnem as outras1 7antes se possa pr1 que tirar alguma cousa7 e todas fao com efficacia os seus officios4 ,he necessaria tanta arte para fazer bem as figuras ociosas1 como as occupadas4 ,o menimo seja rolio1 o mancebo ousado1 o velho prudente1 o doente languido1 o morto hirto2 o que corre parea que corre1 e o que anda parea que se move4 ,faa as idades1 physionomias1 cores de carnes1 movimentos1 mos1 ps1 tudo diverso e contraposto2 hum de perfil1 outro de costas2 este voltado para baixo1 aquelle para cima2 aquell'outro deitado1 escorado1 etc4 ,figuras escoradas sejo as menos possiveis4 ,as roupas1 os edificios1 e os outros accessorios sejo os que competem ao assumpto2 mas no parea que se poz alli todo o saber4 ,se o assumpto1 ou imagem for triste1 no o representemos em jardins1 ou scenas alegres2 antes parea que os mesmos brutos1 arvores1 penedos1 e at os ,ceos sentem a sua tristeza4 ,a dr da pessoa aflicta no se mostre com lagrimas2 mas no semblante angustiado1 no vestido1 na solido4 ,o doente no parea so1 nem o morto semivivo1 nem o que dorme acordado3 escolha-se de tudo o mais formoso1 e grave para se imitar2 encostando-se sempre ao ,antigo4 ,o primor da ,pintura consiste tanto no que se faz1 como no que seno quiz fazer2 antes no que deixou de fazer se conhece melhor o grande pintor1 assim como o ignorante em encher tudo de arvoredos1 rios1 caminhantes1 castellos1 cidades1 e paizagens3 o mais santo1 e louvavel he fazer poucas figuras1 pouco rumor de paizes1 menos ainda de edificios2 mas o pouco seja tal que valha mais que o muito3 porque este he o fazer de avisado e gravissimo mestre1 e o outro de obreiro e aprendiz4 ,o que dizemos do total1 appliquemos tambem a cada particular objecto3 nelle no se faa cousa que se no desejasse ver da maneira que est feita2 porque esta he a admiravel doutrina da ,arte4 ,o mesmo ,author escreveo certas maximas sobre o que se deve seguir1 e o que se deve evitar na ,arte da ,composio4 ,para seguir3 ,despejo de pouca obra2 formosura bem escolhida2 decro2 deixar de fazer muitas cousas2 bello r em todas as cousas2 diversidade nas figuras2 ousadia nas sombras2 antigas1 e escolhidas novidades2 escolha de architectura2 n perfeito1 e honesto2 bons pannos2 bom encaixe de pescoo2 mos to boas como o rosto2 ps to bons como a figura2 bons animaes2 bons cavallos2 gravidade1 e magestade2 etc4 ,para evitar3 ,affectao2 confuso2 muita obra2 fealdade2 desproporo2 desr nas figuras2 rostos repetidos2 o muito vulgar2 mos ns2 muito panno2 ms mos2 pouca reverencia2 indiscries2 etc4 ,rugrio de ,piles1 amigo de ,carlos du ,fresnoy1 e o melhor commentador do seu poema de ,artegraphica1 tambem enriqueceo a biblioteca da ,arte com doutas observaes suas3 ,a boa disposio1 diz elle1 forma os gruppos2 e o verdadeiro modo de gruppar acha-se em ,raphael1 ,julio ,romano1 ,polidoro1 e outros grandes mestres4 ,a escolha das bellas attitudes faz a maior parte das bellezas do gruppo3 a contraposio faz o resto4 ,deve haver contraste no s nas figuras1 mas tambem nas cousas inanimadas2 havendo em todos os objectos huma opposio de linhas1 e contornos1 pela qual elles se fao valer huns os outros1 e augmentem a graa1 que he to necessaria em tudo4 ,o modo de deitar as prgas tambem pertence composio dos gruppos3 o primeiro requisito das roupas he que indiquem o que ellas cobrem1 de sorte que se conheo as propores1 e a elegancia das frmas das pessoas1 que as vestem2 por tanto convem que antes de vestir a figura se desenhe toda na4 ,as dobras que se encruzo com os membros do corpo no pareo1 por fortes1 to profundas que posso penetrar as carnes4 ,as pregas sejo poucas1 e grandes2 mas se alguma vez se fizerem miudas1 siga-se a maxima dos antigos1 que em tal caso as collocavo aos lados dos membros1 e no em cima delles4 ,as grandes no s ho de contrastar o n1 mas tambem humas as outras1 para terem vida1 e movimento3 a contraposio he huma especie de guerra1 que anima tudo2 mas he necessaria muita prudencia1 principalmente nas figuras em p1 aonde as contraposies so muitas vezes inverosimeis1 porque o peso da roupa a faz cahir direita4 ,a ordem das pregas1 sendo hum effeito dos movimentos do corpo1 tambem d vida aos mesmos membros1 que parecem move-las3 huma discreta repetio de pregas1 em ordem circular1 ajuda muito o bom effeito dos escoros4 ,as roupas devem-se sempre estudar do natural3 as do manequim parecem immoveis1 e he preciso que se lhes tire aquella apparencia3 os pequenos figurinos vestidos de papel molhado podem servir para o todo de huma composio1 e no para cada objecto de persi4 ,leo ,baptista ,alberti affirma que no compr1 ou distribuir bem os objectos consiste todo o engenho4 ,a varidade deleita tanto a vista1 como o ouvido1 e o paladar4 ,os espectadores n'hum quadro1 inda que estejo quietos1 exprimo os seus sentimentos4 ,a cabea1 a fronte1 e todos os membros do que est triste descahem4 ,de sete modos se inovem os corpos3 para cima1 e para baixo2 para a direita1 e para a esquerda2 para diante1 e para traz2 e em fim girando ao redor3 todos estes movimentos entrem nas composies3 huns vo1 outros venho4 ,os movimentos sejo naturaes e suaves3 os artistas fogosos cuido que as attitudes violentas so mais vivas1 e engano-se4 ,os cabellos1 e as roupas tenho tambem os sete movimentos2 mas os ramos das arvores1 agitados pelo vento1 correndo todos para a mesma parte1 so bellissimos4 ,quando quizeres compr1 pensa1 l1 esquissa1 modla1 e pede conselho aos amigos e talvez aos inimigos1 porque no lisongeo4 ,o ,pintor deve ser bom1 honesto1 civil1 e douto nas bellas ,artes2 deve ler poetas1 historiadores1 oradores1 e sabios1 para poder bem inventar4 ,a aco1 diz o ,raphael ,francez ,nicolo ,pusinno1 he a voz da ,pintura2 sem ella no ha persuaso4 ,a ,arte sublime requer quatro cousas3 #a4;a materia ou argumento3 #b4;a conceito3 #c4;a estructura ou composio3 #d4;a estilo4 ,o ,argumento deve ser grande1 heroico1 e delle se devem desterrar as cousas miudas4 ,conceito he hum pensamento alto1 elevado1 como o de ,homero para o seu ,jupiter1 que s com o pensamento movia a terra1 o ,ceo1 e o mar irado4 ,a composio seja natural1 e no exaggerada1 ou extravagante4 ,o ,estilo he hum modo particular de pintar procedido do genio de cada hum1 e que nasce naturalmente do seu engenho4 ,muito agrada a novidade na ,pintura2 mas esta novidade no consiste em achar assumptos ou motivos novos1 seno em compor os antigos por novo modo4 ,se o ,pintor quizer que o admirem1 no se faa estranhamente singular2 mas procure fazer tudo com prudencia1 e perfeio4 ,a composio de hum quadro 7diz ,richardson7 he de grandissima consequencia2 he a primeira cousa que se apresenta nossa vista1 e que nos pde prevenir em seu favor1 ou desgostar-nos delle2 por tanto1 as figuras de hum painel1 e os seus fundos1 devem compr massas de luz1 e de sombra1 que mesmo de longe1 sejo gratas vista4 ,em cada painel ha de haver hum sitio mais rico1 e brilhante2 e alli he o lugar da principal personagem1 e da aco mais notavel1 aonde tudo deve ser mais bello1 e bem acabado4 ,os outros objectos sejo todos subordinados a este2 mas cada hum delles ha de ter huma parte que domine as outras1 e se deixe logo ver4 ,se o ,pintor fr obrigado a collocar alguma das figuras principaes a hum lado1 e em meia luz1 faa-a distinguir pela cr viva do vestido1 como fez o ,ticiano no ,bacco e ,ariana2 ou de outra maneira discreta1 e artificiosa4 ,o ,pintor deve saber perfeitamente a historia que quer pintar1 e meditar depois se pde accrescentar algum incidente de sua inveno1 que no seja inverosimil4 ,pde tambem s vezes 7mas raras vezes7 apartar-se da verdade natural1 e historica1 como fez ,raphael1 muito discretamente1 no ,carto da ,psca miraculosa1 onde pintou huma barca muito pequena1 proporo das figuras1 a fim de no encher o painel com hum barco1 ou de no fazer as figuras pequeninas2 cousa que tornaria a composio mesquinha3 tambem se apartou o mesmo author da verdade historica1 no outro ,carto do ,paralytico1 aonde a architectura da entrada para o ,templo he de sua inveno1 e no como consta que ella era2 mas aquella licena foi muito feliz1 porque deo hum r mais nobre1 e magestoso a todo o painel4 ,estas excepes da regra so permittidas2 mas poucas vezes4 ,cada painel historico ha de representar hum unico instante de tempo1 e seja quelle que for mais vantajoso4 ,nenhum objecto1 por excellente que seja1 interrompa a atteno devida ao here4 ,no se introduzo figuras1 ou ornamentos superfluos2 antes pelo contrario1 conceda-se alguma cousa imaginao1 e ao desejo dos espectadores4 ,em tudo haja grande variedade4 ,bardon affirma que o pittoresco de huma composio consiste em huma singular1 e exquisita escolha dos effeitos da ,natureza1 ajudada pelo gosto1 e espirito sustentados pela razo4 ,o ,heroe do quadro deve brilhar alli1 como hum monarca entre os seus cortezos1 e attrahir as vistas do espectador por algum accidente de luz1 ou particular effeito de cr2 ou tambem por alguma privao da mesma luz1 manejada com arte4 ,o ,pusinno1 e ,paulo ,veronez modelavo a composio inteira1 giravo ao redor della1 e escolhio o ponto de vista1 e o aspecto mais vantajoso1 para o seguir1 e imitar4 ,a luz principal deve ser unica2 mas para que o effeito do quadro no parea de lanterna1 ou luz de noite1 hajo alguns reclamos della nas principaes partes da composio2 sempre em marchas diagonaes4 ,andr ,felibien1 tratando da composio1 inculca como o mais raro e perfeito exemplo desta parte essencial da ,arte1 o precipicio dos gigantes pintado por ,julio ,romano no palacio do ,t4 ,como ,julio era tambem o architecto daquelle palacio1 mandou fazer o salo redondo1 e lizo como hum forno3 os mesmos alizares1 e a chamin1 ero feitos vontade da pintura4 ,toda a casa parecia hum s painel representando huma vasta campina por onde muitos gigantes levo montanhas s costas1 e vo colloca-las em cima d'outras para dar hum assalto ao ,olimpo4 ,a derrota comea3 os gigantes maiores esto no primeiro pavimento j prostrados por terra3 alguns jazem debaixo das montanhas2 e ,briaro est quasi todo soterrado4 ,pelo rto de huma gruta se avisto muitos ao longe1 que fogem amedrontados1 e so colhidos pelos raios de ,jupiter4 ,no mesmo tempo1 os templos1 e os grandes edificios cahem arruinados em cima de outros2 ficando a chamin1 entre paredes e columnas precipitadas1 fingindo parte da ruina2 e to artistamente executada1 que quando se accende o lume1 parece que ardem os gigantes1 e que he huma boca do inferno1 por onde ,pluto1 em companhia das ,furias1 se vai precipitar no ,tartaro4 ,quando se compe1 deve-se deixar o genio em plena liberdade2 e s depois de feita a composio he que se ha de consultar a natureza2 e depois o ,antigo1 para emendar por elle os defeitos do natural4 ,he preciso variar todos os objectos1 mas sem violencia nem affectao3 ha de parecer que as figuras se collocro por si mesmas2 e nisto consiste a graa da disposio4 ,antonio ,rafael ,mengs1 a quem os artistas modernos chamo o ,raphael ,alemo1 ensina que o ,pintor1 antes de comear qualquer composio1 deve-se fazer senhor no s daquella passagem historica que quer pintar1 mas tambem de toda a historia que lhe he relativa1 para conhecer perfeitamente as indoles de todas as personagens que ha de pr na scena2 o que se no poderia fazer com muito acerto sem as conhecer a fundo1 e sem saber com quaes vistas se movo a aco2 por que se deve manifestar1 na pessoa que a est fazendo1 e na sua fysionomia1 o seu proprio caracter1 e qual seja o motivo porque a faz4 ,he preciso tambem transferir-se ao tempo1 ao lugar1 e aos usos das gentes que se represento2 e dar-lhes os vestidos proprios das suas naes1 e dos seculos em que vivero1 ou seno constar bem1 ao menos os das naes com quem tratavo1 ou donde procedio4 ,em quanto s contraposies nas figuras1 siga-se como regra geral1 que1 se hum brao avanar1 a perna daquella parte1 e o outro brao devem recuar3 os dois braos nunca ho de avanar1 porque ninguem poder recuar ambas as pernas sem cahir3 a cabea incline-se para a parte do brao levantado1 e volte-se para onde a mo estiver mais avanada3 nenhum membro deve formar angulo recto2 nem dois membros ho de ser reciprocamente parallelos4 ,huma das mos nunca se deve achar defronte da outra2 e nenhuma extremidade esteja na mesma linha vertical1 ou horisontal de outra2 nem se encontrem duas mos e hum p1 ou dois ps e huma mo1 collocados em linha recta4 ,o gruppo he huma unio de figuras que se ho de encadear humas com outras1 e em numero impar2 como #c1 #e1 #g1 ou ao menos seja composto de dois numeros impares como #f1 #aj1 #ad4i ,a composio do gruppo seja piramidal1 mas de planta redonda1 como huma fogueira3 as grandes massas ho de estar no meio3 os lugares das figuras formem linha curva1 e no recta3 no concorro duas cabeas na mesma linha horisontal ou vertical3 os dois braos ou as duas pernas da mesma figura nunca tenho escoro igual2 e a que nos mostra a palma de huma das mos1 deixe ver a costa da outra4 ,appareo as partes mais bellas dos corpos1 como as juntas1 o pescoo1 as espaduas1 os cotovelos1 pulsos1 joelhos1 costas1 e peitos2 e isto por dois motivos2 primeiro1 porque nas extremidades1 e articulaes pode-se deixar ver muita expresso1 e muita sabedoria2 segundo1 porque os peitos e as espaduas so as partes mais grandiosas do corpo1 e as mais capazes1 por isso mesmo1 de reunir no gruppo grandes massas de luz1 e de cr agradavel1 qual he a das carnes4 ,nas mulheres1 todas as partes nuas1 que se podem ver honestamente1 so mui gratas vista2 mas algumas1 como os peitos1 parecem mais bellas no estando de todo descubertas4 ,quando se combino varios gruppos tambem devem ser em numero impar1 ou hum inteiro no meio do quadro1 e duas ametades aos lados4 ,a figura mais nobre esteja sempre no do meio1 e as mais notaveis aproximem-se ao here2 mas este esteja no segundo pavimento1 e no no primeiro1 para ser como o centro no circulo dos espectadores4 ,a tortuosidade na planta do gruppo1 pde ser concava1 ou convexa2 porque de ambas as sortes se pde collocar no meio o objecto principal1 e o mais brilhante4 ,inda que se deva fazer alardo das mais bellas partes1 evitem-se com grande cuidado as rplicas2 porque sem a variedade no ha agrado4 ,quando fr possivel1 meto-se na composio pessoas d'ambos os sexos1 e de todas as idades2 o que produzir huma varidade muito grata nas expresses1 e nas aces4 ,corregio distribuia assaz bem os gruppos2 mas dispunha-os antes para produzirem bellas massas de clar'escuro1 que para exprimir quaesquer affectos4 ,foi admiravel nos escoros1 e he de crer que fazia figurinos de cera para todas as composies dos tctos1 a fim de poder observar bem os contornos1 e o clar'escuro das figuras escoradas2 e este era o forte da sua composio4 ,fugia de deixar ver nos corpos que pintava1 as partes rectas2 e tanto1 que raras vezes fez cabeas que no fossem vistas debaixo1 ou de cima2 e nunca de frente4 ,o mais egrgio ,pintor cujas obras se conhecem1 ,raphael1 foi no s sublime1 mas singular na composio2 e esta he a parte da ,pintura em que foi mais sabio4 ,elle a inventou2 porque nem entre os poucos quadros antigos que pde ver1 nem entre os modernos1 achou perfeito modlo para imitar4 ,a principal cousa que se deve observar em hum quadro he a inveno2 isto he1 a expresso verdadeira de hum assumpto3 e nisto no teve igual4 ,nenhuma das figuras que elle poz em scena poderia servir em assumpto de diversa expresso4 ,o pensativo1 o alegre1 o melancolico1 o colerico1 todos se acho na sua competente situao3 nem a expresso perfeita se acha s em cada figura2 mas todas ellas1 e os episodios1 correspondem perfeitamente paixo da principal personagem4 ,mostrou grandissimo talento na variedade com que soube exprimir huma grande paixo1 fazendo s vezes intervir muitas figuras em hum movimento parcial2 e isto no por acaso1 ou por encher o quadro1 mas pelo pedir assim a fora da expresso4 ,nos seus quadros ha de ordinario muita variedade de cousas1 sem contradies2 paixes violentas1 sem deformidades2 mostrando a expresso algumas vezes1 at no movimento de hum dedo1 e no effeito que fazem as paixes sobre as partes tendinosas1 e aponevroticas4 ,muitas cousas que em outros serio defeitos1 ero nelle grandes bellezas pelo modo com que as accommodava4 ,entre hum quadro de ,raphael1 e o de qualquer outro ,pintor ha a mesma differena1 que haveria entre hum here como ,alexandre1 e hum comediante que o quizesse representar2 e isto1 porque os outros toco algum dos extremos nas attitudes1 e nas expresses2 mas ,raphael dava s suas figuras os proprios movimentos da alma3 para esse fim seguia huma pratica diversa do costume4 ,os ,pintores pem ordinariamente toda a sua atteno nos gruppos1 e na composio de cada figura1 segundo as contraposies1 e as regras da ,arte2 porem elle comeava por figurar na sua mente o total da sua historia1 e todos os objectos que poderio concorrer para a expresso geral1 e depois he que tratava de cada figura em particular1 elegendo os membros que havio de cooperar1 segundo as paixes do animo2 deixando mais ou menos quietos os que nellas no tinho parte3 observando o caracter de cada figura2 porque hum ,apostolo1 ou hum ,filosofo no se ha de mover como hum soldado1 nem huma honesta donzella como huma meretriz4 ,assim he que demonstrava1 tanto as paixes internas que se indico pela testa1 olhos1 nariz1 boca1 dedos2 como as externas que movem o corpo todo2 porque o seu excesso no admitte moderao4 ,nunca fazia as aces completas2 porque1 se hum homem que caminha no tem acabado de formar o passo1 est em movimento1 tem vida1 e sabemos o que faz2 mas se tivesse acabado o passo no saberiamos o que tinha feito nem o que hia fazer4 ,o ,pintor de ,urbino tinha de mais a louvavel facilidade1 e huma certa negligencia apparente1 to difficil de conseguir2 como tambem a arte de occultar com felicidade hum membro1 huma mo1 hum p2 ou para no mostrar partes ociosas1 ou para no affrontar as partes principaes1 ou em fim para evitar o mo effeito que poderio alli fazer4 ,a composio he em geral de duas especies2 a expressiva1 e a de grande effeito3 nesta1 que he mais propria para as grandes maquinas1 como cupulas1 tectos1 etc4 foro excellentes o ,corregio1 o ,lanfranco1 ,pedro de ,cortona1 e ,lucas ,jordo2 ella agrada muito1 e a muitos4 ,em quanto expressiva1 que sem duvida he a mais sabia1 bella1 e difficultosa1 nenhum chegou a ,raphael2 mas o ,domeniquino1 e o ,pusinno approximaro-se muito4 ,se n'huma composio ,raphael fizesse as figuras1 ,pusino o fundo1 e ,domeniquino os rapazes1 seria ento perfeitamente expressiva4 ,bem se v que a parte principal toca a ,raphael1 e que elle por consequencia1 foi na expresso o maior de todos os ,pintores4 ,o ,abbade ,joo ,baptista ,dubs1 nas suas ,reflexes criticas sobre a ,pintura deixa ver em muitos lugares1 que pouco entendia da ,arte2 mas como era sabio1 e tinha lido bons authores1 diz tambem algumas cousas attendiveis4 ,elle observa que ha assumptos excellentes para a ,poesia1 que nem por isso so bons para a ,pintura4 ,a historia ,sagrada1 a ,grega1 e a ,romana fornecem assumptos pittorescos1 e interessantes2 assim como a historia ,franceza ser bem acceita em ,frana1 e a ,portugueza em ,portugal4 ,o sacrificio de ,efigenia no he proprio para figurinhas de huma paizagem4 ,venus1 e as ,graas no se devem fazer colossaes4 ,le ,brun servio-se bem da allegoria mixta quando pintou ,luiz ,,xiv4 em hum carro1 guiado pela ,victoria1 atropelando as ,cidades e os ,rios da fronteira ,hollandeza4 ,a ,hespanha1 querendo suspender-lhe a marcha2 recebe alguns tiros1 e deixa cahir a mascara4 ,a prudencia em taes composies he mui precisa2 porque nada faz dizer tantas tolices como o excessivo desejo de parecer discreto1 e sabio4 ,claudio ,watelet comps hum elegante poema sobre a ,pintura3 ,publicaro outros dois1 o ,abbade de ,marsy1 e o ,panegyrista de ,pedro ,mignard3 todos tres fallaro muito bem na composio2 mas como o que sobre ella discorrero se encontra com o que j temos dito1 ou vamos dizer1 no augmentaremos este volume com inuteis repeties4 ,pelo mesmo motivo omittiremos tambem o que a este proposito dissero ,le ,comte1 e outros muitos4 ,daniel ,webb1 era mais versado nas letras humanas1 que practico nas boas artes3 em ,roma frequentou a casa de ,mengs1 e aproveitou-se dos seus dictames3 apesar disso1 a sua doutrina1 inda que corroborada com sentenas de authores gravissimos1 no carece de sofismas4 ,elle diz que a ,historia pintada tendo muita correlao com o ,poema dramatico podemos alli considerar a scena1 e a poesia4 ,a excellencia da primeira consiste em huma agradavel disposio das figuras que compe a aco4 ,se de noite1 prosegue elle1 levantarmos os olhos aos ,ceos1 a nossa atteno no ser attrahida por algumas estrellas espalhadas c1 e l2 mas recahir logo sobre aquellas que esto gruppadas em constellaes2 e por esse motivo as composies bem gruppadas de ,lanfranco1 e do ,cortona1 agrado muito mais1 que as dispersas do ,domeniquino2 inda que este fosse maior ,pintor que os outros4 ,francisco ,xavier ,lobo1 ,pintor ,lisbonense1 do ultimo seculo1 era amigo de pensar1 e dado leitura e especulao da ,arte3 elle escreveo alguns dialogos criticos sobre a ,pintura pratica1 e especulativa4 ,authorisa-se com ,leonardo de ,vinci para exigir que o ,pintor historico nenhuma cousa ignore do que pertence ,arte2 porque no painel se ha de achar tudo2 figura1 architectura1 paizagens1 fructos1 flores1 etc43 e por isso aqui fallarei1 diz elle1 do que alguns estranharo que eu falle ,quando o ,pintor distribuir as figuras na sua composio deve lembrar-se logo das luzes1 e cres que lhes ha de dar2 dando-lhes attitudes1 e movimentos taes1 que no embaracem o effeito do clar'escuro4 ,he evidente que huma cabea voltada contra a luz no faz o mesmo effeito que voltada para ella4 ,o objecto principal no se ponha da parte da sombra4 ,nas figuras vestidas parea sempre que ha algum r entre a carne e as roupas2 mas nas ,santas ,imagens deve-se usar isto com muita moderao para que no pareo danarinos2 antes inspirem affectos de devoo4 ,tem muitos authores feito os seus paineis seguindo dois pensamentos1 ambos possiveis2 hum de romper com claro por detras de algum corpo escuro que esteja no primeiro pavimento2 isto he1 logo na entrada do painel2 outro de dar a fora da luz nesta mesma entrada1 e hir por degraos abatendo os claros para o fundo3 o primeiro me parece bom2 o segundo melhor2 porque1 no affecta sabedoria de arte4 ,bento ,coelho foi sem duvida hum grande compositor2 e com tudo1 so raros os seus quadros que tenho figuras tenebrosas na entrada1 as quaes muitas vezes parece que furo e recorto o painel4 ,atqui o nosso ,lobo2 mas a passagem parece-me digna de algumas observaes4 ,o escuro1 diz ,mengs1 he melhor que o claro para se pr adiante2 porque1 alm de outras razes muito attendiveis1 por muito claros que se fao os objectos pintados1 sempre parecero fracos1 e pouco brilhantes1 em comparao da luz natural2 e por isso1 os habeis artistas sempre fizero alguma massa escura no primeiro pavimento4 ,estas regras porm1 tem como todas1 bastantes excepes4 ,a regra mais universal que se possa seguir1 he1 segundo me parece1 que no primeiro pavimento ha de a fora da massa ser toda opposta ao tom do fundo do quadro3 se o dito fundo for claro destacar bem1 e parecer visinha a ns huma massa escura2 com tanto que seja moderada1 e suave nos contornos2 mas se o fundo fosse escuro1 hum corpo tambem escuro1 inda que estivesse no primeiro pavimento1 pareceria estar mui longe1 e no faria effeito algum4 ,bento ,coelho1 que fazia os fundos quasi pretos1 punha sempre o branco no primeiro pavimento1 o vermelho ou amarello no segundo1 e assim hia degradando4 ,raphael usou tambem pr os brancos1 e os maiores claros adiante do painel1 ainda mesmo quando os fundos no ero muito escuros2 o que se pde ver na ,transfigurao1 na ,batalha de ,constantino1 na ,escla de ,athenas1 e em quasi todas as suas composies2 mas os ,venezianos1 e muitos ,francezes1 como ,le ,brun1 em algumas batalhas de ,alexandre1 e no ,triunfo de ,jerusalem1 tem posto a diante corpos sombrios2 o que sendo feito em paineis de muitas figuras1 e com sabio artificio1 facilita muito o bello effeito do todo4 ,d4 ,jos ,nicolo de ,azara diz que a ,composio he a arte de bem collocar as partes que compe hum todo4 ,o ,poeta pde representar a sua aco em varios pontos2 mas o ,pintor s pde escolher hum unico ponto em toda a aco1 e nelle ha de representa-la precisamente e quasi concentra-la1 sem tratar do que o precede1 ou do que o segue4 ,este ponto deve ser o mais essencial da historia1 pelo qual se entenda facilmente o resto2 e1 como dizia ,mengs1 a historia ha de se explicar pelo quadro1 e no o quadro pela historia4 ,por expresso entendo a arte de patentear convenientemente os affectos por meio de toda a sorte de sinaes exteriores4 ,a unio da alma com o corpo1 he tal1 que no pde nella haver movimento algum1 que no excite nelle o seu movimento correspondente4 ,devendo pois o ,pintor dar aco s suas figuras1 estas devem exprimir nos seus semblantes1 e em todo o resto dos seus corpos aquellas alteraes1 que so proprias das paixes que lhes suppomos2 rejeitando porm as que prejudicario a graa e a belleza1 ou fazendo-as de hum modo agradavel1 visto que1 entre os extremos de todas1 ha hum grande numero de gradaes mais ou menos violentas4 ,o ,laoconte1 e seus filhos1 exprimem a mais dolorosa situao1 que a humanidade possa soffrer1 sem prejudicar com os seus gestos1 e convulses a belleza das formas3 deixando-se ver no pai1 huma grande alma superior sua desgraa2 e nos filhos1 que sentem iguaes dores1 e pedem soccorro ao pai sem movimentos1 que desfigurem a belleza de seus corpos1 e sem faltar no mesmo tempo fora da expresso4 ,o gruppo da ,niobe he outro exemplo da nobre maneira1 com que os ,gregos exprimio as situaes mais violentas sem alterar a formosura dos seus objectos3 cousa verdadeiramente grande1 e difficil6 ,os ,gregos possuio esta arte com tal magisterio1 que nas suas estatuas1 parece que elles no se occupavo com a expresso2 porque lhes davo sempre hum tal repouso1 que mostro toda a belleza sem alguma alterao2 e com tudo1 cada huma diz o que deve dizer1 pois que hum suave e doce movimento da boca1 dos olhos1 ou smente a aco1 exprime o affecto1 encantando a alma1 e os sentidos4 ,entre os modernos houvero muitos que s tinho por expressivas as figuras espritadas2 fazendo com muito trabalho muito pouco effeito4 ,o celebre ,winckelmann observou que os antigos tinho adoptado duas regras principaes de ,composio1 das quaes nunca se affastavo1 primeira a economia das figuras1 segunda a moderao nas suas attitudes4 ,em quanto primeira1 parece que a regra de ,sophocles de nunca pr na scena mais de tres figuras1 era tambem a regra dos ,pintores4 ,os ,antigos sabio exprimir muito com pouco4 ,theon pintou a lucta de hum s guerreiro contra muitos adversarios1 sem pr no painel mais que o heroe4 ,do baixo-relevo de ,meleagro1 e de varias pinturas d',herculano1 consta que elles sabio bem gruppar quando lhes convinha2 mas no gostavo da confuso3 tambem conhecio o contraste ou contraposio1 como os poetas1 e oradores conhecio a antithesis2 mas fazio-a natural1 como nascida do seu assumpto1 e no como filha de hum grande esforo do genio1 como fazem muitos artistas d'agora1 para os quaes o contraste he tudo1 e desculpa tudo4 ,as ,personagens d'huma composio devem1 em primeiro lugar1 ser discretas1 e tranquillas2 e no ho de ter movimentos violentos1 e convulsivos1 como as do celebre ,la ,fage3 segundo no se ha de nella introduzir cousa alguma que seja inutil1 ou ociosa3 terceiro tudo deve ser diversificado1 sem repetio de movimentos1 attitudes1 etc4 ,aquelle que escrevendo ao seu amigo1 lhe dizia ,eu no tenho tempo para me exprimir mais laconicamente sabia bem1 que o pouco1 e bom1 he mais difficil1 que a grande superabundancia4 ,tiepolo#aj fazia mais em hum dia1 que ,mengs em huma semana2 mas a obra de ,mengs1 inda que menor em quantidade1 valia mais4 ,o ,juizo final de ,miguel ,angelo1 e a ,batalha de ,constantino de ,rafael1 so duas grandes esclas de ,composio4 ,a m distribuio dos objectos conduzio o ,caravagio1 e o ,hespanholeto a huma maneira negra1 e mui desagradavel3 os que se colloco com intelligencia1 como recebem melhor as luzes1 so mais claros e mais distinctos2 porm os mos conhecedores daquelle tempo admiravo aquella maneira negra1 e a preferio dos ,caraches1 e do mesmo ,guido1 s porque ero claras4 ,pedro ,mignard examinando huma das ,sagradas ,familias de ,raphael1 da colleco ,real de ,frana1 observou que sendo a grandeza da expresso a cousa mais admiravel daquelle ,artista1 e a que lhe dra o titulo de ,divino1 comearia por louvar a grande modestia1 e respeito que se admira no rosto1 e gesto de ,nossa ,senhora2 o amor desta ,santissima ,mi para seu filho1 e a ternura do ,filho para sua ,mi2 a venerao de ,santa ,isabel1 e a profunda humildade de ,s4 ,joo2 o repouso de ,s4 ,jos1 e o gosto acompanhado de admirao to bem exprimido nos semblantes dos dois ,anjos4 ,elle disse que naquelle quadro se via bem a elevao do espirito1 e o grande juizo do ,author1 considerando de que maneira elle se conduzira naquelle trabalho1 e a escolha que fizera de quanto ha mais bello para ornar com decro as suas ,figuras4 ,em quanto ,disposio1 elle as collocou1 segundo as suas dignidades4 ,poz o ,menino ,jesus no primeiro lugar1 e ,nossa ,senhora no segundo3 inda que todas as figuras estejo attentas a hum s objecto1 e occupadas em contemplar o ,deos ,menino1 no ha huma s1 cujo rosto no seja visto vantajosamente1 e de que as partes todas no estejo dispostas de huma maneira a mais agradavel4 ,mignard fez tambem ver que pelo meio das luzes1 e sombras1 no smente do a fora1 ou debilidade conveniente a todos os corpos2 mas fez que a luz parecesse mais viva sobre as figuras principaes1 tendo-a espalhado mais fortemente sobre o ,corpo do ,menino1 e depois pelas outras1 com tal discrio1 que no recebem seno a que lhes he necessaria para fazer todo o effeito que o assumpto requer4 ,para illuminar superiormente o ,menino evitou ,raphael todos os incidentes que pudessem interromper os raios da luz1 e fazer-lhe alguma sombra1 a fim de no haver a menor obscuridade naquelle1 que he a fonte de toda a luz4 ,temos allegado bastantes authoridades1 e trazido memoria hum numero de regras1 e preceitos sobre a ,composio1 que parece sufficiente para encaminhar as ,senhoras applicadas3 resta-nos smente dizer alguma cousa do que ensina ,d4 ,antonio ,palomino4 ,o officio de ,polymnia1 diz elle1 he manifestar os conceitos que concebe o entendimento2 o que o ,pintor pde fazer1 dando s figuras pintadas to viva expresso de paixes e affectos1 que parea que esto fallando4 ,a composio1 seja de huma ou muitas figuras1 deve ser honesta2 mas a nudeza pde ser honesta1 e mesmo edificante1 como he em ,jesus ,christo1 em ,susana1 nas ,santas martyres1 nas ,almas do ,purgatorio1 e em muitas outras pinturas4 ,o ,padre ,siguenza1 na ,historia da ,ordem de ,s4 ,jeronymo1 reprova muito o zelo indiscreto dos que mandro cobrir huma perna na de ,santa ,margarida em hum quadro do ,ticiano1 que estava no ,escurial2 cousa1 a que outro author chamou sciochissima correzione4 ,a pintura de corpos ns he indifferente em grande numero de fabulas1 ao mesmo tempo que em figuras vestidas encontro-se s vezes actos provocativos2 e estas imagens so obscenas sem serem nas4 ,palomino ensina tambem outros dois modos mais faceis de inventar3 ao primeiro chama elle fazer por estampa2 porque consiste em pintar o painel todo por huma s estampa1 ou desenho alheio1 pondo o colorido da sua inveno3 ao segundo chamo os ,pintores furtar2 porque he furtado de muitas estampas4 ,o talento de bem furtar he pouco inferior ao da total inveno2#aa porque alm de ser original a composio e colorido1 he preciso grande magisterio para arranjar os objectos furtados debaixo de huma s e mesma luz1 e de hum s ponto de vista1 e de distancia1 de sorte que parea que tudo foi feito para aquelle lugar2#ab e he muito melhor copiar bem1 ou compr por estampas1 que fazer mal de pura ida4 ,mas quem puder consultar o natural1 e o souber imitar bem1 esse ser mais applaudido4 ,tambem se pde seguir a composio de hum quadro1 ou estampa1 em quanto s massas de luz e de sombra1 mudando todas1 ou algumas figuras2 estudando-as porm do natural1 e no fazer de pura pratica2 porque conduz ao maneirado4 ,temos reduzido a poucas paginas quanto se acha de maior interesse em muitos volumes sobre a ,composio1 relativa ao grande ,genero2 e se este trabalho for bem acceito1 proseguiremos com gosto o resto da obra1 que ser igualmente resumido e interessante4 ,no fim daremos tambem hum catalogo das insignes ,pintoras ,portuguezas1 e ,estrangeiras4 ,,fim4 99,notas399 #a ,brouwer foi hum grande ,pintor ,hollandez de ,bambochatas2 mas foi tambem hum grande bebedo4 ,de ,piles vie des ,peintres1 ,moreri1 ,houbraken1 etc4 #b ,homem facinoroso1 que esteve preso na ,torre de ,civitavechia2 e sendo perdoado pela sua pericia na ,arte1 em gratificao pintou alli algumas casas1 que os curiosos vo admirar4 ,falla nelle ,vieira no ,canto #g4o pag4 #bea4 #c ,pintor facto1 que se ridicularisava em pblico com as suas macaquices4 ,veja-se a sua vida em ,vasari1 ,de ,piles1 no ,bocacio1 etc4 #d ,o primeiro fez o famoso ,crucifixo que se affirma fallra a ,santa ,brigida3 o segundo era religioso de ,s4 ,domingos1 muito estimado do ,papa ,nicolo ,v4 a quem recusou o ,arcebispado de ,florena3 ambos vivero e morrero em cheiro de ,santidade4 #e ,massolino1 he o mesmo que ,thomazinho4 #f ,alli j havia huma ,igreja dedicada a ,santa ,martinha1 que ,xisto ,v4 em #aehh deo ,academia dos ,pintores1 a qual a reedificou com grande magnificencia1 e a dedicou a ,s4 ,lucas1 no tempo de ,urbano ,,viii4 #g ,cimabue1 ,florentino1 he considerado como o pai da ,pintura moderna1 por ter sido o primeiro que deu alguma sombra de regularidade s figuras pintadas4 ,morreo em #abid tendo #ha annos de idade4 #h ,por ,antigo entendem os ,artistas as mais bellas esculpturas1 que nos resto dos antigos ,gregos1 e ,romanos2 taes como a ,venus de ,medicis1 o ,apollo1 o ,laoconte1 o ,gladiador1 etc4 #i ,todas as regras geraes tem varias excepes4 #aj ,joo ,baptista ,tiepolo1 grande ,pintor a fresco1 ,veneziano1 concorreo com ,mengs1 e ,corado na pintura dos tectos do ,palacio ,real de ,madrid4 ,a sua composio1 e colorido encantavo2 mas na correco do desenho era muito inferior a ,mengs4 #aa ,era o talento de ,andr ,gonalves1 de ,ignacio de ,oliveira1 do ,rocha1 do ,bruno1 de ,negreiros1 de ,roque ,vicente1 do ,padro1 e de quasi todos os nossos bons ,pintores2 porque entre ns he mui difficultoso poder-se o ,artista servir do natural2 nem o ,pblico o exige4 #ab ,depois que se inventro as estampas1 alguns artistas1 mesmo da primeira ordem1 se serviro s vezes dellas4 ,miguel ,angelo gostou tanto d'huma inveno de ,heemskerk1 que a pintou4 ,andr del ,sarto servio-se das de ,alberto ,durer4 ,muitos habeis ,pintores do tempo do ,parmaso pintavo pelas suas estampas3 esta pintura agrada a muitos1 porque he mais barata2 mas toda a nao que se contentar com ella1 nunca far grandes progressos na perfeio da ,arte3 ter brilhantes crystaes2 mas no ter diamantes4 ,lista de erros corrigidos ,aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos3 ---------------------------------------- ------------- ,original ,correco ---------------------------------------- ------------- pg4 #ai ,rephael ,raphael pg4 #cb ,le ,brnn ,le ,brun pg4 #ci muito muita pg4 #ej ,quintiliauo ,quintiliano pg4 #ed afficta aflicta pg4 #ee pou a pouca pg4 #ef elless e elles se pg4 #fi avariedade a variedade ---------------------------------------- ------------- ,foram adicionadas aspas onde foram necessrias 7ex3 quando se iniciavam e no terminavam e vice-versa74